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<journal-title><![CDATA[Revista Diacrítica]]></journal-title>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Na cinqüentenária Luuanda: o doloroso retrato de dois jovens]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The article proposes a reading of Luuanda taking as crucial motive the poem "Song for Luanda", also by Luandino Vieira, in order to show that although the author remains driven by the same love for the city, he presents, in the poem from 1958 and the tales from 1963, portraits of quite different human characters. The next aim of the article is to focus, in Luuanda, on two young, underprivileged boys, so as to demonstrate the empathy the author expresses for these figures in the tales where both are depicted, respectively: "Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos" and "A estória do ladrão do papagaio".]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>DOSSIER 50 ANOS DE <i>LUUANDA</i></b></p>     <p><b>Na cinq&uuml;enten&aacute;ria Luuanda, o doloroso retrato de dois jovens</b></p>      <p><b>Luuanda fifty years later: the painful portrait of two young boys</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Laura Cavalcante Padilha*</b></p>      <p>*Professora Em&eacute;rita da Universidade Federal Fluminense, t&iacute;tulo obtido em 2011; Pesquisadora N&iacute;vel 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico; Assessora ad hoc de diversos &oacute;rg&atilde;os de fomento brasileiros, como o CNPq, a CAPES e diversas Funda&ccedil;&otilde;es de Amparo &agrave; Pesquisa do pa&iacute;s. Tamb&eacute;m &eacute; Pesquisadora Associada do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e foi outorgada, em 2011, com a C&aacute;tedra Professor Carlos Lloyd Braga da Universidade do Minho. Durante seu percurso acad&ecirc;mico, atuou administrativamente como Vice-diretora da Faculdade de Forma&ccedil;&atilde;o de Professores de S&atilde;o Gon&ccedil;alo, hoje Campus Avan&ccedil;ado da UERJ e, no &acirc;mbito da UFF, exerceu os cargos de Coordenadora do Curso de Mestrado em Letras; Chefe da Coordenadoria de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o da Pr&oacute;-Reitoria de Pesquisa e P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o; Diretora do Instituto de Letras e Diretora da Editora desta mesma institui&ccedil;&atilde;o de ensino. Entre as principais obras publicadas destacam-se: O espa&ccedil;o do desejo: uma leitura de A Ilustre Casa de Ramires de E&ccedil;a de Queiroz (1989); Entre voz e letra: o lugar da ancestralidade na fic&ccedil;&atilde;o angolana do s&eacute;culo XX (1995 e 2007); Novos pactos outras fic&ccedil;&otilde;es: ensaios sobre literaturas afro-luso-brasileiras (2002). Tamb&eacute;m co-organizou, com Inoc&ecirc;ncia Mata: M&aacute;rio Pinto de Andrade: Um intelectual na pol&iacute;tica (2001); A poesia e a vida: homenagem a Alda Esp&iacute;rito Santo (2006) e A mulher em &Aacute;frica: vozes de uma margem sempre presente (2007); com alunos da UFF: Bordejando a margem &#8211; poesia de mulheres: uma recolha do Jornal de Angola (2007); com Margarida Calafate Ribeiro, Lendo Angola (2008) e, por fim, com Renata Fl&aacute;via da Silva, De guerras e viol&ecirc;ncias &#8211; palavra, corpo, imagem (2011).