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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article approaches Luandino Vieira’s writing, and specially the emblematic case of the short stories in Luuanda (1964), as an example of a committed dialectic exchange between literary representation and lived socio-political experience. Key concepts to structure this reflexion are ‘border’, ‘cultural exchange’ and ‘tradition’, in articulation with political context, the role of literature and the definition of a national project.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>DOSSIER 50 ANOS DE <i>LUUANDA</i></b></p>     <p><b>Luuanda: a trai&ccedil;&atilde;o bem-vinda</b></p>      <p><b>Luuanda: the pleasant betrayal</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Rita Chaves*</b></p>      <p>*Professora de Literaturas Africanas de L&iacute;ngua Portuguesa, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas, da Universidade de S&atilde;o Paulo, Brasil.</p>      <p><a href="mailto:ritachaves@hotmail.com">ritachaves@hotmail.com</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>RESUMO</b></p>      <p>Encarando o di&aacute;logo entre literatura e experi&ecirc;ncia como elemento fulcral de Luuanda e de todo o projeto liter&aacute;rio de Jos&eacute;  Luandino Vieira, neste artigo pretende-se reflectir em torno dos conceitos de fronteira, transcultura&ccedil;&atilde;o e tradi&ccedil;&atilde;o,  salientando a articula&ccedil;&atilde;o entre literatura, contexto pol&iacute;tico e projecto nacional como aspecto matricial desta obra e, mais  em geral, da proposta liter&aacute;ria do autor.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Palavras chave</b>: Luuanda, Luandino, transcultura&ccedil;&atilde;o, colonialismo, tradi&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>ABSTRACT</b></p>      <p>This article approaches Luandino Vieira&#8217;s writing, and specially the emblematic case of the short stories in Luuanda (1964), as an example of a committed dialectic exchange between literary representation and lived socio-political experience. Key concepts to structure this reflexion are &#8216;border&#8217;, &#8216;cultural exchange&#8217; and &#8216;tradition&#8217;, in articulation with political context, the role of literature and the definition of a national project.</p>      <p><b>Keywords</b>: Luuanda, Luandino, cultural affiliation, colonialism, literary tradition.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="right"><i>N&atilde;o h&aacute; Robinson Cruso&eacute; na literatura, e a elite &eacute; o primeiro conglomerado social em que um criador se integra.</i></p>      <p align="right">Angel Rama</p>      <p>A frase de Angel Rama que escolho para ep&iacute;grafe foi extra&iacute;da do seu not&aacute;vel ensaio "Dez problemas para o romancista latino-americano" (Rama, 2001). Nele, o arguto estudioso de aspectos culturais da Am&eacute;rica Latina aborda a emerg&ecirc;ncia da literatura no continente em um quadro marcado pelo c&oacute;digo colonial, alertando para o peso da contradi&ccedil;&atilde;o e as manifesta&ccedil;&otilde;es da viol&ecirc;ncia que, sendo estrutural, tem seus reflexos, inclusive, na hierarquiza&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica e, por decorr&ecirc;ncia, na constitui&ccedil;&atilde;o da vida liter&aacute;ria. Ao discutir aquela din&acirc;mica social, tendo em conta a for&ccedil;a das injun&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas, Rama traz &agrave; luz os condicionalismos e as respostas que a escrita oferece, situando-se em terrenos perigosos, instada em certos momentos a acender velas a diferentes deuses. Nas suas finas observa&ccedil;&otilde;es delineia-se um olhar mediado pela modula&ccedil;&atilde;o retrospectiva, uma vez que no momento em que ele escreve os pa&iacute;ses focalizados j&aacute; somam d&eacute;cadas de independ&ecirc;ncia, e integram um universo de na&ccedil;&otilde;es nas quais a vida institucional decorre dentro de uma relativa normalidade, a despeito da manuten&ccedil;&atilde;o daquilo que Alfredo Bosi identifica como complexo colonial de vida e de pensamento (Bosi, 1980: 13). Quando transitamos para o continente africano, respiramos outras atmosferas, sacudidas por um conjunto de fatores que tem em comum a remiss&atilde;o a um ambiente selado pela divis&atilde;o e pela instabilidade.</p>       <p>Pensada sob o c&eacute;u de Angola nos anos 60, por exemplo, quando a fic&ccedil;&atilde;o narrativa ganha densidade, a frase ganha contornos especiais. Estamos ali sob o signo da voragem: naquele contexto j&aacute; convulsionado pela guerra que desvelou o absurdo do processo colonial &#8211; prolongado para al&eacute;m da pr&oacute;pria din&acirc;mica do capitalismo que o acionara &#8211;, a vida nacional &eacute; uma esp&eacute;cie de miragem a que os vento das utopias tentam dar corpo. Os eventos de 4 de fevereiro de 1961 em Luanda e de 13 de mar&ccedil;o no U&iacute;ge n&atilde;o deixariam d&uacute;vidas quanto &agrave; verticalidade da crise. Em um terreno tocado por contradi&ccedil;&otilde;es abertas, o ato de escrever n&atilde;o poderia sequer sonhar com a inoc&ecirc;ncia a que, em certos cen&aacute;rios, se pode ao menos aludir. Sob uma chuva de estilha&ccedil;os a cair sobre a vida di&aacute;ria, os contornos da rela&ccedil;&atilde;o entre o escritor e o &#8216;conglomerado social&#8217; que o cercava ganhava certos complicadores. O quadro da exclus&atilde;o social e econ&ocirc;mica, temperado pela discrimina&ccedil;&atilde;o racial, multiplicava as indaga&ccedil;&otilde;es: como falar com a camada que ditava a ordem das coisas ou dela se beneficiava? Como distinguir entre as elites os segmentos que poderiam alterar o jogo e suas regras? Se o acesso &agrave; escrita era, ao mesmo tempo, um privil&eacute;gio e uma condena&ccedil;&atilde;o, como conduzir a interlocu&ccedil;&atilde;o?