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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[As estórias dentro da história: construções ambíguas da memória em O Olho de Hertzog de João Paulo Borges Coelho]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Through the analysis of João Paulo Borges Coelho’s novel O Olho de Hertzog (2010), this essay aims to discuss the processes of narrative construction between fiction, History and memory. The repositioning of Mozambican identity towards the dominant narrative will be analyzed by starting with an interpretation of the ‘ex-centric’ perspective of the First World War presented by this book, which assumes a hybrid character between detective and historical novel. This idea is supported by the study of a number of narratives in the novel which, due to their deliberate ‘halftruth’ character, meditate on memory as a practice of recovering the past, showing the potential of the ambiguities between history, memory and fiction in the context of a search for identity.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>VARIA</b></p>      <p><b>As est&oacute;rias dentro da hist&oacute;ria: constru&ccedil;&otilde;es amb&iacute;guas da mem&oacute;ria em <i>O Olho de Hertzog</i>  de Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho</b></p>      <p><b>The stories within history: ambiguous memory constructions in Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho&#8217;s <i>O Olho de Hertzog</i></b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Ant&oacute;nio Mota*</b></p>      <p>*Centro de Estudos Human&iacute;sticos da Universidade do Minho, Braga, Portugal.</p>      <p><a href="mailto:amps.mota@gmail.com">amps.mota@gmail.com</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>RESUMO</b></p>      <p>Atrav&eacute;s da an&aacute;lise de <i>O Olho de Hertzog</i> de Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho (2010), pretendem-se discutir os processos de  constru&ccedil;&atilde;o narrativa entre fic&ccedil;&atilde;o, Hist&oacute;ria e mem&oacute;ria. Partindo da interpreta&ccedil;&atilde;o da  perspetiva &#8216;ex-c&ecirc;ntrica&#8217; da Primeira Guerra Mundial, apresentada por esta obra que assume um car&aacute;ter h&iacute;brido entre  romance policial e hist&oacute;rico, analisar-se-&aacute; o reposicionamento de identidade mo&ccedil;ambicana face a esta narrativa dominante. Esta  ideia ser&aacute; sustentada atrav&eacute;s do estudo de algumas narrativas do romance que, pelo seu car&aacute;ter intencional de  &#8216;meia-verdade&#8217;, problematizam a mem&oacute;ria como pr&aacute;tica de resgate do passado, mostrando o potencial das ambiguidades entre  hist&oacute;ria, mem&oacute;ria e fic&ccedil;&atilde;o num contexto de busca de identidade.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Palavras chave</b>: Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho, fic&ccedil;&atilde;o, hist&oacute;ria, mem&oacute;ria.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>ABSTRACT</b></p>      <p>Through the analysis of Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho&#8217;s novel<i> O Olho de Hertzog</i> (2010), this essay aims to discuss the processes  of narrative construction between fiction, History and memory. The repositioning of Mozambican identity towards the dominant narrative will be  analyzed by starting with an interpretation of the &#8216;ex-centric&#8217; perspective of the First World War presented by this book, which  assumes a hybrid character between detective and historical novel. This idea is supported by the study of a number of narratives in the novel  which, due to their deliberate &#8216;halftruth&#8217; character, meditate on memory as a practice of recovering the past, showing the potential  of the ambiguities between history, memory and fiction in the context of a search for identity.</p>      <p><b>Keywords</b>: Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho, fiction, history, memory.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>1. A ambiguidade e o leitor impl&iacute;cito</b></p>      <p>J&aacute; as tr&ecirc;s ep&iacute;grafes indicam o que o leitor deve esperar deste romance: afirma-se o relato de "actos (&#8230;) reais, embora se suspeite que a realidade n&atilde;o passa de uma massa de contornos imprecisos"; levanta-se a d&uacute;vida acerca da veracidade da hist&oacute;ria a partir do momento que se questiona a linearidade do tempo, descobrindo "que todos os momentos do tempo existiram simultaneamente" (W.G. Sebald) e, finalmente, substitui-se a perce&ccedil;&atilde;o direta da realidade pela leitura incerta de signos (Italo Calvino). A ambiguidade, no leque de interpreta&ccedil;&otilde;es inaugurado pelas ep&iacute;grafes, ser&aacute; portanto um conceito central nas duas narrativas que s&atilde;o apresentadas alternadamente, n&atilde;o se podendo falar de uma a&ccedil;&atilde;o principal, mas de duas, mesmo estando elas intrinsecamente relacionadas: o que diz respeito &agrave; guerra &eacute; contado por um narrador autodieg&eacute;tico, Hans Mahrenholz, um oficial alem&atilde;o que participou na campanha militar do general LettowVorbeck. A outra a&ccedil;&atilde;o, contada pelo narrador extradieg&eacute;tico, refere-se &agrave; estadia do mesmo Hans &#8211; entretanto assumindo outra(s) identidade(s) &#8211; na cidade de Louren&ccedil;o Marques, privilegiando-se a focaliza&ccedil;&atilde;o a partir da sua perce&ccedil;&atilde;o e consci&ecirc;ncia, nomeadamente quando percorre as ruas da cidade e como ouvinte de est&oacute;rias contadas por outras personagens. Todas as narrativas, principais e secund&aacute;rias, complementam-se no caminho da procura do &#8216;Olho de Hertzog&#8217;, nome dado ao lend&aacute;rio diamante.</p>      <p>A primeira ep&iacute;grafe, ao contr&aacute;rio das seguintes, sem indica&ccedil;&atilde;o de autoria, refere-se &agrave;s pessoas que praticam os atos "reais ou n&atilde;o", chamando-as de "animais que n&atilde;o existem". Esta denomina&ccedil;&atilde;o identificada como par&aacute;frase de "Durrell" parece iniciar, desde logo, a ambiguidade ao n&iacute;vel de nomes e identidades que carateriza todo o romance: em vez de Lawrence Durrell, o autor de <i>The Alexandria Quartet</i>, deve tratar-se do irm&atilde;o Gerald e, provavelmente, duma alus&atilde;o ir&oacute;nica &agrave; autobiografia romanceada da inf&acirc;ncia deste popular naturalista em Corfu, entre 1935 e 1939, sob o t&iacute;tulo <i>My Family and Other Animals</i> (1956). No fundo, <i>O Olho de Hertzog</i> constitui uma vasta galeria de personalidades, caraterizada por um excesso de nomes, que exige a participa&ccedil;&atilde;o do leitor na procura da &#8216;verdade&#8217; sobre acontecimentos e identidades, caracter&iacute;stica da investiga&ccedil;&atilde;o, policial e historiogr&aacute;fica &#8211; o que constitui uma conflu&ecirc;ncia fundamental para o g&eacute;nero h&iacute;brido da pr&oacute;pria obra que cumpre &agrave; perfei&ccedil;&atilde;o o que Elisabeth Wesseling diz sobre o romance hist&oacute;rico autorreflexivo, entendido como "synthesis between the detective and historical fiction" (Wessling, 1991):</p>      <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Both are concerned with "understanding the past through interpretation", although in self-reflexive historical fiction this interpretative process is not concluded by a solution as univocal as that in the regular whodunit. (<i>Ibidem</i>)</p></blockquote>      <p>O leitor impl&iacute;cito, entendido no sentido hermen&ecirc;utico no processo da leitura (Iser, 1976) como algu&eacute;m interessado em preencher lacunas e resolver ambiguidades criadas pela justaposi&ccedil;&atilde;o de perspetivas no texto, &eacute; claramente prefigurado, no seio da fic&ccedil;&atilde;o, por "Hans Mahrenholz, ali&aacute;s Henry Miller" (Borges Coelho, 2010: 18). A impress&atilde;o instant&acirc;nea de, ao chegar &agrave; cidade de Louren&ccedil;o Marques, estar de volta ao Hamburgo da sua inf&acirc;ncia, por causa da mesma "chuva mi&uacute;da mas inclemente" (<i>Idem</i>, 13), "Hamburgo &agrave;s cegas" (<i>Ibidem</i>) no entanto, evoca Walter Benjamin e, concretamente, o famoso in&iacute;cio do texto autobiogr&aacute;fico <i>Berliner Kindheit um 1900</i>, ao aludir a um regresso &agrave; cidade da inf&acirc;ncia como err&acirc;ncia espec&iacute;fica: "Desorientar-se numa cidade n&atilde;o quer dizer nada. Mas perdermo-nos numa cidade, como nos perdemos numa floresta, exige alguma aprendizagem".