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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Gonçalo M. Tavares, Leitor de Michel Foucault: Loucura e Animalidade]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The disturbing relationship of mankind with its lost or repressed animality has acquired renewed pertinence in western thought in the last decades, in the course of which philosophers and writers have insistently scrutinized and reflected upon the animal essence of human beings. Even without having dealt with animality in a specific work, Michel Foucault is certainly one of the 20th century philosophers that closer attention has devoted to it, seeking to examine it not in terms of opposition to the concept of humanity, but rather as a limit-experience of the human proper. In his groundbreaking Histoire de la folie à l’âge classique (1961), Foucault draws on this negative dimension of animality to look into madness and power relations during specific historical moments of western culture. In this article, we seek to provide a critical interpretation of animalescos (2013) by Gonçalo M. Tavares in the light of Michel Foucault philosophical propositions, specifically those pertaining to the interplay between madness and animality.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>V&Aacute;RIA</b></p>      <p><b>Gon&ccedil;alo M. Tavares, Leitor de Michel Foucault: Loucura e Animalidade</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>M&aacute;rcia Seabra Neves*</b></p>      <p>*Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa.</p>      <p><a href="mailto:marcianeves@ua.pt">marcianeves@ua.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>RESUMO</b></p>      <p>A perturbante rela&ccedil;&atilde;o do humano com a sua animalidade perdida ou recalcada tem adquirido uma for&ccedil;a renovada no pensamento ocidental das &uacute;ltimas d&eacute;cadas, onde cada vez mais fil&oacute;sofos e escritores se interrogam e refletem sobre a ess&ecirc;ncia animalesca do ser humano. Embora n&atilde;o tenha consagrado nenhum estudo espec&iacute;fico &agrave; tem&aacute;tica da animalidade, Michel Foucault foi um dos fil&oacute;sofos do s&eacute;culo XX que mais aten&ccedil;&atilde;o lhe concedeu, analisando-a, n&atilde;o em oposi&ccedil;&atilde;o ao conceito de humanidade, mas como experi&ecirc;ncia-limite do humano. Na sua colossal Histoire de la folie &agrave; l&#8217;&acirc;ge classique (1961), o fil&oacute;sofo parte dessa dimens&atilde;o negativa da animalidade para questionar a loucura e as rela&ccedil;&otilde;es de poder em determinados momentos hist&oacute;ricos da cultura ocidental. Pretende-se, pois, com este estudo, proceder a uma leitura cr&iacute;tico-interpretativa do livro animalescos (2013) de Gon&ccedil;alo M. Tavares &agrave; luz do pensamento filos&oacute;fico de Michel Foucault relativamente ao bin&oacute;mio loucura / animalidade.</p>      <p><b>Palavras-chave</b>: Foucault, G. M. Tavares, humanidade, animalidade, loucura, racionalismo, biopoder, desumaniza&ccedil;&atilde;o.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p><b>ABSTRACT</b></p>      <p>The disturbing relationship of mankind with its lost or repressed animality has acquired renewed pertinence in western thought in the last decades, in the course of which philosophers and writers have insistently scrutinized and reflected upon the animal essence of human beings. Even without having dealt with animality in a specific work, Michel Foucault is certainly one of the 20th century philosophers that closer attention has devoted to it, seeking to examine it not in terms of opposition to the concept of humanity, but rather as a limit-experience of the human proper. In his groundbreaking Histoire de la folie &agrave; l&#8217;&acirc;ge classique (1961), Foucault draws on this negative dimension of animality to look into madness and power relations during specific historical moments of western culture. In this article, we seek to provide a critical interpretation of animalescos (2013) by Gon&ccedil;alo M. Tavares in the light of Michel Foucault philosophical propositions, specifically those pertaining to the interplay between madness and animality.</p>      <p><b>Keywords</b>: Foucault, G. M. Tavares, humanity, animality, madness, rationalism, biopower, dehumanization.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Foi no confronto com o animal, aquele <i>estranho estrangeiro</i> t&atilde;o distante e ao mesmo tempo t&atilde;o pr&oacute;ximo de n&oacute;s, que o homem desde sempre fabricou a sua identidade. Durante s&eacute;culos, a tradi&ccedil;&atilde;o ocidental, estabelecendo um corte radical entre o homem e o animal, ensinou-nos a lutar contra o animal que existe dentro de cada um de n&oacute;s, reprimindo severamente a misteriosa e tem&iacute;vel animalidade que nos habita. Foi, portanto, pela imposi&ccedil;&atilde;o de um violento adestramento a si pr&oacute;pria que a esp&eacute;cie humana se emancipou da face obscura da sua natureza animal.</p>      <p>Esta quest&atilde;o da animalidade enquanto <i>grau zero</i> da natureza humana constitui um dos principais vetores problem&aacute;ticos do pensamento de Michel Foucault relativamente &agrave; quest&atilde;o da loucura. Em <i>Histoire de la folie &agrave; l&#8217;&acirc;ge classique</i>, o pensador franc&ecirc;s apoia-se no conceito de animalidade para estabelecer uma arqueologia da loucura e das rela&ccedil;&otilde;es de poder em diferentes momentos da Hist&oacute;ria da Humanidade. Ora, a atualidade das suas reflex&otilde;es, bem como a sua vis&atilde;o moderna sobre a quest&atilde;o colocam-no no centro do debate contempor&acirc;neo sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre o homem e o animal que tem polarizado, com for&ccedil;a renovada, a literatura e a filosofia contempor&acirc;neas.</p>      <p>No &acirc;mbito da literatura portuguesa, o legado filos&oacute;fico de Foucault relativamente ao bin&oacute;mio loucura/animalidade manifesta-se, de modo estimulante, numa das mais recentes obras do escritor Gon&ccedil;alo M. Tavares, intitulada <i>animalescos</i> (2013a), onde o influxo da reflex&atilde;o foucaldiana se cruza tamb&eacute;m com a escrita pictural de Francis Bacon, intermediada pelo olhar cr&iacute;tico de Gilles Deleuze.</p>      <p><b>1. Loucura e animalidade como <i>grau zero</i> da natureza humana</b></p>      <p align="right"><i>La folie emprunte son visage au masque de la b&ecirc;te.