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<article-title xml:lang="fr"><![CDATA[L’érotisme au moyen âge: Le corps, le désir, l&#8217;amour]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENS&Otilde;ES</b></p>      <p><b>L&#8217;&eacute;rotisme au moyen &acirc;ge. Le corps, le d&eacute;sir, l&#8217;amour. Arnaud de la Croix, Collection TEXTO,  dirig&eacute;e par Jean-Claude Zylberstein, Paris, &Eacute;ditions Tallandier, 2013, pp. 168</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>S&eacute;rgio Guimar&atilde;es de Sousa*</b></p>      <p>*Departamento de Estudos Portugueses e Lus&oacute;fonos, Universidade do Minho, Braga, Portugal.</p>      <p><a href="mailto:spgsousa@ilch.uminho.pt">spgsousa@ilch.uminho.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>&Eacute; hoje razoavelmente consensual, sobretudo depois da insist&ecirc;ncia de estudiosos de primeiro plano (Alain de Libera, Umberto Eco, Jacques Rich&eacute;, Georges Duby, Jacques Heers, Jean Verdon, entre outros), que o entendimento sobre a Idade M&eacute;dia, por vezes muito injustamente desprezada, &eacute; o que deslegitima o ju&iacute;zo restritivo de uma equivocada percep&ccedil;&atilde;o un&iacute;voca da sua representatividade s&oacute;cio-hist&oacute;rica em favor de uma aferi&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla e n&atilde;o raro contradit&oacute;ria do seu imagin&aacute;rio. Sabe-se, pois, que a Idade Media, do ponto de vista civilizacional, n&atilde;o se esgota num suposto obscurantismo, antes se afirmou na cartografia do conhecimento e das artes como um cron&oacute;topo vigoroso e complexo e, por extens&atilde;o, prop&iacute;cio &agrave; coexist&ecirc;ncia de formas v&aacute;rias e com diversos momentos maiores. N&atilde;o &eacute; de resto preciso especial acutil&acirc;ncia cr&iacute;tica para compreender que nenhum arco temporal multissecular, como foi o do vasto per&iacute;odo medieval, poderia funcionar na propor&ccedil;&atilde;o de um bloco monol&iacute;tico de cren&ccedil;as e pr&aacute;ticas.</p>      <p>Talvez a melhor estrat&eacute;gia para perceber as coordenadas desta quest&atilde;o entre <i>realia</i> e representa&ccedil;&otilde;es seja historiciz&aacute;-la, como fez de forma enf&aacute;tica Arnaud de la Croix, em torno do tema do <i>erotismo</i>, pondo a nu precisamente certas infelicidades hermen&ecirc;uticas resultantes da multiplica&ccedil;&atilde;o de discursos estereotipados e convencionais em detrimento do real emp&iacute;rico. Objetar-se-&aacute; decerto que semelhante tema possa eventualmente afigurar-se algo discut&iacute;vel tendo em considera&ccedil;&atilde;o o sentido da realidade hist&oacute;rica da Idade M&eacute;dia. Sentido cuja raz&atilde;o primordial e substantiva pressup&otilde;e, digamo-lo desta maneira, um tempo homogeneizado por uma irredut&iacute;vel ideologia religiosa. Ou seja, tratou-se de um contexto decisivamente saturado por um pendor religioso presente a todos os n&iacute;veis; e, como tal, legitimador de particularismos culturais pouco consent&acirc;neos com a express&atilde;o de puls&otilde;es libidinais. Neste sentido, o desejo er&oacute;tico-sentimental mais n&atilde;o seria, enfim, do que uma manifesta decad&ecirc;ncia, sen&atilde;o mesmo ru&iacute;na, do edif&iacute;cio civilizacional da unidade espiritual conatural &agrave; mentalidade medieval.