<sup><a href="#1" name="top1">&#091;1&#093;</a></sup> Hans n&atilde;o regressa a Hamburgo, &eacute; s&oacute; uma ilus&atilde;o fugidia. Contudo, em ambos os casos surge um alheamento (<i>Entfremdung</i>) que dinamiza a aprendizagem do lugar, ao vaguear pelas ruas e pra&ccedil;as:</p>      <blockquote>    <p>Olha esta pra&ccedil;a, afinal distante de Hamburgo, povoada de gentes t&atilde;o distintas, moldada pelos caprichos de quem a foi edificando, que a salpicou de pequenos quiosques, estranhas constru&ccedil;&otilde;es encimadas por minaretes de ferro forjado, chinesices. (Borges Coelho, 2010: 19)</p></blockquote>      <p>A pr&oacute;pria disposi&ccedil;&atilde;o irregular dos edif&iacute;cios na Pra&ccedil;a 7 de Mar&ccedil;o, bem como a forma ecl&eacute;tica que estes assumem, em conjunto com o movimento apressado das pessoas, os "el&eacute;ctricos, vagorosos", a "vozearia" e os "cheiros fortes e desconhecidos" (<i>Ibidem</i>) s&atilde;o todas impress&otilde;es que n&atilde;o conseguem disfar&ccedil;ar a superioridade que Hans sente enquanto alem&atilde;o e europeu, o que acrescenta &agrave; vis&atilde;o benjaminiana uma dimens&atilde;o de reposicionamento no contexto colonial. No entanto, a narrativa refere outro alheamento que implica precisamente uma invers&atilde;o das categorias de civiliza&ccedil;&atilde;o europeia e urbana <i>vs</i>. vida selvagem africana: &eacute; a viv&ecirc;ncia no mato &#8211; em <i>Berliner Kindheit um 1900</i> s&oacute; compara&ccedil;&atilde;o abstrata &#8211; que dificulta, ironicamente, ao alem&atilde;o Hans a reaprendizagem da cidade ap&oacute;s ter andado com as tropas de Lettow-Vorbeck:</p>      <blockquote>    <p>O tempo que passou no mato foi demasiado para que pudesse agora olhar em volta e ver simplesmente uma cidade. Os arbustos da savana espalhavam vultos e amea&ccedil;as; os charcos, sempre que chovia, traziam mil olhos &agrave; superf&iacute;cie; a luz da lua lambia os canos das espingardas. &Eacute; isso que ainda v&ecirc; nestes edif&iacute;cios, nos postes, nos sofridos corpos que s&atilde;o as &aacute;rvores urbanas, no inquietante padr&atilde;o repetitivo das cercas de ferro forjado e da cal&ccedil;ada, nas mensagens ocultas que os dizeres dos an&uacute;ncios e dos cartazes calam: perversidade, dissimula&ccedil;&atilde;o. (<i>Idem</i>, 20)</p></blockquote>      <p>Esta vis&atilde;o entra tamb&eacute;m em di&aacute;logo com a ep&iacute;grafe de <i>Le citt&agrave; invisibili</i> (1972), retirada do primeiro cap&iacute;tulo de la sequ&ecirc;ncia "Le citt&agrave; e i segni": o viajante entra na cidade de Tamara vindo do mato onde n&atilde;o se questiona a correspond&ecirc;ncia inequ&iacute;voca entre signo e objeto como ferramentas para lidar com o mundo. Nesta cidade, isto &eacute; imposs&iacute;vel, porque o olhar fica preso numa cadeia de opera&ccedil;&otilde;es de atribuir significado que nunca chega a uma identifica&ccedil;&atilde;o substancial, portanto:</p>      <blockquote>    <p>L&#8217;occhio non vede cose ma figure di cose che significano altre cose: (...) Lo sguardo percorre le vie come pagine scritte: la citt&agrave; dice tutto quello che devi pensare, ti fa ripetere il suo discorso, e mentre credi di visitare Tamara non fai che registrare i nomi con cui essa definisce se stessa e tutte le sue parti. (Calvino, 1972)</p></blockquote>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Apesar de a cita&ccedil;&atilde;o na ep&iacute;grafe acabar em "o olhar percorre as ruas como p&aacute;ginas escritas" (Borges Coelho, 2010: 11), a constru&ccedil;&atilde;o discursiva do espa&ccedil;o Louren&ccedil;o Marques segue &agrave; risca instru&ccedil;&otilde;es posteriores de n&atilde;o fazer nada al&eacute;m de registar os nomes com os quais a cidade se define a si pr&oacute;pria e todas as suas partes, dando somente a ilus&atilde;o de uma visita. A presen&ccedil;a massiva dos an&uacute;ncios publicit&aacute;rios e letreiros que povoam as ruas desta cidade &#8216;Louren&ccedil;o Marques&#8217; e a sua constante leitura, obedecendo ao olhar indeterminado do ne&oacute;fito Hans, apontam &#8211; paradoxalmente na sua aparente precis&atilde;o &#8211; para "a massa de contornos imprecisos" (<i>Idem</i>, 7) que constitui a realidade, quando o sujeito que olha e l&ecirc; n&atilde;o seleciona e constr&oacute;i significado. N&atilde;o &eacute; por acaso que esta aprendizagem de n&atilde;o se deixar iludir pelos signos bem vis&iacute;veis &eacute; inaugurada pelos nomes dos navios fundeados no porto, culminando na leitura da palavra <i>Herzog</i> (que faz Hans estremecer) por debaixo de <i>Beira</i>, "nome pintado de fresco por cima do outro" (<i>Idem</i>, 14). O narrador avisa que a variante <i>Hertzog</i> vai levar a outra hist&oacute;ria, n&atilde;o a deste velho navio.</p>      <p>Por isso, a acumula&ccedil;&atilde;o aparentemente indiferenciada dos letreiros e da publicidade n&atilde;o se esgota no <i>effet de r&eacute;el</i> (Barthes, 1968) de uma reconstitui&ccedil;&atilde;o de Louren&ccedil;o Marques do p&oacute;s-guerra 14-18 que, conforme Eduardo Pitta, "tende a dificultar a leitura por parte de leitores n&atilde;o-familiarizados com a realidade local", acrescentando: "O racioc&iacute;nio continuaria v&aacute;lido se um invent&aacute;rio com o mesmo tipo de an&uacute;ncios estivesse reportado a Lisboa ou a Londres" (Pitta, 2010). Discordamos, porque a leitura urbana de Louren&ccedil;o Marques, de estrutura antag&oacute;nica como todas as metr&oacute;poles coloniais, desafia o eurocentrismo da pr&oacute;pria mem&oacute;ria da Grande Cidade (<i>cf</i>. Brugioni, 2012: 395), propondo ao leitor uma desloca&ccedil;&atilde;o e um reposicionamento que ter&atilde;o din&acirc;micas diferentes conforme a sua pr&oacute;pria perspetiva e identidade, europeia ou africana. Quanto &agrave; europeia, o perfil do leitor impl&iacute;cito &eacute; prefigurado pelo percurso e pela ambiguidade identit&aacute;ria das personagens que abandonam a Europa porque foram &#8216;chamadas&#8217; para mergulhar no espa&ccedil;o africano. Os seus caminhos entrecruzam-se em Louren&ccedil;o Marques. Neste sentido, Hans Mahrenholz cumpre um papel duplamente privilegiado, como protagonista e narrador / personagem-refletor, contracenando com personagens que, n&atilde;o sendo menos amb&iacute;guas na sua defini&ccedil;&atilde;o, representam a identidade mo&ccedil;ambicana, tal como Rapsides e Jo&atilde;o Albasini, este &uacute;ltimo caraterizado pela condi&ccedil;&atilde;o de <i>assimilado</i>.<sup><a href="#2" name="top2">&#091;2&#093;</a></sup> A certa altura, Hans interroga-se: "Finalmente, n&atilde;o ser&aacute; at&eacute; a sua ra&ccedil;a &#8211; nem branco nem preto &#8211; ela pr&oacute;pria uma ambiguidade?" (Borges Coelho, 2010: 383).