<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0807-8967</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Revista Diacrítica]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Diacrítica]]></abbrev-journal-title>
<issn>0807-8967</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0807-89672014000200022</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Comentário ao texto "nações, gerações e justiça climática", de Axel Gosseries]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Colen]]></surname>
<given-names><![CDATA[José]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2014</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2014</year>
</pub-date>
<volume>28</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>333</fpage>
<lpage>341</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0807-89672014000200022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0807-89672014000200022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0807-89672014000200022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>DISCUSS&Atilde;O - "NA&Ccedil;&Otilde;ES, GERA&Ccedil;&Otilde;ES E JUSTI&Ccedil;A CLIM&Aacute;TICA", DE AXEL GOSSERIES: COMENT&Aacute;RIOS E RESPOSTA AOS CR&Iacute;TICOS</b></p>      <p><b>Coment&aacute;rio ao texto "na&ccedil;&otilde;es, gera&ccedil;&otilde;es e justi&ccedil;a clim&aacute;tica", de Axel Gosseries</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Jos&eacute; Colen*</b></p>      <p>*Universidade do Minho, CEHUM, Portugal.</p>      <p><a href="mailto:jose.colen.pt@gmail.com">jose.colen.pt@gmail.com</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>1. A actualidade da quest&atilde;o e o apelo aos direitos e deveres de uma justi&ccedil;a cega</b></p>      <p>O texto suscita-nos quest&otilde;es perturbadas e perturbadoras porque nos for&ccedil;a a olhar para al&eacute;m do horizonte estreito, no espa&ccedil;o e no tempo, dos deveres e dos direitos morais e pol&iacute;ticos em que nos movemos habitualmente. &Eacute; que, embora a quest&atilde;o dos deveres para com as gera&ccedil;&otilde;es futuras encha menos os escaparates das livrarias ou as parangonas dos jornais do que a crise econ&oacute;mica que atravessamos, as oportunidades e os perigos da globaliza&ccedil;&atilde;o (ou as cat&aacute;strofes clim&aacute;ticas que nos amea&ccedil;am no futuro, para o qual o texto busca uma fundamenta&ccedil;&atilde;o moral), a quest&atilde;o est&aacute; intimamente relacionado com todos eles e possui portanto uma evidente actualidade e &eacute; dif&iacute;cil n&atilde;o sentir a sua natureza perturbada sen&atilde;o angustiada.</p>      <p>O apelo &agrave; nossa intui&ccedil;&atilde;o moral leva-nos imediatamente a uma resposta, ou melhor a um conjunto de respostas: devemos &agrave;s gera&ccedil;&otilde;es vindouras um mundo sem guerra, uma ordem internacional equilibrada e n&atilde;o dependente de nenhuma superpot&ecirc;ncia, um planeta mais verde e limpo, recursos suficientes para uma vida decente, um Estado (ou v&aacute;rios Estados) que providenciem algo mais que uma rede de seguran&ccedil;a para os mais desfavorecidos, as condi&ccedil;&otilde;es para o exerc&iacute;cio do direito efectivo ao direito trabalho. Em suma, um futuro pelo menos t&atilde;o pac&iacute;fico ou rico e mares ou rios e ares t&atilde;o limpos como aqueles que respir&aacute;mos e em que nos banh&aacute;mos como aqueles que herd&aacute;mos. Ou seja, tudo aquilo que sucessivas gera&ccedil;&otilde;es de declara&ccedil;&otilde;es de direitos humanos bem-intencionadas nos asseguravam antes que nos caberiam como heran&ccedil;a a n&oacute;s e &agrave;s gera&ccedil;&otilde;es futuras &#8211; e que agora parece estar em causa.