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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This essay intends to review the postcolonial relationships present in António Lobo Antunes’s O Meu Nome é Legião. The polyphonic narrative of this work allows an overlapping of different social representations and spatialities, creating a complex image of the postcolonial condition in 21st century Lisbon. The novel shows how the mental borders of colonialism are transposed into the metropolitan urban space and how they shape it. The social relationships of the characters oscillate between alterity and hybridism in spaces that fluctuate between border and heterotopia. We will begin by discussing these four concepts and then proceed to reflect upon postcolonial aspects that are recurrent in Lobo Antunes’s writings. In the second part of the essay, we will focus on the novel itself, analysing the social and geographical representations of the characters.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Fronteira e contacto em <i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o</i></b></p>      <p><b>Border and contact in <i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o</i></b></p>      <p><b>Daniel Paiva*</b></p>      <p>*Universidade de Lisboa, Centro de Estudos Geogr&aacute;ficos, Lisboa, Portugal.</p>      <p><a href="mailto:daniel-paiva@live.com.pt">daniel-paiva@live.com.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>RESUMO</b> </p>     <p>     <p>Este ensaio pretende rever as rela&ccedil;&otilde;es p&oacute;s-coloniais presentes na obra <i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o</i>, de Ant&oacute;nio Lobo Antunes, a partir de uma perspetiva geogr&aacute;fica. A narrativa polif&oacute;nica de Lobo Antunes permite o sobrepor de diferentes representa&ccedil;&otilde;es sociais e espacialidades, construindo uma imagem complexa da condi&ccedil;&atilde;o p&oacute;s-colonial lisboeta do S&eacute;culo XXI. Neste romance, &eacute; vis&iacute;vel como as fronteiras mentais do colonialismo s&atilde;o transpostas para o espa&ccedil;o urbano metropolitano e moldam o mesmo. As rela&ccedil;&otilde;es sociais das personagens oscilam entre a alteridade e o hibridismo em espa&ccedil;os que s&atilde;o simultaneamente fronteira e heterotopia. Come&ccedil;aremos por debater estes quatro conceitos para, de seguida, refletirmos sobre algumas constantes na escrita de Lobo Antunes em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s tem&aacute;ticas p&oacute;s-coloniais. Numa segunda fase passar-se-&aacute; &agrave; an&aacute;lise do texto em si, caracterizando-se as representa&ccedil;&otilde;es sociais e geogr&aacute;ficas das v&aacute;rias personagens da obra.</p> </p>     <p><b>Palavras chave</b>: Lobo Antunes; O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o; hibridismo; alteridade; fronteira; heterotopia.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p> <b>ABSTRACT</b> </p>     <p>     <p>This essay intends to review the postcolonial relationships present in Ant&oacute;nio Lobo Antunes’s <i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o.</i> The polyphonic narrative of this work allows an overlapping of different social representations and spatialities, creating a complex image of the postcolonial condition in 21<sup>st</sup> century Lisbon. The novel shows how the mental borders of colonialism are transposed into the metropolitan urban space and how they shape it. The social relationships of the characters oscillate between alterity and hybridism in spaces that fluctuate between border and heterotopia. We will begin by discussing these four concepts and then proceed to reflect upon postcolonial aspects that are recurrent in Lobo Antunes’s writings. In the second part of the essay, we will focus on the novel itself, analysing the social and geographical representations of the characters.</p> </p>     <p><b>Keywords</b>: Lobo Antunes; O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o; hybridism; alterity; border; heterotopia.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>      <p>A cidade de Lisboa tem sido, desde a Revolu&ccedil;&atilde;o de Abril, recetora de imigrantes em larga escala. Esse foi um fen&oacute;meno novo dado que, antes dessa data, Portugal era essencialmente um pa&iacute;s de emigrantes. &Agrave; medida que os imigrantes se estabeleciam na cidade, foram-se formando v&aacute;rios enclaves &eacute;tnicos, em especial nas zonas mais perif&eacute;ricas. Durante cerca de duas d&eacute;cadas, estes enclaves passaram despercebidos, devido &agrave; sua natureza perif&eacute;rica e fragment&aacute;ria. Nesse per&iacute;odo, a pol&iacute;tica nacional e local relativamente &agrave; imigra&ccedil;&atilde;o era inexistente ou numa base de <i>laissez-faire</i> (Beja Horta, 2008). Mais recentemente, estes enclaves come&ccedil;aram a ser vistos como um problema urbano e social. Na &uacute;ltima d&eacute;cada em particular, os <i>media</i> t&ecirc;m focado mais ou menos regularmente problemas sociais existentes, em especial aqueles que incluem criminalidade e viol&ecirc;ncia, em bairros cuja popula&ccedil;&atilde;o &eacute; imigrante (Fortes, 2009). A exist&ecirc;ncia destes bairros e a sua associa&ccedil;&atilde;o &agrave; viol&ecirc;ncia e criminalidade criaram novas fronteiras na cidade, dado que estes come&ccedil;aram a ser vistos como <i>no-go zones</i>. </p>      <p>&Eacute; uma destas <i>no-go zones</i> que Ant&oacute;nio Lobo Antunes apresenta no seu livro de 2007, <i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o</i>. Esta obra retrata difusamente um conjunto de viv&ecirc;ncias do Bairro 1&ordm; de Maio, um bairro de imigrantes que se situar&aacute; numa zona perif&eacute;rica da cidade de Lisboa. Atrav&eacute;s de uma narrativa polif&oacute;nica, o texto oferece-nos diferentes e contrastantes perspetivas sobre um espa&ccedil;o intrinsecamente p&oacute;s-colonial. O que torna esta obra geograficamente interessante &eacute; o modo como se pode descobrir nela uma dualidade de representa&ccedil;&otilde;es sobre o espa&ccedil;o, a paisagem, as fronteiras e as territorialidades. O que se pretende apresentar neste ensaio s&atilde;o essas representa&ccedil;&otilde;es geogr&aacute;ficas e sociais relativas ao Bairro 1&ordm; de Maio presentes em <i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o</i>, com especial foco para a quest&atilde;o da fronteira entre o interior e o exterior do bairro, e como essa marca uma dualidade patente na polifonia da obra.</p>      <p>O presente ensaio ir&aacute; dividir-se em cinco partes distintas. A primeira ir&aacute; referir-se &agrave; leitura cr&iacute;tica do p&oacute;s-colonialismo e aos conceitos de geografia imagin&aacute;ria e de identidade h&iacute;brida. A segunda ir&aacute; problematizar as quest&otilde;es da segrega&ccedil;&atilde;o e das fronteiras que existem na cidade p&oacute;s-colonial. De seguida, apresentar-se-&atilde;o algumas perspetivas sobre os contornos da escrita de Lobo Antunes, com um foco particular nos temas do colonialismo e do p&oacute;s-colonialismo. A sec&ccedil;&atilde;o seguinte centrar-se-&aacute; na an&aacute;lise e discuss&atilde;o das representa&ccedil;&otilde;es geogr&aacute;ficas e sociais em <i>O Meu Nome &Eacute; Legi&atilde;o</i>. Finalmente, concluir-se-&aacute; ao se expor como, nesta obra, a alteridade e o hibridismo coexistem, criando espa&ccedil;os que s&atilde;o simultaneamente fronteiras e heterotopias.