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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Highlighting contexts, imaginaries and tensions that characterize the Indian Ocean region, this essay addresses the representations of the Indian within the Mozambican literature and, more precisely, in the literary work of João Paulo Borges Coelho. Analysing the character of Valgy, the mad Indian [monhé] merchant of the novel Crónica da Rua 513.2 (Coelho, 2006), the aim is to emphasize the different faces and phases of the other, and the character’s multiple markers of otherness. The discussion of this character and its affective geography - which sometimes overlaps with national history and at times with the myth of history - will prove that Valgy re-establishes the ambiguous margin between the coordinates of the space / time existence, releasing the poetic virtual sense of the Indian Ocean, and thus sketching the specific complexity of history in a common geography.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>&Iacute;ndico e(m) Mo&ccedil;ambique: notas sobre o outro</b></p>      <p><b>Indian and (in) Mozambique: notes on the other</b></p>      <p><b>Nazir Ahmed Can*</b></p>      <p>Pesquisador de P&oacute;s-Doutoramento, Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas (FFLCH) da Universidade de S&atilde;o Paulo, Brasil. Doutorou-se em Teoria da Literatura e Literatura Comparada (Universitat Aut&ograve;noma de Barcelona) com uma tese sobre o escritor Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho, que teve orienta&ccedil;&atilde;o da Prof&ordf;. Mar Garcia. &Eacute; membro de LITPOST (Literatures i altres arts postcolonials&nbsp;i&nbsp;emergents), grupo de investiga&ccedil;&atilde;o dirigido pela Prof&ordf;. Mar Garcia.</p>      <p><a href="mailto:nazircann@gmail.com">nazircann@gmail.com</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>RESUMO</b> </p>     <p>     <p>Salientando contextos, imagin&aacute;rios e tens&otilde;es que configuram a regi&atilde;o do Oceano &Iacute;ndico, este ensaio pretende focar as representa&ccedil;&otilde;es do <i>indiano </i>na literatura mo&ccedil;ambicana e mais especificamentena prosa de Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho. Atrav&eacute;s da an&aacute;lise da personagem Valgy, o <i>louco comerciante monh&eacute;</i> do romance <i>Cr&oacute;nica da Rua 513.2</i> (Coelho, 2006), procurar-se-&aacute; evidenciar os diversos regimes de alteridade vivenciados por esta personagem. A partir desta personagem e da sua geografia afetiva – que parece confundir-se ora com a hist&oacute;ria nacionalora com o mito da hist&oacute;ria – observaremos como Valgy revaloriza a fronteira amb&iacute;gua das coordenadas de exist&ecirc;ncia espa&ccedil;o / tempo, resgatando a virtualidade po&eacute;tica do Oceano &Iacute;ndico, e sinalizando, numa geografia comum, a particular complexidade da hist&oacute;ria.</p> </p>     <p><b>Palavras chave</b>: Literatura Mo&ccedil;ambicana; Indiano; Outro/Alteridade; Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho; Oceano &Iacute;ndico.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p> <b>ABSTRACT</b> </p>     <p>     <p>Highlighting contexts, imaginaries and tensions that characterize the Indian Ocean region, this essay addresses the representations of the Indian within the Mozambican literature and, more precisely, in the literary work of Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho. Analysing the character of Valgy, the mad Indian [monh&eacute;] merchant of the novel Cr&oacute;nica da Rua 513.2 (Coelho, 2006), the aim is to emphasize the different faces and phases of the other, and the character’s multiple markers of otherness. The discussion of this character and its affective geography – which sometimes overlaps with national history and at times with the myth of history – will prove that Valgy re-establishes the ambiguous margin between the coordinates of the space / time existence, releasing the poetic virtual sense of the Indian Ocean, and thus sketching the specific complexity of history in a common geography.</p>   </p>     <p><b>Keywords</b>: Mozambican Literature; Indian; Otherness / Alterity; Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho; Indian Ocean.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="center">*</p>      <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o. O &Iacute;ndico entre pontes e <i>costas </i>voltadas<sup><a href="#1" name="top1">[1]</a></sup></b></p>      <p>Imagin&aacute;rios cruzados e reformulados, oriundos de uma hist&oacute;ria milenar de contactos comerciais e culturais, fazem do &Iacute;ndico uma regi&atilde;o de originais conflu&ecirc;ncias. Mas tamb&eacute;m um laborat&oacute;rio de viol&ecirc;ncias, quer pela resist&ecirc;ncia &agrave; hibridez, quer pela depend&ecirc;ncia (pol&iacute;tica e / ou financeira) face a na&ccedil;&otilde;es ou organismos extrarregionais.<sup><a href="#2" name="top2">[2]</a></sup> Isto &eacute;, se o contacto civilizacional existe no &Iacute;ndico desde tempos long&iacute;nquos, o mesmo tem sido acompanhado, a um n&iacute;vel local, pela segrega&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria e, a um n&iacute;vel regional, pela dist&acirc;ncia simb&oacute;lica entre os territ&oacute;rios, efeitos nocivos de uma coloniza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o t&atilde;o distante no tempo. A literatura contempor&acirc;nea ilustra estes dois movimentos simult&acirc;neos e aparentemente contradit&oacute;rios. </p>      <p>Os sistemas liter&aacute;rios dos pa&iacute;ses da regi&atilde;o possuem atualmente algumas semelhan&ccedil;as, cujo aprofundamento n&atilde;o caberia neste espa&ccedil;o, mas que passam sobretudo pelas tem&aacute;ticas postas em cena, pela predomin&acirc;ncia – ainda que em diferentes dosagens – das l&iacute;nguas eur&oacute;fonas<sup><a href="#3" name="top3">[3]</a></sup>, pelas tens&otilde;es identit&aacute;rias e comunit&aacute;rias existentes e pela dualidade cultural de grande parte de seus autores.<sup><a href="#4" name="top4">[4]</a></sup> Al&eacute;m disso, estes sistemas caracterizam-se pela fragilidade institucional e, consequentemente, pela depend&ecirc;ncia face aos &oacute;rg&atilde;os de legitima&ccedil;&atilde;o internacional. De fato, este cen&aacute;rio de atrelamento institucional continua a pautar a agenda das produ&ccedil;&otilde;es nacionais do Oceano &Iacute;ndico<sup><a href="#5" name="top5">[5]</a></sup> e a dificultar um contacto regional mais produtivo. De costas voltadas entre si, sobretudo quando as l&iacute;nguas de produ&ccedil;&atilde;o n&atilde;o coincidem, os sistemas liter&aacute;rios em quest&atilde;o mant&ecirc;m uma liga&ccedil;&atilde;o muito maior com as antigas metr&oacute;poles colonizadoras (Fran&ccedil;a, Inglaterra, Portugal),<sup><a href="#6" name="top6">[6]</a></sup> fato que, indo de m&atilde;os dadas com depend&ecirc;ncias de &iacute;ndole pol&iacute;tica (as ilhas de Reuni&atilde;o e Mayotte s&atilde;o ainda hoje departamentos franceses) ou de natureza econ&ocirc;mica e financeira (com o FMI impondo tamb&eacute;m sua batuta opressora), sem obviar quest&otilde;es de responsabilidade local (como as escassas e prec&aacute;rias pol&iacute;ticas culturais), pode facilmente ser comprovado pelas edi&ccedil;&otilde;es dos livros (pensadas majoritariamente para o mercado europeu), pela inexistente circula&ccedil;&atilde;o dos mesmos nos territ&oacute;rios vizinhos e ainda pela pr&oacute;pria dificuldade pr&aacute;tica em transitar de um espa&ccedil;o a outro.<sup><a href="#7" name="top7">[7]</a></sup> Um dos resultados mais evidentes deste quadro &eacute; a reduzida representa&ccedil;&atilde;o, nas literaturas nacionais, das realidades sociais e hist&oacute;ricas dos restantes pa&iacute;ses ou departamentos que formam parte da regi&atilde;o. Pode-se mesmo afirmar, com certa margem de seguran&ccedil;a, que as produ&ccedil;&otilde;es do Oceano &Iacute;ndico padecem de um sintoma comum, uma esp&eacute;cie de insularidade ensimesmada, pois representam, salvo raras exce&ccedil;&otilde;es, apenas os pr&oacute;prios espa&ccedil;os internos. Quando a exce&ccedil;&atilde;o aflora, isto &eacute;, quando outros lugares e imagin&aacute;rios s&atilde;o convocados e explorados pelos autores, ela se dirige normalmente a realidades que sobrepassam as fronteiras da regi&atilde;o.<sup><a href="#8" name="top8">[8]</a></sup> </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No que concerne &agrave;s literaturas de l&iacute;ngua portuguesa, a ideia de &Iacute;ndico tem sido associada nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas fundamentalmente ao universo cultural e simb&oacute;lico da Ilha de Mo&ccedil;ambique. <i>Topos</i> por excel&ecirc;ncia de uma aut&ecirc;ntica “encruzilhada transnacional” (Noa, 2012), a Ilha alavancou uma parte significativa da produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica mo&ccedil;ambicana, tanto das duas gera&ccedil;&otilde;es de autores que se consagraram como “os poetas da Ilha” (Rui Knoply e Verg&iacute;lio de Lemos, numa primeira fase, Lu&iacute;s Carlos Patraquim, Eduardo White e J&uacute;lio Carrilho, a seguir)<sup><a href="#9" name="top9">[9]</a></sup> como ainda de alguns autores que, nas d&eacute;cadas seguintes, herdaram tal “ferramenta” de express&atilde;o (N&eacute;lson Sa&uacute;te, Adelino Tim&oacute;teo, Guita Jr., Sangare Okapi, etc.). Este espa&ccedil;o geo-po&eacute;tico, onde nasceu Campos de Oliveira (1847-1911), poeta mo&ccedil;ambicano de origem goesa, constitui uma esp&eacute;cie de objeto de desejo e motor de escrita n&atilde;o s&oacute; para os artistas que por l&aacute; passaram literalmente (escassos) como tamb&eacute;m por aqueles que apenas a viveram literariamente (a grande maioria). Apesar de diferenciados entre si, os projetos est&eacute;ticos que focalizaram a Ilha possuem um elo de liga&ccedil;&atilde;o: procurando ordenar as categorias “na&ccedil;&atilde;o”, “imagin&aacute;rio cultural”, “mulher” e “palavra” em uma &uacute;nica e performativa dimens&atilde;o, raramente refletiram sobre o <i>outro</i> &iacute;ndico. Isto &eacute;, n&atilde;o somente o er&oacute;tico e paisag&iacute;stico &Iacute;ndico – motor de lirismo e de uma concep&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica da palavra escrita – ou o <i>&iacute;ndico-na&ccedil;&atilde;o </i>– que orienta a reflex&atilde;o para os caminhos hist&oacute;ricos, culturais e identit&aacute;rios do Mo&ccedil;ambique independente –, mas esse <i>outro </i>que se coloca no lado de l&aacute; das fronteiras l&iacute;quidas do pa&iacute;s. Apesar de ter pensado e inventado de maneira altamente original os rastros de cruzamentos inigual&aacute;veis que se materializam na Ilha de Mo&ccedil;ambique, a poesia mo&ccedil;ambicana nunca ousou a travessia e o desbravamento de paisagens (hist&oacute;ricas, culturais, sociais) vizinhas. A “relativamente escassa presen&ccedil;a do tema do mar na literatura mo&ccedil;ambicana” (Noa, 2012: 7) de que fala Francisco Noa, em recente artigo, confirma esta din&acirc;mica simult&acirc;nea de proximidade e dist&acirc;ncia. Sem embargo, conv&eacute;m recordar, seguindo ainda o estudioso mo&ccedil;ambicano, que n&atilde;o se vislumbra “em nenhum desses poetas o fechamento existencial e cultural a que se convencionou designar de ‘complexo do ilh&eacute;u’” (Noa, 2012: 9). Antes pelo contr&aacute;rio. A incorpora&ccedil;&atilde;o do &Iacute;ndico, como eixo tem&aacute;tico, extravasa a ilha em si, anunciando um cosmopolitismo e uma modernidade dos quais esses poetas foram os portadores primeiros. No entanto, insistimos, trata-se de um <i>extravasar para dentro </i>do pr&oacute;prio territ&oacute;rio e n&atilde;o tanto para o <i>outro lado</i> do oceano. Fato que, por um lado, se entende, pois em causa estava, e ainda est&aacute;, uma reflex&atilde;o profunda sobre a na&ccedil;&atilde;o que se ergue, sobre as escolhas identit&aacute;rias e culturais que se desejam, sobre as transforma&ccedil;&otilde;es que se imp&otilde;em. Assim, na rela&ccedil;&atilde;o com a Ilha, que, no dizer de Rita Chaves constitui “meton&iacute;mia de uma hist&oacute;ria maior”, projetaram-se sobretudo “as conturbadas rela&ccedil;&otilde;es com Mo&ccedil;ambique, o pa&iacute;s em composi&ccedil;&atilde;o, a na&ccedil;&atilde;o em montagem, esse ch&atilde;o convulso onde, em movimento, se articulam desejos e tens&otilde;es” (Chaves, 2002). O mesmo ocorreu, parece-nos, no tal <i>outro lado</i>, que, grosso modo, tende a situar Mo&ccedil;ambique n&atilde;o tanto como um dos polos centrais da ideia de transnacionalidade &iacute;ndica, mas apenas como uma porta de entrada para a &Aacute;frica Negra; ou ent&atilde;o como um resqu&iacute;cio (muitas vezes n&atilde;o desejado) do passado escravagista. Este cen&aacute;rio de espelhos sem reflexos deve-se, em grande medida, pelas tais condi&ccedil;&otilde;es materiais e simb&oacute;licas desvantajosas, que impedem uma real e rec&iacute;proca imers&atilde;o nesses territ&oacute;rios. Da&iacute; que a realidade de outros espa&ccedil;os banhados pelo Oceano &Iacute;ndico acabe por ser incorporada apenas parcialmente, atrav&eacute;s da representa&ccedil;&atilde;o de personagens que, sendo nacionais e simultaneamente diasp&oacute;ricas, fazem ecoar o tal <i>outro lado. </i>Importa, neste sentido, salientar o vi&eacute;s “fantasm&aacute;tico” de algumas designa&ccedil;&otilde;es ao <i>outro </i>&iacute;ndico, vis&iacute;veis em express&otilde;es que s&atilde;o j&aacute; lugares-comuns nas respectivas sociedades. A t&iacute;tulo de exemplo, se em Craveirinha, que resgata um termo utilizado em Mo&ccedil;ambique, os “comorianos” s&atilde;o os mu&ccedil;ulmanos do norte de Mo&ccedil;ambique, em Jean-Fran&ccedil;ois Samlong, romancista da Reuni&atilde;o que recupera uma terminologia habitual na ilha, “mo&ccedil;ambicano” designa o “negro vindo da &Aacute;frica”, como ilustra <i>Une guillotine dans un train de nuit</i> (Gallimard, 2012). Neste romance hist&oacute;rico, Sitarane, “le mozambicain” ou o “N&egrave;gre africain” (Samlong, 2012: 192), o assassino em s&eacute;rie que entre 1909 e 1910 semeou o caos e que, hoje, paradoxalmente, &eacute; uma esp&eacute;cie de her&oacute;i e objeto de culto em grande parte da ilha,<sup><a href="#10" name="top10">[10]</a></sup> desempenha um papel de protagonismo na narrativa, embora sua real origem se mantenha no campo das interroga&ccedil;&otilde;es. Tudo isso, claro, sem contar a pan&oacute;plia de termos existentes para designar as comunidades de origem indiana na regi&atilde;o.