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A quest&atilde;o proposta est&aacute; desta vez formulada em termos de deveres ou de justi&ccedil;a <i>e n&atilde;o de governo</i> e &eacute; por isso tamb&eacute;m perturbadora, pois nunca aquelas declara&ccedil;&otilde;es identificaram claramente o sujeito desses deveres. Mas o ensaio t&atilde;o-pouco &eacute; perfeitamente claro &#8211; somos n&oacute;s, individual e colectivamente o sujeito dos deveres e das pol&iacute;ticas, ou principalmente os velhos Estados-Na&ccedil;&atilde;o, talvez em concerto, ou uma sempre vaga ordem internacional justa?</p>      <p>Parece-nos que o problema, como conjunto de <i>obriga&ccedil;&otilde;es</i>, morais e pol&iacute;ticas &#8211; uma vez que nenhum indiv&iacute;duo por si s&oacute; parece capaz de as assegurar &#8211; e n&atilde;o apenas como <i>pol&iacute;ticas</i> seria especialmente interessante, porque nos for&ccedil;aria a reflectir sobre o fundamento desses deveres para al&eacute;m da busca de um padr&atilde;o justo para avaliar as pol&iacute;ticas. Porque estamos quase desprovidos de recursos para lhe responder, uma vez que, ao menos implicitamente, as respostas do passado a estas mesmas quest&otilde;es remetiam para algo mais antigo, ou mais elevado que n&oacute;s mesmos, algo pelo qual os indiv&iacute;duos deveriam sacrificar-se, com a sua pr&oacute;pria vida e at&eacute;, se necess&aacute;rio fosse, com suor e sangue. Mas hoje, n&atilde;o s&oacute; j&aacute; ningu&eacute;m parece acreditar que o homem seja um &oacute;rg&atilde;o do corpo social, ideia que entretiveram ou consolaram pensadores do passado t&atilde;o diferentes como Arist&oacute;teles ou Augusto Comte, como estamos conscientes dos perigos e abusos a que tais ideias conduziram em tempos menos remotos, em nome de amanh&atilde;s radiosos, j&aacute; ao virar da esquina, capazes de justificar as maiores opress&otilde;es. Todavia, mesmo numa vers&atilde;o mais benigna, como a de Burke<sup><a href="#1" name="top1">[1]</a></sup> em que uma sociedade se apresenta como alicer&ccedil;ada no contributo dos antepassados e preparando no presente um legado para as pr&oacute;ximas gera&ccedil;&otilde;es"<sup><a href="#2" name="top2">[2]</a></sup>, a ideia desafia a nossa credulidade. E aqueles que ousam defend&ecirc;-la n&atilde;o fazem mais que revelar pertencer a um mundo desaparecido.</p>      <p>&Eacute; certo que, na sequ&ecirc;ncia de Rawls, diversos autores tentaram reabilitar o apelo &agrave; nossa intui&ccedil;&atilde;o moral e a um sentimento &iacute;ntimo de justi&ccedil;a, convencendo-nos a vestir a pele dos outros e colocando-nos numa posi&ccedil;&atilde;o inicial com a venda de uma justi&ccedil;a cega ou, se preferimos, de um "v&eacute;u de ignor&acirc;ncia", recorrendo &agrave; parafern&aacute;lia de uma nova ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica formalizada e at&eacute; suscept&iacute;vel de representa&ccedil;&otilde;es matematiz&aacute;veis, com o prest&iacute;gio e o rigor que se encontravam antes apenas nas novas ci&ecirc;ncias naturais ou econ&oacute;micas. E edif&iacute;cios imponentes como as catedrais do passado foram sucessivamente erguidos com a designa&ccedil;&atilde;o gen&eacute;rica de "teorias da justi&ccedil;a", primeiro limitadas ao velho Estado-Na&ccedil;&atilde;o e depois alargadas ao mundo global da Justi&ccedil;a das Gentes ou da justi&ccedil;a inter-geracional.