</p>      <p><a href="mailto:lcpadi2@terra.com.br">lcpadi2@terra.com.br</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>RESUMO</b></p>      <p> O artigo prop&otilde;e uma leitura de Luuanda, tomando como motivo inicial o poema "Can&ccedil;&atilde;o para Luanda", de autoria do mesmo Luandino Vieira, para tentar demonstrar como, embora movido pelo mesmo amor pela cidade, o produtor nos apresenta, no poema de 1958 e nos contos de 1963, retratos de figuras humanas bastante diferentes entre si. O movimento seguinte do texto consiste em focalizar, em Luuanda, dois jovens desvalidos, para demonstrar a ternura com que o autor os cobre nos contos em que ambos s&atilde;o retratados, ou seja, respectivamente: "Vav&oacute; X&iacute;xi e seu neto Zeca Santos" e "A est&oacute;ria do ladr&atilde;o do papagaio".</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Palavras chave</b>: Cidade de Luanda; formas de representa&ccedil;&atilde;o; cumplicidade autoral.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>ABSTRACT</b></p>      <p>The article proposes a reading of Luuanda taking as crucial motive the poem "Song for Luanda", also by Luandino Vieira, in order to show that although the author remains driven by the same love for the city, he presents, in the poem from 1958 and the tales from 1963, portraits of quite different human characters. The next aim of the article is to focus, in Luuanda, on two young, underprivileged boys, so as to demonstrate the empathy the author expresses for these figures in the tales where both are depicted, respectively: "Vav&oacute; X&iacute;xi e seu neto Zeca Santos" and "A est&oacute;ria do ladr&atilde;o do papagaio".</p>      <p><b>Keywords</b>: City of Luanda; representation forms; authorial complicities.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Como se fora uma ep&iacute;grafe, pergunto: &eacute; poss&iacute;vel ainda falar de uma obra que nos acompanha por tanto tempo e na qual sempre acabamos por descobrir algo que ainda nos surpreende, por sua atualidade e pertin&ecirc;ncia?</p>      <p>Respondendo a mim mesma, eu diria que, em meu caso pessoal, gostaria de deix&aacute;-la quieta, sem interferir em seu infinito jogo de sedu&ccedil;&atilde;o, emba&ccedil;ando-a com meu pr&oacute;prio texto de escrevente. Assim, sem compromisso, seria poss&iacute;vel mergulhar, outra vez, no puro prazer do texto de que fala Roland Barthes (1975). Mesmo sabendo disso, por&eacute;m, tentarei, aqui e agora, retom&aacute;-la, pois essa &#8216;senhora&#8217;, embora cinq&uuml;enten&aacute;ria, n&atilde;o perdeu seu vi&ccedil;oso brilho de juventude e continua a nos seduzir, sem remiss&atilde;o, pelo que se torna uma cobra esperta, sempre a nos olhar com aquele seu jogo de mostra-esconde, pelo qual nunca a conseguimos capturar.</p>      <p>Para dar in&iacute;cio, pois, a essas breves reflex&otilde;es sobre tal obra, come&ccedil;o por dizer que o n&atilde;o menos esperto autor de <i>Luuanda</i> sempre gostou de nos apresentar retratos do povo que habitava e / ou habita sua amada cidade, da&iacute;, por seu pacto fundante com ela, fazer-se Jos&eacute; <b>Luandino </b>Vieira. Mais que produzir as fotos, ele tamb&eacute;m sempre se esfor&ccedil;ou por pendur&aacute;-las em nosso imagin&aacute;rio leitor, dele fazendo uma galeria a que sempre voltamos com o mesmo deslumbramento do primeiro dia. Repare-se que, ainda nos anos 50, Luandino j&aacute; desejava falar de Luanda, da&iacute; o poema que a retrata como sendo uma "&#8211; QUITANDEIRA NEGRA A QUEM VESTIRAM PANOS AMERICANOS DE V&Aacute;RIAS CORES" (Vieira, 1958).