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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Aspetos sociocognitivos da variação e da mudança semântica: haver e ter em estruturas de posse]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Socio-cognitive aspects of semantic variation and change: haver and ter in possession structures]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade de Coimbra Faculdade de Letras ]]></institution>
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<country>Portugal</country>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In contemporary European Portuguese, as we know, the notion of possession is expressed by the verb ter, with haver confined to existential structures. In medieval Portuguese, teer and auer, when they had lexical content, were often used in the same context, with no significant differences between them. There have been numerous studies on these verbs in possession structures, but the reasons and conditions for the gradual substitution of auer by ter have still not been explained. The present analysis is based on Silva ´s (1995) semantic typology of the complement of the predicate: AM-type structures and AI-type structures. In a corpus of juridical documents, we have analyzed the evolution of this gradual replacement of auer by ter, attempting to answer two questions: what was the reason that ter began to replace auer in AM-type possession structures?, and what were the external conditions (social, cultural and cognitive) whereby ter moved into AI-type expressions during the 15th century?]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Cognição]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Aspetos sociocognitivos da varia&ccedil;&atilde;o e da mudan&ccedil;a sem&acirc;ntica: haver e ter em estruturas de posse</b></p>      <p><b>Socio-cognitive aspects of semantic variation and change: haver and ter in possession structures</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Maria Jos&eacute; Carvalho*</b></p>      <p>*Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal.</p>      <p><a href="mailto:mariac@fl.uc.pt">mariac@fl.uc.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>RESUMO</b> </p>      <p>Como &eacute; sabido, em portugu&ecirc;s europeu contempor&acirc;neo, a no&ccedil;&atilde;o de posse &eacute; expressa com o verbo ter,  confinando-se haver &agrave;s  estruturas existenciais. No portugu&ecirc;s medieval, teer e auer como verbos providos de conte&uacute;do lexical eram usados frequentemente no mesmo  contexto, sem que houvesse diferen&ccedil;as significativas entre eles. Os estudos sobre estes verbos em estruturas de posse s&atilde;o abundantes,  mas  as motiva&ccedil;&otilde;es e condicionamentos da gradual substitui&ccedil;&atilde;o de auer por ter n&atilde;o foram ainda suficientemente  esclarecidos.  A  nossa an&aacute;lise baseia-se na tipologia efetuada por Silva (1995), quanto &agrave; natureza sem&acirc;ntica do complemento do predicado: estruturas do  tipo AM e estruturas de tipo AI. Num corpus de natureza jur&iacute;dica, analis&aacute;mos a evolu&ccedil;&atilde;o desta  substitui&ccedil;&atilde;o gradual de auer por ter, tentando responder a duas quest&otilde;es: por que motivo o verbo ter come&ccedil;a por  substituir  auer nas estruturas de posse do tipo AM? Por que condicionalismos externos (sociais, cognitivos ou culturais) ter avan&ccedil;a para express&otilde;es do  tipo AI ao longo do s&eacute;culo XV?</p>      <p><b>Palavras chave</b>: Cogni&ccedil;&atilde;o, Sem&acirc;ntica cognitiva, Sem&acirc;ntica hist&oacute;rica,  Varia&ccedil;&atilde;o e mudan&ccedil;a sem&acirc;ntica.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p> <b>ABSTRACT</b> </p>      <p>In contemporary European Portuguese, as we know, the notion of possession is expressed by the verb ter, with haver confined to existential structures. In medieval Portuguese, teer and auer, when they had lexical content, were often used in the same context, with no significant differences between them. There have been numerous studies on these verbs in possession structures, but the reasons and conditions for the gradual substitution of auer by ter have still not been explained. The present analysis is based on Silva &acute;s (1995) semantic typology of the complement of the predicate: AM-type structures and AI-type structures. In a corpus of juridical documents, we have analyzed the evolution of this gradual replacement of auer by ter, attempting to answer two questions: what was the reason that ter began to replace auer in AM-type possession structures?, and what were the external conditions (social, cultural and cognitive) whereby ter moved into AI-type expressions during the 15th century?</p>      <p><b>Keywords</b>: Cognition, Cognitive Semantics, Historical Semantics, Semantic Variation and Change.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="right"><i>In Memoriam Rosa Virg&iacute;nia Mattos Silva</i></p>      <p><b>1. Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>      <p>Como &eacute; sabido, em portugu&ecirc;s europeu contempor&acirc;neo, a no&ccedil;&atilde;o de posse &eacute; expressa com o verbo <i>ter</i>, confinando-se o verbo <i>haver</i> a estruturas tipicamente existenciais (ex: &laquo;<i>H&aacute;</i> muita pobreza no mundo&raquo;). Contudo, no portugu&ecirc;s medieval, <i>teer</i> e <i>auer</i> como verbos providos de conte&uacute;do lexical eram usados frequentemente no mesmo contexto, sem que houvesse diferen&ccedil;as significativas relevantes entre eles. Os estudos sobre estes verbos (<i>tener</i> e <i>haber</i>, em castelhano) em estruturas de posse, nessa fase da l&iacute;ngua portuguesa, s&atilde;o abundantes, mas as motiva&ccedil;&otilde;es e condicionamentos da gradual substitui&ccedil;&atilde;o de <i>auer</i> (&lt; HABERE) por <i>ter</i> (TENERE) n&atilde;o foram ainda esclarecidos.</p>      <p>Relativamente &agrave; l&iacute;ngua castelhana, e sobre os fatores sociais que estiveram na origem da distribui&ccedil;&atilde;o destes dois verbos, pronunciou-se j&aacute; Eva Seifert num trabalho, que se tornou cl&aacute;ssico, onde prop&otilde;e para &#8220;tener&#8221; a aquisi&ccedil;&atilde;o de um sentido de posse ligado aos favores jur&iacute;dicos associados ao regime feudal da propriedade, que ter&aacute; levado os not&aacute;rios a progressivamente adotar o verbo <i>teer</i>. Considerando que &laquo;las innovaciones de orden administrativo y las relaciones feudales exigieron un vocabulario nuevo&raquo; (Seifert, 1930: 245), a Autora prova que j&aacute; no s&eacute;culo XI um documento jur&iacute;dico se revela precioso por &laquo;emplear <i>habere</i> designando la propiedad por herencia y <i>tenere</i> la posesi&oacute;n en feudo&raquo; (&iacute;dem, <i>ibidem</i>: 247).<sup><a href="#1" name="top1">[1]</a></sup></p>      <p>Quanto aos fatores lingu&iacute;sticos que converteram <i>teer</i> de &#8220;ajudante em usurpador&#8221;, e ap&oacute;s ter tra&ccedil;ado a evolu&ccedil;&atilde;o sem&acirc;ntica destes verbos na l&iacute;ngua espanhola, desde a l&iacute;ngua latina at&eacute; ao s&eacute;culo XX, a mesma autora afirma que a substitui&ccedil;&atilde;o de &#8220;aver&#8221; por &#8220;teer&#8221; foi motivada pelo facto de &laquo;ser ambos verbos desprovistos de sentido propio, funcionando como c&oacute;pula expresiva de una idea vaga de acci&oacute;n o posesi&oacute;n&raquo; <i>(ibidem</i>: 384).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No que diz respeito &agrave; l&iacute;ngua portuguesa propriamente dita, a tentativa pioneira de contribuir para o esclarecimento de &laquo;um dos mais escuros problemas de evolu&ccedil;&atilde;o sem&acirc;ntica&raquo; (Ali, 19575: 118) foi a monografia de Maria L&uacute;cia Pinheiro Sampaio (Sampaio, 1978). N&atilde;o obstante o car&aacute;ter restrito do <i>corpus</i> analisado, constitu&iacute;do essencialmente por exemplos dispersos extra&iacute;dos dos textos liter&aacute;rios desde o latim cl&aacute;ssico at&eacute; ao s&eacute;culo XX, a Autora prova que em textos do s&eacute;culo XIV estava associada ao verbo <i>aver</i> uma &#8220;posse atenuada, uma esp&eacute;cie de posse espiritual&#8221; (idem, <i>ibidem</i>: 20), concluindo que no portugu&ecirc;s arcaico &laquo;<i>haver</i> e <i>ter</i>, como verbos independentes, tinham empregos diversos e n&atilde;o eram usados indiferentemente, um pelo outro, como acontecia quando expressavam a posse&raquo; (idem, <i>ibidem</i>: 36-37).</p>      <p>Uma pesquisa que viria a revelar-se um marco importante para toda a reflex&atilde;o subsequente em volta de <i>teer</i> e <i>aver</i>, &eacute; o de Rosa Virg&iacute;nia de Mattos Silva (Silva, 1995: 306-307). A nossa an&aacute;lise baseia-se na tipologia efetuada por esta autora quanto &agrave; natureza sem&acirc;ntica do complemento do predicado<sup><a href="#2" name="top2">[2]</a></sup>:</p>      <blockquote>    <p>(i) Estruturas do tipo AM [o complemento expressa objetos materiais adquir&iacute;veis, externos ao possuidor]: &laquo;hua uinha que de nos <i>t?</i> Pero Perez&raquo; (1289 MA 1), &laquo;que t&eacute;&eacute;m ca?aria enteira&raquo; (1342 Alf30), &laquo;dhua herdade que <i>teue</i>&raquo; (132 MA 47), etc. Trata-se de um tipo de posse que pode ser designada por &#8220;posse protot&iacute;pica&#8221;<sup><a href="#3" name="top3">[3]</a></sup>.</p>      <p>(ii) Estruturas de tipo AI [o complemento expressa qualidades morais, espirituais, intelectuais, afetivas, sociais]: &laquo;mal e rrancor que delle <i>auja</i>&raquo; (1402 MA 67), &laquo;gra&ccedil;as, mercees que dello poderiades <i>auer</i>&raquo; (1405 MA 70), &laquo;todo o derreito que agora entendya (&#8230;) d&#8217; <i>auer</i>&raquo; (1436 Alf 93), &laquo;n&otilde; <i>averedes</i> poder&raquo; (1452 MA 106), etc. Trata-se de um tipo de posse normalmente considerada &#8220;n&atilde;o-protot&iacute;pica&#8221;.</p></blockquote>      <p>Uma an&aacute;lise sistem&aacute;tica dos dados permitiu-lhe concluir, com fundamenta&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica mais segura, que:</p>       <blockquote>    <p>a) <i>Haver</i>, na primeira fase do portugu&ecirc;s arcaico, era o verbo generalizado na express&atilde;o das estruturas de posse; b) A expans&atilde;o de <i>ter</i> sobre <i>haver</i> se origina nas estruturas do tipo AM e se difunde para as do tipo AI (&#8230;); c) Na 2&ordf; metade do s&eacute;culo XV, <i>haver</i> e <i>ter</i> se apresentam como variantes nas estruturas de posse, mas j&aacute; se evidencia o recesso de <i>haver</i>. (Silva, 1995: 306-307).</p></blockquote>      <p>As duas quest&otilde;es lan&ccedil;adas pela Autora no final desse estudo revelam-se, na nossa opini&atilde;o, cruciais na fundamenta&ccedil;&atilde;o da substitui&ccedil;&atilde;o gradual de <i>aver</i> por <i>teer</i>: &laquo;1) Por que o verbo <i>ter</i> come&ccedil;a por substituir <i>haver</i> nas estruturas de posse do tipo AM? 2) Por que <i>ter</i> avan&ccedil;a para express&otilde;es do tipo AI (...) ao longo do s&eacute;culo XV?&raquo; (idem, <i>ibidem</i>: 308). Recorrendo aos valores sem&acirc;nticos de tenere e habere, uma das constata&ccedil;&otilde;es &eacute; que &laquo;as mais antigas documenta&ccedil;&otilde;es de <i>ter</i> em estruturas de posse, quando o complemento tem um referente concreto, podem ser explicadas pela hist&oacute;ria sem&acirc;ntica do <i>tenere</i> latino em dire&ccedil;&atilde;o ao <i>ter</i> portugu&ecirc;s&raquo; (<i>ibidem</i>: 309).</p>      <p>Seduzido, igualmente, pelas motiva&ccedil;&otilde;es internas e/ou externas que levam &agrave; difus&atilde;o do uso de <i>teer</i> sobre <i>aver</i>, e na pista de Eva Seifert,<sup><a href="#4" name="top4">[4]</a></sup> Amadeu Torres procura tamb&eacute;m na etimologia os valores sem&acirc;nticos dos dois lexemas:</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>    <p>Dois campos sem&eacute;micos nada estanques (&#8230;) em cujo futuro de maior ou menor implanta&ccedil;&atilde;o ir&atilde;o influenciar os condicionamentos sociais por um lado, os de objectividade tem&aacute;tica e de intersubjectividade emotivo-cultural por outro (Torres, 1997: 305).</p></blockquote>      <p>Assim, coloca, tamb&eacute;m, a sedutora quest&atilde;o que, a nosso ver, poder&aacute; fornecer a chave para o entendimento lingu&iacute;stico, cognitivo e sociocultural desta mudan&ccedil;a:</p>      <blockquote>    <p>Ser&aacute; por causa das duas &uacute;ltimas raz&otilde;es aqui aventadas que na Eneida, poema her&oacute;ico de esfor&ccedil;o e luta, de trag&eacute;dia e drama, prevalece tanto o verbo <i>teneo</i> e, por exemplo, na Peregrinatio Aetheri&aelig; (s&eacute;c. IV d. C.), de tessitura descritivamente calma e marginando o grau zero da escrita como diria Roland Barthes, o <i>habeo</i> vence folgadamente por 47 a 3? (idem, <i>ibidem</i>: 305)</p></blockquote>      <p>Num <i>corpus</i> de natureza jur&iacute;dica, constitu&iacute;do por um conjunto de documentos oriundos dos fundos do mosteiro de Santa Maria de Alcoba&ccedil;a (s&eacute;cs. XIII-XVI), e por n&oacute;s transcritos, analis&aacute;mos a evolu&ccedil;&atilde;o desta substitui&ccedil;&atilde;o gradual de <i>auer</i> por <i>ter</i>, tentando responder a duas quest&otilde;es cruciais: por que motivo o verbo <i>ter</i> come&ccedil;a por substituir <i>auer</i> nas estruturas de posse do tipo AM (objetos materiais adquir&iacute;veis, externos ao possuidor), tal como j&aacute; referiu R. V. Mattos Silva)? Por que condicionalismos externos (sociais, culturais e cognitivos) <i>ter</i> avan&ccedil;a para express&otilde;es do tipo AI ao longo do s&eacute;culo XV?</p>      <p>Para esse fim, parece-nos &uacute;til recolher os contextos em que surge invariavelmente <i>teer</i>, desde o per&iacute;odo arcaico, pois esse uso atesta a exist&ecirc;ncia de tra&ccedil;os s&eacute;micos defi t&oacute;rios de <i>teer</i> que poder&atilde;o ter invadido paulatinamente outras esferas de sentido (cf. sec&ccedil;&atilde;o 2.1). Ora, se <i>teer</i> e <i>aver</i> s&atilde;o dois itens lexicais com uma margem de distin&ccedil;&atilde;o s&eacute;mica t&atilde;o t&eacute;nue, &eacute; natural que a sua oposi&ccedil;&atilde;o sem&acirc;ntica tendesse a ser progressivamente neutralizada.