<sup><a href="#11" name="top11">[11]</a></sup> De resto, algumas das tens&otilde;es comunit&aacute;rias no &Iacute;ndico tornam-se expl&iacute;citas no tom pejorativo com que alguns autores costumam representar determinadas comunidades. Como exemplo, podemos mencionar a dificuldade em se representar o mulato em Maur&iacute;cio e o indiano em Mo&ccedil;ambique.<sup><a href="#12" name="top12">[12]</a></sup> Ou, em sentido contr&aacute;rio, por vezes did&aacute;tico, podemos pensar na tentativa de resgat&aacute;-los da invisibilidade em ambos os pa&iacute;ses.<sup><a href="#13" name="top13">[13]</a></sup> </p>      <p>A prop&oacute;sito da presen&ccedil;a indiana na prosa mo&ccedil;ambicana, pudemos observar, em outro espa&ccedil;o, como a inscri&ccedil;&atilde;o tipificada do <i>monh&eacute; da loja </i>&eacute; de ordem estrat&eacute;gica e assume variados contornos, estando subordinada a um ensejo de diferencia&ccedil;&atilde;o dos autores no campo liter&aacute;rio do pa&iacute;s. Notamos como o estereotipo, enquanto defini&ccedil;&atilde;o por redu&ccedil;&atilde;o, reapropria&ccedil;&atilde;o do <i>outro </i>e alicerce da pr&oacute;pria linguagem, para al&eacute;m de fazer conectar a literatura colonial &agrave; p&oacute;s-colonial em alguns momentos, rompendo a r&aacute;pida separa&ccedil;&atilde;o de &aacute;guas promovida por parte da cr&iacute;tica, pauta as representa&ccedil;&otilde;es sobre o <i>indiano</i> em Mo&ccedil;ambique – que acaba por ser modulado em fun&ccedil;&atilde;o do projeto est&eacute;tico e ideol&oacute;gico de cada escritor. E, nesta &oacute;rbita, o <i>monh&eacute; </i>passa de “traficante a traficado”. Assim, ap&oacute;s analisarmos a representa&ccedil;&atilde;o do <i>indiano </i>nos textos de N&eacute;lson Sa&uacute;te, Lilia Mompl&eacute;, Suleiman Cassamo, Mia Couto, Paulina Chiziane e Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho [a partir de agora, JPBC], conclu&iacute;mos que este &uacute;ltimo autor cria um novo lugar no campo liter&aacute;rio do pa&iacute;s. N&atilde;o s&oacute; por inserir abertamente o <i>doxa </i>para anunciar o paradoxo, mas tamb&eacute;m por privilegiar o fict&iacute;cio, recusando-se a uma exposi&ccedil;&atilde;o fatual da Hist&oacute;ria, por introduzir personagens de origem indiana pouco domestic&aacute;veis e por conferir relev&acirc;ncia ao <i>n&atilde;o-dito</i>, visto que, sendo tamb&eacute;m historiador, conhece sobremaneira o “j&aacute; dito” (Can, 2012). De fato, dos nove livros publicados at&eacute; a data, cinco deles incluem personagens de origem indiana, algo revelador da import&acirc;ncia que JPBC outorga a esta hist&oacute;rica presen&ccedil;a em Mo&ccedil;ambique.<sup><a href="#14" name="top14">[14]</a></sup> Al&eacute;m disso, na constru&ccedil;&atilde;o destas personagens notamos um ensejo de experimenta&ccedil;&atilde;o: todas elas s&atilde;o representadas de maneira extremamente diversificada no que se refere &agrave;s caracter&iacute;sticas, &agrave; import&acirc;ncia que assumem nos universos ficcionais, ao enfoque narrativo adotado, &agrave; variabilidade de pontos de vista representados e, finalmente, aos espa&ccedil;os e tempos hist&oacute;ricos aludidos. </p>      <p>Assim, dando continuidade &agrave; reflex&atilde;o iniciada em referido artigo, focaremos nossa aten&ccedil;&atilde;o na representa&ccedil;&atilde;o do <i>indiano</i> na prosa JPBC, atentando, desta feita, para as v&aacute;rias fases e faces do<i> outro</i>. Ou, mais concretamente, para os diversos regimes de alteridade vivenciados por uma &uacute;nica personagem, Valgy, o <i>louco comerciante monh&eacute;</i> de <i>Cr&oacute;nica da Rua 513.2</i> (Coelho, 2006). Observaremos como este ser simultaneamente de <i>c&aacute; </i>e de <i>l&aacute;</i>, pode, em alguns momentos, equiparar-se &agrave; restante sociedade do romance – filtrando sua alteridade pela invers&atilde;o estrat&eacute;gica – e, em outros, mostrar sua faceta mais demarcada, mais diferencial – quando entra num decl&iacute;nio comunicacional absoluto com a clientela de sua loja. De permeio, analisaremos alguns dos <i>n&atilde;o-ditos </i>de sua constitui&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, os espa&ccedil;os brancos que nem o pr&oacute;prio narrador consegue (ou pretende) preencher. Veremos ainda como, no tratamento desta obscura personagem e de sua geografia afetiva (que, cruzando v&aacute;rios territ&oacute;rios que orbitam o &Iacute;ndico, se confunde ora com a hist&oacute;ria nacionalora com o mito da hist&oacute;ria), aciona-se o intertexto cl&aacute;ssico, nomeadamente da Gr&eacute;cia Antiga. </p>      <p><b>1. Alteridade em primeiro grau. Ou a cereja do bolo coletivo</b></p>      <p>Por ser de origem indiana, “este <i>outro </i>que &eacute;, concomitantemente, parte integrante do processo de forma&ccedil;&atilde;o colonial” (Thomaz, 2004: 272), e por atuar de maneira ambivalente mesmo com a chegada da independ&ecirc;ncia mo&ccedil;ambicana, momento em que a ideia de “bem comum” ganha finalmente contornos de possibilidade, Valgy &eacute; um ser deslocado no tempo e no espa&ccedil;o. De fato, como afirma Omar Thomaz, o estereotipo que recai sobre o <i>indiano</i> no per&iacute;odo p&oacute;s-colonial tem origem no per&iacute;odo colonial e nas suspeitas v&aacute;rias de que este &eacute; alvo. Ao contr&aacute;rio da maioria dos indiv&iacute;duos portugueses ou de origem portuguesa, ou da quase totalidade das comunidades grega e chinesa que abandonaram o pa&iacute;s, os <i>indianos</i>, ou muitos deles, ficaram em Mo&ccedil;ambique, embora seja question&aacute;vel se <i>ficaram </i>mo&ccedil;ambicanos. Isto porque s&atilde;o conotados com pr&aacute;ticas desnacionalizadoras, com a fuga ao fisco, com acumula&ccedil;&atilde;o de bens em per&iacute;odo de crise, etc. (Thomaz, 2004: 274). Uma das novidades trazida por Valgy – no que se refere aos mecanismos de representa&ccedil;&atilde;o do <i>indiano </i>na prosa mo&ccedil;ambicana – tem a ver com o fato de a personagem atuar de maneira estrat&eacute;gica e diversificada, utilizando o capital simb&oacute;lico de sua origem para provocar, na sociedade ficcional, sentimentos que v&atilde;o da indiferen&ccedil;a ao compadecimento. Mas raramente de revolta. N&atilde;o sendo nem mo&ccedil;ambicano nem portugu&ecirc;s, nem branco nem preto, nem revolucion&aacute;rio nem reacion&aacute;rio (pelo menos em <i>full-time</i>), vivendo, al&eacute;m disso, na casa n&uacute;mero 3, Valgy personifica a derrocada do bin&ocirc;mio totalizador e chama para si a an&aacute;lise da contradi&ccedil;&atilde;o existente em qualquer espa&ccedil;o social em constru&ccedil;&atilde;o, transit&oacute;rio e convulso. Este fato pode ser observado, por exemplo, nos momentos em que os moradores da rua deixam os seus afazeres privados e se re&uacute;nem em prol das novas premissas da na&ccedil;&atilde;o. O <i>monh&eacute;</i> &eacute;, de certa maneira, o emblema do imprevisto, a mancha n&atilde;o contemplada dos novos tempos: </p>      <blockquote>E, finalmente, o <i>a xiphunta </i>Valgy, equipado a rigor como se tudo aquilo fosse um desporto: sapatos e meias brancas, cal&ccedil;as tufadas, camisa alv&iacute;ssima com estranhos emblemas ao peito, muito diferentes dos nossos (‘Oxford University’, esclarece ele a quem pergunta, e n&oacute;s sem saber que lugar long&iacute;nquo ser&aacute; esse), e at&eacute; um vistoso bon&eacute;, branco tamb&eacute;m, com uma grande pala para lhe proteger os olhos do sol. Uma mancha de brancura brilhando no nosso seio – sujos e cansados que estamos – como brilha um sol. Mais preocupado com vincos e n&oacute;doas que com a parte do buraco que lhe compete aprofundar, Valgy pega na enxada com a eleg&acirc;ncia com que empenharia o bast&atilde;o desse desporto para n&oacute;s desconhecido. E ah!, deitasse o inimigo agora a bomba e Valgy a devolveria com uma magistral tacada do seu improvisado bast&atilde;o, com o merecido aplauso da rua inteira. <i>Home Run</i>! (Coelho, 2006: 103)</blockquote>      <p>Valgy exclui-se desta interlocu&ccedil;&atilde;o, como demonstra o esc&aacute;rnio de um narrador provisoriamente coletivo. Identificado na contram&atilde;o da primeira pessoa do plural (“n&oacute;s”) e do pronome possessivo correspondente, postos na fronteira do discurso narrativizado e do estilo indireto livre, Valgy &eacute; o espelho mais eloquente do fiasco no primeiro dia de trabalhos. De fato, estes elementos gramaticais s&atilde;o carregados de significado na medida em que determinam, em primeiro lugar, o espa&ccedil;o referencial que envolve o locutor, e enfatiza a dist&acirc;ncia existente entre quem olha e quem &eacute; observado<i>.</i> Al&eacute;m da oposi&ccedil;&atilde;o gramatical entre as pessoas do di&aacute;logo, outros marcadores acentuam a diferen&ccedil;a produzida pelo <i>monh&eacute;</i> no ambiente da rua. A roupa branca e tufada, descrita dos p&eacute;s &agrave; cabe&ccedil;a, a preocupa&ccedil;&atilde;o em n&atilde;o suj&aacute;-la, o orgulho nos s&iacute;mbolos de Oxford que alberga no peito, a compara&ccedil;&atilde;o com o brilho do sol (que cega o coletivo) e a imagem de Valgy jogando um esporte estrangeiro (<i>cricket</i>) com a enxada instauram n&atilde;o s&oacute; a derris&atilde;o como tamb&eacute;m o embate irredut&iacute;vel entre a personagem e as premissas p&uacute;blicas da nova &eacute;poca (entre as quais a do Homem Novo, voltado para os interesses do coletivo nacional). Por outro lado, a introdu&ccedil;&atilde;o de par&ecirc;nteses, em vez de bifurcar a frase, intensifica a ridiculariza&ccedil;&atilde;o do <i>monh&eacute;</i>. Assim, a refer&ecirc;ncia ir&ocirc;nica &agrave;quilo que para todos &eacute; inc&oacute;gnito (“e n&oacute;s sem saber que lugar long&iacute;nquo &eacute; este”; “desse desporto para n&oacute;s desconhecido”) e a compara&ccedil;&atilde;o hipot&eacute;tica (“como se”) criam um efeito progressivo de estranheza e de humor &agrave; volta de Valgy, separando-o simultaneamente do (ent&atilde;o j&aacute; desagregado) coletivo. </p>      <p>O adv&eacute;rbio “finalmente” indica, por outro lado, que a refer&ecirc;ncia ao <i>monh&eacute; </i>&eacute; a derradeira de uma longa lista. De resto, Valgy j&aacute; havia sido o &uacute;ltimo morador a ser anunciado noutros cap&iacute;tulos que relatam desencontros entre os moradores e o ideal revolucion&aacute;rio: no “Pr&oacute;logo”, no momento em que uma voz coletiva hesita perante o misterioso n&uacute;mero fixado numa placa em frente &agrave; casa do comerciante(<i>Idem, </i>22); num dos cap&iacute;tulos centrais, intitulado “O com&iacute;cio”, em que Nikolai Viktorovich debanda sem sequer acenar “ao louco Valgy, perdido do velho mundo e com um dif&iacute;cil lugar no novo” (<i>Idem,</i> 166); e no “Ep&iacute;logo”, que culmina com uma refer&ecirc;ncia ao lago que se forma &agrave; porta do comerciante: “Orgulhosa ilha solit&aacute;ria” (<i>Idem,</i> 332). A ordem de apresenta&ccedil;&atilde;o das personagens viabiliza uma leitura sobre a hierarquia de for&ccedil;as que se estabelece na sociedade do romance e sobre a mensagem que o mesmo procura formalizar. E neste sentido, ao irromper sempre como o &uacute;ltimo elemento nos momentos “coletivos” da rua, Valgy representa n&atilde;o s&oacute; um ser em perda como ainda a lembran&ccedil;a viva do choque entre o indiv&iacute;duo e a ideologia em pleno per&iacute;odo de euforia revolucion&aacute;ria.