</p>      <p>Esta intui&ccedil;&atilde;o central parece, &agrave; primeira vista, capaz de iluminar n&atilde;o s&oacute; grandes panoramas na hist&oacute;ria humana, mas tamb&eacute;m a justi&ccedil;a entre as na&ccedil;&otilde;es e todos os grupos humanos. N&atilde;o por acaso, o ensaio de Gosseries, na sua busca dos fundamentos morais para as decis&otilde;es pol&iacute;ticas na quest&atilde;o ambiental colocou a &ecirc;nfase no problema da justi&ccedil;a inter-geracional<sup><a href="#3" name="top3">[3]</a></sup>. Com efeito s&oacute; nesse horizonte mais amplo, no tempo e no espa&ccedil;o, muitas daquelas quest&otilde;es podem ter resposta. E o mesmo autor fez encabe&ccedil;ar o seu trabalho com uma ep&iacute;grafe de Rawls<sup><a href="#4" name="top4">[4]</a></sup>. Assim tentou chamar a aten&ccedil;&atilde;o para a componente hist&oacute;rica e inter-geracional dos problemas e das pol&iacute;ticas globais relativas n&atilde;o s&oacute; ao clima, mas ao trabalho, &agrave; educa&ccedil;&atilde;o, &agrave; polui&ccedil;&atilde;o, aos seguros sociais e &agrave; poupan&ccedil;a.</p>      <p><b>2. O paralelo entre o tempo e o espa&ccedil;o e os limites e d&uacute;vidas desta via de interroga&ccedil;&atilde;o</b></p>      <p>Esta vis&atilde;o permite-lhe formular duas quest&otilde;es, a da reposi&ccedil;&atilde;o ou da correc&ccedil;&atilde;o das injusti&ccedil;as passadas. A primeira parece-nos, todavia, insuficientemente clara &#8211; a correc&ccedil;&atilde;o das injusti&ccedil;as passadas &eacute; uma quest&atilde;o de prolongamentos indefinidos pois &eacute; dif&iacute;cil vislumbrar a &uacute;ltima inst&acirc;ncia ou o momento privilegiado da hist&oacute;ria a partir do qual devemos recome&ccedil;ar. Em compensa&ccedil;&atilde;o, &eacute; muito rica e potencialmente fecunda a quest&atilde;o dos direitos e deveres para com as gera&ccedil;&otilde;es futuras, com recurso ao paralelo entre o tempo e o espa&ccedil;o. O paralelismo, muito sugestivo, entre as na&ccedil;&otilde;es e as gera&ccedil;&otilde;es, &eacute; todavia de alcance limitado, mesmo assemelhando as gera&ccedil;&otilde;es encravadas no tempo com as popula&ccedil;&otilde;es limitadas por uma fronteira, pois como o ensaio reconhece as gera&ccedil;&otilde;es n&atilde;o podem atravessar fronteiras como as popula&ccedil;&otilde;es e o decurso (ou a seta) da hist&oacute;ria &eacute; unidireccional, ou seja, &eacute; um rio que s&oacute; corre para a foz, pois o tempo s&oacute; se move numa direc&ccedil;&atilde;o que &eacute; a do futuro. E, no fundo, insuficiente, pois a interroga&ccedil;&atilde;o de base permanece e mesmo a nossa intui&ccedil;&atilde;o moral parece orientar-se em sentidos opostos: &agrave; primeira vista, ao menos, parece justo deixar &agrave;s gera&ccedil;&otilde;es futuras um clima e um ambiente mais puros e limpos, mesmo se, como lembrava Keynes, no longo prazo estejamos todos mortos (e algumas mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas, porventura as mais dram&aacute;ticas n&atilde;o se dar&atilde;o nas nossas vidas, pelo que o dito se aplica literalmente). Pelo contr&aacute;rio, no que toca &agrave; poupan&ccedil;a parece-nos injusto sacrificar a gera&ccedil;&atilde;o mais idosa, que j&aacute; nada pode fazer, &agrave;s gera&ccedil;&otilde;es mais novas que ainda est&atilde;o a tempo de alterar e melhorar o seu futuro.</p>      <p>E dificilmente podemos considerar <i>uma negocia&ccedil;&atilde;o</i> entre gera&ccedil;&otilde;es, que ali&aacute;s n&atilde;o est&atilde;o atravessadas por nenhuma fronteira, mas coexistem no mesmo tempo, como <i>o fundamento de um dever moral</i>, excepto talvez no sentido restrito de um contrato regulado por uma justi&ccedil;a comutativa. Mas, como o autor parece defender, embora de modo pouco expl&iacute;cito, a justi&ccedil;a comutativa est&aacute; ultimamente dependente de uma distribui&ccedil;&atilde;o inicial dos direitos, sem a qual &eacute; at&eacute; dif&iacute;cil pensar sobre o que &eacute; justo.