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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This study aims to discuss the issue of Lusophone identity based on the &#8220;never before&#8221; expression used respectively by Camões in The Lusiads and by Lula, President of Brazil in his political speeches. We discuss the question of territorialization and belonging that these words evoke as an identity dynamics. We use the Derridean prerogatives of &#8216;bustrophedical&#8217; way of language whose plow always brings up wastes from other stories by reusing and re-signifying signs. We question if the reusing of &#8220;never before&#8221; constitutes a vector of a continuum of Lusophone identity.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Identidade em lusofonia: territorialidade e perten&ccedil;a</b></p>      <p><b>Identity in lusophony: territoriality and belonging</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Dina Maria Martins Ferreira*</b></p>      <p>*Universidade Estadual do Cear&aacute;/UECE, Brasil.</p>      <p><a href="mailto:dinaferreira@terra.com.br">dinaferreira@terra.com.br</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>RESUMO</b> </p>     <p>     <p>Este estudo pretende discutir a quest&atilde;o de identidade lus&oacute;fona, partindo das express&otilde;es &#8220;nunca dantes&#8221; e  &#8220;nunca  antes&#8221;, utilizada, respectivamente, por Cam&otilde;es em Os Lus&iacute;adas e por Lula, Presidente do Brasil em seus discursos  pol&iacute;ticos.  Discute-se a quest&atilde;o de territorializa&ccedil;&atilde;o e perten&ccedil;a que estas express&otilde;es evocam como din&acirc;mica  identit&aacute;ria. Utiliza-se das  prerrogativas derridianas sobre o caminho bustrof&eacute;dico da linguagem cujo arado sempre traz &agrave; tona res&iacute;duos de outras  hist&oacute;rias pelo reaproveitamento e ressignifica&ccedil;&atilde;o de signos. Questiona-se, a partir do reaproveitamento uf&acirc;nico de  &#8220;nunca  dantes&#8221;, se ele se constitui vetor de um continuum de identidade lus&oacute;fona.</p> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Palavras chave</b>: territorializa&ccedil;&atilde;o, perten&ccedil;a, identidade, linguagem.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>ABSTRACT</b> </p>     <p>     <p>This study aims to discuss the issue of Lusophone identity based on the &#8220;never before&#8221; expression used respectively by Cam&otilde;es in  The Lusiads and by Lula, President of Brazil in his political speeches. We discuss the question of territorialization and belonging that these  words evoke as an identity dynamics. We use the Derridean prerogatives of &#8216;bustrophedical&#8217; way of language whose plow always brings up  wastes from other stories by reusing and re-signifying signs. We question if the reusing of &#8220;never before&#8221; constitutes a vector of a  continuum of Lusophone identity.</p> </p>     <p><b>Keywords</b>: territorialization, belonging, identity, language.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>1. &#8220;Nunca dantes&#8221;</b></p>      <p>Vejo-me diante de uma reportagem do colunista Reinaldo Azevedo, conhecido como o &#8216;cristo&#8217;<sup><a href="#1" name="top1">[1]</a></sup> do Presidente Luis In&aacute;cio Lula da Silva (mandatos 2002/2010). Este colunista comenta sarcasticamente que os discursos de Lula, continuamente, em seu tom exaltador e messi&acirc;nico, se n&atilde;o demag&oacute;gico, apresenta em seus pronunciamentos a express&atilde;o &#8220;nunca antes (nesse pa&iacute;s)&#8221;, e algumas vezes &#8220;nunca dantes (nesse pa&iacute;s&#8221;). Imediatamente o verso de Cam&otilde;es, em <i>Os Lus&iacute;adas</i>, &#8220;mares nunca dantes navegados&#8221; veio ao pensamento. Tenho a&iacute; uma quest&atilde;o sobre a identidade lus&oacute;fona: pergunta-se por que uma express&atilde;o como &#8220;nunca dantes&#8221; sacralizada, em obra do s&eacute;culo XVI, no territ&oacute;rio Portugal, ainda se repetia no s&eacute;culo XXI, no mesmo tom de uma saga no territ&oacute;rio brasileiro em discurso pol&iacute;tico, muitas vezes eleitoreiro.