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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A filha (mais velha) de Joaquim Luís: Sobre As Três Irmãs]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In As Três Irmãs (The Three Sisters, 1862), Camilo Castelo Branco, giving in to bourgeois values (and by extension to the patriarchal morality), according to the most frequent interpretation of this novel, introduces us to Jerónima, who seems to embody the principles of the Old Regime. Uncompromisingly resisting to the ideals of the heart (the organ which, quite romantically, expands idealisations), the young lady, quite manly and endowed with a practical and entrepreneurial mind, is pleased to dedicate herself to commercial activities. This attachment to family and patriarchal order, I believe, is in fact, nothing but the denial of the patriarchal order itself and, consequently, of male dominance. This is because Jerónima, when all is said and done, does precisely what that order does not permit: she doesn’t get married, though emotionally very sought after, and in an obvious display of subversion of the patriarchal values, undertakes tasks which are eminently restricted to males, such as commercial and financial entrepreneurship.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[patriarcado]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>A filha (mais velha) de Joaquim Lu&iacute;s. Sobre <i>As Tr&ecirc;s Irm&atilde;s</i></b></p>      <p><b>The (older) daughter of Joaquim Lu&iacute;s. About <i>As Tr&ecirc;s Irm&atilde;s</i></b></p>      <p><b>S&eacute;rgio Guimar&atilde;es de Sousa*</b></p>      <p>*Departamento de Estudos Portugueses e Lus&oacute;fonos, Universidade do Minho, Braga, Portugal.</p>      <p><a href="mailto:spgsousa@ilch.uminho.pt">spgsousa@ilch.uminho.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>RESUMO</b> </p>     <p>     <p>Em <i>As Tr&ecirc;s Irm&atilde;s</i> (1862), Camilo Castelo Branco, cedendo, segundo a leitura que desta novela tem sido feita, a valores burgueses (e, por extens&atilde;o, &agrave; moralidade patriarcal), apresenta-nos uma protagonista, Jer&oacute;nima, que parece encarnar os preceitos do Antigo Regime. Resistindo intransigentemente aos ideais do cora&ccedil;&atilde;o (o &oacute;rg&atilde;o que, muito romanticamente, expande idealiza&ccedil;&otilde;es), a mo&ccedil;a, varonil e dotada de um esp&iacute;rito bem pr&aacute;tico e empreendedor, compraz-se em ocupar-se com atividades comerciais. Este apego &agrave; fam&iacute;lia e &agrave; ordem patriarcal, ao que creio, mais n&atilde;o ser&aacute;, em boa verdade, do que uma denega&ccedil;&atilde;o da ordem patriarcal e, consequentemente, da domina&ccedil;&atilde;o masculina. Isto porque Jer&oacute;nima, tudo bem visto, faz o que essa ordem n&atilde;o consente: n&atilde;o casa, apesar de sentimentalmente muito solicitada, e, num sinal evidente de subvers&atilde;o dos valores patriarcais, ocupa-se de tarefas eminentemente adstritas &agrave; condi&ccedil;&atilde;o masculina, como seja o empreendedorismo comercial e financeiro. </p> </p>     <p><b>Palavras chave</b>: patriarcado; casamento; Romantismo; empreendedorismo.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p> <b>ABSTRACT</b> </p>     <p>     <p>In <i>As Tr&ecirc;s Irm&atilde;s </i>(<i>The Three Sisters</i>, 1862), Camilo Castelo Branco, giving in to bourgeois values (and by extension to the patriarchal morality), according to the most frequent interpretation of this novel, introduces us to Jer&oacute;nima, who seems to embody the principles of the Old Regime. Uncompromisingly resisting to the ideals of the heart (the organ which, quite romantically, expands idealisations), the young lady, quite manly and endowed with a practical and entrepreneurial mind, is pleased to dedicate herself to commercial activities. This attachment to family and patriarchal order, I believe, is in fact, nothing but the denial of the patriarchal order itself and, consequently, of male dominance. This is because Jer&oacute;nima, when all is said and done, does precisely what that order does not permit: she doesn’t get married, though emotionally very sought after, and in an obvious display of subversion of the patriarchal values, undertakes tasks which are eminently restricted to males, such as commercial and financial entrepreneurship.</p> </p>     <p><b>Keywords</b>: patriarchy; marriage; Romanticism; entrepreneurship.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>1.</b> Jacinto do Prado Coelho n&atilde;o foi particularmente condescendente com <i>As Tr&ecirc;s Irm&atilde;s</i>. A certa altura de <i>Introdu&ccedil;&atilde;o ao Estudo da Novela Camiliana</i>, reportando-se &agrave; influ&ecirc;ncia pertinente, mas tamb&eacute;m (e talvez sobretudo) nociva, de Castilho, refere que o poeta</p>      <blockquote>poder&aacute; ter estimulado Camilo a trabalhar a sua prosa, o que, de certo modo, foi um bem, porque o novelista soube explorar o tesouro dos cl&aacute;ssicos e atingir aqui ou ali a s&oacute;bria eleg&acirc;ncia dum Frei Lu&iacute;s de Sousa, mas tamb&eacute;m foi um mal, porque a sua linguagem se tornou por vezes demasiado ret&oacute;rica, florida e amaneirada; e o culto da prosa rica sobrep&otilde;e-se por vezes em Camilo ao desejo de transmitir de modo exacto e sem rodeios as realidades humanas palpitantes. Felizmente, autor d’<i>As Tr&ecirc;s Irm&atilde;s</i>, &eacute; certo, mas criador tamb&eacute;m das <i>Novelas do Minho</i>, possu&iacute;a as necess&aacute;rias energias latentes para reagir contra a concep&ccedil;&atilde;o da literatura ao mesmo tempo acad&eacute;mica e burguesa, que o “&aacute;rcade p&oacute;stumo”, com os seus escritos, difundia. (Coelho, 2001: 113)</blockquote>      <p>Como se nota sem custo, a desconsidera&ccedil;&atilde;o d’<i>As Tr&ecirc;s Irm&atilde;s</i> assenta, desde logo, numa demarca&ccedil;&atilde;o de &iacute;ndole ret&oacute;rico-expressiva. Que &eacute; como quem diz: o novelista n&atilde;o ter&aacute; sabido distanciar-se de Castilho atrav&eacute;s de uma prosa menos “florida e amaneirada” e, como tal, mais apta &agrave; transmiss&atilde;o das “realidades humanas palpitantes”, muito ao inverso do que sucede em <i>Novelas do Minho</i>, texto reconhecidamente pautado por um fino recorte realista. Mas n&atilde;o &eacute; s&oacute; a fidelidade &agrave; li&ccedil;&atilde;o estil&iacute;stica de Castilho, com o excesso ret&oacute;rico pressuposto, que parece estar em causa neste desmerecimento da novela. H&aacute; ainda o argumento decisivo de que n’<i>As Tr&ecirc;s Irm&atilde;s</i>, como nalgumas outras novelas, sobretudo as de pendor mais marcadamente folhetinesco,<sup><a href="#1" name="top1" >[1]</a></sup> Camilo como que ter&aacute; cometido uma falha, por assim dizer, indefens&aacute;vel: subordinar a for&ccedil;a romanesca ao servi&ccedil;o (ideol&oacute;gico) dos valores burgueses. De resto, esta censura de o novelista alinhar com a doxografia burguesa, digamos assim, enveredando por um postulado consent&acirc;neo com a ordem patriarcal, presume-se, bem mais adiante, quando a dado passo Jacinto do Prado Coelho, ainda sobre <i>As Tr&ecirc;s Irm&atilde;s</i>, refere: “S&oacute; h&aacute; uma figura discordante, o estroina Duarte Pereira, devidamente punido. Tudo o mais insinua, com palavras mel&iacute;fluas, a doce alegria que resulta do cumprimento do dever” (<i>Idem</i>,267). E, j&aacute; agora, veja-se que umas linhas antes, relativamente &agrave;s novelas escritas sob os ausp&iacute;cios do jornal <i>Com&eacute;rcio do Porto</i>, entre as quais figura justamente <i>As Tr&ecirc;s Irm&atilde;s</i>, o sagaz cr&iacute;tico n&atilde;o deixa, com assinal&aacute;vel contund&ecirc;ncia, de apontar a capitula&ccedil;&atilde;o de Camilo perante a moralidade burguesa: “Na s&eacute;rie do <i>Com&eacute;rcio do Porto</i>, [...], &eacute; vis&iacute;vel que ele for&ccedil;ou a nota, cedendo &agrave; moral burguesa, pregando a cada passo, com florinhas de ret&oacute;rica, a obedi&ecirc;ncia aos pais, a honestidade, a gratid&atilde;o, etc. Ao mesmo tempo, sofreou sarcasmos e &iacute;mpetos de revolta” (<i>Idem</i>,266). Numa palavra, o novelista, que em tantas outras narrativas soube com n&atilde;o pouco &iacute;mpeto apregoar os valores do cora&ccedil;&atilde;o sobre os da raz&atilde;o utilitarista, atrav&eacute;s de acesos envolvimentos passionais radicados num imagin&aacute;rio exacerbadamente rom&acirc;ntico e pelo vi&eacute;s de uma corrosiva cr&iacute;tica &agrave; mentalidade utilitarista e ao esp&iacute;rito instrumental, aqui, socorrendo-se de uma ret&oacute;rica estilisticamente d&uacute;bia, porque, digamos, algo empastelada ou, pelo menos, assaz superficial (“palavras mel&iacute;fluas”, “florinhas de ret&oacute;rica”), esse mesmo novelista, recuando perante os (supostos) excessos da sua cr&iacute;tica noutras novelas, munido de uma ret&oacute;rica mordaz e penetrante, teria capitulado, atrav&eacute;s de um abuso de ret&oacute;rica sob a forma de um palavreado condescendente e v&aacute;cuo, perante os duvidosos valores da moralidade burguesa em detrimento da sua sensibilidade rom&acirc;ntica. Ali&aacute;s, como observa com inteira justeza Alexandre Cabral, a cr&iacute;tica social, quando vem ao de cima, &agrave; conta das falcatruas levadas a cabo por alguns burgueses sem escr&uacute;pulos, essa cr&iacute;tica surge tintada de suavidade e brandura ou ent&atilde;o de ironia (cf. Cabral, 1989: 636).