</i></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><i>(Michel Foucault)</i></p>      <p>O universo da loucura ocupa grande parte do territ&oacute;rio textual de Gon&ccedil;alo M. Tavares que, numa recente entrevista ao jornal brasileiro <i>Peda&ccedil;o de Vila</i>, confessa que "a quest&atilde;o da loucura e da perda da raz&atilde;o &eacute; uma coisa central para [ele], e muitos dos [seus] livros est&atilde;o centrados nessas quest&otilde;es" (Tavares, 2013b). Em <i>animalescos</i>, a tem&aacute;tica da loucura, associada &agrave; animalidade enquanto limite da condi&ccedil;&atilde;o humana, imp&otilde;e-se como isotopia transversal a toda a obra, colocada desde o in&iacute;cio sob o signo de Francis Bacon e Gilles Deleuze.</p>      <p>Com efeito, o livro apresenta na capa uma ilustra&ccedil;&atilde;o ("Retrato de Henrietta Moraes", 1969) do pintor ingl&ecirc;s Francis Bacon, conhecido pela sua obsess&atilde;o pela representa&ccedil;&atilde;o do corpo e pelo tra&ccedil;o macabro e pulsional com que (des)constr&oacute;i as suas anatomias ca&oacute;ticas, atrav&eacute;s das quais procura questionar os limites do humano e revelar o esp&iacute;rito animal do homem. Bacon limpa, apaga, rasura e esbate a imagem, desconstruindo e desorganizando o rosto, at&eacute; fazer surgir aquilo que Deleuze considera serem "les <i>traits animaux</i> de la t&ecirc;te" (Deleuze, 2002: 27), que n&atilde;o correspondem a formas animais concretas, mas antes a esp&iacute;ritos que assombram essas zonas de opacidade e conferem &agrave; cabe&ccedil;a a sua singular individualidade. Por outras palavras, os <i>tra&ccedil;os</i> de animalidade descobertos n&atilde;o assinalam uma correspond&ecirc;ncia formal entre o animal e o humano, mas antes uma <i>zona comum de indiscernibilidade</i> entre o homem e o animal (<i>idem</i>, 28).</p>      <p>&Eacute; precisamente nesta <i>zona de vizinhan&ccedil;a ou de indiscernibilidade</i> entre o homem e o animal que se situa a <i>quarta pessoa do singular</i>, cuja voz se torna aud&iacute;vel no livro de Gon&ccedil;alo M. Tavares e que &eacute;, desde logo, anunciada em ep&iacute;grafe pela enuncia&ccedil;&atilde;o interposta de Gilles Deleuze: "quarta pessoa do singular; &eacute; ela que se pode tentar fazer com que fale" (<i>apud</i> Tavares, 2013a). Numa entrevista em que discorre sobre a voca&ccedil;&atilde;o da filosofia,<sup><a href="#1" name="top1">[1]</a></sup> Deleuze explica que toda a pessoa que escreve faz com que outro fale, situando esse outro num fundo an&oacute;nimo e indiferenciado que n&atilde;o se reduz a indiv&iacute;duos ou a pessoas, mas a singularidades pr&eacute;-individuais e impessoais (Deleuze, 2008: 185). Em <i>animalescos</i>, esta <i>quarta pessoa</i> &eacute; corporizada por seres desterritorializados que n&atilde;o s&atilde;o indiv&iacute;duos, nem pessoas e tampouco animais, mas sim <i>figuras animalescas</i>, t&atilde;o loucas e grotescas quanto as de Francis Bacon.</p>      <p>O escritor portugu&ecirc;s parece ter recortado as suas figuras de um hosp&iacute;cio cujos corredores o leitor vai percorrendo, a cada p&aacute;gina, deparando-se com uma multid&atilde;o de loucos sem cabe&ccedil;a (<i>idem</i>, 34), alienados a andar de canto em canto como animais acossados (<i>idem</i>, 48) ou fechados em compartimentos como animais doentes (<i>idem</i>, 62), homens que estudam para animais (<i>idem</i>, 18) ou malucos autodidatas que ficaram malucos sem a ajuda de ningu&eacute;m (<i>idem</i>, 125).</p>      <p>S&atilde;o as vozes destes loucos que se v&atilde;o fazendo ouvir ao longo dos 39 fragmentos que constituem o livro, atrav&eacute;s de um relato sinuoso e descont&iacute;nuo, situado no plano do pulsional, constitu&iacute;do por uma torrente de palavras que simultaneamente se atropelam e se dispersam a um ritmo vertiginoso. S&atilde;o m&uacute;ltiplos os processos t&eacute;cnico-discursivos mobilizados pelo escritor para conferir ao texto a sua densidade ca&oacute;tica: aus&ecirc;ncia total de par&aacute;grafos, fragmentos que se iniciam com min&uacute;scula ou at&eacute; com sinais de pontua&ccedil;&atilde;o e que n&atilde;o se fecham grafi amente, sendo a pausa pros&oacute;dica marcada geralmente com v&iacute;rgula, repeti&ccedil;&otilde;es lexicais e estruturais, gestos e a&ccedil;&otilde;es que se mesclam indefi amente, conex&otilde;es e hiatos imprevis&iacute;veis, entre muitos outros recursos que, retomando uma express&atilde;o de Herberto Helder, transformam o texto num "instrumento para acordar as v&iacute;sceras" (Helder, 2006: 118).</p>      <p>O leitor rapidamente se perde numa espiral de loucura e del&iacute;rio, ao som de orquestras compostas "unicamente por atrasados mentais, por malucos, esquizofr&eacute;nicos, man&iacute;acos, psicopatas medicados ao ponto de a sua viol&ecirc;ncia acabar por sair por um som fino do violino" (Tavares, 2013a: 63).</p>      <p>Despojados da alma racional e intelectual que os distinguia dos animais, todos estes seres animalescos se aproximam do <i>grau zero</i> da natureza humana, tem&aacute;tica amplamente desenvolvida por Michel Foucault na sua monumental <i>Histoire de la folie &agrave; l&#8217;&acirc;ge classique</i>, onde constr&oacute;i uma <i>arqueologia</i> da loucura ao longo dos s&eacute;culos (Renascimento, Idade Cl&aacute;ssica e &Eacute;poca Moderna), tentando sempre defini-la em rela&ccedil;&atilde;o ao conceito de animalidade entendido como "cette partie de l&#8217;homme &agrave; laquelle il refuse de donner sens, autrement que p&eacute;jorativement" (Chebili, 1999: 36).</p>      <p>Segundo Foucault, na Idade Cl&aacute;ssica (s&eacute;c. XVII e XVIII), a loucura delineia-se como uma forma emp&iacute;rica de desraz&atilde;o (<i>d&eacute;raison</i>) ou perda da raz&atilde;o que, associada &agrave; animalidade, &eacute; pressentida como negatividade e amea&ccedil;a &agrave; ordem natural do universo: "le fou, parcourant jusqu&#8217;&agrave; la fureur de l&#8217;animalit&eacute; la courbe de la d&eacute;ch&eacute;ance humaine, d&eacute;voile ce fond de d&eacute;raison qui menace l&#8217;homme et enveloppe de tr&egrave;s loin toutes les formes de son existence naturelle" (Foucault, 1972: 175).