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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O rosto da linha Ana Hatherly]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[There is an affinity between the line of writing and the line of drawing solely revealed through its kinship. There is no other way of expressing this relationship, we are aware of it by an immediate acknowledgement. Thus, one spans a new horizon to the line, the feeling, which puts us before writing or drawing. To Portuguese artist and poet Ana Hatherly, who in the early sixties initiated a singular course through the inner aspects of writing, the fibril line loses its writing feature, but still retains the word’s guise. In some of her visual poems, writing loses its sovereignty at the erosion of all which funds it, and depiction takes the lead. Ana Hatherly undertakes the "listening of the matter" and appeals to the "reinvention of writing".]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Desenho]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>VARIA</b></p>      <p><b>O rosto da linha Ana Hatherly</b></p>      <p><b>The face of the line Ana Hatherly</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Joana Batel*</b></p>      <p>*Instituto de Filosofia da Linguagem, Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Portugal.</p>      <p><a href="mailto:joanabatel@yahoo.com">joanabatel@yahoo.com</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>RESUMO</b></p>      <p>Entre a linha da escrita e a linha do desenho existe uma afinidade s&oacute; descoberta pela sua rela&ccedil;&atilde;o de parentesco. De outro modo, essa rela&ccedil;&atilde;o &eacute; inexprim&iacute;vel, conquanto saibamos dela por um reconhecimento imediato. Abre-se, assim, um novo horizonte para a linha, a saber, do sentimento que nos coloca diante da escrita ou do desenho.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Para a artista e poeta portuguesa Ana Hatherly, que em meados dos anos 60 inicia um percurso singular pela interioridade da escrita, a linha fibrilar perde o seu rosto de escrita, mas conserva ainda a m&aacute;scara da palavra. Em alguns dos seus poemas visuais a escrita perde a sua soberania na deris&atilde;o de tudo aquilo que a funda e a imagem toma a dianteira. Ana Hatherly procede &agrave; "escuta da mat&eacute;ria" e apela &agrave; "reinven&ccedil;&atilde;o da escrita".</p>      <p><b>Palavras chave</b>: Desenho, escrita-imagem, configura&ccedil;&atilde;o, s&iacute;ntese, cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>ABSTRACT</b></p>      <p>There is an affinity between the line of writing and the line of drawing solely revealed through its kinship. There is no other way of expressing this relationship, we are aware of it by an immediate acknowledgement. Thus, one spans a new horizon to the line, the feeling, which puts us before writing or drawing.</p>     <p>To Portuguese artist and poet Ana Hatherly, who in the early sixties initiated a singular course through the inner aspects of writing, the fibril line loses its writing feature, but still retains the word&#8217;s guise. In some of her visual poems, writing loses its sovereignty at the erosion of all which funds it, and depiction takes the lead. Ana Hatherly undertakes the "listening of the matter" and appeals to the "reinvention of writing".</p>      <p><b>Keywords</b>: Drawing, writing-image, set, synthesis, artistic creation..</p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="right"><i>O decifrador de imagens</i></p>     <p align="right"><i>persegue um fantasma de vest&iacute;gios</i></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><i>como Ulisses amarrado</i></p>     <p align="right"><i>ao querer do conhecer</i></p>     <p align="right"><i>A descoberta &eacute; inven&ccedil;&atilde;o</i></p>      <p align="right"><i>provis&oacute;ria: as vozes n&atilde;o se v&ecirc;em</i></p>     <p align="right"><i>o que se v&ecirc; n&atilde;o se</i></p>      <p align="right"><i>ouve A imagina&ccedil;&atilde;o</i></p>     <p align="right"><i>ergue-se do arrepio da</i></p>      <p align="right"><i>sombra guerrilha entre</i></p>      <p align="right"><i>par&ecirc;nteses ergue-se da</i></p>      <p align="right"><i>constante chacina</i></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><i>procurando outra coisa</i></p>     <p align="right"><i>outra causa outro lado do ver.</i></p>      <p align="right">Ana Hatherly, <i>O Pav&atilde;o Negro</i></p>      <p>Quando, em meados dos anos 60, Ana Hatherly iniciou o estudo de um dicion&aacute;rio de ingl&ecirc;s-chin&ecirc;s que compreendia uma sec&ccedil;&atilde;o dedicada ao chin&ecirc;s arcaico, levantou a ponta de um v&eacute;u cheio de <i>p&oacute;</i> e <i>civiliza&ccedil;&atilde;o</i>.<sup><a href="#1" name="top1">&#091;1&#093;</a></sup> No texto que apresenta em <i>Mapas da Imagina&ccedil;&atilde;o e da Mem&oacute;ria</i>, Hatherly (1973) relata esse estudo come&ccedil;ando por destacar a disciplina que a levou, num primeiro momento, a transcrever os caracteres, com o maior rigor, repetindo o gesto at&eacute; que este se tornasse natural. A instru&ccedil;&atilde;o da m&atilde;o &eacute; feita pela repeti&ccedil;&atilde;o dos movimentos, na compreens&atilde;o da sua press&atilde;o sobre a caneta de feltro e o seu deslize na folha de papel, a descoberta da ordem dos tra&ccedil;os e as suas deriva&ccedil;&otilde;es e fus&otilde;es na constru&ccedil;&atilde;o dos caracteres. A escolha da ponta de feltro s&oacute; pode recair pela semelhan&ccedil;a formal do tra&ccedil;o quando comparado com o pincel, por&eacute;m, na sua rigidez, aproxima-se das canetas normais, seja a esferogr&aacute;fica, seja a <i>rotring</i>, ou mesmo das canetas de bambu usadas com tinta-da-china. A artista confessa-se "fascinada e obcecada" com o engenho da m&atilde;o, da forma como ela assume "gratuitamente" as direc&ccedil;&otilde;es, circularidades, as velocidades da escrita sem resist&ecirc;ncia, a n&atilde;o ser as primeiras ansiedades pr&oacute;prias da aprendizagem.<sup><a href="#2" name="top2">&#091;2&#093;</a></sup> A autonomia em rela&ccedil;&atilde;o aos modelos da c&oacute;pia, aos caracteres desenhados, primeiro a pulso e depois num sopro, &eacute; surpreendentemente r&aacute;pida. Mas tudo isto aponta para um estudo morfol&oacute;gico dos caracteres e nunca para a aprendizagem da l&iacute;ngua, que ali&aacute;s, a artista nunca aprendeu.</p>      <p>Na verdade, sendo Ana Hatherly artista e poeta, de imediato assalta-nos a quest&atilde;o: mas como pode um poeta recusar ouvir o canto de uma l&iacute;ngua? Nos desenhos de <i>Mapas da Imagina&ccedil;&atilde;o e da Mem&oacute;ria</i>, Hatherly parece renunciar a uma voz que a chama. A artista prefere entusiasmar-se apenas com o desenho da escrita que, na sua visualidade antropom&oacute;rfica, balbucia sons parecidos &agrave;s figuras que as formas parecem suscitar (Figuras <a href="#f1">1 e 2</a>).</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="f1"> <img src="/img/revistas/dia/v28n3/28n3a22f1.jpg">     
<p>&nbsp;</p>      <p>A artista n&atilde;o &eacute; indiferente &agrave; l&iacute;ngua que escreve, mas &#8216;escuta na sua mat&eacute;ria&#8217; uma outra voz que ecoa das profundezas negras dos tra&ccedil;os, das imagens que deles imaginamos. O gesto "inteligente" que se d&aacute; gratuitamente &agrave; escrita, envolve-se dessas resson&acirc;ncias, e desenha escrevendo (nesses <i>poemas visuais</i>), n&atilde;o dizendo nada, mas soando sempre qualquer coisa (<a href="#f2">Figura 3</a>).</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="f2"> <img src="/img/revistas/dia/v28n3/28n3a22f2.jpg">     