</p>      <p>No perfil de Hans ecoa a sobreposi&ccedil;&atilde;o de dois projetos, da <i>fl&acirc;nerie</i> e da arqueologia<sup><a href="#3" name="top3">&#091;3&#093;</a></sup>, que encontramos em Benjamin e que revela precisamente a problem&aacute;tica do lugar da aprendizagem, paisagem urbana real ou mem&oacute;ria:</p>      <blockquote>    <p>No &acirc;mbito dos conceitos do <i>fl&acirc;neur</i> como mnemot&eacute;cnico, a arqueologia serve de met&aacute;fora para caracterizar o trabalho do <i>fl&acirc;neur</i> que se refere ao passado. No entanto, esta met&aacute;fora revela tamb&eacute;m o dilema que caracteriza estes conceitos, porque ao contr&aacute;rio do arque&oacute;logo, o <i>fl&acirc;neur</i> encontra s&oacute; em casos rar&iacute;ssimos o passado nos vest&iacute;gios materiais.<sup><a href="#4" name="top4">&#091;4&#093;</a></sup></p></blockquote>      <p>Em <i>Berliner Kindheit um 1900</i>, os lugares indicados nos t&iacute;tulos dos breves cap&iacute;tulos emergem do campo da mem&oacute;ria e n&atilde;o da paisagem urbana experimentada na <i>fl&acirc;nerie</i> (Neumeyer, 1999: 377-78). No romance de Borges Coelho, surge uma sobreposi&ccedil;&atilde;o mais complexa e at&eacute; antag&oacute;nica entre (1) a focaliza&ccedil;&atilde;o em Hans, um alem&atilde;o disfar&ccedil;ado de ingl&ecirc;s vagueando por um Louren&ccedil;o Marques para ele desconhecido e evocando as suas mem&oacute;rias, e (2) o narrador extradieg&eacute;tico, n&atilde;o s&oacute; portador discreto do &#8216;presente vivido&#8217; desta cidade do p&oacute;s-guerra 14-18, "quase totalmente rasurado do espa&ccedil;o urbano contempor&acirc;neo" (Brugioni, 2012: 395), mas tamb&eacute;m fonte do saber capaz de articular esta mem&oacute;ria com hist&oacute;ria e fic&ccedil;&atilde;o, re-funcionalizando de forma criativa este <i>arquivo menor</i>, al&eacute;m do <i>effet de r&eacute;el</i>.</p>      <p>Basta citar o par&ecirc;ntesis inicial que refere "Fernando Pessoa (&#8230;) de regresso a uma p&aacute;tria desconhecida" (Borges Coelho, 2010: 15) e, numa esp&eacute;cie de complemento final, o letreiro "<i>A. O. Salazar, Contabilista, Esp&iacute;rito de miss&atilde;o, (&#8230;).</i>" (<i>Idem</i>, 438). No entanto, o encontro de Hans com aquele contabilista de "nariz aquilino" e "voz afeminada" (<i>Idem</i>, 439) j&aacute; faz parte da sua visita a um pr&eacute;dio "que n&atilde;o se lembra ter visto antes" (<i>Idem</i>, 436). S&oacute; repara na sua frontaria fantasiosa, bem ao estilo das <i>Cidades Invis&iacute;veis</i> de Calvino, quando sentado na cadeira cromada da Barbearia e olhando "o espelho que tem na frente" (<i>Ibidem</i>). A sua err&acirc;ncia, caraterizada ao longo do romance pela intera&ccedil;&atilde;o entre o real e o imagin&aacute;rio, nem sempre com delimita&ccedil;&otilde;es un&iacute;vocas, acaba significativamente no esquecimento, na incapacidade de nem sequer se lembrar mais "de uma certa pra&ccedil;a de Hamburgo, fustigada por uma chuva inclemente" (<i>Idem</i>, 439).</p>      <p>Portanto, em vez de o discurso narrativo afirmar uma ilus&atilde;o referencial consistente, o leitor est&aacute; confrontado com o problema de filtrar os signos espalhados pelas ruas e pra&ccedil;as e atribuir-lhes significado, participando assim na pr&oacute;pria constru&ccedil;&atilde;o discursiva da realidade e, consequentemente, da Hist&oacute;ria. Hans vagueia pelos "labirintos de uma cidade de espelhos onde os acontecimentos que pareciam definitivos n&atilde;o passam afinal de um mero reflexo de verdades sempre novas, escondidas dentro dele" (<i>Idem</i>, 291). Fiel a esta imagem, que mais uma vez lembra Calvino, estabelece-se uma articula&ccedil;&atilde;o, de contiguidade e analogia, entre a <i>fl&acirc;nerie</i> e a atividade de detetive ou arque&oacute;logo: em vez de afirmar o percurso un&iacute;voco e sint&eacute;tico da Hist&oacute;ria (<i>history as written</i>), o leitor est&aacute; confrontado com a ambiguidade e a desordem. Ter&aacute; que lidar com a pluralidade de nomes achando-se perdido, tal como Hans, na "mar&eacute; das interroga&ccedil;&otilde;es" (<i>Idem</i>, 356) sobre o passado (<i>past as lived</i>)<sup><a href="#5" name="top5">&#091;5&#093;</a></sup>; passado esse que abrange o leque de a&ccedil;&otilde;es, decis&otilde;es e oportunidades que ficaram na sombra daquele que &eacute; sintetizado na &#8216;grande narrativa&#8217; da Hist&oacute;ria. A crise de interpreta&ccedil;&atilde;o que carateriza a <i>fl&acirc;nerie</i> e a investiga&ccedil;&atilde;o de Hans prolonga-se at&eacute; na reduplica&ccedil;&atilde;o do objeto cobi&ccedil;ado &#8211; o diamante: o &#8216;Olho de Hertzog&#8217; representa a oportunidade de alterar o rumo da Hist&oacute;ria. No entanto, ela &eacute; desaproveitada no meio dos acasos, encontros e eventos revelados ao longo das diversas &#8216;est&oacute;rias&#8217; que Hans escuta, compreendendo s&oacute; aos poucos a sua articula&ccedil;&atilde;o &#8211; um detetive inexperiente, um leitor ignorante do passado.</p>      <p>Por exemplo, ele confessa que n&atilde;o sabe quem &eacute; o general Koos de la Rey, levando Natalie Korenico, de proveni&ecirc;ncia inglesa, a contar "a saga do general tal como os afric&acirc;nderes a contam" (<i>Idem</i>, 232): "Montado no seu cavalo branco, De la Rey escapou a todas as armadilhas, surgiu sempre onde menos o esperavam" (<i>Ibidem</i>). Contrasta com este hero&iacute;smo idealizado a guerra total e destrutiva dos invasores ingleses, n&atilde;o poupando a popula&ccedil;&atilde;o civil e levando-a a campos de concentra&ccedil;&atilde;o. &Eacute; Natalie que lhe tem que contar o que ele deveria saber: o general De la Rey &eacute; obrigado a assinar, a 31 de maio de 1902, o Tratado de Vereeniging, entre o Reino Unido e as rep&uacute;blicas do Transvaal e do Estado Livre de Orange, ficando, a partir daquela data, todo o territ&oacute;rio sob dom&iacute;nio dos vencedores, sendo denominado Uni&atilde;o Sul-Africana.</p>      <p>Longe de ficar pelos factos, esta revisita&ccedil;&atilde;o do passado, aparentemente ing&eacute;nua, procura as possibilidades alternativas, introduzindo assim uma paradoxal dimens&atilde;o messi&acirc;nica, correspondendo &agrave; contradi&ccedil;&atilde;o inerente da "history as prophecy" (Wesseling, 1991) que carateriza o romance hist&oacute;rico autorreflexivo. Contudo, tamb&eacute;m esta dimens&atilde;o messi&acirc;nica n&atilde;o &eacute; afirmativa nem un&iacute;voca, porque surge n&atilde;o s&oacute; como uma pluralidade de proje&ccedil;&otilde;es sobre o futuro (para o leitor impl&iacute;cito: o passado) mas tamb&eacute;m como a possibilidade de uma leitura ir&oacute;nica. Por exemplo, basta pensar no encontro final de Hans com aquele contabilista de nome Salazar, cujo letreiro promete "<i>Projecto de futuro alicer&ccedil;ado em s&oacute;lidos valores. Ordem e Progresso</i>" (Idem, 438). Hans l&ecirc; este letreiro numa "&uacute;ltima porta, mais austera, sem os arabescos que ornamentam as restantes. Uma porta incongruente num pr&eacute;dio como aquele, e todavia de algum modo cheirando a futuro" (<i>Ibidem</i>).