</p>      <p>A abertura do texto, estiletada pelo uso da &#8216;caixa alta&#8217;, j&aacute; meio que desconcerta o leitor aficionado por poesia, sobretudo quando ele se preparou para ouvir uma "Can&ccedil;&atilde;o para Luanda", o que o faz perguntar-se: "Como assim? Uma cidade negro-africana vestida de panos americanos?". N&atilde;o resistindo, este leitor imerge, j&aacute; aflito, no texto, para tentar encontrar uma resposta apaziguadora e, desse modo, fazer frente ao desafio da decifra&ccedil;&atilde;o.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No poema, aqui citado a partir do Boletim <i>Mensagem</i>, da Casa dos Estudantes do Imp&eacute;rio (Vieira, 1958) &eacute; lan&ccedil;ada uma pergunta, "&#8211; Luanda onde est&aacute;?", pergunta esta que esbarra no</p>      <blockquote>    <p>Sil&ecirc;ncio nas ruas    <br>  Sil&ecirc;ncio nas bocas    <br>  Sil&ecirc;ncio nos olhos</p>      <p>(<i>Idem</i>, 27)</p></blockquote>      <p>O sujeito l&iacute;rico, de partida, demonstra sua dificuldade em encontrar a resposta, pois todos aqueles a quem a interroga&ccedil;&atilde;o se dirige s&atilde;o trabalhadores muito ocupados. Assim, ele, um quase <i>fl&acirc;neur</i>, continua a indagar, chamando tais trabalhadores por seus nomes e profiss&otilde;es, pelo que indica conhec&ecirc;-los bem de perto. Ficamos sabendo, a seguir, o motivo de sua afli&ccedil;&atilde;o, ou seja, que ela deriva do fato de n&atilde;o mais encontrar</p>      <blockquote>    <p>As casas antigas    <br>  O barro vermelho    ]]></body>
<body><![CDATA[<br> As nossas cantigas &#091;...&#093;    <br> Meninos nas ruas &#091;...&#093;    <br>      <p>(<i>Idem</i>, 28)</p></blockquote>      <p>elementos afetivos e composicionais da paisagem f&iacute;sica, cultural e humana da cidade antiga. Ao final do poema, ele recebe a resposta das tr&ecirc;s mulheres, Rosa, Maria e Zefa, que, com "A esperan&ccedil;a nos olhos / A certeza nas m&atilde;os", os panos a cobrirem seus corpos gastos e apontando para o cora&ccedil;&atilde;o lhe respondem: "<b>&#8211; Luanda est&aacute; aqui!</b>" (<i>Idem</i>, 29; negrito meu).</p>      <p>J&aacute; em <i>Luuanda</i>, escrita em 1963 e publicada em 1964, n&atilde;o mais se encontram a "Mana Rosa peixeira", a "Mana Maria quitandeira" e/ou a prostituta "Zefa mulata / O corpo cubata / Os brincos de lata" (Vieira, 1958: 28), ou, ainda, o "Mano dos jornais", mas um novo tipo de gente que tem de suportar a fome; a priva&ccedil;&atilde;o; a guerra; as pris&otilde;es; a espolia&ccedil;&atilde;o; etc.. Fazem-se outros, pois, os retratos pintados na obra e que se penduram na parede de nosso pr&oacute;prio imagin&aacute;rio leitor.</p>      <p>Em especial e, para comprova&ccedil;&atilde;o dessa mudan&ccedil;a no modo de sentir e pensar Luanda, por parte do seu arquiteto de palavras, escolho dois desses retratos, ou seja, o de dois jovens habitantes dos musseques da cidade, jovens que s&atilde;o v&iacute;timas de todo um processo hist&oacute;rico, pol&iacute;tico e social que os esmaga, impedindo que os sonhos, t&atilde;o importantes nessa &eacute;poca da vida, sejam postos de p&eacute;. Trata-se de Zeca Santos e de Garrido Kam&#8217;tuta, respectivamente personagens do primeiro e segundo contos, e que, apesar de criados h&aacute; 50 anos atr&aacute;s, nos remetem a muitos outros rapazes que, at&eacute; hoje, subsistem em desesperan&ccedil;a nos nossos pa&iacute;ses, considerados por muitos como pertencentes a um &#8216;terceiro mundo&#8217;, portanto, como algo &#8216;fora do lugar&#8217;.