<sup><a href="#15" name="top15">[15]</a></sup> </p>      <p>No entanto, apesar da diferen&ccedil;a de origem (<i>monh&eacute;</i>), de comportamento (<i>louco</i>) e de estatuto (comerciante) que o demarca das restantes personagens, o destino de Valgy encontra muitas semelhan&ccedil;as com o de outros moradores da rua, quer transitem estes do “passado colonial” quer se situem exclusivamente no “presente p&oacute;s-colonial”. O <i>monh&eacute; </i>constitui a recorda&ccedil;&atilde;o mais ins&oacute;lita de que estes dois universos temporais ainda se cruzam, apesar dos esfor&ccedil;os do novo poder em erradicar tudo aquilo que vem de tr&aacute;s. Mas n&atilde;o &eacute; o &uacute;nico a lembrar que o passado n&atilde;o se elimina por decreto. Teles Nhantumbo passa a ser denominado “Mamana Nhantumbo”, batismo inventado pelas crian&ccedil;as da rua, repetindo o passado experimentado pelo <i>monh&eacute;</i>: ‘“Mamana Nhantumbo! Mamana Nhantumbo!’, cantam elas como antes cantavam o <i>a xiphunta </i>Valgy, para embara&ccedil;o da Professora Alice” (<i>Idem,</i> 326). Tamb&eacute;m com Arminda poder&iacute;amos estabelecer uma ponte, dada a “natureza” da atividade que ambos realizam. A diferen&ccedil;a entre Valgy e a prostituta &eacute; de forma, j&aacute; que no conte&uacute;do ambos convergem para o mesmo efeito: “Ficou-lhe na natureza, de quando estava no ativo, o agradar a gregos e troianos (...) O futuro que tem &eacute; vazio” (<i>Idem,</i> 77). No momento da independ&ecirc;ncia, Arminda de Sousa n&atilde;o se manifestou nem a favor nem contra a revolu&ccedil;&atilde;o, mantendo-se num ponto interm&eacute;dio, tal como ocorreu, de resto, com outras personagens (Pestana, Sr. Capristano, Costa, Valgy, etc.). Neste per&iacute;odo, a prostituta branca da Rua 513.2 n&atilde;o tem outra solu&ccedil;&atilde;o sen&atilde;o ficar, j&aacute; que foi barrada no pr&oacute;prio avi&atilde;o, tendo experimentado na pele uma esp&eacute;cie de ambival&ecirc;ncia for&ccedil;ada: “E por isso partia, mas ficava” (<i>Idem,</i> 79). O <i>partir e ficar</i> &eacute;, ali&aacute;s, uma das ideias fortes do romance e de toda a arquitetura simb&oacute;lica da rua 513.2. Quanto &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es familiares, Costa prova, tal como Valgy, o drama da separa&ccedil;&atilde;o conjugal (p. 66), assim como a “matem&aacute;tica” distribui&ccedil;&atilde;o dos produtos racionados: “Um casal com quatro filhos mais um primo e uma sobrinha, quatro quilos; uma av&oacute; vi&uacute;va com dois netos, quilo e meio. O camarada Costa ou Valgy, meio quilo cada um” (<i>Idem,</i> 258). Tamb&eacute;m a loucura do acad&ecirc;mico Doutor Pestana &eacute; comparada diretamente com os del&iacute;rios do <i>monh&eacute;</i>: “o Doutor Pestana, empoleirado no telhado, desmontava ainda algumas telhas, falando baixo para si numa atitude que no vizinho Valgy teria tido algum cabimento (...) mas que nele era deveras descabida” (<i>Idem,</i> 56). A ambival&ecirc;ncia de Valgy pode equiparar-se ainda &agrave; duplicidade f&iacute;sica do Dr. Capristano, que possui a metade esquerda – facial e ideol&oacute;gica – paralisada (<i>Idem,</i> 70): “enquanto o lado direito era capaz de exprimir o que lhe ia na alma e de mostrar respeito por Ferraz, o outro, sempre inerte e enrugado, n&atilde;o chegava a constituir express&atilde;o” (<i>Idem,</i> 299); sem esquecer, finalmente, a “equilibrista de mundos” Guilhermina, que vagueia entre dois mundos opostos, os compromissos com a igreja e a amizade com o Secret&aacute;rio do Partido Filimone Tembe: “Dona Guilhermina &eacute; uma equilibrista que caminha no fio alto que divide os seus dois mundos (...).&Eacute; como se houvesse duas Guilherminas e n&atilde;o uma s&oacute; dentro daquela casca tensa” (<i>Idem,</i> 241). O que distinguir&aacute; Valgy de todas estas personagens ser&aacute;, no entanto, sua loucura estrat&eacute;gica, os pontos por explicar de seu comportamento e sua estrangeiridade. </p>      <p>Personagem-m&aacute;scara por excel&ecirc;ncia, Valgy caracteriza-se por sucessivos processos de altern&acirc;ncia, sejam eles discursivos ou acionais. As causas reais desta inconst&acirc;ncia s&atilde;o constantemente recordadas: abandono da mulher sul-africana e os fracassos no neg&oacute;cio, devido &agrave; “invas&atilde;o” dos novos tempos. Al&eacute;m disso, sua permanente instabilidade estar&aacute; na origem das renomea&ccedil;&otilde;es que lhe s&atilde;o atribu&iacute;das (“louco”, “<i>a xiphunta</i>”, etc) e dos imprecisos indicadores temporais de progress&atilde;o inscritos para narrar seus gestos (“por vezes”, “outras vezes”, “quando”, “nos dias”, “dias n&atilde;o”, “dias sim”, etc.). A pr&oacute;pria verossimilhan&ccedil;a de Valgy assentar&aacute;, portanto, neste constante e alienante vaiv&eacute;m identit&aacute;rio. Assim, al&eacute;m de existirem algumas semelhan&ccedil;as com as restantes personagens da rua, a permanente invers&atilde;o garantir&aacute; a <i>alteridade familiar</i> (Baudrillard &amp; Guillaume, 1994: 12) do comerciante. De resto, para Fran&ccedil;ois Hartog, o princ&iacute;pio de invers&atilde;o &eacute; uma maneira de <i>traduzir </i>e descrever a alteridade, j&aacute; que cumpre um papel heur&iacute;stico: </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>il permet de comprendre, de rendre compte, de donner sens &agrave; une alt&eacute;rit&eacute; qui sans cela resterait compl&egrave;tement opaque: l’inversion est une fiction qui fait ‘voir’ et qui fait comprendre: elle est une des figures concourant &agrave; l’&eacute;laboration d’une repr&eacute;sentation du monde. (Hartog, 2001: 334) </blockquote>      <p>No exemplo que se segue,<sup><a href="#16" name="top16">[16]</a></sup> as duas fases e as duas faces de Valgy s&atilde;o fornecidas de forma consecutiva. O que marca a passagem de um estado a outro &eacute; um elemento exterior: </p>      <blockquote>  Por isso quando sa&iacute;a vestido com um irrepreens&iacute;vel fato de tr&ecirc;s pe&ccedil;as apesar de ser Ver&atilde;o, fazia quest&atilde;o de dizer que tudo na indument&aacute;ria era brit&acirc;nico – fazenda cortada e,<i> Saville Row</i>, gravata <i>Dunhill</i>, sapatos de puro couro ingl&ecirc;s – enfim, nada que viesse de Lisboa.    <br>  Por outro lado, nos dias em que sa&iacute;a de casa envergando a longa e alv&iacute;ssima <i>djelaba</i>, na cabe&ccedil;a um cofi&oacute; bordado com intrincados desenhos, umas sand&aacute;lias de tiras finas nos p&eacute;s enormes, toda a gente ficava a saber ainda melhor da dist&acirc;ncia que ele queria assim cavar. Era um monh&eacute; rico que ia tratar de neg&oacute;cios na cidade sem para tal precisar das boleias do velho<i> Ford Capri</i> do senhor Costa. (Coelho, 2006: 124).  </blockquote>      <p>A altern&acirc;ncia de um regime a outro se relaciona com a mudan&ccedil;a de roupa, com a passagem do fato brit&acirc;nico para a vestimenta de “monh&eacute; rico”. As duas formas identificam, de resto, os seus dois lados mais vis&iacute;veis ao longo da diegese: a primeira reafirmando o orgulho de sua <i>estrangeiridade </i>cosmopolita, a segunda atualizando a vaidade de uma <i>origem </i>sumptuosa – ambas de dif&iacute;cil materializa&ccedil;&atilde;o ap&oacute;s a independ&ecirc;ncia. Por outro lado, a utiliza&ccedil;&atilde;o do imperfeito do indicativo, tempo de continuidade de a&ccedil;&otilde;es pret&eacute;ritas, real&ccedil;a o car&aacute;ter repetitivo de sua teatraliza&ccedil;&atilde;o (“toda a gente ficava a saber ainda melhor da dist&acirc;ncia que ele queria assim cavar”). Ser&aacute; esta reiterada invers&atilde;o a impossibilitar a radicaliza&ccedil;&atilde;o de sua alteridade. Mesmo o preconceito que sobre si recai (“louco”) nunca &eacute; rebatido. Pelo contr&aacute;rio, Valgy chega mesmo a sentir falta das brincadeiras das crian&ccedil;as que, quando passam por sua casa, o chamam <i>a xiphunta</i>: “Valgy n&atilde;o consegue conter-se e vem c&aacute; fora espreitar, vai mesmo at&eacute; &agrave; praia ver se as v&ecirc; brincar. Criou-se esta situa&ccedil;&atilde;o em que o velho doido as amea&ccedil;a mas n&atilde;o consegue passar sem elas” (<i>Idem,</i> 309). Nesta perspectiva, sua invers&atilde;o pode ser lida como uma estrat&eacute;gia de intermedia&ccedil;&atilde;o e mesmo de depend&ecirc;ncia para com os restantes moradores. Enquanto &eacute; louco, possui uma fun&ccedil;&atilde;o, &eacute; vis&iacute;vel, tem um lugar no mundo, estando simultaneamente em rela&ccedil;&atilde;o e fora dela (de acordo apenas com as conveni&ecirc;ncias do momento). Da&iacute; que a loucura do <i>a xiphunta</i> da casa n&uacute;mero 3 chegue mesmo a ser “relativizada” pelos restantes moradores da rua, habituados que est&atilde;o &agrave;s mudan&ccedil;as de regime do <i>monh&eacute;</i> – al&eacute;m de serem, eles tamb&eacute;m, afetados por um problema complementar: “Tamb&eacute;m todos procuravam – sem achar – o que comprar, e por isso sentiam o problema de quem queria vender e n&atilde;o tinha como” (<i>Idem,</i> 226). A depend&ecirc;ncia &eacute;, portanto, m&uacute;tua, sendo leviano aferir uma total exclus&atilde;o desta personagem do universo da rua. A <i>alteridade familiar</i>, filtrada pelas semelhan&ccedil;as com outras personagens, pelo batismo (“monh&eacute;”, “louco”) e pela previsibilidade de sua invers&atilde;o, sugere mesmo a perten&ccedil;a total de Valgy ao espa&ccedil;o da rua:“Claro que a desgra&ccedil;a de Valgy n&atilde;o passava despercebida na Rua 513.2. Viam-no sair e chegar acabrunhado, haviam-se afei&ccedil;oado ao <i>a xiphunta</i>, conheciam e apiedavam-se dos seus esfor&ccedil;os” (<i>Ibidem</i>). </p>      <p>Quando n&atilde;o s&atilde;o os moradores, ser&aacute; o pr&oacute;prio Valgy a aproximar-se, saindo de seu autoex&iacute;lio (“orgulhosa ilha solit&aacute;ria”), sobretudo por quest&otilde;es de neg&oacute;cios. As novas lealdades voltam a fazer recordar as antigas alian&ccedil;as: “S&atilde;o as laranjas de Pedrosa que chegam. Afinal, o Pedroso bem-cheiroso cumpriu com o prometido! Valgy corre para a entrada a receber a carrada, com a mesma rever&ecirc;ncia com que antes recebia os cetins e as cambraias” (<i>Idem,</i> 231). Assim, a rela&ccedil;&atilde;o de Valgy com os vizinhos viabiliza, para al&eacute;m de aut&ecirc;nticos golpes de humor, uma reflex&atilde;o sobre as formas de continuidade do passado no presente (exce&ccedil;&otilde;es, tr&aacute;fico de interesses, engodo). De resto, as lealdades e as diferen&ccedil;as cruzam-se ininterruptamente, podendo Valgy, como vimos, tornar-se s&oacute;cio de Pedrosa, a quem antes considerava um espi&atilde;o; ou ainda contratar Tito para satisfazer um pedido de Filimone: “E Valgy, pensando bem, concluiu que talvez n&atilde;o fosse m&aacute; ideia atendendo ao movimento que a loja registava. Al&eacute;m disso, n&atilde;o ficava bem recusar um favor ao Secret&aacute;rio. Afinal, havia dias em que Valgy n&atilde;o era t&atilde;o louco como parecia” (<i>Idem,</i> 125). Se atentarmos para os dois exemplos de filia&ccedil;&atilde;o fornecidos, entendemos facilmente os objetivos do <i>monh&eacute;</i>: lucro, por um lado, na alian&ccedil;a com o poder empresarial da rua; conquista da simpatia daquele que det&eacute;m o poder pol&iacute;tico, por outro. A loucura, um dos principais marcadores da constitui&ccedil;&atilde;o da personagem, adquire, assim, um relevo palp&aacute;vel e explic&aacute;vel, subordinando-se &agrave; l&oacute;gica estrat&eacute;gica do com&eacute;rcio (ou das “dissid&ecirc;ncias econ&oacute;micas” de que fala Pedrosa) e da troca de favores (“uma m&atilde;o lava a outra”, como recorda a personagem Costa). Este fato nos leva, uma vez mais, a constatar que em Valgy encontramos n&atilde;o apenas o modelo de um ser deslocado e em perda, mas tamb&eacute;m o agente de determinadas l&oacute;gicas que, fugindo da lei, transitam de um tempo para outro. Naturalmente, isto se d&aacute; porque o <i>monh&eacute;</i>, em progressivo decl&iacute;nio com a chegada da independ&ecirc;ncia, contrasta com o tempo pol&iacute;tico que se vai formalizando no pa&iacute;s: “&Agrave; direita, um olhar reprovador para as gelosias cerradas de Valgy que, estando em dia n&atilde;o, resmunga n&atilde;o querer receb&ecirc;-los. Estivesse em dia sim e talvez chegassem a negociar” (<i>Idem,</i> 151). Enquanto alguns moradores procuram ocultar suas v&aacute;rias facetas, o morador da casa n&uacute;mero 3 opta pela estrat&eacute;gia da extravag&acirc;ncia, que, sem embargo, n&atilde;o deixa de ser outra forma de dissimula&ccedil;&atilde;o. Por outro lado, as express&otilde;es que descrevem seu estado de esp&iacute;rito (“em dia sim” / “em dia n&atilde;o”) podem ser entendidas num sentido mais amplo (“tempos sim” / “tempos n&atilde;o”): sem lugar no novo mundo socialista, por se encontrar “&agrave; direita” de Pogdorni (representante m&aacute;ximo da “esquerda” pol&iacute;tica nos anos 80), o comerciante v&ecirc;-se na total impossibilidade de dar continuidade a seu neg&oacute;cio. Ambas as personagens, Valgy e Pogdorni, parecem confirmar tacitamente a ordem dos novos tempos, segundo a qual esta rela&ccedil;&atilde;o resulta ser absolutamente inapropriada.