</p>      <p>O fil&oacute;sofo franc&ecirc;s distingue duas formas de experi&ecirc;ncia da loucura que nesse per&iacute;odo se justap&otilde;em: a do insano, internado por desvio e subvers&atilde;o das regras morais e &eacute;ticas da &eacute;poca, e a do louco que, possu&iacute;do pelo esp&iacute;rito animal, sofre uma perda total da sua racionalidade humana. Assim, para o racionalismo cl&aacute;ssico, impregnado do esp&iacute;rito da filosofia cartesiana, a loucura afigura-se como manifesta&ccedil;&atilde;o do <i>n&atilde;o-ser</i> (o eu que n&atilde;o pensa, n&atilde;o existe) e resulta da rela&ccedil;&atilde;o imediata do homem com a sua animalidade, assumindo tra&ccedil;os de uma viol&ecirc;ncia contranatura. O animal interioriza-se no louco e passa a constituir a sua pr&oacute;pria ess&ecirc;ncia &#8211; "sa folie &agrave; l&#8217;&eacute;tat de nature" (<i>idem</i>, 166) &#8211;, deslocando-o para os confins do humano: "L&#8217;animalit&eacute; qui fait rage dans la folie d&eacute;poss&egrave;de l&#8217;homme de ce qu&#8217;il peut y avoir d&#8217;humain en lui ; mais non pour se livrer &agrave; d&#8217;autres puissances, pour l&#8217;&eacute;tablir seulement au degr&eacute; z&eacute;ro de sa propre nature" (<i>ibidem</i>).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Foucault identifica como figuras da loucura &#8211; porventura as mais consistentes e tem&iacute;veis &#8211; a histeria (convuls&otilde;es) e a hipocondria (alucina&ccedil;&otilde;es), progressivamente assimiladas como duas express&otilde;es de uma &uacute;nica e mesma doen&ccedil;a "fond&eacute;e sur un mouvement des esprits animaux" (<i>idem</i>, 306). Com efeito, manifestando-se como um transtorno din&acirc;mico do corpo, a histeria e a hipocondria resultam da ascens&atilde;o e do movimento desordenado de esp&iacute;ritos animais, durante muito tempo reprimidos pelo sujeito, no espa&ccedil;o corporal, que deixa de constituir um conjunto s&oacute;lido e cont&iacute;nuo de &oacute;rg&atilde;os para se converter numa extens&atilde;o incoerente e desorganizada de massas disformes e contr&aacute;rias a toda a lei org&acirc;nica:</p>      <p>    <blockquote>Les esprits animaux &#8216;&agrave; cause de leur t&eacute;nuit&eacute; ign&eacute;e peuvent p&eacute;n&eacute;trer m&ecirc;me les corps les plus denses, et les plus compacts,&#8230; et &agrave; cause de leur activit&eacute;, ils peuvent p&eacute;n&eacute;trer tout le microcosme en un seul instant&#8217;. [&#8230;] L&#8217;hyst&eacute;rie, (&#8230;) c&#8217;est la maladie d&#8217;un corps devenu indiff&eacute;remment p&eacute;n&eacute;trable &agrave; tous les efforts des esprits, de telle sorte qu&#8217;&agrave; l&#8217;ordre interne des organes, se substitue l&#8217;espace incoh&eacute;rent des masses soumises passivement au mouvement d&eacute;sordonn&eacute; des esprits. [&#8230;] Le corps hyst&eacute;rique est ainsi offert &agrave; cette <i>spirituum ataxia</i> qui, en dehors de toute loi organique et de toute n&eacute;cessit&eacute; fonctionnelle, peut s&#8217;emparer successivement de tous les espaces disponibles du corps. (<i>Idem</i>, 305-306)</blockquote></p>      <p>Ora, o que n&atilde;o falta em <i>animalescos</i> s&atilde;o mentes hist&eacute;ricas conduzidas ao mundo cruel da loucura e da desumaniza&ccedil;&atilde;o pela liberta&ccedil;&atilde;o desvairada do seu esp&iacute;rito animal, ou seja, corpos em movimento, cujos &oacute;rg&atilde;os se dissolvem em massas informes que tornam indiscern&iacute;vel a fronteira que separa o humano do animal. O leitor &eacute;, assim, atropelado por homens que "avan&ccedil;am em grupo como se fossem uma manada, envolvidos na sua animalidade at&eacute; ao focinho" (Tavares, 2013a: 37).</p>      <p>Ainda segundo Foucault, tanto os loucos-animais como os insanos eram condenados ao internamento, embora aos primeiros estivesse reservado um tratamento especial. Com efeito, se os insanos eram ocultados do resto da sociedade, como forma de evitar o esc&acirc;ndalo e a propaga&ccedil;&atilde;o da imoralidade, os loucos eram expostos ao p&uacute;blico como aberra&ccedil;&otilde;es ins&oacute;litas, durante espet&aacute;culos organizados: "L&#8217;internement cache la d&eacute;raison, et trahit la honte qu&#8217;elle suscite, mais il d&eacute;signe explicitement la folie; il la montre du doigt" (Foucault, 1972: 162-163).</p>      <p>A loucura surgia assim teatralizada de forma grotesca e apresentada como "animal aux m&eacute;canismes &eacute;tranges, bestialit&eacute; o&ugrave; l&#8217;homme, depuis longtemps, est aboli" (<i>idem</i>, 163). No fundo, o que se pretendia era confrontar os homens com os abismos da degrada&ccedil;&atilde;o a que a rendi&ccedil;&atilde;o &agrave; animalidade os poderia conduzir, numa tentativa de exalta&ccedil;&atilde;o da moral e da raz&atilde;o: "on la [folie] montre, mais de l&#8217;autre c&ocirc;t&eacute; des grilles ; si elle se manifeste, c&#8217;est &agrave; distance, sous le regard d&#8217;une raison qui n&#8217;a plus de parent&eacute; avec elle, et ne doit plus se sentir compromise par trop de ressemblance" (<i>ibidem</i>).</p>      <p>Neste contexto, o mundo do internamento assumia a forma de um besti&aacute;rio humano, onde os loucos-animais eram tratados como bestas enfurecidas e submetidos a pr&aacute;ticas inumanas de domestica&ccedil;&atilde;o e controlo que atingiam o paroxismo da viol&ecirc;ncia:</p>      <p>    <blockquote>Ceux qu&#8217;on encha&icirc;ne aux murs des cellules, ce ne sont pas tellement des hommes &agrave; la raison &eacute;gar&eacute;e, mais des b&ecirc;tes en proie &agrave; une rage naturelle : comme si, &agrave; sa pointe extr&ecirc;me, la folie, lib&eacute;r&eacute;e de cette d&eacute;raison morale o&ugrave; ses formes les plus att&eacute;nu&eacute;es sont encloses, venait &agrave; rejoindre, par un coup de force, la violence imm&eacute;diate de l&#8217;animalit&eacute;. (<i>Idem</i>, 165)</blockquote></p>      <p>No entanto, os m&eacute;todos mobilizados para controlar a animalidade desenfreada dos loucos n&atilde;o pretendiam "&eacute;lever le bestial vers l&#8217;humain, mais restituer l&#8217;homme &agrave; ce qu&#8217;il peut avoir de purement animal" (<i>idem</i>, 167-168). &Eacute; na redu&ccedil;&atilde;o do homem &agrave; animalidade que a loucura encontra a sua verdade e a sua cura, pois, transformando-se em animal, a bestialidade humana, que constitu&iacute;a o esc&acirc;ndalo da loucura, desaparece, n&atilde;o porque o animal se tenha calado, mas porque o homem se aboliu. Ora, quanto mais animal for o homem, mais pr&oacute;ximo se encontra da natureza e, por conseguinte, da reden&ccedil;&atilde;o divina.