<p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ana Hatherly, poeta, encontra uma outra poesia, feita ainda de signos e sons, que n&atilde;o sendo os da escrita, os das palavras, s&atilde;o das coisas para as quais as formas apontam. Num desenho de 1970 (<a href="#f3">Figura 4</a>), podem-se ver pequenos tra&ccedil;os negros como corpos, antropom&oacute;rficos que se acumulam em multid&otilde;es frementes formando uma mancha, que n&atilde;o &eacute; de texto, mas que &eacute; ainda da narrativa, porque parece contar a hist&oacute;ria daquela gente ali reunida, numa conversa muda.</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="f3"> <img src="/img/revistas/dia/v28n3/28n3a22f3.jpg">     
<p>&nbsp;</p>      <p>Este cruzamento, que torna quase indistinta a rela&ccedil;&atilde;o entre a mancha do desenho e a mancha do texto, revela uma compreens&atilde;o muito n&iacute;tida do esfor&ccedil;o necess&aacute;rio para as separar e classificar. Em v&aacute;rios desenhos, de que este faz parte, parece sempre sentir-se, a todo o momento, a decomposi&ccedil;&atilde;o do grafismo quer da escrita quer do desenho, pois a reciprocidade entre ambos n&atilde;o cessa. Nestes poemas visuais, Ana Hatherly toca no mais fundo da inscri&ccedil;&atilde;o, a artista provoca a estranheza quando recupera a mat&eacute;ria de que s&atilde;o feitos os signos, quando busca a sua raiz imag&eacute;tica, mas tamb&eacute;m da natureza lingu&iacute;stica dos tra&ccedil;os, nas inclina&ccedil;&otilde;es, extens&otilde;es e contrac&ccedil;&otilde;es, e, ao recuar a esses tempos indefinidos em que a escrita e o desenho se aliavam numa &uacute;nica linguagem, faz ressurgir o problema da distin&ccedil;&atilde;o e alcance de uma e outro.</p>      <p>A inscri&ccedil;&atilde;o tem o seu paralelo em toda a cria&ccedil;&atilde;o humana, a cria&ccedil;&atilde;o de uma cultura, dado que nela aquilo que n&atilde;o tem corpo, aquilo que faz parte do pensamento, da imagina&ccedil;&atilde;o, do sonho, passa a existir, no momento em que &eacute; visto atrav&eacute;s da imagem. Essa visibilidade transforma esse pensamento em coisa, em mat&eacute;ria f&iacute;sica inscrita na pedra, na areia, no papel.<sup><a href="#3" name="top3">&#091;3&#093;</a></sup> Isto significa que, pelos riscos e incis&otilde;es, ganham vida coisas que de outra forma n&atilde;o t&ecirc;m exist&ecirc;ncia. Os animais sulcados na pedra n&atilde;o apresentam aquilo que j&aacute; existe na natureza: o veado, o auroque, a cabra; antes, fazem aparecer aquilo que o homem deseja deles: a abund&acirc;ncia, o dom&iacute;nio, a distin&ccedil;&atilde;o. O que se torna vis&iacute;vel e, por consequ&ecirc;ncia, concreto &eacute; aquilo que antagonicamente &eacute;, em absoluto, abstracto. O desenho e a escrita reflectem e projectam a experi&ecirc;ncia da abstrac&ccedil;&atilde;o e aquilo que os distingue ser&aacute;, porventura, a capacidade m&aacute;xima de dar exist&ecirc;ncia &#8211; e disso comunicar &#8211; &agrave;quilo que s&oacute; existe no pensamento e na imagina&ccedil;&atilde;o. Ana Hatherly atua nesse grau de indefini&ccedil;&atilde;o onde s&oacute; se sabe, de facto, que se est&aacute; diante de uma imagem que comunica algo que est&aacute; para l&aacute; da realidade f&iacute;sica da sua natureza visual. A artista age &#8216;entre&#8217; o discernimento da escrita e o do desenho, e desse &#8216;entre&#8217; (infra-fino?) destaca o exerc&iacute;cio de entendimento e separa&ccedil;&atilde;o dos dois modos de inscri&ccedil;&atilde;o. Hatherly p&otilde;e a nu o que Goethe aponta ser o <i>Aper&ccedil;u</i>.</p>      <p>Tomando a forma geral de um objecto &#8211; escrita num conceito, ou desenhada num s&iacute;mbolo &#8211;, esta forma geral re&uacute;ne todos os poss&iacute;veis contornos, escritas, configura&ccedil;&otilde;es, desse objeto, j&aacute; conhecidos pelo sujeito e outros tantos contornos, escritas, configura&ccedil;&otilde;es, que esse sujeito pode imaginar por conformidade.<sup><a href="#4" name="top4">&#091;4&#093;</a></sup> Tomemos, a t&iacute;tulo de exemplo, o car&aacute;cter chin&ecirc;s: ao reconhecermos na figura do car&aacute;cter a geografia da l&iacute;ngua para que aponta &#8211; chin&ecirc;s ou japon&ecirc;s &#8211;, assinalamos na sua silhueta todo o idioma chin&ecirc;s, como se os seus diferentes desenhos, independentemente das suas caracter&iacute;sticas, coubessem naquela figura que se torna s&uacute;mula de todas as formas em que o car&aacute;cter pode aparecer. Nesse sentido, nessa figura a forma tem um contorno universal, &eacute; um esbo&ccedil;o no qual todas as formas semelhantes que apontam para esse esbo&ccedil;o tomam parte nele. Este processo de reconhecimento daquilo que une todas as formas poss&iacute;veis de uma coisa s&oacute; pode acontecer quando o homem "deixa cair" as imagens, "uma sobre outra" (tal como Kant esclarece no &sect;17 da <i>Cr&iacute;tica da Faculdade do Ju&iacute;zo</i>), de todas as formas dessa mesma coisa deixando apenas aquilo que &eacute; coincidente e que configura o que se pode chamar uma <i>forma ideal</i>, que, para Goethe, seria a forma original e a matriz de todas as outras.<sup><a href="#5" name="top5">&#091;5&#093;</a></sup> Esta forma original parece &#8216;pairar&#8217; entre todas as formas que dev&ecirc;m dela; ela gravita, &#8216;flutua&#8217; entre todas as formas, n&atilde;o chegando nunca a realizar-se plenamente num &uacute;nico "indiv&iacute;duo" (Molder, 1995: 332). A imagem origin&aacute;ria &eacute; o "tra&ccedil;ado vis&iacute;vel"<sup><a href="#6" name="top6">&#091;6&#093;</a></sup> desse desejo do <i>nexus rerum</i>, de conex&atilde;o de cada coisa com cada coisa; &eacute; uma apari&ccedil;&atilde;o que ultrapassa as formas concretas da natureza.<sup><a href="#7" name="top7">&#091;7&#093;</a></sup></p>      <p>&Eacute; certo que o nosso exemplo dos caracteres pertence j&aacute; a esse reino da imagina&ccedil;&atilde;o, i.e., desenho e escrita s&atilde;o j&aacute; imagens criadas pelo homem, produzidas pela sua imagina&ccedil;&atilde;o e entendimento, por&eacute;m, ao indagarmos sobre o que acontece entre a escrita e o desenho e que nos permite separ&aacute;-los, damos conta de que existe algo que ultrapassa a sua natureza concreta (visual) e imag&eacute;tica, que tem que ver precisamente com essa "imagem pairante" (Kant) e que diferencia cada uma.<sup><a href="#8" name="top8">&#091;8&#093;</a></sup> Assim, o reconhecimento de um car&aacute;cter e a sua diferen&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o ao desenho n&atilde;o est&aacute; nunca compreendida na raz&atilde;o sem&acirc;ntica, mas na capacidade de o car&aacute;cter expressar a sua condi&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica e do desenho fundar a sua visualidade.</p>      <p>Na senda de Ana Hatherly, consideremos um sinal que n&atilde;o corresponda &agrave; l&iacute;ngua chinesa (<a href="#f4">Figura 5</a>).</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="f4"> <img src="/img/revistas/dia/v28n3/28n3a22f4.jpg">     