</p>      <p>Se a postura camale&ocirc;nica de Valgy n&atilde;o suscita grande surpresa entre os moradores da Rua 513.2, dado j&aacute; estarem habituados &agrave;s metamorfoses do comerciante, h&aacute; elementos de sua constitui&ccedil;&atilde;o que carecem de explica&ccedil;&atilde;o. O <i>monh&eacute; </i>n&atilde;o apresenta uma diferen&ccedil;a de <i>fundo </i>relativamente aos “antigos” e atuais moradores da rua. O que o distingue &eacute; a <i>forma</i>, a maneiracomo guarda para si o segredo; ou o modo como por tr&aacute;s do dito consegue fazer aflorar o <i>n&atilde;o-dito</i>. Assim, mais do que a reiterada dualidade de Valgy, o mais interessante &eacute; a aura de ambiguidade que confere ao universo ficcional. A come&ccedil;ar pela pr&oacute;pria origem e a culminar na d&uacute;vida que paira, lan&ccedil;ada pelo pr&oacute;prio narrador, sobre os motivos de sua perman&ecirc;ncia num momento hist&oacute;rico em que os indianos estavam sendo expulsos da antiga col&ocirc;nia. </p>      <blockquote>O mais prov&aacute;vel seria terem prendido, humilhado e deportado Valgy como fizeram com a misteriosa Buba do senhor Marques e tantos outros, ap&oacute;s o fat&iacute;dico ano de 1961. Afinal, Valgy era oriundo de Zanzibar e a sua fam&iacute;lia tinha ramifica&ccedil;&otilde;es obscuras no voraz subcontinente que engoliu Goa. Mas Salazar teve destes mist&eacute;rios: Valgy escapou &agrave;s redes do solit&aacute;rio ditador como um peixe que j&aacute; preso e subindo, voltasse no derradeiro momento a cair na &aacute;gua. Ter&aacute; sido por algo que disse? Por algo que calou? Nas excep&ccedil;&otilde;es se encontram os mist&eacute;rios do salazarismo para quem os quiser encontrar. (Coelho, 2006: 123)</blockquote>      <p>Se a goesa Buba &eacute; <i>traduzida </i>pela estrat&eacute;gia de <i>mise-en-ab&icirc;me</i>, com sua hist&oacute;ria sendo contada aos retalhos pelo mec&acirc;nico portugu&ecirc;s Marques num empoeirado caderno de capas negras, o tra&ccedil;o fundamental de Valgy &eacute; sua pr&oacute;pria ambiguidade. A inscri&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua, do mar e a refer&ecirc;ncia a uma salva&ccedil;&atilde;o milagrosa e excepcional (das “redes do solit&aacute;rio ditador”) intermedeiam a jun&ccedil;&atilde;o de elementos intertextuais e hist&oacute;ricos, todos eles marcados pela fragmenta&ccedil;&atilde;o informacional e pela ironia. Perante a precariedade de dados de uma &eacute;poca, que ainda assim indicia uma fuga &agrave; lei (“nas excep&ccedil;&otilde;es se encontram os mist&eacute;rios do salazarismo”), a vida do <i>monh&eacute; </i>s&oacute; pode ser descrita pela compara&ccedil;&atilde;o (“como um peixe”) – essa esp&eacute;cie de mergulho no s&iacute;mbolo. </p>      <p>Outro exemplo flagrante dos <i>n&atilde;o-ditos </i>em torno desta personagem, referente j&aacute; ao per&iacute;odo que se segue &agrave; independ&ecirc;ncia, &eacute; o “pacto a&ccedil;ucarado” que estabelece com Maninho, filho/enteado de Tito Nharreluga – antigo empregado da loja do <i>monh&eacute;</i>: </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>Esperneando, foi levado para dentro daquela casa assombrada, e se ningu&eacute;m deu o alarme foi porque era cada um por si a caminho da praia, sem olhar para tr&aacute;s [...].Em seguida, tacteando pela banca da cozinha, achou o cartuxo pardo do a&ccedil;&uacute;car que Ant&oacute;nia Antonieta trouxera e n&atilde;o lograra levar, e passou-lho para as m&atilde;ozinhas pequenas sem uma palavra. Apenas aqueles olhos girando furiosos, amea&ccedil;ando saltar das &oacute;rbitas. (Coelho, 2006: 251-252)</blockquote>      <p>Ap&oacute;s o encerramento da loja e o despedimento de Tito, a rela&ccedil;&atilde;o entre Valgy e a fam&iacute;lia Nharreluga ganha novos contornos, que, no entanto, s&atilde;o deixados em aberto pelo narrador. O ex-comerciante oferece secretamente a&ccedil;&uacute;car a Maninho, prolongando uma rela&ccedil;&atilde;o que j&aacute; parecia morta entre as duas casas. Trata-se de um ato de caridade do <i>monh&eacute;</i>? Ou de novo gesto com interesses pr&oacute;prios? Sobre as raz&otilde;es concretas, o leitor nada sabe. A pr&oacute;pria estrat&eacute;gia do narrador potencia esta ambiguidade. A persegui&ccedil;&atilde;o e a captura do menino possuem, como se constata, um duplo sentido: a monstrualiza&ccedil;&atilde;o de Valgy (“esperneado”, “casa assombrada” “olhos girando furiosos”) contrasta com o gesto posterior (“passou-lho para as m&atilde;ozinhas pequenas sem uma palavra”), profundamente humano. Aquilo que pode ser o seu lado mais caridoso e aquilo que vinca a dem&ecirc;ncia de seus atos s&atilde;o postos num umbral de indefini&ccedil;&atilde;o, fazendo com que a ambiguidade reine nestas passagens. Ao mesmo tempo, e como sempre ocorre neste romance, o corriqueiro acontecimento da rua convida-nos a uma leitura mais abrangente, segundo a qual o velho (pa&iacute;s) auxilia (ou patrocina) o mais jovem. Este &uacute;ltimo, conv&eacute;m recordar, &eacute; o filho-enteado, condi&ccedil;&atilde;o que faz ecoar de alguma forma o esquecido norte de Mo&ccedil;ambique, regi&atilde;o de origem de Tito Nharreluga, onde, mais adiante, se viver&aacute; o terror da guerra. </p>      <p>A varia&ccedil;&atilde;o comportamental de Valgy (para l&aacute; do simples e consecutivo jogo da invers&atilde;o), o <i>n&atilde;o-dito</i> e a fragmenta&ccedil;&atilde;o reduzem a possibilidade de totaliza&ccedil;&atilde;o do <i>outro</i> e do <i>mesmo.</i><sup><a href="#17" name="top17">[17]</a></sup>E tudo isto apesar de o <i>monh&eacute; </i>“totalizar” as restantes personagem: “Mas os pretos s&atilde;o como os portugueses: todos ladr&otilde;es!” (<i>Idem</i>,126). Nesta perspectiva, a po&eacute;tica da ambiguidade executada nesta obra e, em particular, nesta personagem, visa a preval&ecirc;ncia do mundo humano, imperfeito e inacess&iacute;vel. A diversidade de elementos associados &agrave; invers&atilde;o de Valgy acaba, pois, por estar subordinada &agrave; inscri&ccedil;&atilde;o da ambiguidade no texto e, em &uacute;ltimo grau, a um projeto est&eacute;tico que recusa a defini&ccedil;&atilde;o absoluta do ser e das coisas. Perante esta ins&oacute;lita personagem, qualquer tipo de generaliza&ccedil;&atilde;o se torna inconsistente, j&aacute; que ela representa a pr&oacute;pria derrocada da resposta un&iacute;voca. </p>      <p>Para al&eacute;m da familiriaridade e da ambiguidade, Valgy apresenta uma terceira face, a da estrangeiridade absoluta. Dedicaremos, a seguir, uma aten&ccedil;&atilde;o especial ao espa&ccedil;o de sua loja com o objetivo de verificar dois movimentos que se cruzam e que d&atilde;o conta deste fen&ocirc;meno: a simetria entre o vendedor e seus produtos e a assimetria entre o vendedor e seus clientes – momentos em que aflora o abismo entre um (o <i>monh&eacute;</i>) e outros (portugueses e mo&ccedil;ambicanos).</p>      <p><b>2. Alteridade em &uacute;ltimo grau. Ou o tr&aacute;fico do tempo na loja</b></p>      <p>Valgy &eacute;, como temos vindo a sublinhar, um ser deslocado e amb&iacute;guo. O amor pelos produtos de sua loja revela, para al&eacute;m dessas duas componentes, uma vontade desmesurada, um louco e anacr&ocirc;nico idealismo, semelhante ao de outra personagem de JPBC, Rashid,<sup><a href="#18" name="top18">[18]</a></sup> o tamb&eacute;m comerciante de “O Pano Encantado”, do volume de est&oacute;rias <i>&Iacute;ndicos Ind&iacute;cios </i>(Coelho, 2005). As mercadorias de ambos os vendedores deixaram seu lado inerte e est&aacute;tico para passarem a ser dotadas de paix&atilde;o e de del&iacute;rio, prevendo, quase sempre, o lado mais tr&aacute;gico da hist&oacute;ria recente do pa&iacute;s. Existe, nesta perspectiva, uma forte interdepend&ecirc;ncia simb&oacute;lica entre o vendedor e os produtos que vende. Por outro lado, se para Jean Baudrillard e Marc Guillaume reduzir o <i>outro</i> a <i>pr&oacute;ximo</i> &eacute; uma tenta&ccedil;&atilde;o muito dif&iacute;cil de evitar, j&aacute; que a alteridade absoluta &eacute; impens&aacute;vel (1994: 11), o comerciante da Rua 513.2 contraria por diversas ocasi&otilde;es este postulado, sobretudo nos momentos em que &eacute; confrontado com a clientela de sua loja. O <i>monh&eacute;</i> constitui um desses casos raros (na prosa mo&ccedil;ambicana) em que o <i>outro </i>assume sua faceta mais demarcada e diferencial. Comecemos pelo primeiro ponto, a rela&ccedil;&atilde;o simbi&oacute;tica entre o del&iacute;rio da personagem e os produtos que tenta vender. </p>      <p>Um aspecto digno de registro, e que revela uma elabora&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica ministrada com extremo rigor por JPBC, tem a ver com distribui&ccedil;&atilde;o espacial e o valor simb&oacute;lico dos produtos de Valgy. Para o comerciante, por exemplo, aquilo que est&aacute; mais pr&oacute;ximo do teto &eacute; mais valorizado. As cambraias, que se escondem entre os animais e a sujidade das prateleiras de madeira, no lugar mais inalcan&ccedil;&aacute;vel da loja, s&atilde;o, por excel&ecirc;ncia, seus objetos de afetividade: </p>      <blockquote>(...) c&aacute; em baixo, com as mais diversas e inesperadas cores; um pouco mais em cima pardos; l&aacute; no alto, num territ&oacute;rio s&oacute; habitado por aranhas, osgas grossas e alguma pomba municipal entrada por descaminho atrav&eacute;s de uma fresta do telhado, apavorada por se ver tamb&eacute;m tingida de luto e sem saber como sair dele. (Coelho, 2006: 128)</blockquote>      <p>A “focaliza&ccedil;&atilde;o externa” predomina nestas passagens: o narrador restringe o campo informativo da percep&ccedil;&atilde;o para assumir uma vis&atilde;o exterior ao narrado, espa&ccedil;o inabilitado de certezas relacionadas com a intimidade das personagens e com a sequ&ecirc;ncia dos fatos (Genette, 1983: 207). Isto &eacute;, a aus&ecirc;ncia de indicadores espaciais intensifica o valor simb&oacute;lico da descri&ccedil;&atilde;o. O leitor sabe que se trata de uma estante, mas n&atilde;o sabe exatamente onde est&aacute; situada. Come&ccedil;a a ter um progressivo centro de percep&ccedil;&atilde;o, de focaliza&ccedil;&atilde;o, atrav&eacute;s das locu&ccedil;&otilde;es preposicionais ou dos adv&eacute;rbios de lugar postos em cena. Assim, durante todo o processo de venda (ou melhor, de tentativa de venda) potencia-se um jogo de orienta&ccedil;&atilde;o espacial e temporal que sugere m&uacute;ltiplas escalas de valor e de significado. As coordenadas de exist&ecirc;ncia poder&atilde;o, como sempre ocorre em JPBC, indicar apenas o presente da narra&ccedil;&atilde;o e o espa&ccedil;o min&uacute;sculo da estante, como tamb&eacute;m indiciar algo mais amplo, como a guerra civil: a festa das cores “c&aacute; em baixo”, no sul; o car&aacute;ter cinzento e “pardo” “mais em cima”, no centro; a vida animal “tingida de luto”, “l&aacute; no alto”, no norte. Toda a descri&ccedil;&atilde;o da loja fundar-se-&aacute; nesta desdobrada media&ccedil;&atilde;o: a material e a simb&oacute;lica. </p>      <p>Por outro lado, n&atilde;o s&oacute; o espalhafato teatral de Valgy alimenta a comunica&ccedil;&atilde;o entre o “pequeno” quotidiano e a “grande” hist&oacute;rico. Os pr&oacute;prios produtos participam desta representa&ccedil;&atilde;o, adquirindo vida gra&ccedil;as ao reiterado uso de verbos de movimento: “Panos brilhantes e escorregadios como cobras vivas, a gente amachucando-os e eles deslizando para se porem outra vez como eram” (Coelho, 2006: 129). O termo “cobra”, frequentemente inscrito por JPBC para sugerir o imagin&aacute;rio do norte de Mo&ccedil;ambique,<sup><a href="#19" name="top19">[19]</a></sup> faz