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Dissemos que aquele pr&eacute;dio que Hans n&atilde;o se lembra ter visto antes, faz lembrar as <i>Cidades Invis&iacute;veis</i> de Calvino. No entanto, o leitor tamb&eacute;m se deve lembrar daquela outra cidade que Hans tinha sonhado numa ocasi&atilde;o pr&eacute;via:</p>      <blockquote>    <p>Entr&aacute;vamos por uma cidade quase europeia, n&atilde;o fosse a cor da sua mis&eacute;ria. Na frente, o <i>kommandant</i> montado num cavalo branco e envergando o uniforme de gala, comigo por perto nas minhas n&oacute;veis fun&ccedil;&otilde;es de adjudante-de-campo. (<i>Idem</i>, 271)</p></blockquote>      <p>Este devaneio da entrada triunfal do general Lettow-Vorbeck, com "as companhias de <i>askaris</i> alem&atilde;es, impecavelmente uniformizadas e alinhadas, de espingarda ao ombro" (<i>Ibidem</i>), &eacute; facilmente reconhec&iacute;vel como aquela ver&iacute;dica, em 2 de mar&ccedil;o de 1919, na capital derrotada do antigo Imp&eacute;rio Alem&atilde;o, cidade a mergulhar numa mis&eacute;ria quase n&atilde;o-europeia sob as severas san&ccedil;&otilde;es impostas pelo Tratado de Versalhes. Tal como o general Koos de la Rey, imbat&iacute;vel na sua campanha contra os ingleses, Lettow-Vorbeck, ele tamb&eacute;m montado num cavalo branco, ser&aacute; arauto de outro salvador messi&acirc;nico. Entende-se a dupla ironia de Berlim como "cidade quase europeia", na qual entram os "<i>askaris</i> alem&atilde;es": uma invers&atilde;o que deve ser vista no &acirc;mbito deste projeto narrativo que empreende um reposicionamento de &Aacute;frica, e em concreto da Hist&oacute;ria de Mo&ccedil;ambique e de Louren&ccedil;o Marques, perante a Primeira Guerra Mundial, habitualmente narrada numa perspetiva euroc&ecirc;ntrica. Este projeto implica tamb&eacute;m uma abordagem das consequ&ecirc;ncias da Segunda Guerra dos B&oacute;eres, tal como a analogia entre Koos de la Rey e Lettow-Vorbeck j&aacute; insinua.</p>      <p><b>2. Entre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra dos B&oacute;eres &#8211; uma perspetiva <i>ex-c&ecirc;ntrica</i></p></b>      <p>Uma parte da a&ccedil;&atilde;o centra-se nos acontecimentos relacionados com um marco emblem&aacute;tico da &#8216;grande narrativa&#8217; civilizacional europeia: a Primeira Guerra Mundial. Hans Mahrenholz apresenta os combates travados pela <i>Schutztruppe</i><sup><a href="#6" name="top6">&#091;6&#093;</a></sup> no territ&oacute;rio africano, onde se encontra com LettowVorbeck e posteriormente Sebastian Gl&uuml;ck, personagem que acabar&aacute; por definir o desenrolar dos acontecimentos.</p>      <p>O que a &#8216;grande narrativa&#8217; marginaliza &eacute; o facto de a Primeira Guerra Mundial tamb&eacute;m ter marcado "uma viragem social e econ&oacute;mica mas sobretudo pol&iacute;tica em &Aacute;frica" (M&#8217;Bokolo, 2007: 385). Borges Coelho faz uma cr&iacute;tica &agrave; perspetiva euroc&ecirc;ntrica tradicional, resgatando ao mesmo tempo uma Hist&oacute;ria de Mo&ccedil;ambique. A historiografia ocidental (europeia e norte-americana) s&oacute; recentemente tem abandonado a vis&atilde;o perif&eacute;rica de &Aacute;frica neste conflito, considerando o seu pr&oacute;prio "maelstrom":</p>      <blockquote>    <p>Indeed Britain and Germany did not formally agree to cease hostilities in East Africa until two weeks after the Armistice was signed in Europe in November 1918; and in the intervening four years Britain, India, South Africa, Belgium, Portugal and Germany were sucked into a maelstrom which radically altered the lives of millions of Africans and would result in a complete redrawing of the map of colonial Africa. (Paice, 2010: 21)</p></blockquote>      <p>Este romance hist&oacute;rico autorreflexivo procura trazer para o dom&iacute;nio p&uacute;blico a import&acirc;ncia que "a luta entre as pot&ecirc;ncias europeias" assumiu no territ&oacute;rio africano, pondo em causa "a suposta primazia do homem branco e, logo, um dos alicerces da pr&oacute;pria coloniza&ccedil;&atilde;o" (M&#8217;Bokolo, 2007: 385). Conforme Brugioni (2012: 399), "Borges Coelho situa a narra&ccedil;&atilde;o do conflito a partir de um espa&ccedil;o / tempo ex-c&ecirc;ntrico, baseando a sua afirma&ccedil;&atilde;o em Bhabha (1995) e, no que diz respeito "&agrave; especificidade do conflicto mundial no territ&oacute;rio africano", em M&#8217;Bokolo (2007).<sup><a href="#7" name="top7">&#091;7&#093;</a></sup> Propomo-nos articular esta abordagem com o conceito de uma perspetiva "ex-c&ecirc;ntrica" contra o poder autorit&aacute;rio do discurso &uacute;nico (Hutcheon, 1988: 12) e com a organiza&ccedil;&atilde;o dial&oacute;gica ou polif&oacute;nica do romance (Bakhtin, 1981).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Explorando-se um pouco mais esta ideia, pode-se verificar que, ao longo da narrativa, surgem v&aacute;rias <i>vers&otilde;es</i> que v&atilde;o sendo contadas acerca do mesmo facto. Atente-se, a t&iacute;tulo de exemplo na misteriosa personagem de Sebastian Gl&uuml;ck. Quando o coronel aparece junto ao ex&eacute;rcito alem&atilde;o, surge como algu&eacute;m enigm&aacute;tico, de identidade amb&iacute;gua. Assim, Hans fica curioso relativamente ao passado e come&ccedil;a a relatar supostas aventuras vividas pelo oficial, reveladas pelos seus companheiros. O m&eacute;dico Gasparini, o major Matthaus, o ajudante de cozinheiro Santana, entre outros, contam extraordin&aacute;rias e fantasiosas hist&oacute;rias sobre o misterioso coronel, que parece ser ora uma figura quase m&iacute;tica ora um criminoso psicopata.</p>      <p>Al&eacute;m deste exemplo, podem-se tamb&eacute;m referir o testemunho do padre Sacramento da vida de Rapsides, as hist&oacute;rias de amor e intriga misturadas com as cr&iacute;ticas &agrave; injusti&ccedil;a social do jornalista Albasini, entre outras. Esta combina&ccedil;&atilde;o de vozes, que contam est&oacute;rias e n&atilde;o escrevem a Hist&oacute;ria, poderia sugerir a liga&ccedil;&atilde;o do romance com a tradi&ccedil;&atilde;o oral da literatura africana, se n&atilde;o fossem sobretudo as personagens femininas vindas da Europa e da &Aacute;frica do Sul as contadoras mais ativas: Florence, Natalie e Wally. Esta polifonia fica associada a uma revisita&ccedil;&atilde;o do passado que explora as possibilidades que ficaram na sombra da &#8216;grande narrativa&#8217;, introduzindo assim uma paradoxal dimens&atilde;o messi&acirc;nica. Esta n&atilde;o se afirma de forma un&iacute;voca e at&eacute; &agrave;s vezes parece ironizada, tal como acontece no referido devaneio da entrada triunfal do general Lettow-Vorbeck, parodiada por outras vers&otilde;es:</p>      <blockquote>    <p>Klopper talvez se visse a si pr&oacute;prio montado no cavalo branco de Lettow, respondendo aos acenos da multid&atilde;o com uma m&atilde;o, com a outra consultando o seu rel&oacute;gio, seguido do seu ajudante-de-campo, o reverendo corcunda Jozua Naud&eacute;, de manto escuro drapeando ao vento; (&#8230;). (<i>Idem</i>, 271-72)</p></blockquote>      <p>Estas fantasias surgem na sequ&ecirc;ncia de um plano de mudar o rumo da Hist&oacute;ria, conferindo um novo sentido &agrave; fuga das tropas de LettowVorbeck, uma vez que a guerra j&aacute; estava praticamente decidida em territ&oacute;rio europeu: "Lettow marcharia com a sua for&ccedil;a sobre Joanesburgo!" (<i>Idem</i>, 265). O art&iacute;fice &eacute; Sebastian Gl&uuml;ck que ainda fala da hip&oacute;tese remota de a presen&ccedil;a alem&atilde; na &Aacute;frica Austral "ditar o curso dos acontecimentos na Europa" (<i>Ibidem</i>). O plano do misterioso Gl&uuml;ck (em alem&atilde;o: &#8216;sorte&#8217;) previa uma audaz conflu&ecirc;ncia de diversas vis&otilde;es messi&acirc;nicas, &#8216;nacionais&#8217; no sentido lato, contra o poder opressor do Reino Unido. Este &#8216;D. Sebasti&atilde;o&#8217; n&atilde;o s&oacute; queria juntar a <i>Jong Zuid Afrika</i> que apoiava o general Hertzog, "o &uacute;nico pol&iacute;tico com coragem e valores para se bater pela causa do seu verdadeiro povo" (<i>Idem</i>, 270), mas tamb&eacute;m os africanos que sonhavam de recuperar o antigo imp&eacute;rio de <i>Macombe</i>: Gl&uuml;ck reuniu-se com um dos herdeiros, Nongwe-Nongwe, acompanhado por Mbuya, "uma feiticeira muito jovem, encarregado de receber de Kabudu Kagoro, o grande Deus local, as mensagens que transmitia aos combatentes" (<i>Idem</i>, 262): "(&#8230;) nessa noite tivera um sonho, um sonho em que vinham de longe grandes guerreiros para os ajudar a vencer o Diabo" (<i>Ibidem</i>).