</p>      <p>N&atilde;o aventamos que o uso dessa express&atilde;o por Lula seja decorrente de recurso estil&iacute;stico resultante de conhecimento da literatura portuguesa e consequentemente da literatura portuguesa, com o objetivo de se comparar nem a Cam&otilde;es nem ao ufanismo das descobertas de novas terras. A cren&ccedil;a dessa prerrogativa tamb&eacute;m n&atilde;o se ancora no preconceito em rela&ccedil;&atilde;o ao n&iacute;vel de escolaridade do ent&atilde;o Presidente &#8211; 5&ordf; s&eacute;rie do ensino fundamental ?, at&eacute; porque o uso dessas express&otilde;es s&oacute; ocorre em discursos que improvisa na pr&aacute;tica do poder. N&atilde;o h&aacute; em seus discursos revisados e editados por sua equipe nenhuma ocorr&ecirc;ncia dessa ordem. Muitas outras justificativas podem ser levantadas: ter ouvido essa express&atilde;o de seus membros ministeriais, tais como do Ministro da Cultura, e t&ecirc;-las reutilizada tendo em vista a percep&ccedil;&atilde;o de seu tom ufanista; ser uma express&atilde;o ouvida durante a sua vida, mesmo sem no&ccedil;&atilde;o de que teve um uso camoniano; ser resultado de um conhecimento enciclop&eacute;dico; e simplesmente porque se apropriou da autoria da boca do povo. Seja qual for a justificativa do encontro de Cam&otilde;es com Lula, nenhuma delas &eacute; relevante para nosso estudo.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Enfim, o que verificamos s&atilde;o territ&oacute;rios que se cruzam em lusofonia, atravessando tempo e espa&ccedil;o &#8211; tempo dos s&eacute;culos e terras diferentes na travessia de um rastro de identidade lus&oacute;fona na pr&aacute;tica uf&acirc;nica.</p>      <p>O referido colunista, Reinaldo Azevedo, em constante cr&iacute;tica &agrave; fala do presidente fornece dados quantitativos nos pronunciamentos presidenciais brasileiros: a express&atilde;o&#8220;nunca antes&#8221; teria em torno de 3000 ocorr&ecirc;ncias e a &#8220;nunca dantes&#8221;, 126. Muitas brincadeiras jocosas, muitas cr&iacute;ticas ao tom uf&acirc;nico dessa express&atilde;o, seja qual for sua varia&ccedil;&atilde;o de uso:</p>      <blockquote>    <p>Mais cultura, &#8220;menas&#8221; humildade .</p>      <p>O presidente Luiz In&aacute;cio Lula da Silva disse ontem considerar repetitiva a express&atilde;o &#8220;nunca antes neste pa&iacute;s&#8221;, que costuma preceder a enumera&ccedil;&atilde;o de feitos do governo em seus discursos: &#8220;Mas &eacute; verdade&#8221;. &#8220;Est&aacute; uma coisa t&atilde;o repetitiva, (...) esse neg&oacute;cio de que &#8220;pela primeira vez, nunca antes, nunca dantes&#8221; (Jornal <i>Folha de S&atilde;o Paulo</i>, 9/1/09: 5);</p>      <p>&#8220;nesse&#8221; pa&iacute;s (...)</p>      <p>&Eacute; a express&atilde;o preferida do presidente do Brasil, na sua ret&oacute;rica demag&oacute;gica. Subjetivamente, por&eacute;m, ao espezinhar a Gram&aacute;tica, no desconhecimento do emprego dos pronomes demonstrativos, Luiz In&aacute;cio demonstra, claramente, n&atilde;o saber onde est&aacute;, afora n&atilde;o ver nada e n&atilde;o saber de nada. N&atilde;o &eacute; &#8220;nesse&#8221; pa&iacute;s, Exmo. Sr. Presidente, mas, sim, neste Brasil que gostar&iacute;amos de ver realizadas as maravilhas do seu discurso. Por certo, na sua desorienta&ccedil;&atilde;o encontra-se a origem de tudo. A certeza &eacute; a de que V. Exa. refere-se a uma terra hipot&eacute;tica &#8211; a terra dos seus del&iacute;rios &#8211;, que respira emana&ccedil;&otilde;es de ebriedade coletiva. Neste Brasil, entretanto, n&atilde;o enxergo raz&otilde;es para muita euforia, ao menos enquanto pa&iacute;ses como Azerbaij&atilde;o, Eti&oacute;pia, Qu&ecirc;nia, Zimb&aacute;bue, Coreia do Norte, Cazaquist&atilde;o, Cuba, e mais trinta outros merecem mais medalhas do que n&oacute;s (Esp&iacute;ndola, 2003: serial)</p>      <p>N&atilde;o deixe de votar, divulgue entre os seus amigos; nunca se sabe quando (...) n&atilde;o menos importante, o uso indiscriminado dos Cart&otilde;es Corporativos. (...) rios <u>nunca dantes</u> bundeados,<sup><a href="#2" name="top2">[2]</a></sup> existem dois cubanos (...) em campanhas eleitorais e <u>nunca antes</u> pagamos tantas taxas banc&aacute;rias: &eacute; o bolsa-fam&iacute;lia, dos banqueiros (...)</p>      <p>Claro, escrever r&aacute;pido implica no uso de f&oacute;rmulas, mas quem disse que n&atilde;o se pode (...) esse neg&oacute;cio de que: &#8216;pela primeira vez, nunca antes, nunca dantes&#8217;(...). Senhor General, que nos &uacute;ltimos anos? ao mesmo tempo que mais se aproxima a assaltam preocupa&ccedil;&otilde;es nunca dantes vividas. Refiro ao revanchismo de pessoas desqualificadas (Revista <i>Veja</i>, 2003: 35).