da estante suja do <i>monh&eacute; </i>um dos <i>topos </i>evocativos da guerra. A oscila&ccedil;&atilde;o existencial da personagem &eacute; tamb&eacute;m subtilmente (su)gerida no movimento do produto. Assim, quando o pano &eacute; retirado da parte mais alta da estante, todas as transforma&ccedil;&otilde;es (de cores e formas) ocorrem. A cambraia chega &agrave;s m&atilde;os do comerciante totalmente transparente, espelhando-se no que h&aacute; &agrave; volta, como se refletisse o pr&oacute;prio ato do com&eacute;rcio, da pol&iacute;tica e da manipula&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica: </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>A princ&iacute;pio parecia uma mancha de tinta negra, uma fuligem sujando o ar, a asa de um morcego adejando devagar. A meio do voo ganhava tons cinzentos-azulados aos olhos da pasmada clientela, virada para cima a tentar descobrir o que ali vinha. E por fim, uma lenta borboleta colorida brincando com a luz que lhe chegava antes de se desenrolar no balc&atilde;o. E Valgy recebia nos bra&ccedil;os, como quem recebe uma crian&ccedil;a, uma cambraia fin&iacute;ssima de linho ou algod&atilde;o a que fiapos de teias de aranha que trazia agarrados conferiam ainda maior leveza. T&atilde;o fina que n&atilde;o tinha cor, que n&atilde;o podia t&ecirc;-la uma vez que a cor n&atilde;o teria mat&eacute;ria tang&iacute;vel a que se agarrar. Uma cambraia que se limitava a reflectir a cor das coisas em redor: o castanho escuro das m&atilde;os de Valgy – que a afagavam para melhor ressaltar o seu valor e qualidade – ou a pr&oacute;pria cor do olhar das clientes, que a fitavam intrigadas. Quase, j&aacute;, maravilhadas. (Coelho, 2006: 128)</blockquote>      <p>A aus&ecirc;ncia de marcadores temporais e a metamorfose da cambraia, ocorrida em pleno percurso at&eacute; chegar sem cor &agrave;s m&atilde;os de Valgy, confere um sentido m&uacute;ltiplo &agrave; descri&ccedil;&atilde;o. A semelhan&ccedil;a entre o objeto e o comerciante atinge o seu auge tanto pelo reflexo do pano (que emana de suas m&atilde;os) como pela estupefa&ccedil;&atilde;o das clientes. A indica&ccedil;&atilde;o espacial (de cima para baixo) reflete a desterritorializa&ccedil;&atilde;o do pano, s&oacute; entendida pelo “ilusionista” vendedor; o olhar perplexo do interlocutor, por sua vez, acompanha as transforma&ccedil;&otilde;es do objeto. Ao mesmo tempo, a muta&ccedil;&atilde;o do pano volta a poder indiciar duas realidades: em primeiro lugar, uma esp&eacute;cie de biografia compacta da vida do comerciante, descendo da &Iacute;ndia, passando por Zanzibar, chegando a Mo&ccedil;ambique, perdendo a&iacute; definitivamente a mat&eacute;ria e provocando a estranheza generalizada – refletindo, em suma, o que h&aacute; em volta ou a pr&oacute;pria cor dos olhos de quem o v&ecirc;; em segundo, e uma vez mais, a guerra civil, que desce lentamente do norte de Mo&ccedil;ambique at&eacute; perder a sua cor no sul, sendo aqui lida da maneira que mais convier ao cliente. </p>      <p>A omnipresen&ccedil;a dum referente espec&iacute;fico (loja), mais do que limitar o narrador a uma descri&ccedil;&atilde;o mim&eacute;tica, produz uma desobriga&ccedil;&atilde;o perante elementos normalmente inertes e inanimados (os produtos). Estes elementos, al&eacute;m disso, s&atilde;o indicadores dum olhar subjetivo, que se coloca num espa&ccedil;o de diferen&ccedil;a e de ruptura com o esperado. N&atilde;o se estranhar&aacute;, assim, que, tal como o dono, os produtos da loja contenham uma dupla “qualidade”. A cambraia, como vimos, adquire autonomia pr&oacute;pria e ressurge como uma revela&ccedil;&atilde;o fantasm&aacute;tica para o <i>monh&eacute;</i> na parte final da narrativa, antevendo a guerra civil. Este pano reaparece no c&eacute;u, rasgada por trov&otilde;es, quando j&aacute; era imposs&iacute;vel encontr&aacute;-lo em sua loja, devido &agrave; forte crise. A cambraia passa, assim, do reino dos objetos para o reino dos signos, onde, como sabemos, tudo &eacute; mais complexo. Neste instante de del&iacute;rio, o comerciante passa de controlador do objeto a controlado pelo mesmo. A rela&ccedil;&atilde;o entre <i>o que se vende</i> e <i>quem o vende</i> torna-se sim&eacute;trica, n&atilde;o s&oacute; pelo enigma que ambos emanam, mas tamb&eacute;m pelo fiasco que representam. Vindo de longe e orgulhando-se da sua condi&ccedil;&atilde;o (“vela enfunada”), Valgy esvazia-se com o passar dos tempos, numa l&oacute;gica que vai do mais ao menos, da exalta&ccedil;&atilde;o apaixonada ao sil&ecirc;ncio disf&oacute;rico das prateleiras vazias. Ambos, vendedor e produto, tiveram um “curto per&iacute;odo glorioso” (<i>Idem,</i> 127), ambos terminam na escurid&atilde;o do vazio. </p>      <p>Simultaneamente, como j&aacute; anunciamos, o comerciante constitui o corol&aacute;rio assim&eacute;trico do <i>outro</i>: a dist&acirc;ncia de Valgy para com os seus interlocutores torna-se abismal no espa&ccedil;o de sua loja. A come&ccedil;ar pelas duas portas que a decoram, que podem sugerir tanto a exce&ccedil;&atilde;o &agrave; regra,<sup><a href="#20" name="top20">[20]</a></sup> como tamb&eacute;m uma eventual afirma&ccedil;&atilde;o do <i>tahuid</i><sup><a href="#21" name="top21">[21]</a></sup> no pr&oacute;prio lugar de trabalho: “– Porta de entrar e porta de sair, n&atilde;o v&ecirc;?! Cada coisa de sua vez, nunca se faz uma antes da outra! Ser&aacute; que a gente morre antes de nascer? Ser&aacute;?” (<i>Idem,</i> 124). Com o despertar da crise, no entanto, o princ&iacute;pio <i>divino</i> &eacute; desrespeitado pela pr&oacute;pria personagem: “E Valgy sa&iacute;a de rompante pela porta errada, j&aacute; pouco se importando com as for&ccedil;as do al&eacute;m” (<i>Idem,</i> 226). Em primeiro lugar, torna-se evidente a valoriza&ccedil;&atilde;o da “porta” se a ela associarmos os restantes termos da frase: a alitera&ccedil;&atilde;o (“rompante”, “porta”, “pouco”, “importando”) amplifica o valor simb&oacute;lico do gesto. Em segundo, as tais for&ccedil;as do “al&eacute;m” nunca s&atilde;o explicitadas pelo narrador, fato que p&otilde;e num patamar de indetermina&ccedil;&atilde;o o tempo pol&iacute;tico e o tempo religioso. Na conforma&ccedil;&atilde;o desta personagem estes dois elementos ser&atilde;o sempre indissoci&aacute;veis: </p>      <blockquote>E portanto, servissem as duas, melhor do que uma serviria, para trazer um pouco mais de luz &agrave;quele interior sombrio e algo misterioso. Quantas vezes, mesmo assim, obrigou Valgy um daqueles infelizes a voltar a sair para reentrar pela porta apropriada, para que o neg&oacute;cio pudesse prosseguir sem as obscuras interfer&ecirc;ncias do al&eacute;m. (Coelho, 2006: 124)</blockquote>      <p>A insist&ecirc;ncia do narrador em utilizar um tempo e um modo verbal (pret&eacute;rito imperfeito do conjuntivo), que remete ao campo dos poss&iacute;veis e da d&uacute;vida, assim como a dupla adjetiva&ccedil;&atilde;o, que acompanha quase todas as descri&ccedil;&otilde;es do lugar (“sombrio e algo misterioso”), acentua a diferen&ccedil;a de uma personagem que n&atilde;o se pode apreender totalmente. A materializa&ccedil;&atilde;o da dualidade pode ainda nos transportar para uma interpreta&ccedil;&atilde;o complementar, desta feita relacionada com a quest&atilde;o do hibridismo. Hibridismo problem&aacute;tico, neste caso, assente na l&oacute;gica <i>entrar y salir </i>(Cornejo Polar, 1997). Segundo Cornejo Polar, o tom de celebra&ccedil;&atilde;o com que se aplica normalmente o conceito “hibridismo” pode facilmente conduzir a an&aacute;lise ao equ&iacute;voco. Este engano se consubstancia na insistente ideia de abertura e de fus&atilde;o de culturas e no esquecimento das contradi&ccedil;&otilde;es e da viol&ecirc;ncia desse encontro (1997: 341). Enquanto microcosmo de “cheiros e cores” de “todos os lugares”, a loja de Valgy pode, num primeiro momento, sugerir tal equ&iacute;voco. No entanto, uma leitura mais atenta verificar&aacute; que este espa&ccedil;o obscuro e decadente &eacute;, sobretudo, um <i>topos</i> de desencontro, pois sinaliza viol&ecirc;ncias do passado colonial e do presente. A loja causa perplexidade inclusive nos portugueses, clientes habituais de outrora e que, antes da debandada ao pa&iacute;s de origem, buscam ali uma &uacute;ltima lembran&ccedil;a: “Irrompiam agitados pelas duas portas, piscando os olhos para se habituarem &agrave; escurid&atilde;o do interior” (Coelho, 2006: 127). A obscuridade, o desrespeito &agrave;s “regras” da loja e a rea&ccedil;&atilde;o da clientela durante o ato de vendas indicam uma rela&ccedil;&atilde;o desde j&aacute; problem&aacute;tica. Da&iacute; que, mais do que atentarmos para a vasta e mesclada gama de produtos de todas as cores, cheiros e proveni&ecirc;ncias da loja de Valgy (que poderia sugerir o tal encontro de imagin&aacute;rios &iacute;ndicos e portugu&ecirc;s), nos pare&ccedil;a mais interessante (e mais condizente com os prop&oacute;sitos do autor) ressaltar a forma como, a partir destes mesmos elementos, se produz uma dist&acirc;ncia irreconcili&aacute;vel entre o universo da personagem e o de seus interlocutores. </p>      <p>Valgy, como Valgius,<sup><a href="#22" name="top22">[22]</a></sup> &eacute; uma esp&eacute;cie de viajante estrangeiro que traz em seu barco mercadorias de espa&ccedil;os e tempos long&iacute;nquos. Para al&eacute;m do intertexto b&iacute;blico, parece-nos tamb&eacute;m que o discurso de Valgy – sobre a variedade, a raridade e a proveni&ecirc;ncia de seus produtos – retoma e inverte os relatos de viagem da Gr&eacute;cia Antiga. A constitui&ccedil;&atilde;o da rubrica <i>th&ocirc;ma </i>(maravilhas, curiosidades), aspecto analisado por Fran&ccedil;ois Hartog em <i>Histoires</i>, de Her&oacute;doto, encontra diversos paralelismos com a descri&ccedil;&atilde;o das <i>maravilhas</i> existentes na loja do <i>monh&eacute;</i>. Para o te&oacute;rico franc&ecirc;s, a enorme beleza e extrema raridade das coisas constituem o <i>th&ocirc;ma</i> que, por sua vez, funciona como tradu&ccedil;&atilde;o da diferen&ccedil;a entre o que existe <i>aqui</i> e o que existe <i>l&aacute; </i>(Hartog, 2001: 357). Ao mesmo tempo, nos relatos de Her&oacute;doto, o <i>indicador qualitativo</i> parece acompanhar o <i>indicador quantitativo</i> das maravilhas (<i>Idem,</i> 361).Isto &eacute;, s&atilde;o t&atilde;o melhores quanto mais houver. Por outro lado, nestes relatos de viagem, a <i>qualidade intr&iacute;nseca do lugar</i> tem uma rela&ccedil;&atilde;o direta com a <i>medida das maravilhas</i>. Finalmente, o autor sublinha a escala de valores que define o lugar: n&atilde;o h&aacute; um qualificativo puro para descrev&ecirc;-lo, mas sim uma <i>ordem de exposi&ccedil;&atilde;o</i>, que vai do menos ao mais extraordin&aacute;rio (<i>Ibidem</i>). </p>      <p>A descri&ccedil;&atilde;o dos produtos da loja do <i>monh&eacute;</i>, apesar das evidentes semelhan&ccedil;as discursivas e ret&oacute;ricas,<sup><a href="#23" name="top23">[23]</a></sup> inverte <i>Histoires</i>: no que se refere &agrave; <i>ordem de exposi&ccedil;&atilde;o</i>, Valgy parte do mais excepcional (panos da Formosa) para o menos extraordin&aacute;rio (capulanas nacionais); quanto &agrave; <i>rela&ccedil;&atilde;o qualidade/quantidade</i>, tudo o que &eacute; mais raro &eacute; melhor e mais valioso; finalmente, apesar de o seu discurso deixar em aberto uma rela&ccedil;&atilde;o direta entre a<i> qualidade do lugar </i>e a<i> qualidade do produto</i>, a dist&acirc;ncia com o interlocutor&eacute; cada vez maior, fazendo com que o elemento fundamental para a rela&ccedil;&atilde;o, <i>l’oreille du public</i> (<i>Idem,</i> 359), isto &eacute;, a presen&ccedil;a de um interlocutor, n&atilde;o baste para a comunica&ccedil;&atilde;o. </p>      <p>Valorizando a Formosa e a &Iacute;ndia (Madras e Calecute), Oman e Zanzibar, a <i>ordem de exposi&ccedil;&atilde;o</i> dos panos de Valgy indicia uma geografia afetiva onde o mito e a hist&oacute;ria se confundem. Importa recordar que os portugueses, segundo a historiografia,<sup><a href="#24" name="top24">[24]</a></sup> foram os primeiros europeus a chegar em referidos territ&oacute;rios. Parece evidente, pois, o af&atilde; de Valgy em agradar sua cliente, designada <i>madame</i>,atrav&eacute;s de uma poss&iacute;vel identifica&ccedil;&atilde;o com a origem de seus produtos. Trata-se, no entanto, e como sempre, de uma origem fabricada, j&aacute; que nem o pr&oacute;prio comerciante parece convencido daquilo que diz: “Sedas e cetins da Formosa, talvez – alvitrava ele” (Coelho, 2006: 128). O adv&eacute;rbio “talvez” e o verbo “alvitrar” confirmam essa hesita&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o tendo conseguido avivar nenhum