</p>      <p>Os que assim nos nomeiam n&atilde;o lembram, ou n&atilde;o querem lembrar, que nossos pa&iacute;ses s&atilde;o a resultante da mesma a&ccedil;&atilde;o imperialista, que s&oacute; poucos de n&oacute;s acreditam ter deixado de existir no novo mundo em que vivemos. O manto do neocolonialismo, h&aacute; tempos, ocupou o espa&ccedil;o do colonialismo cl&aacute;ssico, como previsto por Am&iacute;lcar Cabral (1980), dentre outros, e continua a exercer a mesma for&ccedil;a predadora.</p>      <p>&Eacute; importante notar que os narradores dos dois contos &#8211; "Vav&oacute; X&iacute;xi e seu neto Zeca Santos" e "A est&oacute;ria do ladr&atilde;o e do papagaio" &#8211;, m&aacute;scaras sob as quais se esconde o rosto do autor, apresentam esses jovens com caracter&iacute;sticas f&iacute;sicas e sociais muito pr&oacute;ximas. Ambos s&atilde;o desvalidos, sendo que o segundo o &eacute; fisicamente, pois atingido pela poliomielite. Tamb&eacute;m se fazem sujeitos amantes que n&atilde;o conseguem concretizar seus desejos amorosos, justamente por n&atilde;o terem o que oferecer aos objetos de seu amor, Delfina e In&aacute;cia, mulheres muito diferentes entre si. Desse modo, os dois s&atilde;o retratados como v&iacute;timas do desemprego e da discrimina&ccedil;&atilde;o de uma sociedade ainda presa nas fortes teias coloniais.</p>      <p>N&atilde;o vou aqui recontar as hist&oacute;rias de vida de Zeca e Garrido, j&aacute; t&atilde;o nossas conhecidas, mas t&atilde;o somente tentar mostrar a ternura que o autor de <i>Luuanda</i> demonstra sentir por esses dois quase-meninos, moradores de velhas cubatas e disseminados pelos espa&ccedil;os habitados pela popula&ccedil;&atilde;o desvalida da cidade, outrora sede do poder colonial e que, depois de 1961, quer tornar-se apenas angolana e sediar uma nova na&ccedil;&atilde;o, da&iacute; a raz&atilde;o de sua luta.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Come&ccedil;o, portanto, ressaltando as semelhan&ccedil;as entre os dois personagens, como nos mostram, por exemplo, as cenas em que ambos quase conseguem realizar fisicamente seus desejos amorosos, momentos estes em que eles como que se animalizam, ora um rastejando pelo ch&atilde;o, ora o outro a andar, como um s&iacute;mio, com as m&atilde;os sobre a terra. Resgato fragmentos das duas cenas, lembrando que a de Garrido &eacute; muito mais dram&aacute;tica, em todos os sentidos que a de Zeca, e chega a beirar mesmo o tr&aacute;gico:</p>      <blockquote>    <p>Zeca Santos ficou um tempo deitado de barriga a chupar um capim, sem falar nada, e depois come&ccedil;ou rastejar parecia era sard&atilde;o &#091;...&#093;.</p>      <p>(Vieira, 1964: 29)</p>      <p>Com as l&aacute;grimas quase a chover, &#091;Garrido&#093; baixou a cabe&ccedil;a, estendeu os bra&ccedil;os magros e p&ocirc;s as largas m&atilde;os no ch&atilde;o. Nem precisou dar balan&ccedil;o nem nada, o corpo ficou pendurado para baixo, uma perna no ar, a outra fina, aleijada, enrolou logo no pesco&ccedil;o. (<i>Idem</i>, 61)</p></blockquote>      <p>&Eacute; interessante que In&aacute;cia se comova e reaja, com histeria e por raiva de si pr&oacute;pria, insultando Garrido, enquanto Delfina, mesmo agredindo o rosto do outro rapaz e apesar de tamb&eacute;m insult&aacute;-lo, profere uma frase que acaba por revelar seu carinho por ele, ao contr&aacute;rio da outra.