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Alteridade e Hibridismo</b></p>      <p>Segundo Ryan (2004: 471), o p&oacute;s-colonialismo, disciplina cr&iacute;tica que evoluiu a partir de autores como Said ou Bhabha, mas tamb&eacute;m Hall (2001) ou Spivak (1999), significa tanto a an&aacute;lise de “pessoas, estados e sociedades <i>depois</i> do colonialismo” como o facto de ser um “conjunto de teorias, ideias e pr&aacute;ticas comprometidas com a luta anticolonial, com o mover-se <i>para al&eacute;m</i> do colonialismo”<sup><a href="#1" name="top1" >[1]</a></sup>. Na Geografia, a inclus&atilde;o do p&oacute;s-colonialismo tem pretendido “fornecer leituras <i>cr&iacute;ticas</i> do poder, conhecimento e produ&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o colonial, e os seus efeitos em moldar o mundo presente” (Blunt, 2005: 179). Blunt refere que o p&oacute;s-colonialismo geogr&aacute;fico tem-se centrado em cinco tem&aacute;ticas: as geografias de encontro, conquista, coloniza&ccedil;&atilde;o e estabelecimento; as geografias das representa&ccedil;&otilde;es coloniais em formas escritas e visuais; a produ&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o em cidades coloniais e p&oacute;s-coloniais em termos de forma urbana, paisagem e experi&ecirc;ncias do quotidiano; os espa&ccedil;os racializados e sexualidades do colonialismo; e as geografias das migra&ccedil;&otilde;es, di&aacute;spora e transnacionalidade. Este estudo insere-se quase absolutamente na &uacute;ltima. Segue-se a linha de pensamento de Ryan (2004: 479), que defende que fazer geografias p&oacute;s-coloniais n&atilde;o &eacute; apenas uma quest&atilde;o de desconstruir representa&ccedil;&otilde;es culturais do poder imperial e colonial mas tamb&eacute;m explorar o quotidiano cultural e as resist&ecirc;ncias e negocia&ccedil;&otilde;es que subsistem nas zonas de contacto, “desde Londres at&eacute; Lagos”. No nosso estudo, iremos abordar uma perspetiva liter&aacute;ria sobre justamente uma dessas zonas de contacto, onde os aspetos geogr&aacute;ficos t&ecirc;m um peso real no decorrer das rela&ccedil;&otilde;es p&oacute;s-coloniais.</p>      <p>Da leitura cr&iacute;tica do p&oacute;s-colonialismo, extra&iacute;mos duas no&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o basilares para o quadro de an&aacute;lise da obra que aqui se trata. Estes s&atilde;o conceitos contrastantes mas, na amb&iacute;gua realidade que a escrita que Lobo Antunes desvenda, s&atilde;o complementares e esclarecedores. Come&ccedil;amos por abordar o conceito de geografia imaginada de Said, que se usa aqui no sentido de haver uma geografia do Outro. Edward Said, na sua obra <i>Orientalism</i> (1978), fez uma an&aacute;lise seminal que introduziu o conceito de geografia imaginada. Tomando como objeto de estudo v&aacute;rios textos de pa&iacute;ses Ocidentais, principalmente romances, o autor mostra como foi constru&iacute;da ao longo do tempo uma determinada ideia do Oriente como o oposto do Ocidente. Se o Ocidente era visto como racional, civilizado e progressivo, o Oriente era exatamente o oposto: a terra da selvajaria. Para Said, esta ideia gera-se a partir da coer&ecirc;ncia narrativa do texto Ocidental, que &eacute; principalmente o Europeu, que forma uma geografia imaginada. Esta &eacute; a geografia do Outro enquanto tudo o que &eacute; oposto ao pr&oacute;prio. Numa perspetiva alargada, uma geografia imaginada forma-se quando uma narrativa se desenvolve de modo coerente durante algum tempo acerca de um lugar e dos seus habitantes que est&aacute; para al&eacute;m de alguma fronteira ou com o qual simplesmente n&atilde;o se tem contacto direto. Esta narrativa, logicamente, apesar da sua coer&ecirc;ncia interna, n&atilde;o corresponde &agrave; realidade desse lugar. Para al&eacute;m disso, a partir da leitura de Said sobre o Ocidente e Oriente, verifica-se como a divis&atilde;o entre o Eu e o Outro acaba por corresponder a uma divis&atilde;o entre o civilizado e o selvagem, ou se quisermos, entre o bom e o mau. A dualidade cultural &eacute; constru&iacute;da enquanto dualidade &eacute;tica. </p>      <p>Bhabha (1994), por outro lado, apresenta o conceito de h&iacute;brido. Este conceito, n&atilde;o sendo completamente contrastante em rela&ccedil;&atilde;o ao conceito de Said, pressup&otilde;e uma din&acirc;mica diferente no encontro entre diferentes culturas. O h&iacute;brido &eacute; aquilo que resulta de um longo contacto entre duas culturas, e reflete aspetos de ambas. Reflete principalmente as ambiguidades e tens&otilde;es presentes nesse encontro. Para este autor, a coloniza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi uma rela&ccedil;&atilde;o pura de dominador/ dominado, e possibilitou uma negocia&ccedil;&atilde;o cultural, de onde surgiram novas identidades h&iacute;bridas. Este conceito aplica-se a cen&aacute;rios de contacto direto entre culturas, ao contr&aacute;rio da geografia imagin&aacute;ria, que emerge de uma produ&ccedil;&atilde;o cultural realizada em grande parte &agrave; dist&acirc;ncia. Este conceito de identidade h&iacute;brida pode ser aplicado ao caso da obra de Lobo Antunes, como se ver&aacute;, apesar de a dualidade e a alteridade do conceito de Said nunca ser posta em segundo plano. De facto, o h&iacute;brido e a dualidade entram em duelo permanentemente em <i>O Meu Nome &Eacute; Legi&atilde;o</i>.</p>      <p><b>Fronteira e Heterotopia</b></p>      <p>Segundo Escallier (2006: 79), a cidade, enquanto lugar de civiliza&ccedil;&atilde;o, organiza&ccedil;&atilde;o social e governo, &eacute; “fundadora de uma cidadania e de uma identidade”. No entanto, por ser um espa&ccedil;o aberto e lugar de mudan&ccedil;a e sociabilidade, ela cria diversidade, fundando-se nela outras formas de urbanidade. Assim, a cidade &eacute; invariavelmente um espa&ccedil;o de pluralidade, que tem de equilibrar a sua identidade pr&oacute;pria com as suas identidades interiores. </p>      <p>A pluralidade urbana acentua-se no presente panorama de globaliza&ccedil;&atilde;o. O conceito de cidade global (Sassen, 2001) est&aacute; hoje bem estabelecido e a influ&ecirc;ncia dos fluxos globais nas rela&ccedil;&otilde;es locais, em processos de glocaliza&ccedil;&atilde;o (Swyngedouw, 2004), &eacute; indiscut&iacute;vel. Nas cidades europeias, ap&oacute;s o fim do per&iacute;odo colonial, a metr&oacute;pole torna-se recetora de pessoas que v&ecirc;m das ex-col&oacute;nias. Em Lisboa, depois do 25 de Abril, a cidade acolhe um grande n&uacute;mero de retornados, Portugueses brancos que voltam das ex-col&oacute;nias. Ao longo dos anos 80 e 90, a imigra&ccedil;&atilde;o africana cresce e vai-se ancorar principalmente nos concelhos perif&eacute;ricos &agrave; cidade de Lisboa, verificando-se alguma segrega&ccedil;&atilde;o espacial (Malheiros, 1998). De facto, <i>clusters</i> (ou <i>ghettos</i>, consoante a valoriza&ccedil;&atilde;o) de migrantes come&ccedil;aram-se a formar em muitas das cidades europeias.</p>      <p>Neste contexto, a exist&ecirc;ncia de fronteiras na cidade parece inevit&aacute;vel. Escallier (2006: 81) refere que os conceitos de cidade e fronteira aparentam ser diametralmente opostos, dado que o primeiro implica abertura, movimento e unidade e o segundo imp&otilde;e confinamento, divis&atilde;o e oposi&ccedil;&atilde;o ao movimento. No entanto, numa cidade composta por diferentes grupos, surgem fronteiras internas, fruto tanto de processos de apropria&ccedil;&atilde;o territorial de um desses grupos como de confinamento de um desses grupos pelo poder hegem&oacute;nico da cidade que o pretende controlar. </p>      <p>De facto, van Kempen (1994: 995) refere-se &agrave; cidade contempor&acirc;nea como uma cidade dual. Esta cidade dual &eacute; uma em que se verifica uma segrega&ccedil;&atilde;o espacial entre dois p&oacute;los sociais: um de opul&ecirc;ncia econ&oacute;mica e outro de pobreza cr&oacute;nica. Segundo a autora, isto acontece devido &agrave; reestrutura&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica que teve efeitos no mercado de trabalho, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; desindustrializa&ccedil;&atilde;o e ao aumento do sector terci&aacute;rio na percentagem de emprego urbano e na sua bifurca&ccedil;&atilde;o em termos de acesso – distingue-se o emprego altamente qualificado e o emprego n&atilde;o-qualificado. Geram-se diferentes realidades sociais na cidade. Espacialmente, o resultado &eacute; a exist&ecirc;ncia de enclaves de pobreza que minam a capacidade de mobilidade social das pessoas que l&aacute; habitam, em fun&ccedil;&atilde;o de terem menos oportunidades de vida. Esses enclaves de pobreza geram menos oportunidades dessas devido a v&aacute;rios factores: o peso da normatividade da perten&ccedil;a local na pessoa inserida, que a faz considerar que &eacute; natural viver ali; o capital social que a pessoa tem, que n&atilde;o lhe permite muitas alternativas na vida; o provisionamento que tem nesse enclave em termos de acesso a servi&ccedil;os como educa&ccedil;&atilde;o ou servi&ccedil;os governamentais; e a estigmatiza&ccedil;&atilde;o que pode levar &agrave; pessoa ser rejeitada noutros ambientes devido &agrave; sua origem. </p>      <p>Embora van Kempen n&atilde;o se refira a quest&otilde;es &eacute;tnicas, o facto &eacute; que a etnicidade &eacute; um factor preponderante na divis&atilde;o social na cidade (Anthias, 2001). E a diversidade &eacute;tnica em muitas das cidades europeias, incluindo Lisboa, prov&eacute;m das correntes de imigrantes ap&oacute;s as descoloniza&ccedil;&otilde;es. Ainda assim, h&aacute; que ter em conta que as divis&otilde;es existentes e fronteiras resultantes n&atilde;o implicam quebra total dos fluxos na cidade. As diversas partes continuam interdependentes em variados aspetos e os processos de hibrida&ccedil;&atilde;o que Bhabha encontra na cidade colonial tropical prosseguem na cidade p&oacute;s-colonial europeia. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Deste modo, deve-se ver a cidade como um lugar din&acirc;mico e n&atilde;o est&aacute;tico. Os elementos que as comp&otilde;em, apesar de duais, relacionam-se entre si com mais ou menos tens&atilde;o. Massey (1994: 155) refere que os lugares hoje n&atilde;o t&ecirc;m fronteiras claras e identidades &uacute;nicas. As fronteiras, apesar de existirem, s&atilde;o fr&aacute;geis e perme&aacute;veis. Os lugares est&atilde;o cheios de contradi&ccedil;&otilde;es interiores que impedem um discurso ao mesmo tempo coerente e abrangente sobre o que s&atilde;o. Assim, a no&ccedil;&atilde;o de lugar urbano tem que ser a de um espa&ccedil;o aberto, atravessado por diferentes fluxos compostos por diferentes culturas. No entanto, as fronteiras permanecem, fruto das dualidades da cidade moderna. </p>      <p>Escallier (2006: 88) distingue tr&ecirc;s tipos de fronteiras que surgem no espa&ccedil;o urbano: as fronteiras impostas pelos poderes pol&iacute;ticos atrav&eacute;s da planifica&ccedil;&atilde;o e do espa&ccedil;o constru&iacute;do, as fronteiras criadas por mecanismos de segrega&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica e social; e fronteiras mentais, imagin&aacute;rias e imateriais. O que interessa em especial nesta an&aacute;lise ao texto de Lobo Antunes &eacute; o &uacute;ltimo tipo, embora as duas primeiras tenham obviamente import&acirc;ncia. O autor analisa o primeiro tipo de fronteiras principalmente com base nas cidades coloniais e na diferencia&ccedil;&atilde;o que havia nestas entre o espa&ccedil;o dos colonizadores e o espa&ccedil;o dos colonizados e a implica&ccedil;&atilde;o &eacute;tnica e rela&ccedil;&atilde;o de poder que da&iacute; resultava. No texto de Lobo Antunes, ver-se-&aacute; como o que existe &eacute; ainda consequ&ecirc;ncia desse processo, embora surja na cidade de Lisboa com uma l&oacute;gica invertida. Estas fronteiras no espa&ccedil;o urbano, em particular as mentais, t&ecirc;m a caracter&iacute;stica de estarem pouco materializadas. Dado isso, acabam por se tornar m&oacute;veis. A fronteira acaba por existir onde existe o contacto com o outro. Deste modo, o lugar urbano torna-se numa heterotopia. Foucault (1984) caracteriza as heterotopias como uma justaposi&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios espa&ccedil;os e tempos marcados pela diversidade. Estes s&atilde;o lugares de contacto com o Outro que potenciam a visibilidade dessa diversidade. Assim, s&atilde;o lugares de permanente negocia&ccedil;&atilde;o e contesta&ccedil;&atilde;o de identidades. No texto de Lobo Antunes, a fronteira ir&aacute; exatamente diluir-se numa heterotopia com estas caracter&iacute;sticas. </p>      <p>Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; quest&atilde;o da fronteira no caso que se estuda aqui, &eacute; pertinente tomar aten&ccedil;&atilde;o &agrave; cr&iacute;tica de Boaventura de Sousa Santos (2002). O autor argumenta que no colonialismo Portugu&ecirc;s n&atilde;o existe uma fronteira inequ&iacute;voca entre colonizador e colonizado. Isto acontece porque este processo de coloniza&ccedil;&atilde;o foi perif&eacute;rico. A empresa colonizadora de Portugal baseou-se em tornar o pa&iacute;s no centro dos territ&oacute;rios que s&atilde;o perif&eacute;ricos &agrave;s col&oacute;nias de outros pa&iacute;ses europeus. Segundo o autor, isto explica o a-centrismo da cultura portuguesa e a sua dificuldade de diferencia&ccedil;&atilde;o face ao exterior. Esta leitura encontra um eco na forma como o processo de descoloniza&ccedil;&atilde;o em Lobo Antunes se associa a uma escrita da perda. Pode-se entender que, pela dilui&ccedil;&atilde;o da cultura Portuguesa nas suas col&oacute;nias, a perda destas foi uma perda da sua identidade pr&oacute;pria. </p>      <p><b>Lobo Antunes numa Perspetiva P&oacute;s-colonial</b></p>      <p>O tema da Guerra Colonial e do processo de descoloniza&ccedil;&atilde;o s&atilde;o recorrentes na obra de Lobo Antunes. Seixo (2002: 499) refere que a tem&aacute;tica colonial existe em Lobo Antunes como motiva&ccedil;&atilde;o pretextual da escrita, dada a experi&ecirc;ncia pessoal do autor na Guerra Colonial Portuguesa. Eunice Cabral (2003: 363) escreve: “Os romances de Lobo Antunes at&eacute; hoje publicados (…) t&ecirc;m sempre como n&uacute;cleo da mat&eacute;ria efabulada uma perda. A perda &eacute; a de um lugar pr&oacute;prio do indiv&iacute;duo do mundo (…)”. Este tema da perda, nas obras que refletem sobre o colonialismo ou o p&oacute;s-colonialismo portugu&ecirc;s, reflete-se em primeira inst&acirc;ncia no plano humano. Seja o ex-combatente que regressa e j&aacute; n&atilde;o encontra o pa&iacute;s em que vivia quando partiu (<i>Os Cus de Judas</i>), seja o retornado que perdeu o pa&iacute;s onde vivia (<i>As Naus</i>), ou o imigrante que perdeu o seu pa&iacute;s de origem (<i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o</i>), o que est&aacute; em causa &eacute; a perda do lugar que a pessoa tinha no mundo. Num plano mais abstrato, pode-se aqui encontrar a j&aacute; referida ideia de Santos (2002) de que a perda das suas col&oacute;nias foi para o pa&iacute;s uma perda de parte de si devido &agrave; sua dificuldade de se diferenciar face ao exterior. Ainda assim, &eacute; de salientar a posi&ccedil;&atilde;o de Seixo que refere que a problem&aacute;tica dos romances de Ant&oacute;nio Lobo Antunes n&atilde;o &eacute; meramente a cr&iacute;tica do Salazarismo, do imperialismo ou da Guerra Colonial, apesar da presen&ccedil;a desses elementos, mas sim a apresenta&ccedil;&atilde;o de “um complexo de atitudes que envolve a desgra&ccedil;a do colonizado tanto como a do colonizador” (Seixo, 2002: 501).</p>      <p>Para al&eacute;m da dimens&atilde;o da perda, a alteridade &eacute; uma quest&atilde;o fundamental no tratamento do colonial e do p&oacute;s-colonial em Lobo Antunes. Seixo (2002: 510), baseando a sua an&aacute;lise na obra <i>O Conhecimento do Inferno,</i> argumenta que &eacute; o conhecimento do outro, seja da outra terra ou do outro habitante mas sempre na sua rela&ccedil;&atilde;o de diferen&ccedil;a e oposi&ccedil;&atilde;o ao europeu, que leva ao reconhecimento da sua aliena&ccedil;&atilde;o. Deste reconhecimento de aliena&ccedil;&atilde;o resulta o sentimento de estranheza que invade as personagens de Lobo Antunes. Martins (2003: 115); analisando <i>As Naus</i>, destaca o estranhamento e a n&atilde;o-perten&ccedil;a dos retornados em Lisboa como um tema central. Nesta obra, o retornado &eacute; o Outro da sociedade Portuguesa. Na obra que analisaremos, &eacute; o imigrante que surge como o Outro, e o estranhamento, apesar de subsistir no imigrante, existe tamb&eacute;m e principalmente na sociedade recetora. Fonseca (2003: 286-287), analisando a obra <i>O Esplendor de Portugal</i>, refere que apesar da representa&ccedil;&atilde;o bin&aacute;ria da cultura (no sentido que Said concetualizou, apesar de neste caso a dicotomia ser o branco\ negro), os temas de hibrida&ccedil;&atilde;o, transculturalidade e mesti&ccedil;agem (na senda de Bhabha) s&atilde;o centrais. O mesmo se aplica &agrave; obra que aqui se analisa. Seixo (2002: 507) destaca o car&aacute;ter heterot&oacute;pico dos lugares que Lobo Antunes descreve, dado serem pontos de comunica&ccedil;&atilde;o entre os dois p&oacute;los culturais do contexto colonial. O conceito de heterotopia, j&aacute; referido, pode ser aplicado aos lugares apresentados por Lobo Antunes, pois estes s&atilde;o s&iacute;tios de encontro e conflito entre Outros, ainda que tal n&atilde;o implique a inexist&ecirc;ncia de fronteiras, como se ver&aacute;. No entanto, parece inevit&aacute;vel a fronteira ser quebrada em <i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o</i>, como talvez em qualquer outra fronteira.