tipo de nostalgia em <i>madame </i>com as primeiras refer&ecirc;ncias asi&aacute;ticas, Valgy passa para o plano B, apresentando os panos do Paquist&atilde;o. O gesto volta a acompanhar uma inten&ccedil;&atilde;o de comunh&atilde;o com a cliente: “Por processos quase id&ecirc;nticos, desciam agora os panos de algod&atilde;o mais grosso do Paquist&atilde;o, uma vez que <i>madame </i>estava partindo para os climas frios da Europa” (<i>Idem,</i> 129). A op&ccedil;&atilde;o de Valgy volta a estar relacionada tanto com a eventual <i>qualidade intr&iacute;nseca do produto</i> quanto com a <i>qualidade do lugar</i>. Como se sabe, Portugal encontrou no Paquist&atilde;o um aliado na disputa contra a &Iacute;ndia nos anos 60, momento em que o imp&eacute;rio luso perdeu sua componente asi&aacute;tica; al&eacute;m disso, o pa&iacute;s faz parte da tal “na&ccedil;&atilde;o” mu&ccedil;ulmana da qual Valgy tanto se orgulha (“<i>djelaba</i> enfunada”) em alguns momentos. </p>      <p>A incorpora&ccedil;&atilde;o massiva de elementos geogr&aacute;ficos viabiliza, portanto, uma subtil leitura sobre os fatos (e mitos) hist&oacute;ricos e sobre as manobras discursivas (e pol&iacute;ticas) que lhes s&atilde;o inerentes. E, nesta perspectiva, a mem&oacute;ria delirante do comerciante confere funcionalidade e simbologia ao objeto, elemento que, como j&aacute; foi referido, normalmente &eacute; inerte. O anacronismo investido no espa&ccedil;o, isto &eacute;, o <i>anacorismo </i>(Westphal, 2007: 179), acentua a disparidade de Valgy relativamente a sua clientela. Ao mesmo tempo, a geografia hist&oacute;rica rememorada pelo comerciante &eacute; homog&ecirc;nea, feita de blocos estanques, como relembra o narrador num coment&aacute;rio avaliador posto entre par&ecirc;nteses: “(n&atilde;o especificar que Europa era essa fazia ainda parte da tal dist&acirc;ncia a que Valgy se situava)” (Coelho, 2006: 129). O desencontro &eacute;, finalmente, posto em evid&ecirc;ncia pela indiferen&ccedil;a da cliente quanto ao “peso” (que, na po&eacute;tica de JPBC, &eacute; frequentemente um designador indireto de “tempo”) daqueles produtos:</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>N&atilde;o era na &Aacute;sia distante que havia estado, dizia timidamente a <i>madame</i>. N&atilde;o lhe tocavam portanto os seus mist&eacute;rios. Era aqui, e daqui queria levar o que houvesse que lhe permitisse lembrar esta vida que teve, que de certeza lhe ir&aacute; parecer dentro em breve distante e irreal.</blockquote>      <p>Valgy, o comerciante capaz de entender todos os pontos de vista, por uma vez n&atilde;o entendia. (Coelho, 2006: 130)</p>      <p>O interlocutor, trate-se de <i>madame </i>ou da “humilde mulher das nossas” – a primeira sinalizando o passado frut&iacute;fero de vendas, a segunda o presente de crise –, funciona n&atilde;o s&oacute; como testemunha da profus&atilde;o discursiva do comerciante, como tamb&eacute;m de sua progressiva derrocada. A pr&oacute;pria aus&ecirc;ncia de nome desse interlocutor enfatiza esse desencontro. E isto porque o anonimato &eacute; muitas vezes apresentado “en antith&egrave;se aux moments de crises des personnages nomm&eacute;s (...) comme tel devient alors le signal d’une certaine d&eacute;possession de vouloir-faire pour le personnage nomm&eacute;, m&ecirc;me si son inscription dans le texte peut donner lieu &agrave; quelque effet d’ironie” (Hamon, 1983: 134). O discurso do <i>monh&eacute;</i> assenta, portanto, na extrapola&ccedil;&atilde;o e na exterioriza&ccedil;&atilde;o daquilo que &eacute; contr&aacute;rio aos reais desejos dos visitantes. Estes, por sua vez, funcionam como contraponto radical da vis&atilde;o rom&acirc;ntica do comerciante. Tanto as clientes como o comerciante parecem participar num tipo de comunica&ccedil;&atilde;o que Francis Affergan denomina de “n&atilde;o sim&eacute;trica”, j&aacute; que “se fonderait sur la ‘maximalisation de la diff&eacute;rence’ (1987: 248). A assimetria comunicacional que se pode antever nestes segmentos tem a ver, de resto, com a organiza&ccedil;&atilde;o preferencial do discurso de ambas as personagens, cada qual com o olhar posto em momentos temporais discordantes (“N&atilde;o era na &Aacute;sia distante que havia estado, dizia timidamente a <i>madame</i>. N&atilde;o lhe tocavam portanto os seus mist&eacute;rios”). Ou seja, a temporalidade dos objetos enunciados e a temporalidade do sujeito receptor da mensagem nunca s&atilde;o coincidentes, fato que alimenta o fosso entre uns e outros. Para Benveniste, ali&aacute;s, o ponto mais delicado da rela&ccedil;&atilde;o com o <i>outro</i> reside na temporalidade: “Le temps d&eacute;noue la double identification et l&eacute;gitime l’intelligibilit&eacute;” (1966: 263). </p>      <p>Tamb&eacute;m com os temperos a escala de valoriza&ccedil;&atilde;o parece passar por um filtro espacial. A descri&ccedil;&atilde;o de um invent&aacute;rio de produtos (cominhos, coentros, pimenta, noz moscada, tamarindo, s&eacute;samo, gergelim, farinha de gr&atilde;o-de-bico, cravinhos, canela, piripiris, etc.), quase todos provenientes de uma &Aacute;sia antiga e santificada, &eacute; disso reveladora. Tome-se como exemplo a distin&ccedil;&atilde;o realizada entre as sementes de s&eacute;samo e as sementes de gergelim (termo mais usado no Brasil para referir-se ao denominado “s&eacute;samo” que, por sua vez, &eacute; mais utilizado em Portugal): “min&uacute;sculas sementes de s&eacute;samo trazendo em si todos os tons de castanho que h&aacute; no universo; sementes de gergelim, pequeninos olhos m&aacute;gicos e curiosos em ainda novos tons de castanho” (Coelho, 2006: 131). A obsess&atilde;o pelo castanho pode tanto conotar o excesso “real” desta tonalidade nos produtos, como ainda denotar uma terminologia racial, assente na <i>inven&ccedil;&atilde;o</i> da miscigena&ccedil;&atilde;o, que eventualmente alimentaria o “imagin&aacute;rio brando” (e luso-tropical) de <i>madame</i>. Tamb&eacute;m aqui a rea&ccedil;&atilde;o de <i>madame</i> &eacute; de completa indiferen&ccedil;a. Nada do que o vendedor exp&otilde;e se aproxima do simples <i>souvenir </i>que pretende levar de uma terra que em breve deixar&aacute; de ser <i>sua</i>.</p>      <p>Finalmente, os longos mon&oacute;logos de Valgy parecem ser inversamente proporcionais &agrave; <i>quantidade de maravilhas</i> que deseja dar a conhecer. Neste caso, quanto mais raros s&atilde;o os panos, maior dedica&ccedil;&atilde;o ret&oacute;rica lhes &eacute; conferida. O resultado desta quase lit&acirc;nica busca &eacute;, uma vez mais, o malogro: Valgy desanima-se quando deve apresentar os panos de fabrico nacional. Sua voz esfuma-se perante os mais recentes produtos da loja, que constituem uma esp&eacute;cie de ofensa a sua honra, precisamente por n&atilde;o relembrarem outros tempos:</p>      <blockquote>Se <i>madame</i> n&atilde;o se decidisse, passavam &agrave;s mais modestas capulanas estampadas de fabrico nacional, com estrelas e luas infantis, animais selvagens e ing&eacute;nuas e congeladas express&otilde;es, dizeres revolucion&aacute;rios. Era um Valgy ausente quem as estendia, desinteressado j&aacute; de um neg&oacute;cio que parecera t&atilde;o promissor e afinal n&atilde;o passava da comezinha venda de uma capulana de algod&atilde;o. (Coelho, 2006:130)</blockquote>      <p>A fronteira entre o objeto material e seu valor simb&oacute;lico volta a ser indiscern&iacute;vel: tanto conota aquilo que aparentemente mais importa ao vendedor (pre&ccedil;o), como denota o valor intang&iacute;vel que lhe est&aacute; associado (ideal). A &uacute;nica situa&ccedil;&atilde;o clara nestas passagens &eacute; o des&acirc;nimo do comerciante perante os novosprodutos que, na pr&aacute;tica, s&atilde;o os novos ideais (“estrelas e luas infantis, animais selvagens e congeladas express&otilde;es, dizeres revolucion&aacute;rios”). O que vem de longe &eacute; mais raro, tem mais qualidade e, naturalmente, &eacute; mais caro. Os panos nacionais espelham sua derrota, excluindo-o definitivamente dos novos tempos. </p>      <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>      <p>Se os restantes territ&oacute;rios e respectivas realidades sociais do Oceano &Iacute;ndico s&atilde;o, ainda, um elemento por desbravar na literatura mo&ccedil;ambicana, as personagens provenientes de alguns destes espa&ccedil;os come&ccedil;am a ganhar relevo no campo liter&aacute;rio do pa&iacute;s. Valgy &eacute;, talvez, o exemplo mais carism&aacute;tico e complexo deste movimento. Ao inv&eacute;s de ser inscrito para assinalar as conflu&ecirc;ncias de um imagin&aacute;rio indo-oce&acirc;nico, que se cristalizaria em Mo&ccedil;ambique, o <i>monh&eacute; </i>sinaliza as diversas fases e faces que pode experimentar esse <i>outro </i>nacional num determinado momento hist&oacute;rico. A forma privilegiada para represent&aacute;-lo &eacute; a invers&atilde;o. A repeti&ccedil;&atilde;o dessa invers&atilde;o aparece, como vimos, ligada a algumas causas (neg&oacute;cios em decl&iacute;nio, abandono da mulher, etc.), assume distintas formas discursivas (roupas, gestos, a&ccedil;&otilde;es), torna-se vis&iacute;vel nas inconstantes rela&ccedil;&otilde;es com as restantes personagens e &eacute; indiciada, na narra&ccedil;&atilde;o, por imprecisos indicadores temporais de progress&atilde;o. No entanto, a invers&atilde;o n&atilde;o explica o <i>monh&eacute;</i> em sua totalidade, serve apenas de filtro &agrave; alteridade, tornando a personagem <i>familiar </i>a um espa&ccedil;o que lhe &eacute;, politicamente, cada vez mais hostil. Isto &eacute;, Valgy n&atilde;o se esgota em um simples jogo de contr&aacute;rios ou a partir duma mudan&ccedil;a autom&aacute;tica de pap&eacute;is. O mais interessante nesta personagem &eacute; a irrup&ccedil;&atilde;o do <i>n&atilde;o-dito</i>, isto &eacute;, daquilo que se parece esconder em seu alienante vaiv&eacute;m, em seu lado oculto e inapreens&iacute;vel – realidade prevista por um autor que, ao contestar toda esp&eacute;cie de totalitarismo, procura evitar totalizar o <i>outro</i>. Finalmente, no espa&ccedil;o da loja, a viagem alucinante proposta pelo comerciante aos seus perplexos clientes culmina numa esp&eacute;cie de implos&atilde;o e de limite, de insatisfa&ccedil;&atilde;o irrevers&iacute;vel, de desencontro radical com a clientela portuguesa ou nacional. Na sincronia destes tr&ecirc;s estados – de familiaridade, de mist&eacute;rio e de <i>estrangeiridade</i> – constr&oacute;i-se um modelo exc&ecirc;ntrico de desmistifica&ccedil;&atilde;o do discurso un&iacute;voco sobre a na&ccedil;&atilde;o e seus percursos identit&aacute;rios. De fato, ao transformar o discurso hist&oacute;rico em mercadoria, o autor sublinha o car&aacute;ter artificial de todo o tipo de concep&ccedil;&otilde;es manique&iacute;stas sobre o <i>outro</i>, seja ele aut&oacute;ctone ou diasp&oacute;rico. A loja de Valgy, com seus produtos de todos os lugares, cheiros e cores,funciona, deste modo, como o laborat&oacute;rio de uma est&eacute;tica que faz da relativiza&ccedil;&atilde;o sua pedra angular. Neste espa&ccedil;o podemos percorrer um longo caminho para conhecer n&atilde;o o encontro colorido da Hist&oacute;ria – de um &Iacute;ndico ameno e intercultural –, mas sim a f&aacute;brica ilus&oacute;ria do discurso – com as tens&otilde;es e instabilidades inerentes a uma (l&iacute;quida) perten&ccedil;a comum. </p>      <p>Em suma, se parte da prosa mo&ccedil;ambicana convoca o passado para refletir sobre o presente e se, como sugerimos na introdu&ccedil;&atilde;o, grande parte da poesia do pa&iacute;s evoca a exterioridade &iacute;ndica para repensar a interioridade nacional, o surgimento de personagens como Valgy revaloriza a fronteira amb&iacute;gua das coordenadas de exist&ecirc;ncia espa&ccedil;o/tempo. Pauta de resson&acirc;ncias m&uacute;ltiplas, a escrita de JPBC resgata a virtualidade po&eacute;tica do &Iacute;ndico, sinalizando, numa geografia comum, a particular complexidade da hist&oacute;ria. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <!-- ref --><p>Affergan, Francis (1987), <i>Exotisme et alt&eacute;rit&eacute; : essai sur les fondements d’une critique de l’anthropologie</i>, Paris, Presses Universitaires de France.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000075&pid=S0807-8967201300030000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Agamben, Giorgio (2003), <i>Homo sacer. <a href="http://ccuc.cbuc.cat/search~S23*cat/tEl+Poder+soberano+y+la+nuda+vida/tpoder+soberano+y+la+nuda+vida/-3,-1,0,B/browse" target="_blank">El Poder soberano y la nuda vida</a></i>, Trad. de Antonio Gimeno Cuspinera, Valencia, Pre-Textos.