</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O peso de tais quest&otilde;es aponta a supera&ccedil;&atilde;o das fronteiras do texto liter&aacute;rio para o exame de processos como o que se projeta sobre um livro como <i>Luuanda</i> e toda a obra de Jos&eacute; Luandino Vieira. Como o fez Rama, &eacute; fundamental examinar as redes constitutivas do contexto e perceber a sua proje&ccedil;&atilde;o no percurso de quem escreve e na produ&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria que surge desse jogo. Em outras palavras, sair do texto para ir &agrave; vida das pessoas que os produzem aqui n&atilde;o significa um desvio, mas abre a possibilidade de observar de que modo ela &eacute; trazida e transformada nas p&aacute;ginas que ainda hoje nos inquietam a consci&ecirc;ncia.</p>      <p>Filho de colonos pobres, morador das franjas dos musseques, mas, ainda assim, aluno do Liceu Salvador Correia de S&aacute; (o col&eacute;gio da elite colonial), de acordo com o pr&oacute;prio escritor em sess&atilde;o realizada na Balada Liter&aacute;ria de 2007 na cidade de S&atilde;o Paulo, o jovem estudante, ao chegar ao fim da adolesc&ecirc;ncia, angustiou-se diante da percep&ccedil;&atilde;o da diferen&ccedil;a de alguns itiner&aacute;rios. Onde buscar explica&ccedil;&atilde;o para a imposi&ccedil;&atilde;o de percursos t&atilde;o diferentes &agrave;queles com quem ele tinha partilhado a inf&acirc;ncia? Aos leitores da Literatura Angolana a declara&ccedil;&atilde;o de Luandino traz &agrave; mem&oacute;ria os versos de Ant&oacute;nio Jacinto:</p>      <blockquote>    <p>Naquele tempo</p>      <p>A gente punha despreocupadamente os livros no ch&atilde;o</p>      <p>Ali mesmo ao lado naquele largo &#8211; areal batido de caminhos passados</p>       <p>Os mesmos trilhos de escravid&otilde;es</p>      <p>Onde hoje passa a avenida luminosamente grande</p>       <p>E com uma bola de meia</p>      <p>Bem forrada de rede</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Bem dura de borracha roubada &agrave;s borracheiras do Neves</p>       <p>Em alegre folguedo, entremeando cassambulas</p>      <p>... a gente fazia um desafio ...</p>      <p>O Antoninho</p>      <p>filho desse senhor Moreira da taberna</p>       <p>era o capit&atilde;o</p>      <p>e nos chamava de &oacute; p&aacute;,</p>      <p>Agora virou doutor</p>      <p>(cajinjeiro como nos tempos antigos)</p>       <p>passa, passa que nem cumprimenta</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&#8211; doutor n&atilde;o conhece preto da escola.</p>      <p>.....................................................................................</p>      <p>E o Ven&acirc;ncio? O meio-homem pequenino</p>       <p>Que roubava mangas e os l&aacute;pis nas carteiras</p>       <p>Fraquito de fome constante</p>      <p>Quando apanhava um pinh&atilde;o chorava logo!</p>       <p>Agora parece que anda lixado</p>      <p>Lixado com doen&ccedil;a no peito.</p>      <p>Nunca mais! Nunca Mais!</p>      <p>Tempo da minha descuidada meninice, nunca mais! (Jacinto, 1985: 52)</p></blockquote>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A cita&ccedil;&atilde;o, um tanto longa, do belo poema "O grande desafio", traz-nos um pouco do clima da Luanda dos anos 50, &eacute;poca em que a cidade conhece altera&ccedil;&otilde;es significativas em sua fisionomia. A preocupa&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica espelhar&aacute; o processo de marginaliza&ccedil;&atilde;o dos colonizados, incluindo os assimilados, na composi&ccedil;&atilde;o de um retrato da nova fase da empresa colonial em Angola, conforme assinala Tania Mac&ecirc;do:</p>      <blockquote>    <p>(...) nos fins dos anos 1940, quando ocorre o "boom" do caf&eacute; e com isso Luanda, cujo porto &eacute; a via de escoamento de uma das maiores riquezas de Angola naquela quadra, recebe o impacto da moderniza&ccedil;&atilde;o e a sua popula&ccedil;&atilde;o negra &eacute; deslocada cada vez mais para longe da "Baixa", o centro urbanizado, branco e pr&oacute;ximo do mar. A "elite crioula" &eacute; definitivamente apeada do poder j&aacute; que um n&uacute;mero crescente de metropolitanos chega &agrave; cidade e toma os melhores postos de trabalho e as melhores terras. (Mac&ecirc;do, 2008:116)</p></blockquote>      <p>Em tais mudan&ccedil;as figura-se a inviabilidade de uma coexist&ecirc;ncia amena, agudizando-se a certeza da viol&ecirc;ncia que engendra a sociedade colonial. &Eacute; tempo de perder qualquer r&eacute;stia de inoc&ecirc;ncia, ensinam os poemas de Jacinto e de Aires de Almeida Santos, por exemplo, nos quais o adeus &agrave;s ilus&otilde;es associa-se ao fim de uma &eacute;poca, o da inf&acirc;ncia. Sem d&uacute;vida, o sentido desses versos Luandino lia tamb&eacute;m nas ruas de areia e de alcatr&atilde;o que desenhavam a cidade, caminhos em que se comp&otilde;e um roteiro delineado pelas refer&ecirc;ncias culturais e humanas que participaram de sua forma&ccedil;&atilde;o.