</p>      <p>Um outro aspeto a ser referenciado em rela&ccedil;&atilde;o ao contexto p&oacute;s-colonial em Lobo Antunes &eacute; a transposi&ccedil;&atilde;o que confere continuidade de uma guerra colonial para uma p&oacute;s-colonial. Cardoso (2009: 4) refere que em <i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o</i> se v&ecirc;em as guerras humanas, a guerra colonial portuguesa e a guerra civil angolana, na forma de guerras interiores das personagens, atrav&eacute;s das identidades e integra&ccedil;&atilde;o social. O autor encontra na pr&oacute;pria obra de Lobo Antunes a ponte entre a guerra colonial portuguesa, no livro <i>Os Cus de Judas</i>, e as guerras interiores de <i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o</i>, referindo que &eacute; a mesma guerra, apesar de j&aacute; n&atilde;o ter lugar nos “cus de Judas”<sup><a href="#2" name="top2" >[2]</a></sup>, pois foi “des-locada”, <i>i.e.</i>, mudou de lugar e os actores perderam as suas ra&iacute;zes. Assim, a fronteira colonial n&atilde;o desapareceu, mas transferiu-se para o interior da metr&oacute;pole. Tamb&eacute;m Cabral (2003: 377) refere que “[d]a guerra colonial fracassada passa-se para a guerra que &eacute; das exist&ecirc;ncias que se movem por in&eacute;rcia e que se encontram destitu&iacute;das de qualquer tipo de finalidade”. Assim, a no&ccedil;&atilde;o de que o que existe na cidade p&oacute;s-colonial &eacute; ainda parte da configura&ccedil;&atilde;o da cidade colonial est&aacute; presente na obra de Lobo Antunes. Seixo (2002) defende que a travessia no tempo e o envolvimento na Hist&oacute;ria n&atilde;o s&atilde;o elementos presentes na obra de Lobo Antunes, apenas para o exerc&iacute;cio da reflex&atilde;o, mas para apresentar a experi&ecirc;ncia do lugar e dos atos que perfazem o colonialismo/ p&oacute;s-colonialismo.</p>      <p>Uma nota final para a escrita polif&oacute;nica de Lobo Antunes, que &eacute; importante perceber para compreender as contraposi&ccedil;&otilde;es que surgem em <i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o</i>. A polifonia exprime-se atrav&eacute;s da quebra da continuidade narrativa atrav&eacute;s da mudan&ccedil;a da voz que discursa. Atrav&eacute;s desta quebra, os enredos deixam de “obedecer ao princ&iacute;pio de linearidade” (Petrov, 2003: 231). A narrativa mant&eacute;m a sua coes&atilde;o apenas pela tem&aacute;tica principal que se manifesta ao longo da obra, como Cabral (2003: 370) o refere em rela&ccedil;&atilde;o ao <i>Auto dos Danados</i>. Constr&oacute;i-se, ent&atilde;o, uma representa&ccedil;&atilde;o da realidade a partir de diversos relatos, e o texto &eacute; formado por “hist&oacute;rias e tempos que engordam” (Arnaut, 2011: 78). Ou seja, em vez de seguir uma linha cont&iacute;nua clara, o texto vai-se preenchendo gradualmente por relatos e experi&ecirc;ncias das personagens. Outro aspeto que a polifonia permite &eacute; a descoberta da alteridade. Cabral (2003: 376) argumenta que em Lobo Antunes a identidade prov&eacute;m do confronto com o discurso do Outro. Ainda assim, segundo a autora, o conflito e o antagonismo est&atilde;o ausentes da obra de Lobo Antunes. Seixo (2002) partilha essa no&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o h&aacute; um conflito frontal entre as v&aacute;rias perspetivas das personagens. Em <i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o,</i> n&atilde;o se pode considerar uma aus&ecirc;ncia absoluta do conflito, apesar da aus&ecirc;ncia do confronto direto. Ainda que se possam encontrar similaridades entre os discursos de algumas personagens<sup><a href="#3" name="top3" >[3]</a></sup>, os pontos de vista s&atilde;o claramente antag&oacute;nicos entre os habitantes do bairro e os que v&ecirc;m do exterior. Existe uma dualidade vis&iacute;vel nas representa&ccedil;&otilde;es do bairro. Neste sentido, Monteiro <i>et al.</i> (2011: 5) referem como as “descri&ccedil;&otilde;es de narradores pr&oacute;ximos aos jovens trazem um contraponto &agrave; tentativa de desumaniza&ccedil;&atilde;o dos chamados ‘transgressores’ da lei”. Ao mesmo tempo, estes contrapontos v&atilde;o expor os contactos e as negocia&ccedil;&otilde;es que perfazem os processos de hibrida&ccedil;&atilde;o e transculturalidade sempre presentes.</p>      <p>Em suma, identific&aacute;mos aqui tr&ecirc;s dimens&otilde;es centrais do colonialismo/ p&oacute;s-colonialismo em Lobo Antunes: a da perda, a da tens&atilde;o entre o bin&aacute;rio cultural e a hibrida&ccedil;&atilde;o, e a da continuidade (ou transposi&ccedil;&atilde;o de elementos) entre o colonial e o p&oacute;s-colonial. Destas, ser&aacute; a tens&atilde;o entre o bin&aacute;rio cultural e a hibrida&ccedil;&atilde;o que mais se desenvolver&aacute; na an&aacute;lise a <i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o, </i>embora os outros aspetos n&atilde;o sejam afastados<i>.</i> Neste sentido, e em particular nesta obra, a polifonia &eacute; o meio estil&iacute;stico atrav&eacute;s do qual nos chega a alteridade que cria uma fronteira efetiva na cidade.</p>      <p><b><i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o: </i>Representa&ccedil;&otilde;es Geogr&aacute;ficas e Sociais</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O romance tem como ponto de partida a noite em que oito jovens do Bairro 1&ordm; de Maio efetuaram uma s&eacute;rie de assaltos na regi&atilde;o de Lisboa. A narrativa come&ccedil;a por ser um relat&oacute;rio policial em que um agente descreve formalmente os atos dos jovens, intercalando com devaneios de mem&oacute;rias passadas. A partir do quarto cap&iacute;tulo, a narrativa passa para o relato pessoal de pessoas do bairro, entrevistadas pela pol&iacute;cia para obter informa&ccedil;&otilde;es sobre a &aacute;rea e o grupo de jovens. No antepen&uacute;ltimo cap&iacute;tulo, regressa o modo de relat&oacute;rio policial, em que o primeiro narrador tenta fazer algum sentido a partir dos relatos dos habitantes, de modo a obter informa&ccedil;&otilde;es para proceder &agrave; captura dos jovens. O livro termina com o relato pessoal de um dos jovens do grupo da viv&ecirc;ncia do Bairro 1&ordm; de Maio e da noite em que a hist&oacute;ria se centra.</p>      <p>Ao longo da obra temos v&aacute;rias representa&ccedil;&otilde;es do Bairro 1&ordm; de Maio, tanto exteriores, por parte do narrador pol&iacute;cia que escreve o relat&oacute;rio e de uma habitante que foi viver para o bairro j&aacute; com cinquenta anos, como interiores, por parte de habitantes de longa dura&ccedil;&atilde;o. As representa&ccedil;&otilde;es exteriores e interiores diferem largamente entre si, como se ver&aacute;. Para al&eacute;m das representa&ccedil;&otilde;es sobre o bairro, tamb&eacute;m os limites deste s&atilde;o referidos, existindo elementos tanto naturais como humanos que servem de fronteira. Por &uacute;ltimo, &eacute; de referir a exist&ecirc;ncia de fronteiras mentais, menos palp&aacute;veis: o branco/ negro, o rico/ pobre e a luz/ escurid&atilde;o, esta &uacute;ltima presente num s&oacute; personagem.