<p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Quem n&atilde;o conhece esta l&iacute;ngua, tomar&aacute; o car&aacute;cter por verdadeiro, pois encontra nele uma correla&ccedil;&atilde;o com todos os outros caracteres vistos e apreendidos, e encontrando essas resson&acirc;ncias admite nele a dimens&atilde;o lingu&iacute;stica. Tal ocorre porque essa correla&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se baseia nunca na exist&ecirc;ncia de um significado para aquele sinal, mas pela for&ccedil;a imag&eacute;tica que aquele desenho possui para se apresentar como car&aacute;cter. N&atilde;o se trata aqui de <i>fazer passar gato por lebre</i>, mas de perceber que na impossibilidade de ter presente todas as imagens do objecto, neste caso de todos os caracteres existentes e tamb&eacute;m na impossibilidade de reter tudo aquilo que lhes &eacute; &uacute;nico e distinto, o entendimento desse mesmo objecto / car&aacute;cter, tende naturalmente a devolv&ecirc;-lo na sua forma hol&iacute;stica e determinante. Inversamente, essa mesma forma geral promove a coincid&ecirc;ncia com outras semelhantes, dando lugar &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de sentidos, de liga&ccedil;&otilde;es. Ana Hatherly n&atilde;o nos tenta enganar dando-nos escritas falsas. O que a artista procura &eacute;, antes, levar ao extremo esse grau de confian&ccedil;a que separa o desenho da escrita e o desenho do desenho, e f&aacute;-lo de tal forma que, mesmo reconhecendo n&atilde;o se tratar de meros caracteres ou palavras, a todo o momento, os tra&ccedil;os apontam para os caracteres, bem como a sua presen&ccedil;a pl&aacute;stica os confunde no desenho (<a href="#f1">Figura 2</a>). Os tra&ccedil;os negros h&aacute; muito perderam o seu rosto de escrita, mas conservam ainda a <i>m&aacute;scara</i> do car&aacute;cter, a <i>m&aacute;scara</i> da palavra.</p>      <p>Todavia, o estudo de Ana Hatherly ganha maior clarivid&ecirc;ncia quando a pr&oacute;pria afirma n&atilde;o lhe interessar a aprendizagem da l&iacute;ngua chinesa, nem o desenho dos seus caracteres, mas, sim, proceder a uma "investiga&ccedil;&atilde;o do idioma art&iacute;stico" (Hatherly, 1992: 75). Esta defini&ccedil;&atilde;o, que remete para a possibilidade de um <i>idioma art&iacute;stico</i>, tenta de imediato localizar a cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica no cerne da compreens&atilde;o do mundo.<sup><a href="#9" name="top9">&#091;9&#093;</a></sup> A artista define o seu objecto de estudo no modo particular como compreendemos a natureza das coisas e situa as suas investiga&ccedil;&otilde;es na capacidade produtiva, formativa, dessa mesma compreens&atilde;o.<sup><a href="#10" name="top10">&#091;10&#093;</a></sup></p>      <p>Antes de iniciar a experimenta&ccedil;&atilde;o da escrita, primeiro com os caracteres chineses aos quais se juntaram depois outras geografias, da &Aacute;frica &agrave; Escandin&aacute;via, numa esp&eacute;cie de "investiga&ccedil;&atilde;o espeleol&oacute;gica" (Hatherly, 1973) &agrave;s profundezas da l&iacute;ngua, Ana Hatherly j&aacute; colocara num limbo a mancha gr&aacute;fica do texto, o desdobramento das linhas das palavras, a verosimilhan&ccedil;a da escrita. Partindo de um vilancete camoniano <i>Descal&ccedil;a vai para a fonte/ Leonor pela verdura/ Vai formosa e n&atilde;o segura</i>, a artista executa trinta e uma varia&ccedil;&otilde;es tem&aacute;ticas tendo em vista o desdobramento dos sons, a multiplica&ccedil;&atilde;o de sentidos, a reorganiza&ccedil;&atilde;o visual. O programa &eacute;-nos dado logo no in&iacute;cio, destinando procedimentos a cada uma das varia&ccedil;&otilde;es.<sup><a href="#11" name="top11">&#091;11&#093;</a></sup> N&atilde;o nos interessa analisar o conjunto desta investiga&ccedil;&atilde;o de Hatherly sen&atilde;o apenas a Varia&ccedil;&atilde;o XIX (<a href="#f5">Figura 6</a>) que revela a profundidade em que se joga o desdobramento e desmultiplica&ccedil;&atilde;o dos limites da inscri&ccedil;&atilde;o, onde se instala o in&iacute;cio da distin&ccedil;&atilde;o (ou indistin&ccedil;&atilde;o) do desenho e da escrita.</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="f5"> <img src="/img/revistas/dia/v28n3/28n3a22f5.jpg">     
<p>&nbsp;</p>      <p>Apresenta-se-nos, ent&atilde;o, uma mancha de texto que obedece &agrave; configura&ccedil;&atilde;o regular e tradicional de um espa&ccedil;o reservado &agrave; escrita, um espa&ccedil;o, na maioria das vezes, rectangular. Este espa&ccedil;o, a que comummente chamamos de mancha de texto, aponta j&aacute; para um espa&ccedil;o paradoxal, na medida em que lhe destacamos a sua gravidade, o seu car&aacute;cter <i>pluridimensional</i>, isto &eacute;, o texto feito de linhas torna-se mancha de cor atmosf&eacute;rica, com regi&otilde;es mais densas, nubladas e outras limpas. O texto mancha a folha com linhas <i>unidimensionais</i><sup><a href="#12" name="top12">&#091;12&#093;</a></sup> que ao cruzarem-se, encresparem, inclinarem, movimentam-se j&aacute; num espa&ccedil;o de m&uacute;ltiplas dimens&otilde;es. Mais ainda, uma mancha constitui-se pelo resplandecer, avivar, manifestar-se (o exemplo mais assertivo &eacute; curiosamente o <i>corar</i>), o que significa que a mancha de texto tem essa qualidade vivificante, o texto desperta, manifesta qualquer coisa. Ora, deste espa&ccedil;o textual saem alguns excessos formais, <i>perninhas</i> de supostas letras dando a ilus&atilde;o de fiapos, como se a moldura da escrita estivesse na imin&ecirc;ncia de se desfiar. A sua composi&ccedil;&atilde;o procura seguir as regras da escrita bustrof&eacute;dica (Hatherly, 2000: 170), ou seja, da organiza&ccedil;&atilde;o paralela das linhas de texto, imitando os regos abertos na terra pelo arado. Mas mesmo ela &eacute; assaltada pelo tumulto da sobreposi&ccedil;&atilde;o de linhas que provocam concentra&ccedil;&otilde;es gangrenosas, dando ao texto uma atmosfera tempestuosa. Seguimos, ent&atilde;o, para a sua leitura. A iniciar o texto, abre-se em estilo de letra capital, um grande L. Na sua senda desenrola-se o encadeamento fibrilar da linha das supostas palavras, no entanto, s&oacute; por um olhar demorado &eacute; poss&iacute;vel reconhecer, ou acreditar, na sismografia da palavra.</p>      <p>Em boa verdade, a escrita perde a sua soberania na deris&atilde;o de tudo aquilo que a funda. Tal como no programa delineado por Hatherly, sucede a "ininteligibilidade por semantiza&ccedil;&atilde;o visual absoluta" (Hatherly, 2001: 193); ou mais exactamente, aquilo que tem significado n&atilde;o s&atilde;o as palavras, mas as linhas, as suas irregularidades, vibra&ccedil;&otilde;es, em contrac&ccedil;&atilde;o ou expans&atilde;o. A leitura ocupa-se de dois pequenos rasgos que irrompem lateralmente na mancha; das concentra&ccedil;&otilde;es abrasivas na sobreposi&ccedil;&atilde;o; da maior ou menor distens&atilde;o encaracolada da escrita, ou mesmo da orienta&ccedil;&atilde;o das linhas que, apesar de procurar manter equidist&acirc;ncia, s&atilde;o cobertas por outras criando nervuras, mesclas que afundam o texto em sombras acidentadas.</p>      <p>Mant&eacute;m-se a indecis&atilde;o entre a escrita e o desenho porque o nosso poder <i>configurador</i> n&atilde;o resiste ao chamamento de um e outro. &Eacute; nesse <i>entre</i> (do desenho e da escrita) abissal, vertiginoso, que Ana Hatherly joga a for&ccedil;a criativa, o poder de <i>dar</i> imagem. Configurar, significa dar forma, dar contorno a algo e tamb&eacute;m engendrar. Ora, dar forma, tendo em vista o conhecimento de uma coisa, &eacute; desenhar-lhe o seu contorno, silhueta, fazer-lhe um esbo&ccedil;o. Nesse esbo&ccedil;o (o <i>Aper&ccedil;u</i> goethiano) &#8211; que reflecte a mais profunda compreens&atilde;o das coisas, porque o entendimento &eacute; obrigado a canalizar todas as percep&ccedil;&otilde;es para uma s&oacute; &#8211; aquilo que na natureza &eacute; produtivo, vivo e por isso vari&aacute;vel, s&oacute; pode ser assumido como ess&ecirc;ncia e &eacute; dela que &eacute; esbo&ccedil;ada a forma, contanto essa forma da ess&ecirc;ncia possa justamente fazer-lhe prova.