</p>      <p>A for&ccedil;a da experi&ecirc;ncia mistura-se ao que lhe chega das leituras, formando uma mescla cujos ecos reverberam no primeiro conto do primeiro livro: "Encontro de acaso", de <i>A cidade e a inf&acirc;ncia</i>, trata precisamente de um improv&aacute;vel reencontro entre adultos que, tendo convivido na inf&acirc;ncia, foram apartados pelo c&oacute;digo das desigualdades sociais. O uso da express&atilde;o "meninice descuidada" na primeira fala do narrador prop&otilde;e uma liga&ccedil;&atilde;o direta com o poema de Jacinto e &eacute; senha que nos pode levar a tantas narrativas nas quais encontramos, e muito bem trabalhado, esse universo. Aquele mundo de "fisgas" e "fugas", de "peixe frito" e "quicuerra", de "p&aacute;ssaros" e "sard&otilde;es" em contraste com o territ&oacute;rio povoado de "fazenda e nylon" e "sapatos bem engraxados" repercutiria na mem&oacute;ria de quem fez da ang&uacute;stia um m&oacute;vel de cria&ccedil;&atilde;o. A partir do di&aacute;logo entre literatura e experi&ecirc;ncia, elemento fulcral em seu projeto liter&aacute;rio, Luandino sintetizaria as quest&otilde;es com que se defrontou em duas perguntas: "O que a vida fez de mim?" "E o que eu posso fazer do que a vida fez de mim?"<sup><a href="#1" name="top1">&#091;1&#093;</a></sup></p>      <p>O alto pre&ccedil;o pago, inclusive como habitante do sinistro e famoso Tarrafal de Ch&atilde;o Bom, na Ilha de Santiago, durante oito anos, confirmaria as escolhas feitas e os rumos tomados. Mobilizando o empenho pol&iacute;tico e social, essas perguntas produziram respostas correspondentes no itiner&aacute;rio do escritor, que, ao investir na transforma&ccedil;&atilde;o da narrativa angolana, imp&otilde;e altera&ccedil;&otilde;es profundas na prosa em portugu&ecirc;s e se reconstr&oacute;i tamb&eacute;m como personagem na hist&oacute;ria do pa&iacute;s. Pela milit&acirc;ncia e pelo exerc&iacute;cio da escrita, como sabemos, ele se converteria em Jos&eacute; Luandino Vieira.</p>      <p>Vivendo f&iacute;sica e culturalmente na zona de fronteira, Luandino faz a op&ccedil;&atilde;o pela travessia na dire&ccedil;&atilde;o da cidade dos exclu&iacute;dos, cortando, assim, o cord&atilde;o com as identifica&ccedil;&otilde;es na base da ra&ccedil;a, e dos la&ccedil;os que ela automaticamente criava. &Eacute; preciso n&atilde;o esquecer que mesmo em Angola, onde a segrega&ccedil;&atilde;o racial n&atilde;o atingia o grau registrado em outras col&ocirc;nias, a cor da pele constitu&iacute;a um poderoso capital. Malgrado o esfor&ccedil;o do discurso lusotropicalista e seus suced&acirc;neos, h&aacute; uma sucess&atilde;o de evid&ecirc;ncias que n&atilde;o nos deixam duvidar de Fanon: "o mundo colonial &eacute; um mundo compartimentado":</p>      <blockquote>    <p>A zona habitada pelos colonizados n&atilde;o &eacute; complementar &agrave; zona habitada pelos colonos. Essas duas zonas se op&otilde;em, mas n&atilde;o a servi&ccedil;o de uma unidade superior. Regida por uma l&oacute;gica puramente aristot&eacute;lica, elas obedecem ao princ&iacute;pio de exclus&atilde;o rec&iacute;proca: n&atilde;o h&aacute; concilia&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel, um dos termos &eacute; demais. A cidade do colono &eacute; uma cidade s&oacute;lida, toda de pedra e ferro. &Eacute; uma cidade iluminada, asfaltada, onde as latas de lixo transbordam sempre de restos desconhecidos, nunca vistos, nem mesmo sonhados. (Fanon, 2010: 55)</p></blockquote>      <p>As latas de lixo transbordantes de "restos nem mesmo sonhados" comp&otilde;em uma poderosa imagem da incomunicabilidade entre esses polos que formam a cidade. A Luandino esse fen&ocirc;meno n&atilde;o passaria despercebido, e teria sua figura&ccedil;&atilde;o na espacialidade que elege como fonte de significados. &Eacute; na contraposi&ccedil;&atilde;o entre a cidade de asfalto e os fecundos musseques que fixa um dos eixos de sua obra. Essa forma de ver as arestas que separam os homens coloca em causa a hip&oacute;tese de uma terceira margem em momentos de crise aberta. Contra a possibilidade de qualquer condescend&ecirc;ncia com o colonialismo, o escritor privilegiaria a contradi&ccedil;&atilde;o, antecipando a problematiza&ccedil;&atilde;o do conceito de entrelugar, que viria ocupar tanto espa&ccedil;o nos estudos p&oacute;s-coloniais e na imagina&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica de alguns estudiosos. Da viv&ecirc;ncia em &aacute;reas intersticiais ele incorporou a situa&ccedil;&atilde;o de fronteira, mas compreendendo-a como <i>zonas de contato</i>, isto &eacute;:</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>    <p>&#091;E&#093;spa&ccedil;os sociais onde culturas d&iacute;spares se encontram, se chocam, se entrela&ccedil;am uma com a outra, frequentemente em rela&ccedil;&otilde;es assim&eacute;tricas de domina&ccedil;&atilde;o e subordina&ccedil;&atilde;o &#8211; como o colonialismo, o escravagismo, ou seus suced&acirc;neos ora praticados em todo o mundo (Pratt, 1999: 27)</p></blockquote>      <p>O conceito de fronteira na perspectiva de Luandino escapa, pois, &agrave;quela no&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;o em que as clivagens se dissolvem e se recriam livremente refer&ecirc;ncias constitutivas de identidades m&oacute;veis. Estamos mais perto do sentido de encruzilhada em que se refor&ccedil;a a lei da exclus&atilde;o e se enrijecem os interditos. A impossibilidade da concilia&ccedil;&atilde;o era li&ccedil;&atilde;o de todos os dias.