</p></blockquote>      <p>Apesar de tantas ironias a respeito do uso dessas express&otilde;es pelo presidente, nosso objetivo n&atilde;o &eacute; nem questionar o certo e errado de seu uso em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s normas da l&iacute;ngua portuguesa, nem discutir a filologia das mesmas &#8211; seja &#8220;nunca antes&#8221;, seja &#8220;nunca dantes&#8221;, seja &#8220;nunca d&#8217;antes&#8221; &#8211; e muito menos levantar quest&otilde;es sobre o Acordo Ortogr&aacute;fico da L&iacute;ngua Portuguesa. Sabemos que &#8220;dantes&#8221; &eacute; contra&ccedil;&atilde;o da preposi&ccedil;&atilde;o &#8220;de&#8221; mais o adv&eacute;rbio &#8220;antes&#8221;. A forma e composi&ccedil;&atilde;o dessas express&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o os &uacute;nicos caminhos que desvendam o processo identit&aacute;rio, e sim os sentidos que elaboram em sua pr&aacute;tica discursiva.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A quest&atilde;o &eacute; nos perguntar como esse significante chegou at&eacute; n&oacute;s, do s&eacute;culo XVI ao XXI, tendo em vista a manuten&ccedil;&atilde;o e inten&ccedil;&atilde;o de louvar e aplaudir uma p&aacute;tria, seja em uma epopeia liter&aacute;ria, seja em um do discurso pol&iacute;tico brasileiro.</p>      <p><b>2. Caminho bustrof&eacute;dico da linguagem</b></p>      <p>O primeiro degrau de nossa argumenta&ccedil;&atilde;o &eacute; ler o jogo designativo &#8220;nunca dantes&#8221; e &#8220;nunca antes&#8221; a partir da ideia de que a l&iacute;ngua &eacute; ecol&oacute;gica. Entende-se que a linguagem tem em sua natureza a capacidade de ressignificar a cada momento de sua materializa&ccedil;&atilde;o em l&iacute;ngua, uma vez que a linguagem n&atilde;o exclui significa&ccedil;&otilde;es ao longo de seu percurso no espa&ccedil;o-tempo hist&oacute;rico; ao contr&aacute;rio, a cada express&atilde;o significante, res&iacute;duos significativos se processam e se remodalizam.</p>      <p>E &eacute; pelo movimento da escritura (Derrida, 1999: 351) que se postula ter a linguagem natureza ecol&oacute;gica: &#8220;Trata-se da <i>escritura por sulcos</i>. O sulco &eacute; a linha, tal como a tra&ccedil;a o lavrador: a rota &#8211; <i>via rupta </i>&#8211; cortada pela relha do arado. O sulco da agricultura, tamb&eacute;m o recordamos, abre a natureza &agrave; cultura. E sabe-se tamb&eacute;m que a escritura nasce com a agricultura, que n&atilde;o se d&aacute; sem a sedentariza&ccedil;&atilde;o.&#8221;</p>      <p>Derrida pleiteia para escritura um movimento bustrof&eacute;dico,<sup><a href="#3" name="top3">[3]</a></sup> isto &eacute;, um movimento cont&iacute;nuo, da esquerda para direita e da direita para a esquerda, como o arado do boi sulcando a terra. Sob a &oacute;tica bustrof&eacute;dica da linguagem, verifica-se que nesse movimento n&atilde;o h&aacute; interrup&ccedil;&atilde;o, e essa continuidade permite reafirmar que a linguagem &eacute; ecol&oacute;gica, isto &eacute;, processo de cont&iacute;nuo re-aproveitamento da terra-linguagem em que o vaiv&eacute;m do arado (movimentando-se no espa&ccedil;o, no tempo e em sua hist&oacute;ria) produz um &#8216;des-velar&#8217; de significa&ccedil;&otilde;es. Se o processo de cultivo &eacute; cont&iacute;nuo, a cada plantio linguageiro res&iacute;duos remanescentes de uma antiga planta&ccedil;&atilde;o revolvem-se para se agregar &agrave; pr&oacute;xima; a terra na qual as designa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o plantadas n&atilde;o consegue eliminar e substituir os rastros de antigas planta&ccedil;&otilde;es; &eacute; no revolver da linguagem-terra que novos gr&atilde;os designativos se encontram com res&iacute;duos de outros gr&atilde;os remodalizando-se em novos jogos de linguagem. Um momento hist&oacute;rico da linguagem n&atilde;o elimina o anterior e nem se exclu&iacute; do posterior.</p>      <p>O movimento bustrof&eacute;dico, realizado metaforicamente pelo arado do boi, deixa sulcos e marcas, sulcos profundos ou n&atilde;o, dependendo do instante hist&oacute;rico em que s&atilde;o realizados, cujas marcas culturais e suas significa&ccedil;&otilde;es podem ser re-descobertas para al&eacute;m do momento de sua aragem, pois, dependendo da for&ccedil;a hist&oacute;rica do arado, os sulcos sedimentados e cristalizados n&atilde;o se dissolvem t&atilde;o facilmente: &#8220;Ora, como procede o lavrador? Economicamente. Chegando ao fim do sulco, ele n&atilde;o volta ao ponto de partida. D&aacute; meia volta ao arado e ao boi. Depois, parte novamente, em sentido inverso. Poupan&ccedil;a de tempo. De espa&ccedil;o e de energia. Melhoria do rendimento e diminui&ccedil;&atilde;o do tempo de trabalho. A escritura <i>de volta de boi</i> &#8211; <i>bustrof&eacute;don </i>? (...).