</p>      <p>A primeira perspetiva sobre o Bairro 1&ordm; de Maio que nos &eacute; apresentada &eacute; a do narrador pol&iacute;cia que escreve o relat&oacute;rio sobre os crimes cometidos pelo grupo de jovens. Aqui, para al&eacute;m de localizar o bairro na “regi&atilde;o noroeste da capital” (Lobo Antunes, 2007: 13), o narrador descreve o bairro alternando entre tentativas de ser objetivo e a sua opini&atilde;o pessoal. Descreve-o inicialmente como:</p>      <blockquote>(…) conhecido pela sua degrada&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica e inerentes problemas sociais (…) (<i>Ibidem</i>)</blockquote>      <blockquote>(…) conhecido pela sua degrada&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica e inerentes problemas raciais isto &eacute; um pudim de edif&iacute;cios de mat&eacute;rias n&atilde;o nobres, fragmentos de andaime, restos de alum&iacute;nio, canas e habitado por gente de Angola, criaturas mesti&ccedil;as ou negras e portanto propensos &agrave; crueldade e &agrave; viol&ecirc;ncia o que leva o signat&aacute;rio a questionar-se de novo preocupado &agrave; margem do presente relat&oacute;rio sobre a justeza da pol&iacute;tica de imigra&ccedil;&atilde;o (…) (<i>Idem</i>, 30)</blockquote>      <p>N&atilde;o s&oacute; o bairro &eacute; caraterizado primeiramente pela sua degrada&ccedil;&atilde;o e materiais de baixa qualidade, como os problemas raciais e sociais s&atilde;o associados ao local, naturalizando-os. O discurso de naturalidade dos comportamentos estende-se tamb&eacute;m &agrave; propens&atilde;o para a crueldade e viol&ecirc;ncia dos negros. O bairro em si &eacute; visto como o lugar dos Angolanos. Mais &agrave; frente, &eacute; referido como uma “criatura de ra&ccedil;a inferior” rumou “ao Bairro 1&ordm; de Maio onde talvez o protegessem ” (<i>Idem</i>, 69). O Bairro 1&ordm; de Maio, portanto, &eacute; visto como o lugar de habita&ccedil;&atilde;o, abrigo e prote&ccedil;&atilde;o de uma popula&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o &eacute; a mesma, &eacute; o Outro. E esse Outro torna-se para o pol&iacute;cia um “estigma social que n&atilde;o h&aacute; modo de os diferentes poderes (…) solucionarem” (<i>Idem</i>, 65). Sendo o Outro, o bairro e a sua popula&ccedil;&atilde;o tornam-se ileg&iacute;veis para o pol&iacute;cia narrador:</p>      <blockquote>o mapa do Bairro 1&ordm; de Maio que as Informa&ccedil;&otilde;es me entregaram uma anarquia de riscos, locais de pernoita, s&iacute;tios de encontro e trajectos preferidos (…) (<i>Idem</i>, 35)</blockquote>      <blockquote>o mapa e retratos todos id&ecirc;nticos dos sujeitos (<i>Idem</i>, 36)</blockquote>      <p>Dentro do bairro, a paisagem e as suas pessoas aparentavam ser incompreens&iacute;veis, e portanto era necess&aacute;rio estud&aacute;-los:</p>      <blockquote>estudava os riscos do Bairro 1&ordm; de Maio substituindo-os por cabanas, azinhagas, travessas, zonas</blockquote>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>(…)</blockquote>      <blockquote>onde vendiam ouro, electrodom&eacute;sticos e droga e onde de vez em quando um cad&aacute;ver a que ningu&eacute;m atendia salvo para lhe despir uma pe&ccedil;a at&eacute; o abandonarem nu ou com uma bota que n&atilde;o sa&iacute;a do p&eacute; &agrave; entrada da Amadora (<i>Idem</i>, 36-37)</blockquote>      <p>Apesar das tentativas, o pol&iacute;cia acaba por chegar &agrave; conclus&atilde;o que, mesmo quebrando a fronteira<sup><a href="#4" name="top4" >[4]</a></sup> e passando para o outro lado, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel compreender o local, e o bairro nunca deixa de ser o Outro:</p>      <blockquote>necessit&aacute;vamos de algu&eacute;m no interior</blockquote>      <blockquote>(…)</blockquote>      <blockquote>do Bairro que nos permitisse um mais eficaz planeamento da ac&ccedil;&atilde;o interventiva atrav&eacute;s de informa&ccedil;&otilde;es precisas</blockquote>      <blockquote>(mais ou menos precisas)</blockquote>      <blockquote>acerca da geografia do lugar</blockquote>      <blockquote>(para ser sincero muito pouco precisas)</blockquote>      <blockquote>como se algu&eacute;m conseguisse informa&ccedil;&otilde;es precisas de um rodopio</blockquote>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>(a&iacute; est&aacute;)</blockquote>      <blockquote>de desperd&iacute;cios e mis&eacute;ria a que constantemente se acrescentavam novas barracas, novas cabanas e novos becos (…) (<i>Idem</i>, 323)</blockquote>      <p>O pol&iacute;cia &eacute; talvez a personagem em que a representa&ccedil;&atilde;o bin&aacute;ria melhor se identifica. Para esta personagem, o bairro &eacute; sempre estranho e incompreens&iacute;vel. &Eacute; o lugar do Outro, sendo esse outro os Angolanos. A imagem do pol&iacute;cia (a autoridade) a olhar e tentar decifrar um territ&oacute;rio dos Angolanos (os subalternos) n&atilde;o est&aacute; muito distante da imagem do colonizador em &Aacute;frica, tentando dominar esse territ&oacute;rio. Identifica-se aqui uma transposi&ccedil;&atilde;o da l&oacute;gica colonial para um ambiente p&oacute;s-colonial, tal como Cabral (2003) e Cardozo (2009) o fizeram. Tamb&eacute;m o modo como o pol&iacute;cia tenta compreender o bairro – atrav&eacute;s de relatos e narrativas – &eacute; t&iacute;pico da constru&ccedil;&atilde;o de uma geografia imaginada, como Said (1978) o conceptualizou. N&atilde;o obstante, o pol&iacute;cia n&atilde;o passa deste plano de alteridade, pois n&atilde;o consegue quebrar a sua fronteira mental com o bairro, apesar de quebrar a f&iacute;sica.</p>      <p>Outra personagem, no entanto, consegue quebrar as duas fronteiras, atrav&eacute;s da viv&ecirc;ncia prolongada do bairro. Trata-se de uma mulher de cinquenta anos que vai viver para o bairro com um homem de dezoito anos. Este n&atilde;o se importa com a idade dela, porque ela &eacute; branca e ele negro (<i>Idem</i>, 73). </p>      <p>A representa&ccedil;&atilde;o que esta mulher tem do bairro muda ao longo da sua vida, e acaba tamb&eacute;m por mudar o modo como ela se v&ecirc; a si pr&oacute;pria. Antes de ir viver para o bairro, n&atilde;o sabe muito bem do que se trata ou onde fica:</p>      <blockquote>(…) morava num Bairro entre Lisboa e Amadora que n&atilde;o sei onde fica (…) (<i>Idem</i>, 77)</blockquote>      <blockquote>num Bairro de pobres que n&atilde;o sei onde fica nem lhe entendi o nome (…) (<i>Idem</i>, 86)</blockquote>      <blockquote>Ao chegar l&aacute;, n&atilde;o aprecia o lugar. No seu discurso, refere que nunca gostou do bairro e que passou o tempo a dizer a si pr&oacute;pria que se ia embora (<i>Idem</i>, 91). Ainda assim, o lugar muda-a. No in&iacute;cio ainda se sente branca:</blockquote>      <blockquote>sou branca</blockquote>      <blockquote>n&atilde;o tenho um colch&atilde;o em que deitar-me mas sou melhor que tu sou branca (<i>Idem</i>, 84)</blockquote>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mas com o passar do tempo a viver no bairro, perde essa representa&ccedil;&atilde;o de si pr&oacute;pria:</p>      <blockquote>ao tempo que sou preta, h&aacute; momentos em que n&atilde;o concebo haver tido outra cor (<i>Idem</i>, 104)</blockquote>      <blockquote>Ao mesmo tempo, sonha ainda com viver noutro lugar:</blockquote>      <blockquote>uma vivenda em Sintra em janeiro, flores escarlates e lilases, derramadas dos muros e n&oacute;s n&atilde;o mesti&ccedil;os nem pretos (<i>Idem</i>, 99)</blockquote>      <p>Esta mulher conseguiu passar n&atilde;o s&oacute; a fronteira f&iacute;sica com o bairro, mas tamb&eacute;m a fronteira mental. Quando chegou, tinha orgulho no facto de ser “branca”. No entanto, ser do bairro estava demasiado associado ao ser negro e, ao ganhar uma liga&ccedil;&atilde;o ao lugar, perdeu parte da sua identidade pessoal e tornou-se “preta”. Destaque-se aqui a import&acirc;ncia do tempo na forma&ccedil;&atilde;o da liga&ccedil;&atilde;o do lugar, que n&atilde;o existiu no pol&iacute;cia. O processo de se tornar “preta” ou “mesti&ccedil;a” por viver no bairro &eacute; claramente um processo de hibrida&ccedil;&atilde;o (Bhabha, 1994), proporcionado pela viv&ecirc;ncia prolongada do espa&ccedil;o do Outro.</p>      <p>Noutra passagem, a personagem diz que, em Sintra onde sonha viver, ela pr&oacute;pria j&aacute; n&atilde;o seria branca nem negra, mas sim escarlate e lil&aacute;s como as flores. Este desejo de partir para outro lugar parece poder ser entendido como um desejo de deixar para tr&aacute;s a hegemonia do bin&oacute;mio branco\ negro. Sintra surge como um lugar distinto dos outros lugares em <i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o</i>, pois, no imagin&aacute;rio desta personagem, essa cidade &eacute; caracterizada pelas cores das suas flores, e n&atilde;o pelas cores das pessoas que a habitam.