</p>      <p>Se parece veros&iacute;mil a sua cr&iacute;tica de Rawls, que sempre se recusou a aplicar o princ&iacute;pio da diferen&ccedil;a &agrave; justi&ccedil;a global e inter-geracionais, do mesmo modo que excluiu do modelo os casos extremos de doen&ccedil;a e mis&eacute;ria capazes de esgotar todos os recursos, a quest&atilde;o merece mais aprofundamento. Pois &eacute;, de facto, esta possibilidade extrema que det&eacute;m n&atilde;o s&oacute; Rawls mas muitas na&ccedil;&otilde;es desenvolvidas, de uma ajuda internacional mais forte. A incapacidade de um pa&iacute;s desenvolvido, digamos, um dos pa&iacute;ses n&oacute;rdicos, de resolver a quest&atilde;o da polui&ccedil;&atilde;o na China, ou a pobreza em &Aacute;frica &eacute; real, mesmo ignorando as perdas que resultam de transferir riqueza com um recipiente que est&aacute; cheio de fugas. Esta &eacute; a nossa primeira objec&ccedil;&atilde;o de fundo: <i>como evitar que os casos extremos, dentro e fora do estado nacional, esgotem todos os recursos</i>? Talvez a mudan&ccedil;a de posi&ccedil;&atilde;o de Rawls na aplica&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio da diferen&ccedil;a seja mais aparente que real.</p>      <p>Al&eacute;m disso, no ensaio, a defini&ccedil;&atilde;o mais rica de "na&ccedil;&atilde;o" e de legado inter-geracional prometidos fica rapidamente no obl&iacute;vio, ignorando-se o patrim&oacute;nio a legar que &eacute; composto por muitas riquezas que n&atilde;o se esgotam com o seu uso. N&atilde;o temos que "poupar" igualmente ou do mesmo modo florestas e rios, conceitos pol&iacute;ticos, composi&ccedil;&otilde;es musicais e obras de arte, l&iacute;nguas e educa&ccedil;&atilde;o &#8211; e de modo geral todos os bens p&uacute;blicos que n&atilde;o se consomem com o uso, mas pelo contr&aacute;rio se enriquecem com a acumula&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se trata meramente de relembrar que existem bens que s&atilde;o dificilmente avali&aacute;veis ou irremediavelmente subjectivos. Nada nos impede de construir indicadores sobre a qualidade do Estado de Direito ou da literacia, que os tornem operativos, mesmo &agrave; custa de um certo empobrecimento do discurso.</p>      <p>A objec&ccedil;&atilde;o fundamental que desejamos levantar &eacute; que nos parece que uma teoria da justi&ccedil;a intergeracional deve considerar que embora a conserva&ccedil;&atilde;o exija recursos, estes <i>n&atilde;o s&atilde;o da mesma natureza e dimens&atilde;o que os requeridos pela sua cria&ccedil;&atilde;o</i>. A cultura musical dos alem&atilde;es, ou individualmente uma composi&ccedil;&atilde;o de Mozart, e.g., implicam um investimento secular e em vidas, mas tamb&eacute;m em bens materiais e lazer, que n&atilde;o &eacute; da mesma natureza nem volume que o investimento que exige hoje a sua difus&atilde;o &#8211; no limite a reprodu&ccedil;&atilde;o de um DVD. A mesma dificuldade se levanta em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; educa&ccedil;&atilde;o, mesmo no sentido mais restrito da instru&ccedil;&atilde;o escolar. Ou, num tom mais cl&aacute;ssico podemos lembrar a met&aacute;fora da flauta que n&atilde;o deixou de ser usada de Plat&atilde;o a Amartya Sen. A flauta tem um componente material em madeira, exaur&iacute;vel, e uma ideia de flauta, que pode ser reproduzida <i>ad infi itum</i>. Uma teoria da justi&ccedil;a que ignore um dos componentes &eacute; necessariamente incompleta.