</p>      <p>Embora todo este plano &#8211; que tem movimenta&ccedil;&otilde;es historicamente documentadas como base &#8211; tenha ficado reduzido a uma constru&ccedil;&atilde;o geopol&iacute;tica imagin&aacute;ria perante o N&atilde;o categ&oacute;rico de Lettow-Vorbeck que n&atilde;o se deixa manipular por Gl&uuml;ck, o seu valor para uma historiografia alternativa, aberta &agrave;s oportunidades desaproveitadas &eacute; ineg&aacute;vel. O general alem&atilde;o, focado na Europa, nega a possibilidade de uma uni&atilde;o entre os B&oacute;er dissidentes da Uni&atilde;o, os <i>askaris</i> alem&atilde;es e os povos da Zamb&eacute;zia contra a hegemonia brit&acirc;nica, o que teria tido como consequ&ecirc;ncia um reposicionamento de Mo&ccedil;ambique para uma maior centralidade, entre Europa e &Aacute;frica do Sul. &Eacute; uma alternativa aliciante perante a Hist&oacute;ria colonial portuguesa que, no outono de 1917, declara conclu&iacute;da "a &#8216;pacifica&ccedil;&atilde;o&#8217; da Zamb&eacute;zia, desta vez de forma definitiva &#8211; at&eacute; &agrave; moderna guerra pela independ&ecirc;ncia" (Alexandre, 1998: 190).</p>      <p>&Eacute; nesta encruzilhada da Hist&oacute;ria entre a pluralidade dos poderes e a consolida&ccedil;&atilde;o da hegemonia brit&acirc;nica que a reduplica&ccedil;&atilde;o do objeto cobi&ccedil;ado &#8211; o &#8216;Olho de Hertzog&#8217; &#8211; adquire significado pol&iacute;tico por representar a esperan&ccedil;a de alterar o rumo. No entanto, &eacute; a noite "daquele fat&iacute;dico 16 de Setembro" (Borges Coelho, 2010: 234) que deita as ilus&otilde;es por terra. Por um acaso ou pelo destino<sup><a href="#8" name="top8">&#091;8&#093;</a></sup>, mais uma quest&atilde;o de interpreta&ccedil;&atilde;o, acontece um singular cruzamento entre a trajet&oacute;ria final de um gang de ladr&otilde;es que se tornou famoso na &Aacute;frica do Sul e a movimenta&ccedil;&atilde;o de militares da na&ccedil;&atilde;o afric&acirc;nder, contr&aacute;ria &agrave; &#8216;grande narrativa&#8217; da Uni&atilde;o Sul-Africana. O general Koos de la Rey, talvez no caminho de se juntar &agrave; revolta contra a Uni&atilde;o (<i>Idem</i>, 288), procurando a alian&ccedil;a com as for&ccedil;as alem&atilde;s em vez de entrar ao lado dos brit&acirc;nicos no Sudoeste Africano Alem&atilde;o, e o bandido Bill Foster com os seus companheiros, ap&oacute;s o cerco policial finalmente acurralados dentro de uma gruta em Joanesburgo, morrem na mesma noite de 15 para 16 de setembro de 1914. "Os dois enterros ocorreram no mesmo dia, quase em simult&acirc;neo. Um envolto em pompa e circunst&acirc;ncia, o outro mais modesto, assistido apenas pela fam&iacute;lia Korenico" (<i>Idem</i>, 289).</p>      <p>Este cruzamento revela-se como um dos maiores n&oacute;s na teia das biografias, todas elas caraterizadas por um milagre, um renascimento ou uma segunda vida que se acrescenta a identidades historicamente documentadas. Portanto, uma componente de miss&atilde;o ou predestina&ccedil;&atilde;o perpassa todas as narrativas. Por um motivo ou outro, todos eles recebem a &#8216;chamada&#8217; de se encontrar em Louren&ccedil;o Marques, neste centro perif&eacute;rico (<i>cf</i>. Brugioni, 2012: 392) no eixo entre Europa e &Aacute;frica do Sul, tornando-se "uma cidade de espelhos onde os acontecimentos que pareciam definitivos n&atilde;o passam afinal de um mero reflexo de verdades sempre novas, escondidas dentro dele" (<i>Idem</i>, 291).</p>      <p>Natalie &eacute; quem melhor encarna o renascimento que o romance confere a algumas das personagens. Nascida como Martina Korenico em Brighton, apaixona-se na sua juventude por William Foster, futuro l&iacute;der de um gang de ladr&otilde;es. Juntamente com John Maxim e Carl Mezar leva a cabo um conjunto de assaltos que acabariam por ditar o seu fim dentro da mencionada gruta em Joanesburgo. Decidem ent&atilde;o p&ocirc;r fim &agrave; sua vida. N&atilde;o sem antes Bill pedir para ver uma &uacute;ltima vez a sua esposa, agora Peggy Foster. &Eacute; ent&atilde;o que se ouvem fora da gruta tr&ecirc;s tiros e, ap&oacute;s entrarem, os pol&iacute;cias encontram os corpos de Foster, Maxim, Peggy e Carl que foi o primeiro a ser alvejado por Maxim, a seu pedido. Os pais de Peggy, ao saberem do sucedido, pedem ao detetive para levarem o corpo da filha de volta para casa, para poder ser sepultada. O detetive acede e na viagem para casa dos Korenico descobrem que Peggy afinal estava viva. &Eacute; aqui que a narrativa lhe confere a tal segunda vida, pois nos relatos oficiais (<i>vd</i>. Davie, 2003) esta tinha realmente falecido conjuntamente com todos os outros membros do <i>Foster Gang</i>, como ficou conhecido em Joanesburgo. Ap&oacute;s o sucedido, nasce a nova identidade de Natalie Korenico que acaba por viajar para Louren&ccedil;o Marques, tal como o seu amante sempre tinha desejado.</p>      <p>Este exemplo mostra como o romance questiona, de forma criativa, a rela&ccedil;&atilde;o entre a representa&ccedil;&atilde;o e os factos. Tudo isto vai de encontro ao que Hayden White refere na sua obra <i>Metahistory</i> (White, 1973). A sua conce&ccedil;&atilde;o de obras hist&oacute;ricas como narrativas liter&aacute;rias, sem serem declaradas como tal, funde a distin&ccedil;&atilde;o entre Hist&oacute;ria e &#8216;est&oacute;ria&#8217;, pois enquanto as narrativas hist&oacute;ricas s&atilde;o constru&iacute;das a partir de factos reconhecidos, precisa-se necessariamente de se recorrer &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o para organizar esses mesmos factos numa hist&oacute;ria coerente, sempre tendo em conta as estrat&eacute;gicas metaf&oacute;ricas e ideol&oacute;gicas utilizadas para explicar o passado (Munslow, 1997: 9). Da&iacute; White referir que a ci&ecirc;ncia hist&oacute;rica falha quando o seu objetivo &eacute; a reconstru&ccedil;&atilde;o objetiva do passado. Com a estrat&eacute;gia narrativa de um cruzamento entre a Hist&oacute;ria e biografias parcialmente inventadas, o <i>Olho de Hertzog</i> aproxima-se tamb&eacute;m do conceito de "metafic&ccedil;&atilde;o historiogr&aacute;fica" apresentado por Linda Hutcheon (1988: 97).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O romance procura passar a ideia de que a Hist&oacute;ria n&atilde;o pode ser vista nem constru&iacute;da de uma forma t&atilde;o un&iacute;voca e linear, e ao extrapolar todas as narrativas, quer com pessoas, quer com acontecimentos, <i>O Olho de Hertzog</i> redefine o lugar de Mo&ccedil;ambique na Hist&oacute;ria. No seguimento desta ideia, &eacute; oportuno referir a introdu&ccedil;&atilde;o intertextual de narrativas que v&atilde;o fornecendo informa&ccedil;&otilde;es que se assumem como fundamentais para a constru&ccedil;&atilde;o do romance, como se os <i>testemunhos</i>, conforme apresentado por Beatriz Sarlo (2005), se provassem fundamentais para a constru&ccedil;&atilde;o das chamadas narrativas dominantes. &Eacute; o caso das mem&oacute;rias do general Lettow-Vorbeck<sup><a href="#9" name="top9">&#091;9&#093;</a></sup> que se tornaram populares sob a vers&atilde;o encurtada <i>Heia Safari! Deutschlands Kampf in Ostafrika</i> (1920). Sob a perspetiva que aqui desenvolvemos, a nota pr&eacute;via das mem&oacute;rias &eacute; elucidativa:</p>      <blockquote>    <p>Os meus pr&oacute;prios apontamentos perderam-se em grande parte, e faltou-me tempo livre (&#8230;) para debru&ccedil;ar-me em pormenor sobre a campanha em &Aacute;frica Oriental. Assim s&oacute; posso fornecer indica&ccedil;&otilde;es incompletas. No essencial, tenho que confiar na minha mem&oacute;ria e no que eu pr&oacute;prio vivi. Alguns erros s&atilde;o inevit&aacute;veis." (Lettow-Vorbeck, 1920: VI)</p></blockquote>      <p>Nos anos trinta, proliferam fic&ccedil;&otilde;es historiogr&aacute;ficas em torno das lutas dos alem&atilde;es na &Aacute;frica Oriental, nomeadamente do escritor popular Friedrich Wilhelm Mader.