<sup><a href="#13" name="top13">&#091;13&#093;</a></sup> Aquilo que sobrevive, ou ali&aacute;s, vivifica as formas que esbo&ccedil;amos, desenhamos, para as coisas (as formas gerais) &eacute; a ess&ecirc;ncia da coisa conformada pelo homem, pelo seu modo de a ver, conhecer, sentir. Abre-se, assim, um novo horizonte nas formas e conceitos, pois parece ocorrer uma transforma&ccedil;&atilde;o impercept&iacute;vel daquilo que os ir&aacute; animar. Tomando o exemplo de h&aacute; pouco, se para chegar a uma forma ideal de um car&aacute;cter deveremos proceder &#8216;cegamente&#8217; em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s caracter&iacute;sticas de cada um (e estamos necessariamente a colocar de parte qualquer rela&ccedil;&atilde;o com o seu significado, ou seja estamos exclusivamente a consider&aacute;-lo na sua forma visual, como o fez Ana Hatherly), s&oacute; poderemos ser bem-sucedidos, se nessa &#8216;cegueira&#8217; nos permitirmos assimilar todas as diferen&ccedil;as visuais conhecidas antes de &#8216;vendar os olhos&#8217;. Isto significa que no processo de configura&ccedil;&atilde;o confluem todas as mem&oacute;rias, todas as percep&ccedil;&otilde;es que temos das coisas, confluem para, de seguida, se condensarem em formas sint&eacute;ticas, sinais, s&iacute;mbolos, com os quais alcan&ccedil;amos e comunicamos a mais poderosa compreens&atilde;o das coisas. Essa condensa&ccedil;&atilde;o, s&iacute;ntese, revela, ainda, o poder criativo do homem, porque nela ele tem a sua m&aacute;xima compreens&atilde;o das coisas; ele sabe que deve deixar repousar todas as diferen&ccedil;as e aproveitar de todas elas aquilo que lhe conv&eacute;m. Esse esbo&ccedil;o, essa forma sint&eacute;tica (a <i>forma origin&aacute;ria</i> de Goethe), conserva, assim, no mais fundo de si, cada particularidade, cada varia&ccedil;&atilde;o, cada fus&atilde;o: as diferentes arquitecturas dos caracteres, uma perna comum, uma simetria; e a todo o momento, essas singularidades v&ecirc;m &agrave; tona, &agrave; superf&iacute;cie, brindar-nos com essa mesma sabedoria.</p>      <p>Ora, &eacute; precisamente nesse emergir de uma diferen&ccedil;a em dois desenhos do mesmo car&aacute;cter, ou do desenho de dois caracteres &#8211; que se liga, por&eacute;m, incontornavelmente &agrave; forma original do car&aacute;cter &#8211; que sentimos o regresso a uma percep&ccedil;&atilde;o anterior e maior. As varia&ccedil;&otilde;es formais ecoam entre si na contextura de um imagin&aacute;rio que cont&eacute;m todas as diferen&ccedil;as poss&iacute;veis da forma original, por exemplo, os caracteres que Ana Hatherly desenha e que remontam &agrave; escrita chinesa (<a href="#f6">Figura 7</a>).</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="f6"> <img src="/img/revistas/dia/v28n3/28n3a22f6.jpg">     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p>Mas essa rela&ccedil;&atilde;o com o original s&oacute; pode ser intu&iacute;da, sentida, porque na verdade n&atilde;o estamos em posse da raz&atilde;o de todas as diferen&ccedil;as, ou seja, e voltando ao nosso exemplo dos caracteres chineses, sabemos que se trata de um car&aacute;cter de uma l&iacute;ngua oriental, mas n&atilde;o sabemos a sua origem e o seu significado. A imagina&ccedil;&atilde;o &eacute; despoletada por uma intui&ccedil;&atilde;o que reconhece e imagina a sequ&ecirc;ncia que a forma geral e origin&aacute;ria (a escrita chinesa) irradia e onde a varia&ccedil;&atilde;o (o car&aacute;cter) se inscreve.</p>      <p>O facto de a forma geral irradiar, significa que h&aacute; uma for&ccedil;a viva nessa forma geral (origin&aacute;ria), seja ela dada pelo desenho, seja pela escrita, que tem origem na sua capacidade <i>produtiva</i>, i.e., na capacidade dessa forma suscitar novas imagens a partir das percep&ccedil;&otilde;es, sensa&ccedil;&otilde;es e sentidos que traz consigo (e que a comp&otilde;em), silenciosamente &#8211; isto, porque, na verdade, sempre que vemos uma forma de um objecto, n&atilde;o somos obviamente assaltados por todas as imagens que temos dele, no entanto, sabemos juntar a forma que temos diante de n&oacute;s a essas outras tantas que se dizem dela. Mas este <i>surdo rumor</i> s&oacute; &eacute; aud&iacute;vel para aqueles que saibam auscultar no sil&ecirc;ncio. O amarelecimento das folhas no fim do ver&atilde;o, a descida dos <i>cumulus</i> &agrave;s regi&otilde;es inferiores transformando-se em <i>nimbus</i> que se precipitam em chuva, s&atilde;o sinais que quer o homem quer o animal conseguem ler e dessa leitura antecipar, imaginar o que se ir&aacute; suceder. Mas h&aacute; sinais exclusivos a cada ser, que s&oacute; a eles falam. O desenho, a escrita, a incis&atilde;o na carne, na casca da &aacute;rvore, a inscri&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o sinais, formas que testemunham a compreens&atilde;o do mundo no homem e, por isso, s&oacute; a ele dizem respeito.<sup><a href="#14" name="top14">&#091;14&#093;</a></sup></p>      <p><i>Leonorana</i> atua, ent&atilde;o, n&atilde;o sobre o conceito de escrita ou do desenho, mas sobre a ideia que temos deles, i.e., a artista n&atilde;o atua sobre uma especifica&ccedil;&atilde;o da escrita e do desenho, mas sobre uma vis&atilde;o que orienta a escrita e o desenho. N&atilde;o interessa a Ana Hatherly o que a escrita diz, conta, narra, nem o modo como o faz, antes, como aparece, como se transforma em mancha de texto que ecoa vozes, sons, do mesmo modo que a linha do desenho se desdobra em imagens-contornos. Nas diferentes varia&ccedil;&otilde;es, Ana Hatherly experimenta a mancha de texto tradicional; o encadeamento po&eacute;tico das palavras (varia&ccedil;&atilde;o IV); a sua musicalidade (varia&ccedil;&atilde;o VIII); composi&ccedil;&atilde;o visual (varia&ccedil;&atilde;o XIV); explos&atilde;o da leitura e da escrita (varia&ccedil;&atilde;o XVI); activando diferentes particularidades das formas de escrita e oferecendo-nos no seu conjunto uma ideia, uma <i>perspectiva viva</i> da poesia de Leonor. &Eacute; curioso a artista ter tomado de empr&eacute;stimo a varia&ccedil;&atilde;o &agrave; m&uacute;sica (que a artista bem conhece do tempo em que estudou canto l&iacute;rico); ela serve-se da repeti&ccedil;&atilde;o da melodia com pequenas altera&ccedil;&otilde;es e celebra o ritmo naquilo que ele tem de m&aacute;gico &#8211; e <i>embalador</i>. Essa magia refere-se &agrave; ess&ecirc;ncia da pr&oacute;pria arte po&eacute;tica. Cada varia&ccedil;&atilde;o &eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o de possibilidade da poesia, &eacute; uma forma po&eacute;tica, que, por variar, n&atilde;o conhece termo.<sup><a href="#15" name="top15">&#091;15&#093;</a></sup></p>      <p>Desenhar, apresentar por meio da m&uacute;sica, da escrita, devolve-nos a sua ess&ecirc;ncia, a sua natureza mais &iacute;ntima, i.e., aquilo que a distingue de todas as outras coisas e que a funda. Mas o desenho, o som, a palavra, n&atilde;o nos apresentam todas as configura&ccedil;&otilde;es que a coisa pode tomar porque estas continuam o seu processo de metamorfose. Esta <i>perspectiva viva</i> (Goethe) sobre todas as coisas, a sua ideia, pode, por&eacute;m, facilmente &#8216;perder o p&eacute;&#8217;, uma vez que nada parece est&aacute;vel, fixo, antes, em perp&eacute;tua varia&ccedil;&atilde;o. Por outro lado, o mesmo se pode dizer do risco de fixar, aprisionar o conhecimento em formas e conceitos, condicionando a organicidade pr&oacute;pria das coisas, o seu crescimento, evolu&ccedil;&atilde;o, decaimento.<sup><a href="#16" name="top16">&#091;16&#093;</a></sup> S&oacute; pode haver, ent&atilde;o, um caminho: a inevitabilidade da transforma&ccedil;&atilde;o das formas exige ao entendimento que ele seja t&atilde;o pl&aacute;stico e vivo, que se possa expandir, sem ser inexacto, atrav&eacute;s da compreens&atilde;o da irredutibilidade das formas gerais do conhecimento, dos conceitos, dos sinais.<sup><a href="#17" name="top17">&#091;17&#093;</a></sup> H&aacute; uma complementaridade necess&aacute;ria entre o conceito que segura uniforme mas universalmente a coisa e a ideia que vai alargando o contorno dessa mesma coisa na infinidade de formas que ela pode tomar &#8211; uma infinidade que torna a ideia t&atilde;o viva mas t&atilde;o inconform&aacute;vel.