<sup><a href="#2" name="top2" >[2]</a></sup><sup></sup></p>      <p>Os leitores familiarizados com a fic&ccedil;&atilde;o camiliana, verdade se diga, poder&atilde;o concordar amplamente com esta leitura sem dificuldade de maior. &Eacute; de resto f&aacute;cil sustent&aacute;-la sem grandes obst&aacute;culos a partir da caracteriza&ccedil;&atilde;o e do comportamento da mais proeminente das tr&ecirc;s irm&atilde;s, Jer&oacute;nima, que parece concentrar em si a fun&ccedil;&atilde;o de exemplificar a virtude da obedi&ecirc;ncia filial. Ao arrepio do desejo sentimental, inscreve-se num trajeto que enfatiza o sentido do dever filial, facto particularmente vis&iacute;vel na sua renit&ecirc;ncia em casar-se com quem quer que seja, n&atilde;o hesitando, ao inverso das irm&atilde;s, em sacrificar a poss&iacute;vel felicidade conjugal em prol dos pais. Sobretudo do progenitor, a quem presta um aux&iacute;lio precioso nos neg&oacute;cios e demais tarefas atinentes ao governo da casa parental. Mais tarde, falecidos os pais, Jer&oacute;nima, embora continue a ser sentimentalmente solicitada, como muito faz quest&atilde;o de sublinhar a narrativa, persiste abnegada a favor dos parentes. Enquanto precetora das crian&ccedil;as de uma abastada fam&iacute;lia portuense, contribuiu decisivamente para o sustento da fam&iacute;lia. Antes disso, esteve, &eacute; bom dizer, quase para casar; e o matrim&oacute;nio s&oacute; n&atilde;o se fez porque, entretanto, Jer&oacute;nima abdicou de casar a faz&ecirc;-lo sem o consentimento do pai do noivo, por muito que este manifestamente a amasse. O que diz bem do facto de a obedi&ecirc;ncia filial da personagem n&atilde;o se restringir a acatar as decis&otilde;es do pai, mas constituir um preceito inviol&aacute;vel e, por isso, a respeitar em qualquer circunst&acirc;ncia, quer dizer, seja com que tipo de pai for.<sup><a href="#3" name="top3" >[3]</a></sup> De outro modo: Jer&oacute;nima constitui o pilar fundamental sobre o qual se apoia o n&uacute;cleo familiar. Em clara sintonia com a moral burguesa, sacrificou-se em nome dos valores familiares, o que, como &eacute; evidente, a distingue, logo &agrave; partida, das personagens rom&acirc;nticas que, imbu&iacute;das de um fervoroso e inapag&aacute;vel sentimento amoroso, procuram por todos os meios emanciparem-se da insuport&aacute;vel tutela familiar.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ora bem, esta leitura, perfeitamente leg&iacute;tima, que se compraz em colocar a figura de Jer&oacute;nima numa &oacute;rbita bem distinta daquela em torno da qual gravitam as hero&iacute;nas camilianas elaboradas sob o signo da mundivid&ecirc;ncia rom&acirc;ntica – e este &eacute; o ponto que pretendo salientar –, n&atilde;o arru&iacute;na for&ccedil;osamente uma perce&ccedil;&atilde;o da personagem noutros moldes. Por outras palavras, creio bem ser poss&iacute;vel definir Jer&oacute;nima na propor&ccedil;&atilde;o de uma protagonista notoriamente dedicada a resistir &agrave; moral burguesa, com tudo o que esta sup&otilde;e e exige. N&atilde;o quero com isto, sejamos claros, argumentar a inviabilidade de uma leitura ancorada numa personagem afeta a valores tradicionais e descomprometida com expectativas rom&acirc;nticas. Mas tamb&eacute;m n&atilde;o desejo que essa leitura, em boa parte respons&aacute;vel pela subalterniza&ccedil;&atilde;o da novela no seio da cria&ccedil;&atilde;o romanesca camiliana, se converta <i>na</i> leitura exclusivamente correta.<sup><a href="#4" name="top4" >[4]</a></sup> O texto, ao que presumo, &eacute; bem mais complexo e deixa entrever outra possibilidade de interpreta&ccedil;&atilde;o n&atilde;o menos plaus&iacute;vel. Ou seja, existem diversos sinais suscet&iacute;veis de nos alertarem para a necessidade de aduzir um outro sentido ao desempenho de Jer&oacute;nima. A filha do negociante Joaquim Lu&iacute;s da Silva, com efeito, parece ser uma daquelas raras personagens capazes de focarem em si leituras discordantes. Neste sentido, segundo julgo, &eacute; poss&iacute;vel suspender uma das leituras e enveredar por outra. A clarivid&ecirc;ncia de Camilo, nesta novela mal avaliada, est&aacute; em que soube converter Jer&oacute;nima, e isso &agrave; custa de uma arquitetura narrativa altamente sofisticada, convir&aacute; dizer, numa protagonista suficientemente enigm&aacute;tica para o leitor dela extrair duas vis&otilde;es incompat&iacute;veis. Se, por um lado, Jer&oacute;nima &eacute; claramente insinuada de molde a apresentar-se como uma protagonista sem grande propens&atilde;o sentimental e que, em consequ&ecirc;ncia, se rege, a avaliar pelas suas atitudes e pelo seu inconfund&iacute;vel percurso biogr&aacute;fico, privilegiadamente por cren&ccedil;as, normas e valores propalados pela tradi&ccedil;&atilde;o; por outro lado, ao arrepio desta leitura, n&atilde;o ser&aacute; ileg&iacute;timo encarar a personagem sob um ponto de vista radicalmente diferente: aquele segundo o qual Jer&oacute;nima se define pelos tra&ccedil;os de uma filha que n&atilde;o consente, embora aparentemente pare&ccedil;a consentir, na ordem patriarcal institu&iacute;da, resistindo, a seu modo, sem concess&otilde;es a essa ordem que subalterniza sem merc&ecirc; a condi&ccedil;&atilde;o feminina.<sup><a href="#5" name="top5" >[5]</a></sup> Consequentemente, a vis&atilde;o da novela como (mais) um deslize do autor no sentido de cativar a moralidade burguesa perde f&ocirc;lego e, com isso, torna-se poss&iacute;vel reabilitar o texto (se &eacute; que alguma vez foi ferido de morte).</p>      <p><b>2.</b> Antes de mais, comecemos por afirmar que &eacute;, desde logo, imposs&iacute;vel ignorar o facto de pouco sabermos, em bom rigor, sobre a personagem. Neste sentido, &eacute; dif&iacute;cil sustentar a presun&ccedil;&atilde;o de esta corporificar exemplarmente os valores patriarcais-burgueses. Quer isto significar que o que sabemos de Jer&oacute;nima n&atilde;o prov&eacute;m privilegiadamente do que a mo&ccedil;a nos confidencia, mas radica essencialmente em leituras que dela Camilo, muito habilmente, nos fornece por interposta presen&ccedil;a dos restantes protagonistas; e esta defini&ccedil;&atilde;o de Jer&oacute;nima contribui decisivamente no sentido de a tornar um tanto enigm&aacute;tica, uma vez que as vis&otilde;es apresentadas por cada um sobre a filha do comerciante n&atilde;o coincidem for&ccedil;osamente. Acontece at&eacute; que uma mesma personagem se veja impelida a reformular o seu entendimento relativamente &agrave; filha do negociante Joaquim Lu&iacute;s, ao aperceber-se que a mo&ccedil;a, no fim de contas, n&atilde;o corresponde ao ju&iacute;zo que dela fazia. Eis como come&ccedil;a uma fala de Jos&eacute; da Fonseca, dirigindo-se a Pedro, com a inten&ccedil;&atilde;o salutar de lhe desmistificar a imagem de Jer&oacute;nima e de assim o levar a esquec&ecirc;-la: “Sr. Pedro [...], conven&ccedil;amo-nos de uma verdade que eu tenho h&aacute; muito escondido do justo ressentimento do seu cora&ccedil;&atilde;o” (<i>Idem</i>, 183). Essa verdade ser&aacute; a incapacidade de a filha do comerciante amar quem quer que seja como as outras mo&ccedil;as da sua idade, completamente absorta em quest&otilde;es corriqueiras e emp&iacute;ricas e desta forma desfasada da metaf&iacute;sica amorosa, ou, pelas palavras de Jos&eacute; da Fonseca, “[de ser] uma mulher que antep&otilde;e as raz&otilde;es do mundo &agrave;s propens&otilde;es da sua alma” (<i>Ibidem</i>). Tudo isso assume a clara evid&ecirc;ncia de Jer&oacute;nima se apresentar sob diversas perspetivas, ainda que a dist&acirc;ncia entre umas e outras n&atilde;o se afigure suficientemente cavada para provocar antinomias. De qualquer maneira, julgo serem dist&acirc;ncias suficientes para fissurarem certezas inabal&aacute;veis em torno da personagem. Nomeadamente as verdades (supostamente) irrebat&iacute;veis que porventura a convertem numa indefect&iacute;vel partid&aacute;ria da moralidade patriarcal. </p>      <p>Dir-se-ia, se quisermos, que Jer&oacute;nima se acha em not&oacute;ria situa&ccedil;&atilde;o de paralaxe. Ou seja, trata-se de uma personagem suscet&iacute;vel de oferecer uma vis&atilde;o distinta ou algo diferenciada em fun&ccedil;&atilde;o de quem sobre ela se pronuncia. Objetar-me-&atilde;o que isso &eacute; inevit&aacute;vel com quem quer que seja. O que sucede, por&eacute;m, aqui &eacute; que Camilo se compraz em fornecer a vis&atilde;o que os outros t&ecirc;m de Jer&oacute;nima e abst&eacute;m-se de ceder a palavra &agrave; pr&oacute;pria – a n&atilde;o ser no essencial em situa&ccedil;&otilde;es de di&aacute;logo, como &eacute; evidente, n&atilde;o sendo Jer&oacute;nima, note-se, particularmente loquaz –, como seria entregar-lhe parte do relato da intriga, conforme sucede quando o novelista entrega a narra&ccedil;&atilde;o a Pedro, por exemplo. Deste modo, Jer&oacute;nima raramente se exp&otilde;e, pelo