<sup><a href="#10" name="top10">&#091;10&#093;</a></sup> Nas mem&oacute;rias de Lettow-Vorbeck n&atilde;o aparecem nem Sebastian Gl&uuml;ck nem Hans Mahrenholz. Desconhecemos se o fazem num destes romances.</p>      <p><b>3. O jogo das identidades e o reposicionamento</p></b>      <p>De facto, quando se l&ecirc; <i>O Olho de Hertzog</i>, as d&uacute;vidas s&atilde;o constantes. Quem &eacute; Hans Mahrenholz e o que procura? Que segredos esconde Rapsides? De que forma &eacute; que as hist&oacute;rias de todas as personagens se interligam entre si e de que modo necessitam umas das outras para fazerem sentido?</p>      <p>Veja-se, a t&iacute;tulo de exemplo, o caso do protagonista e narrador da hist&oacute;ria: Hans Mahrenholz, antigo oficial alem&atilde;o, membro da <i>Schutztruppe</i>, surge em Louren&ccedil;o Marques como Henry Miller. Primeiro, como empres&aacute;rio &agrave; procura de oportunidades de neg&oacute;cio e, posteriormente, como jornalista do <i>Rand Daily Mail</i>, com vista a elabora&ccedil;&atilde;o de uma reportagem sobre as condi&ccedil;&otilde;es de recrutamento dos trabalhadores das minas.</p>      <p>Sabe-se que existiu historicamente um oficial alem&atilde;o com o nome de Hans Marholz que fez parte da miss&atilde;o do <i>Afrika Luftschiff</i>, sob o comando de Ludwig Bockholt, apesar de ser oriundo de K&ouml;nigsberg e n&atilde;o de Hamburgo. &Eacute; dois anos mais velho do que o pr&oacute;prio capit&atilde;o Bockholt, tamb&eacute;m presente no romance.</p>      <p>O romance confere a esta personagem uma reincarna&ccedil;&atilde;o sob um nome ligeiramente diferente, uma nova vida, cujo destino &eacute; de se integrar numa Hist&oacute;ria alternativa centrada no continente africano. A viagem ap&oacute;crifa do <i>Afrika Luftschiff</i> &eacute; paradigm&aacute;tica no sentido do reposicionamento que o romance empreende e pode ser entendida como narrativa inaugural deste estrat&eacute;gia, depois repetido com outras personagens.</p>      <p>Depois de um primeiro voo de teste, o embarque de Mahrenholz / Marholz ocorre em Jamboli, na Bulg&aacute;ria, "a base alem&atilde; mais pr&oacute;xima do continente africano" (Borges Coelho, 2010: 51), em 21 de novembro de 1917, para uma viagem oficialmente sem regresso: "Em &Aacute;frica n&atilde;o havia condi&ccedil;&otilde;es de reabastecer o <i>Afrika Luftschiff</i> de combust&iacute;vel e g&aacute;s para tornar poss&iacute;vel a viagem de regresso. &#091;...&#093; O aparelho seria desmantelado &agrave; chegada" (<i>Idem</i>, 49).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>J&aacute; estas indica&ccedil;&otilde;es, historicamente documentadas, deixam entrever a inten&ccedil;&atilde;o de re-funcionalizar um epis&oacute;dio secund&aacute;rio no contexto geral do desastroso desempenho militar dos dirig&iacute;veis do Imp&eacute;rio Alem&atilde;o que, no in&iacute;cio da Grande Guerra, tiveram a fama de &#8216;arma milagrosa&#8217;. Tal epis&oacute;dio torna-se ocasi&atilde;o &#8211; historicamente poss&iacute;vel &#8211; para a &#8216;inicia&ccedil;&atilde;o africana&#8217; de um dos tripulantes: Hans Marholz ficcionalizado em Hans Mahrenholz. O projeto de uma viagem sem regresso para &Aacute;frica adquire para o Eu nesta fic&ccedil;&atilde;o historiogr&aacute;fica uma "natureza mais profunda, ganhando caracter&iacute;sticas de verdadeira partida, um definitivo mergulho na escurid&atilde;o" (<i>Idem</i>, 49). Esta imagem de "mergulho" reaparecer&aacute; continuamente ao longo da narrativa da miss&atilde;o &#8211; historicamente abortada &#8211; de abastecer as for&ccedil;as dizimadas e exaustas de Lettow-Vorbeck na &Aacute;frica Oriental com armamento e medicamentos: "Quanto a mim, o que &eacute; tamb&eacute;m de algum modo estranho, sentia cada vez mais forte a vontade de seguir em frente, de mergulhar" (<i>Idem</i>, 53). Esta vontade entra em conflito com a vers&atilde;o hist&oacute;rica do voo a partir do momento que o r&aacute;dio recebe do Almirantado o comando de regressar, por n&atilde;o haver condi&ccedil;&otilde;es de realizar a miss&atilde;o de apoio &agrave;s tropas de Lettow-Vorbeck. Esta mensagem j&aacute; deveria ter chegado antes, porque a decis&atilde;o foi tomada tr&ecirc;s horas e meia ap&oacute;s a partida do L-59 (assim o nome de f&aacute;brica do dirig&iacute;vel). No entanto j&aacute; era imposs&iacute;vel transmiti-la a partir de Jamboli, havia necessidade de utilizar a potente esta&ccedil;&atilde;o-r&aacute;dio de Nauen, perto de Berlim, que s&oacute; na noite do dia 22 para o dia 23, &agrave;s 0.45 horas, conseguiu transmitir o telegrama.<a href="#11" name="top11">&#091;11&#093;</a></sup></p>      <p>Em vez de obedecer "a voz roufenha de Nauen apelando a que regress&aacute;ssemos a casa" (<i>Idem</i>, 57), conforme a vers&atilde;o hist&oacute;rica, o comandante Bockholt do romance "continuava a pretender levar a miss&atilde;o at&eacute; ao fim" (<i>Ibidem</i>), mesmo perante a insubordina&ccedil;&atilde;o de uma parte da tripula&ccedil;&atilde;o. &Eacute; neste momento, que surge Mahrenholz (j&aacute; n&atilde;o id&ecirc;ntico com o Marholz hist&oacute;rico) "ao lado do comandante": "Como disse, h&aacute; muito a minha decis&atilde;o estava tomada, nada me faria voltar atr&aacute;s" (<i>Idem</i>, 59). Mahrenholz consegue convencer Bockholt em prosseguir "em direc&ccedil;&atilde;o ao sul por mais seis horas, ap&oacute;s o que eu saltaria com algum equipamento e eles dariam meia volta, de regresso a casa ainda em condi&ccedil;&otilde;es de serem bem-sucedidos" (<i>Idem</i>, 60). Este salto de paraquedas de facto estava previsto no projeto inicial da viagem, a ser executado por outro tripulante, Emil Grussdorf, que se voluntariou para esta miss&atilde;o muito arriscada: uma vez na mata, ele deveria procurar entrar em contacto com as tropas de Lettow-Vorbeck e preparar, junto com os soldados, o local de aterragem. No romance, &eacute; Mahrenholz que assume esta "opera&ccedil;&atilde;o estranha" (<i>Idem</i>, 62), disfar&ccedil;ando de hero&iacute;smo militar o seu projeto pessoal ainda difuso de ficar em &Aacute;frica: "(&#8230;), e finalmente, com um aceno geral de despedida, mergulhei no espa&ccedil;o" (<i>Ibidem</i>).</p>       <p>Este voo de seis horas &#8211; historicamente indocumentado, no entanto imagin&aacute;vel &#8211; transforma o L-59 numa "esp&eacute;cie de navio fantasma sobrevoando um espa&ccedil;o que n&atilde;o constava nem na geografia nem sequer no tempo" (<i>Idem</i>, 62). A prolonga&ccedil;&atilde;o, contr&aacute;ria da vers&atilde;o oficialmente comprovada (<a href="#f1">fig.1</a>), possibilita uma articula&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o geogr&aacute;fico e do tempo hist&oacute;rico de Mo&ccedil;ambique com uma Europa que sente a atra&ccedil;&atilde;o de &Aacute;frica como novo centro e como oportunidade de uma segunda vida, como demonstram as biografias inventadas de outras personagens, nomeadamente Valerie "Wally" Neuzil, a primeira modelo e musa de Egon Schiele. &Agrave; imagem de Hans, tamb&eacute;m esta pintora austr&iacute;aca, tradicionalmente vista na sombra de Schiele, teve direito a uma &#8216;segunda vida&#8217;, sentindo a chamada de &Aacute;frica, no seu caso atrav&eacute;s de um quadro de Picasso, supostamente influenciado pela arte africana (<i>Idem</i>, 243).</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="f1"> <img src="/img/revistas/dia/v28n3/28n3a24f1.jpg">     