&#8221; (Derrida, 1999: 351-352).</p>      <p>A linguagem, ent&atilde;o, movimenta e sulca seu terreno (re)semeando seus produtos de significa&ccedil;&atilde;o, que vai deixando res&iacute;duos. Sulcos pressup&otilde;em marcas e tra&ccedil;os, e ecologia tem por quesito fundamental o reaproveitamento. Por essa tessitura metaf&oacute;rica permite-se pensar ser a estrada-sulco o fazer da linguagem. O percurso da linguagem recebe os adubos de forma e conte&uacute;do a cada espa&ccedil;o-tempo percorrido, pois n&atilde;o se nega &agrave;s especificidades socioculturais dos jogos de linguagens.</p>      <p>E por esse racioc&iacute;nio j&aacute; se pode conhecer os res&iacute;duos de sentido da express&atilde;o &#8220;nunca dantes&#8221; do XVI presentes no uso de &#8220;nunca dantes&#8221; e &#8220;nunca antes&#8221; do s&eacute;culo XXI.</p>      <p><b>3. Jogos de sentido</b></p>      <p>A express&atilde;o &#8220;nunca dantes&#8221; ou &#8220;nunca antes&#8221;, tanto no caso de &#8220;mares nunca dantes navegados&#8221; e &#8220;nunca (d)antes nesse pa&iacute;s&#8221;, semanticamente, trabalha com dois pontos: a&ccedil;&atilde;o e tempo.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No quesito a&ccedil;&atilde;o, a nega&ccedil;&atilde;o &#8220;nunca&#8221; elimina a realiza&ccedil;&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o, presente ou passada ou futura. &Eacute; o caso das senten&ccedil;as &#8211; nunca navego, nunca naveguei, nunca navegarei, nunca navegadas &#8211;, que elimina a possibilidade de realiza&ccedil;&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o de navegar, ou seja, a a&ccedil;&atilde;o de navegar &eacute; impedida de se realizar.</p>      <p>No quesito tempo, a marca &#8220;antes&#8221;, &agrave; primeira vista, apenas indicaria um tempo passado, anterior ao presente. Mas, ao se aliar sint&aacute;tico-semanticamente ao &#8220;nunca&#8221;, refor&ccedil;a a elimina&ccedil;&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o, no caso a a&ccedil;&atilde;o passada. Ao excluir qualquer a&ccedil;&atilde;o do passado, hiperboliza-se a a&ccedil;&atilde;o do presente e seus louros futuros. Se os mares nunca foram navegados, a navega&ccedil;&atilde;o presente ou futura clama por a&ccedil;&atilde;o, e se nunca antes nesse pa&iacute;s nada se fez, a a&ccedil;&atilde;o presente &eacute; forte com maravilhas de futuro.</p>      <p>Nesse jogo de sentido, pontua-se, ent&atilde;o, pela exclus&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o passada, pela presen&ccedil;a da a&ccedil;&atilde;o do presente e pela promessa de a&ccedil;&atilde;o futura, o colorido uf&acirc;nico das terras louvadas &#8211; Portugal e Brasil.</p>      <p><b>4. Territorialidade e perten&ccedil;a</b></p>      <p>Abordando as p&aacute;trias Portugal e Brasil, estamos nos referindo a territ&oacute;rios, n&atilde;o s&oacute; geogr&aacute;ficos, mas caminhando para a ideia de fronteiras simb&oacute;licas do ufanismo, logo &eacute; mais coerente tratarmos a no&ccedil;&atilde;o de territ&oacute;rio pela vertente &#8220;simb&oacute;lico-cultural: [que] prioriza a dimens&atilde;o simb&oacute;lica e mais subjetiva, em que o territ&oacute;rio &eacute; visto, sobretudo, como o produto da apropria&ccedil;&atilde;o/valoriza&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica de um grupo em rela&ccedil;&atilde;o ao seu espa&ccedil;o vivido.&#8221; (Haesbaert, 2006: 40). Ou seja, a dimens&atilde;o simb&oacute;lica da territorializa&ccedil;&atilde;o habita um espa&ccedil;o organizando-se pela historicidade e geograficidade. Vale a observa&ccedil;&atilde;o que historicidade e geograficidade podem ser valores constru&iacute;dos no pr&oacute;prio territ&oacute;rio ou designados por outro territ&oacute;rio. No caso, o territ&oacute;rio geogr&aacute;fico Brasil, pela fala pol&iacute;tica do presidente, revela sagas de um outro territ&oacute;rio, Portugal, pela voz de Cam&otilde;es. E a fala de Lula transforma o territ&oacute;rio brasileiro em uma geografia simb&oacute;lica de grandes sagas, em que o &#8220;comandante da nau brasileira&#8221;</i></i><sup><a href="#4" name="top4">[4]</a></sup> agora navega pelos rios da riqueza e do desenvolvimento.