</p>      <p>Do mesmo modo os jovens se aproximam pela "foto" de seus rostos. O de Zeca &eacute; mostrado, em primeiro plano, como sendo uma face marcada pelos "riscos teimosos as fomes j&aacute; tinham posto na cara dele, de crian&ccedil;a ainda" (<i>Idem</i>, 35). J&aacute; o narrador do segundo conto, ecoando o primeiro e dizendo, ao contr&aacute;rio deste, que conta o que lhe j&aacute; tinha sido contado, vai ressaltar, ao focalizar o rosto de Garrido, sua "pele lisa &#091;...&#093; cheia de riscos em todos os lados, a fome n&atilde;o enchia as peles e a tristeza punha-lhe velhice, mesmo que era um mais novo." (<i>Idem</i>, 56). A fome, assim iluminada, como navalha fina e afiada, escarifica ambas as faces, envelhecendo-as precocemente.</p>      <p>As diferen&ccedil;as entre Zeca e Garrido, chamados de "monandengues" pelos dois contadores da letra, s&atilde;o igualmente significativas. Basta que se veja, por exemplo, a quest&atilde;o do choro e das l&aacute;grimas. Garrido &eacute; mostrado, naquela cena com In&aacute;cia, como algu&eacute;m que "quase chora", enquanto Zeca desfaz-se em pranto desde sua primeira entrada na cubata, quando ele diz &agrave; av&oacute; n&atilde;o ser ladr&atilde;o e, depois, j&aacute; mais calmo, d&aacute;-se conta de que a esperta mais-velha confunde, pela fome, ra&iacute;zes de d&aacute;lia com "mandioca pequena" (Vieira, 1964: 16). Essas l&aacute;grimas dolorosas retornam, por fim, na cena final em que o narrador, seu c&uacute;mplice na dor, diz que ele "&#091;...&#093; nada mesmo que &#091;...&#093; podia fazer j&aacute;, encostou a cabe&ccedil;a grande no ombro baixo de vav&oacute; X&iacute;xi Hengele e desatou chorar um choro de grandes solu&ccedil;os parecia era monandengue &#091;...&#093;" (<i>Idem</i>, 35).</p>      <p>Outras duas diferen&ccedil;as se fazem, tamb&eacute;m, elementos fundamentais para demarcar a fronteira da personalidade dos dois jovens. Trata-se da forma como seus corpos se vestem, por assim dizer. Para Zeca, o que importa &eacute; a sua bonita e cara camisa, embora seu sapato, que ningu&eacute;m v&ecirc;, esteja roto e o incomode profundamente. Isto demonstra seu desejo de ser identificado pelo que, na verdade, n&atilde;o &eacute; e, assim, fazer-se um jovem de sua &eacute;poca.</p>      <p>Enquanto isso, pouco sabemos sobre o modo como Garrido se veste, o que demonstra que ele &eacute; constru&iacute;do como algu&eacute;m que se volta mais para dentro de si mesmo, vivendo sua luta di&aacute;ria contra seu pr&oacute;prio corpo que, pela defici&ecirc;ncia f&iacute;sica, n&atilde;o tem como esconder. Faz-se, por isso, v&iacute;tima do esc&aacute;rnio at&eacute; de um velho e sujo papagaio, cuja dona &eacute; In&aacute;cia, tamb&eacute;m ela sempre a cham&aacute;-lo, aos gritos, de aleijado.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A segunda distin&ccedil;&atilde;o &eacute; que Zeca acaba por aceitar sua derrota, da&iacute; concordar, embora a contragosto e envergonhado, com o trabalho escravo que lhe &eacute; oferecido pelo "feitor", negro como ele, a lembrar os brancos dos velhos tempos. J&aacute; Garrido, mesmo que, pela atitude aviltante de In&aacute;cia, deixe escorrer rapidamente pelo rosto o "cacimbo das l&aacute;grimas" (Vieira, 1964: 62), decide n&atilde;o faz&ecirc;-lo mais e enfrentar a vida e as humilha&ccedil;&otilde;es de frente e sem medo. &Eacute; o que nos mostra a cena em que ele desafia a for&ccedil;a de Jo&atilde;o Miguel, pedindo para que este o espanque; sua decis&atilde;o de roubar o papagaio, sempre a insult&aacute;-lo, para, em seguida mat&aacute;-lo, o que n&atilde;o faz, e, por fim, o rebelar-se contra o quase pai, Dosreis, quando este o acusa injusta e mentirosamente de ter participado do roubo dos patos, da&iacute; ser preso tamb&eacute;m.