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000077&pid=S0807-8967201300030000700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Baudrillard, Jean &amp; Guillaume, Marc (1994), <i>Figures de l’alt&eacute;rit&eacute;</i>, Paris, Descartes &amp; Cie.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000079&pid=S0807-8967201300030000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Benveniste, Emile (1966), <i>Probl&egrave;mes du Langage</i>, Paris, Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000081&pid=S0807-8967201300030000700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Brugioni, Elena (2013), “Contiguidades Amb&iacute;guas. Cr&iacute;tica P&oacute;s-colonial e Literaturas Africanas”, in Ana Mafalda Leite, Rita Chaves, Hilary Owen &amp; Livia Apa (Orgs.), <i>Na&ccedil;&atilde;o e Narrativa P&oacute;s-Colonial I – Angola e Mo&ccedil;ambique</i>, Lisboa, Colibri, pp. 379-394.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000083&pid=S0807-8967201300030000700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Can, Nazir (no prelo), “Histoire et fiction dans le roman mauricien: les multiples violences dans et autour ‘Sueurs de Sang’, d’Abhimanyu Unnuth”, in Mar Garcia &amp; Val&eacute;rie Magdeleine (eds.), <i>Violences symboliques dans les litt&eacute;ratures de l’oc&eacute;an Indien</i>, Ille-sur-T&ecirc;t, &Eacute;ditions K’A.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000085&pid=S0807-8967201300030000700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>––––, (2012) “Os lugares do ‘indiano’ na literatura mo&ccedil;ambicana”, in Rita Chaves &amp; Tania Mac&ecirc;do (orgs.), <i>Passagens para o &Iacute;ndico. Encontros brasileiros com a literatura mo&ccedil;ambicana</i>, Maputo, Marimbique, 2012, pp. 217-230.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000087&pid=S0807-8967201300030000700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>––––, (2009), “Mundos Imaginados do Isl&atilde;o em Mo&ccedil;ambique: ‘O Pano Encantado’, de Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho”, <i>Espacio/Espa&ccedil;o Escrito</i>, n&ordm; 27-28, v. 1, pp. 93-98.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000089&pid=S0807-8967201300030000700008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Chaves, Rita (2002), <i>A Ilha de Mo&ccedil;ambique: Entre as Palavras e o Sil&ecirc;ncio</i>, dispon&iacute;vel em <a href="http://www.macua.org/coloquio/A_ILHA_DE_MOCAMBIQUE.htm" target="_blank">http://www.macua.org/coloquio/A_ILHA_DE_MOCAMBIQUE.htm</a> [consultado em 17/05/2013].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000091&pid=S0807-8967201300030000700009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>––––, (2008), “Notas sobre a Fic&ccedil;&atilde;o e a Hist&oacute;ria em Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho”, in Margarida Calafate Ribeiro &amp; Maria Paula Meneses (orgs.), <i>Mo&ccedil;ambique: das palavras escritas</i>, Porto, Edi&ccedil;&otilde;es Afrontamento, pp. 187-198.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000093&pid=S0807-8967201300030000700010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Chiziane, Paulina (2000), <i>O S&eacute;timo Juramento</i>, Lisboa,Editorial Caminho.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000095&pid=S0807-8967201300030000700011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Coelho, Jo&atilde;o Paulo Borges (2009), “E depois de Caliban? A hist&oacute;ria e os caminhos da literatura no Mo&ccedil;ambique contempor&acirc;neo”, in Charlotte Galves, Helder Garmes &amp; Fernando Rosa Ribeiro, <i>&Aacute;frica-Brasil. Caminhos da l&iacute;ngua portuguesa</i>, Campinas, Editora Unicamp, pp. 57-67.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000097&pid=S0807-8967201300030000700012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>––––, (2006), <i>Cr&oacute;nica da Rua 513.2</i>, Lisboa, Editorial Caminho.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000099&pid=S0807-8967201300030000700013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>––––, (2005), <i>&Iacute;ndicos Ind&iacute;cios</i>. <i>Setentri&atilde;o.</i> Lisboa, Editorial Caminho.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000101&pid=S0807-8967201300030000700014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>––––, (2003), <i>As Duas Sombras do Rio</i>, Lisboa, Editorial Caminho.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000103&pid=S0807-8967201300030000700015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Cole, Bernard (2006), <i>Taiwan’s Security: History and Prospects</i>, Londres, Routledge&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000105&pid=S0807-8967201300030000700016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Cornejo Polar, Antonio (1997), “Mestizaje e hibridez: los riesgos de las met&aacute;foras. Apuntes”, <i>Revista Iberoamericana</i>, vol. LXIII, n&ordm;. 180, pp. 341-344.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000106&pid=S0807-8967201300030000700017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Davidson, Basil (1967), <i>The Growth of African Civilization. East and Central Africa to the late Nineteenth Century</i>, Londres, Longman.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000108&pid=S0807-8967201300030000700018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Devi, Ananda (2001), <i>Pagli</i>, Paris, Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000110&pid=S0807-8967201300030000700019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Falconi, Jessica (2008), <i>Utopia e conflittualit&agrave;. Ilha de Mo&ccedil;ambique nella poesia mozambicana contempor&acirc;nea</i>, Roma, Aracne.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000112&pid=S0807-8967201300030000700020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Foerster, Federico &amp; Pascual, Ricardo (1985), <i>El Naufragio del Valgius</i>. <i>Extracto comentado por la ep&iacute;stola n&ordm; 49 de San Paulino de Nola</i>, Barcelona, CRIS.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000114&pid=S0807-8967201300030000700021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Garcia, Mar &amp; Val&eacute;rie Magdeleine (no prelo), <i>Violences symboliques dans les litt&eacute;ratures de l’oc&eacute;an Indien</i>, Ille-sur-T&ecirc;t, &Eacute;ditions K’A.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000116&pid=S0807-8967201300030000700022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Garcia, Mar; Hand, Felicity &amp; Can, Nazir (eds.) (2010), <i>Indicities/Indices/Ind&iacute;cios. Hybridations probl&eacute;matiques dans les litt&eacute;ratures de l’oc&eacute;an Indien</i>, Ille-sur-T&ecirc;t, &Eacute;ditions K’A.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000118&pid=S0807-8967201300030000700023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Garcia, Mar, Can, Nazir &amp; Berty, Romuald (2012), <i>Literatures de l’oce&agrave; &Iacute;ndic</i>, dispon&iacute;vel em <a href="http://pagines.uab.cat/litpost/" target="_blank">http://pagines.uab.cat/litpost/</a> [consultado em 01/06/2013].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000120&pid=S0807-8967201300030000700024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Genette, G&eacute;rard (1983), <i>Nouveau discours du r&eacute;cit</i>, Paris, Le Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000122&pid=S0807-8967201300030000700025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Hamon, Philippe (1983), <i>Le Personnel du roman: le syst&egrave;me des personnages dans les Rougon-Macquart d’Emile Zola</i>, Gen&egrave;ve, Droz.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000124&pid=S0807-8967201300030000700026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Hartog, Fran&ccedil;ois (2001),<i> Le Miroir d’H&eacute;rodote: essai sur la repr&eacute;sentation de l’autre</i>, Paris, Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000126&pid=S0807-8967201300030000700027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Laban, Michel (1998), <i>Mo&ccedil;ambique: encontro com escritores</i>, Porto, Funda&ccedil;&atilde;o Eng.&ordm; Ant&oacute;nio de Almeida, 1998, vol. 1.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000128&pid=S0807-8967201300030000700028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Leite, Ana Mafalda (2003), <i>Literaturas Africanas e Formula&ccedil;&otilde;es P&oacute;s-Coloniais</i>, Lisboa, Colibri.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000130&pid=S0807-8967201300030000700029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>L&eacute;vinas, Emmanuel (1961), <i>Totalit&eacute; et Infini: essai sur l’ext&eacute;riorit&eacute;</i>, Haia, Martinus Nijhoff.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000132&pid=S0807-8967201300030000700030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Mendon&ccedil;a, F&aacute;tima (2011), “Poetas do &Iacute;ndico – 35 anos de escrita”, <i>Mulemba, </i>n&ordm; 4, pp. 1-12.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000134&pid=S0807-8967201300030000700031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Muthiah, Subbiah (2004), <i>Madras Rediscovered</i>, Madras, East West Books.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000136&pid=S0807-8967201300030000700032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Noa, Francisco (2012), O Oceano &Iacute;ndico e as rotas da transnacionalidade na poesia mo&ccedil;ambicana, dispon&iacute;vel em <a href="http://cesab.edu.mz/wp-content/uploads/2012/10/OceanoIndicoTransnacionalidaPoesiaMocambicana-2012.pdf" target="_blank">http://cesab.edu.mz/wp-content/uploads/2012/10/OceanoIndicoTransnacionalidaPoesiaMocambicana-2012.pdf</a> [consultado em 25/06/2013].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000138&pid=S0807-8967201300030000700033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Pyamootoo,Barlen (2002), <i>Le tour de Babylone</i>, Paris, Editions de l’Olivier.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000140&pid=S0807-8967201300030000700034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Samlong, Jean-Fran&ccedil;ois (2012), <i>Une guillotine dans un train de nuit</i>, Paris, Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000142&pid=S0807-8967201300030000700035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Secco, Carmen (2010), “&Iacute;ndicos Cantares: o Imagin&aacute;rio da Ilha de Mo&ccedil;ambique nas Vozes dos Poetas”, in Mar Garcia, Felicity Hand &amp; Nazir Can (&eacute;ds.), <i>Indicities/Indices/Ind&iacute;cios. Hybridations probl&eacute;matiques dans les litt&eacute;ratures de l’oc&eacute;an Indien</i>, Ille-sur-T&ecirc;t, &Eacute;ditions K A, pp. 165-176.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000144&pid=S0807-8967201300030000700036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Sewtohul, Amal (2009), <i>Voyages et aventures de Sanjay</i>, <i>explorateur mauricien des anciens mondes</i>, Paris, Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000146&pid=S0807-8967201300030000700037&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Westphal, Bertrand (2007), <i>La G&eacute;ocritique: r&eacute;el, fiction, espace</i>, Paris, Les &Eacute;ditions de Minuit.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000148&pid=S0807-8967201300030000700038&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>[Recebido em 19 de agosto de 2013 e aceite para publica&ccedil;&atilde;o em 23 de setembro de 2013]</p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Notas</b></p>      <p><sup><a href="#top1" name="1">[1]</a></sup> O presente texto &eacute; apoiado pela Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de S&atilde;o Paulo (FAPESP), no &acirc;mbito de nosso projeto de P&oacute;s-Doutoramento <i>Imedia&ccedil;&otilde;es, media&ccedil;&otilde;es, consagra&ccedil;&otilde;es: o campo liter&aacute;rio mo&ccedil;ambicano (1975-2010)</i>, orientado pela Prof&ordf; Rita Chaves e realizado na Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). </p>      <p><sup><a href="#top2" name="2">[2]</a></sup> Estes aspectos s&atilde;o trabalhados em duas das mais recentes publica&ccedil;&otilde;es de LITPOST, grupo de pesquisa dirigido por Mar Garcia (Universitat Aut&ograve;noma de Barcelona): a primeira sobre a quest&atilde;o do hibridismo problem&aacute;tico nas produ&ccedil;&otilde;es do Oceano &Iacute;ndico (Garcia, Hand &amp; Can, 2010); a segunda sobre as viol&ecirc;ncias simb&oacute;licas e institucionais nas literaturas desta mesma &aacute;rea geogr&aacute;fica (Garcia &amp; Magdeleine, no prelo). </p>      <p><sup><a href="#top3" name="3">[3]</a></sup> A escrita em l&iacute;nguas locais &eacute; praticamente inexistente em Mo&ccedil;ambique. J&aacute; Maur&iacute;cio e Reuni&atilde;o, onde o crioulo foi ganhando paulatinamente espa&ccedil;o, bem como Madagascar, onde o malgache possui uma j&aacute; longa tradi&ccedil;&atilde;o, espelham outro tipo de movimentos, resultante de processos hist&oacute;ricos, din&acirc;micas identit&aacute;rias e op&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas divergentes. </p>      <p><sup><a href="#top4" name="4">[4]</a></sup> No que se refere &agrave; dualidade cultural, chamamos a aten&ccedil;&atilde;o para o caso da atual literatura mauriciana, que se configura de modo original no quadro das literaturas p&oacute;s-coloniais. Um passeio pelas principais obras deste sistema liter&aacute;rio nos permite aferir uma total apropria&ccedil;&atilde;o por parte da comunidade hindo-mauriciana n&atilde;o s&oacute; da l&iacute;ngua francesa como tamb&eacute;m da pr&aacute;tica liter&aacute;ria. Praticamente todos os autores do pa&iacute;s, que s&atilde;o hoje reconhecidos no estrangeiro, nomeadamente na Fran&ccedil;a, s&atilde;o de origem indiana e n&atilde;o de origem francesa.