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Com efeito, segundo Foucault, se o Cristianismo cl&aacute;ssico repudiava os insanos pelos seus pecados imorais, concedia ao louco o perd&atilde;o, reconhecendo na loucura "la coupable innocence de l&#8217;animal en l&#8217;homme" (<i>idem</i>, 173), ou seja, os confins inferiores da humanidade em que o homem &eacute; ainda solid&aacute;rio com a natureza. Assim, para os Padres da Igreja, a loucura representa "l&#8217;incarnation de l&#8217;homme dans la b&ecirc;te, qui est, en tant que point dernier de la chute, le signe le plus manifeste de sa culpabilit&eacute; ; et, en tant qu&#8217;objet ultime de la complaisance divine, le symbole de l&#8217;universel pardon et de l&#8217;innocence retrouv&eacute;e" (<i>idem</i>, 173).</p>      <p>Esta condescend&ecirc;ncia divina encontra-se parodicamente representada nos fragmentos de <i>animalescos</i> que constantemente ecoam as profecias apocal&iacute;pticas de um tir&acirc;nico <i>Cristo dos animais.</i> Pressagiando a desumaniza&ccedil;&atilde;o do homem, procura restituir-lhe a sua ess&ecirc;ncia primitiva, ou seja, a sua animalidade perdida, ensinando-o a viver novamente de acordo com a sua natureza animal:</p>      <p>    <blockquote>&eacute; isto que o Cristo dos animais quer, humanos de quatro patas que estejam contentes, uma tribo de cem mil homens a quatro patas que se fascinem com os ponteiros dos rel&oacute;gios tal como os seus ancestrais se fascinavam com totens ou com a trovoada (Tavares, 2013a: 66).</blockquote></p>      <p>Na verdade, tal como os terapeutas da Idade Cl&aacute;ssica, tamb&eacute;m Gon&ccedil;alo M. Tavares exibe a loucura como espet&aacute;culo da degrada&ccedil;&atilde;o humana e retrocesso apocal&iacute;ptico da humanidade, expondo ao homem saud&aacute;vel a imagem inquietante e avassaladora da sua poss&iacute;vel queda na loucura e animalidade, de modo a faz&ecirc;-lo tomar consci&ecirc;ncia da fragilidade da sua condi&ccedil;&atilde;o humana.</p>      <p><b>2. Loucura, animalidade e <i>biopoder</i></b></p>      <p align="right"><i>A l&oacute;gica da m&aacute;quina &eacute; mais violenta que a l&oacute;gica dos animais.</i></p>      <p align="right"><i>(Gon&ccedil;alo M. Tavares)</i></p>      <p>Segundo Foucault, se, na Idade Cl&aacute;ssica, a animalidade constitu&iacute;a o <i>n&atilde;o-ser</i> do homem e sinalizava os limites da sua natureza humana, na &Eacute;poca Moderna (s&eacute;c. XIX e XX) &eacute; o afastamento da sua exist&ecirc;ncia natural e a perda de contacto com a <i>vida imediata</i> do animal que abre o indiv&iacute;duo aos perigos da loucura, vista ent&atilde;o como "la nature perdue, le sensible d&eacute;rout&eacute;, l&#8217;&eacute;garement du d&eacute;sir, le temps d&eacute;poss&eacute;d&eacute; de ses mesures; c&#8217;est l&#8217;imm&eacute;diatet&eacute; perdue dans l&#8217;infini des m&eacute;diations" (Foucault, 1972: 393).</p>      <p>O animal perde, assim, o seu valor de negatividade e passa a ser associado &agrave; felicidade buc&oacute;lica do mundo natural, do qual o homem cada vez mais se aliena, construindo para si um <i>meio</i>, entendido aqui como met&aacute;fora da civiliza&ccedil;&atilde;o, adverso aos movimentos da natureza: "Le milieu commence l&agrave; o&ugrave; la nature commence &agrave; mourrir en l&#8217;homme" (<i>idem</i>, 392). Por outras palavras, "la folie a &eacute;t&eacute; rendue possible par tout ce que le milieu a pu r&eacute;primer chez l&#8217;homme d&#8217;existence animale" (<i>idem</i>, 394).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A loucura moderna assume, assim, os contornos de uma rela&ccedil;&atilde;o opositiva entre natura e cultura, sendo o segundo destes termos negativamente polarizado:</p>      <p>    <blockquote>Le milieu ce n&#8217;est pas la positivit&eacute; de la nature telle qu&#8217;elle est offerte au vivant; c&#8217;est cette n&eacute;gativit&eacute; au contraire par laquelle la nature dans sa pl&eacute;nitude est retir&eacute;e au vivant ; et dans cette retraite, dans cette non-nature, quelque chose se substitue &agrave; la nature, qui est pl&eacute;nitude d&#8217;artifice, monde illusoire o&ugrave; s&#8217;annonce l&#8217;antiphysis. (<i>Idem</i>, 392)</blockquote></p>      <p>&Eacute;, pois, escapando &agrave; sua animalidade intr&iacute;nseca, pelo ref&uacute;gio na civiliza&ccedil;&atilde;o e na cultura, que o homem se exp&otilde;e &agrave; loucura, participando de uma m&aacute;quina social que o vai corrompendo at&eacute; &agrave; desumaniza&ccedil;&atilde;o. Com efeito, a cren&ccedil;a do homem moderno na t&eacute;cnica e no progresso, aliada a um irrefre&aacute;vel movimento de intelectualiza&ccedil;&atilde;o da sociedade, instituiu o mito da <i>raz&atilde;o</i> como ideal t&eacute;cnico de explica&ccedil;&atilde;o do cosmos pelo dom&iacute;nio absoluto da natureza, radicalmente dispon&iacute;vel para a explora&ccedil;&atilde;o humana. Assim, instrumentalizada pelo homem, a raz&atilde;o transforma-se num instrumento desp&oacute;tico de <i>poder</i> sobre a vida, designado por Michel Foucault de <i>biopoder.</i></p>      <p>No primeiro volume da sua <i>Histoire de la sexualit&eacute;</i>, intitulado <i>Volont&eacute; de savoir</i>, Foucault define dois polos essenciais de desenvolvimento deste <i>biopoder</i> na sociedade moderna. O primeiro constitui uma esp&eacute;cie de <i>anatomia pol&iacute;tica do corpo humano</i> que, considerado como uma m&aacute;quina, &eacute; manipulado por pr&aacute;ticas repressivas de disciplina e adestramento que concorrem para "la majoration de ses aptitudes, l&#8217;extorsion de ses forces, la croissance parall&egrave;le de son utilit&eacute; et da sa docilit&eacute;, son int&eacute;gration &agrave; des syst&egrave;mes de contr&ocirc;le efficaces et &eacute;conomiques" (Foucault, 1976: 183). A segunda forma de poder, designada de <i>biopol&iacute;tica da popula&ccedil;&atilde;o</i>, centra-se no <i>corpo-esp&eacute;cie</i>, ou seja, "le corps travers&eacute; par la m&eacute;canique du vivant et servant de support aux processus biologiques" (<i>ibidem</i>). Em s&iacute;ntese, explica Foucault que</p>      <p>    <blockquote>Les disciplines du corps et les r&eacute;gulations de la