</p>      <p>O foco nas assimetrias em que se baseavam as rela&ccedil;&otilde;es de poder na sociedade colonial faz com que do conceito de &#8216;entrelugar&#8217; Luandino retenha sobretudo a dimens&atilde;o conflitual a que Homi Bhabha tamb&eacute;m alude, recusando a possibilidade consensual que as leituras de inspira&ccedil;&atilde;o lusotropicalista preferem salientar (Bhabha, 2001: 21). De frente para as asperezas do contato entre o universo do colonizador e o mundo do colonizado, ele foge &agrave;s hesita&ccedil;&otilde;es e coloca-se com nitidez no centro do embate, trazendo para a sua narrativa o olhar insubmisso de quem se associa ao exclu&iacute;do, impondo movimentos que elegem a marca da contradi&ccedil;&atilde;o &#8211; espelho e contraface da ruptura &#8211; como selo de sua obra at&eacute; ao presente.</p>      <p>J&aacute; em <i>A cidade e a inf&acirc;ncia</i>, acima referido, a configura&ccedil;&atilde;o de um espa&ccedil;o &#8211; a cidade &#8211; conjugado a um tempo &#8211; o da inf&acirc;ncia &#8211; anuncia a sua migra&ccedil;&atilde;o para um dos lados da Luanda dividida. No t&iacute;tulo insinuam-se as pistas de um projeto cuidadosamente desenhado: Luanda seria o <i>locus</i> primordial, constru&iacute;da sob o signo de uma inf&acirc;ncia, que transforma a comunh&atilde;o sugerida pelos versos de Jacinto em alimento para uma necess&aacute;ria mudan&ccedil;a. A refer&ecirc;ncia ao passado, entretanto, recusa a tenta&ccedil;&atilde;o da nostalgia, acenando talvez ao prop&oacute;sito de desnaturalizar o presente que massacra. Nesse espa&ccedil;o-tempo, insere-se uma imagem dupla a se oferecer como meton&iacute;mia de um territ&oacute;rio em ebuli&ccedil;&atilde;o, que seria uma das recorr&ecirc;ncias da obra em tela.</p>      <p>Tal posi&ccedil;&atilde;o, prenunciada no livro de estreia, ser&aacute; radicalizada em <i>Luuanda</i>, livro fundamental na produ&ccedil;&atilde;o de Luandino e na hist&oacute;ria da Literatura Angolana. Escritas, como sabemos, no pavilh&atilde;o prisional da Cadeia de S&atilde;o Paulo em Luanda, as tr&ecirc;s est&oacute;rias, como lhes chamou o autor, representaram interna e externamente uma virada fundamental na tradi&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria africana em l&iacute;ngua portuguesa, com reflexos na cena contempor&acirc;nea.</p>      <p>Vale a pena retomarmos a produtiva reflex&atilde;o de Rama, e observarmos a validade do seu conceito de transcultura&ccedil;&atilde;o em tr&ecirc;s n&iacute;veis (o lingu&iacute;stico, da estrutura&ccedil;&atilde;o que opera na economia de suas narrativas e o da cosmovis&atilde;o que move o seu projeto est&eacute;tico) para a an&aacute;lise da fic&ccedil;&atilde;o de Luandino. Emprestado de Fernando Ortiz, que, por sua vez, foi busc&aacute;-lo a Malinovski, o conceito de transcultura&ccedil;&atilde;o para o cr&iacute;tico uruguaio expressa melhor o processo transitivo de uma cultura a outra, potencialidade acionada por alguns escritores africanos como base da proposta de fazer da literatura um lugar de contesta&ccedil;&atilde;o do c&oacute;digo colonial e um espa&ccedil;o de forma&ccedil;&atilde;o do novo pa&iacute;s, ainda a caminho (Rama, 2001: 215-7).</p>      <p>Em Luandino, a elei&ccedil;&atilde;o dos musseques como cen&aacute;rio preferencial das narrativas &eacute; um dado que altera o eixo em que se sustenta a literatura produzida na ent&atilde;o col&ocirc;nia. &Eacute; preciso n&atilde;o esquecer que se no campo da poesia j&aacute; se consolidava um movimento de viragem, com a op&ccedil;&atilde;o por temas vinculados a um projeto de rompimento com a literatura metropolitana e a literatura colonial, e tamb&eacute;m por uma concep&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica centrada na valoriza&ccedil;&atilde;o de aspectos da cultura local, incluindo as matrizes da oralidade, na narrativa, sobretudo na narrativa longa, predominavam o vi&eacute;s colonial, com algumas incurs&otilde;es na &aacute;rea da "autoetnografia", para usar a express&atilde;o denominada por Mary-Louise Pratt (1999). A t&iacute;tulo de ilustra&ccedil;&atilde;o podemos citar o romance <i>Uanga</i>, de &Oacute;scar Ribas. Voltando as costas ao exerc&iacute;cio etnogr&aacute;fico, Luandino dispensa-se das descri&ccedil;&otilde;es informativas, e coloca em cena personagens que, habitando fora do reino dos privil&eacute;gios, desvelam a Luanda que n&atilde;o se mostra nos &aacute;lbuns fotogr&aacute;ficos que ainda hoje (talvez principalmente hoje) se editam na metr&oacute;pole.</p>      <p>Na visibilidade que confere &agrave; cidade ocultada, o escritor afasta as sombras da idealiza&ccedil;&atilde;o e procura ver tais personagens em confronto com suas mis&eacute;rias e grandezas. Se por um lado, &eacute; patente a refer&ecirc;ncia a pares dilem&aacute;ticos que podemos identificar como metr&oacute;pole / col&ocirc;nia, colonizado / colonizador, oprimido / opressor, portugu&ecirc;s / quimbundo, musseque / asfalto, tradi&ccedil;&atilde;o / modernidade, por outro lado, pode-se perceber que no desenvolvimento dos enredos, o confronto entre os lados n&atilde;o revela alian&ccedil;as indestrut&iacute;veis entre aqueles que a priori poder&iacute;amos ver como parceiros. Na primeira est&oacute;ria, "Vav&oacute; X&iacute;xi e seu neto Zeca Santos", a esperada alian&ccedil;a entre os dois personagens que lhe d&atilde;o nome, ambos situados no plano da exclus&atilde;o, n&atilde;o &eacute; plena. Nem mesmo a for&ccedil;a do la&ccedil;o de parentesco predetermina a dilui&ccedil;&atilde;o das tens&otilde;es no jogo das provas que a dura vida imp&otilde;e.