</p>      <p>Mas em bom em rigor as coisas n&atilde;o foram assim t&atilde;o l&iacute;quidas. Porque a ser deste modo, ter&iacute;amos, em consequ&ecirc;ncia, de rasurar as v&aacute;rias declina&ccedil;&otilde;es medievais do corpo, do desejo e do amor. Declina&ccedil;&otilde;es que a obra de Arnaud de la Croix p&otilde;e, e bem, em relevo e atrav&eacute;s das quais &#8211; for&ccedil;oso &eacute; reconhec&ecirc;-lo &#8211; os medievais segregaram uma poderosa presen&ccedil;a de erotismo: a sensualidade eloquentemente cantada pelos trovadores em finais do s&eacute;culo XI, a prolifera&ccedil;&atilde;o da obscenidade esculpida em monumentos ou ainda a irrup&ccedil;&atilde;o de ritos carnavalescos com uma ostensiva sexualidade pulsional emanada de tradi&ccedil;&otilde;es populares, etc.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ali&aacute;s, numa frase lapidar e assaz reveladora (pelo seu teor conclusivo), diz o autor: "Il n&#8217;y a pas de mod&egrave;le sexuel au Moyen &Acirc;ge. Seulement des mod&eacute;lisations multiples du d&eacute;sir" (p. 146). E antes disso: "&#091;...&#093; le gai savoir &eacute;rotique invent&eacute; au Moyen &Acirc;ge rel&egrave;ve de l&#8217;<i>ambivalence</i>, c&#8217;est-&agrave;-dire du m&eacute;lange des genres. Les fabliaux participent &agrave; la fois de l&#8217;obsc&eacute;nit&eacute; et du raffinement, la lyrique occitane m&ecirc;le continuellement sentiment et sensualit&eacute;, la rencontre mystique avec le divin se manifeste dans le corps des femmes en proie au Seigneur p&eacute;n&eacute;trant, une nonne allaite un singe en marge du roman de Lancelot, les clo&icirc;tres sont habit&eacute;s par des monstres de Pierre. Alors l&#8217;esprit vivifie la chair. Et le corps a une &acirc;me" (pp. 145-146).</p>      <p>L&iacute;rica trovadoresca (com a <i>fin&#8217; amor</i>), mat&eacute;ria da Bretanha e mitologias celtas, narrativas como a de Guillaume de Lorris e Jean de Meun (<i>Roman de la Rose</i>), sexualidade popular exibida em textos, esculturas e desenhos obscenos, eis desde logo a tra&ccedil;os largos o percurso, segundo o autor, que se oferece ao rastreio do erotismo medieval e pelo qual se torna poss&iacute;vel "appr&eacute;hender les innovations concernant la mani&egrave;re de concevoir le d&eacute;sir amoureux, dans la mesure o&ugrave; l&#8217;inventivit&eacute; m&eacute;di&eacute;vale nous para&icirc;t tr&egrave;s riche en ce domaine, et peut-&ecirc;tre susceptible de nous inspirer, aujourd&#8217;hui, dans un sens inattendu" (p. 17). De outro modo: a heran&ccedil;a medieval, no que ao desejo diz respeito, n&atilde;o se afigura inc&oacute;moda ou anacr&oacute;nica. Dir-se-ia at&eacute;, tudo bem visto, desejavelmente atualiz&aacute;vel.</p>      <p>Seja como for, o certo &eacute; que o estudo das fontes hist&oacute;rico-liter&aacute;rias se torna indispens&aacute;vel para quem desejar revisar este patrim&oacute;nio. &Eacute; o que faz Arnaud de la Croix com ineg&aacute;vel m&eacute;rito hist&oacute;rico-lingu&iacute;stico e filol&oacute;gico ao debru&ccedil;ar-se, com aten&ccedil;&atilde;o e com n&atilde;o menos demora, sobre textos fundamentais do repert&oacute;rio er&oacute;tico-sentimental medieval, como &eacute; seguramente o caso, afora uma por&ccedil;&atilde;o da l&iacute;rica trovadoresca, do <i>Tratactus de Amore</i>, de Andr&eacute; Le Chapelain (Cap. "Dor&eacute;e d&#8217;Amour"). E se neste tratado de refer&ecirc;ncia o autor n&atilde;o s&oacute; recenseia o