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O que desejamos sugerir &eacute; que talvez o "estado estacion&aacute;rio" seja uma experi&ecirc;ncia mental t&atilde;o pouco adequada como a de um progresso indefinido. Estes bens "imaterais", tal como os bens cujo consumo p&uacute;blicos ou n&atilde;o-rivais podem e devem, em nossa opini&atilde;o ser tratados numa contabilidade intergeracional, seguindo a mesma linha das propostas que, desde Samuelson e.g., tentaram corrigir a contabilidade nacional com recurso a melhores indicadores como o Bem Estar L&iacute;quido ou outros semelhantes. Talvez seja impratic&aacute;vel manter de forma constante e consistente numa estat&iacute;stica tais indicadores, mas n&atilde;o deve ser imposs&iacute;vel us&aacute;-los para nos ajudar a pensar os problemas.</p>      <p>Uma objec&ccedil;&atilde;o mais forte &eacute; o g&eacute;nero de autoridade necess&aacute;rio para "proibir tanto a poupan&ccedil;a como a despoupan&ccedil;a". Para proibir a poupan&ccedil;a no (m&iacute;tico) "estado estacion&aacute;rio", talvez seja necess&aacute;ria uma autoridade absoluta, que n&atilde;o parece desej&aacute;vel, e um crit&eacute;rio infal&iacute;vel que estamos longe de possuir. A ideia subjacente &eacute; que um crit&eacute;rio de justi&ccedil;a que exija um padr&atilde;o de resultados finais (a igualdade estrita entre gera&ccedil;&otilde;es), exige necessariamente um g&eacute;nero de institui&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o queremos ter.</p>      <p>N&atilde;o julgamos que seja o caso de qualquer tipo de exig&ecirc;ncia de justi&ccedil;a. N&atilde;o se aplicaria a uma teoria da justi&ccedil;a que aceite diferen&ccedil;as de "riqueza" inter-geracional, o que parece inevit&aacute;vel, em certa medida, se nos recordarmos de que o passado n&atilde;o pode ser alterado. N&atilde;o se trata t&atilde;o pouco de baixar as exig&ecirc;ncias da justi&ccedil;a como refer&ecirc;ncia, pois a varia&ccedil;&atilde;o da riqueza inter-geracional, de facto,est&aacute; mais em conson&acirc;ncia com o apelo &agrave; nossa intui&ccedil;&atilde;o moral: n&atilde;o somos, hoje, indiferentes ao destino e riqueza das pr&oacute;ximas gera&ccedil;&otilde;es. O cerne do problema &eacute; o desenho das institui&ccedil;&otilde;es capazes de as assegurar.</p>      <p>Estas duas cr&iacute;ticas possuem entre si uma certa liga&ccedil;&atilde;o. Lembremos que Arist&oacute;teles, que defendia que a cidade n&atilde;o devia ser um mero mercado protegido pela autoridade, julgava que a felicidade era imposs&iacute;vel sem um m&iacute;nimo de bens, das tr&ecirc;s esp&eacute;cies: bens externos, bens do corpo entre os quais o prazer, e bens da <i>psich</i>&ecirc;, os mais importantes. O que se lhe afigurava dif&iacute;cil era ajuizar sobre a correcta propor&ccedil;&atilde;o ou a justa medida em que cada um destes tr&ecirc;s bens devia estar presente. Tal ju&iacute;zo exigiria contudo uma grande intrus&atilde;o das autoridades na vida dos cidad&atilde;os, que n&atilde;o fazia Arist&oacute;teles hesitar, mas que nos tolhe hoje. Talvez a proibi&ccedil;&atilde;o da poupan&ccedil;a e a obriga&ccedil;&atilde;o de grandes sacrif&iacute;cios por gera&ccedil;&otilde;es que ainda n&atilde;o nasceram esteja para al&eacute;m do que &eacute; politicamente fact&iacute;vel ou mesmo desej&aacute;vel e para al&eacute;m do que um homem prudente pode ajuizar, para j&aacute; n&atilde;o falar de absolutos.