population constituent les deux p&ocirc;les autour desquels s&#8217;est d&eacute;ploy&eacute;e l&#8217;organisation du pouvoir sur la vie. La mise en place au cours de l&#8217;&acirc;ge classique de cette grande technologie &agrave; double face &#8211; anatomique et biologique, individualisante et sp&eacute;cifiante, tourn&eacute;e vers les performances du corps et regardant vers les processus de la vie &#8211; caract&eacute;rise un pouvoir dont la plus haute fonction d&eacute;sormais n&#8217;est peut-&ecirc;tre plus de tuer mais d&#8217;investir la vie de part en part. (<i>Ibidem</i>)</blockquote></p>      <p>Foucault denuncia, assim, este <i>biopoder</i> que condiciona severamente a vida, exercendo um dom&iacute;nio absoluto sobre as rela&ccedil;&otilde;es dos homens entre si e com as outras esp&eacute;cies, mobilizando para uns e outros as mesmas t&eacute;cnicas de adestramento e controlo que, no fundo, culminam numa animaliza&ccedil;&atilde;o ou bestializa&ccedil;&atilde;o do homem, consoante a sua posi&ccedil;&atilde;o na hierarquia do poder.</p>      <p>Ora, na <i>Hist&oacute;ria da loucura</i>, o fil&oacute;sofo apoiara-se j&aacute; no bin&oacute;mio loucura/animalidade para justificar estas <i>rela&ccedil;&otilde;es de poder</i><sup><a href="#2" name="top2">[2]</a></sup> que controlam o homem da mesma forma que este domina o animal. Assim, estabelecendo uma liga&ccedil;&atilde;o entre pol&iacute;tica e animalidade e explorando a polissemia da palavra <i>besta</i>, Foucault define o universo da loucura como cen&aacute;rio privilegiado de atua&ccedil;&atilde;o desse poder subjugante, exercido pela pot&ecirc;ncia racional daqueles que internam sobre os loucos internados e que se traduz no triunfo da bestialidade tir&acirc;nica dos primeiros sobre a animalidade dominada dos segundos:</p>      <p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>Le fou n&#8217;est pas la premi&egrave;re et la plus innocente victime de l&#8217;internement, mais le plus obscur et le plus visible, le plus insistant des symboles de la puissance qui interne. La sourde obstination des pouvoirs, elle est l&agrave; au milieu des intern&eacute;s dans cette criarde pr&eacute;sence de la d&eacute;raison. La lutte contre les forces &eacute;tablies, contre la famille, contre l&#8217;&Eacute;glise reprend au c&#339;ur m&ecirc;me de l&#8217;internement, dans les saturnales de la raison. Et la folie repr&eacute;sente si bien ces pouvoirs qui punissent qu&#8217;elle joue effectivement le r&ocirc;le de la punition suppl&eacute;mentaire, cette addition de supplice qui maintient l&#8217;ordre dans le ch&acirc;timent uniforme des maisons de force. (<i>Idem</i>, 419)</blockquote></p>      <p>Na verdade, o homem torna-se v&iacute;tima do pr&oacute;prio progresso e racionalidade, entrando num processo regressivo e autodestrutivo de domina&ccedil;&atilde;o e desumaniza&ccedil;&atilde;o, que se traduz na subordina&ccedil;&atilde;o do homem pelo homem que utiliza o seu poder supremo para oprimir os mais fracos, sejam eles humanos ou animais. Por outras palavras, o inimigo do homem deixou de ser a terr&iacute;vel animalidade que, desde sempre, o tem assombrado e passou a ser ele pr&oacute;prio e a sua a&ccedil;&atilde;o devastadora sobre a natureza e o meio que o rodeia:</p>      <p>    <blockquote>Ce n&#8217;&eacute;tait plus la b&ecirc;te qui &eacute;tait dangereuse, c&#8217;&eacute;tait le progr&egrave;s soi-m&ecirc;me! [&#8230;] Apr&egrave;s beaucoup d&#8217;efforts et beaucoup de recherches, nous &eacute;tions parvenus enfi &agrave; identifi l&#8217;ennemi : c&#8217;&eacute;tait nous-m&ecirc;mes! La b&ecirc;te innocent&eacute;e m&eacute;ritait nos pardons. Il fallait en urgence ouvrir les cages, fermer les abattoirs, marronner les animaux domestiques et r&eacute;v&eacute;ler leur &acirc;me. Le grand culpabilisateur venait encore de frapper, mais le combat changeait d&#8217;&acirc;me. Ce n&#8217;&eacute;tait plus la Nature qu&#8217;il fallait museler, c&#8217;&eacute;tait la Culture d&#8217;o&ugrave; venait toute le Mal. (Cyrulnik, 1998: 31)</blockquote></p>      <p>Podemos assim dizer que as refl &otilde;es de Foucault na <i>Hist&oacute;ria da loucura</i> constituem um progn&oacute;stico certeiro do devir das rela&ccedil;&otilde;es entre humanidade e animalidade no contexto da hipermodernidade, no qual aquelas cada vez mais se encontram reguladas pelo tri&acirc;ngulo homem/animal/artefacto:</p>      <p>    <blockquote>L&#8217;animalit&eacute; ne renvoie ni &agrave; une essence de l&#8217;homme, ni &agrave; une essence de l&#8217;animal, mais plut&ocirc;t &agrave; la fa&ccedil;on qu&#8217;ont l&#8217;homme et l&#8217;animal d&#8217;habiter un m&ecirc;me espace physique et g&eacute;ographique. La notion d&#8217;animalit&eacute; ne sert ni &agrave; penser l&#8217;animal ni les marges de l&#8217;humain, mais &agrave; pr&eacute;ciser les rapports de l&#8217;homme &agrave; l&#8217;animal et leur rapport &agrave; la machine. (Lestel, 1996: 22)</blockquote></p>      <p>Em <i>animalescos</i>, &eacute; precisamente em torno desta triangula&ccedil;&atilde;o que se vai delineando o rosto da loucura. Nas microfic&ccedil;&otilde;es de Gon&ccedil;alo M. Tavares, ela parece derivar da rea&ccedil;&atilde;o do homem moderno a uma esp&eacute;cie de desencantamento do mundo, impulsionando a substitui&ccedil;&atilde;o da mitologia pela tecnologia e dos animais reais pelas m&aacute;quinas:</p>      <p>    <blockquote>Novas mitologias, centauros substitu&iacute;dos por motores a funcionar sem qualquer sentido como os animais que n&atilde;o percebemos como fazem filhos (&#8230;) s&atilde;o as m&aacute;quinas que dormem no celeiro, ocuparam o lugar do feno e dos cavalos, e n&atilde;o podes fazer barulho para n&atilde;o assustar esses novos monstros, vais dar de comer &agrave; m&aacute;quina de manh&atilde; como antes davas aos animais&#8230; (<i>idem</i>, 30)</blockquote></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Numa entrevista concedida &agrave; <i>Euronews</i>, admitindo que "h&aacute; um animal em n&oacute;s" e questionado acerca da viol&ecirc;ncia desse nosso animal interior, Gon&ccedil;alo M. Tavares explica que "a l&oacute;gica da m&aacute;quina &eacute; mais violenta que a l&oacute;gica dos animais", pois "o animal pode matar se tiver medo ou fome mas a m&aacute;quina mata mesmo n&atilde;o tendo fome nem &oacute;dio" (<i>apud</i> Gon&ccedil;alves, 2011), concluindo que "a moralidade da m&aacute;quina est&aacute; a alastrar pela sociedade" (<i>ibidem</i>).