</p>      <p><b>2. An&aacute;lise do <i>corpus</i></b></p>      <p><i>2.1. A sem&acirc;ntica de</i> teer</p>      <p>2.1.1.<i>Teer/auer</i> como verbos predicativos de opini&atilde;o/atitude/ perce&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#5" name="top5">[5]</a></sup></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os dados do nosso <i>corpus</i> apontam contextos em que o verbo <i>teer</i> aparece quase invariavelmente em algumas constru&ccedil;&otilde;es, que s&atilde;o transversais ao tempo. Nestes usos, que n&atilde;o consideramos como ocorrendo em &#8220;estruturas de posse&#8221; (tal como estas t&ecirc;m sido estudadas na literatura), o verbo <i>ter</i> surge integrado em express&otilde;es formulares estereotipadas (provavelmente traduzidas do latim) e, por isso, sedimentadas pela tradi&ccedil;&atilde;o. Em documentos compreendidos entre 1337 e 1532 contam-se 36 ocorr&ecirc;ncias da express&atilde;o &laquo;<i>ter por bem</i>&raquo;: &laquo;o que por b? <i>teuermos</i>&raquo;, &laquo;o que por bem <i>teuer</i>&raquo;, &laquo;e por bem <i>teuer</i>&raquo;, &laquo;o que por bem <i>teue??</i>&raquo;, &laquo;<i>teemos</i> por bem&raquo;, &laquo;e por bem <i>teverr?</i>&raquo;, &laquo;per b? <i>tever</i>&raquo;, &laquo;por b? <i>tever?</i>&raquo;, etc. Apresentamos a seguir cerca de metade dessas ocorr&ecirc;ncias, distribu&iacute;das ao longo do eixo temporal:</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="t1">     <p align="center">Tabela 1. Algumas ocorr&ecirc;ncias, no <i>corpus</i>, da express&atilde;o &laquo;<i>ter por bem</i>&raquo;</p>      <p align="center"><table border="1" cellspacing="0" cellpadding="0" >  <tbody> <tr> <td valign="top" >    <p><b>Documentos</b></p></td> <td valign="top" >    <p><b><i>Teer</i></b>, &#8216;considerar&#8217; (na ordem de valores do sujeito)</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1337 Alc 27</p>      <p>1345 MA 33</p>      <p>1359 MA 42</p>      <p>1362 MA 44</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1375 MA 48</p>      <p>1385 MA 54</p>      <p>1397 MA 64</p>      <p>1405 MA 70</p>      <p>1413 MA 75</p>      <p>1423 MA 83</p>      <p>1436 Alf 93</p>      <p>1455 MA 108</p>      <p>1471 MA 119</p>      <p>1472 TC 120</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1477 MA 121</p>      <p>1484 MA 127</p>      <p>1489 MA 130</p>      <p>1505 MA 138</p>      <p>1532 Tur 149</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;por b? <i>teu[er]mos</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;o q<i>ue</i> p<i>o</i>r b? <i>teu[er]mos</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;o que por bem teu[er]mos&raquo;</p>      <p>&laquo;o q<i>ue</i> p<i>o</i>r bem <i>teu[er]mos</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;o q<i>ue</i> p<i>o</i>r b? <i>teu[er]mos</i>&raquo;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;o q<i>ue</i> por bem <i>teu[er]</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;o q<i>ue</i> por bem <i>teu[er]mos</i>&raquo;</p>      <p>&laquo; por bem <i>teu[er]mos</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;o q<i>ue</i> por bem <i>teu[er]mos</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;o q<i>ue</i> po<i>r</i> bem <i>teu[er]mos</i>&raquo;, 2 v.</p>      <p>&laquo;e po<i>r</i> bem <i>teuer</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;o q<i>ue</i> po<i>r</i> b? <i>teue??</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;e por bem <i>teue??e</i>&raquo;; &laquo;e por bem <i>teue??em</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;<i>teemos</i> po<i>r</i> bem&raquo;</p>      <p>&laquo;e por bem <i>teue??e</i> &raquo;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;e por bem <i>teuer</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;e por bem <i>teverr?</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;p<i>er</i> b? <i>tever</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;p<i>or</i> b? <i>tever?</i>&raquo;</p></td> </tr>  </tbody> </table></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Nesta express&atilde;o, o verbo &#8220;ter&#8221; expressa a <i>subjetividade extrema</i> do sujeito, na medida em que no seu semantismo est&aacute; projetada uma <i>avalia&ccedil;&atilde;o</i> ou <i>aprecia&ccedil;&atilde;o</i> que tem como fonte um sujeito e por base um sistema de valores morais. Estamos, assim, perante um caso extremo de aproxima&ccedil;&atilde;o do sujeito ao &#8220;objeto possu&iacute;do&#8221;. Tendo em conta que esse objeto est&aacute; inscrito no seu sistema de valores morais e &eacute;ticos, dir&iacute;amos que existe uma coincid&ecirc;ncia total.</p>      <p>O que se pode inferir destes usos (que, como foi dito, j&aacute; deveriam existir nas express&otilde;es formulares dos textos latinos)<sup><a href="#6" name="top6">[6]</a></sup> &eacute; que ao verbo TENERE deveria estar associada uma dimens&atilde;o axiol&oacute;gica n&atilde;o reconhec&iacute;vel em HABERE, porventura mais neutro.</p>      <p>Importa salientar que nesta ace&ccedil;&atilde;o h&aacute; apenas quatro exemplos no <i>corpus</i> (10%) que permitem diagnosticar &#8220;fugas&#8221; ao que a l&iacute;ngua fixou por <i>standard</i>. Os dois primeiros exemplos situam-se na d&eacute;cada de 80 do s&eacute;culo XIV e prov&ecirc;m de zonas rurais e perif&eacute;ricas; os dois &uacute;ltimos s&atilde;o j&aacute; tardios (quinhentistas). No seu conjunto, falam em un&iacute;ssono: revelam um af&atilde; de erudi&ccedil;&atilde;o que, se no primeiro caso marginam a ultracorre&ccedil;&atilde;o (sintoma da confus&atilde;o que j&aacute; corria na l&iacute;ngua oral), no segundo deveriam ter correspondido &agrave; tend&ecirc;ncia tardia para reabilitar o verbo <i>auer</i>, j&aacute; completamente esvaziado de sentido, criando com ele constru&ccedil;&otilde;es cultas:</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="t2">     <p align="center">Tabela 2. Ocorr&ecirc;ncias da express&atilde;o &laquo;<i>auer</i> por bem&raquo;, &laquo;<i>auer</i> por bom&raquo;, ao longo do <i>corpus</i></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><table border="1" cellspacing="0" cellpadding="0" >  <tbody> <tr> <td valign="top" >    <p><b>Documentos</b></p></td> <td valign="top" >    <p><b>&laquo;auer por <i>bem</i>, <i>bom</i>&raquo;</b></p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1380 Alv 52</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;o q<i>ue</i> po<i>r</i> bem <i>ouu[er]</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1383 Alj 53</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;a q<i>u</i>em por bem <i>ouu[er]</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1529 MA 148</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;asy ho <i>avi&atilde;</i> po<i>r</i> bem&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1565 Alc 153</p></td> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;<i>avi&atilde;</i> por boa&raquo;; &laquo;o <i>avi&atilde;</i> por bom&raquo;</p></td> </tr>  </tbody> </table></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Tamb&eacute;m Rosa Virg&iacute;nia Mattos Silva, ao analisar as cartas de D. Jo&atilde;o III, situadas entre 1540 e 1553, refere 21 ocorr&ecirc;ncias em que <i>haver</i> surge em contextos formulares, 14 delas na express&atilde;o &laquo;aver por bem&raquo; (Silva, 2002b: 150-151). Aludindo a estas express&otilde;es, e apresentando alguns exemplos das <i>D&eacute;cadas</i> de Jo&atilde;o de Barros e Diogo Couto, Said Ali afirma que constituem uma &laquo;homenagem tardia a um verbo em &eacute;poca na qual, dada a escolha, se preferia de ordin&aacute;rio o verbo <i>ter</i>&raquo; (Ali, 1957: 121). Na verdade, se repararmos em alguns exemplos citados por este Autor, talvez seja poss&iacute;vel propor uma varia&ccedil;&atilde;o condicionada semanticamente, neste tipo de express&otilde;es. Assim, o verbo <i>ter</i> est&aacute; associado a contextos em que est&aacute; projetada a <i>subjetividade</i> m&aacute;xima do sujeito, decorrente da assun&ccedil;&atilde;o de um ju&iacute;zo associado a um sistema de valores. Sen&atilde;o, vejamos:</p>      <blockquote>    <p>&laquo;E segundo a gente da terra t?, foi desta maneira&#8230;T&Ecirc;M que ha paraiso&#8230;e T&Ecirc;M que ha inferno&raquo; (idem, <i>ibidem</i>: 121).</p></blockquote>      <p>No mesmo contexto sint&aacute;tico, mas remetendo o conte&uacute;do do verbo para uma realidade alheia aos valores do sujeito (com o sentido de &#8216;acreditar em&#8217;), surge <i>aver</i> em outro exemplo:</p>      <blockquote>p>&laquo;<i>Haviam</i> que na India se n&atilde;o fazia conta daquelas ilhas&raquo; (idem, <i>ibidem</i>: 121)</p></blockquote>      <p>J&aacute; nos Lus&iacute;adas, segundo o mesmo Autor, excetuando em uma passagem (&laquo;Fala verdade, <i>havida</i> por verdade&raquo;) predomina igualmente o verbo <i>ter</i>, com um semantismo associado ao sistema de valores do sujeito: &laquo;<i>ter</i> por grande&raquo;, &laquo;<i>ter</i> por santo&raquo;, &laquo;<i>ter</i> por certo&raquo; (idem, <i>ibidem</i>: 121-122)</p>      <p>Contudo, como verbo predicativo de atitude ou perce&ccedil;&atilde;o intelectual, <i>teer</i> existe, todavia, em varia&ccedil;&atilde;o complementar com <i>aver</i>, varia&ccedil;&atilde;o essa que est&aacute; condicionada por restri&ccedil;&otilde;es de natureza socio-pragm&aacute;tica. Quando, ao complemento direto do verbo se consigna uma qualifica&ccedil;&atilde;o descritiva ou descritiva-identificadora, preferiu-se, ao longo do per&iacute;odo medieval, o verbo <i>auer</i>. Ao contr&aacute;rio da express&atilde;o &#8220;<i>ter</i> por bem&#8221;, nestas express&otilde;es desenha-se um espa&ccedil;o de veridi&ccedil;&atilde;o que &eacute; decorrente do contexto jur&iacute;dico-formular em que surgem. Assim, o termo predicativo est&aacute; vinculado a for&ccedil;as sociais externas ao sujeito (como as leis e institui&ccedil;&otilde;es), que conferem a essa veridi&ccedil;&atilde;o um certo grau de mobilidade e, portanto, de relatividade esp&aacute;cio-temporal. Express&otilde;es como &#8220;<i>aver</i> [uma carta] por firme e est&aacute;vel&#8221;, &#8220;<i>aver</i> uma apela&ccedil;&atilde;o por direita/deserta&#8221;, &#8220;<i>aver</i> por ratas e gratas&#8221;, &#8220;<i>aver</i> [algu&eacute;m] por revel&#8221;, &#8220;aver [algu&eacute;m] por desobrigado e desatado&#8221;, &#8220;aver [algu&eacute;m] por prioll&#8221;, ou, ainda, as estruturas jur&iacute;dicas tautol&oacute;gicas (tipicamente medievais) &#8220;partir e <i>aver</i> por partida&#8221;, &#8220;meter e <i>aver</i> por metido&#8221;, &#8220;outorgar e <i>aver</i> por outorgado&#8221;, etc., n&atilde;o decorrem da interioriza&ccedil;&atilde;o da pauta de valores morais do sujeito, mas sim dos valores jur&iacute;dicos (e, por isso, sociais) estabelecidos, que s&atilde;o temporalmente m&oacute;veis e, como se sabe, alheios ao contexto esp&aacute;cio-temporal em que s&atilde;o produzidos. Apresentam-se os exemplos encontrados:</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="t3">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center">Tabela 3. Ocorr&ecirc;ncias de <i>auer</i> &#8216;considerar&#8217;, &#8216;ter por&#8217;, ao longo do <i>corpus</i></p>      <p align="center"><table border="1" cellspacing="0" cellpadding="0" >  <tbody> <tr> <td valign="top" >    <p><b>Documentos</b></p></td> <td valign="top" >    <p><b><i>Auer</i> &#8216;considerar&#8217;, &#8216;ter por&#8217;</b></p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1298 Alc 6</p>      <p>1304 Alc 9</p>      <p>1328 Alj 21</p>      <p>1379 Alc 51</p>      <p>1388 MA 57</p>      <p>1399 MA 65</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1402 MA 67</p>      <p>1405 MA 70</p>      <p>1415 MA 77</p>      <p>1425 MA 84</p>      <p>1430 C&oacute;s 89</p>      <p>1438 Ped 95</p>      <p>1450 Alv 104</p>      <p>1451 MA 105</p>      <p>1455 MA 108</p>      <p>1460 MA 113</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1462 Mai 114</p>      <p>1467 Mai 117</p>      <p>1471 MA 119</p>      <p>1489 MA 130</p>      <p>1490 MA 131</p>      <p>1491 Alj 133</p>      <p>1505 MA 138</p>      <p>1509 Ped 140</p>      <p>1526 Ped 145</p>      <p>1529 MA 148</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1532 Tur 149</p>      <p>1536 SC 150</p>      <p>1536 SC 151</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;p<i>ro</i>metem<i>os</i> &aacute; <i>&aacute;uer</i> [por] firme e e?tauel&raquo;</p>      <p>&laquo;<i>auemos</i> [por] firme&raquo;</p>      <p>&laquo;<i>auemos</i> por firm<i>e</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;e nos <i>auem[os]</i> e liu<i>r</i>emos fi<i>r</i>me&raquo;</p>      <p>&laquo;e p<i>ro</i>meto a <i>au[er]</i> p<i>o</i>r f<i>i</i>rme&raquo;</p>      <p>&laquo;e p<i>ro</i>meto a <i>au[er]</i> po<i>r</i> fi<i>r</i>me&raquo;</p>      <p>&laquo;q<i>ue</i> o d<i>i</i>cto dom Abbade <i>ouue??