</p>      <p><b>4. O que devemos fazere que podemos fazer</b></p>      <p>Enfim, um princ&iacute;pio de &eacute;tica pol&iacute;tica que, como Raymond Aron, devemos subscrever &eacute; o de que s&oacute; temos o dever de fazer o que podemos fazer. Assim tamb&eacute;m o que devemos &agrave;s gera&ccedil;&otilde;es vindouras est&aacute;, provavelmente, aqu&eacute;m da lista de desejos que trocamos nas &eacute;pocas festivas, incluindo a paz no mundo, a coexist&ecirc;ncia pac&iacute;fica de todas as culturas, a mudan&ccedil;a democr&aacute;tica da China, um mundo mais ecol&oacute;gico, igualit&aacute;rio e justo. Por isso talvez se deva dar mais aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s propostas que devem ser escritas em letra min&uacute;scula, e que n&atilde;o se baseiam em nenhum dos "ismos" e que aborrecem todas as palavras que sentimos a tenta&ccedil;&atilde;o de escrever com letras capitulares, para usar a express&atilde;o de Simone Veil.</p>      <p>A maior parte de n&oacute;s n&atilde;o pode fazer muito em nenhum destes dom&iacute;nios, excepto talvez compreender melhor o nosso mundo como um "espectador comprometido", despoluir o mundo come&ccedil;ando por varrer o que est&aacute; &agrave; nossa porta e militar em movimentos que defendam as causas que consideramos justas, embora existam certamente momentos em que o dever para com as gera&ccedil;&otilde;es vindouras exija um hero&iacute;smo, por palavras ou com actos, para o qual, nada infelizmente nos prepara, pois costumam aparecer de surpresa no meio das trag&eacute;dias pequenas e grandes da hist&oacute;ria. Os cidad&atilde;os vulgares, entre os quais se contam a maioria dos fil&oacute;sofos pol&iacute;ticos partilham um sentimento de impot&ecirc;ncia que os leva a esperar tudo do Estado, como se este n&atilde;o fosse humano, por vezes mesmo demasiado humano, como de uma alavanca a precisar somente de um ponto de apoio para elevar o mundo. Ou, pelo contr&aacute;rio, leva-os a lamentar a falta de lideran&ccedil;a, ou a sua baixa qualidade, que j&aacute; existiu outrora, no p&oacute;s-guerra, ou na gera&ccedil;&atilde;o anterior de l&iacute;deres europeus com vis&atilde;o, ou numa idade de ouro qualquer, sempre fugidia.</p>      <p>Um fil&oacute;sofo pol&iacute;tico tem, &eacute; certo, como tarefa, dizer o que devemos fazer ou falar sobre a melhor solu&ccedil;&atilde;o ou o "melhor regime" e depois trabalhar sobre um caminho realista para atingir esse objectivo. Tal n&atilde;o implica renunciar a identificar princ&iacute;pios e come&ccedil;ar com o que as pessoas est&atilde;o prontas a fazer, mas o que &eacute; ideal, mesmo o que &eacute; ut&oacute;pico ou est&aacute; de acordo com as nossas preces &eacute; quase sempre formulado num contexto politico, seja uma rep&uacute;blica feita com palavras ou uma ilha sem lugar. Ou seja, implica um certo arranjo institucional e uma distribui&ccedil;&atilde;o inicial de direitos. Provavelmente n&atilde;o h&aacute; melhor solu&ccedil;&atilde;o em termos absolutos, para todos os tempos e lugares.</p>      <p>Talvez se possa compreender melhor esta afirma&ccedil;&atilde;o se dissermos que todas as regras formuladas sem "<i>ses</i>", nem "<i>mas</i>" s&atilde;o necessariamente parciais ou falsas, pois n&atilde;o temos capacidade de apreender todas as situa&ccedil;&otilde;es em simult&acirc;neo. O melhor que podemos propor quanto &agrave; quest&atilde;o da justi&ccedil;a inter-geracional talvez seja o que um homem prudente decidiria pesando os diferentes bens nas circunst&acirc;ncias em que se encontra. E a miss&atilde;o do fil&oacute;sofo pol&iacute;tico seria menos apresentar um modelo acabado do regime ideal, sem imperfei&ccedil;&otilde;es e em estado estacion&aacute;rio, que propor claramente esses diversos bens, incluindo os bens futuros, reconhecendo que est&atilde;o por vezes em conflito e que a escolha &eacute; necessariamente socialmente divisiva ou pol&iacute;tica e nem sempre consensual.