</p>      <p>Tamb&eacute;m na quest&atilde;o de territorializa&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica outros eixos s&atilde;o pertinentes: historialidade e historicidade. A historicidade estaria para o motivo de usar a express&atilde;o &#8220;nunca antes nesse pa&iacute;s&#8221;, na medida em que &#8220;nasce da autoapreens&atilde;o do homem em rela&ccedil;&atilde;o ao vivente e &agrave; vida&#8221; (Derrida, 2002: 49-50), ou seja, o presidente tem consci&ecirc;ncia de sua popularidade, que se torna o motivo para exercer o ufanismo simb&oacute;lico do &#8220;nunca dantes navegados&#8221;. Historialidade seria o efeito identit&aacute;rio da narrativa da historialidade porque provoca e acolhe a posi&ccedil;&atilde;o de perten&ccedil;a; perten&ccedil;a a um grupo, a uma na&ccedil;&atilde;o, a um povo. A historialidade seria ent&atilde;o &#8220;um processo objetivo no qual estamos inseridos (...) &eacute; um modo de estarmos conscientes dessa perten&ccedil;a.&#8221; (Vattimo, s/d: 11). No caso da hist&oacute;ria pol&iacute;tica brasileira, a consci&ecirc;ncia de perten&ccedil;a &agrave; na&ccedil;&atilde;o &eacute; pontuada pelo momento de uma nau-p&aacute;tria que nunca foi comandada por um presidente que veio do povo, que passou fome, mesmo com pouca instru&ccedil;&atilde;o escolar. Como diz o ent&atilde;o &#8220;comandante do Brasil&#8221;, &#8220;quando cheguei a S&atilde;o Paulo<sup><a href="#5" name="top5">[5]</a></sup>, s&oacute; tinha barriga e l&iacute;ngua, t&atilde;o barrigudinho de tomar &aacute;gua de a&ccedil;ude com esquistossomose. Muitas vezes, n&oacute;s, nordestinos, somos tratados como se f&ocirc;ssemos de segunda categoria. E eu fui v&iacute;tima disso durante a vida inteira. (Revista <i>Veja</i>, 2003: 34).</p>      <p>Historicidade e historialidade se movimentam em dire&ccedil;&otilde;es diferentes, ao mesmo tempo que se constituem simbioticamente. A historicidade, o motivo &#8211; ter popularidade &#8211;, explode no discurso para dar conta de uma identidade pol&iacute;tico-governamental dirigida por um representante que faz o que &#8220;nunca dantes&#8221; foi, naquele momento hist&oacute;rico, realizado por ele. J&aacute; a historialidade, a no&ccedil;&atilde;o de perten&ccedil;a &agrave; p&aacute;tria Brasil de ent&atilde;o, tem o movimento inverso, ou seja, faz o cidad&atilde;o recuar para tr&aacute;s para se reconhecer no motivo. O movimento explorat&oacute;rio de perten&ccedil;a &eacute; efeito da historialidade. Enquanto o motivo trabalha com o instante do utilitarismo de determinado momento pol&iacute;tico, a perten&ccedil;a &eacute; um movimento mais denso, pois trabalha com s&iacute;mbolos socioculturais. Perten&ccedil;a aciona a tradi&ccedil;&atilde;o, reconstru&iacute;da ou n&atilde;o, pois se alimenta de s&iacute;mbolos que se performatizam pela mem&oacute;ria. A tradi&ccedil;&atilde;o mostra os desbravadores, os descobridores de terras, os lutadores pelo desenvolvimento da na&ccedil;&atilde;o. Sem motivo n&atilde;o h&aacute; hist&oacute;ria, e s&oacute; h&aacute; perten&ccedil;a se houver hist&oacute;ria. Ambos &#8211; motivo e perten&ccedil;a &#8211; trabalham na reivindica&ccedil;&atilde;o da identidade.</p>      <p><b>5. Encontro de hist&oacute;rias lus&oacute;fonas no ufanismo</b></p>      <p>Ratificando a ecologia da linguagem e seu percurso bustrof&eacute;dico, chegamos ao encontro simb&oacute;lico do ufanismo de momentos hist&oacute;ricos diferentes.</p>      <p>Cada cultura e seus momentos de uso lingu&iacute;stico s&atilde;o uma queda em hist&oacute;ria, e como tal est&aacute; circunscrita a um tempo e um espa&ccedil;o pr&oacute;prios. O que se est&aacute; propondo &eacute; a percep&ccedil;&atilde;o de que &#8220;os s&iacute;mbolos s&atilde;o diversamente vividos e valorizados: o produto dessas m&uacute;ltiplas atualiza&ccedil;&otilde;es constitui em grande parte os &#8216;estilos culturais&#8217; (..) (e) como forma&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas, essas culturas n&atilde;o s&atilde;o mais intercambi&aacute;veis; estando j&aacute; constitu&iacute;das em seus pr&oacute;prios estilos, <i>elas podem ser comparadas no n&iacute;vel </i>das Imagens e <i>dos s&iacute;mbolos</i>.&#8221; (Eliade, 1996: 173) (grifo da autora).