<p>&nbsp;</p>      <p>Fonte: <a href="http://www.frontflieger.de/fflgfoto/2-l059_afrika.jpg" target="_blank">http://www.frontflieger.de/fflgfoto/2-l059_afrika.jpg</a></p>      <p>Portanto, esta prolonga&ccedil;&atilde;o do voo inaugura o <i>reposicionamento</i> do qual fal&aacute;mos. No romance, o regresso do zepelim L-59 &#8211; que na Hist&oacute;ria militar alem&atilde; completa o epis&oacute;dio, tradicionalmente mitificado como fa&ccedil;anha em termos tecnol&oacute;gicos e afirma&ccedil;&atilde;o nacional (<i>vd</i>. Goebel, 1925, entre outros) &#8211; simplesmente deixa de ter relev&acirc;ncia<sup><a href="#12" name="top12">&#091;12&#093;</a></sup>, porque o que interessa &eacute; o &#8216;mergulho&#8217; de Mahrenholz como entrada sem regresso em &Aacute;frica. Ao mesmo tempo, isto significa uma articula&ccedil;&atilde;o ex-c&ecirc;ntrica entre modernidade europeia e mundo africano colonial, n&atilde;o s&oacute; no sentido de Homi Bhabha, mas tamb&eacute;m de Bakhtin: Mahrenholz pode ser visto como protagonista de uma &#8216;est&oacute;ria&#8217; na tradi&ccedil;&atilde;o sat&iacute;rica de <i>Icaromenipo</i>, tal como o Padre Bartolomeu com a sua <i>passarola</i> sobrevoando as obras da constru&ccedil;&atilde;o do Convento de Mafra no romance <i>Memorial do Convento</i>. Tal como no caso do romance de Saramago, interessa como a perspetiva ex-c&ecirc;ntrica &eacute; capaz de interrogar a narrativa dominante, reinterpretando-a atrav&eacute;s da extrapola&ccedil;&atilde;o do historicamente imagin&aacute;vel: como procur&aacute;mos comprovar, o voo do zepelim n&atilde;o &eacute; simplesmente o elemento fantasioso ou misterioso que complementa, num sentido rom&acirc;ntico, o "plano da realidade" (Saraiva, 2010: 237) da guerra na &Aacute;frica Oriental, cumpre sim o papel inaugural de um reposicionamento que abrange toda a metafi&ccedil;&atilde;o historiogr&aacute;fica. H&aacute; uma coincid&ecirc;ncia hist&oacute;rica perfeita: as tropas de LettowVorbeck atravessam o Rowuma na manh&atilde; do dia 25 de novembro de 1917 (Lettow-Vorbeck, 1920: 207). A chegada de Hans junto do general imbat&iacute;vel &eacute; entendido como "duplo milagre" (Borges Coelho, 2010: 46), abrindo a dimens&atilde;o messi&acirc;nica retomada por Sebastian Gl&uuml;ck (<i>Idem</i>, 366-67), quando confia ao jornalista Henry Miller a miss&atilde;o da procura do &#8216;Olho de Hertzog&#8217;.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <!-- ref --><p>Alexandre, Vicente (1998), "Situa&ccedil;&otilde;es Coloniais: II &#8211; O Ponto da Viragem: as campanhas de ocupa&ccedil;&atilde;o (1890-1930)", <i>Hist&oacute;ria da Expans&atilde;o Portuguesa</i>, (dir.) Francisco Bethencourt &amp; Kirti Chaudhuri, Navarra: C&iacute;rculo de Leitores, vol. 4, 182-208.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000082&pid=S0807-8967201400030002400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Bakhtin, Michail M. (1981), <i>Problemas da po&eacute;tica de Dostoi&eacute;vski</i>. Trad. Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universit&aacute;ria.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000084&pid=S0807-8967201400030002400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Barthes, Roland (1968), "L&#8217;Effet de r&eacute;el", <i>Communications</i>, no 11, pp. 84-89.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000086&pid=S0807-8967201400030002400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       <!-- ref --><p>Benjamin, Walter (1974-91), <i>Gesammelte Schriften</i>, (orgs.) Rolf Tiedemann e Hermann Schweppenh&auml;user, Frankfurt / Main: Suhrkamp, 1974-91: indica&ccedil;&atilde;o dos respectivos volumes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000088&pid=S0807-8967201400030002400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Berkhofer, Robert F. (1995), <i>Beyond the great story : history as text and discourse</i>, Cambridge MA: The Belknap Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000090&pid=S0807-8967201400030002400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Bhabha, Homi K. (1995), <i>The Location of Culture</i>. London, Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000092&pid=S0807-8967201400030002400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Borges Coelho, Jo&atilde;o (2010), <i>O Olho de Hertzog</i>, Lisboa, Leya.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000094&pid=S0807-8967201400030002400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Brugioni, Elena (2012), "Resgatando Hist&oacute;rias. &Eacute;pica moderna e p&oacute;s-colonialidade. Uma leitura de <i>O Olho de Hertzog</i> de Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho", in <i>Journeys / Itiner&acirc;ncias. Percursos e Representa&ccedil;&otilde;es da P&oacute;s-colonialidade</i>, V.N. Famalic&atilde;o, H&uacute;mus / CEHUM, pp. 391-404.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000096&pid=S0807-8967201400030002400008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Calvino, Italo (1972), <i>Le citt&agrave; invisibili</i>, Torino: Einaudi.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000098&pid=S0807-8967201400030002400009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Davie, Lucille (2003), <i>Foster Gang: Raiders of the secret cave</i>, <a href="http://www.joburg.org.za" target="_blank">http://www.joburg.org.za</a> &#091;consultado em 15 de julho de 2014&#093;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000100&pid=S0807-8967201400030002400010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->.</p>      <!-- ref --><p>Dornseif, Golf (s/f), <i>Misslungener Luftschiff-Nachschub f&uuml;r Lettow-Vorbeck</i>,<a href="http://www.golf-dornseif.de" target="_blank"> http://www.golf-dornseif.de</a> &#091;consultado em 15 de julho de 2014&#093;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000102&pid=S0807-8967201400030002400011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->.</p>      <!-- ref --><p>Goebel, Johannes (1925), <i>Afrika zu unseren F&uuml;&szlig;en. Lettow-Vorbeck entgegen und andere geheimnisvolle Luftschiffahrten</i>, Berlin: K.F. Koehler.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000104&pid=S0807-8967201400030002400012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Hutcheon, Linda (1988), <i>A Poetics of Postmodernism: History, Theory, Fiction</i>. New York: Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000106&pid=S0807-8967201400030002400013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Iser, Wolfgang (1976), <i>Der Akt des Lesens. Theorie &auml;sthetischer Wirkung</i>. M&uuml;nchen: Fink.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000108&pid=S0807-8967201400030002400014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       <!-- ref --><p>Lettow-Vorbeck, General &#091;Paul&#093; von (1920), <i>Meine Erinnerungen aus Ost-Afrika</i>, Leipzig: K.F. Koehler &#091;<i>As minhas mem&oacute;rias da &Aacute;frica Oriental</i>, Trad. Ab&iacute;lio Pa&iacute;s de Ramos, &Eacute;vora, Minerva Comercial, 1923&#093;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000110&pid=S0807-8967201400030002400015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->.</p>      <!