modo (c&iacute;nico e humor&iacute;stico) como &eacute; teorizado o c&oacute;digo amoroso oriundo da cortesia como ainda compagina a obra com o tratado anterior, <i>De l&#8217;amour et des amants</i>, de Ibn Hazm (in&iacute;cios do s&eacute;culo XI), detetando not&oacute;rias analogias estruturais, n&atilde;o &eacute; menos evidente o interesse de Arnaud de la Croix em relevar existentes textuais muito nitidamente contaminados por um flagrante erotismo. Designadamente o florescimento, em sede eclesi&aacute;stica, de uma m&iacute;stica, essencialmente feminina, assaz tribut&aacute;ria tanto da l&iacute;rica cort&ecirc;s como do <i>C&acirc;ntico dos c&acirc;nticos</i> (Cap. "&Eacute;ros mystique et f&eacute;minin"). M&iacute;stica feita de vis&otilde;es e &ecirc;xtases, "o&ugrave; se nouent de br&ucirc;lantes &eacute;pousailles avec le divin" (p. 17). Ou ent&atilde;o, j&aacute; distante das efus&otilde;es m&iacute;sticas, "les fabliaux du XIIIe si&egrave;cle o&ugrave; le sexe s&#8217;affiche cr&ucirc;ment, les chansons sensuelles des golliards, l&#8217;obsc&eacute;nit&eacute; de nombre de sculptures et gargouilles, comme les curieux dessins qui figurent dans les marges de textes sacr&eacute;s ou profanes, &eacute;vocant une sexualit&eacute; diff&eacute;rente, li&eacute;e &agrave; la tradition orale, au paganisme antique ou &agrave; des croyances populaires tr&egrave;s peu chr&eacute;tiennes" (<i>Ibidem</i>). (Cap. "S&eacute;xualit&eacute; populaire").</p>      <p>Como &eacute; consabido, uma das especificidades filol&oacute;gicas do texto medieval consiste na <i>contamina&ccedil;&atilde;o</i>, se nos for permitido diz&ecirc;-lo assim. O mesmo &eacute; referir que se cada texto &eacute; suscet&iacute;vel de engendrar variantes, revis&otilde;es, vers&otilde;es, recria&ccedil;&otilde;es, reutiliza&ccedil;&otilde;es, etc., igualmente &eacute; capaz de provocar retomas e par&oacute;dias. Destas interfer&ecirc;ncias m&uacute;ltiplas n&atilde;o deixa de nos dar conta o autor: "En r&eacute;alit&eacute;, ces diff&eacute;rantes conceptions de l&#8217;amour &#091;l&iacute;rica trovadoresca, ciclo arturiano, express&otilde;es m&iacute;sticas, etc.&#093; et de la sexualit&eacute;, d&#8217;une surprenante diversit&eacute;, n&#8217; ont cess&eacute; d&#8217;interf&eacute;rer les unes avec les autres. Certains fabliaux miment par endroits les romans arthuriens en les parodiant, les femmes mystiques empruntent &agrave; la lyrique des troubadours et des trouv&egrave;res leur vocabulaire &eacute;rotique, les <i>Carmina Burana</i> d&eacute;noncent l&#8217;hypocrisie des pr&ecirc;tres s&#8217;abandonnant aux app&eacute;tits du corps qu&#8217;exaltent, cependant, les goliards, et Umberto Eco soup&ccedil;onne les th&eacute;ologiens rigoristes de vilipender ce qui justement les s&eacute;duit" (pp. 140-141). E tudo isto assim acontece porque: "Loin du consensus, de la pens&eacute;e unique, du politiquement (et sexuellement) correct contemporain, les hommes du Moyen &Acirc;ge ne craignent pas de dire haut et fort que les sexes sont diff&eacute;rents, que les app&eacute;tits du corps ne sont pas identiques aux &eacute;lans de l&#8217;&acirc;me, ou combien les vilains, les bourgeois, les clercs et les chevaliers n&#8217; ont pas les m&ecirc;mes int&eacute;r&ecirc;ts" (p. 141).