</i> por ??eu (&#8230;) a??y como o ?enp<i>re</i> foy&raquo;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;<i>aujad[e]s</i> e prometiad<i>e</i>s a <i>au[er]</i> por firme e ?taujl&raquo;</p>      <p>&laquo;q<i>ue</i> a partyo e <i>auya</i> por partida&raquo;; &laquo;<i>avya</i> a d<i>i</i>cta partilha po<i>r</i> f<i>e</i>cta&raquo;</p>      <p>&laquo;e ?e <i>auja</i> dellas por ent<i>re</i>gue&raquo;</p>      <p>&laquo;foy <i>auudo</i> por ?o?peito&raquo;; &laquo;<i>auja</i> a d<i>i</i>cta apella&ccedil;am por d<i>e</i>r<i>ei</i>ta&raquo;</p>      <p>&laquo;<i>ouuer&otilde;</i> po<i>r</i> firme e e?tauel&raquo;</p>      <p>&laquo;q<i>u</i>all ant<i>e</i> mays por uo??a p<i>r</i>oll <i>ouu[er]d[e]s</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;e foy <i>aujdo</i> po<i>r</i> rreuel&raquo;; &laquo;<i>ouueo</i> po<i>r</i> rreuel&raquo;</p>      <p>&laquo;<i>au?do</i> o ??obr<i>e</i> d<i>i</i>to (&#8230;) por de?obrjgado e de?atado&raquo;; &laquo;e os <i>auja</i> por ?c&atilde;pados&raquo;</p>      <p>&laquo;<i>ouue</i> a d<i>i</i>cta apela&ccedil;om po<i>r</i> de?erta&raquo;</p>      <p>&laquo;mety&atilde;m h<i>e avj&atilde;m</i> po<i>r</i> metidos&raquo;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;e <i>avya</i> po<i>r</i> mjtydos&raquo;</p>      <p>&laquo;e q<i>ue</i> o <i>aujam</i> por metido&raquo;; &laquo;e q<i>ue</i> os <i>auja</i> por metid<i>os</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;tudo <i>ha</i> por arenu&ccedil;iado&raquo;</p>      <p>&laquo;e de as <i>aveer</i> por ratas e g<i>r</i>atas&raquo;</p>      <p>&laquo;como jujz apo?tollyco ho <i>ha</i> por pryoll&raquo;</p>      <p>&laquo;e o <i>avya</i> p<i>or</i> outo<i>r</i>gado&raquo;</p>      <p>&laquo;e os <i>ouuer&atilde;</i> p<i>or</i> mjtidos&raquo;</p>      <p>&laquo;<i>ouver&atilde;</i> (&#8230;) por metido&raquo;; &laquo;?e <i>ouve</i> p<i>or</i> metido&raquo;</p>      <p>&laquo;e o trespasar&atilde; e <i>ouver&atilde;</i> po<i>r</i> trespasado&raquo;</p>      <p>&laquo;os metj&atilde; e <i>avj&atilde;m</i> p<i>or</i> metjdos&raquo;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;e <i>ouveram</i> po<i>r</i> po?to&raquo;; &laquo;<i>ouveram</i> p<i>or</i> metydos&raquo;</p>      <p>&laquo;?e <i>ouve</i> p<i>or</i> emtrege&raquo;</p></td> </tr>  </tbody> </table></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>2.1.2.<i>Teer</i> com signi?cado de &#8216;obrigar moralmente&#8217; (= &#8216;prender, reter por obriga&ccedil;&atilde;o moral&#8217;)</p>      <p>Trata-se do &uacute;nico caso em que o sentido de <i>teer</i> &eacute; exclusivo deste verbo, n&atilde;o existindo no seu hom&oacute;logo <i>aver</i>. Segundo Jos&eacute; Mar&iacute;a Garc&iacute;a Mart&iacute;n:</p>      <blockquote>    <p>La dependencia con respecto a lo solicitado, en la cual se encontraba el sujeto del pasivo <i>teneri</i>, es la misma que la del catal&aacute;n <i>&eacute;sser tengut</i> y, expresada en forma activa, que la de la persona que &#8216;tiene&#8217;, &#8216;administra&#8217; (t&eacute;) un bien del poseedor verdadero, importante para la lengua del feudalismo (Garcia Mart&iacute;n: 2001: 60)</p></blockquote>      <p>Em documentos dos s&eacute;culos XIV e XV s&atilde;o frequentes as express&otilde;es: &laquo;er&atilde; teudos</i> correger&raquo;, &laquo;er&atilde; a nos <i>teudos</i> e obligados&raquo;, &laquo;<i>teudo</i> obriguado de dar&raquo;, &laquo;<i>teudo</i> e obriguado a serujr&raquo;, &laquo;e sam <i>teudos</i> he obriguados a paguar&raquo;, etc.:</p>      <p>Apresentam-se a seguir os exemplos que foi poss&iacute;vel extrair:</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="t4">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center">Tabela 4. Ocorr&ecirc;ncias de <i>teer</i> &#8216;obrigar moralmente a&#8217;</p>      <p align="center"><table border="1" cellspacing="0" cellpadding="0" >  <tbody> <tr> <td valign="top" >    <p><b>Documentos</b></p></td> <td valign="top" >    <p><b><i>Teer</i> </b>&#8216;obrigar moralmente a&#8217;; (= &#8216;sujeitar por uma obriga&ccedil;&atilde;o moral&#8217;)</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1304 Alc 10</p>      <p>1304 Alc 10</p>      <p>1304 Alc 10</p>      <p>1321 Alc 17</p>      <p>1324 Alc 18</p>      <p>1402 MA 67</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1402 MA 67</p>      <p>1467 Mai 117</p>      <p>1467 Mai 117</p>      <p>1482 MA 125</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;er&atilde; <i>teudos</i> correg<i>er</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;er&atilde; a nos <i>teudos</i> e obligados&raquo;</p>      <p>&laquo;<i>teudos</i> a nos correg<i>er</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;a u?da n&otilde; ualha n? <i>tenha</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;n&otilde; ?eia ualyo?a n? <i>tenha</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;<i>teudo</i> obriguado de dar&raquo;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;<i>teudo</i> e obliguado a ?<i>er</i>ujr&raquo;</p>      <p>&laquo;e ?am <i>teudos</i> de lhe dar&raquo;</p>      <p>&laquo;eram <i>teudos</i> h<i>e</i> obriguados a paguar&raquo;</p>      <p>&laquo;lhe n&otilde; po??a valler ?om<i>en</i>te <i>teer</i>&raquo;</p></td> </tr>  </tbody> </table></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>2.1.3.<i>Teer</i> com sentido de &#8216;guardar&#8217;: &#8216;guardar apre&ccedil;o&#8217;, &#8216;ter prop&oacute;sito de&#8217; (&laquo;<i>ter</i> em vontade&raquo;); &#8216;observar&#8217;, (= &#8216;cumprir&#8217;), por vezes em f&oacute;rmulas tautol&oacute;gicas</p>      <p>Em sentido literal, encontra-se apenas a express&atilde;o &laquo;que os <i>teue??</i> ? segredo&raquo; (1414). Por extens&atilde;o sem&acirc;ntica, <i>ter</i> poder&aacute; funcionar como operador de liga&ccedil;&atilde;o numa estrutura predicativa, significando &#8216;ter inten&ccedil;&atilde;o de&#8217; (constituindo &laquo;<i>ter</i> em vontade&raquo; uma lexia complexa), &#8216;guardar apre&ccedil;o&#8217;, &#8216;prezar&#8217;, ou ainda &#8216;observar&#8217;, &#8216;cumprir&#8217;:</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="t5">     <p align="center">Tabela 5. Ocorr&ecirc;ncias de <i>teer</i> com sentido de &#8216;guardar&#8217; (&#8216;guardar apre&ccedil;o&#8217;, &#8216;ter prop&oacute;sito de&#8217;, &#8216;observar&#8217;)</p>      <p align="center"><table border="1" cellspacing="0" cellpadding="0" >  <tbody> <tr> <td valign="top" >     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Documentos</b></p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<b><i>Teer</i> </b>meer&ccedil;e&raquo; &#8216;guardar gratid&atilde;o&#8217;</p></td> <td valign="top" >     <p><b>Documentos</b></p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<b><i>Teer</i> </b>em vontade&raquo; &#8216;ter prop&oacute;sito de&#8217;</p></td> <td valign="top" >     <p><b>Documentos</b></p></td> <td valign="top" >     <p><b><i>Teer</i> </b>&#8216;observar&#8217;, &#8216;cumprir&#8217; <sup><a href="#7" name="top7">[7]</a></sup> </p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1402 MA 67</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;e lho <i>tjnha</i></p></td> <td rowspan="21" valign="top" >    <p>1366 MA 46</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;? q<i>ue</i></p></td> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1321 Alc 17</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;n&otilde; <i>teu[er]des</i> n?</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    <p>em grande</p></td> <td valign="top" >    <p><i>tenho</i> ?</p></td> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    <p>guardardes&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    <p>m<i>er</i>cee&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>minha</p></td> <td valign="top" > </td> <td valign="top" > </td> </tr>  <tr> <td valign="top" > </td> <td valign="top" > </td> <td rowspan="18" valign="top" >    <p>v&otilde;ntade&raquo;</p></td> <td valign="top" > </td> <td valign="top" > </td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1436 Alf 93</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;lho</p></td> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1495 MA 134</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;(&#8230;), <i>tendo</i> elle e</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    <p><i>teuerom</i> em</p></td> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    <p>p<i>er</i>?oas com<i>o</i> d<i>i</i>c<i>t</i>o</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    <p>meer&ccedil;e&raquo;</p></td> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    <p>he (&#8230;)&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td rowspan="14" valign="top" >    <p>1456 MA 109</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;q<i>ue</i> lho</p></td> <td valign="top" >    <p>1500 MA 136</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>t?do</i> elles e <i>con-</i></p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>tjnham</i></p></td> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    <p>p<i>ry</i>ndo&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>em muyta</p></td> <td valign="top" > </td> <td valign="top" > </td> </tr>  <tr> <td rowspan="11" valign="top" >    <p>mer&ccedil;ee&raquo;</p></td> <td valign="top" > </td> <td valign="top" > </td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1502 MA 137</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>t?do</i> elles e <i>con-</i></p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    <p>p<i>ry</i>ndo&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1505 MA 138</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>tendo</i> elles e <i>con-</i></p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    <p>p<i>ri</i>ndo&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1507 MA 139</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;a todo <i>teer</i> e <i>con-</i></p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    <p>p<i>r</i>ir&raquo;; &laquo;<i>tendo</i> elle e</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    <p>pe?oas todo ho q<i>ue</i></p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    <p>d<i>i</i>to he&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td rowspan="2" valign="top" >    <p>1529 MA 148</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;a todo <i>teer</i> e</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>comprir&raquo;</p></td> </tr>  </tbody> </table></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>2.1.4.<i>Teer</i>, numa express&atilde;o cristalizada, a par de <i>manter</i> (&#8220;ter e manter&#8221;= &#8216;observar&#8217;, &#8216;cumprir&#8217;)</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Esta express&atilde;o cristalizada, de natureza tautol&oacute;gica, desenvolveu-se na segunda metade do s&eacute;culo XV, acentuando-se o seu emprego a partir dessa altura na linguagem jur&iacute;dica, por af&atilde; de rigor conceptual:</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="t6">     <p align="center">Tabela 6. Ocorr&ecirc;ncias de <i>teer</i> em express&otilde;es formulares</p>      <p align="center"><table border="1" cellspacing="0" cellpadding="0" >  <tbody> <tr> <td valign="top" >    <p><b>Documentos</b></p></td> <td valign="top" >    <p><b><i>Teer</i>, em express&otilde;es formulares </b>(&#8216;observar&#8217;, &#8216;cumprir&#8217; [cl&aacute;usulas])</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1459 MA 111</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>terem</i> e manterem&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1462 Mai 114</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>teer</i> e m&atilde;teer&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1467 Mai 117</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>teer</i> e m&atilde;teer&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1479 MA 124</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>teer</i> e <i>m&atilde;teer</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1482 MA 125</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;m&atilde;teer e <i>teer</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1484 MA 126</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>teer</i> e <i>m&atilde;teer</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1485 MA 128</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;a <i>teer?</i> e m&atilde;teerem&raquo;; &laquo;<i>teer</i> e m&atilde;teer&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1505 MA 138</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>teer</i> e m&atilde;teer&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1519 MA 142</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>ter</i> e m&atilde;ter&raquo;, 3 v.</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1522 MA 144</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>ther</i> e <i>manter</i>&raquo;, 2 v.</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1527 MA 146</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>ther</i> manter&raquo;; &laquo;<i>ter?</i> manter?&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1528 MA 147</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>ter? manter?</i>&raquo;; &laquo; <i>ter? manter?</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1529 MA 148</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;a todo <i>ter</i> he m&atilde;ter&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1536 SC 150</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo; <i>ter</i> e manter&raquo;</p></td> </tr>  </tbody> </table></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Ora, em todos os sentidos de <i>teer</i> referidos at&eacute; este momento est&aacute; presente uma dimens&atilde;o importante que &eacute; a dimens&atilde;o axiol&oacute;gica. Assim, se a express&atilde;o &#8220;o que por bem <i>tever</i>&#8221; se situa na esfera dos valores morais, &#8220;ter&#8221;, quer com o sentido primitivo de &#8216;n&atilde;o tornar p&uacute;blico&#8217;, quer nos mais abrangentes de &#8216;obrigar moralmente&#8217; ou ainda de &#8216;cumprir&#8217; (cujo semantismo decorre da exist&ecirc;ncia pr&eacute;via de uma obriga&ccedil;&atilde;o moral), situa-se na esfera dos valores &eacute;tico-sociais. Em todos estes sentidos permanece uma no&ccedil;&atilde;o importante que caracteriza o predicado <i>ter</i>: n&atilde;o existe uma rela&ccedil;&atilde;o de controlo entre um sujeito e um objeto, tal como numa rela&ccedil;&atilde;o de posse, uma vez que &#8220;os objetos&#8221; s&atilde;o, neste caso, intr&iacute;nsecos ao sujeito, fazem parte da sua mundivid&ecirc;ncia moral e social, constituindo o pr&oacute;prio sujeito.