-- ref --><p>M&#8217;Bokolo, Elikia (2007), <i>&Aacute;frica Negra: hist&oacute;ria e civiliza&ccedil;&otilde;es</i>, Tomo II, Lisboa, Colibri.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000112&pid=S0807-8967201400030002400016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       <!-- ref --><p>Munslow, Alun (1997), <i>Deconstructing history</i>. London: Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000114&pid=S0807-8967201400030002400017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Neumeyer, Harald (1999), <i>Der Flaneur. Konzeptionen der Moderne</i>, W&uuml;rzburg: K&ouml;nigshausen &amp; Neumann.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000116&pid=S0807-8967201400030002400018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Paice, Edward (2007), <i>Tip &amp; Run. The Untold Tragedy of the Great War in Africa</i>. London, Weidenfeld &amp; Nicolson.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000118&pid=S0807-8967201400030002400019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Pitta, Eduardo (2010), "O general, o jornalista e o diamante", <i>P&uacute;blico. Cultura Ipsilon</i>, 24.03.2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000120&pid=S0807-8967201400030002400020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Saraiva, Sueli (2010), "<i>O Olho de Hertzog</i>, de Jo&atilde;o Paulo Borges Coelho", <i>Via Atl&acirc;ntica</i>, n&ordm; 17, pp. 235-239.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000122&pid=S0807-8967201400030002400021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Sarlo, Beatriz (2005), <i>Tiempo Pasado: Cultura de la memoria y giro subjectivo. Una Discusi&oacute;n</i>. Buenos Aires, Siglo Veintiuno Editores.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000124&pid=S0807-8967201400030002400022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Sch&auml;fer, Karl-Wilhelm (2006), <i>Einige Aspekte zur Afrikafahrt des Marine-Luftschiffs L 59</i>, <a href="http://www.traditionsverband.de/download/pdf/aspekte_afrika.pdf" target="_blank">http://www.traditionsverband.de/download/pdf/aspekte_afrika.pdf</a> &#091;consultado em 15 de julho de 2014&#093;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000126&pid=S0807-8967201400030002400023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->.</p>      <!-- ref --><p>Schulte-Varendorff, Uwe (2006), <i>Kolonialheld f&uuml;r Kaiser und F&uuml;hrer. General LettowVorbeck &#8211; Mythos und Wirklichkeit</i>. Ch. Links Verlag.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000128&pid=S0807-8967201400030002400024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Wesseling, Elisabeth (1991), <i>Writing History as a Prophet: Postmodernist Innovations of the Historical Novel</i>. Amsterdam &#8211; Philadelphia, John Benjamins.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000130&pid=S0807-8967201400030002400025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>White, Hayden (1973), <i>Metahistory: the historical imagination in nineteenth century Europe</i>. Baltimore: Johns Hopkins University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000132&pid=S0807-8967201400030002400026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Zupitza, Maximilian (1919), "Die Hilfsexpedition f&uuml;r die deutsch-ostafrikanische Schutztruppe auf dem Luftwege", <i>Deutsche Kolonialzeitung</i>, vol. 36 (1920), pp. 29-32.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000134&pid=S0807-8967201400030002400027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><7p>      <p>&nbsp;</p>      <p>&#091;recebido em 17 de julho de 2014 e aceite para publica&ccedil;&atilde;o em 21 de novembro de 2014&#093;</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p><sup><a href="#top1" name="1" >&#091;1&#093;</a></sup>O cap&iacute;tulo "Tiergarten", na vers&atilde;o tradicional e mais traduzida de Adorno-Rexroth, de 1950-55 (Benjamin, IV/1: 235-304) que difere da vers&atilde;o que Benjamin considerou final.</p>      <p><sup><a href="#top2" name="2">&#091;2&#093;</a></sup>Sobre a personagem e figura hist&oacute;rica de Jo&atilde;o Albasini <i>vd</i>. Brugioni (2012: 398).</p>      <p><sup><a href="#top3" name="3">&#091;3&#093;</a></sup>Brugioni (2012: 396) fala de "opera&ccedil;&atilde;o arqueol&oacute;gica", contudo sem refer&ecirc;ncia ao conceito benjaminiano.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top4" name="4">&#091;4&#093;</a></sup>Neumeyer (1999: 377) refere-se n&atilde;o s&oacute; ao conceito <i>fl&acirc;neur</i> de Benjamin, mas tamb&eacute;m de outros, da&iacute; o plural. Devemos esta tradu&ccedil;&atilde;o, tal como todas as refer&ecirc;ncias a textos e contextos alem&atilde;es, ao Prof. Orlando Grossegesse. Ali&aacute;s, o presente estudo surgiu das abordagens discutidas com este e outros docentes do ILCH / Universidade do Minho, no &acirc;mbito do programa de doutoramento <i>Modernidades Comparadas</i>.</p>      <p><sup><a href="#top5" name="5">&#091;5&#093;</a></sup>Aplicamos as categorias de Berkhofer (1995).</p>      <p><sup><a href="#top6" name="6">&#091;6&#093;</a></sup>Optamos por manter o singular original, ao contr&aacute;rio do entendimento (errado) de <i>Schutztruppe</i> como plural, no romance.</p>      <p><sup><a href="#top7" name="7">&#091;7&#093;</a></sup>Brugioni (2012: 399, nota 12)</p>      <p><sup><a href="#top8" name="8">&#091;8&#093;</a></sup>Atrav&eacute;s da narrativa de Florence sobre o vidente Siener van Rensburg (<i>Idem</i>, 284-285), uma figura hist&oacute;rica, introduz-se a dimens&atilde;o messi&acirc;nica / apocal&iacute;ptica da Hist&oacute;ria.</p>      <p><sup><a href="#top9" name="9">&#091;9&#093;</a></sup>Na realidade, em grande parte escritas pelo seu adjunto Walter von Ruckteschell cujo contributo oficialmente se cinge &agrave;s ilustra&ccedil;&otilde;es (Schulte-Varendorff, 2006: 104).</p>      <p><sup><a href="#top10" name="10">&#091;10&#093;</a></sup><i>Am Kilimandjaro. Abenteuer und K&auml;mpfe in Deutsch-Ostafrika</i>; <i>Vom Pangani zum Rowuma</i>; <i>In unbekannte Fernen. Deutsche Heldentaten in Portugiesisch-Ostafrika und in Rhodesien</i>. N&atilde;o h&aacute; datas exatas da publica&ccedil;&atilde;o destes tr&ecirc;s primeiros volumes da s&eacute;rie <i>Die Helden von Ostafrika</i> &#091;Os her&oacute;is de &Aacute;frica Oriental&#093;, Stuttgart; Berlin, Leipzig: Union Deutsche Verlagsgesellschaft.</p>      <p><sup><a href="#top11" name="11">&#091;11&#093;</a></sup>Um relato pormenorizado fornecem os estudos de Golf Dornseif (s/d) e Karl-Wilhelm Sch&auml;fer (2006). Um primeiro testemunho &eacute; publicado pelo m&eacute;dico Maximilian Zupitza (1919), personalidade com grande experi&ecirc;ncia em &Aacute;frica Oriental e mentor do plano de socorrer a LettowVorbeck utilizando um zepelim. N&atilde;o se sabe porque Borges Coelho escolheu o apelido "Vucic", para designar a personagem do "m&eacute;dico de bordo".</p>      <p><sup><a href="#top12" name="12">&#091;12&#093;</a></sup>Historicamente, o L-59 regressa na manh&atilde; do dia 25 de novembro de 1917 a Jamboli, ap&oacute;s 95h50 de voo &#8211; pr&oacute;ximo do record anterior do LZ-102 de 105 horas sobre o Mar B&aacute;ltico. Conforme os documentos, o zepelim ainda tinha combust&iacute;vel para 20 horas de voo. Numa miss&atilde;o posterior, em 7 de abril de 1918, o L-59 &eacute; abatido pelos ingleses ao Este da It&aacute;lia sobre o Mar Mediterr&acirc;neo (estreito de Otrando). Hans Marholz encontraria nesta miss&atilde;o a sua morte, tal como os seus companheiros da tripula&ccedil;&atilde;o, quase a mesma da lend&aacute;ria "Afrika-Fahrt".</p>       ]]></body><back>
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