</p>      <p>Oposta &agrave;s representa&ccedil;&otilde;es exteriores do Bairro 1&ordm; de Maio est&atilde;o as dos habitantes de longa data. Tomemos como exemplo o discurso de um dos habitantes:</p>      <blockquote>n&atilde;o &eacute; o Bairro que me complica com os nervos, habituaram-me desde o princ&iacute;pio a lugares assim (…) (<i>Idem</i>, 127)</blockquote>      <blockquote>(…) um ou outro grito no escuro l&aacute; fora derivado a um tiro ou ao vento e n&atilde;o &eacute; o Bairro que me complica com os nervos, nunca vivi melhor que isto, &eacute; o meu enteado horas a fio a passar-me rente &agrave; cara um avi&atilde;o de lata (…) (<i>Idem</i>, 128)</blockquote>      <blockquote>e tudo calmo &agrave; volta, troncos e ervas, nem um repique de sinos, n&atilde;o &eacute; o Bairro que me complica com os nervos, &eacute; a pol&iacute;cia a espiar-nos de vez em quando (…) (<i>Idem</i>, 132)</blockquote>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>o sossego do Bairro, n&atilde;o &eacute; o Bairro que me complica com os nervos (<i>Idem</i>, 145)</blockquote>      <p>Aqui, um habitante que sempre viveu no bairro est&aacute; &agrave; vontade com o mesmo, pois &eacute; o melhor lugar onde j&aacute; viveu. Apesar de gritos no escuro e tiros ocasionais, considera o lugar sossegado e calmo, e o que o afeta s&atilde;o ou coisas do quotidiano, como o enteado, ou a a&ccedil;&atilde;o delimitadora da pol&iacute;cia. &Eacute; tamb&eacute;m importante aqui a dimens&atilde;o temporal, pois na representa&ccedil;&atilde;o do pol&iacute;cia emergem relatos da viol&ecirc;ncia como norma ao contr&aacute;rio das representa&ccedil;&otilde;es dos habitantes em que a viol&ecirc;ncia &eacute; um elemento que rompe a paz habitual. </p>      <p>Nas representa&ccedil;&otilde;es dos habitantes, &eacute; de assinalar a import&acirc;ncia que t&ecirc;m os limites do bairro, onde existe claramente uma fronteira f&iacute;sica interior/ exterior. Essa fronteira &eacute; delimitada por v&aacute;rios elementos f&iacute;sicos, principalmente, vegeta&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m pela a&ccedil;&atilde;o humana, em particular da pol&iacute;cia que parece ser percebida como um agente observador quase constante. Estes elementos duplos que formam a fronteira tanto coexistem que parecem fundir-se: os “pol&iacute;cias nas figueiras bravas” (<i>Idem</i>, 137) tanto l&aacute; est&atilde;o que se acabam por gerar processos de metamorfose: “Se a Pol&iacute;cia permitisse e as figueiras bravas n&atilde;o se transformassem em homens que disparam at&eacute; esquecer o meu nome” (<i>Idem</i>, 372). &Eacute; a presen&ccedil;a policial principalmente que &eacute; sentida como a for&ccedil;a do confinamento do Bairro 1&ordm; de Maio pelos habitantes. A exist&ecirc;ncia desta fronteira entre o bairro e o exterior chega mesmo a condicionar o comportamento dos habitantes e a criar medo neles:</p>      <blockquote>e eu &agrave; espera do meu pai mesmo assim certo que havia de encontrar o caminho do Bairro n&atilde;o pelo lado das figueiras bravas e dos cactos, por cima o eucaliptal e a pedreira mas quem me garante que a pol&iacute;cia n&atilde;o na pedreira, no parque de campismo &agrave; sa&iacute;da da Amadora ou na auto-estrada com raparigas nos marcos quilom&eacute;tricos a acenarem &agrave; gente vindas de &Aacute;frica no acabar da guerra (<i>Idem</i>, 133)</blockquote>      <blockquote>a gente sa&iacute;a do Bairro sozinhos derivado &agrave; Pol&iacute;cia, um pelo parque de campismo, outro pelas figueiras bravas, outro pelo lado de Sintra (…) (<i>Idem</i>, 283)</blockquote>      <p>Esta fronteira que delimita o interior do bairro pobre dos Angolanos e o exterior da cidade dos brancos &eacute; a materializa&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica da separa&ccedil;&atilde;o entre duas culturas. No entanto, ela &eacute; v&aacute;rias vezes quebrada. Como j&aacute; se viu, a entrada da pol&iacute;cia no bairro &eacute; considerada como disruptiva da paz. Uma habitante chega mesmo a referir: “sei que n&atilde;o saio do Bairro mesmo que a Pol&iacute;cia ou os restantes brancos nos matem todos” (<i>Idem</i>, 170). De facto, a cidade para al&eacute;m das fronteiras do bairro &eacute; vista como o territ&oacute;rio dos brancos. Uma habitante, falando do seu namorado branco, indica que ele n&atilde;o morava no bairro, e que provavelmente morava “em Lisboa (…) como os ricos” (<i>Idem</i>, 175). A fronteira f&iacute;sica entre o interior e o exterior do bairro comporta consigo portanto outras fronteiras mentais (rico / pobre; branco / negro). Estas s&atilde;o transportadas pelas personagens habitantes do bairro mesmo quando est&atilde;o fora dele. Mesmo entre aqueles que passam regularmente a fronteira f&iacute;sica do bairro, permanece no seu modo de ver o mundo a diferencia&ccedil;&atilde;o branco / preto, que molda todas as suas rela&ccedil;&otilde;es sociais.</p>      <p>Existem portanto dois n&iacute;veis diferentes de fronteira no texto de Lobo Antunes, a f&iacute;sica entre o interior e o exterior do bairro, e a mental entre o que &eacute; associado ao bairro (o ser Africano, o ser pobre) e o que &eacute; associado &agrave; metr&oacute;pole<sup><a href="#5" name="top5" >[5]</a></sup> (o ser branco, o ser rico). Cardoso (2009: 8) refere que o bairro representa a comunidade, por agir “como um todo (…) autoprotetor”, e que &eacute; a pol&iacute;tica que “delimita o bairro, estabelecendo as fronteiras entre quem tem acesso e quem n&atilde;o o tem”. Estas fronteiras s&atilde;o de todo modo perme&aacute;veis. As personagens atravessam-nas e contactam o outro lado. Isto vem de encontro &agrave; ideia de Massey (1994) que os lugares deixaram de ter fronteiras claras e se tornaram espa&ccedil;os abertos. Deste modo, o bairro mostra-se tamb&eacute;m enquanto heterotopia (Foucault, 1984). Olhando <i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o</i> no seu conjunto, torna-se claro como o bairro 1&ordm; de Maio &eacute; o centro onde os dois lados do bin&oacute;mio se v&ecirc;m encontrar. Ele &eacute; o palco de contacto entre o branco e o negro, o rico e o pobre. O bairro &eacute; o elemento em comum entre as diferentes micro-narrativas de contactos entre os negros do bairro e os brancos de Lisboa, tendo portanto um car&aacute;ter intrinsecamente heterot&oacute;pico.</p>      <p>A um n&iacute;vel mais simb&oacute;lico e menos not&oacute;rio, &eacute; de referir tamb&eacute;m a fronteira luz/sombra que Lobo Antunes inclui na obra. Esta est&aacute; presente no discurso do pol&iacute;cia nos tr&ecirc;s primeiros cap&iacute;tulos e tamb&eacute;m no &uacute;ltimo cap&iacute;tulo, narradora por um dos jovens do grupo. Esta fronteira, que existe apenas &agrave; noite, distingue dois territ&oacute;rios. A sombra &eacute; o territ&oacute;rio do clandestino, onde a invisibilidade concedida protege os atos proibidos. J&aacute; a luz surge como um resqu&iacute;cio do dia ou de uma mem&oacute;ria, uma intermit&ecirc;ncia na noite que funciona como uma janela de onde se pode observar um outro lugar, noutro tempo. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; fronteira da sombra podemos tomar como exemplo um excerto do in&iacute;cio do relat&oacute;rio do pol&iacute;cia:</p>      <blockquote>2 (duas) viaturas particulares de m&eacute;dia pot&ecirc;ncia estacionadas nas imedia&ccedil;&otilde;es da igreja a curta dist&acirc;ncia um da outra e no lado da rua em que os candeeiros fundidos</blockquote>      <blockquote>(vandalismo ou situa&ccedil;&atilde;o natural?)