</p>      <p>&Eacute; poss&iacute;vel que a transfer&ecirc;ncia desse sentido de <i>ter,</i> aliado &agrave; perce&ccedil;&atilde;o e obriga&ccedil;&atilde;o de natureza moral, para o dom&iacute;nio da posse (eventualmente j&aacute; verificada na l&iacute;ngua latina) traduza uma nova mentalidade humana, que anseia por controlar o mundo, pela conquista do que &eacute; material. Trata-se, em suma, da necessidade de organizar um conceito sociocultural (a posse) que, consistindo num controlo sobre as entidades possu&iacute;das, confere direitos sobre elas (o sujeito outrora <i>submetido</i> transforma-se agora em <i>agente que submete</i>).</p>      <p><i>2.2. An&aacute;lise quantitativa dos dados</i></p>      <p>Perscrutemos, pois, os dados que o nosso <i>corpus</i>, substancialmente diferente do que serviu de fonte a Rosa Virg&iacute;nia de Mattos Silva, permite evidenciar, aliando o crit&eacute;rio quantitativo ao crit&eacute;rio qualitativo<sup><a href="#8" name="top8">[8]</a></sup>. Com expurgo das ocorr&ecirc;ncias j&aacute; mencionadas, analisando os dados relativos a <i>ter</i> e <i>auer</i> em estruturas de posse, podemos ver que um gr&aacute;fico de linhas que englobe as ocorr&ecirc;ncias de <i>auer</i> e <i>teer</i>, ao longo das v&aacute;rias etapas epocais,<sup><a href="#9" name="top9">[9]</a></sup> tem a seguinte configura&ccedil;&atilde;o:</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="f1"> <img src="/img/revistas/dia/v28n1/28n1a14f1.jpg">     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p>N&atilde;o obstante a distin&ccedil;&atilde;o sem&acirc;ntica que permite diagnosticar uma tend&ecirc;ncia precoce para o uso de <i>teer</i> em AM (bens materiais adquir&iacute;veis), essa tend&ecirc;ncia fica refreada em determinada &eacute;poca da hist&oacute;ria da l&iacute;ngua, que parece ter elegido o verbo <i>aver</i> para qualquer tipo de posse. Entre aproximadamente o &uacute;ltimo quartel do s&eacute;culo XIV e 1425/1430 dever&aacute; ter existido uma press&atilde;o &#8220;normativa&#8221; no sentido da <i>standardiza&ccedil;&atilde;o</i> que obrigou a selecionar o verbo <i>aver</i> na documenta&ccedil;&atilde;o notarial. Parece que <i>teer</i>, ao aproximar demasiado o sujeito ao &#8220;objeto possu&iacute;do&#8221; deixava transparecer a ancoragem do <i>eu</i> da enuncia&ccedil;&atilde;o &agrave;s suas coordenadas esp&aacute;cio-temporais, o que n&atilde;o condizia com a formalidade estil&iacute;stica requerida nos textos notariais.<sup><a href="#10" name="top10">[10]</a></sup></p>      <p>Uma compara&ccedil;&atilde;o com o estudo levado a cabo por Mar Garachana Camarero relativamente ao mesmo fen&oacute;meno na l&iacute;ngua castelhana conduz-nos, curiosamente, a resultados muito id&ecirc;nticos. A prop&oacute;sito das duzentas cartas que analisou da <i>Chancelaria da Coroa de Arag&atilde;o</i>, refere a Autora:</p>      <blockquote>    <p>Durante los primeros sesenta y nueve a&ntilde;os del siglo XV <i>tener</i> se emple&oacute; fundamentalmente en el terreno de la posesi&oacute;n protot&iacute;pica (&#8230;), donde su predominio sobre <i>aver</i> fue absoluto desde el primer momento (&#8230;). En este mismo espacio de tiempo <i>tener</i> no tuvo una representaci&oacute;n signifi tiva en la posesi&oacute;n no protot&iacute;pica (&#8230;) En cambio, de 1470 a 1498 el desfase entre los valores protot&iacute;picos y no protot&iacute;picos de <i>tener</i> se redujo considerablemente (idem<i>, ibidem</i>: 222).</p></blockquote>      <p>Quanto &agrave; cronologia da substitui&ccedil;&atilde;o de um verbo por outro, a mudan&ccedil;a observada por volta da d&eacute;cada de 80 do s&eacute;culo XV parece ter coincidido, historicamente, com os novos horizontes socioculturais soprados pelos ventos dos Descobrimentos e do Humanismo italiano, mas a exiguidade do <i>corpus</i> agora em estudo n&atilde;o permite avan&ccedil;ar muito mais relativamente a esta constata&ccedil;&atilde;o.</p>      <p>Cabe apresentar aqui um outro exemplo, n&atilde;o inclu&iacute;do na quantifica&ccedil;&atilde;o dos dados, que configura um tipo especial de posse, a meio caminho entre o &#8220;possuir&#8221; e o &#8220;guardar&#8221;. Trata-se da express&atilde;o eufem&iacute;stica &#8220;Que Deus <i>aja</i>&#8221;, que veio substituir o aposto nominal &laquo;j&aacute; fi &laquo;?ua tja ja <i>fjnada</i>&raquo; (1422); &laquo;uo??o padre e madre ja <i>fynados</i> (1450). O facto de surgir apenas a partir de 1460 contraria a ideia de &#8220;arca&iacute;smo&#8221;, defendida por Mar Garachana Camarero.<sup><a href="#11" name="top11">[11]</a></sup></p>      <p>&nbsp;</p> <a name="t7">     <p align="center">Tabela 7. Ocorr&ecirc;ncias, no <i>corpus</i>, da express&atilde;o cristalizada &laquo;que Deus <i>haja</i>&raquo;</p>      <p align="center"><table border="1" cellspacing="0" cellpadding="0" >  <tbody> <tr> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Documentos</p></td> <td valign="top" >    <p>Express&otilde;es</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1460 MA 113</p>      <p>1491 Alj 133</p>      <p>1500 MA 136</p>      <p>1541 Sal 152</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;el Rej Dua<i>r</i>t<i>e</i> q<i>ue</i> D<i>eu</i>s <i>aja</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;do pryn&ccedil;jpee no?o S<i>e</i>n<i>h</i>or q<i>ue</i> D<i>eu</i>s <i>aja</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;?eu pay q<i>ue</i> D<i>eu</i>s <i>aja</i>&raquo;</p>      <p>&laquo;da ca?a do cardeall q<i>ue</i> D<i>eu</i>s <b><i>tem</i></b>&raquo;</p></td> </tr>  </tbody> </table></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p>Estamos, inequivocamente, em presen&ccedil;a do que representa o grau extremo de abstra&ccedil;&atilde;o a n&iacute;vel de entidade possu&iacute;da (e, por isso, da posse n&atilde;o-protot&iacute;pica), uma vez que se trata da alma humana, e, assim, do que existe de mais espiritual. &Eacute; curioso verificar que s&oacute; em pleno s&eacute;culo XVI o verbo <i>aver</i> cede lugar a <i>ter</i>, revelando-se interessante a passagem de uma constru&ccedil;&atilde;o optativa (com o presente do conjuntivo) a uma outra de natureza declarativa (com o presente do indicativo).<sup><a href="#12" name="top12">[12]</a></sup></p>      <p>Note-se que <i>auer</i> foi exclusivo na express&atilde;o formular &laquo;[bens] <i>auidos</i> e por <i>auer</i>&raquo;, ao longo de todo o per&iacute;odo medieval, contando-se 45 ocorr&ecirc;ncias de express&otilde;es desse tipo. Para essa cristaliza&ccedil;&atilde;o com <i>aver</i> dever&aacute; ter contribu&iacute;do a indefini&ccedil;&atilde;o esp&aacute;cio-temporal do objeto relativamente &agrave; perspetiva do <i>eu</i> da enuncia&ccedil;&atilde;o. Semanticamente conectada com esta f&oacute;rmula, existe o atual substantivo <i>haver</i>, com o sentido jur&iacute;dico de coisa por adquirir mas tamb&eacute;m de coisa adquirida, e na linguagem da Contabilidade &eacute; bem conhecido o &laquo;deve&raquo; e o &laquo;haver&raquo;. O portugu&ecirc;s atual conserva ainda algumas express&otilde;es cristalizadas, consagradas pelo uso, como &laquo;bem <i>haja</i>!&raquo;, &laquo;mal <i>haja</i>!&raquo;, ou ainda a express&atilde;o proverbial &laquo;Por bem fazer mal <i>haver</i>&raquo;, onde o valor incoativo foi preservado at&eacute; ao limite.</p>      <p><i>2.3. An&aacute;lise contextual dos dados</i></p>      <p>Uma an&aacute;lise mais finamente contextualizada revela ainda que aos de&iacute;ticos temporais, locativos e anaf&oacute;ricos <i>&aacute;&aacute;cima</i>, <i>hy</i>, <i>(h)ora</i>, <i>agora</i>, <i>enquanto</i>, ou ainda &agrave;s express&otilde;es temporais &laquo;<i>do tempo</i> que&raquo;, &laquo;<i>ao tempo que</i>&raquo; anda associado, nos contextos de posse de bens materiais adquir&iacute;veis (AM), o verbo <i>teer</i> e n&atilde;o <i>aver</i>. Estes de&iacute;ticos ou <i>embrayeurs</i> discursivos emprestam ao semantismo de <i>ter</i> a no&ccedil;&atilde;o de posse tempor&aacute;ria de um bem, cujo ponto de refer&ecirc;ncia &eacute; a perspetiva do <i>eu</i> da enuncia&ccedil;&atilde;o.</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="t8">     <p align="center">Tabela 8. <i>Ter</i> associado a de&iacute;ticos e a express&otilde;es temporais<sup><a href="#13" name="top13">[13]</a></sup></p>      <p align="center"><table border="1" cellspacing="0" cellpadding="0" >  <tbody> <tr> <td valign="top" >    <p><b>Doc.</b></p></td> <td valign="top" >    <p><b><i>Auer</i></b></p></td> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><i>Teer</i></b></p></td> <td valign="top" >    <p><b>%</b></p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1289</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;que eles <i>ai&atilde;</i> a dita h<i>er</i>dade&raquo;; &laquo;<i>ai&atilde;</i> as ditas almu?a e a via e o jun&ccedil;al&raquo;;</p>      <p>&laquo;a todo dereyto e a toda dem&atilde;da q<i>ue au&iacute;am[os]</i> ou at?diam<i>os</i> ou poder&iacute;am<i>os</i> au<i>er</i>&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;hua uinha que de nos <i>t?</i> Pero P<i>er</i>ez&raquo;; &laquo;[carta] que de nos <i>t&eacute;&eacute;n</i> <b>&aacute;&aacute;&ccedil;ima</b>&raquo;; &laquo;q<i>ue teu[er]</i> a no??a grangya&raquo;; &laquo;<i>t&eacute;&eacute;m[os]</i> hua [carta]&raquo;;</p>      <p>&laquo;<i>t&eacute;&eacute;m[os]</i> [<i>a outra</i>]&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>56</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1321</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;q<i>ue</i> os [herdam?tos] <i>aiamos</i>&raquo;;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;?&eacute;&eacute;lo (&#8230;) n&otilde; <i>auemos</i>&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;que <b>hy </b>morar? e <i>teuer?</i> fogo&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>33</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1343</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;vinhas q<i>ue</i> ela <i>auya</i>&raquo;; &laquo;cou?as q<i>ue</i> eu <i>ey</i>&raquo;; &laquo;polo affan q<i>ue au[er]a</i>&raquo;;</p>      <p>&laquo;h<i>er</i>dades q<i>ue</i> nos <i>auem[os]</i>&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<b>enq<i>u</i>anto </b>ela e?to <i>teu[er]</i>&raquo;; &laquo;vinhos q<i>ue</i> <b>ora </b><i>t&eacute;&eacute;mos</i> en cubadas&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>33</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1352</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;e?ta ? po??e d&#8217;<i>auer</i> (&#8230;) baleas&raquo;</p></td> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;[barca] q<i>ue</i> <b>hj </b><i>tijnh&atilde;</i> p<i>re</i>?tes&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>50</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1362</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;[ca?a/herdade] q<i>ue</i> nos <i>auemos</i>&raquo;, 2 v.; &laquo;n&otilde; <i>aiades</i> poder&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;[ca?a] a q<i>u</i>al <b>hora </b>de nos <i>tinha</i>&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>25</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1412</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;o? be&eacute;s q<i>ue</i> elle? <i>auyam</i>&raquo;; &laquo;q<i>ue</i> o q<i>ue</i> fica??e por pagar pode??e</p>      <p><i>au[er]</i>&raquo;; &laquo;out<i>r</i>os b&eacute;&eacute;? q<i>ue auyam</i>&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<b>do t?po </b>que <i>teuer&otilde; rr?dado?</i> o? se<i>u?</i> moinhos&raquo;; &laquo;<b>ao t?po </b>q<i>ue teu[er]om rr?dado?</i> o? d<i>i</i>cto? moinhos&raquo;</p></td> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>40</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1444</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;?eus b?es de rraiz q<i>ue</i> elles <i>ham</i>&raquo;; &laquo;q<i>u</i>aaes q<i>ue</i>r b?es q<i>ue</i> elles <i>ouue?? m</i>&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;q<i>ue</i> ell nom <i>tijnha</i> <b>agora </b>(&#8230;) d<i>inhei</i>rros&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>33</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1448</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;lh<i>e</i> de?e a dita ca?a (&#8230;) pola guj?a q<i>ue</i> a <i>ouuera</i>&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>tjnham</i> hua ca?a&raquo;; &laquo;e hu thoujo q<i>ue</i> a d<i>i</i>cta ca?a <i>tem</i>&raquo;; &laquo;q<i>ue</i> ha [a dita ca?a] <b>a?y </b><i>teuerom</i>&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>75</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1460</p></td> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;hua terra (&#8230;) q<i>ue</i> <b>ora </b><i>tijnham</i></p>      <p>em pomar&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>100</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1485</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;q<i>ue</i> elle e p<i>er</i>??oas <i>ajam</i> o d<i>i</i>cto mortoreo&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;q<i>ue</i> <b>ora </b><i>tem</i> ca<i>r</i>go&raquo;; &laquo;[d<i>i</i>cto mo<i>r</i>toreo] q<i>ue</i> a d<i>i</i>c<i>t</i>a jg<i>r</i>eia <i>tem</i>&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>67</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1536</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;ho dito ca??all era e elles (&#8230;) ho</p>      <p><i>ouueram</i> do dito mo?teyro&raquo;</p></td> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;<i>tenha</i> cuydado de rreger&raquo;;</p>      <p>&laquo;po??e rreall e autoall domjnjo que no dito ca??all e ??ua ffazenda <b>ate&#8217;guora </b><i>teueram</i>&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>67</p></td> </tr>  </tbody> </table>      <p>&nbsp;</p>      <p>Cumpre recordar, a prop&oacute;sito dos de&iacute;ticos locativos, a interessante passagem do <i>Cantar de M&iacute;o Cid</i>, a que n&atilde;o foi indiferente a sensibilidade intuitiva de Eva Seifert:</p>      <blockquote>    <p>Grado al Criador e a santa Maria madre</p>      <p><i>Mis fijas e mi mugier que las tengo <b>ac&aacute; </b></i>(Seifert<i>, ib&iacute;dem</i>, 249)</p></blockquote>      <p>Diz-nos a Autora:</p>      <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este discurso da personagem no pone el &eacute;nfasis en el verbo <i>tengo</i>, sino en el complemento local <i>ac&aacute;,</i> &#8216;que las tengo ahora cerca de m&iacute;&#8217;, &#8216;que est&aacute;n ahora aqu&iacute;&#8217;. (&#8230;) Tenemos, en cambio, el verbo <i>haber</i> para la expresi&oacute;n de posesi&oacute;n gen&eacute;rica, de simple posesi&oacute;n: commo sirva a do&ntilde;a Ximena e a las fijas que ha (idem, <i>ibidem</i>, p. 249-250).