menos atrav&eacute;s da fonte mais fidedigna para circunscrever a sua personalidade e que seria um relato da pr&oacute;pria sobre si mesma. O que permitiria desfazer d&uacute;vidas e corrigir perspetivas menos acertadas sobre o que realmente pensa, especialmente nessa mat&eacute;ria sens&iacute;vel que &eacute; o cora&ccedil;&atilde;o. Mas proceder desta forma seria, inevitavelmente, desfazer a ambiguidade da protagonista e, com isso, creio, reduzir-lhe drasticamente a espessura psicol&oacute;gica, que &eacute; muito tribut&aacute;ria, como se percebe, da sua indefini&ccedil;&atilde;o, ou se se preferir, das diversas defini&ccedil;&otilde;es que circulam sobre ela a partir do escrut&iacute;nio de terceiros. E refira-se que os tra&ccedil;os decisivos do car&aacute;cter da mo&ccedil;a n&atilde;o o s&atilde;o tanto que inviabilizem, discut&iacute;veis que sejam, as leituras v&aacute;rias que dela tecem. O certo, em s&iacute;ntese, &eacute; que o leitor n&atilde;o acede verdadeiramente &agrave;quilo que Jer&oacute;nima realmente pensa ou sente, a n&atilde;o ser talvez na carta que, j&aacute; na condi&ccedil;&atilde;o de preceptora de crian&ccedil;as, escreve a Jos&eacute; da Fonseca e onde enaltece a sua independ&ecirc;ncia. Tudo nela tende, pois, a provir privilegiadamente atrav&eacute;s de fonte indireta. Sabemos o que sabemos de Jer&oacute;nima essencialmente pelo que nos &eacute; dito dela. E o que dela nos &eacute; dito, como &eacute; l&oacute;gico, varia consoante o ponto de vista, n&atilde;o sendo, como se disse, precisa muita arg&uacute;cia para concluir daqui que Camilo, atrav&eacute;s desta estrat&eacute;gia discursivo-narrativa, resguarda a personagem de um entendimento est&aacute;vel e definitivo, que seria aquele que a pr&oacute;pria fosse capaz de enunciar. Est&atilde;o assim criadas as condi&ccedil;&otilde;es para tornar Jer&oacute;nima numa personagem algo impenetr&aacute;vel. Como observa com indesment&iacute;vel raz&atilde;o Slavoj Žižek: “C’est &agrave; l’endroit m&ecirc;me o&ugrave; surgit une pure diff&eacute;rence – une diff&eacute;rence qui ne concerne plus deux objets existant positivement, mais se pr&eacute;sente comme une diff&eacute;rence minimale dissociant un seul et m&ecirc;me objet de lui-m&ecirc;me – que cette diff&eacute;rence ‘comme telle’ co&iuml;ncide imm&eacute;diatement avec un objet insaisissable” (Žižek, 2008: 23).</p>      <p><b>3.</b> Mas &eacute; outra a raz&atilde;o pela qual se afigura discut&iacute;vel compaginar Jer&oacute;nima com a imagem <i>tout court</i> de uma donzela deliberadamente sacrificadora da sua felicidade sentimental em nome da inst&acirc;ncia familiar. Ao renunciar a propostas matrimoniais, trocando-as por uma inteira dedica&ccedil;&atilde;o &agrave; casa familiar, a filha do comerciante, note-se com toda a clareza, n&atilde;o sacrificou for&ccedil;osamente a sua felicidade pessoal. O inverso, em boa verdade, &eacute; que se afiguraria como um sacrif&iacute;cio incomport&aacute;vel. Se, a dada altura, Jos&eacute; da Fonseca, em conversa com Pedro, assinala que “Jer&oacute;nima cr&ecirc; que o mais sagrado dever neste mundo &eacute; a submiss&atilde;o de filha. Est&aacute; naquela alma juvenil a sabedoria, a raz&atilde;o, a prud&ecirc;ncia e a idade de Joaquim Lu&iacute;s” (Castelo Branco, 1974: 179), a verdade &eacute; que a mo&ccedil;a, que “cr&ecirc; que o mais sagrado dever neste mundo &eacute; a submiss&atilde;o de filha”, nunca acolheu de bom grado as propostas de casamento, n&atilde;o obstante o pai tentar convenc&ecirc;-la da pertin&ecirc;ncia em casar-se.<sup><a href="#6" name="top6" >[6]</a></sup> Joaquim Lu&iacute;s n&atilde;o a conseguir&aacute; demover, ou demover totalmente, de fazer aquilo que numa sociedade altamente conservadora como &eacute; a oitocentista, pelo menos a que radica nos valores patriarcais do antigamente, n&atilde;o anda longe da heresia: repudiar as propostas (vantajosas) de casamento e dedicar-se, como se de um homem se tratasse, ao com&eacute;rcio. O que de resto condiz &agrave; perfei&ccedil;&atilde;o com o seu perfil um tanto robusto, varonil, laborioso e empreendedor (“o seu atrevido instinto comercial”, como a dado passo refere o narrador, <i>Idem</i>, 155). Dir-se-ia o filho var&atilde;o de Joaquim Lu&iacute;s, como o pr&oacute;prio reconhece; ao passo que a esposa, a Sr.&ordf; Mariana, talvez menos condescendente com esta troca de g&eacute;neros, n&atilde;o se inibe, como quem constata uma anomalia surpreendente, de dizer repetidamente &agrave; filha: “&Oacute; mo&ccedil;a! Tu pareces-me um homem!” (<i>Idem</i>,21). Quanto aos colegas de of&iacute;cio do comerciante, n&atilde;o lhe poupam elogios: “Quantas fortunas encerradas na atividade daquela mo&ccedil;a, que os nossos filhos respeitam, e todos n&oacute;s querer&iacute;amos para filha!...” (<i>Idem</i>,64). N&atilde;o &eacute; descabido suspeitar que os comerciantes invejassem no perfil da filha de Joaquim Lu&iacute;s as qualidades laborais de que careciam os filhos. Linhas atr&aacute;s, ali&aacute;s, pronunciava-se o narrador assim sobre a capacidade de trabalho de Jer&oacute;nima: “Jamais uma nuvem de enfado, um trejeito de aborrecimento, um vis&iacute;vel desejo de repouso!” (<i>Idem</i>, 63). Ao lavrador Ant&oacute;nio Pereira, que, ao arrepio de inclina&ccedil;&otilde;es sentimentais, reduz o casamento das filhas do negociante &agrave; mera conting&ecirc;ncia de estas se acharem solteiras, confidencia, n&atilde;o sem algum desalento, Joaquim Lu&iacute;s: “N&atilde;o &eacute; tanto assim, Sr. Ant&oacute;nio. A&iacute; tem Vossa Merc&ecirc; a minha Jer&oacute;nima que foi muito procurada e pedida, e nunca a pude convencer a casar-se” (<i>Idem</i>, 24). Como se v&ecirc; sem custo, o que Jer&oacute;nima faz &eacute;, a seu modo, contrariar a l&oacute;gica do patriarcado, que converte a mulher num objeto de desejo transacion&aacute;vel atrav&eacute;s de um casamento conveniente; e que veda &agrave; condi&ccedil;&atilde;o feminina a possibilidade de se imiscuir em afazeres puramente reservados ao homem, confinando-a ao lar. Ora a mo&ccedil;a n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o casa com quem o pai gostaria que casasse, e n&atilde;o chegar&aacute; a casar com quem quer que seja, como ainda consegue a proeza de se impor num dom&iacute;nio por excel&ecirc;ncia circunscrito ao poder masculino, que &eacute; o mundo dos neg&oacute;cios.<sup><a href="#7" name="top7" >[7]</a></sup> </p>      <p>E f&aacute;-lo astuciosamente, subvertendo a ordem patriarcal a partir do seu interior. Se n&atilde;o casa com determinada pessoa, recomend&aacute;vel do ponto de vista da genealogia ou do capital, a recusa n&atilde;o se fica a dever ao que mais atemoriza o regime patriarcal – o desejo –, antes aos valores que o patriarcado precisamente sup&otilde;e e propala: cuidar dos interesses familiares. E com este prop&oacute;sito irrepreens&iacute;vel, livra-se de uma presen&ccedil;a tutelar masculina sob a forma de marido e escapa a um lugar social subalterno, que lhe seria fatalmente imputado por via matrimonial. Fica assim salvaguardada a plena autonomia de uma protagonista que alcan&ccedil;a um estatuto profissional que n&atilde;o &eacute; suposto uma mulher desempenhar por for&ccedil;a da mentalidade de uma sociedade tradicional.</p>      <p>Numa palavra, dando azo ao seu perfil empreendedor e independente, Jer&oacute;nima, como n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil perceber, n&atilde;o sacrificou propriamente a sua natureza em fun&ccedil;&atilde;o de interesses superiores, como seriam os da fam&iacute;lia; sacrif&iacute;cio, isso sim, seria for&ccedil;&aacute;-la, custe o que custasse, ao matrim&oacute;nio, enclausurando-a numa exist&ecirc;ncia dom&eacute;stica. Veja-se que quando o pai a instiga a casar-se com Pedro, a mo&ccedil;a “respondeu com a negativa das suas propens&otilde;es, humilde na resposta, e <i>submissa ao sacrif&iacute;cio</i>” (<i>Idem</i>, 59; it&aacute;lico meu). E quando, mais tarde, o negociante volta &agrave; carga, eis o que lhe responde a filha: “Sempre <i>submissa ao sacrif&iacute;cio</i>, meu pai [...]; a minha felicidade tem de acabar; se meu pai lhe quer antecipar o fim, seja feita a vontade de Deus e a sua” (<i>Ibidem</i>; it&aacute;lico meu). Estes dois excertos s&atilde;o ainda oportunos por darem conta da estrat&eacute;gia que Jer&oacute;nima costuma mobilizar para convencer os interlocutores dos seus prop&oacute;sitos: primeiro, afirma sem concess&otilde;es o seu desejo (neste caso, n&atilde;o casar), para depois ent&atilde;o mold&aacute;-lo o mais poss&iacute;vel &agrave; ordem vigente, desarmando com isso a pretens&atilde;o patriarcal. Quer dizer, Jer&oacute;nima n&atilde;o deixa de afirmar com veem&ecirc;ncia que n&atilde;o pretende casar, mas, acrescenta, ceder&aacute; ao matrim&oacute;nio se essa for a decis&atilde;o inabal&aacute;vel do pai, ainda que essa decis&atilde;o acarrete inexoravelmente a sua infelicidade, cen&aacute;rio para o qual, em jeito de sacrificada, se diz preparada e que, como &eacute; evidente e como a pr&oacute;pria muito bem sabe, atendendo &agrave; condescend&ecirc;ncia do pai, n&atilde;o enfrentar&aacute;. Portanto, a mo&ccedil;a n&atilde;o procura impor irredutivelmente o seu ponto de vista pela for&ccedil;a, como seria teimar n&atilde;o casar e ponto final; antes, perspicazmente, o que neste contexto significa socorrer-se do subterf&uacute;gio da chantagem (note-se), faz com que a postura paterna se torne inexequ&iacute;vel. E isto, e aqui reside a perspic&aacute;cia da personagem, consegue-o sem infringir as normas e os c&oacute;digos patriarcais. N&atilde;o correspondendo ao desejo do pai, n&atilde;o desobedece, contudo, &agrave; vontade paterna.