</p>      <p>&Eacute;, segundo nos parece, esta moralidade que se encontra adjacente &agrave; loucura tematizada na maioria dos epis&oacute;dios de <i>animalescos</i>, onde a m&aacute;quina, subentendida como met&aacute;fora da raz&atilde;o, "vai matando e ensinando &agrave; medida que avan&ccedil;a" (Tavares, 2013a: 48). Respons&aacute;vel por uma conce&ccedil;&atilde;o utilitarista e manipuladora da natureza e da condi&ccedil;&atilde;o existencial do homem, a m&aacute;quina veio intensificar essas <i>rela&ccedil;&otilde;es de poder</i> foucaldianas que conferem ao humano a sensa&ccedil;&atilde;o de dom&iacute;nio sobre tudo e todos: a natureza, os animais e o pr&oacute;prio homem.</p>      <p>Efetivamente, a loucura que se intui em muitas das figuras animalescas de Tavares surge associada a um confronto radical entre o homem e a natureza, sobre a qual ele exerce uma opress&atilde;o destrutiva, apoiando-se na t&eacute;cnica e no metal, termo frequentemente utilizado ao longo do texto como sin&oacute;nimo de artefacto. Este violento jogo de for&ccedil;as entre o humano e o mundo natural encontra-se explicitamente evocado no fragmento intitulado "espingarda / bala / o pai / plantas / animais / obrigar a natureza a acelerar", no qual um homem j&aacute; velho entra em duelo com as for&ccedil;as da natureza, disparando violentamente contra o solo, convicto de que a velocidade furiosa a que essas "sementes met&aacute;licas" penetram na terra ir&aacute; acelerar a colheita:</p>      <p>    <blockquote>&eacute; atirar o metal para dentro da terra, faz&ecirc;-lo mais forte, mais duro, mais apto a crescer e a resistir &agrave; natureza que n&atilde;o quer que essas coisas cres&ccedil;am; porque h&aacute; duas naturezas, uma que diz: cresce, e outra que diz: n&atilde;o cres&ccedil;as; os ventos fortes, a geada, e at&eacute; os pequenos terramotos causados por movimentos errados do pai, tudo isso que a natureza pode fazer combate o crescimento que o homem quer e as balas s&atilde;o outro material que s&oacute; o homem tem; do c&eacute;u n&atilde;o chove metal e isso &eacute; uma vantagem do ser humano: fez algo que os deuses e muitos mil&eacute;nios n&atilde;o conseguiram; (&#8230;) e se do c&eacute;u n&atilde;o vem metal, da arma do pai vem, (&#8230;) deus nos salve mas &eacute; assim que aprendemos a fazer crescer os animais, as plantas, os cereais, aqui tenho uma arma para obrigar a natureza a acelerar e utilizo esta amea&ccedil;a e, se necess&aacute;rio, at&eacute; outras de que me lembrei agora (<i>idem</i>, 46)</blockquote></p>       <p>Esta viol&ecirc;ncia torna-se extensiva aos animais reais que, em <i>animalescos</i>, aparecem sobretudo como v&iacute;timas da perversidade do humano racional que os coisifica sem pudor, infligindo-lhes as mais cru&eacute;is atrocidades em nome da ci&ecirc;ncia e do progresso. Torna-se, pois, intelig&iacute;vel, na fic&ccedil;&atilde;o miniatural de <i>animalescos</i>, uma cr&iacute;tica impl&iacute;cita ao desrespeito ontol&oacute;gico do animal e ao sofrimento que lhe &eacute; imputado, nomeadamente atrav&eacute;s das experi&ecirc;ncias cient&iacute;ficas. &Eacute; o caso do texto "o dono do c&atilde;o / a electricidade / o 2&ordm; Cristo / morrer de fome", onde se descrevem v&aacute;rias experi&ecirc;ncias macabras exercidas sobre c&atilde;es:</p>      <p>    <blockquote>e claro que podemos fazer mais experi&ecirc;ncias com c&atilde;es (&#8230;): por exemplo, durante semanas a cada tentativa do c&atilde;o para sair do quadrado, uma enorme descarga [&#8230;] E a mem&oacute;ria guardou com tal for&ccedil;a a viol&ecirc;ncia do choque que o c&atilde;o n&atilde;o tem coragem para sair do quadrado. E a pervers&atilde;o continua: h&aacute; muitos dias que o c&atilde;o n&atilde;o come e agora p&otilde;em o alimento e a &aacute;gua a uns cent&iacute;metros no exterior do quadrado: isso n&atilde;o se faz, claro, isso &eacute; maldade m&aacute;, mas as experi&ecirc;ncias s&atilde;o assim e assim se construiu o progresso, tira da ci&ecirc;ncia a perversidade e a ci&ecirc;ncia volta &agrave;s carro&ccedil;as guiadas por cavalo&#8230; (<i>idem</i>, 49-50)</blockquote></p>      <p>A crueldade atinge, contudo, o seu expoente m&aacute;ximo na forma como alguns humanos, servindo-se do progresso e da tecnologia, tratam os da sua pr&oacute;pria esp&eacute;cie, reduzindo-os a seres subalternos e sujeitando-os &agrave;s mais b&aacute;rbaras sev&iacute;cias. Esta subjuga&ccedil;&atilde;o do homem pelo homem encontra-se metonimicamente figurada no submundo dos hospitais psiqui&aacute;tricos, onde os m&eacute;dicos tiranizam os seus doentes, reduzindo-os a animais amestrados com o recurso a medicamentos e castigos corporais (<i>idem</i>, 61-64) ou os abandonam impiedosamente &agrave;s portas da morte para serem devorados por lobos e urubus (<i>idem</i>, 91-93). Na realidade, neste microcosmos da loucura, torna-se reconhec&iacute;vel uma consubstancia&ccedil;&atilde;o aleg&oacute;rica das rela&ccedil;&otilde;es de poder que regulam a sociedade contempor&acirc;nea, tecnocr&aacute;tica, capitalista e industrializada, onde a explora&ccedil;&atilde;o humana atinge contornos de uma viol&ecirc;ncia que se torna ainda mais flagrante pela resigna&ccedil;&atilde;o com que &eacute; aceite.</p>      <p>Uma destas formas de explora&ccedil;&atilde;o do humano &eacute;, para Gon&ccedil;alo M. Tavares, a produ&ccedil;&atilde;o em s&eacute;rie e a manipula&ccedil;&atilde;o das massas, que reduz o trabalhador a mero automatismo ou a uma esp&eacute;cie de <i>animal machine</i> neocartesiano, escravo de uma intelig&ecirc;ncia mec&acirc;nica exclusivamente fundada na l&oacute;gica do rendimento e da efic&aacute;cia:</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>    <blockquote>e &eacute; isso: valorizar a ind&uacute;stria, a fabrica&ccedil;&atilde;o em s&eacute;rie, e n&atilde;o se trata de fazer fisionomias id&ecirc;nticas, aos milhares, n&atilde;o se trata de medir com r&eacute;guas as pernas e bra&ccedil;os e fazer destes membros uma fun&ccedil;&atilde;o que se repete, trata-se, sim, de tentar fazer um &oacute;dio em s&eacute;rie, uma excita&ccedil;&atilde;o sexual em s&eacute;rie, uma forma de sentir medo que seja igual em cem mil homens, essa a dificuldade da