</p></blockquote>      <p>Associada a esta no&ccedil;&atilde;o de ancoragem ou n&atilde;o ao momento da enuncia&ccedil;&atilde;o, afigura-se igualmente importante, em outros contextos, a no&ccedil;&atilde;o de <i>modalidade</i> enquanto express&atilde;o da atitude do <i>eu</i> da enuncia&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o ao valor factual do seu enunciado. Revela-se pertinente a varia&ccedil;&atilde;o entre <i>teer</i> e <i>aver</i> num documento 1453 que, ao lado de &laquo;<i>hu quer que</i> os [b?es] <i>ouuerdes</i>&raquo; apresenta &laquo;<i>do tenpo que</i> os dictos b?es <i>teuerdes</i>&raquo;. Assim, o verbo <i>teer</i> est&aacute;, neste enunciado, associado ao real/factual e o verbo <i>aver</i> ao hipot&eacute;tico, sendo que apenas <i>teer</i> permite ancorar/localizar a a&ccedil;&atilde;o expressa pelo verbo num determinado segmento temporal, ainda que projetado no futuro.</p>      <p>N&atilde;o obstante ambos os verbos surgirem em condicionais n&atilde;o factuais ou hipot&eacute;ticas (caracter&iacute;sticas das cl&aacute;usulas em que se prescrevem as san&ccedil;&otilde;es), <i>aver</i> surge inserido numa sequ&ecirc;ncia em que o conte&uacute;do proposicional do consequente se refere a um mundo n&atilde;o real ou eventual<sup><a href="#14" name="top14">[14]</a></sup>:</p>      <blockquote>    <p>(i) &laquo;E ??e uos (&#8230;) qui?ermos dem&atilde;dar a jujzo, (&#8230;) per ??ua senten&ccedil;a ou senten&ccedil;as ??eer fecta exucac&otilde;, venda e rremata&ccedil;&otilde; em vo??os b?es e da dicta per??oa <b>hu quer que os ouuerdes </b>(&#8230;)&raquo; (1453 MA 107)</p></blockquote>      <p>Diferente &eacute; a perspetiva adotada quanto ao valor de verdade do enunciado em que surge o verbo <i>teer</i>, uma vez que, apesar de surgir igualmente numa constru&ccedil;&atilde;o condicional hipot&eacute;tica, o conte&uacute;do proposicional do consequente a que o verbo se associa (&#8220;ter os bens&#8221;) &eacute; assumido como tendo exist&ecirc;ncia no mundo real (futuro):</p>  <blcokquote>    <p>(ii) &laquo;Jtem <b>?? uos </b>(&#8230;) n&otilde; conprirdes (&#8230;) que nos (&#8230;), po?amos filhar os dictos no??os b?es e herdam?tos (&#8230;) ficando uos ?obre dictos e per??oa ??enpre obrigados a nos pagardes a dicta pen??&otilde; e foro <b>do tenpo que os dictos b?es teuerdes </b>(&#8230;)&raquo; (1453 MA 107).</p></blockquote>      <p>A ideia de <i>teer</i> associada aos bens efetivos (ou assumidos como tal, ainda que no futuro) e <i>aver</i> aos hipot&eacute;ticos encontra eco no nosso <i>corpus</i> se nos lembrarmos que foi corrente o emprego de <i>teer</i> associado &agrave;s c&oacute;pias dos documentos que se entregavam &agrave;s partes interessadas: &laquo;<i>tenhades</i> hua de??as cartas&raquo;, por exemplo. Mas, curiosamente, as &#8220;cartas de gra&ccedil;a&#8221; ou de &#8220;mer&ccedil;e&#8221;, usadas em constru&ccedil;&otilde;es de sentido hipot&eacute;tico, surgem sempre associadas ao verbo <i>aver</i>. Como se trata de uma posse futura que implica a ideia de &#8220;alcan&ccedil;ar&#8221;, &#8220;obter&#8221; (<i>direitos</i>, <i>privil&eacute;gios</i> e n&atilde;o objetos concretos, como uma carta manuscrita), compreende-se que se tenha preferido o verbo <i>aver</i>, que melhor exprime o sentido incoativo.</p>      <p>Detenhamo-nos agora sobre os complementos de predicado do tipo AI, e sua distribui&ccedil;&atilde;o cronol&oacute;gica:</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="t9">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center">Tabela 9. Cronologia dos verbos <i>teer</i> e <i>aver</i> com complementos de predicado do tipo AI (S&iacute;ntese)</p>      <p align="center"><b>At&eacute; 1484</b><sup><a href="#15" name="top15">[15]</a></sup>    <p>      <p align="center"><table border="1" cellspacing="0" cellpadding="0" >  <tbody> <tr> <td valign="top" >    <p><i>Aver</i></p></td> <td valign="top" >    <p><i>teer</i></p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p><i>demanda, pre&ccedil;o &#8216;valor&#8217;, m?te, pena &#8216;castigo&#8217;, poder, af&atilde;, direito(s), ac&ccedil;&atilde;o [judicial], prol, conhecimento, possess&atilde;o <sup><a href="#16" name="top16">[16]</a></sup>, mandado, mal, rancor, cumprimento, compaix&atilde;o, preito, perda, autoridade, confirma&ccedil;&atilde;o, cumprimento, engano, mantimento, jurisdi&ccedil;&atilde;o, custas</i>, <b><i>foros</i></b><i>, <b>honras</b>, <b>liberdades</b>, <b>gra&ccedil;as</b>, <b>merc&ecirc;s </b></i><sup><a href="#17" name="top17">[17]</a></sup></p></td> <td valign="top" >    <p><i>encargo</i> e <i>direito</i></p></td> </tr>  </tbody> </table></p>      <p align="center"><b>A partir de 1484</b></p>      <p align="center"><table border="1" cellspacing="0" cellpadding="0" >  <tbody> <tr> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Aver</i></p></td> <td valign="top" >    <p><i>ter</i></p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p><i>recurso, temor</i> e <i>poder</i></p></td> <td valign="top" >    <p><i>&laquo;posse, propriedade e liberdade&raquo;; cargo, paz, jurisdi&ccedil;&atilde;o, autoridade, poder, cuidado, embargos, benef&iacute;cio, irm&atilde;os</i></p></td> </tr>  </tbody> </table></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>O comportamento dos itens lexicais <i>direito</i>, <i>poder</i>, <i>autoridade</i> e <i>(en) cargo</i> merecem algumas considera&ccedil;&otilde;es. O item <i>direito</i> selecionado por <i>teer</i> surge, pela primeira vez, no segundo quartel do s&eacute;culo XV, mas alterna nesta fase com <i>auer</i>. Ambos os verbos aparecem em dois contextos associados a dois tipos de modalidade discursiva:</p>      <blockquote>    <p>(i) &laquo;??em os h<i>er</i>deiros (&#8230;) e ??ua molher <i>teer?</i> (&#8230;) alguu <i>d[e]rr[ei]to</i>&raquo; (1438)</p>      <p>(ii) e &laquo;out<i>r</i>os <i>direit[os]</i> (&#8230;) q<i>ue ouue?e</i>&raquo; (1442),</p></blockquote>      <p>Este facto, aliado &agrave; inexist&ecirc;ncia de outras abona&ccedil;&otilde;es posteriores, n&atilde;o autorizam resultados conclusivos. Quanto a <i>autoridade</i>, o comportamento do predicado que o seleciona poder&aacute; contribuir para a delimita&ccedil;&atilde;o cronol&oacute;gica operada, mas &eacute; igualmente poss&iacute;vel que esta varia&ccedil;&atilde;o entre <i>auer</i> e <i>teer</i> n&atilde;o seja apenas de tipo diacr&oacute;nico mas sim uma varia&ccedil;&atilde;o ativada por restri&ccedil;&otilde;es sint&aacute;tico-sem&acirc;nticas espec&iacute;ficas. Sen&atilde;o vejamos:</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>    <p>(iii) &laquo;e <b><i>quando</i> </b>a?y <i>ouuer?</i> a dita <i>autorjdade</i>&raquo; (1482)</p>      <p>(iv) &laquo;nem que <i>autorydade tendes</i>&raquo;; &laquo;o trellado (&#8230;) da <i>autorydade</i> q<i>ue tend[e]s</i>&raquo;</p>      <p>(1491).</p></blockquote>      <p>No exemplo (iii), o adv&eacute;rbio temporal <i>quando</i>, ao situar o conte&uacute;do expresso pelo verbo num momento posterior ao da enuncia&ccedil;&atilde;o mas n&atilde;o definido, hipot&eacute;tico, eventual (expresso atrav&eacute;s do conjuntivo), contrasta com a <i>embrayage</i> no momento de enuncia&ccedil;&atilde;o verificada nos exemplos do documento de 1491, e expressa atrav&eacute;s do modo indicativo. Relativamente a <i>poder</i>, abundantemente representado ao longo do <i>corpus</i>, surge invariavelmente com <i>aver</i> at&eacute; 1519. A partir de 1522, <i>aver</i> cede, unidirecionalmente, lugar a <i>ter</i>: &laquo;e n&atilde; <i>tera</i> poder&raquo; (1522) e &laquo;n&atilde; <i>ter&atilde;o</i> poder&raquo; (1528).</p>      <p>A quest&atilde;o que se poder&aacute; colocar &eacute; a seguinte: por que motivo &laquo;<i>ter poder</i>&raquo; &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o t&atilde;o tardia se &laquo;<i>ter (en)cargo</i>&raquo; surge j&aacute; em 1399? A resposta a esta quest&atilde;o reside, na nossa opini&atilde;o, nas restri&ccedil;&otilde;es sem&acirc;ntico-cognitivas ativadas pelo teste da anteposi&ccedil;&atilde;o do artigo defi a este item lexical, ou seja, na forma como s&atilde;o captadas cognitivamente estas predica&ccedil;&otilde;es defi Assim, se em &laquo;o encargo&raquo;, a unicidade do referente s&oacute; poder&aacute; ser apreendida num contexto espec&iacute;fi de enuncia&ccedil;&atilde;o, em &laquo;o poder&raquo;, a identidade do objeto &eacute; pass&iacute;vel de ser descodifi pelo alocut&aacute;rio sem que haja um contexto espec&iacute;fi de enuncia&ccedil;&atilde;o. Por outro lado, o item <i>poder</i>, ao contr&aacute;rio de <i>encargo</i>, n&atilde;o poder&aacute; ser n&uacute;cleo de uma predica&ccedil;&atilde;o indefi (* <i>ter um poder</i>).<sup><a href="#18" name="top18">[18]</a></sup></p>      <p>Ao comparar, na l&iacute;ngua espanhola medieval, os diferentes verbos usados com <i>cargo</i> e <i>nuevas</i> (o primeiro selecionado por <i>tener</i>, o segundo por <i>aver</i>), Jean-Claude Chevalier intu&iacute;ra j&aacute; uma explica&ccedil;&atilde;o semelhante (que se aproxima da no&ccedil;&atilde;o de <i>lexia complexa</i>), recorrendo &agrave; fenomenologia do conhecimento:</p>       <blockquote>    <p>Les premi&egrave;res &#8211; et <i>cargo</i> est de celles-l&agrave; affirment leur compatibilit&eacute; fonci&egrave;re avec <i>tener</i>, les secondes &#8211; et <i>nuevas</i> en est avec <i>aver</i> (&#8230;). Si j&#8217;essaye de r&eacute;duire tout cela en formule: parmi d&#8217;autres &eacute;l&eacute;ments <i>cargo</i>, avant m&ecirc;me que je songe &agrave; le faire entrer dans une phrase, me montre un &ecirc;tre <i>y</i> &agrave; qui, &agrave; un certain moment de sa dur&eacute;e, est affect&eacute;e une t&acirc;che, ou un ensemble de t&acirc;ches, que j&#8217;appellerai <i>o</i>. L&#8217;appr&eacute;hension conjointe de <i>y</i> et de <i>o</i> ainsi d&eacute;finis et ainsi reli&eacute;s est ce qui a re&ccedil;u pour traduction physique <i>cargo</i> (Chevalier, 1977: 38).</p></blockquote  >    <p>Uma capta&ccedil;&atilde;o cognitiva diferente &eacute; a que &eacute; activada por <i>nuevas</i>: &laquo;<i>Nuevas</i>, lui, porte en soi l&#8217;irruption dans la dur&eacute;e d&#8217;un &ecirc;tre <i>y</i> d&#8217;une information <i>i</i> qu&#8217;il ignorait&raquo; (idem, <i>ibidem</i>: 40).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>2.4. Das ora&ccedil;&otilde;es existenciais com aver &agrave;s estruturas equivalentes com</i> teer<i>: sobre a origem desta particularidade no Portugu&ecirc;s do Brasil</i></p>      <p>Como &eacute; sabido, a estrutura existencial era expressa, no latim, com o verbo ESSE. A transfer&ecirc;ncia de ESSE para HABERE consistiu, segundo cremos, numa redu&ccedil;&atilde;o do estatuto ontol&oacute;gico dos objetos e numa maior proje&ccedil;&atilde;o do mundo exterior em que eles se situam, tendo constitu&iacute;do um mecanismo cognitivo bastante interessante, mas que fi fora do escopo do nosso estudo. Do antigo verbo funcional, semanticamente existencial, subsistem alguns res&iacute;duos no portugu&ecirc;s medieval, apesar de se poderem recortar duas etapas distintas: a mais arcaica, em que o verbo <i>ser</i> faz parte de uma &#8220;constru&ccedil;&atilde;o locativa&#8221;, e uma outra, mais tardia, em que o verbo <i>ser</i> substitui <i>auer</i> com nomes caracterizados pelo tra&ccedil;o [+ abstrato]. S&atilde;o estas as ocorr&ecirc;ncias do <i>corpus</i>:</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="t10">     <p align="center">Tabela 10. Ocorr&ecirc;ncias do verbo <i>seer/ser</i> por <i>auer</i></p>      <p align="center"><table border="1" cellspacing="0" cellpadding="0" >  <tbody> <tr> <td valign="top" >    <p><b>Documentos</b></p></td> <td valign="top" >    <p><b>Formas</b></p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1291 Alc 3</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;outro? fruyto? q<i>ue</i> hj <i>for?</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1353 Vid 39</p></td> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;b?es a?y mou&iacute;i<i>s</i> come rrajz q<i>ue er&atilde;</i> no d<i>i</i>c<i>t</i>o logo&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1460 MA 113</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;p<i>re</i>ito e dem&atilde;da <i>fora</i>&raquo;, &laquo;sobre e?ta mee?ma cau?a <i>fora</i> letigyo</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    <p>e dada dete<i>r</i>mjna&ccedil;&otilde; p<i>er</i> el Rej&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1527 MA 146</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;e que a?y <i>hera</i> mayor honra&raquo;</p></td> </tr>  </tbody> </table></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Como os dados revelam, o verbo <i>seer</i>, que acompanhou em finais do s&eacute;culo XIII nomes caracterizados pelo tra&ccedil;o [+ concreto] ressurgiu no terceiro quartel do s&eacute;culo XV, acompanhando agora nomes com o tra&ccedil;o [+ abstrato], eventualmente para ocupar o lugar de <i>auer</i>. Assim, <i>ser</i> apresentou-se igualmente como concorrente para o lugar de <i>auer</i>, que come&ccedil;ava a ficar vazio, a partir do terceiro quartel do s&eacute;culo XV.