</p>      <p>Vejamos outro exemplo. Com o intuito de melhorar o neg&oacute;cio, afora os cereais, o arroz e o caf&eacute;, que seu pai j&aacute; comercializava, Jer&oacute;nima perspetiva armazenar azeite. A semelhante empreendimento op&ocirc;s-se-lhe o pai. Jer&oacute;nima n&atilde;o capitula e orienta a sua saciedade de diversificar neg&oacute;cios para uma atividade mais consent&acirc;nea com o seu estatuto de mulher: </p>      <blockquote>N&atilde;o p&ocirc;de Jer&oacute;nima levar &agrave; seriedade a galhofa de seu pai. Desistiu, e voltou o pensamento para outro lavor mais caseiro e adequado. Lembrou-se de fazer doce, mediante o ensino de uma criada de freiras Claras, que tinha sido de sua casa. Consentiram na empresa os pais, e Jer&oacute;nima deu-se toda &agrave;quele pesado trabalho, nas poucas horas que dantes reservava ao repouso (<i>Idem</i>, 61.) </blockquote>      <p>Em resumo, a mo&ccedil;a n&atilde;o desistiu de empreender um novo desafio comercial, s&oacute; que o n&atilde;o fez &agrave; custa da ordem patriarcal, encarnada pelos pais, o que fez foi adaptar-se a essa ordem, alcan&ccedil;ando um equil&iacute;brio razoavelmente consentido. Esta qualidade de saber adaptar-se &agrave;s circunst&acirc;ncias e, com isso, levar a efeito as suas inten&ccedil;&otilde;es, ainda que com altera&ccedil;&otilde;es pontuais, sem, por&eacute;m, melindrar os prop&oacute;sitos de fundo (neste caso espec&iacute;fico, empreender uma diversifica&ccedil;&atilde;o da atividade comercial), surge por diversas vezes. Mais um exemplo. Vendo a complei&ccedil;&atilde;o da filha a dar sinais de fraqueza, &agrave; conta do excesso de trabalho, Joaquim Lu&iacute;s acaba por lhe interditar o fabrico de doces; e sem compreender o esp&iacute;rito empreendedor da mo&ccedil;a, que &eacute; t&atilde;o avesso ao que se espera de uma filha, o comerciante censura-lhe a ambi&ccedil;&atilde;o nestes termos: “Quem te assim vir abarbada de projetos de ganhar dinheiro, h&aacute; de cuidar que est&aacute;s devorada de ambi&ccedil;&atilde;o” (<i>Idem</i>, 61). Jer&oacute;nima responde com uma franqueza &agrave; prova de bala: “E estou, meu pai” (<i>Ibidem</i>). O comerciante, desolado com a resposta, condena-lhe, ainda que sem excessivo poder persuasivo, a ambi&ccedil;&atilde;o, t&atilde;o contr&aacute;ria ao seu feitio crist&atilde;o e ao da mulher, como argumenta. &Eacute; ent&atilde;o que Jer&oacute;nima, moldando-se astuciosamente &agrave; situa&ccedil;&atilde;o, especifica os termos da sua ambi&ccedil;&atilde;o. Diz ela: “Ambiciosa da sua vida, meu pai; ambiciosa do seu descanso, e da sua sa&uacute;de. Cuidei que podia com mais algum trabalho poupar meu pai a cuidados e afli&ccedil;&otilde;es. Nesta esperan&ccedil;a, &eacute; que me pareceu preciso e estim&aacute;vel o dinheiro.” (<i>Ibidem</i>). E acrescenta, e este talvez seja um ponto decisivo, numa nota que nitidamente releva da revolta interior pela subalterniza&ccedil;&atilde;o a que a restringe a sua condi&ccedil;&atilde;o de mulher, revolta, como se pode ver, que n&atilde;o hesita em exprimir, embora sem o alcance de uma resist&ecirc;ncia firme contra o socialmente injustific&aacute;vel, uma vez que se resigna &agrave; ordem institu&iacute;da, como se de um fa(r)do perp&eacute;tuo se tratasse: “Era feliz eu, se conseguisse realizar o meu desejo; mas vejo que uma mulher &eacute; sempre mulher. Paci&ecirc;ncia. Meu pai continuar&aacute; a fatigar-se, e eu a ajud&aacute;-lo como at&eacute; agora” (<i>Ibidem</i>). Nesta passagem, numa formula&ccedil;&atilde;o bem significativa (“Mas vejo que uma mulher &eacute; sempre uma mulher”), salta &agrave; vista, &eacute; bom enfatizar, uma revolta da personagem sob a forma de flagrante dece&ccedil;&atilde;o perante o cancelamento de qualquer hip&oacute;tese de a mulher se emancipar um pouco que seja. Mas o mais importante no excerto talvez seja a deslegitima&ccedil;&atilde;o dessa revolta contra a domina&ccedil;&atilde;o masculina atrav&eacute;s de um recalcamento: aquele pelo qual Jer&oacute;nima, recuando, d&aacute; como certa – melhor seria dizer: inevit&aacute;vel – a irrelev&acirc;ncia social da mulher se comparada com a preval&ecirc;ncia de que goza o homem (“Paci&ecirc;ncia”); e, como tal, conforma-se a <i>servir </i>o progenitor, ainda que tal signifique um estado de coisas t&atilde;o pouco funcional que n&atilde;o impe&ccedil;a Joaquim Lu&iacute;s de se extenuar (“Meu pai continuar&aacute; a fatigar-se”). Mas esta resigna&ccedil;&atilde;o, anote-se, n&atilde;o deixa de dar azo, mesmo descontando a refer&ecirc;ncia &agrave; fadiga do comerciante, exatamente como na conversa a prop&oacute;sito do casamento, a um momento not&oacute;rio de chantagem baseado na ideia de felicidade (“Era feliz eu, se conseguisse realizar o meu desejo”); e o que essa chantagem enuncia, em rigor, &eacute; um ideal de felicidade atrav&eacute;s da concretiza&ccedil;&atilde;o de um desejo<sup><a href="#8" name="top8" >[8]</a></sup> que &eacute; uma for&ccedil;a que n&atilde;o circula na ordem do discurso tradicional: equiparar-se, para efeitos laborais, ao estatuto masculino;<sup><a href="#9" name="top9" >[9]</a></sup> e, refira-se, a aud&aacute;cia desta pretens&atilde;o reaparece na hora de nortear comercialmente a casa familiar, como sucede, depois da morte de Joaquim Lu&iacute;s, quando a incans&aacute;vel Jer&oacute;nima cisma importar caf&eacute; e a&ccedil;&uacute;car do Brasil, apoiada numa premissa que diz bem do seu esp&iacute;rito arrojado: “Sejamos ousados para sairmos desta tarefa do p&atilde;o de cada dia. Os perigos n&atilde;o h&atilde;o de estar reservados s&oacute; para n&oacute;s. O pai est&aacute; no c&eacute;u, e ele guiar&aacute; a nossa fortuna a porto de salvamento” (<i>Idem</i>, 156).</p>      <p>Mais do que isso: depois do falecimento do Joaquim Lu&iacute;s, Jer&oacute;nima &eacute; constrangida a viver com Jos&eacute; da Fonseca, a irm&atilde; e os filhos desta, que &eacute; como quem diz: sob a (patriarcal) tutela do cunhado enquanto chefe de fam&iacute;lia. N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil imaginar que a partida (intransigente) de Jer&oacute;nima, que prefere servir uma fam&iacute;lia portuense, mesmo com a desvantagem de se submeter a atividades puramente adstritas ao papel oitocentista da mulher (educar crian&ccedil;as e pouco mais), resulte da sua incapacidade em subordinar-se &agrave; depend&ecirc;ncia financeira, mas certamente tamb&eacute;m (sen&atilde;o sobretudo) simb&oacute;lica, do cunhado, por muito que o negue, quando este, bem sintomaticamente, lhe pergunta: “Viu no meu rosto um sinal que lhe fizesse lembrar que era apenas irm&atilde; de minha mulher, e um encargo para o pobre chefe de fam&iacute;lia?” (<i>Idem,</i> 198). Esta suspeita de Jos&eacute; da Fonseca &eacute; decerto, desde logo, a mais elementar evid&ecirc;ncia do constrangimento de a filha do falecido Joaquim Lu&iacute;s se sujeitar a uma figura masculina que, muito patriarcalmente, tomaria conta da sua subsist&ecirc;ncia. Mais adiante, tendo partido, escrever&aacute; a Jos&eacute; da Fonseca. A carta principia, muito significativamente, assim: “Meu irm&atilde;o. Obede&ccedil;o a uma for&ccedil;a superior. Sigo o meu destino” (<i>Idem,</i> 211). Esta ideia, bem camiliana, de uma provid&ecirc;ncia a ditar a inexorabilidade do trajeto das personagens serve aqui para enfatizar a singularidade de Jer&oacute;nima, que n&atilde;o &eacute; uma mulher (submissa) como as restantes, mesmo que, neste caso, se ache no papel de preceptora, incumb&ecirc;ncia t&atilde;o inversa &agrave; sua voca&ccedil;&atilde;o e t&atilde;o condizente com o papel da condi&ccedil;&atilde;o feminina numa sociedade patriarcal. De resto, depois de referir ao cunhado raz&otilde;es de &iacute;ndole econ&oacute;mica, eis algumas que convoca para justificar a sa&iacute;da: </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>Estou nova, tenho vigor, tenho vontade de trabalhar, e sinto-me doente da alma e corpo na ociosidade. Que posso eu fazer na sua companhia? Contar os meus dias de indol&ecirc;ncia e inac&ccedil;&atilde;o. Sentar-me &agrave; mesa para tomar uma parte do produto da actividade alheia. Levantar-me da mesa para me empregar em trabalhos, quase in&uacute;teis, com que as mulheres costumam encobrir a sua ociosidade. (<i>Idem</i>, 212.) </blockquote>      <p>Uma vez mais Jer&oacute;nima insurge-se contra o papel passivo reservado &agrave; mulher, o que, no seu caso, contrasta manifestamente com um temperamento e um vigor sedentos de atividade. Logo a seguir, acentuando o valor da independ&ecirc;ncia, reporta-se &agrave; satisfa&ccedil;&atilde;o – talvez mesmo melhor fosse dizer ao gozo – de n&atilde;o depender economicamente de quem quer que seja, apenas de si mesmo, no reconforto de receber o justo estip&ecirc;ndio pelo seu trabalho. Assim, esta missiva &eacute; a reitera&ccedil;&atilde;o do que antes se disse de Jer&oacute;nima: trata-se de uma personagem ancorada num ideal que &eacute; aquele de se elevar acima de uma condi&ccedil;&atilde;o de subalternidade ditada pelo g&eacute;nero e n&atilde;o pelo desm&eacute;rito laboral. Podemos ver nesta posi&ccedil;&atilde;o, que todos se apressam a louvar como exemplo de dedica&ccedil;&atilde;o extrema ao lar – ao lar patriarcal, repita-se –, um desvio para uma autonomia contr&aacute;ria aos fundamentos da fam&iacute;lia patriarcal, sobretudo estando em causa o destino de uma mulher solteira. A sa&iacute;da de Jer&oacute;nima do lar chefiado pelo cunhado foi a solu&ccedil;&atilde;o conveniente para que a mo&ccedil;a desse azo &agrave; sua sede de emancipa&ccedil;&atilde;o que &eacute;, antes de tudo, um profundo anseio de se valer a si pr&oacute;pria sem a intercess&atilde;o benevolente dos demais. N&atilde;o consentindo na domina&ccedil;&atilde;o masculina, e numa atitude n&atilde;o pouco audaciosa, Jer&oacute;nima proscreve a depend&ecirc;ncia. Pugna, em s&iacute;ntese, pela sua individualidade, numa sociedade em que a individua&ccedil;&atilde;o, a existir, n&atilde;o foge muito de um interesse superior chamado fam&iacute;lia e onde os trajetos individuais se sujeitam &agrave; responsabilidade coletiva. O caso agrava-se tratando-se de uma mulher, como &eacute; l&oacute;gico.</p>      <p>&Eacute; preciso entender que neste tipo de sociedade tradicional, que torna os ordenamentos sociais a um tempo naturais e necess&aacute;rios, a fam&iacute;lia assume a unidade nuclear da sua necessidade e da sua naturalidade, e de tal forma que quem n&atilde;o disp&otilde;e de parentes se pode ver remetido para uma situa&ccedil;&atilde;o marginal e perif&eacute;rica. O soci&oacute;logo Niklas Luhmann fala em <i>individualidade</i> assegurada mediante o princ&iacute;pio da <i>inclus&atilde;o</i>, para dar conta deste tipo de organiza&ccedil;&atilde;o social que desconsidera o indiv&iacute;duo situado &agrave; margem das rela&ccedil;&otilde;es sociofamiliares (cf. Luhmann, 1999: 146). Num tempo de transi&ccedil;&atilde;o mental e real como aquele em que Camilo viveu, a fam&iacute;lia ainda pode ser como que um rec&ocirc;ndito que <i>preservaria</i> dos insensatos &iacute;mpetos sentimentais, impedindo emancipa&ccedil;&otilde;es individuais; em rigor, ela <i>&eacute; interpretada</i> j&aacute; como esse recesso que preserva da debilita&ccedil;&atilde;o moderna da hierarquia, da progressiva car&ecirc;ncia daquele s&iacute;mbolo central (Deus), da desordem que se afigura ter curso no largo mundo povoado de indiv&iacute;duos inseguros, por isso que a sua vida consiste em errar de perigo em perigo. Por muito que os narradores camilianos possam por vezes desejar o contr&aacute;rio (e da&iacute; o papel amb&iacute;guo do patriarca nas suas fic&ccedil;&otilde;es), esta fam&iacute;lia idealizada deve j&aacute; compensar com alguma solidariedade afetiva da perda continuada da necessidade social. Ela existiria para <i>proteger</i> do mundo. Eis, que nem de prop&oacute;sito, o que diz Ant&oacute;nio Joaquim, em <i>Doze Casamentos Felizes</i>, ao seu interlocutor, o autor-narrador: </p>      <blockquote>A fam&iacute;lia, meu amigo, &eacute; a base fundamental da sociedade; e &eacute; ref&uacute;gio das virtudes acossadas pelas paix&otilde;es dos que vagabundeiam de escolho em escolho; &eacute; a arca santa que alveja no dorso empolado das tormentas do cora&ccedil;&atilde;o e do esp&iacute;rito. ‘Sem fam&iacute;lia, qual seria o destino da mulher?’ pergunta Legouv&eacute;. – Sem a fam&iacute;lia o que seria o homem? (Castelo Branco, 1979: 238.)</blockquote>      <p>Uma fam&iacute;lia funciona em termos de “uma rede de trocas e apoios rec&iacute;procos, al&eacute;m de conflitos e de &oacute;dios, que refor&ccedil;a, desmantela e mistura as linhas de descend&ecirc;ncia e de perten&ccedil;a. Ela dura muito para l&aacute; do tempo de um n&uacute;cleo familiar, vinculando e ligando ao mesmo tempo as gera&ccedil;&otilde;es” (Saraceno, 1997: 63). Isto quer significar que o conceito de fam&iacute;lia do antigamente se afigura assaz distinto da no&ccedil;&atilde;o de fam&iacute;lia moderna. Como &eacute; evidente, n&atilde;o se trata de um agregado composto simplesmente por pais e por filhos e que se renova de gera&ccedil;&atilde;o em gera&ccedil;&atilde;o. Em contraste com o que sucede na chamada fam&iacute;lia nuclear, a fam&iacute;lia das sociedades tradicionais, em conformidade de resto com a origem etimol&oacute;gica do lexema “fam&iacute;lia”, possui uma amplitude bem maior. Do ponto de vista sincr&oacute;nico, digamos assim, abarca tios, primos, sobrinhos, donzelas e mancebos, bem como os criados da casa e caseiros, conglobando o parentesco por consanguinidade e por alian&ccedil;a. N’<i>O Bem e o Mal</i>, por exemplo, Rui de Nelas Gamboa de Barbedo refere-se aos filhos de um seu falecido caseiro como sendo “filhos do meu cora&ccedil;&atilde;o” e, ainda, como “filhos dele [do caseiro Jos&eacute; Ferreira da Rechousa] que eu herdei” (Castelo Branco, 2003: 224). Na perspetiva diacr&oacute;nica, estende-se por v&aacute;rias gera&ccedil;&otilde;es. De resto, o prest&iacute;gio no Antigo Regime define-se por tr&ecirc;s vetores fundamentais e inextric&aacute;veis, que s&atilde;o a ascend&ecirc;ncia, o parentesco e as alian&ccedil;as. A coes&atilde;o de tais fam&iacute;lias assenta num mester (agr&iacute;cola, comercial, artesanal, etc.) e n&atilde;o porventura num sentimento de intimidade familiar. Enquanto as fam&iacute;lias modernas existem em torno da coes&atilde;o emocional dos seus membros, o que compensa a impessoalidade das rela&ccedil;&otilde;es sociais, as fam&iacute;lias tradicionais n&atilde;o convertem a intimidade sentimental num v&iacute;nculo especial ou determinante. Mais do que a coes&atilde;o sentimental, as fam&iacute;lias antigas servem para garantir a posi&ccedil;&atilde;o social dos seus membros. Como c&eacute;lula social b&aacute;sica de uma sociedade fortemente estratificada, a posi&ccedil;&atilde;o social de cada pessoa n&atilde;o prov&eacute;m de um esfor&ccedil;o pessoal em cada gera&ccedil;&atilde;o, mas resulta, ao longo de sucessivas gera&ccedil;&otilde;es, de um legado familiar. As rela&ccedil;&otilde;es hier&aacute;rquicas s&atilde;o taxadas pela sucess&atilde;o das gera&ccedil;&otilde;es. Sem hip&oacute;tese de mobilidade social, um comerciante &eacute;-o por ser filho de comerciante, sendo que o filho e mais tarde o neto tamb&eacute;m seguir&atilde;o, por legado familiar, o mesmo of&iacute;cio, e assim sucessivamente. Da&iacute; as dificuldades, para nos referirmos a outro exemplo camiliano, por que passa Fernando Gomes, o protagonista de <i>Agulha em Palheiro</i>.Decide estudar (&eacute; a educa&ccedil;&atilde;o laica como tentativa moderna de mobilidade social), mas debate-se com o sen&atilde;o de provir das classes baixas. &Eacute; filho de sapateiro, condi&ccedil;&atilde;o que muito o apoquenta face aos remoques dos colegas fidalgos, a mostrar que os indiv&iacute;duos n&atilde;o se definem pelas eventuais qualidades pessoais de que disp&otilde;em, antes pela linhagem a que pertencem, quer dizer, o lugar social que cada um ocupa – pressuposto s&oacute;lido e, por assim dizer, intoc&aacute;vel do Antigo Regime – prov&eacute;m de um preenchimento efetuado por hereditariedade: </p>      <blockquote>Nos col&eacute;gios, os mestres eram os primeiros a darem o exemplo das prefer&ecirc;ncias. A aplica&ccedil;&atilde;o no mo&ccedil;o da baixa trac&ccedil;&atilde;o era menos louvada que a pregui&ccedil;a no escolar de fam&iacute;lia ilustre. Este esc&aacute;rnio do Evangelho chegava at&eacute; Coimbra, onde se digladiavam primazias de nobreza, e s&oacute; com muita paci&ecirc;ncia para ultrajes e desprezos, conseguia formar-se o filho do art&iacute;fice, que n&atilde;o se abalan&ccedil;ava a entrar em comunh&atilde;o de ci&ecirc;ncia com os privilegiados da boa fortuna. (Castelo Branco, 1904: 23.)</blockquote>      <p>Regressando a Jer&oacute;nima, cumpre assumir que o que tudo isto significa &eacute; o facto de a personagem se apresentar algo desenquadrada do ponto de vista cultural e hist&oacute;rico. Se infringe os preceitos da ordem tradicional ao n&atilde;o acatar a sugest&atilde;o do pai para que se casasse com um partido a n&atilde;o desperdi&ccedil;ar, tamb&eacute;m n&atilde;o repudia tal imposi&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s de uma atitude tipicamente afeta &agrave; modernidade rom&acirc;ntica, isto &eacute;, n&atilde;o age como age por querer desejar livremente em conformidade com o cora&ccedil;&atilde;o e por n&atilde;o querer subordinar o seu desejo ao do pai. Jer&oacute;nima, cujo feitio desde a inf&acirc;ncia era pouco dado a manifesta&ccedil;&otilde;es de afeto e que trocava de muito bom grado a ternura de Joaquim Lu&iacute;s por um caderno onde pudesse ocupar-se com contas e trasladados (cf. Castelo Branco, 1974: 55), como que opta por uma terceira via: a que denega a pretens&atilde;o da ordem patriarcal em prol, ou supostamente em prol, como ficou dito, dos valores que essa ordem apregoa (a situa&ccedil;&atilde;o, sob outra modalidade, repete-se quando, falecido o pai, a mo&ccedil;a se v&ecirc; constrangida a viver sob a depend&ecirc;ncia do cunhado, subordina&ccedil;&atilde;o que repudiar&aacute;, conforme vimos).