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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Há quem diga que eu escrevo inglês traduzido: Conversando com Luís Fernando Veríssimo]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade do Minho Departamento de Estudos Portugueses e Lusófonos ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>“H&aacute; quem diga que eu escrevo ingl&ecirc;s traduzido”. Conversando com Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo</b></p>      <p><b>S&eacute;rgio Guimar&atilde;es de Sousa*</b></p>      <p>*Departamento de Estudos Portugueses e Lus&oacute;fonos, Universidade do Minho, Braga, Portugal.</p>      <p><a href="mailto:spgsousa@ilch.uminho.pt">spgsousa@ilch.uminho.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Nascido em Porto Alegre (Rio Grande do Sul), Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo &eacute;, n&atilde;o se duvide, dos autores mais populares do Brasil, sen&atilde;o mesmo o mais popular. Trata-se de um criador n&atilde;o pouco multifacetado: romancista, contista, poeta, dramaturgo, cronista, cartoonista, tradutor, m&uacute;sico, …. Filho do escritor &Eacute;rico Ver&iacute;ssimo, Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo &eacute; essencialmente conhecido do grande p&uacute;blico pelas suas <i>cr&ocirc;nicas</i>, textos curtos e pautados por um sentido de humor e por uma veia sat&iacute;rica inconfund&iacute;veis, publicadas com regularidade em diversos jornais brasileiros. Se quis&eacute;ssemos destacar uma biblioteca essencial da obra de Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo, n&atilde;o poderiam por certo faltar t&iacute;tulos como <i>A Grande Mulher Nua</i> (1975), <i>Amor Brasileiro</i> (1977), <i>Ed Mort e Outras hist&oacute;rias </i>(1979), <i>Sexo na Cabe&ccedil;a</i> (1980), <i>O Analista de Bag&eacute;</i> (1981), <i>A Velhinha de Taubat&eacute; </i>(1983) ou ainda <i>O Jardim do Diabo </i>(1987).</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="f1"> <img src="/img/revistas/dia/v27n3/27n3a19f1.jpg">     
<p>&nbsp;</p>      <p><i>&Eacute; conhecida a sua paix&atilde;o pela m&uacute;sica, em especial pelo jazz. Tanto assim &eacute; que chegou, inclusive, a integrar um grupo musical (</i>Renato e seu Sexteto<i>). Como &eacute; que compagina o seu lado de saxofonista com o de escritor? Existem conex&otilde;es palp&aacute;veis? De outro modo ainda: a m&uacute;sica influencia a sua escrita?</i></p>      <p><b>Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo:</b> Toco, hoje, com outro grupo musical, o <i>Jazz 6</i>, que perdeu um dos seus componentes mas continua a se chamar assim, e portanto &eacute; o menor sexteto do mundo. O grupo &eacute; de profissionais mas eu sou amador, e por isto o saxofone n&atilde;o afeta muito minhas outras atividades, j&aacute; que &eacute; passatempo. E n&atilde;o influencia, at&eacute; onde possa notar, minha escrita. J&aacute; tentei desenvolver uma tese comparando uma cr&oacute;nica com uma interpreta&ccedil;&atilde;o jazz&iacute;stica – na cr&oacute;nica tamb&eacute;m se exp&otilde;e um tema, se faz varia&ccedil;&otilde;es sobre o tema, etc. –, mas a tese n&atilde;o se sustentou. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>O que dificilmente se imaginaria, creio, &eacute; o escritor Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo sem o jornalista e o redator publicit&aacute;rio Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo. De que maneira &eacute; que o jornalista-publicit&aacute;rio e o escritor se contaminam? Mais at&eacute;: existiria o escritor sem o jornalista? Ou sem o publicit&aacute;rio?</i></p>      <p><b>Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo:</b> Trabalhei 15 anos como redator de publicidade e acho que foi um bom aprendizado. O texto publicit&aacute;rio precisa ser atraente, conciso e, como se diz no Brasil, vender o seu peixe, com clareza, e isto &eacute; uma boa receita para cr&oacute;nica. O fato de escrever para ser publicado em seguida, na imprensa, tamb&eacute;m determina uma certa disciplina, mesmo quando a boa id&eacute;ia n&atilde;o vem. Eu sempre digo que a minha musa inspiradora &eacute; o prazo de entrega... </p>      <p><i>Qual foi o impacto, &agrave; &eacute;poca, da publica&ccedil;&atilde;o de </i>A Grande Mulher Nua<i> (1975), talvez o livro que decisivamente o projetou junto do p&uacute;blico como um cronista de primeira relev&acirc;ncia?