</p>      <p>Mas a experi&ecirc;ncia do mundo tamb&eacute;m conhece situa&ccedil;&otilde;es limite, situa&ccedil;&otilde;es absolutamente avassaladoras, incomensur&aacute;veis a qualquer esbo&ccedil;o, seja das palavras, seja das formas simb&oacute;licas, pela escrita ou pelo desenho: "Amando muito muito / ficamos sem palavras" (Hatherly, 2003: 31). O que &eacute; o mesmo que dizer que n&atilde;o h&aacute; condi&ccedil;&otilde;es para a nomea&ccedil;&atilde;o, para a classifica&ccedil;&atilde;o e, no entanto, essas situa&ccedil;&otilde;es indiz&iacute;veis s&atilde;o t&atilde;o claras para n&oacute;s, t&atilde;o vivas dentro de n&oacute;s. Isto n&atilde;o significa que faltem palavras, antes, nenhuma delas &eacute; capaz de manifestar a ideia sobre uma coisa, a experi&ecirc;ncia de um sentimento inef&aacute;vel, o sentido de uma percep&ccedil;&atilde;o; porque se trata de uma experi&ecirc;ncia do sem-forma ou da desmedida, e, no caso dos versos de Hatherly, essa desmedida &eacute; uma met&aacute;fora do amor. D&aacute;-se uma esp&eacute;cie de bloqueio, de impossibilidade de dizer, de falar, porque as coisas escapam &agrave; l&iacute;ngua. Esta sensa&ccedil;&atilde;o acontece porque as coisas ainda est&atilde;o demasiado vivas, frescas, ainda est&atilde;o em matura&ccedil;&atilde;o dentro de n&oacute;s, as ideias circulam como for&ccedil;as no nosso interior. Nomear, dizer, desenhar s&atilde;o ac&ccedil;&otilde;es de um processo de disseca&ccedil;&atilde;o que arranca, traz do interior, da invisibilidade, para o exterior, para a superf&iacute;cie, para o mundo vis&iacute;vel essas mesmas for&ccedil;as: o segredo do tesouro enterrado s&oacute; permite um sinal, um &uacute;nico ind&iacute;cio para dizer que est&aacute; pr&oacute;ximo, e mesmo esse deve procurar perpetuar-se no sil&ecirc;ncio, caso contr&aacute;rio, n&atilde;o seria segredo. Mas, porque o sinal &eacute; o caminho para o interior da terra onde o tesouro est&aacute; sepultado, significa que o pr&oacute;prio tesouro precisa do sinal para se constituir como tal. &Eacute; esta necessidade de <i>estacar</i>, de n&atilde;o deixar pairar, a for&ccedil;a do sinal.</p>      <p>O jogo dos sinais e, de resto, de toda a forma simb&oacute;lica &eacute; absolutamente paradoxal. Por um lado, o sinal mortifica, faz pousar as ideias como cinzas, depois de as consumir simbolicamente. Por outro, o sinal exp&otilde;e, revela, torna vis&iacute;vel, vivifica porque traz &agrave; presen&ccedil;a, &agrave; exist&ecirc;ncia. O sinal salva-nos do abismo vertiginoso da mobilidade das coisas, da corrida do tempo, das transforma&ccedil;&otilde;es da vida, mas de volta &#8216;det&eacute;m a imagem&#8217;.<sup><a href="#18" name="top18">&#091;18&#093;</a></sup> Esta inconformidade do sinal prende-se, assim, com a sua polaridade entre o dar a ver e o permitir esquecer. O marco de pedra ressai de toda a mat&eacute;ria mineral, para indicar o f&oacute;ssil, para lembrar aquele que, a partir desse momento, caminhar&aacute; para o esquecimento. "Toda a mem&oacute;ria &eacute; funer&aacute;ria"<sup><a href="#19" name="top19">&#091;19&#093;</a></sup> porque ao prender a imagem, ao torn&aacute;-la eterna n&atilde;o lhe concede regenerar-se, transformar-se, viver: &eacute; para sempre. Por isso se liga t&atilde;o depressa ao passado, como vest&iacute;gio; ao mundo dos mortos, como epit&aacute;fio; mas tamb&eacute;m aos deuses na imperecibilidade dos astros.</p>      <p>Todavia, h&aacute; sinais contradit&oacute;rios, sinais de fogo que fazem explodir paix&otilde;es, &oacute;dios, sinais que se ligam &agrave; vida e sobretudo &agrave; carne do indiv&iacute;duo que sente a adrenalina fundir-se em todo o seu corpo. Se a virtude do sinal &eacute; apontar para uma coisa, significa, ent&atilde;o, que esse poder an&iacute;mico tem uma rela&ccedil;&atilde;o directa com a imagem criada. A imagina&ccedil;&atilde;o ganha fundura quando o homem, tra&ccedil;ando o dedo na areia, desenha uma linha que cont&eacute;m todo um espa&ccedil;o de que essa linha &eacute; fronteira. O homem reconhece um dentro e um fora, um para l&aacute; e um para c&aacute;. Ele v&ecirc; essa separa&ccedil;&atilde;o, mesmo sendo esta invis&iacute;vel. Essa linha abre um fenda na natureza das coisas, no mundo f&iacute;sico, vis&iacute;vel, t&aacute;ctil, sonoro, e dessa fenda, desse intervalo "por onde/ o pensamento desliza" (Hatherly, 2003: 37) aflora "um (outro) mundo / o mundo" (Hatherly, 1998: 8); porventura, o da imagina&ccedil;&atilde;o.<sup><a href="#20" name="top20">&#091;20&#093;</a></sup></p>      <p>Parece haver uma grande afinidade entre aquilo a que, h&aacute; pouco, cham&aacute;vamos as ideias gerais das coisas e a imagina&ccedil;&atilde;o, em primeiro lugar, porque &eacute; da imagina&ccedil;&atilde;o que se engendram as ideias. Em segundo lugar, porque essa afinidade surge na capacidade de quer a ideia quer a imagina&ccedil;&atilde;o confinarem com a vida, terem na sua origem a excita&ccedil;&atilde;o dos conceitos, das imagens, no pensamento, uma excita&ccedil;&atilde;o que age como sugest&atilde;o, como influ&ecirc;ncia, propiciando o encontro daquilo que &agrave; partida parece dissemelhante, mas se revela an&aacute;logo e pelo qual se dar&aacute; in&iacute;cio &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de formas. Face ao espect&aacute;culo do mundo, o homem torna-se um "decifrador de imagens" (Hatherly, 2003: 36), ele perscruta a morfologia do mundo e v&ecirc; nas suas altera&ccedil;&otilde;es um movimento cont&iacute;nuo que se dobra e desdobra sobre si mesmo, criando avan&ccedil;os e recuos na forma&ccedil;&atilde;o de todas as coisas. O homem segue uma sugest&atilde;o, uma intui&ccedil;&atilde;o do movimento, da metamorfose. O que ele colhe &eacute; o conhecimento da multiplicidade, da infinidade das formas da natureza. &#8216;O olho torna-se inteligente&#8217; na medida em que, de uma imagem intui a diversidade de outras. H&aacute; uma inteligibilidade, nunca absoluta, antes, em cont&iacute;nua forma&ccedil;&atilde;o, mas suficientemente aut&oacute;noma para, a partir dela (desse intelig&iacute;vel), proceder &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de novas formas de manifesta&ccedil;&atilde;o da visibilidade.</p>      <p>Por consequ&ecirc;ncia, o pr&oacute;prio processo de esbo&ccedil;ar as formas das coisas cria no interior da linguagem (que cont&eacute;m essas formas) novas forma&ccedil;&otilde;es. Dito de outro modo, a composi&ccedil;&atilde;o de sinais, o desenho da forma geral, a constru&ccedil;&atilde;o de analogias, v&atilde;o numa segunda e consequentes fases desenvolver novas formas e conceber novos s&iacute;mbolos. Tomemos o exemplo da linguagem falada e escrita, onde a partir de uma raiz se desenvolve toda uma s&eacute;rie de outras palavras, por vezes criando outras fam&iacute;lias.<sup><a href="#21" name="top21">&#091;21&#093;</a></sup> Neste processo vivo da l&iacute;ngua, aparentemente, o conhecimento vai gerindo a sua &uacute;ltima forma de compreensibilidade e esquecendo as diferentes camadas de sentido, i.e., os diferentes significados que se foram acamando sobre a palavra de origem at&eacute; ao seu sentido actual. Estas transforma&ccedil;&otilde;es s&atilde;o essenciais para a sobreviv&ecirc;ncia de uma l&iacute;ngua, contudo, o maior risco &eacute;, por vezes, as palavras desligarem-se da sua raiz. Isto n&atilde;o significa que as palavras <i>percam o p&eacute;</i>, o seu &#8216;motor&#8217; ainda l&aacute; se encontre, s&atilde;o liga&ccedil;&otilde;es radicais que interiorizam o car&aacute;cter sens&iacute;vel e org&acirc;nico da ac&ccedil;&atilde;o, como se o nome pedisse o reconhecimento da ac&ccedil;&atilde;o, do movimento, ou solicitasse, a todo o instante, a sua liga&ccedil;&atilde;o &agrave; natureza da coisa. Por isso, os reflexos, as sensa&ccedil;&otilde;es, os estados s&atilde;o transformados em verbos de transi&ccedil;&atilde;o, de movimento, toque, uni&atilde;o, direc&ccedil;&atilde;o, relacionamento. Por sua vez, os nomes pr&oacute;prios reflectem o car&aacute;cter do indiv&iacute;duo, da mat&eacute;ria, aproximando-o da sua matriz.