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O contato de uma &#8216;mesma&#8217; l&iacute;ngua em momentos culturais e hist&oacute;ricos diferentes seria poss&iacute;vel por seu car&aacute;ter ecol&oacute;gico que espalha res&iacute;duos de significa&ccedil;&atilde;o na estrada bustrof&eacute;dica da linguagem. O toque de usos e sentidos se d&aacute; pelos res&iacute;duos do caminho ininterrupto, at&eacute; porque s&iacute;mbolos s&atilde;o conven&ccedil;&otilde;es muito fortes, cristaliza&ccedil;&otilde;es sociais, signos dif&iacute;ceis de se desmantelarem no cansa&ccedil;o do percurso hist&oacute;rico. O s&iacute;mbolo do ufanismo at&eacute; hoje se estabelece em v&aacute;rias p&aacute;trias, haja vista as guerras que se estabelecem pela luta de perten&ccedil;a e de manuten&ccedil;&atilde;o de sua hist&oacute;ria. Por que ent&atilde;o, tendo &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o uma express&atilde;o sacralizadora desse s&iacute;mbolo no universo lus&oacute;fono, ela n&atilde;o seria reaproveitada e utilizada para fins pol&iacute;ticos?</p>      <p>E na medida em que se entende s&iacute;mbolo como cristaliza&ccedil;&atilde;o e solidifica&ccedil;&atilde;o de significado, res&iacute;duos de significa&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica se fazem dur&aacute;veis ao longo das araduras da linguagem, uma vez que significa&ccedil;&otilde;es de vida cultural n&atilde;o s&atilde;o trituradas e dissolvidas imediatamente &agrave; passagem do arado do boi. Ao contr&aacute;rio, nesse racioc&iacute;nio metaf&oacute;rico, mas n&atilde;o menos l&oacute;gico, entendem-se s&iacute;mbolos como res&iacute;duos dur&aacute;veis de significa&ccedil;&atilde;o encravados nos sulcos, cujas marcas profundas de expans&otilde;es significativas s&atilde;o relembradas em significantes adequados a seu contexto hist&oacute;rico; &eacute; nesse &#8216;relembrar&#8217; do universo simb&oacute;lico que &eacute; poss&iacute;vel perceber o contato entre hist&oacute;rias de uma mesma l&iacute;ngua.</p>      <p>Junto &agrave; quest&atilde;o de durabilidade do significado simb&oacute;lico, a pr&oacute;pria etimologia do termo s&iacute;mbolo j&aacute; ratifica a natureza ecol&oacute;gica e bustrof&eacute;dica da linguagem. O voc&aacute;bulo grego <i>s&uacute;mbolon </i>(<i>de sun = </i>junto, com e <i>ballein = </i>atirar, lan&ccedil;ar) tem o sentido de &#8220; &#8216;lan&ccedil;ar com&#8217;, arremessar ao mesmo tempo, &#8216;com-jogar&#8217;. De in&iacute;cio, s&iacute;mbolo era um sinal de reconhecimento: um objeto dividido em duas partes, cujo ajuste, confronto, permitia aos portadores de cada uma das partes se <i>reconhecerem</i>. O s&iacute;mbolo &eacute;, pois, a express&atilde;o de um conceito de <i>equival&ecirc;ncia.</i>&#8221; (Brand&atilde;o, 1986: 38) (grifo da autora).</p>      <p>&Eacute; justamente nos jogos designativos que se estabelecem os jogos de equival&ecirc;ncia. Ao se permitir a equival&ecirc;ncias de significado, o s&iacute;mbolo, vivendo nos sulcos da linguagem, n&atilde;o se imobiliza no tempo e espa&ccedil;o em que se manifesta. Sua natureza est&aacute;vel mais a de &#8220;com-jogar&#8221; significa&ccedil;&otilde;es em marcha bustrof&eacute;dica permite que caminhe em dire&ccedil;&atilde;o a outras hist&oacute;rias sem anular as anteriores, refazendo em sua cont&iacute;nua aradura outros modos de exist&ecirc;ncia.</p>      <p>A natureza do s&iacute;mbolo foi caracterizada por dois tra&ccedil;os, durabilidade e equival&ecirc;ncia de significa&ccedil;&otilde;es: a durabilidade se mostra na repeti&ccedil;&atilde;o de usos lingu&iacute;sticos que se expandem no trans-hist&oacute;rico da significa&ccedil;&atilde;o; e a equival&ecirc;ncia se apresenta na dimens&atilde;o dos significados que se estabelecem em formas lingu&iacute;sticas. N&atilde;o h&aacute; ponto de satura&ccedil;&atilde;o na reticula&ccedil;&atilde;o significativa, nem mesmo na simb&oacute;lica, uma vez que &#8220;&eacute; situada e sens&iacute;vel a fatores contingentes de coordenadas esp&aacute;cio-temporais que marcam sua produ&ccedil;&atilde;o (...). &Eacute; dispers&atilde;o e dissemina&ccedil;&atilde;o em um intermin&aacute;vel processo&#8221; (Rajagopalan, mimeo: 3).</p>      <p><b>6. &#8220;Uma p&aacute;tria imaginada&#8221;?