</i></p>      <p><b>Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo:</b> N&atilde;o houve grande impacto. Isto veio depois, com <i>O analista de Bag&eacute;</i>, o primeiro dos meus livros que teve uma repercuss&atilde;o maior e vendeu mais um pouquinho.</p>      <p><i>O que &eacute; para si uma cr&oacute;nica conseguida?</i></p>      <p><b>Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo:</b> O teste da boa cr&oacute;nica &eacute; o teste do tempo. Ela &eacute; a que a gente l&ecirc; anos depois e at&eacute; que gosta, e n&atilde;o lamenta por n&atilde;o ter feito melhor. A grande maioria n&atilde;o passa no teste, mas algumas resistem.</p>      <p><i>&Eacute; igualmente um escritor de livros de viagens. O primeiro foi </i>Tra&ccedil;ando Nova York<i> e resultou de uma estadia de 6 meses em Nova Iorque. A partir da&iacute;, e com certa regularidade, o Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo tem escrito sobre os diversos lugares por aonde passa. O que o levou a enveredar, a dado momento, tamb&eacute;m pela narrativa de viagem?</i></p>      <p><b>Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo:</b> Sempre gostei de viajar e herdei isso do meu pai, com quem viajei quando era garoto. A s&eacute;rie <i>Tra&ccedil;ando</i> foi uma id&eacute;ia do Joaquim da Fonseca, ilustrador de todos os livros, e incluiu relatos de visitas ou de temporadas passadas em Nova York, Roma, Paris, Madrid e Jap&atilde;o, e um livro dedicado a Porto Alegre, minha cidade natal. As temporadas mais longas, junto com toda a fam&iacute;lia, em NY, Roma e Paris eram assunto constante das colunas que mandava diariamente destes lugares para os jornais, e foi f&aacute;cil reuni-las em livros. </p>      <p>O Analista de Bag&eacute;<i> tornou-o, &eacute; l&iacute;cito diz&ecirc;-lo, definitivamente num fen&oacute;meno de massas. Atualmente o Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo &eacute; nada menos do que o autor brasileiro mais popular. Se d&uacute;vidas houvesse, basta dizer que vendeu no Brasil uns 5 milh&otilde;es de livros. A que atribui a sua imensa popularidade? E como reage, sabendo-se que &eacute; t&iacute;mido, a essa popularidade?</i></p>      <p><b>Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo:</b> O Paulo Coelho vende mais do que eu, e as tradu&ccedil;&otilde;es dos seus livros s&atilde;o fen&oacute;menos de venda. Tenho alguns livros traduzidos mas nada parecido com a repercuss&atilde;o internacional da obra do Paulo Coelho, ou mesmo de outros autores brasileiros. Quanto &agrave; minha popularidade no Brasil, n&atilde;o sei explicar. Talvez se deva ao fato de fazer textos curtos, de f&aacute;cil leitura, e quase sempre bem humorados. Sou constantemente convidado a dar palestras, geralmente para jovens, o que me envaidece muito. Sempre preciso vencer o meu p&acirc;nico de falar em p&uacute;blico, mas &eacute; bom saber que a garotada, principalmente, est&aacute; lendo o que eu escrevo. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>O humor est&aacute; no cerne de tudo o que escreve. &Eacute;, n&atilde;o sofre d&uacute;vida, a sua imagem de marca. Como definiria o seu humor? E, j&aacute; agora, que caracter&iacute;sticas apontaria no tocante &agrave; especificidade do humor brasileiro?</i></p>      <p><b>Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo:</b> H&aacute; quem diga que eu escrevo ingl&ecirc;s traduzido, e concordo que fui muito influenciado pelo humor americano. Sempre fui muito ligado &agrave; cultura americana<sup><a href="#1" name="top1" >[1]</a></sup> e li muito os americanos e os ingleses. N&atilde;o saberia definir o meu humor, s&oacute; sei que n&atilde;o &eacute; muito espont&acirc;neo. &Eacute; mais uma quest&atilde;o de t&eacute;cnica do que de voca&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que, pessoalmente, n&atilde;o tenho a menor gra&ccedil;a, e sou at&eacute; mais para o depressivo do que para o c&oacute;mico.