<sup><a href="#22" name="top22">&#091;22&#093;</a></sup> As deriva&ccedil;&otilde;es da palavra, por vezes at&eacute; &agrave; quebra de correspond&ecirc;ncia com a palavra matriz pela perda da sua concretude, como &eacute; o caso das palavras derivadas de gestos pr&oacute;prios de um of&iacute;cio ou de manufactura que se perderam, s&atilde;o uma consequ&ecirc;ncia da cultura e da evolu&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria da l&iacute;ngua; &eacute; a modela&ccedil;&atilde;o do "barro das palavras" (Hatherly, 2003: 24), da linguagem, a partir do constante relacionamento entre as coisas, com os sons, o tacto e as imagens que os representam e para que apontam. Este processo extens&iacute;vel, male&aacute;vel, pl&aacute;stico, vivo, obriga a novas formula&ccedil;&otilde;es conceptuais e liga&ccedil;&otilde;es abstractas, que tornam o conhecimento suscept&iacute;vel &agrave; pr&oacute;pria eros&atilde;o e sedimenta&ccedil;&atilde;o, quer dos sinais e das marcas visuais, quer da l&iacute;ngua nos seus <i>signos</i>.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Figuras 1-7: Paulo Costa, Arquivo Fotogr&aacute;fico CAM-FCG</p>       <p>(por op&ccedil;&atilde;o pessoal, de acordo com a antiga ortografia)      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <!-- ref --><p>Benoist, Luc (1999), <i>Signos, s&iacute;mbolos e mitos</i> (<i>Signes, symboles et mythes</i>, 1975). Paula Taipas (trad.). Lisboa, Edi&ccedil;&otilde;es 70 (col. Perspectivas do Homem, n.&ordm; 48)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000077&pid=S0807-8967201400030002200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Ernout, A. &amp; Meillet, A. (1967), <i>Dictionnaire &eacute;tymologique de la langue latine: histoires des mots.</i> Paris, C. Klincksieck, 4&ordf; ed.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000078&pid=S0807-8967201400030002200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Gil, Jos&eacute; (2005a), <i>A imagem-nua e as pequenas percep&ccedil;&otilde;es: Est&eacute;tica e Metafenomenologia</i> (<i>L&#8217;image-Nue et les Petites Perceptions &#8211; Esth&eacute;tiques et Metaph&eacute;nom&eacute;nologie</i>). Miguel Serras Pereira (trad.). Lisboa, Rel&oacute;gio D&#8217;&Aacute;gua Editores.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000080&pid=S0807-8967201400030002200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>_____ (2005b), <i>&laquo;Sem T&iacute;tulo&raquo;. Escritos sobre Arte e Artistas</i>. Lisboa, Rel&oacute;gio D&#8217;&Aacute;gua Editores.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000082&pid=S0807-8967201400030002200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Goethe, Johann Wolfgang (1993), <i>A metamorfose das plantas</i> (<i>Die Metamorphose der Pflanzen</i>). Maria Filomena Molder (trad., introd., notas e ap&ecirc;ndice). Lisboa, Imprensa Nacional &#8211; Casa da Moeda.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000084&pid=S0807-8967201400030002200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Hatherly, Ana (1973), <i>Mapas da Imagina&ccedil;&atilde;o e da Mem&oacute;ria</i>. Lisboa, Moraes Editores.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000086&pid=S0807-8967201400030002200006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>_____ (1975), <i>A Casa das Musas</i>. Lisboa, Editorial Estampa.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000088&pid=S0807-8967201400030002200007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>_____ (1992), "Auto-biografia documental". In <i>Ana Hatherly: obra visual, 1960-1990</i>. Lisboa, Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian. Centro de Arte Moderna Jos&eacute; de Azeredo Perdig&atilde;o.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000090&pid=S0807-8967201400030002200008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>_____ (1998), <i>A Idade da Escrita</i>. Lisboa, Edi&ccedil;&otilde;es Tema.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000092&pid=S0807-8967201400030002200009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>_____ (2000), "A escrita como arte de (re)conhecer". In Lu&iacute;s Manuel de Ara&uacute;jo <i>et al</i>., <i>A escrita das escritas</i>. Lisboa, Funda&ccedil;&atilde;o Portuguesa das Comunica&ccedil;&otilde;es.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000094&pid=S0807-8967201400030002200010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>_____ (2001), <i>Um Calculador de Improbabilidades</i>. Lisboa, Quimera Editores.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000096&pid=S0807-8967201400030002200011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>_____ (2003), <i>O Pav&atilde;o Negro</i>. Lisboa, Ass&iacute;rio &amp; Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000098&pid=S0807-8967201400030002200012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>_____ (2005), <i>Fibrila&ccedil;&otilde;es</i>. Lisboa, Quimera Editores. &#091;1&ordf; ed. 2004, tiragem reduzida e numerada&#093;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000100&pid=S0807-8967201400030002200013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Hatherly, Ana &amp; Rita, Annabela (2004), <i>Interfaces do olhar. Uma Antologia Cr&iacute;tica. Uma Antologia Po&eacute;tica.</i> Lisboa, Roma Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000102&pid=S0807-8967201400030002200014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Hofmannsthal, Hugo von (2002), <i>Livro dos amigos (Buch der Freunde</i>, 1922<i>)</i>. Jos&eacute; A. Palma Caetano (trad. e pref&aacute;cio). Lisboa, Ass&iacute;rio &amp; Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000104&pid=S0807-8967201400030002200015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Kant, Immanuel (1998), <i>Cr&iacute;tica da Faculdade do Ju&iacute;zo</i> (<i>Kritik der Urteilskraft</i>, 1790). Ant&oacute;nio Marques e Val&eacute;rio Rohden (trad. e notas). Lisboa, Imprensa Nacional &#8211; Casa da Moeda.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000106&pid=S0807-8967201400030002200016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Molder, Maria Filomena (1995), <i>O pensamento morfol&oacute;gico de Goethe</i>. Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000108&pid=S0807-8967201400030002200017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Pascoaes, Teixeira de (1987), <i>O Bailado</i>. Lisboa, Ass&iacute;rio &amp; Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000110&pid=S0807-8967201400030002200018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Plat&atilde;o (1994), <i>Cr&aacute;tilo</i>. P.e Dias Palmeira (trad., pref. e notas). Lisboa, Livraria S&aacute; da Costa Editora, 2&ordf; edi&ccedil;&atilde;o.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000112&pid=S0807-8967201400030002200019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>&#091;recebido em 7 de junho de 2014 e aceite para publica&ccedil;&atilde;o em 26 de outubro de 2014&#093;</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p><sup><a href="#top1" name="1" >&#091;1&#093;</a></sup>Ao longo do artigo, utilizaremos imagens de versos da autora, assinaladas em it&aacute;lico.</p>      <p><sup><a href="#top2" name="2">&#091;2&#093;</a></sup>(Hatherly, 1973). No mesmo sentido leia-se: "A opera&ccedil;&atilde;o comportava dois tempos. Havia em primeiro lugar uma tens&atilde;o: a tens&atilde;o do olhar a requerer todo o corpo cujas sinergias culminam na m&atilde;o. O olhar de s&iacute;lex, todo de concentra&ccedil;&atilde;o, comunica &agrave; m&atilde;o o seu rigor. Nem o olhar pestaneja nem a m&atilde;o treme. Preparada para tudo mas transbordada por todos os lados, a m&atilde;o mant&eacute;m-se alerta sem poder come&ccedil;ar nem ousar come&ccedil;ar. &Eacute; o primeiro momento. Depois, chega o segundo, aquele a que os pintores chineses chamem &#8216;pulso vazio&#8217;. Anulando-se toda a tens&atilde;o do corpo, a m&atilde;o deixa de ser condutora para ser conduzida, conduzida em resson&acirc;ncia com o motivo... esse movente. O olhar induzido pelo motivo &eacute; um esbo&ccedil;o motor cuja transmiss&atilde;o ao movimento da m&atilde;o n&atilde;o &eacute; directa. Como o n&atilde;o &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o de mundo a mundo entre o motivo e o desenho. Entre ambos acontece o instante do pulso vazio. Esta passagem ao vazio &eacute; uma passagem pelo vazio, pelo nada. &Eacute; mais do que uma passagem. Nesse vazio, o artista &eacute; intimado a desaparecer ou a nascer para si pr&oacute;prio e, com ele, o mundo, n&atilde;o sendo o seu desenho c&oacute;pia, mas metamorfose desse mundo." Henri Maldiney <i>apud</i> Jos&eacute; Gil (2005a: 220).