</p>      <p>Cabe agora indagar: se Jer&oacute;nima &eacute; assim t&atilde;o manifestamente talhada para os neg&oacute;cios e t&atilde;o pouco – ou aparentemente t&atilde;o pouco – talhada para a vida de casada, desde logo pela interfer&ecirc;ncia que essa vida acarretaria, &eacute; de crer, no sentido, muito provavelmente, de significar a impossibilidade de se devotar &agrave; atividade comercial que tanto parece apreciar; e se, al&eacute;m disso e por causa disso, &eacute; assim t&atilde;o ciosa da sua (inviol&aacute;vel) independ&ecirc;ncia, n&atilde;o obstante a sua inescap&aacute;vel condi&ccedil;&atilde;o de mulher oitocentista, ent&atilde;o, nesse caso, qual a raz&atilde;o pela qual se torna cr&iacute;vel insistir na tese do sacrif&iacute;cio, segundo a qual Jer&oacute;nima s&oacute; n&atilde;o casou porque se devotou inteiramente &agrave; fam&iacute;lia (tal como se pode argumentar, note-se, que partiu de casa procurando sustento noutra parte, &agrave; custa do seu labor, para n&atilde;o pesar no or&ccedil;amento escasso do cunhado, o que tende a ser, uma vez mais, o exerc&iacute;cio de um sacrif&iacute;cio)? Creio que essa tese colhe a sua legitima&ccedil;&atilde;o fundamentalmente numa passagem em particular: aquele trecho em que o inconsol&aacute;vel Pedro encontra Eul&aacute;lia e a inquire sobre o que se passou com a irm&atilde; depois de esta se deparar com a (muito prov&aacute;vel) resist&ecirc;ncia do pai de Pedro a que ambos casassem. Eul&aacute;lia faz ent&atilde;o uma descri&ccedil;&atilde;o nitidamente rom&acirc;ntica do sucedido. Vale a pena recordar:</p>      <blockquote>      <p>Pedi a Eul&aacute;lia que me contasse miudamente a morte de sua m&atilde;e.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>– Pouco posso dizer-lhe – respondeu ela, querendo em v&atilde;o sustar o choro. – Minha irm&atilde; Jer&oacute;nima adoeceu...</p>      <p>– Quando adoeceu? – interrompi.</p>      <p>– Depois que recebeu a carta de seu pai.</p>      <p>– Sabe o que meu pai lhe diria?</p>      <p>– Penso que reprovava o casamento.</p>      <p>– Mas sua irm&atilde; adoeceu nessa ocasi&atilde;o, logo depois que recebeu a carta de meu pai?</p>      <p>– Logo depois; e dizia-me &agrave;s vezes que levaria a Deus muitas ac&ccedil;&otilde;es de gra&ccedil;as, se lhe mandasse a morte.</p>      <p>– Falava-lhe em mim sua irm&atilde;?</p>      <p>– Nunca falou... s&oacute; uma vez, quando lhe disse a mana Maria que o Sr. Pedro estava a morrer.</p>      <p>– E que lhe disse?</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>– Que as mais felizes uni&otilde;es se faziam no c&eacute;u... Depois – continuou Eul&aacute;lia – minha m&atilde;e, vendo assim Jer&oacute;nima, come&ccedil;ou a adoentar-se e a dizer que n&atilde;o ia longe. (<i>Idem,</i> 186-187)</p>  </blockquote>      <p>Como se constata sem dificuldade, tudo aqui surge notoriamente tintado de romantismo. &Eacute;, por assim dizer, o momento alto em que Jer&oacute;nima, ainda que com poucas palavras, desvelaria, atrav&eacute;s – &eacute; bom notar – do relato da irm&atilde; o que realmente lhe iria na alma; e o que lhe iria na alma corresponderia &agrave;s expectativas rom&acirc;nticas de Pedro, mesmo com o risco de contrariar parte do que antes se disse de Jer&oacute;nima. Estou a pensar, evidentemente, sobretudo naquele momento em que Fonseca aju&iacute;za Jer&oacute;nima como mo&ccedil;a austera e sem cora&ccedil;&atilde;o, ou melhor, com “um cora&ccedil;&atilde;o aleijado, ou degenerado pela influ&ecirc;ncia dos costumes varonis em que se fez, e rapidamente consumiu a sua mocidade” (<i>Idem,</i> 183), e pede a Pedro “que tenha dignidade, que esque&ccedil;a Jer&oacute;nima, que volte &agrave; estima e confian&ccedil;a de seus pais, e, finalmente, que seja homem” (<i>Idem,</i> 184). Se prestarmos, por&eacute;m, alguma aten&ccedil;&atilde;o ao que nos &eacute; dito sobre a filha de Joaquim Lu&iacute;s, vemos que nada, na verdade, inviabiliza uma leitura consent&acirc;nea com as palavras acabadas de transcrever de Jos&eacute; da Fonseca. Como se disse, e repita-se, quem confidencia o teor rom&acirc;ntico das palavras de Jer&oacute;nima n&atilde;o &eacute; a pr&oacute;pria, mas uma das irm&atilde;s; e quem ouve tais palavras &eacute; um mo&ccedil;o imbu&iacute;do de cren&ccedil;as e expectativas rom&acirc;nticas e febril de amor por Jer&oacute;nima; e &eacute; esse mo&ccedil;o – repare-se – que arrasta uma paix&atilde;o incur&aacute;vel e que idealiza sem fim Jer&oacute;nima, que, por sua vez, transmite ao narrador a conversa. Creio que &eacute; necess&aacute;rio real&ccedil;ar que tudo isto cria um cen&aacute;rio de interlocu&ccedil;&atilde;o assaz pass&iacute;vel de deformar a mensagem nos seus prop&oacute;sitos, uma vez que a frase “Que as mais felizes uni&otilde;es se faziam no c&eacute;u” se presta a que nela cada um deposite o melhor da sua imagina&ccedil;&atilde;o. Mas mesmo que assim n&atilde;o fosse, &eacute; preciso notar o seguinte: por indesment&iacute;vel que possa ser a afirma&ccedil;&atilde;o de Jer&oacute;nima, por doente que tivesse ficado logo ap&oacute;s receber a resposta do pai de Pedro – o que n&atilde;o quer obrigatoriamente significar uma rela&ccedil;&atilde;o de tipo causa e efeito, embora seja evidente a sugest&atilde;o da mesma – e por doente que ficasse a m&atilde;e de Jer&oacute;nima por constatar a filha a padecer, isto tudo, esta converg&ecirc;ncia de atitudes com uma afirma&ccedil;&atilde;o de cariz eminentemente rom&acirc;ntico, n&atilde;o quer significar a certeza de que Jer&oacute;nima no &iacute;ntimo de si mesma amasse fulgurantemente Pedro e que desposasse intensamente a l&oacute;gica do amor rom&acirc;ntico. A &uacute;nica certeza com que ficamos &eacute; que se assim fosse – se fosse cr&iacute;vel este romantismo sentimental – dar-se-ia uma reviravolta (rom&acirc;ntica) bastante surpreendente na personagem, j&aacute; que iria contra tudo o que dela tender&iacute;amos a imaginar. Ora, a confid&ecirc;ncia de Jer&oacute;nima &agrave; irm&atilde;, mesmo na convic&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o se apresentar deturpada, n&atilde;o chega, presumo, para revelar uma consci&ecirc;ncia rom&acirc;ntica. De facto, podemos ler a afirma&ccedil;&atilde;o filiando-a meramente num dizer moral e n&atilde;o suspeitar nela a fei&ccedil;&atilde;o de um eco dram&aacute;tico que seria a marca reconhec&iacute;vel de quem sacrificou, &agrave; conta de uma heroica penit&ecirc;ncia familiar, um grande amor para esperar viv&ecirc;-lo onde se vivem os grandes e infind&aacute;veis amores – no absoluto. O que Camilo aqui fez foi porventura suscitar, digamo-lo deste modo, a d&uacute;vida relativamente &agrave; hip&oacute;tese de uma possibilidade rom&acirc;ntica na personagem no plano amoroso. Sobretudo ao n&atilde;o desfazer o imperativo rom&acirc;ntico por que se guia Pedro, que sempre viu em Jer&oacute;nima qualidades sentimentais e um devir rom&acirc;ntico dif&iacute;ceis de vislumbrar. &Eacute; claro que isto n&atilde;o quer dizer que a filha de Joaquim Lu&iacute;s fosse irremediavelmente nutrida por uma negatividade antirrom&acirc;ntica. A for&ccedil;a do romantismo de Jer&oacute;nima, penso, mede-se essencialmente pela sua persistente demanda de emancipa&ccedil;&atilde;o das castrantes estruturas sociofamiliares oitocentistas, sendo que – ponto crucial – opera essa emancipa&ccedil;&atilde;o a partir do interior do imperativo patriarcal, conforme assinal&aacute;mos. Ou, se se preferir, pelo facto de a personagem ansiar e conseguir, n&atilde;o sem resist&ecirc;ncia, a todo o custo manter uma liberdade, que a sociedade em princ&iacute;pio lhe negaria sem merc&ecirc; em virtude do seu g&eacute;nero, e faz&ecirc;-lo, como se viu, dando a not&oacute;ria impress&atilde;o de que se manteve fiel aos princ&iacute;pios advogados por uma sociedade que preza valores familiares e n&atilde;o tanto individuais, sobrepondo, em todo o caso, o homem &agrave; mulher. Todo o percurso de Jer&oacute;nima evidencia a reivindica&ccedil;&atilde;o de liberdade, n&atilde;o atrav&eacute;s de um conflito frontal com a ordem institu&iacute;da, antes por interm&eacute;dio de uma cesura na continuidade, liberdade que talvez atinja, paradoxalmente, o seu ponto culminante quando se v&ecirc; ocupada em tarefas tipicamente femininas ao servi&ccedil;o de uma outra fam&iacute;lia que n&atilde;o a sua. </p>      <p>Poder-se-ia deduzir daqui um fracasso, na medida em que Jer&oacute;nima, bem vistas as coisas, acaba confinada ao horizonte de uma matriz patriarcal atrav&eacute;s de um lugar que &eacute; aquele a que uma mulher de Oitocentos pode aspirar e n&atilde;o mais. Parece evidente que sim, por&eacute;m &eacute; preciso n&atilde;o esquecer que esse sacrif&iacute;cio – e aqui, ao que creio, pode falar-se decerto em sacrif&iacute;cio – surge como solu&ccedil;&atilde;o para o que seria um sacrif&iacute;cio, esse sim, intoler&aacute;vel: depender de Jos&eacute; da Fonseca. Significaria isto tornar-se naquilo que, verdade se diga, nunca foi: ref&eacute;m, em termos de subsist&ecirc;ncia, da fam&iacute;lia. Com a ida para o Porto, Jer&oacute;nima, pelo menos, alcan&ccedil;a o orgulho de se sustentar atrav&eacute;s do seu trabalho<sup><a href="#10" name="top10" >[10]</a></sup> e a n&atilde;o menor satisfa&ccedil;&atilde;o de escolher o rumo do seu trajeto.