</p>      <p>No s&eacute;culo XVI o aumento das estruturas de posse com o verbo <i>teer</i> deve-se igualmente &agrave; mudan&ccedil;a de estrutura das ora&ccedil;&otilde;es existenciais com <i>aver</i>, que selecionam um sintagma nominal interpretado como objeto direto e um elemento locativo expresso por um sintagma preposicional ou um adverbial. Essa mudan&ccedil;a deveu-se, muito provavelmente, ao esvaziamento sem&acirc;ntico do verbo <i>auer</i>, verificado em finais do s&eacute;culo anterior. Apresentam-se a seguir os dados exemplificativos das estruturas existenciais com <i>auer</i> ao longo do <i>corpus</i>:</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="t11">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tabela 11. Estruturas existenciais com <i>auer</i>, ao longo do <i>corpus</i></p>      <p align="center"><table border="1" cellspacing="0" cellpadding="0" >  <tbody> <tr> <td valign="top" >    <p><b>Documentos</b></p></td> <td valign="top" >    <p><b>Ocorr&ecirc;ncias</b></p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1306 C&oacute;s 12</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;tabali&otilde; n&otilde; <i>auia</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1329 Evo 22</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;e <i>auudo</i> c&otilde;celho&raquo;; &laquo;q<i>ue</i> n&otilde; leyxau&atilde; (&#8230;) a <i>au[er]</i> d<i>e</i>r<i>e</i>c<i>t</i>o&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1336 Alj 26</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;ca t?po <i>auya</i> <b>hy </b>p<i>er</i>a todo&raquo;; &laquo;<b>hy </b><i>auya</i> ?ete dias&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1352 Ped 38</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;e <i>ouue</i> <b>? ella </b>dez quintaes e meyo&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1391 MA 59</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;q<i>ue</i> <b>nos carualhaaes </b>(&#8230;) <i>aia</i> tam poucas landes&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1402 MA 67</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;q<i>ue auja</i> anos e t<i>en</i>pos&raquo;; &laquo;dem&atilde;das e de?uairo <i>ouue?? n</i> ant<i>re</i> ell<i>e</i>s&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1430 C&oacute;s 89</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;q<i>ue auja</i> dez e (&#8230;) annos&raquo;; &laquo;e q<i>ue auja</i> q<i>u</i>atorze a<i>n</i>nos&raquo;; &laquo;ataa</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    <p>podja ora <i>au[er]</i> t<i>re</i>s ou q<i>u</i>atro a<i>n</i>nos&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1433 Ped 90</p></td> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;e <i>aja</i> ao deant<i>e</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1452 MA 106</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;e <i>ha</i> <b>em ella </b>uma geyra&raquo;; &laquo;ao t<i>en</i>po q<i>ue</i> <b>hy </b>tall dem&atilde;da <i>ouuer</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1453 MA 107</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;q<i>ue</i> <b>hy </b>tall dem&atilde;da <i>ouue[r]</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1459 MA 111</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;em guj?a q<i>ue ajom</i> qujnze noujdades&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1465 MA 116</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;ao t<i>en</i>po q<i>ue</i> <b>hy </b>tal demanda <i>ouuer</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1467 Mai 117</p></td> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;q<i>ue</i> lhe <i>ouve??</i> a <b>ello </b>rremedeo&raquo;<sup><a href="#19" name="top19">[19]</a></sup>; &laquo;ambos q<i>u</i>aaees <i>avya</i> gr&atilde;de</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" > </td> <td valign="top" >    <p><i>c&otilde;</i>t?da na rrepa<i>r</i>ty&ccedil;&atilde;m da jent<i>e</i>&raquo;; &laquo;q<i>ue havya</i> ant<i>re</i> os ?ob<i>re</i> dit<i>os</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1472 TC 120</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;nom <i>auja</i> <b>hy </b>nhuua das d<i>i</i>ctas cou?as&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1495 MA 134</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;q<i>u</i>ando <b>hy </b>tall dem&atilde;da <i>ouue[r]</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1502 MA 137</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;e que aujri&atilde; <b>e~ elle</b> de terra proveytada sete ou oyto eyrras&raquo;; &laquo;e n&otilde; <i>avendo</i> <b>hy</b> <i>filho</i> ou <i>filha</i>&raquo;; &laquo;</b>em o qual</b> avyria quinze ou dezasejs pees d&#8217;oliveyrras&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1519 MA 142</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;e <i>aja</i> <b>hy</b> algu~a denjfycac&cedil;a~o&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1527 MA 146</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>aver</i> ahi&acute; <b>e~ elle</b> mais casas&raquo;; &laquo;<i>averia</i> <b>em elle</b> mais moradores&raquo;, 2 v.</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1529 MA 148</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;se ho <i>ouuer</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1565 Alc 153</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;na~ <i>avia</i> comtradic&cedil;am&raquo;; &laquo;ne~ devia <i>aver</i> dema~da&raquo;<sup><a href="#20" name="top20">[20]</a></sup></p></td> </tr>  </tbody> </table></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>As novas estruturas de posse resultantes da mudan&ccedil;a de estrutura das ora&ccedil;&otilde;es existenciais diferem das habituais estruturas de posse (<i>ter/haver</i>), n&atilde;o a n&iacute;vel sint&aacute;tico mas sem&acirc;ntico, na medida em que o &#8220;possuidor&#8221; deixa de ser um ser humano dotado de capacidade agentiva e volitiva, capaz de controlar a entidade possu&iacute;da. Assim, este tipo de posse pode incluir-se num tipo de posse inalien&aacute;vel, mas agora estabelecida em termos de uma rela&ccedil;&atilde;o entre objetos. A <a href="#t12">tabela</a> seguinte apresenta este tipo de posse, j&aacute; com o verbo <i>teer</i>:</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="t12">     <p align="center">Tabela 12. Novas &#8220;estruturas de posse&#8221;, resultantes da mudan&ccedil;a de estrutura das ora&ccedil;&otilde;es existenciais</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><table border="1" cellspacing="0" cellpadding="0" >  <tbody> <tr> <td valign="top" >    <p><b>Documentos</b></p></td> <td valign="top" >    <p><b>Ocorr&ecirc;ncias</b></p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1505 MA 138</p>      <p>1528 MA 147</p>      <p>1532 Tur 149</p>      <p>1541 Sal 152</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;hum peda&ccedil;o de ch&atilde;oo (&#8230;) e <i>tynha</i> hua holiveyrra&raquo;</p>      <p>&laquo;os quaees pardieiros <i>tem</i> de conprido sete varas e mea de craueira&raquo;</p>      <p>&laquo;e <i>t?m</i> de c&otilde;prjdo dezanove covados&raquo;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;os quaes [marcos] todos <i>tem</i> tres t<i>elh</i>as&raquo;; &laquo;e a dyta souereyra <i>tem</i> hua cruz&raquo;</p></td> </tr>  </tbody> </table></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Finalmente, foi ainda poss&iacute;vel encontrar alguns ind&iacute;cios de que, mesmo em estruturas que n&atilde;o sofreram as mudan&ccedil;as sint&aacute;tico-sem&acirc;nticas aludidas, o verbo <i>teer</i> come&ccedil;ara a substituir <i>aver</i> em ora&ccedil;&otilde;es existenciais (com adv&eacute;rbio locativo expl&iacute;cito), j&aacute; na d&eacute;cada de 60 do s&eacute;culo XV. Esta constata&ccedil;&atilde;o permite, assim, corrigir a cronologia apresentada por Maria L&uacute;cia Sampaio que afirma ser no s&eacute;culo XVI que &laquo;<i>ter</i> invade a esfera da ora&ccedil;&atilde;o existencial&raquo; (Sampaio, 1978: 59).<sup><a href="#21" name="top21">[21]</a></sup> Mais tardiamente (1536), regista-se o verbo <i>teer</i> por <i>seer</i>, fen&oacute;meno que caracteriza o portugu&ecirc;s popular do Brasil e que revela que a invas&atilde;o de <i>teer</i> n&atilde;o s&oacute; se verificou nas ora&ccedil;&otilde;es existenciais mas tamb&eacute;m nas estruturas &#8220;situativas&#8221;. Apresentam-se a seguir os dois exemplos aludidos:</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="t13">     <p align="center">Tabela 13. Ocorr&ecirc;ncias de <i>teer</i> por <i>auer</i> em ora&ccedil;&otilde;es existenciais e em estruturas &#8220;situativas&#8221;</p>      <p align="center"><table border="1" cellspacing="0" cellpadding="0" >  <tbody> <tr> <td valign="top" >    <p><b>Documentos</b></p></td> <td valign="top" >    <p><b>Ocorr&ecirc;ncias</b></p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1460 MA 113</p>      <p>1536 SC 150</p></td> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;nom em e?ta vila da Peda<i>r</i>nejra po<i>r</i> ?eer do senhoryo do moe?t<i>eir</i>o <b>onde </b>nom <i>tijnha</i> oficyaes&raquo;</p>      <p>&laquo;como na &ccedil;edolla <i>tem</i> declarado&raquo;</p></td> </tr>  </tbody> </table></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Esta difus&atilde;o de <i>teer</i> a estruturas &#8220;situativas&#8221;, verificada num documento redigido ap&oacute;s a descoberta do Brasil, dever&aacute; ter surgido na sequ&ecirc;ncia da propaga&ccedil;&atilde;o de <i>teer</i> &agrave; esfera do existencial, fen&oacute;meno que dever&aacute; ter tido igualmente um cunho popular, segundo Maria L&uacute;cia Sampaio:</p>      <blockquote>    <p>Entretanto, a parcim&ocirc;nia com que o verbo &#8220;ter&#8221; era empregado na ora&ccedil;&atilde;o existencial nos faz supor que se tratava mais de um fen&oacute;meno da l&iacute;ngua falada que da escrita. A l&iacute;ngua falada que evoluiu mais depressa que a escrita sentiu a necessidade de substituir totalmente &#8220;haver&#8221; por &#8220;ter&#8221;, pois o verbo &#8220;haver&#8221; por ter-se esvaziado semanticamente dificultava a comunica&ccedil;&atilde;o (idem<i>, ibidem</i>: 60).</p></blockquote>      <p>Refira-se que, ainda na esfera do existencial, a linguagem jur&iacute;dica conserva, ainda, a express&atilde;o cristalizada &laquo;<i>haver</i> lugar&raquo; (&laquo;<i>Haver</i> lugar a recurso&raquo;, por ex.) e <i>ter</i> e <i>haver</i> s&atilde;o hoje permut&aacute;veis em alguns enunciados, pragmaticamente ancorados. A t&iacute;tulo de exemplo, relembrem-se os enunciados, igualmente poss&iacute;veis no Portugu&ecirc;s contempor&acirc;neo:</p>      <blockquote>    <p>J&aacute; n&atilde;o <i>tem</i> rem&eacute;dio! ~ J&aacute; n&atilde;o <i>h&aacute;</i> rem&eacute;dio!</p></blockquote>      <p>Resta referir, por &uacute;ltimo, um outro uso cristalizado que se verifica tardiamente no <i>corpus</i> por n&oacute;s selecionado e que consistiu na substitui&ccedil;&atilde;o de <i>ser</i> por <i>aver</i>. Referimo-nos &agrave; express&atilde;o &laquo;<i>aver</i> mester&raquo; que veio substituir &laquo;<i>ser</i> mester&raquo;/&laquo;<i>ser</i> necess&aacute;rio&raquo;.<sup><a href="#22" name="top22">[22]</a></sup></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="t14">     <p align="center">Tabela 14. Express&otilde;es cristalizadas &laquo;<i>seer</i> mester&raquo; e &laquo;<i>auer</i> mester&raquo;</p>      <p align="center"><table border="1" cellspacing="0" cellpadding="0" >  <tbody> <tr> <td valign="top" >    <p><b>Documentos</b></p></td> <td valign="top" >    <p><b>&laquo;<i>ser</i> mester&raquo;</b></p></td> <td valign="top" >    <p><b>Documentos</b></p></td> <td valign="top" >    <p><b>&laquo;<i>auer</i> mester&raquo;</b></p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1291 Alc 3</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>for</i> me?ter&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>1478 MA 123</p></td> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;cada uez q<i>ue</i> o <i>ouuerem</i> me?ter&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1328 Alj 21</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;?e me?t<i>er for</i>&raquo;</p></td> <td valign="top" >    <p>1479 MA 124</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;q<i>ue</i> me?ter <i>ouuerem</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1372 MA 47</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;?e uos ne&ccedil;e?ario <i>for</i>&raquo;</p></td> <td rowspan="9" valign="top" >    <p>1496 Sal 135</p></td> <td rowspan="9" valign="top" >    <p>&laquo;n? <i>auja</i> me?t<i>er</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1379 Alc 51</p></td> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;?e me?t<i>er for</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1405 MA 70</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;?e me?t<i>er for</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1422 MA 82</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;<i>for c&otilde;</i>p<i>r</i>idoiro e ne&ccedil;e?ario&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1465 MA 116</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;q<i>ue</i> lhe me?ter <i>for</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1478 MA 122</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;q<i>ue</i> lhe na&ccedil;e??ar&iacute;o <i>for</i>&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1482 MA 125</p></td> <td valign="top" >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&laquo;<i>for</i> ne&ccedil;e??areo&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1522 MA 144</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;que lhe <i>for</i> ne?e&ccedil;ario&raquo;</p></td> </tr>  <tr> <td valign="top" >    <p>1529 MA 148</p></td> <td valign="top" >    <p>&laquo;se ne&ccedil;esario <i>ff</i> &raquo;</p></td> </tr>  </tbody> </table></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Uma an&aacute;lise detalhada da <a href="#t14">tabela</a> permite concluir que, no <i>corpus</i> agora em estudo, a partir da d&eacute;cada de 70 do s&eacute;culo XV o predicado <i>ser</i> passa a selecionar &laquo;necess&aacute;rio&raquo; em vez de &laquo;me?ter&raquo;. A recupera&ccedil;&atilde;o de <i>mester</i> foi feita a partir da&iacute; mas este nome ressurge agora com <i>aver</i>, que entretanto j&aacute; tinha sofrido um desgaste sem&acirc;ntico consider&aacute;vel. Eva Seifert testemunha que &laquo;el neologismo <i>tener menester</i> no alcanz&oacute; gran popularidad, ni pudo mantenerse&raquo; (Seifert, <i>ibidem</i>: 352). Apresenta, contudo dois exemplos que se fazem acompanhar dos de&iacute;ticos locativo e demonstrativo: &laquo;mas defensa no <i>tobo hi</i> menester&raquo; e &laquo;tom&aacute; <i>esta</i> navaja&#8230;, ya veo que vos no la <i>ten&eacute;is</i> menester&raquo;.