</p>      <p>Por outras palavras, o homem medieval, por muito religioso e espiritual que fosse, n&atilde;o se coibiu de percepcionar o corpo e os desejos que este engendra como coisas tang&iacute;veis e fenomenais. A cultura dominante da Igreja, segundo a qual a vida de leigos e religiosos se supunha irredutivelmente impoluta, n&atilde;o o inibiu de manifestar o desejo e, com isso, de contrariar o rep&uacute;dio pelo prazer apregoado por esta. Exemplo suficiente disso &eacute; sem d&uacute;vida a l&iacute;rica trovadoresca. Se compararmos com a Antiguidade Greco-Latina, salta logo &agrave; vista que os trovadores colocaram a rela&ccedil;&atilde;o homem/mulher fora da cl&aacute;ssica domina&ccedil;&atilde;o masculina, j&aacute; que o homem, por interposta presen&ccedil;a da voz enunciativa das <i>cantigas de amor</i>, presta, como sabemos, vassalagem &agrave; dama, interpelada de resto como <i>Senhor</i> (senha gen&eacute;rica que diz bem da transposi&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es pol&iacute;tico-institucionais feudo-vass&aacute;licas para o campo amoroso), e depende da sua boa vontade. Diferentemente, na Antiguidade Cl&aacute;ssica, o homem era n&atilde;o raramente equiparado a um ca&ccedil;ador, sendo reservado &agrave; mulher o papel passivo de presa. Mais tarde, nos <i>Lais</i>, o ca&ccedil;ador volve-se em objeto da ca&ccedil;a, ao ver-se irremediavelmente cativado pela irresist&iacute;vel sedu&ccedil;&atilde;o de uma mulher que irrompe no lugar do animal que julgava perseguir. Na l&iacute;rica medieval, em suma, os pap&eacute;is como que se invertem. O que sup&otilde;e desde logo uma maior reciprocidade na l&oacute;gica do desejo. E toda esta invers&atilde;o pode ocorrer tintada de erotismo, como se sabe. Basta dizer, com o autor, que os trovadores "&#091;...&#093; n&#8217; h&eacute;sitent pas &agrave; mettre en concurrence la joie d&#8217;amour et les biens spirituels, au b&eacute;n&eacute;fice de la femme d&eacute;sir&eacute;e" (p. 55).</p>      <p>No caso da nossa l&iacute;rica, n&atilde;o resisto &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o (&eacute; caso para dizer) de transcrever este verso extra&iacute;do de uma <i>cantiga de amigo</i> de Jui&atilde;o Bolseiro (trovador do s&eacute;c. XIII afeto &agrave; corte castelhana) por nele se notar (creio) um subconsciente textual claramente er&oacute;tico. Aquele pelo qual a mo&ccedil;a carente exprime desta forma o seu desalento por as noites serem t&atilde;o longas na aus&ecirc;ncia do amigo: "E ora <i>vai</i> noit&#8217; <i>e vem e crece</i>" (v. 16, 3.&ordf; cobla; it&aacute;lico meu). E noutro verso anterior, clamava-se assim a saudade: "E ora <i>dur&#8217;</i> a noit&#8217; e <i>vai e vem</i>" (v. 9, 2&ordf; cobla; it&aacute;lico meu).</p>      <p>Mas n&atilde;o s&oacute; em <i>cantigas de amigo</i> se exp&otilde;e a ret&oacute;rica do desejo, como &eacute; evidente. Seja-me consentido um par&ecirc;ntesis, e j&aacute; &agrave; margem do livro de Arnaud de la Croix, para apontar alguns exemplos, entre outros poss&iacute;veis, muito significativos. Admire-se nestes textos da Europa medieval, a tal que muitos confinaram a uma pura ortodoxia religiosa, a explicita&ccedil;&atilde;o do desejo num quadro cujo paradigma, por exemplo, &eacute; o do homoerotismo mesclado com conte&uacute;do sacro-religioso. Veja-se assim esta cantiga, intitulada "Iohannes Hiesu Christo multum dilecte virgo", repleta de quest&otilde;es de g&eacute;nero (atribui&ccedil;&atilde;o do t&iacute;tulo de <i>virgem</i> ao