</p>      <p>Na "Est&oacute;ria do ladr&atilde;o e do papagaio", as trapa&ccedil;as s&atilde;o protagonizadas por habitantes do mesmo &#8216;lado&#8217;. O peso da opress&atilde;o ora converte os homens em parceiros, ora lhes desperta sentimentos menos nobres, tornando-os aliados do outro lado. As cumplicidades que pretender&iacute;amos t&aacute;citas s&atilde;o desfeitas e refeitas na dureza dos dias. O efeito surpresa que atinge as personagens desencantadas com a atitude daquele que de algum modo sente como um igual &eacute; trabalhado como um fator que desencadeia a cren&ccedil;a na possibilidade e na necessidade de constru&ccedil;&atilde;o de uma rede capaz de fazer emergir outros jogos de poder. Ao olharmos as tr&ecirc;s est&oacute;rias como partes de uma longa narrativa, podemos perceber na sua sequ&ecirc;ncia a alus&atilde;o a uma cadeia de expectativas que o aprendizado favorece. Nesse aspecto, aprende a personagem e aprende o leitor, ambos confrontados com um mundo m&oacute;vel, tal como resume Maria Aparecida Santilli:</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>    <p>Como pr&oacute;prio de um universo inst&aacute;vel, deslocavam-se, tamb&eacute;m de fun&ccedil;&otilde;es, as personagens aliadas e/ou oponentes dos her&oacute;is-hero&iacute;nas, durante o percurso destes-destas, em demanda dos seus objetivos. Tal mobilidade parece tipificar o tipo de tens&otilde;es criado na obra. A ambiguidade de posi&ccedil;&otilde;es assumidas por certos colaboradores-advers&aacute;rios &eacute; para os personagens mais marcantes o grande obst&aacute;culo atravessado na consecu&ccedil;&atilde;o de seus desejos, j&aacute; que &eacute; para elas (no plano da narra&ccedil;&atilde;o) o fator imponder&aacute;vel, como ser&aacute; para o leitor (no plano da leitura) o imprevis&iacute;vel. (Santilli, 1980: 260)</p></blockquote>      <p>O enquadramento do espa&ccedil;o periurbano sob o signo da mobilidade, em contraste com a sua apreens&atilde;o mediada por uma perspectiva exotizante seria um &iacute;ndice de contesta&ccedil;&atilde;o suficiente para colocar sob suspeita a escrita de Luandino Vieira. Entretanto, sua radicalidade mostrar-se-ia mais intensa e, naturalmente, mais perigosa. Ele mistura os processos de transcultura&ccedil;&atilde;o, pois a base da economia narrativa se alimenta nitidamente das opera&ccedil;&otilde;es no plano lingu&iacute;stico e na constitui&ccedil;&atilde;o da cosmovis&atilde;o, inst&acirc;ncias que verticalmente se associam. Ao mesclar as esta&ccedil;&otilde;es, o salto &eacute; ainda mais fundo. De tal maneira que dessa colet&acirc;nea pode-se dizer que nas est&oacute;rias que ele re&uacute;ne tamb&eacute;m constr&oacute;i-se uma hist&oacute;ria dentro da Hist&oacute;ria: a revolu&ccedil;&atilde;o interna desenvolvida no plano da escrita detonou uma crise que atingiria o cora&ccedil;&atilde;o do Imp&eacute;rio. Refiro-me, evidentemente, ao tristemente c&eacute;lebre epis&oacute;dio da premia&ccedil;&atilde;o do livro e do fechamento da Sociedade Portuguesa dos Escritores pelo Estado Novo em 1965.</p>      <p>Acerca do concurso, Michel Laban, em volume chamado <i>Luandino</i>, inclui um esclarecedor artigo de Manuel Ferreira e depoimentos de Jorge de Sena e Ferreira de Castro que integraram o recurso judicial interposto por Edi&ccedil;&otilde;es 70 quando da apreens&atilde;o do livro (Laban, 1980). Interessa-nos aqui recordar um de seus sinistros complementos: o programa da R&aacute;dio Televis&atilde;o Portuguesa, produzido para legitimar a indigna&ccedil;&atilde;o do regime diante da escolha de <i>Luuanda</i> pelo j&uacute;ri. Moderado por Jos&eacute; Mensurado, um funcion&aacute;rio da RTP, do programa participaram Am&acirc;ndio C&eacute;sar (autor, entre outros do volume <i>Contos da Literatura Ultramarina</i>), Jos&eacute; Redinha (etn&oacute;logo radicado em Angola) e dois escritores angolanos residentes em Portugal: Geraldo Bessa Victor e M&aacute;rio Ant&oacute;nio (que havia, inclusive, integrado a famosa <i>Gera&ccedil;&atilde;o da Mensagem</i>). A inten&ccedil;&atilde;o dos promotores do programa era inequ&iacute;voca: desqualificar literariamente o livro e, com isso, comprovar o car&aacute;ter provocat&oacute;rio da premia&ccedil;&atilde;o apenas que teria merecido as respostas que o poder lhe impusera.</p>      <p>Com a legitimidade de homens ligados &agrave; cultura e a Angola, os intelectuais cumpriram o papel que os representantes da ditadura salazarista e colonialista lhes tinham confiado. Foram enf&aacute;ticos na desqualifica&ccedil;&atilde;o da obra, contrariando a opini&atilde;o de v&aacute;rios cr&iacute;ticos portugueses como Luisa Dacosta, Alexandre Pinheiro Torres e Urbano Tavares Rodrigues, que pela imprensa haviam saudado o aparecimento do livro. Asseguravam dessa maneira apoio &agrave; tese defendida pelo governo de que a atribui&ccedil;&atilde;o do pr&ecirc;mio a um &#8216;terrorista&#8217; era a express&atilde;o de um ato pol&iacute;tico que urgia combater.