f&aacute;brica necess&aacute;ria, a f&aacute;brica demente&#8230; (<i>idem</i>, 112)</blockquote></p>      <p>Ora, pior do que a explora&ccedil;&atilde;o do homem pelo homem, s&oacute; mesmo o exterm&iacute;nio entre humanos, exposto em <i>animalescos</i> pela alus&atilde;o ao holocausto, o mais violento atentado do homem contra o seu semelhante, mutilado, torturado e chacinado em campos de concentra&ccedil;&atilde;o e cen&aacute;rios de guerra. Essa viol&ecirc;ncia torna-se redobradamente cruel quando exercida sobre crian&ccedil;as:</p>      <p>    <blockquote>n&atilde;o percebem que os queremos matar e as crian&ccedil;as s&atilde;o t&atilde;o parvas que se aproximam quando as amea&ccedil;amos e pensam QUE N&Atilde;O SOMOS ESTRANGEIROS E ABREM A PORTA, os dois meninos entram, levaNTAS A TAMPA DO CALDEIR&Atilde;O MAS N&Atilde;O EST&Aacute;S NUM LIVRO DE FADAS, ABRES O LIVRO QUE RELATA AS ATROCIDADES EXACTAS E BEM PLANEADAS dos fornos de A-B (Auschwitz-B 9), as duas primeiras letras do alfabeto, p&otilde;es os dois meninos, atiras os dois meninos para dentro dessas p&aacute;ginas, das p&aacute;ginas onde est&atilde;o as plantas dos fornos cremat&oacute;rios encomendados &agrave; distinta empresa Topf, mas os meninos n&atilde;o s&atilde;o como insectos que possam morrer numa armadilha entre duas p&aacute;ginas, um livro fechado com for&ccedil;a n&atilde;o fecha os dois meninos l&aacute; dentro nem os mata, n&atilde;o se trata de incinerar os vivos do s&eacute;culo XXI, n&atilde;o h&aacute; livros assim t&atilde;o poderosos&#8230; (<i>idem</i>, 84-85)</blockquote></p>      <p>Esta imagem do genoc&iacute;dio como manifesta&ccedil;&atilde;o da barb&aacute;rie animalesca e bestial do homem sobre o pr&oacute;prio homem n&atilde;o pode deixar de evocar Elizabeth Costello, protagonista de <i>A vida dos animais</i> de J. M. Coetzee, que, no decurso de uma confer&ecirc;ncia sobre o tema dos animais, n&atilde;o hesita em estabelecer uma analogia entre o modo como os humanos se relacionam com os animais e o modo como o III Reich tratou os judeus:</p>      <p>    <blockquote>"Foram como ovelhas para o matadouro." "Morreram como animais." "Foram mortos pelos carniceiros nazis." A den&uacute;ncia dos campos ecoa t&atilde;o completamente a linguagem das cercas de gado e dos matadouros que quase n&atilde;o me &eacute; necess&aacute;rio preparar o terreno para a compara&ccedil;&atilde;o que estou prestes a fazer. O crime do III Reich, diz a voz da acusa&ccedil;&atilde;o, foi tratar as pessoas como animais. [&#8230;] Ao tratarem os seus cong&eacute;neres humanos, seres criados &agrave; imagem de Deus, como animais, tornaram-se, eles mesmo, animais. (Coetzee, 2000: 27)</blockquote></p>      <p>Entende-se, finalmente, a resson&acirc;ncia simb&oacute;lica do t&iacute;tulo <i>animalescos</i> que prefigura, por um lado, a bestialidade tir&acirc;nica daqueles que se servem do poder para uma explora&ccedil;&atilde;o opressiva do vivente em geral e, por outro, a tr&aacute;gica sujei&ccedil;&atilde;o dos indiv&iacute;duos mais fracos, reduzidos a bestas de carga ou at&eacute; a gado de matadouro. Coexistindo com estes humanos animalescos degradados pela civiliza&ccedil;&atilde;o triunfante, encontramos tamb&eacute;m o animal real, que surge como reminisc&ecirc;ncia nost&aacute;lgica de uma natureza perdida, ou seja, como exemplo de plenitude vital e de convivialidade harmoniosa dos seres com o mundo que habitam.</p>      <p>Assim, ao ritmo do discurso alucinado e esquizofr&eacute;nico de <i>animalescos</i>, v&atilde;o emergindo <i>flashes</i> de uma desconcertante lucidez, atrav&eacute;s dos quais Gon&ccedil;alo M. Tavares &#8211; muitas vezes pela voz interposta desse <i>Cristo dos animais</i> &#8211; se dirige ao leitor em clave did&aacute;tica, advertindo-o para os perigos da sociedade moderna que espoliou o homem da sua ess&ecirc;ncia natural &#8211; "e eis uma li&ccedil;&atilde;o de moral: mant&eacute;m-te sobre quatro patas, se &eacute;s um animal n&atilde;o queiras ser humano" (Tavares, 2013a: 70), pois "a forma como este animal inteligente argumenta tudo, esqueceu o combate direto; dispara sobre o outro, maltrata o outro como o outro o maltratou" (<i>idem</i>, 113). O autor n&atilde;o hesita, deste modo, em alvejar &agrave; prepot&ecirc;ncia etno e egoc&ecirc;ntrica do homem racional e &agrave; sua pretensa superioridade sobre tudo e todos, nomeadamente sobre os animais, colocando-se no topo da hierarquia dos viventes:</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>    <blockquote>e esta mania da grandeza que o homem tem faz com que ele exija ver tudo o que os animais v&ecirc;em e ainda mais alguma coisa porque ele &eacute; homem e est&aacute;, na sua taxinomia privada, bem colocado: entre o solo e o c&eacute;u, acima dos animais e mesmo mesmo abaixo dos deuses e dos mist&eacute;rios ou de uma parte qualquer que existe l&aacute; em cima e nos d&aacute; ordens e por vezes faz cair chuva (<i>idem</i>, 74-75)</blockquote></p>      <p>Na verdade, esta <i>hybris</i> &eacute; inteiramente injustificada, porquanto todos lutamos pela sobreviv&ecirc;ncia, todos combatemos por uma "quest&atilde;o animalesca do territ&oacute;rio" (<i>idem</i>, 41), todos vivemos em queda constante e "todos caem &agrave; mesma velocidade" (<i>idem</i>, 11). Na sequ&ecirc;ncia dessa queda, o homem afunda-se na loucura e adentra-se no territ&oacute;rio da maldade, sempre mais r&aacute;pida e devastadora do que a bondade:</p>      <p>    <blockquote>A bondade desce do c&eacute;u, como se entre o solo sujo e a limpeza das alturas existissem umas belas escadas; enquanto a maldade cai do c&eacute;u, como a bomba e a pedra, e o diabo tamb&eacute;m em poucos segundos est&aacute; c&aacute; em baixo. E tal diferen&ccedil;a de velocidade talvez explique algo: o mal em queda chega num segundo, o bom deus desce como quem flutua, sem pressas. Quando chega c&aacute; abaixo: o caos, a desordem e a viol&ecirc;ncia instalados. (<i>Idem</i>, 59)</blockquote></p>      <p>&Eacute; este retorno do homem a um estado prim&aacute;rio, em nome da maldade e da ins&acirc;nia, que Gon&ccedil;alo M. Tavares reconstitui ao longo de <i>animalescos</i>, amparado pelo pensamento filos&oacute;fico de Michel Foucault, numa impiedosa investiga&ccedil;&atilde;o da loucura como inescap&aacute;vel condi&ccedil;&atilde;o humana. Firmando um compromisso &eacute;tico com o mundo, o escritor assume a fun&ccedil;&atilde;o de <i>desencantar</i>, servindo-se da fic&ccedil;&atilde;o como "uma esp&eacute;cie de agulha que incomoda constantemente, uma esp&eacute;cie de chamada de aten&ccedil;&atilde;o" (<i>apud</i> Cantinho, 2004) para a reifica&ccedil;&atilde;o do homem contempor&acirc;neo que se descobre, entre ru&iacute;nas desabitadas, no mundo desumanizado que ele pr&oacute;prio criou.