disc&iacute;pulo predileto de Cristo, Jo&atilde;o, o Evangelista; invers&atilde;o do papel da pederastia, sendo aqui o disc&iacute;pulo o mestre e n&atilde;o o princ&iacute;pio ativo / masculino):</p>      <blockquote>    <p>Iohannes Hiesu Christo multum dilecte virgo/ <i>Alleluia</i>/ Tu eius amore carnalem/ <i>Alleluia</i>/ In navi parentem liquisti/ <i>Alleluia</i>/ Tu leve coniugis pectus respuisti/ messiam secutus/ <i>Alleluia</i>/ Ut eius pectoris sacra meruisses// fluente potare/ <i>Alleluia</i>/ Iohannes Christi care/ <i>Alleluia</i>.</p></blockquote>      <p>Outro exemplo de texto (neste caso, lit&uacute;rgico) com um conte&uacute;do leg&iacute;vel em termos homo-er&oacute;ticos prov&eacute;m da cantiga "Sergius tristis". Ei-la:</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>    <p>Sergius tristis, quod tanti socii/ iocunditate careret,/ lacrimando dicebat:/ Heu mi contubernalis Bache!/ Non iam psallimus/ "Ecce quam bonum et quam iocundum/ habitare fratres in unum!"// Cui noctu martyr respondit:/ Et si corpora te desservi,/ tecum spiritu inseparabile psallo:/ "Ecce quam bonum et quam iocundum/ habitare fratres in unum!"/ Gloria Patri et Filio et Spiritui Sancto.</p></blockquote>      <p>E leia-se "Lamentomi et sospiro per pi&ugrave; potere amare", composi&ccedil;&atilde;o escrita, convir&aacute; notar, por volta do s&eacute;culo XII, isto &eacute;, num per&iacute;odo em que a crucifica&ccedil;&atilde;o come&ccedil;ou a ser mostrada de um modo mais gr&aacute;fico e em que as descri&ccedil;&otilde;es do Messias se tornaram cada vez mais corporais e sensuais. A figura de Cristo bem depressa se converteu, como se percebe sem custo, no foco de desejos homo-er&oacute;ticos espirituais (digamos), como &eacute; disso satisfat&oacute;ria amostra o texto de que falamos:</p>      <blockquote>    <p><i>Lamentomi et sospiro</i>/ <i>Per pi&uacute; potere amare</i>/ <i>Con grande desiderio</i>/ <i>L&#8217;amor vorrei gridare.</i> // Vorrei gridar tant&#8217;alto,/ Tutto &#8216;l mondo m&#8217;audisse,/ Et dentro &#8216;n paradiso/ Ogne sancto respondesse,/ Et al mi&#8217; grande amore/ Piet&agrave; li ne venisse:/ La sua benigna faccia/ Mi degni rischiarare.// Va&#8217; gridando, cor meo,/ Con caldo di fervore,/ Et passa sopr&#8217;a&#8217; cieli/ Et vatten al mio amore,/ Et doventa pront&iacute;ssimo/ Innanz&#8217;a lo &#8216;mperadore/ Et e&#8217; tti far&agrave; doni/ Si ben sai domandare.// Rispondami il mio amore/ Et s&igrave; mi degni audire,/ Et gratia si mi doni/ Ch&#8217;i&#8217; faccia il suo piacere;/ Constrigami in sue braccia/ L&#8217;altissimo meo sire,/ Non mi lasci perire,/ K&eacute; mi degn&ograve; creare.// Non debo aver mais posa/ N&eacute; refinar non vollio;/ Del mio dilecto sancto,/ Ched&#8217;io &#8216;l pur &#091;vollio&#093;,/ Lamentomi per gioias,/ Ed al mio amor mi dollio;/ Di s&eacute; mi faccia &#091;degno&#093;/ K&#8217;i&#8217;l possa guadagnare.// Amor, fosti battuto,/ Feruto ti fu &#8216;l core;/ Sire di grande alteza,/ Ki comperra tant&#8217;amore?/ K&eacute; tu per me ti desti/ A cotanto dolore,/ Alla pi&ugrave; dura cosa:/ Morir per me salvare.