</p>      <p><i>2.5.</i> Teer</i> com sentido de &#8216;desembocar&#8217;</i></p>      <p>A lexia complexa &#8220;ir ter&#8221; (&#8216;desembocar em&#8217;, &#8216;intersetar&#8217;) documenta-se igualmente no nosso <i>corpus</i>, em documentos das &uacute;ltimas d&eacute;cadas do s&eacute;culo XV e primeiro quartel do s&eacute;culo XVI, substituindo a estrutura trecentista &#8220;ir ferir&#8221;. Recordamos, a esse prop&oacute;sito, a per&iacute;frase que se documenta no s&eacute;culo XIV para transmitir essa no&ccedil;&atilde;o:</p>      <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>(i) &laquo;como <i>uay ferir</i> ?u?o&raquo; (1321 Alc 17)</p>      <p>(ii) &laquo;<i>u&atilde; ferir</i> ao rrio de Selir&raquo; (1321 Alc 17)</p>      <p>(iii) &laquo;<i>u&atilde; ferir</i> aa varz(ea) (1321 Alc 17)</p>      <p>(iv) &laquo;<i>u&atilde; ferir</i> aa ponte&raquo; (1321 Alc 17)</p></blockquote>      <p>As abona&ccedil;&otilde;es quatrocentistas e quinhentistas exibem o verbo <i>ter</i> neste contexto, refletindo uma extens&atilde;o tardia &agrave; no&ccedil;&atilde;o de &#8216;intersetar&#8217;:</p>      <blockquote>    <p>(v) &laquo;(&#8230;), e e?to do camjnho que uay da ponte noua pera o porto de Muja atee o Tejo e do camjnho pera &ccedil;ima a <i>ter</i> o camjnho de Meos&raquo; (1478 MA 122)</p>      <p>(vi) &laquo;(&#8230;) o quall a?entamento parte do abrigo com as cabaceeyrras, e de hy ?e vay a rrebeyrra (&#8230;) e da paarte do aguj&atilde; vay <i>teer</i> ao outeyrro do careyrro e per hy affondo per o Vall de Froles e vay <i>teer</i> a ffonte &raquo; (1500 MA 136)</p>      <p>(vii) &laquo;e por quanto o dito mo?teiro e?taua ? po??e de tanto tenpo que memoria dos hom?s n&otilde; he ? contrairo, rre&ccedil;eber e aver todalas cou??as que ?aem e vem <i>ter</i> aos portos e co?ta do maar&raquo; (1515 SM 141)</p>      <p>(viii) &laquo;(&#8230;) a?y dos taes pexes rreaes como de todalas outras cou?as que ?a? e v? <i>ter</i> haa co?ta do dito maar&raquo; (1515 SM 141)</p></blockquote>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como se pode inferir, o sujeito da ora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; a entidade que &#8220;tem&#8221;, j&aacute; que este &eacute; captado cognitivamente como a entidade que interseta, identificando-se o &#8220;objeto&#8221; intersetado com uma esp&eacute;cie de locativo. Eventualmente devido a essa ambiguidade, surge a per&iacute;frase &#8220;ir dar&#8221;, cujo n&uacute;cleo verbal se associa agora &agrave; no&ccedil;&atilde;o de &#8216;possuir&#8217;, tratando-se de um exemplo &uacute;nico e tardio no <i>corpus</i> agora em estudo. Nesta constru&ccedil;&atilde;o, o sujeito da ora&ccedil;&atilde;o &eacute;, efetivamente, o sujeito de &#8220;dar&#8221;, continuando a entidade que &#8220;recebe&#8221; a assumir a fun&ccedil;&atilde;o de locativo:</p>      <blockquote>    <p>(9) &laquo;ate <i>hir dar</i> nas teras llaurady&ccedil;as&raquo; (1541 Sal 152)</p></blockquote>      <p>Atualmente, como &eacute; sabido, coexistem em varia&ccedil;&atilde;o livre os dois tipos de constru&ccedil;&atilde;o: &laquo;ir <i>ter</i> a&raquo; e &laquo;ir <i>dar</i> a&raquo;. Curiosamente, constituem, quando extra&iacute;dos destas express&otilde;es gramaticalizadas, dois predicados cujos conte&uacute;dos sem&acirc;nticos s&atilde;o funcionalmente opostos. Esta constata&ccedil;&atilde;o constitui um argumento a favor da natureza cognitiva de alguns processos de gramaticaliza&ccedil;&atilde;o, quando operados em express&otilde;es fraseol&oacute;gicas constitu&iacute;das diacronicamente.</p>      <p><b>3. Conclus&otilde;es</b></p>      <p>&Eacute; poss&iacute;vel que a transfer&ecirc;ncia do sentido inicial de <i>ter,</i> aliado &agrave; perce&ccedil;&atilde;o e obriga&ccedil;&atilde;o de natureza moral (cf. &#8220;<i>ter</i> por bem&#8221;), para o dom&iacute;nio da posse concreta (eventualmente j&aacute; verificada na l&iacute;ngua latina) traduza uma mentalidade que anseia por controlar o mundo, pela conquista do que &eacute; material. O que parece depreender-se &eacute; que, com o avan&ccedil;o do Feudalismo, a dimens&atilde;o axiol&oacute;gica de <i>ter</i> difundiu-se &agrave; no&ccedil;&atilde;o de posse de bens materiais, concretos, como se a no&ccedil;&atilde;o de &#8216;ter, possuir bens&#8217; integrasse paulatinamente essa dimens&atilde;o humana de &acirc;mbito moral&iacute;stico. Os dados analisados permitem concluir que s&oacute; a partir das d&eacute;cadas de 80/90 do s&eacute;culo XV as percentagens de <i>teer</i> relativamente a <i>aver</i> come&ccedil;am a sobrepor-se, deixando de existir os documentos que continham <i>aver</i> em exclusividade. Tal sobreposi&ccedil;&atilde;o traduziu-se na transfer&ecirc;ncia de <i>teer</i> para a esfera da posse &#8220;n&atilde;o-protot&iacute;pica&#8221;, invadindo decididamente a esfera dos complementos de predicado que traduzem AI (o complemento expressa qualidades morais, espirituais, intelectuais, afetivas, sociais). Entre aproximadamente o &uacute;ltimo quartel do s&eacute;culo XIV e 1425/1430 dever&aacute; ter existido uma &#8220;press&atilde;o&#8221; normativa no sentido da <i>standardiza&ccedil;&atilde;o</i> (caracterizada pelo <i>grau zero da escrita</i>) que obrigou a selecionar o verbo <i>auer</i> na documenta&ccedil;&atilde;o notarial.</p>      <p>Uma an&aacute;lise mais contextualizada permite concluir que aos de&iacute;ticos temporais, locativos e anaf&oacute;ricos <i>&aacute;&aacute;cima</i>, <i>hy</i>, <i>(h)ora</i>, <i>agora</i>, <i>enquanto</i>, ou ainda &agrave;s express&otilde;es temporais &laquo;<i>do tempo</i> que&raquo;, &laquo;<i>ao tempo que</i>&raquo; anda associado, nos contextos de posse de bens materiais adquir&iacute;veis (AM), o verbo <i>teer</i> e n&atilde;o <i>aver</i>. Por outro lado, ao longo do nosso <i>corpus</i>, foi comum a ideia de <i>teer</i> associada aos bens efetivos (ou que se assumem como efetivos no futuro) e de <i>aver</i> aos hipot&eacute;ticos ou eventuais. Uma outra conclus&atilde;o que este estudo permite extrair &eacute; a de que, no discurso notarial medieval, entre <i>direito</i>, <i>autoridade</i> e <i>poder</i>, houve uma grada&ccedil;&atilde;o na escolha, cronologicamente faseada, do verbo <i>teer</i>, no sentido [+ control&aacute;vel/alcan&ccedil;&aacute;vel] &gt; [control&aacute;vel/alcan&ccedil;&aacute;vel]. Assim, se <i>direito</i> usufruiria desse predicado, j&aacute; no segundo quartel do s&eacute;culo XV, <i>autoridade</i> s&oacute; viria a angari&aacute;-lo na d&eacute;cada de 90 e <i>poder</i> s&oacute; no s&eacute;culo XVI abandonaria a no&ccedil;&atilde;o de posse mitigada, &#8220;espiritual&#8221;. As restri&ccedil;&otilde;es sem&acirc;ntico-cognitivas ativadas pelo teste da anteposi&ccedil;&atilde;o do artigo a este &uacute;ltimo item lexical, ou seja, a forma como &eacute; captado cognitivamente este complemento de predicado (<i>ter o poder</i> mas *<i>ter um poder</i>) atuaram na resist&ecirc;ncia ao verbo <i>ter</i>.</p>      <p>Enfim, pensamos n&atilde;o estar longe da verdade ao afirmar que os novos horizontes socioculturais soprados pelos ventos do Humanismo italiano, trazendo consigo uma nova cren&ccedil;a no Homem e nas suas potencialidades, e acelerando o florescimento das l&iacute;nguas vern&aacute;culas em detrimento do latim, trouxeram, igualmente, com maior ou menor resist&ecirc;ncia, o triunfo de <i>ter</i> sobre <i>auer.</i> O grau extremo de abstra&ccedil;&atilde;o a n&iacute;vel de entidade possu&iacute;da (e, por isso, da posse n&atilde;o-protot&iacute;pica) a alma humana, o que existe de mais espiritual &#8211; s&oacute; em pleno s&eacute;culo XVI admitiu o verbo <i>ter.</i> Como se sabe, a express&atilde;o &#8220;que Deus haja!&#8221; conserva-se ainda em algumas zonas rurais portuguesas, em varia&ccedil;&atilde;o com &#8220;que Deus tenha&#8221;. Conserva-se, igualmente, o verbo <i>haver</i> em outras express&otilde;es cristalizadas: &laquo;bem <i>haja</i>!&raquo;, &laquo;mal <i>haja</i>&raquo;, ou ainda na express&atilde;o proverbial &laquo;Por bem fazer mal <i>haver</i>&raquo;. Por outro lado, ao contr&aacute;rio do que acontece no Portugu&ecirc;s europeu, na variedade brasileira do Portugu&ecirc;s &eacute; o verbo <i>ter</i> que est&aacute; presente nas express&otilde;es existenciais (ex: &laquo;<i>Tem</i> muita pobreza no mundo&raquo;), perpetuando assim, como ficou documentado, uma heran&ccedil;a lingu&iacute;stica dos tempos medievais.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Ali, M. Said (1957) <i>Dificuldades da l&iacute;ngua portuguesa. Estudos e observa&ccedil;&otilde;es</i>, 5&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Rio de Janeiro: Livraria Acad&eacute;mica.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000593&pid=S0807-8967201400010001400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Benveniste, &Eacute;mile (1966). <i>Probl&egrave;mes de linguistique g&eacute;n&eacute;rale 1.</i> Paris: N.R.F., Biblioth&egrave;que des sciences humaines.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000595&pid=S0807-8967201400010001400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Carvalho, Maria Jos&eacute; (2006) <i>Documenta&ccedil;&atilde;o medieval do mosteiro de Santa Maria de Alcoba&ccedil;a (s&eacute;cs. XIII-XVI). Edi&ccedil;&atilde;o e estudo lingu&iacute;stico.</i> Disserta&ccedil;&atilde;o de doutoramento apresentada &agrave; Faculdade de Letras de Coimbra.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000597&pid=S0807-8967201400010001400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Chevalier, Jean-Claude (1977) De l&#8217; opposition &laquo;aver-tener&raquo;. In: <i>Cahiers de Linguistique Hispanique M&eacute;di&eacute;vale.</i> Sous la direction de Jean Roudil. Publi&eacute;s par le S&eacute;minaire d&#8217; &Eacute;tudes M&eacute;di&eacute;vales Hispaniques de l&#8217;Universit&eacute; de Paris-XIII, n&ordm;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000599&pid=S0807-8967201400010001400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> 2.</p>      <!-- ref --><p>Ferreira, Jos&eacute; de Azevedo (1980-1981), Les verbes &laquo;haber&raquo;, &laquo;tener&raquo; et l&acute;emploi de l&#8217; anaphorique &laquo;y&raquo; dans &laquo;Le Libro de los gatos&raquo;. In: <i>Boletim de Filologia</i>, tomo 26.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000601&pid=S0807-8967201400010001400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Garachana Camarero, Mar (1997) Acerca de los condicionamentos cognitivos y ling&uuml;&iacute;sticos de la sustituci&oacute;n de &laquo;aver&raquo; por &laquo;ter&raquo;. In: <i>Verba. Anuario Gallego de Filolog&iacute;a</i>, vol. 24.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000603&pid=S0807-8967201400010001400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Garc&iacute;a Mart&iacute;n, Jos&eacute; Mar&iacute;a (2001) <i>La formaci&oacute;n de los tiempos compuestos del verbo en espa&ntilde;ol medieval y cl&aacute;sico. Aspectos fonol&oacute;gicos, morfol&oacute;gicos y sint&aacute;cticos</i>. Anejo n&ordm; XLVII de la Revista <i>Cuadernos de Filolog&iacute;a</i>. Universitat de Val&egrave;ncia: Facultat de Filolog&iacute;a.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000605&pid=S0807-8967201400010001400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Harre, Catherine (1991) &#8220;<i>Tener&#8221;</i> + <i>Past Participle. A Case Study in Linguistic Description</i>. London and New York: Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000607&pid=S0807-8967201400010001400008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Ribeiro, Ilza (1993) A forma&ccedil;&atilde;o dos tempos compostos: a evolu&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica das formas &#8220;ter&#8221;, &#8220;haver&#8221; e &#8220;ser&#8221;. In: Ian Roberts &amp; Mary A. Kato (Orgs.), <i>Portugu&ecirc;s Brasileiro: uma viagem diacr&ocirc;nica</i>. Campinas, S.P., Editora da Unicamp, p. 343-386.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000609&pid=S0807-8967201400010001400009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Sampaio, Maria L&uacute;cia Pinheiro (1978) <i>Estudo diacr&ocirc;nico dos verbos TER e AVER, duas formas em concorr&ecirc;ncia</i>. S&atilde;o Paulo: Assis.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000611&pid=S0807-8967201400010001400010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Seifert, Eva (1930) &#8220;Haber&#8221; y &#8220;tener&#8221; como expresiones de la posesi&oacute;n en espa&ntilde;ol. In: <i>Revista de Filolog&iacute;a Espa&ntilde;ola</i>, tomo 17 (3 e 4), Madrid.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000613&pid=S0807-8967201400010001400011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Silva, Rosa Virg&iacute;nia Mattos de (1995) Varia&ccedil;&atilde;o e mudan&ccedil;a no portugu&ecirc;s arcaico: &#8220;ter&#8221; ou &#8220;haver&#8221; em estruturas de posse. In: <i>Miscel&acirc;nea de estudos ling&uuml;&iacute;sticos, filol&oacute;gicos e liter&aacute;rios in Memoriam Celso Cunha.