</p>      <p>N&atilde;o &eacute; por acaso que, no retrato de Garrido, sobressaiam seus olhos azuis que, de doces, se tornam met&aacute;licos, passando a amedrontar seus oponentes. Tamb&eacute;m suas a&ccedil;&otilde;es, por sua vez, sempre marcadas pelo amor respeitoso dedicado ao outro, inclusive &agrave; In&aacute;cia, ganham for&ccedil;a e delibera&ccedil;&atilde;o. A meu ver, um novo sujeito se levanta em Garrido Kam&#8217;tuta, ao contr&aacute;rio daquele que se entrega em Zeca Santos e precisa do apoio da av&oacute; para sustent&aacute;-lo.</p>      <p>Talvez o autor, mascarado de narrador de segundo grau, queira que vejamos, no quadro por ele pintado em "A est&oacute;ria do ladr&atilde;o e do papagaio" &#8211; em que o coletivo se faz maior que as rela&ccedil;&otilde;es individuais &#8211;, ser poss&iacute;vel que um corpo f&iacute;sico em desconcerto busque for&ccedil;a para lutar, como se dava naquele momento, com o da pr&oacute;pria na&ccedil;&atilde;o rebelada. Garrido Kam&#8217;tuta, assim, e j&aacute; pelo conv&iacute;vio que ter&aacute; com Xico Futa, que o conhece at&eacute; ent&atilde;o apenas superficialmente, talvez venha a ouvir a est&oacute;ria do cajueiro e de sua resist&ecirc;ncia e, um dia, se possa fazer, como o outro, um sujeito l&uacute;cido, apaziguador, sereno e consciente de sua for&ccedil;a moral.</p>      <p>Desse modo, no futuro, e uma vez j&aacute; vitoriosa a luta, talvez Garrido Kam&#8217;tuta possa, ao contr&aacute;rio de Zeca Santos, recha&ccedil;ar os "panos americanos" da camisa que veste e dizer, como as tr&ecirc;s mulheres do poema vestidas, em diferen&ccedil;a, com seus "&#091;...&#093; panos pintados / garridos / ca&iacute;dos &#091;...&#093;: &#8216;&#8211; <b>Luanda est&aacute; aqui</b>!&#8217;" (Vieira, 1958: 29).</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <!-- ref --><p>Barthes, Roland (1977), <i>O prazer do texto</i>, trad. J. Guinsburg, S&atilde;o Paulo: Perspectiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000059&pid=S0807-8967201400030000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Cabral, Am&iacute;lcar (1980), <i>A arma da teoria</i>, Rio de Janeiro: Codecri. Coordena&ccedil;&atilde;o de Carlos Comitini (Cole&ccedil;&atilde;o Terceiro Mundo; v. 4).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000061&pid=S0807-8967201400030000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Vieira, Luandino (1958), "Can&ccedil;&atilde;o para Luanda", <i>Mensagem</i>, Boletim da Casa dos Estudantes do Imp&eacute;rio, ALAC, v. I., ano I (1958), n&ordm; 3, pp. 27-29.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000063&pid=S0807-8967201400030000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>_____ (1964), <i>Luuanda</i>, Luanda: Oficinas Gr&aacute;ficas ABC.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000065&pid=S0807-8967201400030000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>&#091;Recebido em 9 de julho de 2014 e aceite para publica&ccedil;&atilde;o em 15 de outubro de 2014&#093;</p>       ]]></body><back>
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