</blockquote>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>permitiam actuar com maior discri&ccedil;&atilde;o (…) (Lobo Antunes, 2007: 13)</blockquote>      <p>Nesta passagem, &eacute; vis&iacute;vel como a sombra &eacute; o territ&oacute;rio do clandestino, o lugar seguro para se cometer as ilegalidades fora da vista dos outros. Por outro lado, a luz surge no sentido oposto. “[A]s esta&ccedil;&otilde;es de servi&ccedil;o &agrave; noite iluminadas na beira do caminho” fazem o narrador pol&iacute;cia sentir-se “menos desditoso” e ele afirma que “se avizinham da no&ccedil;&atilde;o de felicidade” que h&aacute; tanto tempo procura (<i>Idem</i>, 15). P&aacute;ginas depois, esta fronteira &eacute; aplicada &agrave; fronteira entre o interior e o exterior do bairro, no momento em que os pol&iacute;cias cercam o bairro e v&ecirc;em apenas alguns metros &agrave; sua frente. Quando um dos jovens do grupo se aproxima, o pol&iacute;cia narra:</p>      <blockquote>apercebi-me da inequ&iacute;voca aproxima&ccedil;&atilde;o vinda do Bairro 1&ordm; de Maio</blockquote>      <blockquote>(…)</blockquote>      <blockquote>dif&iacute;cil de distinguir nas trevas com os telhados a subirem e a baixarem cada qual na sua cad&ecirc;ncia (…) (<i>Idem</i>, 63)</blockquote>      <p>Aqui, temos o interior do bairro como a sombra, o invis&iacute;vel que surge como prote&ccedil;&atilde;o ao clandestino. Do lado de fora, est&aacute; a visibilidade que se entrenubla na fronteira do bairro. Um dos pol&iacute;cias que est&aacute; a ajudar na investiga&ccedil;&atilde;o chega mesmo a sugerir que se apanhem os suspeitos individualmente fora do bairro (<i>Idem</i>, 38), de modo a ser mais eficaz, sinal da impercetibilidade que a pessoa exterior tem ao bairro. </p>      <p>Uma refer&ecirc;ncia &agrave; escurid&atilde;o vinda do interior do bairro &eacute; feita no &uacute;ltimo cap&iacute;tulo. Um dos jovens do grupo refere:</p>      <blockquote>&Agrave;s escuras o p&aacute;tio do recreio dava a ideia que grande. Como o Bairro dava a ideia que grande. Ou o parque de campismo. Ou a Amadora. E na realidade acanhados. Cheios de sombras vazias e de gritos contra os quais chocamos n&atilde;o descobrindo a sa&iacute;da. (<i>Idem</i>, 371-372)</blockquote>      <p>Nesta personagem, a escurid&atilde;o existe ainda num sentido do territ&oacute;rio do marginal na escrita de Lobo Antunes. No interior do bairro, a escurid&atilde;o j&aacute; n&atilde;o &eacute; entendida como o impercet&iacute;vel, mas por outro lado faz esquecer o confinamento e d&aacute; uma sensa&ccedil;&atilde;o de imensid&atilde;o. No entanto, surge como um espa&ccedil;o de paz e sossego, ao inv&eacute;s da possibilidade de realizar atos ilegais que o pol&iacute;cia v&ecirc; nela. Destaca-se de qualquer modo como nesta personagem a escurid&atilde;o se estende a toda a Amadora e n&atilde;o s&oacute; ao Bairro 1&ordm; de Maio ou &agrave;s zonas sem ilumina&ccedil;&atilde;o, como na perspetiva do pol&iacute;cia. Esta fronteira entre luz / sombra, sendo simb&oacute;lica, tamb&eacute;m se torna mais m&oacute;vel, mais suscet&iacute;vel de flutua&ccedil;&otilde;es conforme a subjectividade. </p>      <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O primeiro aspeto que se evidencia nesta obra &eacute; a dualidade nas representa&ccedil;&otilde;es do Bairro. Para os de fora, numa geografia principalmente imaginada, no interior do bairro est&aacute; a degrada&ccedil;&atilde;o e o impercet&iacute;vel. &Eacute; o lugar do Angolano e o territ&oacute;rio que abriga o marginal. Para os habitantes, a descri&ccedil;&atilde;o &eacute; mais pl&aacute;cida e s&atilde;o as inger&ecirc;ncias do exterior, especialmente da pol&iacute;cia, que trazem a instabilidade consigo. De destacar a experi&ecirc;ncia da mulher de cinquenta anos que fora do bairro se sentia branca, e ao viver no bairro, como que passou para o outro lado e perdeu a sua identidade inicial e tornou-se negra. Aqui, est&aacute; patente a ideia de que o lugar determina a pessoa. Quem est&aacute; dentro &eacute; negro e pobre, quem est&aacute; fora &eacute; branco e rico. De qualquer modo, quem estiver do outro lado &eacute; o Outro. </p>      <p>O que nos leva ao segundo aspeto de import&acirc;ncia, que &eacute; a quest&atilde;o da fronteira. Esta, como se viu, &eacute; delimitada tanto por elementos naturais como humanos, sendo a presen&ccedil;a dos pol&iacute;cias vista como uma for&ccedil;a de confinamento. Esta fronteira molda comportamentos e &eacute; a materializa&ccedil;&atilde;o da dualidade que se destacou como primeiro aspeto. No entanto, para al&eacute;m da fronteira f&iacute;sica, a fronteira entre o interior do bairro e o exterior parece permanecer nas personagens em qualquer lugar, atrav&eacute;s das distin&ccedil;&otilde;es negro\ branco ou pobre\ rico. Na sociedade, &eacute; principalmente a origem, atrav&eacute;s da etnia, que funciona como o elemento que distingue o lugar da pessoa em qual dos lados da fronteira. </p>      <p>Apesar da presen&ccedil;a desta fronteira, a comunica&ccedil;&atilde;o existe entre os dois lados, sempre marcada pela tens&atilde;o da representa&ccedil;&atilde;o bin&aacute;ria da cultura. Este contacto &eacute; marcado pelo lado mais humano da obra, particularmente as rela&ccedil;&otilde;es de amor. Isto faz com que, num plano maior que o Bairro 1&ordm; de Maio, seja tamb&eacute;m Lisboa apresentada como uma heterotopia, onde se conflituam e negoceiam duas culturas que se op&otilde;em como o Outro de si. Este processo pode ser entendido como um processo de hibridismo, no sentido de Bhabha, que prossegue apesar da segrega&ccedil;&atilde;o e das tens&otilde;es raciais inerentes nas rela&ccedil;&otilde;es humanas. </p>      <p>Portanto, temos dois n&iacute;veis de rela&ccedil;&otilde;es presentes na obra. A n&iacute;vel social, observa-se a alteridade na representa&ccedil;&atilde;o cultural bin&aacute;ria. Ao mesmo tempo, existe uma din&acirc;mica de rela&ccedil;&otilde;es humanas entre o Eu e o Outro que cria processos de hibrida&ccedil;&atilde;o que coexistem com essa representa&ccedil;&atilde;o bin&aacute;ria. Da&iacute; nasce o conflito. A n&iacute;vel espacial, estas representa&ccedil;&otilde;es traduzem-se na exist&ecirc;ncia de fronteiras, praticamente apenas mentais. No entanto, estas fronteiras, se forem compreendidas como lugares de contacto, s&atilde;o tamb&eacute;m heterotopias – o lugar de coexist&ecirc;ncia com o outro. &Eacute; este o quadro de relacionamento de onde surge o conflito na obra de Lobo Antunes, arrastado das rela&ccedil;&otilde;es coloniais ultramarinas at&eacute; aos sub&uacute;rbios do S&eacute;culo XXI. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <!-- ref --><p>Anthias, Floya (2001), “The Concept of ‘Social Division’ and Theorising Social Stratification: Looking at Ethnicity and Class”, <i>Sociology</i>, vol. 35, n&ordm; 4, pp. 835-854.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000109&pid=S0807-8967201300030001200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Arnaut, Ana Paula (2011), “A Escrita Insatisfeita e Inquieta(nte) de Ant&oacute;nio Lobo Antunes”, in Cammaert, Felipe (org.), <i>Ant&oacute;nio Lobo Antunes: A Arte do Romance</i>, Lisboa, Texto Editora, pp. 71-88.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000111&pid=S0807-8967201300030001200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Blunt, A. (2005), “Colonialism / postcolonialism” in D. Sibley; D. Atkinson; P. Jackson; N. Washbourne. (eds.) <i>Critical Geographies,</i> Londres, IB Tauris, pp. 175-181.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000113&pid=S0807-8967201300030001200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Beja Horta, Ana (2008), <i>A Constru&ccedil;&atilde;o da Alteridade - Nacionalidade, Pol&iacute;ticas de Imigra&ccedil;&atilde;o e Ac&ccedil;&atilde;o Colectiva Migrante na Sociedade Portuguesa P&oacute;s-Colonial</i>, Lisboa, Gulbenkian.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000115&pid=S0807-8967201300030001200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Bhabha, Homi (1994), <i>The location of culture</i>, Londres, Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000117&pid=S0807-8967201300030001200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Cabral, Eunice (2003), “Experi&ecirc;ncias de Alteridade (A Guerra Colonial, A revolu&ccedil;&atilde;o de Abril, o Manic&oacute;mio e a Fam&iacute;lia)”, in Eunice Cabral, Carlos Jorge, Christine Zurbach (orgs.), <i>A Escrita e o Mundo em Ant&oacute;nio Lobo Antunes – Actas do Col&oacute;quio Internacional da Universidade de &Eacute;vora</i>, Lisboa, D. Quixote, pp. 363-378.