</p>      <p><b>5. O estado estacion&aacute;rio e os homens do presente</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A quest&atilde;o tem uma patente actualidade no momento em que se discute o equil&iacute;brio entre os direitos das gera&ccedil;&otilde;es inactivas ou em vias de reformar e o futuro das novas gera&ccedil;&otilde;es, ou os perigos clim&aacute;ticos que parecem pesar sobre o planeta. Defendemos que h&aacute; boas raz&otilde;es para sua teimosa persist&ecirc;ncia entre as quest&otilde;es genuinamente filos&oacute;ficas, nem emp&iacute;ricas, nem <i>a priori</i>, para usar as palavras que Isaiah Berlin gostava de repetir. Apesar de parecermos desprovidos de recursos intelectuais e morais para lhes responder devido ao individualismo das nossas sociedades liberais, n&atilde;o somos por isso for&ccedil;ados a recuar a solu&ccedil;&otilde;es antigas como as diversas formas de organicismo ou de nacionalismo. Mas &eacute; poss&iacute;vel igualmente argumentar que as solu&ccedil;&otilde;es formais que fazem apelo &agrave; nossa intui&ccedil;&atilde;o moral mas assentam numa negocia&ccedil;&atilde;o desenhada sobre a matriz de um mercado s&atilde;o, no fundo, insuficientes e por vezes mesmo contradit&oacute;rias, ainda quando parecem muito veros&iacute;meis.</p>      <p>A via que desejamos propor &agrave; guisa de conclus&atilde;o &eacute; outra, ainda que a sua explora&ccedil;&atilde;o exija muito mais que um ensaio. Uma tradi&ccedil;&atilde;o de reflex&atilde;o filos&oacute;fica sobre a natureza do tempo, desde Her&aacute;clito ou Agostinho a Heidegger, acentua a sua dimens&atilde;o fugidia e as dificuldades de conceptualiza&ccedil;&atilde;o. Um quadro kantiano e liberal, todavia, pode ser suficiente para sabermos ao menos como obter a resposta que a quest&atilde;o pede, ou que m&eacute;todo nos permitiria desvend&aacute;-la.</p>      <p>&Eacute; que os homens presentes <i>s&atilde;o os &uacute;nicos sujeitos poss&iacute;veis de direitos e deveres</i>[5]. A proposta de defender que as gera&ccedil;&otilde;es futuras podem ter direitos futuros e que tal &eacute; suficiente para justificar deveres presentes, tem certa plausibilidade, mas n&atilde;o atribui suficiente import&acirc;ncia &agrave;s diferen&ccedil;as no tempo. Ou seja, a inexist&ecirc;ncia de aut&ecirc;nticos deveres para com as gera&ccedil;&otilde;es passadas, excepto talvez o da gratid&atilde;o emocionalmente sentida, e a indesejabilidade de sacrificar os homens reais a amanh&atilde;s que cantam.</p>      <p>Tal n&atilde;o exclui que os homens, hoje e agora, se interessem e estejam dispostos a grandes sacrif&iacute;cios pelo que recordam e pelo que desejam preservar, interesse que n&atilde;o termina sequer com a sua pr&oacute;pria morte, sem necessidade de recorrer a valores impessoais hipostasiados num mundo ideal qualquer. Onde est&aacute; a can&ccedil;&atilde;o antes de ser cantada? O problema poderia ser apenas um ponto metodol&oacute;gico sobre a maneira de filosofar, que &eacute; finalmente, na nossa opini&atilde;o, secund&aacute;rio ou penas preliminar e n&atilde;o susbtantivo, ou uma quest&atilde;o metaf&iacute;sica, a da realidade ontol&oacute;gica do "eu" dos homens no futuro. Mas a dificuldade em generalizar as nossas intui&ccedil;&otilde;es fundamentais sobre o que devemos uns aos outros tem, neste caso, consequ&ecirc;ncias pr&aacute;ticas imediatas. Pode implicar, por exemplo, que nem todas as gera&ccedil;&otilde;es, j&aacute; existentes e do futuro estejam em situa&ccedil;&otilde;es exactamente iguais, pois o modo como os homens do presente encaram essas diferentes gera&ccedil;&otilde;es &eacute; diverso: a dos seus filhos ou netos e a dos longinquos habitantes de Burma em 2100.