</p>      <p>Deixando de lado as quest&otilde;es &eacute;ticas que a posi&ccedil;&atilde;o implicava, podemos nos ater ao pronunciamento de alguns membros para confirmarmos a for&ccedil;a da proposta art&iacute;stica das narrativas. Curiosa e ironicamente, em sua diatribe contra o volume, Bessa Victor, oferece-nos elementos que apontam a energia renovadora da obra. Em sua avalia&ccedil;&atilde;o, tratava-se de um atentado &agrave; l&iacute;ngua portuguesa. O escritor, que por raz&otilde;es imperiais, tamb&eacute;m tem seu nome na hist&oacute;ria das letras angolanas, alertava para a mudan&ccedil;a no comportamento do autor:</p>      <blockquote>    <p>Mas a partir de 61, em 61 e em 62, ele passa a escrever de outra forma, no livro que depois se publica em 63, 64. Como &eacute; poss&iacute;vel que um escritor, embora jovem, mas que andou a vida a escrever numa linguagem tradicional da literatura portuguesa, passe de repente a escrever de outra forma, como se v&ecirc;, por exemplo, por esse apontamento? Ele passou a escrever assim: "Vou p&ocirc;r a est&oacute;ria com bicho e pessoa. N&atilde;o posso jurar s&oacute; verdade mesmo, n&atilde;o assisti os casos como se passaram." (Laban, 1991: 920)</p></blockquote>      <p>Estava, naturalmente, certa a avalia&ccedil;&atilde;o de Bessa Victor. Recorrendo &agrave; sabedoria popular, poder&iacute;amos dizer que ao atirar no que viu, ele acerta no que n&atilde;o viu. No que talvez n&atilde;o tenha querido ver. T&atilde;o surpreendido e irritado, julgou defici&ecirc;ncia o que se afirmou como marca de qualidade. Mostrou-se incapaz de perceber o alcance da mudan&ccedil;a na profundidade das raz&otilde;es que teriam conduzido o escritor. Ou, quem sabe, desconfiou do significado da proposta e temeu convalidar. O que &eacute; certo &eacute; que efetivamente n&atilde;o p&ocirc;de pressentir que essa verdadeira tor&ccedil;&atilde;o &agrave; L&iacute;ngua Portuguesa seria objeto de muitos estudos. Reconhecendo a dimens&atilde;o da proposta, Irwin Stern indica, em artigo publicado em 1980, a abrang&ecirc;ncia dos procedimentos adotados pelo autor. O movimento quebrava a espinha dorsal da l&iacute;ngua imperial e a refazia literariamente em jogos de aproxima&ccedil;&atilde;o com idiomas africanos. A aproxima&ccedil;&atilde;o com o quimbundo &eacute; um dos instrumentos e se d&aacute; n&atilde;o apenas na utiliza&ccedil;&atilde;o de voc&aacute;bulos, como monandengue, cassumbula, mataco, etc.. Ela &eacute; mais profunda no dom&iacute;nio l&eacute;xico-sem&acirc;ntico, com "o uso do processo de reduplica&ccedil;&atilde;o, comum &agrave;s l&iacute;nguas africanas para exprimir o conceito superlativo de &#8216;muito&#8217; (por exemplo, &#8216;muito velho&#8217;)" (Stern, 1980: 195). No campo morfol&oacute;gico, pode-se notar a utiliza&ccedil;&atilde;o de morfemas do portugu&ecirc;s para registrar a ideia do infinitivo e outros tempos na conjuga&ccedil;&atilde;o em verbos que v&ecirc;m do quimbundo, como <i>xacatar</i>.</p>      <p>A verticalidade da proposta se evidencia no dom&iacute;nio da sintaxe. Porque reflete uma outra maneira de ordenar a linguagem, portanto, atualiza uma outra maneira de ordenar o mundo. &Eacute; a&iacute;, como se v&ecirc; no exemplo destacado por Bessa Victor que o problema ganha for&ccedil;a. "N&atilde;o posso jurar s&oacute; verdade" &eacute; constru&ccedil;&atilde;o que escapa completamente &agrave; norma e sugere um outro sistema. No conjunto desses gestos, Stern v&ecirc; o fen&ocirc;meno da "acultura&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica" (<i>Idem</i>, 193). Contudo, tendo em conta a consci&ecirc;ncia do gesto, o conceito de transcultura&ccedil;&atilde;o na linha de Rama e Ortiz, tamb&eacute;m utilizado por Mary-Louise Pratt, parece mais adequado.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O choque provocado pelo trabalho de Luandino irritou a oficialidade. Toda a f&uacute;ria do poder e a cumplicidade de quem n&atilde;o p&ocirc;de ou n&atilde;o quis saudar o novo manifestaram-se refletindo o cinzento panorama daqueles anos. A atitude liter&aacute;ria do escritor angolano maculava a l&iacute;ngua, manchando portanto uma das bases do sagrado imperial. Nas palavras de Salvato Trigo:</p>      <blockquote>    <p>Carnavalizando a norma social da l&iacute;ngua portuguesa transposta para Angola, o escritor procura minar, em surdina, a sociedade que a institucionaliza e, consequentemente, a ideologia que a sustenta. O seu discurso torna-se, portanto, separatista e as suas obras assumem-se como subsidi&aacute;rias de um combate pol&iacute;tico-institucional travado noutras frentes. (Trigo, 1980: 241)</p></blockquote>      <p>Sob o foco de muitos olhares desde o lan&ccedil;amento de suas primeiras narrativas, a linguagem do escritor angolano permanece inquietando os leitores e fazendo emergir instigantes reflex&otilde;es a respeito. Em <i>A dupla tradu&ccedil;&atilde;o do outro cultural em Luandino Vieira</i>, Concei&ccedil;&atilde;o Lima explora o que chama de maleabilidade na l&iacute;ngua em que o autor cria suas est&oacute;rias (Lima, 2009: 50), constatando que:</p>      <blockquote>    <p>Da altern&acirc;ncia entre o normativo e o criativo, surgem materiais lingu&iacute;sticos e estil&iacute;sticos inovadores; sintaxe popular, cal&atilde;o de Luanda, arca&iacute;smos, quimbundismos, e, sobretudo, neologismos. Ao criar uma l&iacute;ngua dentro da l&iacute;ngua, o escritor exprime a sensibilidade de um povo n&atilde;o europeu. (<i>Idem</i>, 51)</p></blockquote>      <p>No gesto de Luandino patenteavam-se ind&iacute;cios de um projeto, &agrave; &eacute;poca revolucion&aacute;rio, de construir uma ideia de na&ccedil;&atilde;o. Se hoje, como alertam tantos, do nacionalismo podemos apreender faces perigosas e at&eacute; insuficientes ou improdutivas para a constitui&ccedil;&atilde;o das utopias, n&atilde;o podemos esquecer que entre o fardo do homem negro, na curiosa formula&ccedil;&atilde;o de Basil Davidson, precisamos computar a necessidade de investir em processos que outras partes do mundo j&aacute; podiam colocar em discuss&atilde;o. O conceito de na&ccedil;&atilde;o &eacute; um deles. Empenhado na consolida&ccedil;&atilde;o dessa &#8216;comunidade imaginada&#8217;, na conhecida