</i> Org. por C. Pereira e P. Pereira. S&atilde;o Paulo: Ed. Nova Fronteira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000615&pid=S0807-8967201400010001400012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Silva, Rosa Virg&iacute;nia Mattos e (2002a) Vit&oacute;rias de &#8220; ter&#8221; sobre &#8220;haver&#8221; nos meados do s&eacute;culo XVI: usos e teoria em Jo&atilde;o de Barros. In: Rosa Virg&iacute;nia Mattos e Silva &amp; Am&eacute;rico Ven&acirc;ncio Lopes Machado Filho (orgs.), <i>O Portugu&ecirc;s quinhentista: estudos ling&uuml;&iacute;sticos.</i> Salvador/Feira de Santana: Editoras da UFBa/UEFs, p. 121-141.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000617&pid=S0807-8967201400010001400013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Silva, Rosa Virg&iacute;nia Mattos e (2002b), A varia&ccedil;&atilde;o &#8220;ser/estar&#8221; e &#8220;haver/ter&#8221; nas cartas de D. Jo&atilde;o III entre 1540 e 1553: compara&ccedil;&atilde;o com os usos coet&acirc;neos de Jo&atilde;o de Barros<i>.</i> In: Rosa Virg&iacute;nia Mattos e Silva &amp; Am&eacute;rico Ven&acirc;ncio Lopes Machado Filho (orgs.), <i>O Portugu&ecirc;s quinhentista: estudos ling&uuml;&iacute;sticos.</i> Salvador/Feira de Santana: Editoras da UFBa/UEFs, p. 143-160.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000619&pid=S0807-8967201400010001400014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Torres, Amadeu (1997) Na pista do Prof. Azevedo Ferreira: os verbos &#8220;ter&#8221; e &#8220;haver&#8221; em dois cartul&aacute;rios nortenhos. In: <i>Actas do XII Encontro Nacional da Associa&ccedil;&atilde;o Portuguesa de Lingu&iacute;stica (Braga-Guimar&atilde;es, 30 de Setembro a 2 de Outubro de 1996).</i> Editadas por Ivo Castro. Lisboa: Associa&ccedil;&atilde;o Portuguesa de Lingu&iacute;stica, vol. 2, p. 303-313.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000621&pid=S0807-8967201400010001400015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p><sup><a href="#top1" name="1" >[1]</a></sup>A mesma ideia foi apresentada por Said Ali: &laquo;A no&ccedil;&atilde;o feudal de <i>tenere</i>, que creou os t&ecirc;rmos franceses <i>tenant</i>, <i>tenancier</i>, reproduz-se em Portugal com o verbo <i>ter</i>&raquo;. (Ali, 19575: 120). Jos&eacute; de Azevedo Ferreira testemunha que: &laquo;dans un document du XIe si&egrave;cle appara&icirc;t d&eacute;j&agrave; la distinction entre <i>habere</i> d&eacute;signant la propri&eacute;t&eacute; par &#8216;herencia&#8217;, et <i>tenere</i>, la possession en 'feudo'. Ce sera peut-&ecirc;tre le reflet d'un nouvel ordre juridique, en cons&eacute;quence d'un nouvel syst&egrave;me politico-social qui s'instituait &agrave; cette &eacute;poque - la f&eacute;odalit&eacute; - et, en cons&eacute;quence, la langue essayait de traduire les nouveaux concepts par de nouveaux signifiants ou &eacute;largissant le champ s&eacute;mantique des signes d&eacute;j&agrave; existants&raquo;. (Ferreira, 1980-1981: 247).</p>      <p><sup><a href="#top2" name="2">[2]</a></sup>Para a localiza&ccedil;&atilde;o das abona&ccedil;&otilde;es apresentadas neste artigo, o documento &eacute; identificado pela data, local de reda&ccedil;&atilde;o (MA - Mosteiro de Alcoba&ccedil;a; Alc. - Alcoba&ccedil;a; Alf - Alfeizar&atilde;o; TC - Torre das Colmeias; Tur - Turquel; Alv - Alvorinha; Alj - Aljubarrota; Ped - Pederneira; Mai - Maiorga) e n&uacute;mero, dentro da cole&ccedil;&atilde;o.</p>      <p><sup><a href="#top3" name="3">[3]</a></sup>Como &eacute; sabido, a import&acirc;ncia da categoriza&ccedil;&atilde;o em termos de prototipicidade tem sido extremamente valorizada pela Sem&acirc;ntica cognitiva. Sobre a aplica&ccedil;&atilde;o dos princ&iacute;pios da categoriza&ccedil;&atilde;o e da estrutura&ccedil;&atilde;o das categorias radiais &agrave; no&ccedil;&atilde;o de posse (com <i>haver</i> e <i>ter</i>), consulte-se Garachana Camarero, 1997: 215 e sgs.</p>      <p><sup><a href="#top4" name="4">[4]</a></sup>Ap&oacute;s ter arrolado os significados de HABERE e TENERE na l&iacute;ngua latina, a Autora evidencia o &laquo;estrecho e ideal parentesco entre ambos verbos&raquo;. (Seifert, 1930: 243).      <p><sup><a href="#top5" name="5">[5]</a></sup>Apresentaremos, de seguida, os matizes sem&acirc;nticos de &laquo;<i>ter</i> por&raquo; e &laquo;<i>aver</i> por&raquo; no portugu&ecirc;s medieval, que contrariam a convic&ccedil;&atilde;o de Said Ali de ter existido varia&ccedil;&atilde;o livre entre as duas express&otilde;es: &laquo;vemos utilizados os dois modos de dizer, e talvez com mais freq&uuml;&ecirc;ncia <i>haver por</i> do que <i>ter por</i> (&#8230;)&raquo; (Ali, <i>ibidem</i>: 122).</p>      <p><sup><a href="#top6" name="6">[6]</a></sup>Said Ali reconhece igualmente que &laquo;devia ser do falar corrente a express&atilde;o <i>ter por</i> j&aacute; no portugu&ecirc;s antigo, pois que nos di&aacute;logos das obras de Gil Vicente sempre assim se diz&raquo; (Ali, 1957: 122)</p>      <p><sup><a href="#top7" name="7">[7]</a></sup>Com este sentido, a express&atilde;o formular &#8220;<i>ter</i> e cumprir&#8221; veio precisamente substituir, a partir dos &uacute;ltimos anos do s&eacute;culo XV, a mais antiga &laquo;<i>guardar</i> e cumprir&raquo;.</p>      <p><sup><a href="#top8" name="8">[8]</a></sup>Inclu&iacute;mos alguns exemplos que representam f&oacute;rmulas jur&iacute;dicas cristalizadas, de car&aacute;cter tautol&oacute;gico: &laquo;<i>tenha</i> e <i>aya</i> e??a adega&raquo; (1297), &laquo;huas ca?as q<i>ue tem</i> e <i>ha</i> na d<i>i</i>c<i>t</i>a villa&raquo; (1495), &laquo;<i>tem</i> e <i>ham</i> as dictas ca?as&raquo; (1495). Mar Garachana Camarero constata, igualmente, que &laquo;la presencia de <i>aver</i> en estas estructuras binomiales [<i>huuiessen e teniessen</i>] y trinomiales [<i>hauia tenia e possedia</i>] obedece m&aacute;s a una costumbre del lenguaje jur&iacute;dico, caracterizado por su af&aacute;n de precisi&oacute;n, que a un uso efectivo por parte de los hablantes&raquo;. (Garachana Camarero, 1997: 222).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top9" name="9">[9]</a></sup>A delimita&ccedil;&atilde;o temporal agora efetuada decorreu, n&atilde;o s&oacute; do que foi poss&iacute;vel averiguar na investiga&ccedil;&atilde;o levada a cabo aquando da nossa tese de mestrado, mas tamb&eacute;m da observa&ccedil;&atilde;o das tend&ecirc;ncias gr&aacute;ficas e lingu&iacute;sticas, a partir de um levantamento exaustivo dos dados deste <i>corpus</i>, e que corroboram, no essencial, os resultados que ent&atilde;o apresent&aacute;mos. Tivemos, igualmente, em conta as propostas de periodiza&ccedil;&atilde;o conhecidas e os marcos balizadores dos diferentes per&iacute;odos, j&aacute; propostos por consagrados periodizadores da hist&oacute;ria lingu&iacute;stica do Portugu&ecirc;s. &Eacute;, igualmente, nossa convic&ccedil;&atilde;o que a delimita&ccedil;&atilde;o das etapas epocais dever&aacute; ser feita em fun&ccedil;&atilde;o do que nos dizem os documentos sobre os fen&oacute;menos, em termos de tend&ecirc;ncias evolutivas, e n&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o da perspetiva de um investigador atual. Ou seja, &eacute; a pr&oacute;pria evolu&ccedil;&atilde;o do fen&oacute;meno observado que deve proporcionar a informa&ccedil;&atilde;o sobre os segmentos temporais, pois s&oacute; assim chegaremos a saber se a evolu&ccedil;&atilde;o da l&iacute;ngua se produz a um ritmo sempre igual ou se, pelo contr&aacute;rio, as mudan&ccedil;as se acumulam em determinadas &eacute;pocas.</p>      <p><sup><a href="#top10" name="10">[10]</a></sup>Tamb&eacute;m Eva Seifert se refere a esse processo hist&oacute;rico, salientando o seguinte: &laquo;La viva fantas&iacute;a del hombre fantas&iacute;a del hombre meridional sinti&oacute; con m&aacute;s intensidad la fuerza de <i>tenere</i> y le dio cabida em su habla. La sustituci&oacute;n de <i>habere</i> por <i>tenere</i> es, en su origen, resultado de la expresi&oacute;n concreta de un concepto cuyo t&eacute;rmino usual se encontraba d&eacute;bil y gastado a consecuencia de una excesiva <i>normalizaci&oacute;n</i>&raquo;. (<i>ibidem</i>, 1930: 237).</p>      <p><sup><a href="#top11" name="11">[11]</a></sup>De acordo com a Autora, &laquo;La presencia de <i>aver</i> en el espacio de la posesi&oacute;n metaf&oacute;rica en este &uacute;ltimo per&iacute;odo (1470 a 1498) casi puede calificarse de arca&iacute;smo, pues acostumbra a emplearse en construcciones complejas (&#8220;aver menester&#8221;, &#8220;que Dios haya&#8221; o &#8220;aver lugar&#8221;) en las que <i>aver</i> ha seguido emple&aacute;ndose, incluso despu&eacute;s de su desaparici&oacute;n del &aacute;mbito de la posesi&oacute;n&raquo;. (Marachana Camarero, <i>ibidem</i>: 224).</p>      <p><sup><a href="#top12" name="12">[12]</a></sup>Recorde-se que, segundo Eva Seifert &laquo;es notable, por fin, que las expresiones de miedo, temor se interpretasen frecuentemente por <i>haber</i>&raquo;. (6HLIHUW: 353).</p>      <p><sup><a href="#top13" name="13">[13]</a></sup>As percentagens indicadas referem-se, naturalmente, ao verbo <i>teer</i>, dentro do documento em causa.</p>      <p><sup><a href="#top14" name="14">[14]</a></sup>Eva Seifert testemunha que &laquo;en proposiciones imperativas, hipot&eacute;ticas, condicionales y optativas, <i>haber</i> es mucho m&aacute;s frecuente que <i>tener</i>, y <i>haber</i> se mantuvo en ellas largo tiempo&raquo;. (Seifert, <i>ibidem</i>: 249).</p>      <p><sup><a href="#top15" name="15">[15]</a></sup>N&atilde;o obstante reconhecermos o artificialismo metodol&oacute;gico de qualquer corte cronol&oacute;gico, referimo-nos ao segundo documento do nosso <i>corpus</i> com esta data.</p>      <p><sup><a href="#top16" name="16">[16]</a></sup>Note-se que a express&atilde;o &laquo;<i>aver</i> possess&atilde;o&raquo; &eacute;, sobretudo a partir da segunda metade do s&eacute;culo XV, substitu&iacute;da por &#8220;<i>ter</i> em posse&#8221;, o que corrobora os matizes sem&acirc;nticos j&aacute; mencionados.</p>      <p><sup><a href="#top17" name="17">[17]</a></sup>Os itens selecionados constituem uma extens&atilde;o meton&iacute;mica de <i>carta</i> (baseada na rela&ccedil;&atilde;o de contiguidade conte&uacute;do/continente), que a partir de meados do s&eacute;culo XV se come&ccedil;ou a difundir. Assim, e porque todos eles t&ecirc;m impl&iacute;cita a no&ccedil;&atilde;o de &#8216;direito&#8217;, &#8216;privil&eacute;gio&#8217;, &eacute; normalmente o verbo <i>aver</i> que os acompanha, mesmo que por vezes venha expl&iacute;cito o item <i>carta</i> (trata-se de uma express&atilde;o consagrada dos formul&aacute;rios jur&iacute;dicos). A inclus&atilde;o destes itens nesta tipologia de posse poder&aacute;, assim, revelar-se controversa. &Eacute; num documento de 1433 (&eacute; curioso constatar que a forma <i>tenha</i> encontra-se a&iacute; repetida, o que poder&aacute; revelar uma hesita&ccedil;&atilde;o eloquente, por parte do not&aacute;rio) que surge, pela primeira vez, o verbo <i>teer</i> associado a <i>carta de rogo</i>, <i>espa&ccedil;o</i>, <i>gra&ccedil;a</i> ou <i>mer&ccedil;ee</i>, express&otilde;es que aparecem muitas vezes substitu&iacute;das por <i>gra&ccedil;as</i> ou <i>mer&ccedil;ees</i>, por meton&iacute;mia. Sendo assim, esteja ou n&atilde;o expl&iacute;cita a lexia <i>carta</i>, o sentido desta express&atilde;o est&aacute; associado a &#8216;direito&#8217;, &#8216;privil&eacute;gio&#8217;, pelo que tem algo de [alcan&ccedil;&aacute;vel], marginando a posse de tipo AI.</p>      <p><sup><a href="#top18" name="18">[18]</a></sup>BPelo menos, em constru&ccedil;&otilde;es sintaticamente neutras.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top19" name="19">[19]</a></sup>&#8220;Haver rem&eacute;dio&#8221; e &#8220;ter rem&eacute;dio&#8221; sobrevivem no portugu&ecirc;s atual, em distribui&ccedil;&atilde;o complementar, encontrando-se o verbo <i>haver</i> associado a ora&ccedil;&otilde;es existenciais que n&atilde;o selecionam SN sujeito mas um SP ([&laquo;<i>Para isso</i>, n&atilde;o h&aacute; rem&eacute;dio&raquo;, por exemplo]). Contudo, &#8220;N&atilde;o <i>h&aacute;</i> rem&eacute;dio&#8221; e &#8220;N&atilde;o <i>tem</i> rem&eacute;dio&#8221; poder&atilde;o ser enunciados pragmaticamente equivalentes, em alguns contextos de enuncia&ccedil;&atilde;o.</p>      <p><sup><a href="#top20" name="20">[20]</a></sup>&Eacute; amb&iacute;gua a express&atilde;o &laquo;como se p<i>or</i> el <i>avia</i> clara m?te&raquo;, contida neste documento e n&atilde;o mencionada na <a href="#t11">tabela</a>.</p>      <p><sup><a href="#top21" name="21">[21]</a></sup>Saliente-se que num exemplo da <i>Cr&oacute;nica de D. Jo&atilde;o I</i> de Fern&atilde;o Lopes, &eacute; igualmente poss&iacute;vel descortinar a presen&ccedil;a de <i>teer</i> numa estrutura existencial: &laquo;<i>temdo</i> ja dias auia mandado com recado (...)&raquo;. Apud: Harre, 1991: 131. A primeira abona&ccedil;&atilde;o permite recuar a data&ccedil;&atilde;o desta estrutura para o s&eacute;culo XV, antecipando, assim, em cerca de um s&eacute;culo a que foi apresentada por Ilza Ribeiro, extra&iacute;da de <i>Os Lus&iacute;adas</i> (Ribeiro, 1993: 373) ou, ainda, as de Rosa Virg&iacute;nia Mattos e Silva, extra&iacute;das da <i>D&eacute;cada Segunda</i> de Jo&atilde;o Barros (Silva, 2002: 138) e das <i>Cartas</i> de D. Jo&atilde;o III (Idem, <i>ibidem</i>: 156). Assim, dever&aacute; procurar-se o lugar do &#8220;encaixamento laboviano&#8221; (express&atilde;o usada por esta Autora na p&aacute;gina 158 da &uacute;ltima obra citada) no cen&aacute;rio hist&oacute;rico do portugu&ecirc;s j&aacute; no terceiro quartel do s&eacute;culo XV (antes, portanto, do transplante do Portugu&ecirc;s para o continente americano) e n&atilde;o apenas em meados do s&eacute;culo seguinte, como a mesma sugere.</p>      <p><sup><a href="#top22" name="22">[22]</a></sup>Na verdade, a express&atilde;o mais frequente ao longo do <i>corpus</i> &eacute; &laquo;<i>fazer</i> mester&raquo;, que ocupa 82% do total.</p>       ]]></body><back>
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