<sup><a href="#6" name="top6">[6]</a></sup></b></p>      <p>N&atilde;o h&aacute; no jogo pol&iacute;tico do uso &#8220;nunca (d)antes nesse pa&iacute;s&#8221; o oferecimento de uma &#8220;p&aacute;tria  imaginada&#8221; (Rushdie, 1991: 9)? A p&aacute;tria do sebastianismo? A p&aacute;tria brasileira? Rushdie ao mirar no espelho sua p&aacute;tria  &Iacute;ndia apenas recolhe em sua mem&oacute;ria &#8220;vidros quebrados&#8221; que chegam ao presente. Lula, ao usar &#8220;nunca dantes&#8221;,  n&atilde;o estaria recolhendo vidros quebrados? A forma pode ser a mesma, mas a simbologia do ufanismo &eacute; alimentada diferentemente. Lula  n&atilde;o recolhe nem o &#8220;espelho da nostalgia&#8221;, mas simplesmente mostra que o uso de uma mesma forma lus&oacute;fona tem  res&iacute;duos de significa&ccedil;&atilde;o, mas com pol&iacute;ticas de representa&ccedil;&atilde;o diferentes. &Eacute; justamente &#8220;na  natureza parcial dessas mem&oacute;rias que suas fragmenta&ccedil;&otilde;es s&atilde;o evocadas, [adquirindo] status e resson&acirc;ncia  justamente por causa de sua perman&ecirc;ncia&#8221; no presente (Rushdie, 1991: 12). S&atilde;o as fragmenta&ccedil;&otilde;es de historicidades  que fazem com que &#8220;coisas triviais adquiram o status de s&iacute;mbolos, com at&eacute; qualidades  numenais&#8221;<sup><a href="#7" name="top7">[7]</a></sup> (Rushdie, 1991: 12). Rastros de um passado &#8220;mares nunca dantes navegados&#8221; &#8211;, se fazem presentes no &#8220;nunca (d)antes nesse pa&iacute;s&#8221;, mas sempre ressignificados. Como diz Charles Taylor (apud Appiah, 2005: 128), &#8220;como indiv&iacute;duos n&oacute;s valoramos determinadas coisas, encontramos certos complementos bons, certas experi&ecirc;ncias satisfat&oacute;rias, certos progn&oacute;sticos positivos. Mas certas coisas podem ser boas em determinados meios ou satisfazer suas formas particulares, porque o conhecimento do passado se desenvolve em nossa cultura.&#8221;</p>      <p>Mesmo que pensemos que a continuidade e uso de &#8220;nunca dantes&#8221; signifique &#8220;forma&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas, institui&ccedil;&otilde;es e compreens&atilde;o de sentido &agrave;s nossas a&ccedil;&otilde;es &#8211; um local de utilidades -, suas naturezas n&atilde;o outorgam que tais utilidades sejam sociais&#8221; (Appiah, 2005: 128), ou seja, determinado fragmento do passado n&atilde;o necessariamente transita no universo ufanista, apenas reside em um mundo imagin&aacute;rio, alimentando a constru&ccedil;&atilde;o de uma &#8220;p&aacute;tria imaginada&#8221;.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>APPIAH, Kawame A. (2005), <i>The ethics of identity, </i>United Kingdom, Princenton University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000063&pid=S0807-8967201400010001000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>BRAND&Atilde;O, Junito de S. (1986), <i>Mitologia grega</i>, Vol. I, Rio de Janeiro/Petr&oacute;polis, Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000065&pid=S0807-8967201400010001000002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       <!-- ref --><p>DERRIDA, Jacques. (1999), <i>Gramatologia</i>,. 2a. ed., S&atilde;o Paulo, Editora Perspectiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000067&pid=S0807-8967201400010001000003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>&#8211;&#8211;&#8211;&#8211;,. (2002), <i>O animal que logo sou</i>, S&atilde;o Paulo, Editora UNESP.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000069&pid=S0807-8967201400010001000004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>ELIADE, Mircea (1996), <i>Imagens e s&iacute;mbolos</i>. <i>Ensaio sobre o simbolismo m&aacute;gico-religioso,</i>. S&atilde;o Paulo, Martins Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000071&pid=S0807-8967201400010001000005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>ESP&Iacute;NDOLA, P. C. (2003), Revista <i>TERNUMA Regional Bras&iacute;lia. </i>Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.ternuma.com.br" target="_blank">http://www.ternuma.com.br</a>; acesso em maio de 2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000073&pid=S0807-8967201400010001000006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></a></p>      <!-- ref --><p>JORNAL <i>FOLHA DE S&Atilde;O PAULO </i>(9/1/2009). Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.folha.com.br" target="_blank">http://www.folha.com.br</a>; acesso em maio de 2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000075&pid=S0807-8967201400010001000007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>HAESBAERT, Rog&eacute;rio (2006), <i>O mito da desterritorializa&ccedil;&atilde;o: do fim dos territ&oacute;rios &agrave; multiterritorialidade</i>, 2a. ed., Rio de Janeiro, Bertrand Brasil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000077&pid=S0807-8967201400010001000008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>ISIDRO PEREIRA, S.J. (1976), <i>Dicion&aacute;rio grego-portugu&ecirc;s e portugu&ecirc;s-grego</i>. 