formula&ccedil;&atilde;o de Anderson, Luandino ancora na tradi&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria de Angola sua busca e investe numa rela&ccedil;&atilde;o produtiva com a elite que o precedeu:</p>      <blockquote>    <p>E percebi que o gesto quase involunt&aacute;rio de alterar a l&iacute;ngua portuguesa que me acontecia quando as punha a falar, era o caminho para as tornar cred&iacute;veis. A linguagem dos bairros populares onde cresci, era parte integrante e definidora da identidade das minhas personagens e portanto, o caminhar por a&iacute;. Essas personagens j&aacute; estavam na literatura angolana: desde os finais do s&eacute;culo XIX em romances e depois em contos, por exemplo, de Corchat Os&oacute;rio, de A. Jacinto e j&aacute; havia neles tamb&eacute;m a introdu&ccedil;&atilde;o de outras l&iacute;nguas e arranjos no portugu&ecirc;s. S&oacute; que estas personagens nunca tinham sido personagens centrais, isto &eacute;, aquelas em fun&ccedil;&atilde;o das quais tudo se articula. (Vieira <i>in</i> Ribeiro, 2006)</p></blockquote>      <p>Na inten&ccedil;&atilde;o e nos gestos, desenha-se a coer&ecirc;ncia do projeto. A aproxima&ccedil;&atilde;o entre narrador e personagens, que j&aacute; pod&iacute;amos detectar em <i>A vida verdadeira de Domingos Xavier</i>, em <i>Luuanda</i> evidencia-se, traduzindo uma cumplicidade que se manifesta para al&eacute;m das p&aacute;ginas publicadas. Compreendendo que a proposi&ccedil;&atilde;o de um novo ponto de vista para a leitura da hist&oacute;ria exigia procedimentos consent&acirc;neos, Luandino percebe que povoar a linguagem dos personagens dos romances com palavras t&iacute;picas n&atilde;o s&oacute; seria insuficiente como os reduziria ao terreno do pitoresco. Convert&ecirc;los em passageiros de ilhas idiom&aacute;ticas lhes encolheria a carga de humanidade que neles era fundamental reconhecer, inclusive como resposta ao universo de valores disseminados pela literatura colonial. Tratava-se efetivamente de romper o inaceit&aacute;vel, do seu ponto de vista, isto &eacute;, a hierarquia entre os personagens e o autor situado acima de suas criaturas.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Procurando a ruptura como chave de um processo criativo, sem pretender dissociar-se do universo dos exclu&iacute;dos que elege como referencia do mundo a ser criado na forma de um novo pa&iacute;s, que deve surgir da supera&ccedil;&atilde;o da cadeia colonial, Luandino n&atilde;o renuncia ao di&aacute;logo com o que se fazia e se pensava noutros espa&ccedil;os culturais. Tribut&aacute;ria da literatura que desde o s&eacute;culo XIX se fazia em Angola, sua obra tamb&eacute;m encontrar&aacute; espa&ccedil;o para um di&aacute;logo que, de Jorge Amado a James Joyce, incorpora a energia que vai buscar em autores como Shakespeare, Vieira, Cam&otilde;es... O enraizamento africano dialeticamente se comp&ocirc;s com as marcas de outros c&oacute;digos culturais.</p>      <p>Passados tantos anos e vencidas tantas crises, renovadas outras, o projeto nacional em Angola permanece em processo. E podemos, pela an&aacute;lise da realidade de sua popula&ccedil;&atilde;o, reunir raz&otilde;es para p&ocirc;r em discuss&atilde;o a justeza dos caminhos escolhidos. Os trilhos da pol&iacute;tica n&atilde;o lograram as metas prometidas pelas sedutoras palavras de ordem, &eacute; fato. Entretanto as curvas sinuosas da literatura se redesenham sugerindo uma dose muito mais luminosa de acerto. Em se tratando de Luandino e de sua <i>Luuanda</i>, alguns testemunhos parecem dar conta da profundidade das escolhas do escritor. A renova&ccedil;&atilde;o que prop&ocirc;s e atualizou, e ganha for&ccedil;a nos livros que voltou a escrever, revela que para Luandino Vieira distanciar-se de um certo conglomerado social implicou a institui&ccedil;&atilde;o de um outro e, assim, criar novas dire&ccedil;&otilde;es para um projeto liter&aacute;rio iniciado ainda no s&eacute;culo XIX. Inscrevendo-se numa linhagem particular, ele trai a elite a que, por crit&eacute;rios de origem e ra&ccedil;a, deveria pertencer, e faz da pr&oacute;pria recusa um m&eacute;todo para sua forma&ccedil;&atilde;o. Desse modo, ele pode alimentar outra tradi&ccedil;&atilde;o. &Eacute; o que podemos aferir na declara&ccedil;&atilde;o de um outro escritor, tamb&eacute;m ele nascido fora de Angola, tamb&eacute;m ele passageiro de uma especial viagem na dire&ccedil;&atilde;o de um destino. Falo de Ruy Duarte de Carvalho que declara:</p>      <blockquote>    <p>Com a carga emotiva de um sobressalto e de um sublime encontro, a um livrinho que dois ou tr&ecirc;s anos antes, em 1963, tinha por dois ou tr&ecirc;s dias aparecido &agrave; venda em Luanda. O livrinho em quest&atilde;o chamava-se <i>Luuanda</i>, e era da autoria de Jos&eacute; Luandino Vieira. Ora a esse livrinho e a alguns versos de Viriato da Cruz e de Aires de Almeida Santos, bem como a algumas cr&ocirc;nicas de Ernesto Lara Filho, eu devo o golpe da consci&ecirc;ncia, pela via do arrepio, de uma alma angolana que ent&atilde;o em mim se veio acrescentar &agrave; consci&ecirc;ncia pr&eacute;via de uma raz&atilde;o angolana e foi respons&aacute;vel pela minha convers&atilde;o &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de Angolano. (Carvalho, 2006: 8)</p></blockquote>      <p>Se o passado &eacute; escrito pelo futuro, a fala de Ruy Duarte de Carvalho define a legitimidade de uma reinven&ccedil;&atilde;o que est&aacute; indiscutivelmente associada a uma hist&oacute;ria maior que a do pr&oacute;prio autor. Uma hist&oacute;ria que permanece repercutindo no presente e no passado de um pa&iacute;s. E que torna mais significativo o lugar da literatura na ordem e na desordem dos dias.