</p>      <p><sup><a href="#top5" name="5">[5]</a></sup> Para o caso mo&ccedil;ambicano, algumas considera&ccedil;&otilde;es sobre essa quest&atilde;o podem ser lidas em um recente artigo de Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho (2009: 57-67). </p>      <p><sup><a href="#top6" name="6">[6]</a></sup> Francisco Noa enfatiza de modo claro esta problem&aacute;tica: “Outro aspecto que concorreu para as escassas refer&ecirc;ncias ou mesmo indiferen&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o ao Oceano &Iacute;ndico, no tocante &agrave; reflex&atilde;o identit&aacute;ria ou enquadramento territorial, prende-se com a reiterada focaliza&ccedil;&atilde;o, na maior parte dos estudos, no eixo vertical Norte (Ocidente) / Sul (&Aacute;frica)” (Noa, 2012: 2).</p>      <p><sup><a href="#top7" name="7">[7]</a></sup> N&atilde;o &eacute; descabido lembrar que, hoje em dia, &eacute; quase t&atilde;o caro viajar de Maputo a Lisboa quanto de Maputo a Port Louis ou Antananarivo, por muito que Mo&ccedil;ambique, Maur&iacute;cio e Madagascar perten&ccedil;am &agrave; mesma regi&atilde;o. &Eacute; certo que os voos de Port Louis a Saint-Denis e vice-versa s&atilde;o mais frequentes e, como tal, menos caros, devido aos acordos de natureza comercial existentes entre a Reuni&atilde;o e Maur&iacute;cio. No entanto, quando se trata de dar o salto para o lado mo&ccedil;ambicano, ou de Mo&ccedil;ambique para o <i>outro lado</i>, onde as l&iacute;nguas tamb&eacute;m divergem, a dist&acirc;ncia torna-se intercontinental.</p>      <p><sup><a href="#top8" name="8">[8]</a></sup> Veja-se, a este prop&oacute;sito, o romance<sup> </sup><i>Voyages et aventures de Sanjay</i>, <i>explorateur mauricien des anciens mondes</i>, do escritor mauriciano Amal Sewtohul (2009), em grande parte ambientado na Alemanha, ou <i>Le tour de Babylone</i> do tamb&eacute;m mauriciano Barlen Pyamootoo (2002), situado em Bagdad. Remetemos o aprofundamento destas e de outras quest&otilde;es, relacionadas com a evolu&ccedil;&atilde;o dos sistemas liter&aacute;rios do Oceano &Iacute;ndico, para os textos de Mar Garcia publicados em &lt;<a href="http://pagines.uab.cat/litpost/" target="_blank">http://pagines.uab.cat/litpost/</a>&gt;, p&aacute;gina web elaborada pelo grupo LITPOST (Garcia, Can &amp; Berty, 2012). </p>      <p><sup><a href="#top9" name="9">[9]</a></sup> Nos &uacute;ltimos anos tem sido vasta a produ&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica que observa de perto essa original e complexa produ&ccedil;&atilde;o. Podemos mencionar, a t&iacute;tulo de exemplo, os estudos de Rita Chaves (2002), Ana Mafalda Leite (2003: 123-144), Jessica Falconi (2008), Carmen Secco (2010), F&aacute;tima Mendon&ccedil;a (2011) e Francisco Noa (2012).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top10" name="10">[10]</a></sup> Em particular no cemit&eacute;rio de Saint Pierre, onde se realiza um culto quotidiano &agrave; volta de sua sepultura. </p>      <p><sup><a href="#top11" name="11">[11]</a></sup> Por um lado, utilizam-se indistintamente categorias vagas como <i>indianidade</i>. Isto &eacute;, de forma incongruente, os estudos sobre os indianos e os &iacute;ndios da Am&eacute;rica Latina acabam por possuir a mesma terminologia (<i>indianidad</i>, <i>indianit&eacute;</i>, <i>indianity</i>), j&aacute; que, em outras l&iacute;nguas europeias, como o espanhol, o franc&ecirc;s e o ingl&ecirc;s, a diferencia&ccedil;&atilde;o terminol&oacute;gica n&atilde;o se faz (<i>indio</i>, <i>indien</i>, <i>indian</i>, respectivamente). Por outro, a essencializa&ccedil;&atilde;o que se verifica nesta terminologia desloca-se tamb&eacute;m as suas subcategorias. Esta situa&ccedil;&atilde;o &eacute; frequente em Mo&ccedil;ambique, onde a utiliza&ccedil;&atilde;o dos termos <i>go&ecirc;s</i>, <i>monh&eacute;</i>,<i> baneane</i>, <i>canarim </i>(<i>de c&uacute; limpo</i>), etc., predomina; &eacute; o caso ainda da terminologia utilizada no contexto &iacute;ndico das Ilhas Mascarenhas: <i>malabarit&eacute;, hinduit&eacute;, coolitude</i>.</p>      <p><sup><a href="#top12" name="12">[12]</a></sup> Permitimo-nos remeter estas quest&otilde;es a dois artigos nossos (Can, no prelo; Can, 2012, respectivamente). Por outro lado, esta constata&ccedil;&atilde;o n&atilde;o invalida a dificuldade que tamb&eacute;m existe em Mo&ccedil;ambique em representar o mulato, como anuncia o pr&oacute;prio Craveirinha na entrevista que concede a Michel Laban (1998). </p>      <p><sup><a href="#top13" name="13">[13]</a></sup> Como ocorre com duas de suas mais representativas autoras, uma mauriciana (Ananda Devi) e outra mo&ccedil;ambicana (Paulina Chiziane), que procuram a subvers&atilde;o convocando personagens masculinos mulatos e indianos, respectivamente. Assim, tanto Zil, o mulato idealizado de <i>Pagli </i>(Devi, 2001), como o <i>monh&eacute;</i>, aludido estrategicamente por Chiziane em <i>O S&eacute;timo Juramento </i>(2000), constituem os elementos mais problem&aacute;ticos da rela&ccedil;&atilde;o, as figuras <i>non gratas</i> &agrave; teologia racial nas respectivas sociedades, funcionando como personagens-limite e, simultaneamente, como moedas simb&oacute;licas de um grito de liberdade realizado pela mulher.</p>      <p><sup><a href="#top14" name="14">[14]</a></sup> Rita Chaves valoriza essa “nova forma de escrita que &eacute; tamb&eacute;m um modo de investigar”, e que deve, pois, ser articulada ao projeto intelectual do autor. A autora verifica como JPBC, atrav&eacute;s da amplia&ccedil;&atilde;o da “territorialidade liter&aacute;ria do pa&iacute;s”, na qual se inclui a costa &iacute;ndica, preenche lacunas, em especial na “constitui&ccedil;&atilde;o de um projeto cultural de que a literatura precisa ser parte” (Chaves, 2008: 188). A valoriza&ccedil;&atilde;o que JPBC confere &agrave; dimens&atilde;o regional do &Iacute;ndico, al&eacute;m de patente em sua obra liter&aacute;ria e em alguns de seus mais recentes trabalhos de pesquisa, realizados no Centro de Estudos Sociais Aquino Bragan&ccedil;a (CESAB), tem inspirado novas reflex&otilde;es no campo do comparatismo liter&aacute;rio. No que se refere ao poss&iacute;vel di&aacute;logo entre a obra de JPBC e as produ&ccedil;&otilde;es de outras &aacute;reas lingu&iacute;sticas do Oceano &Iacute;ndico, veja-se Brugioni (2013).</p>      <p><sup><a href="#top15" name="15">[15]</a></sup> Apenas no cap&iacute;tulo 18, “A justi&ccedil;a dos pequenos privil&eacute;gios”, outro momento em se juntam quase todos os moradores da rua, Valgy n&atilde;o surge como refer&ecirc;ncia final. De fato, o <i>monh&eacute;</i> nem sequer aparece para receber sua quota alimentar mensal. No entanto, gera-se uma longa discuss&atilde;o entre Antonieta, Filimone, Guilhermina e os restantes vizinhos sobre a legitimidade do morador da casa n&uacute;mero 3 para aceder aos alimentos (Coelho, 2006: 248-250). Assim, mesmo na aus&ecirc;ncia, a personagem funciona como n&uacute;cleo desestabilizador da constru&ccedil;&atilde;o discursiva que assenta na ideia de uma comunidade sem vest&iacute;gios de ambiguidade. </p>      <p><sup><a href="#top16" name="16">[16]</a></sup> Semelhantes aos das p&aacute;ginas 66 e 67, 126 e 127 deste romance.</p>      <p><sup><a href="#top17" name="17">[17]</a></sup> No sentido dado por L&eacute;vinas (1961: 45-79), que afirma a necessidade de preservar a separa&ccedil;&atilde;o entre o <i>mesmo</i> (eu) e o <i>outro</i>. Tal separa&ccedil;&atilde;o faz-se imperativa para que o <i>outro</i> conserve sua exterioridade (evitando, assim, a totaliza&ccedil;&atilde;o de seu ser).</p>      <p><sup><a href="#top18" name="18">[18]</a></sup> Em outro espa&ccedil;o, onde analisamos esta est&oacute;ria<i>, </i>chamamos a aten&ccedil;&atilde;o para o papel do narrador, este estrangeiro que observa perplexo a obscura “Alfaiataria 2000” e pressente as surdas lutas entre o patr&atilde;o Rashid e o seu ajudante Jamal. Vimos como JPBC, ao apropriar-se de determinados lugares-comuns atribu&iacute;dos &agrave;s comunidades mu&ccedil;ulmanas, situa esteticamente as antigas e atuais tens&otilde;es das confrarias isl&acirc;micas de Mo&ccedil;ambique e do &Iacute;ndico (Can, 2009).</p>      <p><sup><a href="#top19" name="19">[19]</a></sup> Sobre este aspecto, veja-se o primeiro romance do autor, <i>As Duas Sombras do Rio </i>(Coelho, 2003).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top20" name="20">[20]</a></sup> No sentido dado por Agamben, para quem a exce&ccedil;&atilde;o coexiste com a lei, fazendo, inclusive, com que esta &uacute;ltima adquira validade e funcionalidade (2003: 27; 44). A reiterada inscri&ccedil;&atilde;o do elemento “porta” na escrita de JPBC sugere este duplo movimento em que participam e se indeterminam o espa&ccedil;o da lei e espa&ccedil;o do “fora-da-lei”.</p>      <p><sup><a href="#top21" name="21">[21]</a></sup> Preceito isl&acirc;mico segundo o qual s&oacute; existe um Deus absoluto e poderoso.</p>      <p><sup><a href="#top22" name="22">[22]</a></sup> A vida e o discurso deValgy encontram flagrantes pontos de contacto com outras <i>hist&oacute;rias</i>. Uma delas &eacute; o relato da travessia de Valgius, descrito na Ep&iacute;stola 49 de S&atilde;o Paulino de Nola. Este marinheiro, desprezado pelos restantes por trabalhar na sentina de um barco, &eacute; abandonado por todos quando se d&aacute; uma tempestade e o perigo eminente de naufr&aacute;gio visita o barco. Sozinho, ao sabor do vento, conduz o barco e consegue chegar, ao fim de 23 dias, &agrave; costa de Lucania (Foerster e Pascual<i>, </i>1985: 13-14), interpretando sua salva&ccedil;&atilde;o como um milagre divino. Por sua vez, Valgy, desprezado (no universo da rua) e abandonado (pelos conterr&acirc;neos que debandaram aquando da crise pol&iacute;tica entre Portugal e &Iacute;ndia), vivendo tamb&eacute;m ao sabor do vento durante os 23 cap&iacute;tulos do romance e sobrevivendo de forma misteriosa a todas as conjecturas adversas (no per&iacute;odo colonial e, mais adiante, no p&oacute;s-independ&ecirc;ncia), &eacute; o morador que vive na zona mais baixa da rua, e quando chove, tal como na sentina do velho Valgius, a &aacute;gua concentra-se em sua porta (formando “um grande mar”). N&atilde;o tendo abandonado o <i>barco</i> da nova na&ccedil;&atilde;o, Valgy procura sobreviver aos des&iacute;gnios dos novos tempos, mas, novamente como Valgius – que deixa de ser reconhecido no mar e na terra –, o <i>monh&eacute;</i> fica sem lugar no passado e no presente.</p>      <p><sup><a href="#top23" name="23">[23]</a></sup> &Eacute;, de fato, surpreendente a semelhan&ccedil;a de estilo entre as “alucina&ccedil;&otilde;es” de Valgy e as hist&oacute;rias de Her&oacute;doto. A t&iacute;tulo de exemplo, veja-se o seguinte segmento: “Les Arabes r&eacute;coltent l’encens en faisant des fumigations pour chasser les serpents ail&eacute;s qui gardent les arbres o&ugrave; il pousse. La cannelle se cueille dans un lac habit&eacute;e par des esp&egrave;ces des chauves-souris dont il faut prot&eacute;ger en s’enveloppant le corps entier de peaux de bœufs. ‘Encore plus extraordinaire’ est la r&eacute;colte du cinnamome. (...). Quand au ladanum c’est ‘encore plus extraordinaire’, cet aromate au parfum si d&eacute;licieux s’accroche, en effet, dans la barbe des boucs, lieu de grande puanteur. Ainsi ces admirables produits ne peuvent avoir qu’une provenance extraordinaire” (Hartog, 2001: 358-359).</p>      <p><sup><a href="#top24" name="24">[24]</a></sup> Sobre Formosa veja-se Cole (2006); sobre Madras, Muthiah (2004); acerca de Zanzibar, leia-se Davidson (1967).</p>       ]]></body><back>
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