5a.ed. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000079&pid=S0807-8967201400010001000009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>RAJAGOPALAN, Kanavillil (s/d), <i>The world as a stage magic realism and the politics of representation, </i>CNPq n&ordm; 306151/88-0, mimeo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000080&pid=S0807-8967201400010001000010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>REVISTA <i>VEJA (</i>14 de maio de 2003).Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.veja.com" target="_blank">http://www.veja.com</a>; acesso em maio de 2009.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000082&pid=S0807-8967201400010001000011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>RUDSHIE, Salmon (1991), <i>Imaginary Homelands-essays and criticism 1981-1991</i>, London, Penguin Books.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000084&pid=S0807-8967201400010001000012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>WATTIMO, Gian (s/d), <i>O fim da modernidade &#8211; Niilismo e hermen&ecirc;utica na cultura p&oacute;s-moderna</i>, Rio de Janeiro, Presen&ccedil;a.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000086&pid=S0807-8967201400010001000013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p><sup><a href="#top1" name="1" >[1]</a></sup>Uma pessoa ser o &#8216;cristo&#8217; do outro &eacute; uma g&iacute;ria da l&iacute;ngua portuguesa do Brasil, que indica ser uma pessoa t&atilde;o ofensiva que se torna o motivo de grande sofrimento do outro; faz o outro caminhar igual a Cristo, carregando uma cruz. Logo cruz pode ser considerado sin&ocirc;nimo de cristo pela equival&ecirc;ncia de sentido de sofrimento.</p>      <p><sup><a href="#top2" name="2">[2]</a></sup>&#8220;Bunda&#8221; &eacute; um termo de baixo cal&atilde;o no uso da l&iacute;ngua portuguesa no Brasil; refere-se &agrave;s n&aacute;degas, parte traseira do corpo humano; trata-se de um termo chulo pois h&aacute; equival&ecirc;ncia de sentido do local traseiro do corpo com o local de defecar. No caso, o verbo &#8220;bundear&#8221;, tamb&eacute;m &eacute; de uso chulo, porquanto designa pessoas desocupadas e pregui&ccedil;osas que n&atilde;o trabalham e que ficam sentadas sobre a &#8220;bunda&#8221;.</p>      <p><sup><a href="#top3" name="3">[3]</a></sup>Palavra de origem grega que significa ao p&eacute; da letra <i>volta do boi</i>: <i>bous </i>(<i>&szlig;o</i>?<i>?</i>) boi, e <i>stroph&aacute; </i>(<i>St??f??</i>), o que se move dando voltas (Pereira, 1976); e referindo &agrave; escrita ter&iacute;amos uma escrita que vira de uma linha para a outra, como fazem os bois ao passar de um sulco para outro, isto e, escrevendo alternadamente da esquerda para a direta e, depois, da direita para a esquerda.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top4" name="4">[4]</a></sup>Express&otilde;es tais como &#8220;comandante da nau brasileira&#8221;, &#8220;comandante do Brasil&#8221;, &#8220;senhor general&#8221; s&atilde;o express&otilde;es ir&ocirc;nicas encontradas no site <a href="http://www.veja.com.br/" target="_blank">http://www.veja.com.br/</a> que por quest&atilde;o de economia n&atilde;o est&atilde;o no corpus anal&iacute;tico mencionado na primeira parte deste artigo. S&atilde;o utilizados metaforicamente para ajustar o tom de cr&iacute;tica da m&iacute;dia ao tom de cr&iacute;tica deste artigo.</p>      <p><sup><a href="#top5" name="5">[5]</a></sup>A men&ccedil;&atilde;o da chegada de Lula a S&atilde;o Paulo, refor&ccedil;a o lado nordestino como local da pobreza e o sudeste como o das oportunidades.</p>      <p><sup><a href="#top6" name="6">[6]</a></sup>&#8220;P&aacute;tria imaginada&#8221; &eacute; express&atilde;o traduzida do t&iacute;tulo do livro de Rushdie, Salman. <i>Imaginary Homelands &#8211; essays and criticism 1981-1991</i>. London: Penguin Books, 1991.</p>      <p><sup><a href="#top7" name="7">[7]</a></sup>N&uacute;meno, <i>noumenon </i>(<i>????&micro;e???</i>), termo introduzido por Kant para indicar o objeto do conhecimento intelectual puro, que &eacute; a coisa em si.</p>       ]]></body><back>
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