<sup><a href="#11" name="top11" >[11]</a></sup> </p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <!-- ref --><p>Castelo Branco, Camilo (1904), <i>Agulha em Palheiro</i>, 5.&ordf; ed., Lisboa, Parceria Ant&oacute;nio Maria Pereira [1863].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000058&pid=S0807-8967201300030001600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>––––, (1971), <i>A Filha do Doutor Negro</i>, 8.&ordf; ed., Lisboa, A. M. Pereira [1864].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000060&pid=S0807-8967201300030001600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>––––, (1974), <i>As Tr&ecirc;s Irm&atilde;s</i>, 11.&ordf; ed., Lisboa, Parceria A. M. Pereira [1862].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000062&pid=S0807-8967201300030001600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>––––, (1979), <i>Doze Casamentos Felizes</i>, 9.&ordf; ed., Lisboa, Parceria A.M. Pereira [1861].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000064&pid=S0807-8967201300030001600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>––––, (2003), <i>O Bem e o Mal</i>, Porto, Edi&ccedil;&otilde;es Caixotim [1863].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000066&pid=S0807-8967201300030001600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Badinter, Elisabeth (1985), <i>O Amor Incerto. Hist&oacute;ria do Amor Maternal (Do s&eacute;c. XVII ao s&eacute;c. XX)</i>, Trad. de Miguel Serras Pereira, Lisboa, Rel&oacute;gio D’&Aacute;gua [<i>L’Amour en plus</i>, 1980] .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000068&pid=S0807-8967201300030001600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Cabral, Alexandre (1989), <i>Dicion&aacute;rio de Camilo Castelo Branco</i>, Lisboa, Caminho.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000070&pid=S0807-8967201300030001600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Coelho, Jacinto do Prado (2001), <i>Introdu&ccedil;&atilde;o ao Estudo da Novela Camiliana</i>, 3.&ordf; ed., Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000072&pid=S0807-8967201300030001600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Luhmann, Niklas (1999), <i>Politique et complexit&eacute;. Les contributions de la th&eacute;orie g&eacute;n&eacute;rale des syst&egrave;mes</i>, Essais choisis, traduits de l’allemand et pr&eacute;sent&eacute;s par Jacob Schmutz, Paris, &Eacute;ditions du Cerf.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000074&pid=S0807-8967201300030001600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Matos, S. Campos (1990), <i>Hist&oacute;ria, Mitologia, Imagin&aacute;rio Nacional. A Hist&oacute;ria no Curso dos Liceus (1895-1939)</i>, Lisboa, Livros Horizonte.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000076&pid=S0807-8967201300030001600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Saraceno, Chiara (1997)<i> Sociologia da</i> <i>Fam&iacute;lia</i>, Trad. de M. F. Gon&ccedil;alves de Azevedo, Lisboa, Editorial Estampa.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000078&pid=S0807-8967201300030001600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Žižek, Slavoj (2008), <i>La parallaxe</i>, Paris, Fayard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000080&pid=S0807-8967201300030001600012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>[Recebido em 5 de maio de 2013 e aceite para publica&ccedil;&atilde;o em 20 de agosto de 2013]</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p><sup><a href="#top1" name="1" >[1]</a></sup> Como n&atilde;o deixa de ser o caso d’<i>As Tr&ecirc;s Irm&atilde;s</i>, novela inicialmente publicada sob a forma de folhetim em <i>O Comercio do Porto</i> entre janeiro de 1861 e fevereiro de 1862.</p>      <p><sup><a href="#top2" name="2" >[2]</a></sup> Uma raz&atilde;o avan&ccedil;ada por Alexandre Cabral para explicar a brandura de Camilo para com a moral burguesa &eacute; o facto, como sabemos, de o novelista por essa altura se achar na Cadeia da Rela&ccedil;&atilde;o do Porto, acusado de adult&eacute;rio. Assim, Camilo pretenderia atrav&eacute;s desta novela nada menos do que fornecer uma imagem “benigna”, como diz Alexandre Cabral, de si mesmo, capaz de lhe atenuar a m&aacute; reputa&ccedil;&atilde;o junto da burguesia portuense, que tantas vezes satirizou inclementemente noutras novelas (Cf. Cabral, 1989: 636). Estrat&eacute;gia, tudo bem visto, que poderia n&atilde;o ser sem consequ&ecirc;ncias no tocante a um julgamento mais favor&aacute;vel. Contudo, &eacute; preciso n&atilde;o esquecer que foi igualmente na condi&ccedil;&atilde;o de detido que Camilo redigiu <i>Amor de Perdi&ccedil;&atilde;o</i>, narrativa que enaltece a paix&atilde;o tumultuosa e p&otilde;e em evid&ecirc;ncia a fam&iacute;lia (a que &eacute; capitaneada por patriarcas autorit&aacute;rios e cheios de pros&aacute;pia, pelo menos) como fonte de preconceitos e de uma generalizada infelicidade conducentes &agrave; trag&eacute;dia irrepar&aacute;vel; e n&atilde;o ser&aacute; despiciendo igualmente assinalar que, ainda na condi&ccedil;&atilde;o de preso, o novelista n&atilde;o se inibia, muito provocadoramente, de gozar o privil&eacute;gio de passear ‘livremente’ pelas art&eacute;rias do Porto, a despeito, &eacute; de crer, dos olhares estupefactos dessa mesma burguesia que supostamente poupa em <i>As Tr&ecirc;s Irm&atilde;s</i>.</p>      <p><sup><a href="#top3" name="3" >[3]</a></sup> Quanto a esta quest&atilde;o da intransigente obedi&ecirc;ncia (melhor seria dizer: devo&ccedil;&atilde;o) filial, h&aacute; que perspetiv&aacute;-la, como &eacute; evidente, no contexto (ante-moderno) da &eacute;poca. Neste sentido, outorgava-se a miss&atilde;o ao chefe de fam&iacute;lia, que Elisabeth Badinter designa com justeza de “Pai-Marido-Senhor omnipotente” (Badinter, 1985: 28), a fun&ccedil;&atilde;o de asseverar que os filhos sacrificassem sem reservas os seus desejos e os seus sentimentos a favor da comunidade a que pertencessem. Por outras palavras: numa ordem assente no primado do coletivo (a fam&iacute;lia) e na desconsidera&ccedil;&atilde;o do individualismo (as aspira&ccedil;&otilde;es particulares), o pai &eacute; quem garante a domestica&ccedil;&atilde;o do desejo individual, tido como uma manifesta&ccedil;&atilde;o de inaceit&aacute;vel interesse ego&iacute;sta. Para relembrar, j&aacute; agora, uma curiosa personagem d’<i>A Filha do Doutor Negro</i>, o latinista Janu&aacute;rio Castro Silva, citemos a passagem em que este experiente pai de filhas, que j&aacute; foram insubmissas, confidencia a Jo&atilde;o Cris&oacute;stomo o papel decisivo de seu pai na domestica&ccedil;&atilde;o de seu ent&atilde;o intr&eacute;pido cora&ccedil;&atilde;o em tempos idos de juventude. Come&ccedil;a Janu&aacute;rio Castro Silva por afian&ccedil;ar que “O cora&ccedil;&atilde;o &eacute; o dem&oacute;nio, sr. Jo&atilde;o!… Se a gente, quando chega aos dezoito anos, pudesse tirar isto do peito como quem tira um lobinho do espinha&ccedil;o, outro galo nos cantara!…” (Castelo Branco, 1971: 74). E, a seguir, confia ao seu interlocutor o porqu&ecirc; de n&atilde;o ter sucumbido aos malef&iacute;cios de t&atilde;o indom&aacute;vel &oacute;rg&atilde;o: “Eu, na sua idade, sr. Jo&atilde;o, o que me valeu foi ter um pai que me trazia com cabe&ccedil;&otilde;es; sen&atilde;o as asneiras haviam de ser tantas como os gafanhotos da praga. As mulheres, as mulheres, sr. Jo&atilde;o!” (<i>Ibidem</i>). Ora bem, a interven&ccedil;&atilde;o do pai em tais meandros s&oacute; se afigura poss&iacute;vel na inteira medida em que temos a configura&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia tradicional em termos de um universo totalit&aacute;rio, organizado e unido sob a &eacute;gide da autoridade paternal (<i>pater familias</i>). A supremacia do pai assenta numa hierarquia de sentimentos que sujeita os membros da fam&iacute;lia ao seu arb&iacute;trio, depend&ecirc;ncia vis&iacute;vel na identifica&ccedil;&atilde;o dos filhos e da esposa com a sua pessoa e na ideia da preval&ecirc;ncia, em const&acirc;ncia e for&ccedil;a, do seu amor. A mulher identifica-se com o marido de acordo com o pressuposto dos Evangelhos, consagrado nas cerim&oacute;nias nupciais, de que s&atilde;o “carne de uma carne”; de que a mulher procedeu do corpo do homem e a ele retorna atrav&eacute;s do matrim&oacute;nio. No caso dos filhos, s&atilde;o amados no sentimento de que continuam os seus progenitores. O mesmo &eacute; dizer que um pai ao engendrar um filho se continua a si pr&oacute;prio. O filho faz parte da pessoa do pai. Isto explica que as a&ccedil;&otilde;es dos filhos (inj&uacute;rias, d&iacute;vidas...) incidam diretamente na pessoa do pai; e que entre pais e filhos, regra geral, n&atilde;o se permitam neg&oacute;cios; e ainda que os ganhos patrimoniais dos filhos fossem adquiridos pelo pai. Numa palavra, a fam&iacute;lia funciona a uma s&oacute; voz. A do Pai (n&atilde;o raramente tirano e cheio de pros&aacute;pia, a avaliar pela maioria dos patriarcas da fic&ccedil;&atilde;o camiliana).