</p>      <p>Em <i>animalescos</i>, Gon&ccedil;alo M. Tavares procura denunciar uma certa condi&ccedil;&atilde;o desumana &agrave; qual se encontra subordinado o homem contempor&acirc;neo, manietado por uma racionalidade instrumental e mecanicista que o despojou da sua humanidade, transformando-o num ser social burocratizado. Os fragmentos constituem, pois, retratos l&uacute;cidos e impiedosos da degrada&ccedil;&atilde;o a que pode chegar o humano quando abdica dos seus instintos animais mais b&aacute;sicos, celebrando o seu destino tragicamente solit&aacute;rio de ser civilizado.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <p>Cantinho, Maria Jo&atilde;o (2004), "Gon&ccedil;alo M. Tavares" [entrevista], <i>Storm-magazine</i>, edi&ccedil;&atilde;o 15, janeiro/fevereiro 2004, dispon&iacute;vel em <a href="http://www.storm-magazine.com/novodb/index.htm" target="_blank">http://www.storm-magazine.com/novodb/index.htm</a>, consultado em 06/01/14.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Chebili, Sa&iuml;d (1999), <i>Figures de l&#8217;animalit&eacute; dans l&#8217;&#339;uvre de Michel Foucault</i>, Paris, L&#8217;Harmattan.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000103&pid=S0807-8967201400020001500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Coetzee, J. M. (2000), <i>A vida dos animais</i>, Lisboa, Temas e Debates.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000105&pid=S0807-8967201400020001500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Cyrulnik, Boris (1998), "Les animaux humanis&eacute;s", in <i>Si les lions pouvaient parler. Essais sur la condition animale</i>, Paris, &Eacute;ditions Gallimard, pp. 13-55.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000107&pid=S0807-8967201400020001500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Deleuze, Gilles (2002), <i>Francis Bacon : Logique de la sensation</i>, Paris, &Eacute;ditions du Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000109&pid=S0807-8967201400020001500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>--- (2008), <i>A ilha deserta e outros textos: textos e entrevistas (1953-1974)</i>, S&atilde;o Paulo, Editora Iluminuras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000111&pid=S0807-8967201400020001500006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Foucault, Michel (1972), <i>Histoire de la folie &agrave; l&#8217;&acirc;ge classique</i>, &Eacute;ditions Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000113&pid=S0807-8967201400020001500007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>--- (1976), <i>Histoire de la sexualit&eacute; : La volont&eacute; de savoir</i>, vol. I, Paris, Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000115&pid=S0807-8967201400020001500008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>Gon&ccedil;alves, Elza (2011), "A moralidade da m&aacute;quina est&aacute; a alastrar pela sociedade" [entrevista], <i>Euronews</i>, 31/05/2011, dispon&iacute;vel em <a href="http://pt.euronews.com/2011/05/31/goncalo-m-tavares-a-moralidade-da-maquina-esta-a-alastrar-pela-sociedade" target="_blank">http://pt.euronews.com/2011/05/31/goncalo-m-tavares-a-moralidade-da-maquina-esta-a-alastrar-pela-sociedade</a>, consultado em 13/01/14.</p>      <!-- ref --><p>Helder, Herberto (2006), <i>Photomaton &amp; Vox</i>, Lisboa, Ass&iacute;rio e Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000118&pid=S0807-8967201400020001500010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Lestel, Dominique (1996), <i>L&#8217;animalit&eacute; : Essai sur le statut de l&#8217;humain</i>, Paris, Hatier.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000120&pid=S0807-8967201400020001500011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       <!-- ref --><p>Tavares, Gon&ccedil;alo M. (2013a), <i>animalescos</i>, Lisboa, Rel&oacute;gio d&#8217;&Aacute;gua.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000122&pid=S0807-8967201400020001500012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>--- (2013b), "Entrevista", <i>Peda&ccedil;o de Vila</i>, edi&ccedil;&atilde;o 131, setembro 2013, dispon&iacute;vel em <a href="http://www.pedacodavila.com.br/materia/?matID=1627" target="_blank">http://www.pedacodavila.com.br/materia/?matID=1627</a>, consultado em 13/01/14.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000124&pid=S0807-8967201400020001500013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>[Submetido em 15 de abril de 2014 e aceite para publica&ccedil;&atilde;o em 2 de setembro de 2014]</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p><sup><a href="#top1" name="1">[1]</a></sup>Entrevista concedida a Jeannette Colombel e publicada na revista La Quinzaine Litt&eacute;raire (n&ordm; 68, mar&ccedil;o de 1969, pp. 18-19), sob o t&iacute;tulo "Gilles Deleuze parle de la philosophie". O texto foi republicado numa compila&ccedil;&atilde;o de textos e entrevistas de Deleuze, intitulada L&#8217;&icirc;le d&eacute;serte et d&#8217;autres textes: textes et entretiens 1953-1974 (Les &eacute;ditions de Minuit, 2002), numa edi&ccedil;&atilde;o preparada por David Lapoujade. No nosso texto, citamos a tradu&ccedil;&atilde;o brasileira desta obra, organizada por Luiz B. L. Orlandi e publicada pela Editora Iluminuras.      <p><sup><a href="#top2" name="2">[2]</a></sup>Numa entrevista datada de 1977, tra&ccedil;ando uma retrospectiva do seu percurso filos&oacute;fico desde Histoire de la folie at&eacute; Histoire de la sexualit&eacute;, Foucault acentua que o denominador comum a todas as suas obras &eacute; a quest&atilde;o do poder que ele define nos seguintes termos: "Les relations de pouvoir, ce sont celles que les appareils d&#8217;&eacute;tat exercent sur les individus, mais c&#8217;est celle &eacute;galement que le p&egrave;re de famille exerce sur ses enfants, le pouvoir que le patron exerce dans son usine" (apud Chebili, 1999, p. 141).       ]]></body><back>
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