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <!-- ref --><p>BHABHA, Homi (2001), <i>O local da cultura</i>. Belo Horizonte: Editora da UFMG.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000100&pid=S0807-8967201400030000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       <!-- ref --><p>BOSI, Alfredo (1980), <i>Hist&oacute;ria concisa da literatura brasileira</i>. S&atilde;o Paulo: Cultrix.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000102&pid=S0807-8967201400030000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>CARVALHO, Ruy Duarte de (2006), "Falas &amp; vozes fronteiras &amp; paisagens... &#8211; escritas, literaturas e entendimentos", <i>Setepalcos</i>, n.&ordm; 5, Coimbra: Cena Lus&oacute;fona.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000104&pid=S0807-8967201400030000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>FANON, Frantz (2010), <i>Os condenados da terra.</i> Juiz de Fora: Editora da UFJF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000106&pid=S0807-8967201400030000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>FERREIRA, Manuel (1980), <i>Luuanda</i> / Sociedade Portuguesa de Escritores &#8211; um caso de agress&atilde;o ideol&oacute;gica", in Michel Laban <i>et al</i>. (orgs.), <i>Luandino</i>. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000108&pid=S0807-8967201400030000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>JACINTO, Ant&oacute;nio (1985), <i>Poemas</i>. 2.&ordf; ed., Luanda: INALD.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000110&pid=S0807-8967201400030000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>LABAN, Michel <i>et al.</i> (orgs.) (1980), <i>Luandino</i>. <i>Jos&eacute; Luandino Vieira e a sua obra &#8211; estudos testemunhos, entrevistas.</i> Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000112&pid=S0807-8967201400030000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p> _____ (1991), <i>Angola &#8211; encontro com escritores</i>, 2 vols., Porto : Funda&ccedil;&atilde;o Eng. Ant&oacute;nio de Almeida.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000114&pid=S0807-8967201400030000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>LIMA, Concei&ccedil;&atilde;o (2009), <i>A dupla tradu&ccedil;&atilde;o do outro cultural em Luandino Vieira</i>. Lisboa: Colibri.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000116&pid=S0807-8967201400030000600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>MAC&Ecirc;DO, Tania (2008), <i>Luanda, cidade e literatura</i>. S&atilde;o Paulo: Editora da UNESP.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000118&pid=S0807-8967201400030000600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>PRATT, Mary-Louise (1999), <i>Os olhos do imp&eacute;rio</i>. <i>Relatos de viagem e transcultura&ccedil;&atilde;o</i>. Bauru: EDUSC.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000120&pid=S0807-8967201400030000600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>RAMA, Angel (2001), "Dez problemas para o romancista latino-americano". In Fl&aacute;vio Aguiar &amp; Sandra Vasconcelos (orgs.), <i>Angel Rama</i>. <i>Literatura e cultura na Am&eacute;rica Latina</i>. S&atilde;o Paulo: EDUSP.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000122&pid=S0807-8967201400030000600012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>RIBEIRO, Margarida Calafate (2006), "E agora Jos&eacute;, Luandino Vieira? An interview with Jos&eacute; Luandino Vieira", <i>Portuguese Literary &amp; Cultural Studies</i>, n&uacute;mero especial "Remembering Angola", 15/ 16, Fall / Spring, 2006, pp. 27-35.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000124&pid=S0807-8967201400030000600013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>SANTILLI, Maria Aparecida (1980), "A <i>Luuanda</i> de Luandino Vieira", in Michel Laban <i>et al</i>. (orgs.), <i>Luandino</i>. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000126&pid=S0807-8967201400030000600014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>STERN, Irwin (1980), "A novel&iacute;stica de Luandino Vieira: descoloniza&ccedil;&atilde;o ao n&iacute;vel do terceiro registro", in Michel Laban (org.), <i>Luandino</i>. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70.</p>      <p>TRIGO, Salvato. (1980), "O texto de Luandino Vieira", in Michel Laban <i>et al</i>. (orgs.) (1980), <i>Luandino</i>. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70.</p>      <!-- ref --><p>VIEIRA, Jos&eacute; Luandino (1985), <i>A cidade e a inf&acirc;ncia</i>. 3.&ordf; ed., Luanda: Uni&atilde;o dos Escritores Angolanos.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000130&pid=S0807-8967201400030000600017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p> _____ (1976), <i>Luuanda</i>. 5.&ordf; ed., Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000132&pid=S0807-8967201400030000600018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>&#091;Recebido em 8 de agosto de 2014 e aceite para publica&ccedil;&atilde;o em 15 de outubro de 2014&#093;</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p><sup><a href="#top1" name="1" >&#091;1&#093;</a></sup>Sess&atilde;o com o autor no evento intitulado "Balada Liter&aacute;ria", em novembro de 2007, na cidade de S&atilde;o Paulo.</p>       ]]></body><back>
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