</p>      <p><sup><a href="#top4" name="4" >[4]</a></sup> Ali&aacute;s, se assim for, apetece afirmar que a desconsidera&ccedil;&atilde;o est&eacute;tico-liter&aacute;ria da novela, fundamentada nos valores conservadores que o texto enfatizaria, procede, em bom rigor, mais de uma inculcada leitura conservadora desse texto do que propriamente do que vem <i>de facto</i> no texto (e da inten&ccedil;&atilde;o de Camilo ao elabor&aacute;-lo). </p>      <p><sup><a href="#top5" name="5" >[5]</a></sup> E Jer&oacute;nima, diga-se, n&atilde;o &eacute; a &uacute;nica hero&iacute;na oitocentista pautada por um comportamento que a faz superar o lugar (socialmente pouco relevante) que o poder masculino no s&eacute;culo XIX reservava &agrave; condi&ccedil;&atilde;o feminina. Em <i>Hist&oacute;ria, Mitologia, Imagin&aacute;rio Nacional. A Hist&oacute;ria no Curso dos Liceus (1895-1939)</i>, S. Campos Matos chama a aten&ccedil;&atilde;o para este tipo de hero&iacute;nas viris: “N&atilde;o surpreende, pois, que numa conjuntura mental em que domina este paradigma do hero&iacute;smo, as raras hero&iacute;nas escolares revelem frequentemente qualidades que, do ponto de vista cultural, remetem para o universo masculino (Deuladeu Martins, a corajosa defensora da pra&ccedil;a de Mon&ccedil;&atilde;o contra os leoneses, a agressiva Padeira de Aljubarrota nos combates contra o inimigo externo, ou a determinada D. Filipa de Vilhena, que coloca o valor patri&oacute;tico acima do valor maternal).” (Matos, 1990: 167) </p>      <p><sup><a href="#top6" name="6" >[6]</a></sup> Da&iacute; que seja for&ccedil;oso, creio, alguma dist&acirc;ncia critica na hora de ler a carta que Jer&oacute;nima enviou ao pai de Pedro, sem que este soubesse. A certo momento da missiva, escreve Jer&oacute;nima: “Creio que todos os pais s&atilde;o como era o meu; e, assim como eu seria incapaz de desobedecer-lhe, penso que todos os filhos devem ser iguais na obedi&ecirc;ncia” (Castelo Branco, 1974: 182). &Eacute; preciso ver que Jer&oacute;nima escreve ao pai de Pedro por desconfiar fortemente de que este a aceite como nora, o que equivale a afirmar que, neste caso, a obedi&ecirc;ncia se poder&aacute; saldar por n&atilde;o casar com Pedro. Por outras palavras, &eacute; dif&iacute;cil, penso, n&atilde;o desconfiar de que a carta mais n&atilde;o tenha sido, ao fim e ao resto, do que a ratifica&ccedil;&atilde;o da sua inten&ccedil;&atilde;o, em boa verdade, de n&atilde;o casar com Pedro. Veja-se que a mo&ccedil;a, quando anuiu casar com Pedro, f&ecirc;-lo de um modo absolutamente desconcertante, porque desprovido da mais elementar manifesta&ccedil;&atilde;o sentimental: “Tenho uma palavra que lhe diga: casarei – respondeu ela [a Jos&eacute; da Fonseca], e continuou a bordar” (<i>Idem</i>,170). Neste sentido, o que a carta vem dizer ao pai de Pedro &eacute; algo como isto: “se me n&atilde;o quiser como nora, ter&aacute;, em nome da obedi&ecirc;ncia filial que para mim conta mais do que tudo, uma indefect&iacute;vel aliada para que o casamento se n&atilde;o realize”. E como diria, par&aacute;grafos adiante, Jos&eacute; da Fonseca, com o intuito de resfriar a paix&atilde;o alienante de Pedro: “Jer&oacute;nima n&atilde;o o amou nunca, nem o ama agora, mas o nosso caso est&aacute; no presente e no passado. Se o amasse, era sua esposa h&aacute; seis anos, e era-o agora e sempre, a despeito da vontade de seu pai. Rigor tal de sentimentos, n&atilde;o &eacute; pr&oacute;prio de mulher de vinte e dois anos, se ela sente algum afeto, n&atilde;o direi j&aacute; paix&atilde;o!” (<i>Idem</i>, 183). </p>      <p><sup><a href="#top7" name="7" >[7]</a></sup> Se perto do final da novela a vemos ocupada no papel de preceptora de crian&ccedil;as de uma abastada fam&iacute;lia portuense, essa fun&ccedil;&atilde;o feminina da personagem, convir&aacute; observar, resulta mais da conting&ecirc;ncia da vida do que de uma voca&ccedil;&atilde;o interior.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top8" name="8" >[8]</a></sup> Desejo esse, note-se, que aqui se pode, qui&ccedil;&aacute;, ler tanto no sentido de uma felicidade por cumprir, j&aacute; que a mo&ccedil;a n&atilde;o se conseguiu eximir &agrave; subalterniza&ccedil;&atilde;o, mas ainda – e talvez esta deva ser, se calhar, a leitura mais apropriada – como um desejo n&atilde;o for&ccedil;osamente inating&iacute;vel. Quer isto significar que n&atilde;o deixa de ser digno de registo um poss&iacute;vel caso de <i>Double Talk</i>: ou aceitamos que o sentido da frase seja somente aquele que presume como &uacute;nico destinat&aacute;rio (intratextual, entenda-se) da mesma Joaquim Lu&iacute;s; e nesse caso Jer&oacute;nima exprime o seu desalento por n&atilde;o contrariar, n&atilde;o obstante o seu m&eacute;rito laboral, uma hierarquia inamov&iacute;vel definida pelo homem; e n&atilde;o deixa, por extens&atilde;o, de fazer notar ao pai que este, ao barrar-lhe o acesso ao desejo, veda-lhe a felicidade; ou, agora com um sentido razoavelmente inverso, podemos ler a frase j&aacute; n&atilde;o na exclusividade de esta supor o comerciante como destinat&aacute;rio, o que equivale a convert&ecirc;-la numa constata&ccedil;&atilde;o, sibilinamente expressa, que Jer&oacute;nima faz de si para si em jeito de mon&oacute;logo; e se assim for, e n&atilde;o h&aacute; como negar que tamb&eacute;m assim pode ser (sobretudo tendo presente que Jer&oacute;nima persistir&aacute; em desempenhar tarefas masculinas e conseguir&aacute; at&eacute; ao fim furtar-se &agrave; subalterniza&ccedil;&atilde;o m&aacute;xima que seria ceder a um casamento por conveni&ecirc;ncia), ent&atilde;o a frase ganha a tonalidade de um desafio.</p>      <p><sup><a href="#top9" name="9" >[9]</a></sup> A certa altura da novela, aquela em que Jer&oacute;nima justifica a sua decis&atilde;o inabal&aacute;vel de se tornar preceptora, diz a mo&ccedil;a lapidarmente: “Todos aqui sabem a const&acirc;ncia das minhas resolu&ccedil;&otilde;es. Seria escusado embara&ccedil;ar-me. Podem afligir-me, e arrancar-me o cora&ccedil;&atilde;o em l&aacute;grimas; mas n&atilde;o mudam o meu intento. Vou em busca de felicidade” (Castelo Branco, 1974: 200). Ou seja, infelicidade seria continuar na depend&ecirc;ncia familiar e n&atilde;o dispor de coragem suficiente para se emancipar / autonomizar.</p>      <p><sup><a href="#top10" name="10" >[10]</a></sup> Ainda que, verdade seja dita, o equil&iacute;brio das suas finan&ccedil;as se fique a dever &agrave; generosidade (clandestina) do morgado do Sobral. Crist&oacute;v&atilde;o de Lebrim, com efeito, cobre-lhe as perdas de um mau investimento, salvando-a assim de apuros financeiros</p>      <p><sup><a href="#top11" name="11" >[11]</a></sup> Quanto a Pedro, entre outros aspetos recense&aacute;veis, uma palavra para evidenciar que &eacute; por demais vis&iacute;vel o funcionamento da personagem, em termos de g&eacute;nero, como um contraponto de Jer&oacute;nima. Se esta surge varonil, ativa, enfim, pautada por um revestimento nitidamente masculino, o mo&ccedil;o, em contrapartida, ostenta atitudes que facilmente se impugnariam &agrave; sensibilidade de uma natureza feminina (sobretudo o sentimentalismo acentuado). Reconhece-se aqui uma esp&eacute;cie de troca de g&eacute;neros como foi muito t&iacute;pico do Romantismo. Interessante talvez na personagem &eacute; reparar que parece ser v&iacute;tima de um desejo mim&eacute;tico (Ren&eacute; Girard), em que a infla&ccedil;&atilde;o do desejo por Jer&oacute;nima &eacute; proporcional &agrave; indiferen&ccedil;a desta (isto &eacute;, Jer&oacute;nima, na condi&ccedil;&atilde;o de rival de Pedro, j&aacute; que desempenha o papel de obst&aacute;culo ao resistir &agrave; pretens&atilde;o do mo&ccedil;o, instiga-lhe o desejo de si mesma) Leia-se: “Que forte amor era aquele meu, que se alimentava e inflamava com o desd&eacute;m e o menosprezo de Jer&oacute;nima!?” (Castelo Branco, 1974: 168). Al&eacute;m disso, o que, em clave psicanal&iacute;tica, o mo&ccedil;o parecia desejar em Jer&oacute;nima mais n&atilde;o seria do que tornar-se no <i>falo</i> desta, <i>falo</i> desta em termos de figura materna, entenda-se. &Eacute;, pelo menos, o que se conclui deste excerto, que &eacute; a resposta que Pedro d&aacute; ao pai, depois de este desprezar a fam&iacute;lia de Jer&oacute;nima: “Na fam&iacute;lia pobre que meu pai despreza h&aacute; l&aacute; uma mulher que h&aacute; de ter por mim cora&ccedil;&atilde;o de m&atilde;e, e ser&aacute; ela a &uacute;nica, a verdadeira m&atilde;e de entranhas que conheci nesta vida” (<i>Idem,</i> 180). </p>        ]]></body><back>
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