</p>      <p><sup><a href="#top3" name="3">&#091;3&#093;</a></sup>A esse prop&oacute;sito leia-se: "O <i>ser</i> foi dado aos sonhos; o <i>existir</i> foi dado a todas as cousas. O i>que existe</i> n&atilde;o compreende <i>o que &eacute;</i>, porque o <i>ser</i> &eacute; uma actividade contra a exist&ecirc;ncia; uma actividade anticorp&oacute;rea, uma flecha lan&ccedil;ada na dire&ccedil;&atilde;o da morte. Tamb&eacute;m a <i>exist&ecirc;ncia</i> &eacute; uma resist&ecirc;ncia contra o ser, o <i>velarium</i> onde falece a luz, o a&ccedil;ude que quebra o &iacute;mpeto das &aacute;guas." (Pascoaes, 1987: 40)</p>      <p><sup><a href="#top4" name="4">&#091;4&#093;</a></sup>Cf. "Cada forma &eacute; algo em aproxima&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica de si pr&oacute;pria e da nossa possibilidade de a conhecer, reconhecendo-se atrav&eacute;s das suas transforma&ccedil;&otilde;es." (Goethe, 1993: 17)</p>      <p><sup><a href="#top5" name="5">&#091;5&#093;</a></sup>Goethe parte, assim, da teoria kantiana do esquematismo dos conceitos emp&iacute;ricos na <i>Cr&iacute;tica da Raz&atilde;o Pura</i>, que segundo Maria Filomena Molder, no <i>Pensamento Morfol&oacute;gico de Goethe</i>, desembocam na <i>ideia normal de belo</i> (&sect;17 da <i>Cr&iacute;tica da Faculdade do Ju&iacute;zo</i>): "(...) a faculdade da imagina&ccedil;&atilde;o sabe, de um modo totalmente incompreens&iacute;vel para n&oacute;s, (&#8230;) reproduzir a imagem e a figura do objecto a partir de um n&uacute;mero indiz&iacute;vel de objectos de diversas esp&eacute;cies ou tamb&eacute;m de uma e mesma esp&eacute;cie; (&#8230;) sabe efectivamente como que deixar cair uma imagem sobre outra, e pela congru&ecirc;ncia das diversas imagens da mesma esp&eacute;cie extrair uma intermedi&aacute;ria, que serve a todas como medida comum." (Kant, 1998: 125)</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top6" name="6">&#091;6&#093;</a></sup>Jos&eacute; Gil, a prop&oacute;sito do desenho, fala-nos de uma condensa&ccedil;&atilde;o das percep&ccedil;&otilde;es do motivo e embora introduza o conceito de for&ccedil;a, i.e., &agrave;s formas do desenho s&atilde;o &#8216;incorporadas&#8217; for&ccedil;as que o desenhador capta do motivo, d&aacute; que pensar se essas for&ccedil;as n&atilde;o se referem ao movimento da imagina&ccedil;&atilde;o das imagens pairantes: "O que se passa entre o espa&ccedil;o de imagem e o papel, e a que chamei &laquo;condensa&ccedil;&atilde;o&raquo;, sup&otilde;e uma esp&eacute;cie de <i>inscri&ccedil;&atilde;o</i> de for&ccedil;as nas formas do desenho, de tal forma que a percep&ccedil;&atilde;o destas formas desencadeia de novo e sempre for&ccedil;as. (&#8230;) A inscri&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as acompanha portanto a condensa&ccedil;&atilde;o, quer dizer, a redu&ccedil;&atilde;o sint&eacute;tica de todos os movimentos do ponto-corpo (&#8230;) num <i>tra&ccedil;ado vis&iacute;vel</i>: como se estes movimentos a&iacute; se achassem doravante concentrados, envolvidos em dobras e sobredobras." (Gil, 2005a: 231)</p>      <p><sup><a href="#top7" name="7">&#091;7&#093;</a></sup>Tal como diz Kant a prop&oacute;sito da ideia est&eacute;tica: "&#8230;tomamos emprestada da natureza a mat&eacute;ria, a qual por&eacute;m pode ser reelaborada por n&oacute;s para algo diverso, a saber para aquilo que ultrapassa a natureza. Tais representa&ccedil;&otilde;es da faculdade da imagina&ccedil;&atilde;o podem chamar-se ideias, em parte porque elas pelo menos aspiram a algo situado acima dos limites da experi&ecirc;ncia e assim procuram aproximar-se de uma apresenta&ccedil;&atilde;o dos conceitos da raz&atilde;o (da ideias intelectuais), o que lhes d&aacute; a apar&ecirc;ncia de uma realidade objetiva; por outro lado, e na realidade principalmente, porque nenhum conceito lhes pode ser plenamente adequado enquanto intui&ccedil;&otilde;es internas." (Kant, 1998: 219)</p>      <p><sup><a href="#top8" name="8">&#091;8&#093;</a></sup>Partindo de uns desenhos de &Acirc;ngelo de Sousa onde se podem ler palavras, Jos&eacute; Gil esclarece: "O desenho responde &agrave; palavra, integrando-a e transformando-a num seu elemento: &laquo;ou&raquo; &laquo;ou&raquo; &laquo;ou&raquo;, escrito a diversos n&iacute;veis n&atilde;o alinhados no papel, faz emanar o sentido das palavras (disjun&ccedil;&atilde;o, alternativa) da disposi&ccedil;&atilde;o espacial do desenho. Os dois planos de sentido coincidem. Qualquer coisa se ganhou e outra se perdeu do sentido verbal, porque a palavra, com as suas letras, continua palavra (lida, resistindo ao desenho), se bem que a sua inscri&ccedil;&atilde;o como desenho lhe traga um acr&eacute;scimo de sentido que ela &eacute; incapaz de captar. O que permite esta tens&atilde;o diferencial que induz ao mesmo tempo dist&acirc;ncia e atrac&ccedil;&atilde;o, &eacute; um plano virtual de osmose do sentido da palavra e do sentido do desenho. (&#8230;) O plano da escrita sugere o plano do desenho, o qual sugere o plano da escrita. Acontece o mesmo tipo de atra&ccedil;&atilde;o, a partir de um plano de osmose de for&ccedil;as, quando um desenho sugere um outro desenho." (Gil, 2005b: 273). E uma forma, outra forma, como nas s&eacute;ries.</p>      <p><sup><a href="#top9" name="9">&#091;9&#093;</a></sup>Em <i>Mapas da Imagina&ccedil;&atilde;o e da Mem&oacute;ria</i>, o mapear, o localizar aquilo que prov&eacute;m da nossa rela&ccedil;&atilde;o com as coisas e que tem que ver com a aptid&atilde;o do homem de memorizar e criar tamb&eacute;m o mundo, tem a sua mais primitiva influ&ecirc;ncia na capacidade de ler. Lemos textos, imagens, rostos, mapas, m&atilde;os, entranhas de animais, estrelas, "tudo o que historicamente se nos oferece como leitura" (Hatherly, 1975; 12).</p>      <p><sup><a href="#top10" name="10">&#091;10&#093;</a></sup>Cf. "Em suma, posso dizer que o meu trabalho diz respeito a uma investiga&ccedil;&atilde;o do idioma art&iacute;stico, particularmente do ponto de vista da representa&ccedil;&atilde;o &#8211; mental e visual." (Hatherly, 1992: 75)</p>      <p><sup><a href="#top11" name="11">&#091;11&#093;</a></sup>Hatherly (2001: 191-233). <i>Leonorana</i> &eacute; o terceiro cap&iacute;tulo / livro da obra <i>Anagram&aacute;tico</i>, publicado em 1970 e que resulta da experimenta&ccedil;&atilde;o do alcance po&eacute;tico atrav&eacute;s de procedimentos n&atilde;o tradicionais, daquilo que Ana Hatherly chama de uma "po&eacute;tica experimental"<i>.