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000119&pid=S0807-8967201300030001200006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Cardoso, Norberto do Vale (2009), &laquo;P&oacute;s-colonialismo e discursos de resist&ecirc;ncia na Legi&atilde;o de Ant&oacute;nio Lobo Antunes&raquo;, <i>VI Congresso Nacional Associa&ccedil;&atilde;o Portuguesa de Literatura Comparada / X Col&oacute;quio de Outono Comemorativo das Vanguardas</i>, Universidade do Minho, [em linha] dispon&iacute;vel em <a href="http://ceh.ilch.uminho.pt/publicacoes/Pub_Norberto_Vale_Cardoso.pdf" target="_blank">http://ceh.ilch.uminho.pt/publicacoes/Pub_Norberto_Vale_Cardoso.pdf</a> [consultado em 04-10-2013].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000121&pid=S0807-8967201300030001200007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Escallier, Robert (2006), “Les fronti&egrave;res dans la ville, entre pratiques et representations”, <i>Cahiers de la Mediterran&eacute;e</i>, vol. 73, pp. 79-105.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000123&pid=S0807-8967201300030001200008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Fonseca, Ana Margarida (2003), “Identidades Impuras – Uma Leitura P&oacute;s-colonial de O Esplendor de Portugal”, in Eunice Cabral, Carlos Jorge, Christine Zurbach (orgs.), <i>A Escrita e o Mundo em Ant&oacute;nio Lobo Antunes – Actas do Col&oacute;quio Internacional da Universidade de &Eacute;vora,</i> Lisboa, D. Quixote, pp. 281-296.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000125&pid=S0807-8967201300030001200009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Fortes, Ilda (2009), <i>A representa&ccedil;&atilde;o dos bairros de imigrantes na imprensa portuguesa</i>, Coimbra, Universidade de Coimbra [Tese de Mestrado].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000127&pid=S0807-8967201300030001200010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Foucault, Michel (1984). “Des espaces autres (conf&eacute;rence au Cercle d’&eacute;tudes architecturales, 14 mars 1967)”, <i>Architecture, Mouvement, Continuit&eacute;</i>, n&ordm; 5, pp. 46-49, [em linha] dispon&iacute;vel em <a href="http://1libertaire.free.fr/MFoucault120.html" target="_blank">http://1libertaire.free.fr/MFoucault120.html</a> [consultado em 04-10-2013].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000129&pid=S0807-8967201300030001200011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Hall, Stuart (2001), <i>Representation: cultural representations and signifying</i>, Londres, Sage.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000131&pid=S0807-8967201300030001200012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Lobo Antunes, Ant&oacute;nio (2007), <i>O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o</i>, edi&ccedil;&atilde;o <i>ne variateur</i>, Lisboa, D. Quixote.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000133&pid=S0807-8967201300030001200013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Malheiros, Jorge, (1998), “Minorias &Eacute;tnicas e Segrega&ccedil;&atilde;o nas Cidades: uma aproxima&ccedil;&atilde;o ao caso de Lisboa, no contexto da Europa Mediterr&acirc;nica”,<i> Finisterra</i>, vol. XXXIII, 66, pp. 91-118.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000135&pid=S0807-8967201300030001200014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Martins, Adriana (2003), “Notas Sobre a Configura&ccedil;&atilde;o do &laquo;Outro&raquo; em <i>As Naus</i> de Ant&oacute;nio Lobo Antunes”, in Eunice Cabral, Carlos Jorge, Christine Zurbach (orgs.), <i>A Escrita e o Mundo em Ant&oacute;nio Lobo Antunes – Actas do Col&oacute;quio Internacional da Universidade de &Eacute;vora</i>, Lisboa, D. Quixote, pp. 113-122.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000137&pid=S0807-8967201300030001200015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Massey, Doreen (1994), <i>Space, Place and Gender</i>, Minneapolis, University of Minnesota Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000139&pid=S0807-8967201300030001200016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Monteiro, George Uilian; Rosso, L&iacute;gia Pinto; Rodrigues, Rosane Vontobel; Ribeiro, Angela dos Santos (2011), “Po&eacute;tica da Viol&ecirc;ncia: O Meu Nome &eacute; Legi&atilde;o de Ant&oacute;nio Lobo Antunes”, <i>X Jornadas de Investigaci&oacute;n de la Facultad de Ciencias Sociales</i>, UdelaR Montevideo, [em linha] dispon&iacute;vel em <a href="http://www.fcs.edu.uy/archivos/Monteiro.pdf" target="_blank">http://www.fcs.edu.uy/archivos/Monteiro.pdf</a> [consultado em 04-10-2013].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000141&pid=S0807-8967201300030001200017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Petrov, Petar (2003), “A Escrita Polif&oacute;nica em Auto dos Danados e em Exorta&ccedil;&atilde;o dos Crocodilos de Ant&oacute;nio Lobo Antunes”, in Eunice Cabral, Carlos Jorge, Christine Zurbach (org.), <i>A Escrita e o Mundo em Ant&oacute;nio Lobo Antunes – Actas do Col&oacute;quio Internacional da Universidade de &Eacute;vora</i>, Lisboa, D. Quixote, pp. 229-240.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000143&pid=S0807-8967201300030001200018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Ryan, J. (2004). “Postcolonial Geographies”, in J.S. Duncan; N.C. Johnson; R.S. Schein (eds.), <i>A Companion to Cultural Geography</i>, Oxford, Blackwell, pp. 469-484.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000145&pid=S0807-8967201300030001200019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Said, Edward (1995), <i>Orientalism</i>, Londres, Penguim Books [1978].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000147&pid=S0807-8967201300030001200020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Santos, Boaventura de Sousa (2002), “Entre Prospero e Caliban: Colonialismo, P&oacute;s-colonialismo e Inter-identidades”, in Ant&oacute;nio Sousa Ribeiro & Maria Ramalho (orgs.), <i>Entre Ser e Estar. Ra&iacute;zes, Percursos e Discursos da Identidade</i>, Porto, Afrontamento, pp. 23-85.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000149&pid=S0807-8967201300030001200021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Sassen, Saskia (2001), <i>The global city: New York, London, Tokyo</i>. Princeton, Princeton University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000151&pid=S0807-8967201300030001200022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Seixo, Maria Alzira (2002), <i>Os Romances de Ant&oacute;nio Lobo Antunes</i>, Lisboa, D. Quixote.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000153&pid=S0807-8967201300030001200023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Spivak, Gayatri (1999), <i>A critique of postcolonial reason: toward a history of the vanishing present</i>, Massachusetts, Harvard University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000155&pid=S0807-8967201300030001200024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Swyngedouw, Erik (2004), “Globalisation or ‘Glocalisation’? Networks, Territories and Rescaling”, <i>Cambridge Review of International Affairs</i>, vol. 17, n&ordm; 1, pp. 25-48.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000157&pid=S0807-8967201300030001200025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>van Kempen, Eva (1994), “The Dual City And The Poor: Social Polarization, Social Segregation And Life Chances”, <i>Urban Studies</i>, vol. 31, n&ordm; 7, pp. 995-1015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000159&pid=S0807-8967201300030001200026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>[Recebido em 8 de maio de 2013 e aceite para publica&ccedil;&atilde;o em 4 de outubro de 2013]</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p><sup><a href="#top1" name="1" >[1]</a></sup> It&aacute;lico no original. Tradu&ccedil;&atilde;o nossa.</p>      <p><sup><a href="#top2" name="2" >[2]</a></sup> Express&atilde;o coloquial para lugar long&iacute;nquo.</p>      <p><sup><a href="#top3" name="3" >[3]</a></sup> Similaridades estas que v&atilde;o ao encontro de aspetos em comum ao longo de toda a obra de Lobo Antunes.</p>      <p><sup><a href="#top4" name="4" >[4]</a></sup> Voltar-se-&aacute; a esta quebra da fronteira adiante.</p>      <p><sup><a href="#top5" name="5" >[5]</a></sup> Pode-se aqui aperceber este termo no seu duplo sentido.</p>        ]]></body><back>
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