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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>TRIBUTO A <i>LUUANDA</i></b></p>      <p><b>O Livro</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Ana Paula Tavares<sup><a href="#1" name="top1">&#091;1&#093;</a></sup></b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Era uma vez um livro. Era uma vez um livro e as suas tr&ecirc;s hist&oacute;rias. Era uma vez um livro e a cidade que o sustenta "tinha mais de dois meses a chuva n&atilde;o ca&iacute;a. Por todo os lados do musseque, os pequenos filhos do capim de Novembro estavam vestidos com pele de poeira vermelha espalhada pelos ventos" Era uma vez um livro. As marcas das falas dos arredores da cidade arrastam a linguagem para dizer das vidas dos gestos e das mem&oacute;rias. Mat&eacute;ria fr&aacute;gil e fugaz que o livro fixa. A palavra inaugura a&iacute; o seu reino imitando o gesto, o muxoxo, as falas das mais velhas e dos mi&uacute;dos.</p>       <p>"A porta inchada com a chuva, n&atilde;o entrou no caixilho dela. Bateu com for&ccedil;a uma vez, duas vezes, ficou depois a ranger, a chorar baixinho essa sa&iacute;da de Zeca. Vav&oacute; Xixi no meio da cubata escura e cheia de fumo mal soprado, olhava a sa&iacute;da do neto, segurando nas m&atilde;os a tremer as ra&iacute;zes de d&aacute;lia e abanando a cabe&ccedil;a num lado e noutro, sem mesmo dar conta, parecia era um boneco de montra de lotaria." (<i>Luuanda</i>, "Vav&oacute; Xixi e Seu Neto Zeca Santos")</p>      <p>Era uma vez um livro, suas est&oacute;rias, sua escrita que levanta voo na l&iacute;ngua portuguesa e se espalha por caminhos de outras l&iacute;nguas para contar as hist&oacute;rias com a verdade que &eacute; a verdade dos livros: "Minha est&oacute;ria. Se &eacute; bonita, se &eacute; feia, os que sabem ler &eacute; que dizem. Mas juro me contaram assim e n&atilde;o admito ningu&eacute;m que duvida de Dosreis, que tem mulher e dois filhos e rouba patos, n&atilde;o lhe autorizam trabalho honrado; de Garrido Kam&#8217;tuta, aleijado de paralisia, feito pouco at&eacute; por papagaio, de In&aacute;cia Domingas, pequena saliente que est&aacute; a pensar criado de branco &eacute; branco&#8230; de Zuz&eacute;, auxiliar, que n&atilde;o tem ordem de ser bom, de Jo&atilde;o Via-R&aacute;pida, fumador de Liamba para esquecer o que sem est&aacute; a lembrar, de Jac&oacute;, coitado do papagaio de musseque, s&oacute; lhe ensinaram as asneiras e nem tem poleiro nem nada&#8230;</p>      <p>E isto &eacute; verdade, mesmo que os casos nunca tenham passado." (<i>Luuanda</i>, "Est&oacute;ria do ladr&atilde;o e do papagaio").</p>      <p>Era uma vez um livro, suas hist&oacute;rias, seus her&oacute;is sem comida, sem escola, mas a falar alto e a apropriar-se do espa&ccedil;o que lhes pertence num mundo fragmentado e injusto. Na contenda surgem e s&atilde;o nomeadas as verdades no teatro da vida e da luta. O espa&ccedil;o &eacute; a cidade de Luanda que as personagens atravessam dia ap&oacute;s dia a minar a sociedade quieta e branca na sua solenidade.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Era uma vez um livro que inaugura a festa da palavra que inicia assim uma tradi&ccedil;&atilde;o, a de visitar o lugar de outras palavras para dar not&iacute;cia do que se passa para al&eacute;m da fronteira do asfalto: gente que vive, adoece, celebra e chora. Aquilo que o colonialismo dividiu &eacute; posto em causa dentro e fora da moldura e a linguagem &eacute; eleita factor de perturba&ccedil;&atilde;o. Aprisionada pela escrita, ela unifica o espa&ccedil;o e o tempo do vivido e do liter&aacute;rio em busca de uma identidade que &eacute; da ordem da hist&oacute;ria.</p>      <p>"A est&oacute;ria da galinha e do ovo. Estes casos passaram no musseque Sambizanga, nesta nossa terra de Luanda" (<i>Luuanda</i>, "Est&oacute;ria da galinha e do ovo")</p>      <p>Era uma vez um livro que fez a sua pr&oacute;pria est&oacute;ria: quando consolida a prosa angolana, d&aacute; conta de um projeto est&eacute;tico a cumprir-se numa dada geografia e n&atilde;o permite que o compromisso ideol&oacute;gico fragilize a import&acirc;ncia do texto.</p>      <p>Era uma vez um livro e suas est&oacute;rias.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p><sup><a href="#top1" name="1" >&#091;1&#093;</a></sup><b>Ana Paula Tavares</b> &eacute; reconhecida escritora angolana, sobretudo poeta, embora tamb&eacute;m se tenha dedicado &agrave; cr&oacute;nica e &agrave; prosa. Licenciada em hist&oacute;ria pela Faculdade de Letras de Lisboa (1982), &eacute; Mestre em Literatura Africana pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo-se doutorado em 2010. Foi a coordenadora do Gabinete de Investiga&ccedil;&atilde;o do Centro Nacional de Documenta&ccedil;&atilde;o Hist&oacute;rica, em Luanda, entre 1983 e 1985 e foi Diretora do Gabinete T&eacute;cnico da Secretaria de Estado da Cultura, tamb&eacute;m em Luanda, de 1987 a 1991. Em 1985, publicou a sua primeira antologia de poesia, <i>Ritos de Passagem </i>(1985). Enquanto membro da Uni&atilde;o de Escritores Angolanos, fez parte do j&uacute;ri do Pr&eacute;mio Nacional de Literatura de Angola de 1988 a 1990. Publicou as antologias de poesia <i>O Lago da Lua </i>(1999); <i>Dizes-me coisas amargas como os frutos </i>(2001), <i>Ex-Votos </i>(2003) e Manual <i>para Amantes Desesperados </i>(2007). Em prosa, publicou <i>A Cabe&ccedil;a de Salom&eacute; </i>(2004) e, com Manuel Jorge Marmelo, <i>O Homem que chorava no Rio </i>(romance, 2005). Participou ainda em v&aacute;rias antologias de contos, onde explora a faceta de prosadora e a sua obra est&aacute; traduzida em v&aacute;rias l&iacute;nguas. <i>O Sangue da buganv&iacute;lia </i>(cr&oacute;nicas, 1998) re&uacute;ne a sua participa&ccedil;&atilde;o em programas radiof&oacute;nicos. Como historiadora fez um valioso trabalho de compila&ccedil;&atilde;o e organiza&ccedil;&atilde;o de textos sobre a hist&oacute;ria de Angola a partir do esp&oacute;lio que se encontra em Portugal, na Torre do Tombo. Publica em 2010, <i>Como Veias Finas na Terra, </i>a sua sexta antologia po&eacute;tica, e em 2011, <i>Amargos como os frutos. Poesia reunida </i>(edi&ccedil;&atilde;o brasileira).</p>      <p>Ganhou o Pr&eacute;mio M&aacute;rio Ant&oacute;nio de Poesia 2004, da Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian e, em 2006, o Pr&eacute;mio Nacional de Cultura e Artes de Angola. Em 2013 ganhou o Pr&eacute;mio Liter&aacute;rio Internacional Ceppo Bigongiari, promovido pela comunidade de Pistoia, Toscana.</p>        ]]></body>
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