</i></p>      <p><sup><a href="#top12" name="12">&#091;12&#093;</a></sup>Ainda no seguimento da obra de &Acirc;ngelo de Sousa, mas num outro texto, Jos&eacute; Gil distingue o valor dimensional da linha e da cor e dos efeitos das linhas na ordena&ccedil;&atilde;o das manchas coloridas: "(...) a complexidade das &laquo;dimens&otilde;es&raquo; &eacute; tal que torna dif&iacute;cil a an&aacute;lise: as linhas que atravessam as telas s&atilde;o unidimensionais, enquanto o espa&ccedil;o da cor &eacute; outro, pluridimensional, atmosf&eacute;rico." (Gil, 2005b: 266)</p>      <p><sup><a href="#top13" name="13">&#091;13&#093;</a></sup>O mesmo parece dizer Plat&atilde;o na voz de S&oacute;crates quando, discutindo com Cr&aacute;tilo sobre as formas (imagem / nomes) atribu&iacute;das aos objectos, adianta: "&#8230;o pr&oacute;prio n&uacute;mero dez ou outro qualquer que tu queiras, o qual uma supress&atilde;o ou acr&eacute;scimo transforma imediatamente noutro n&uacute;mero. Mas talvez n&atilde;o consista nisto a justeza da qualidade e da imagem em geral, nem importante, ao contr&aacute;rio, em absoluto, reproduzir com todos os pormenores a natureza do objecto que se representa, se se pretende obter a sua imagem. (&#8230;) Ou n&atilde;o percebes qu&atilde;o longe est&atilde;o as imagens de conterem os elementos que os seres, dos quais s&atilde;o imagens. (&#8230;) Seria, com certeza, coisa para rir, &oacute; Cr&aacute;tilo, o efeito dos nomes sobre os objectos, de que s&atilde;o nomes, no caso de concordarem em absoluto com eles. Tudo seria duplo e n&atilde;o se poderia dizer qual &eacute; o objecto e qual o nome." (Plat&atilde;o, 1994: 137-139)</p>      <p><sup><a href="#top14" name="14">&#091;14&#093;</a></sup>Cf. "A nossa tarefa &eacute; entender o mundo/diziam os antigos/j&aacute; sabiam/que o jogo somos n&oacute;s/ (The toys are us)." (Hatherly, 2004: 13)</p>      <p><sup><a href="#top15" name="15">&#091;15&#093;</a></sup>Al&eacute;m das trinta e uma varia&ccedil;&otilde;es, Ana Hatherly experimentou ainda outras formas. A obra <i>da desigualdade constante dos dias de Leonor</i> (1972), pertencente &agrave; colec&ccedil;&atilde;o da Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian, aponta j&aacute; para uma escrita em caos, ainda que contida. J&aacute; n&atilde;o existe qualquer possibilidade de leitura, a composi&ccedil;&atilde;o &eacute; ruidosa, cheia de vagas que se entrela&ccedil;am numa energia rodopiante que transborda para l&aacute; dos limites do suposto rect&acirc;ngulo de imagem. As palavras d&atilde;o o lugar ao arabesco obrigando a uma <i>reinven&ccedil;&atilde;o da leitura</i> do espa&ccedil;o do <i>poema-imagem.</i></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top16" name="16">&#091;16&#093;</a></sup>Nas reflex&otilde;es que por vezes ganham a for&ccedil;a de m&aacute;ximas, no <i>Livro dos amigos</i>, Hugo von Hofmannsthal atenta, de modo irrepreens&iacute;vel: "Cada impress&atilde;o forte traz liberdade e vincula&ccedil;&atilde;o; por isso as nossas impress&otilde;es nos moldam" e " as formas avivam e matam." Esta compreens&atilde;o &eacute; muito profunda, pois admite, sem rodeios, que o conhecimento de uma forma come&ccedil;a por iluminar o pr&oacute;prio entendimento, na medida em que d&aacute; &agrave; luz (ilumina e d&aacute; vida), faz surgir o sentido da coisa, no seio do sentido do mundo. A forma torna-se subst&acirc;ncia da subst&acirc;ncia do mundo. Por outro lado, a forma aprisiona, pois a coisa de que &eacute; forma ficar&aacute; para sempre ligada a ela. Hofmannsthal (2002: 61 e 75)</p>      <p><sup><a href="#top17" name="17">&#091;17&#093;</a></sup>Cf. "A ideia de metamorfose &eacute; um dom altamente vener&aacute;vel, mas, ao mesmo tempo, altamente perigoso. Conduz ao informe; destr&oacute;i o saber, dissolve-o. &Eacute; semelhante &agrave; <i>vis centripeta</i>, &agrave; qual, no seu mais profundo fundamento, a exterioridade em nada pode afectar: falo do impulso de especifica&ccedil;&atilde;o." Goethe <i>apud</i> Molder (1995).</p>      <p><sup><a href="#top18" name="18">&#091;18&#093;</a></sup>Cf. "A palavra-escrita/ &eacute; um labor arcaico:/ sulca enigmas/ venda e desvenda/o sentido do gesto/ &Eacute; uma imagem detida/ recolhida do mais fundo cinema &iacute;ntimo/ onde o verdadeiro/ &eacute; um ser invis&iacute;vel/ O cinema do mundo est&aacute; a&iacute;/ onde houver ilus&atilde;o/ onde houver vontade de ver/ mesmo que seja s&oacute; o nada" (Hatherly, 2003: 29).</p>      <p><sup><a href="#top19" name="19">&#091;19&#093;</a></sup>Do &uacute;ltimo verso do poema "A mem&oacute;ria do nome" (Hatherly, 1998).</p>      <p><sup><a href="#top20" name="20">&#091;20&#093;</a></sup>Importa salvaguardar que, apesar de relacionarmos o sinal com a visibilidade e a imagem, tal n&atilde;o significa que para o cego n&atilde;o haja sinais claros do mundo, apreendidos por todos os outros sentidos que imediatamente interagem com o seu corpo e esp&iacute;rito. A sua imagina&ccedil;&atilde;o &eacute; devedora de todos esses est&iacute;mulos, pelo que cada sinal apreendido o libertar&aacute; para um outro mundo.</p>      <p><sup><a href="#top21" name="21">&#091;21&#093;</a></sup>Em <i>Signos, s&iacute;mbolos e mitos</i>, Luc Benoist faz uma longa an&aacute;lise epistemol&oacute;gica de verbos da l&iacute;ngua francesa que significam diferentes a&ccedil;&otilde;es, mas cuja raiz comum os aproxima.</p>     <p>"Vejamos, por exemplo, a onomatopeia <i>clic-clac</i> e a <i>raiz fla</i>. <i>Clic-clac</i> traduz a pancada seca de duas superf&iacute;cies. Da&iacute; derivam <i>cliquet</i>, &#091;lingueta&#093;, <i>cliquetis</i> &#091;estalido&#093;, <i>d&eacute;clic</i> &#091;gatilho&#093;, <i>la clanche</i> &#091;ferrolho&#093;, o verbo <i>d&eacute;clencher</i> (abrir uma porta) &#091;levantar o trinco&#093;. O latim <i>clavis</i>, a chave, deu <i>clore</i> &#091;fechar&#093;, <i>inclure</i> &#091;encerrar&#093;, <i>conclure</i> &#091;concluir&#093;, <i>conclave</i> &#091;conclave&#093;. Do latim <i>clarus</i>, que designa um som estridente e pomposo, deriva o que &eacute; claro e ilustre, da&iacute; os nomes reais Clotaire, Clodomir, Clovis. Se partirmos da raiz <i>fla</i> que deu o latim <i>flatus</i>, o <i>souffle</i> &#091;sopro&#093;, encontramos <i>enfler</i> &#091;entumecer&#093;, <i>gonfler</i> &#091;inchar&#093;, <i>souffler</i> &#091;soprar&#093;, <i>fl&ucirc;te</i> &#091;flauta&#093;, <i>fl&eacute;trir</i> &#091;definhar&#093;, <i>flaccon</i> (feito de vazio) &#091;frasco&#093;, <i>flou</i> &#091;leve&#093;, e <i>flair</i> &#091;faro&#093;. Ao ligarmos a onomatopeia ou a raiz a um dos nossos sentidos que lhe corresponde, obtemos duas s&eacute;ries de palavras, uma proveniente do estalido de um dedo e a outra do sopro da boca." (Benoist, 1999: 34-35)</p>     <p>Ainda no fim da obra, o autor lista 300 verbos consoante a rela&ccedil;&atilde;o org&acirc;nica do corpo, com o qual estabelece coordenadas como alto, baixo, dentro, a partir de; estados an&iacute;micos que d&atilde;o sentidos aumentativos (tornar-se, crescer, surgir), diminutivos (degenerar, envelhecer, falhar), de exist&ecirc;ncia (ser, respirar, repousar) entre outros (<i>Ibidem</i>, 107-110).</p>      <p><sup><a href="#top22" name="22">&#091;22&#093;</a></sup>Tamb&eacute;m em <i>Cr&aacute;tilo</i>, uma vez mais, Plat&atilde;o analisa nomes pr&oacute;prios, de deuses, de her&oacute;is, entre outros. No seguimento da explica&ccedil;&atilde;o de S&oacute;crates, &agrave; origem do nome de Zeus, o Padre Dias Palmeira esclarece em nota de tradutor: "Efectivamente, na declina&ccedil;&atilde;o de <i>Zeus</i> entram dois radicais &#8211; <i>Djeu</i> e <i>Diw</i>, ambos procedentes da raiz <i>div</i>, <i>dyu</i>, que significa brilhar. Daqui formaram-se <i>dios</i>, <i>divus</i>, <i>dies</i>, <i>(D)iupiter</i>, etc.; de sorte que <i>Zeus</i>, etimologicamente, n&atilde;o &eacute; mais do que o <i>dia luminoso</i>, o <i>c&eacute;u brilhante</i>, e s&oacute; mais tarde se personificou." (Plat&atilde;o, 1994: 40, 41). N&atilde;o encontr&aacute;mos a l&iacute;ngua-fonte dos termos <i>div</i> e <i>dyu</i>, apontados pelo Padre Dias Palmeira, no entanto, no <i>Dictionnaire &eacute;timologique de la langue latine</i> encontr&aacute;mos o termo latino <i>diu</i> cuja tradu&ccedil;&atilde;o &eacute; c&eacute;u, divino, luminoso. Deste mesmo termo, &eacute; ainda referida a sua correspond&ecirc;ncia a <i>divy&aacute;h</i> no s&acirc;nscrito, cujo significado &eacute; celeste. Cf. Ernout &amp; Meillet (1967 : 178).</p>       ]]></body><back>
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