</p>      <p><i>Circulam na net v&aacute;rios textos, alguns com uma qualidade not&aacute;vel, que lhe s&atilde;o atribu&iacute;dos; mas que, em boa verdade, o Fernando Lu&iacute;s Ver&iacute;ssimo nunca escreveu. Como v&ecirc; esse fen&oacute;meno que parece ser j&aacute; uma forma extrema de popularidade?</i></p>      <p><b>Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo:</b> Pois &eacute;, n&atilde;o d&aacute; para entender por que algu&eacute;m p&otilde;e um bom texto na Internet e o atribui a outro. E alguns textos s&atilde;o bons mesmo. Sou muito elogiado por textos que nunca escrevi. Como, pelo que sei, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel corrigir isto, o jeito &eacute; nos resignarmos. Uma dica: geralmente quando o texto &eacute; ap&oacute;crifo, o Lu&iacute;s de Lu&iacute;s Fernando &eacute; com Z. </p>      <p>O Jardim do Diabo<i> (1987) marca a sua estreia liter&aacute;ria a solo no campo romanesco. Digo a solo porque anteriormente, mais especificamente em 1978, tinha j&aacute; escrito </i>Pega pra Kapput<i>, s&oacute; que em parceria com Moacyr Sclyar, Josu&eacute; Guimar&atilde;es e Edgar Vasques. Como foi essa passagem de cronista, ainda por cima cronista famoso, para outro registo assaz distinto, como o romance?</i></p>      <p><b>Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo:</b> Meus primeiros romances t&ecirc;m uma peculiaridade: foram todos encomendados. O primeiro foi escrito a pedido de uma ag&ecirc;ncia de publicidade que queria presente&aacute;-lo aos seus clientes. O segundo, <i>O clube dos anjos</i>, foi pedido pela editora para uma s&eacute;rie sobre os pecados capitais. Meu pecado era a gula. Tamb&eacute;m partiu das editoras as id&eacute;ias para fazer <i>Borges e os orangotangos eternos</i> (para uma s&eacute;rie de policiais que envolvessem escritores conhecidos), <i>O opositor</i> (cada autor escreveria sobre um dedo da m&atilde;o, e escolhi o polegar) e <i>A d&eacute;cima segunda noite</i> (hist&oacute;rias baseadas em com&eacute;dias do Shakespeare). “Encomendados” queria dizer que a id&eacute;ia partia da editora, n&atilde;o que a editora determinasse o que deveria ser escrito. Finalmente escrevi <i>Os espi&otilde;es</i>, que eu mesmo me encomendei. Comparo trocar a cr&oacute;nica pelo romance a trocar um veleiro por um navio ou, no caso de um roman&ccedil;&atilde;o, por um transatl&acirc;ntico. Muda tudo, inclusive o n&uacute;mero de personagens a bordo. </p>      <p><i>Cultiva como poucos escritores a par&oacute;dia. O que o atrai nesse modo de desconstruir a realidade que &eacute; o discurso par&oacute;dico?</i></p>      <p><b>Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo:</b> Como a cr&oacute;nica &eacute; um g&eacute;nero indefinido ela nos permite escolher a forma de escrever o que se quer escrever: com seriedade ou com ironia, com mais ou menos profundidade, com realismo ou com pura inven&ccedil;&atilde;o. A par&oacute;dia &eacute; um dos tantos recursos que a gente tem &agrave; m&atilde;o. Funciona, principalmente quando a inten&ccedil;&atilde;o &eacute; criticar sem atacar de frente. </p>      <p><i>Sempre que pode aponta Milton Hatoum como o grande escritor atual do Brasil. Porqu&ecirc;? O que &eacute; que o fascina na obra do Hatoum?</i></p>      <p><b>Lu&iacute;s Fernando Ver&iacute;ssimo:</b> Eu j&aacute; agradeci ao Milton em p&uacute;blico por ter facilitado a minha vida. Antes, quando me pediam para citar os melhores escritores brasileiros, eu come&ccedil;ava a nomear os que me vinham &agrave; cabe&ccedil;a – Rubem Fonseca, Moacyr Scliar, etc. – sempre com o pavor de estar esquecendo algum. Hoje tenho a resposta pronta, sem medo de errar: Milton Hatoum. Porqu&ecirc;? Porque ele escreve muito bem.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Providence (Rhode Island), 4 de outubro de 2013</i></p>      <p><i>Fotografia</i>: On&eacute;simo Teot&oacute;nio Almeida</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p><sup><a href="#top1" name="1">[1]</a></sup> Ver&iacute;ssimo viveu boa parte da inf&acirc;ncia e da adolesc&ecirc;ncia nos EUA.</p>       ]]></body>
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