</p>      <p>Enfim, o sonho de um estado estacion&aacute;rio parece-nos enganador. Porque a democracia a que devemos aspirar n&atilde;o tem necessariamente que ser uma forma de cortar as &aacute;rvores mais altas e limitar aquilo que desejamos, com institui&ccedil;&otilde;es baixas mas s&oacute;lidas mas um melhor regime &#8211; que n&atilde;o deve de modo algum confundir-se com a <i>politeia</i> de Arist&oacute;teles, mesmo que nesta n&atilde;o existissem escravos naturais ou convencionais. A nossa democracia implica concess&otilde;es e <i>trade offs,</i> mas n&atilde;o nos obriga a esquecer que os instrumentos musicais pertencem de forma justa, n&atilde;o ao que tem um t&iacute;tulo de propriedade, nem a quem fabrica as flautas, mas ao flautista que as usa hoje, ou aos flautistas que, nas gera&ccedil;&otilde;es futuras, n&oacute;s homens do presente desejamos que delas venham a dispor, no quadro de uma decis&atilde;o que &eacute; no fundo pol&iacute;tica no sentido mais nobre da express&atilde;o.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top1" name="1">[1]</a></sup>Burke, <i>The Works of the Right Honorable Edmund Burke</i>, Vols. I&#8211;XII, Revised Edition, Boston, Little, Brown, and Company, 1866, p. 95.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000040&pid=S0807-8967201400020002200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top2" name="2">[2]</a></sup>Cf. Ivone Moreira, <i>A Filosofia pol&iacute;tica </i>de Edmund Burke, Lisboa, Aster, 2012, p. 34.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000042&pid=S0807-8967201400020002200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top3" name="3">[3]</a></sup>Cf. Working paper &laquo;Na&ccedil;&otilde;es, gera&ccedil;&otilde;es e justi&ccedil;a clim&aacute;tica&raquo; baseado em Gosseries, A. (2013), &#8216;Nations et g&eacute;n&eacute;rations&#8217;, in R. Chung &amp; J.-B. Jeang&egrave;ne Vilmer (eds.),<i>Ethique des relations internationales. Probl&eacute;matiques contemporaines</i>, Paris, PUF, pp. 331-354.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000044&pid=S0807-8967201400020002200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top4" name="4">[4]</a></sup>Recolhido de Rawls, <i>The law of Peoples, </i>p.107.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000046&pid=S0807-8967201400020002200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Burke]]></surname>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[The Works of the Right Honorable Edmund Burke]]></source>
<year>1866</year>
<volume>I-XII</volume>
<page-range>95</page-range><publisher-loc><![CDATA[Boston ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Little, Brown, and Company]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Moreira]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ivone]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A Filosofia política de Edmund Burke]]></source>
<year>2012</year>
<page-range>34</page-range><publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Aster]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Gosseries]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="fr"><![CDATA[Nations et générations]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Chung]]></surname>
<given-names><![CDATA[R.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Vilmer]]></surname>
<given-names><![CDATA[J.-B. Jeangène]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Ethique des relations internationales: Problématiques contemporaines]]></source>
<year>2013</year>
<page-range>331-354</page-range><publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[PUF]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="">
<source><![CDATA[The law of Peoples]]></source>
<year></year>
<page-range>107</page-range></nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