// Dio ke mi fece et me cre&ograve;e/ Dami a veder quell&#8217;ora;/ In me sia tanta baldanza/ K&#8217;i&#8217; non agia paura/ E io cum gioia mi mora/ Per Iesu mia dolzura//</p></blockquote>      <p>E como seria de esperar, igualmente a figura da Virgem Maria suscitou desejos. Centenas de cantigas foram escritas em honra de Santa Maria durante os s&eacute;culos XIII e XIV e muitas delas revelam uma devo&ccedil;&atilde;o espiritual n&atilde;o isenta de desejo sensual. Eis uma delas:</p>      <blockquote>    <p><i>Sempr&#8217; acha Santa Maria/ raz&ocirc;n verdadeira/ per que tira os que ama/ de maa carreira.//</i> E dest&#8217;un mui gran miragre/ direi que aveo/ a un cavaleiro que &eacute;ra/ s&eacute;u, non alleo,/ desta Sennor gror&iuml;osa;/ mas tant&#8217; &eacute;ra cheo/ de lux&uacute;ria, que passava/ raz&ocirc;n e maneira.// Ca pero mui f&iuml;ava/ en Santa Mar&iacute;a/ e loava os seus bees/ quanto mais pod&iacute;a,/ o pecado de lux&uacute;ri&#8217;/ ass&iacute; o vencia/ que o demo o levara,/ cousa &eacute; certeira.// El en tal coita vivendo,/ a mui Gror&iuml;osa,/ entendendo que sa&uacute;de/ dest&#8217; &eacute;ra dultosa,/ porque non perdess&#8217; sa alma,/ come p&iuml;adosa/ faz e come mui sisuda/ e come arteira.// Ca pois viu que do pecado/ nunca peeden&ccedil;a/ el tev&eacute;ra que lhe d&eacute;ssen,/ meteu sa femen&ccedil;a/ en tir&aacute;-lo del, en guisa/ que en descren&ccedil;a/ non caesse pelo demo,/ que sempre mal cheira// A pecad&#8217;e a mentira/ e a falsidade./ Por&ecirc;n s&atilde;ou a Re&iacute;nna/ de gran p&iuml;adade/ este cavaleir&#8217; e fez-lle/ teer castidade/ por maneira muit&#8217; estranna/ e mui vertudeira.// E fez-lle que non perdesse/ ollos, p&eacute;es nen m&atilde;os/ nen outros membros do corpo,/ mais que fossen s&atilde;os;/ mais se o metess&#8217; o demo/ en cuidados v&atilde;os/ de pecado, que non pod&eacute;ss&#8217;/ ser en tal feira;// Ca pero que gran sabor/ ouv&eacute;sse de quer&ecirc;-lo,/ que per nulla maneira/ non pod&eacute;sse faz&ecirc;-lo./ Esto fez a Virgen santa/ pera sig&#8217; av&ecirc;-lo,/ ca de salvar os seus sempre/ &eacute; mui sabedeira.//</p></blockquote>      <p>Estas transcri&ccedil;&otilde;es ajudam a compreender sem dificuldade aquilo que resulta inteiramente claro da leitura de <i>L&#8217;&eacute;rotisme au Moyen &Acirc;ge. Le corps, le d&eacute;sir, l&#8217;amour</i>: que o facto de a Idade Media ter sido uma &eacute;poca &#8211; melhor seria dizer: v&aacute;rias &eacute;pocas &#8211; estruturada por uma profunda e absorvente religiosidade n&atilde;o fez com que esse per&iacute;odo da hist&oacute;ria ficasse imune &agrave; express&atilde;o do desejo nas suas diversas modalidades. E mais do que isso: como documentam os textos hist&oacute;ricoliter&aacute;rios, e em particular estes que citei &agrave; margem da obra, o desejo &#8211; sejamos claros &#8211;, mesmo ocorrendo ao arrepio da moral religiosa e a despeito das conven&ccedil;&otilde;es sociais em vigor, n&atilde;o se limita a ser uma exce&ccedil;&atilde;o &agrave; regra que define o imagin&aacute;rio medieval. E isso a tal ponto que se torna dif&iacute;cil, ou at&eacute; imposs&iacute;vel, explicar a cultura medieval sem considerar tais manifesta&ccedil;&otilde;es er&oacute;tico-sentimentais. Tanto mais, como se v&ecirc; pelas composi&ccedil;&otilde;es transcritas, que bom n&uacute;mero desses textos se constr&oacute;i a partir da e sobre a mat&eacute;ria m&iacute;stico-religiosa. Isto &eacute;, a exacerbada religiosidade medieval n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o dissolveu o desejo como este se manteve na &oacute;rbita da constela&ccedil;&atilde;o religiosa. Um pouco como se religi&atilde;o e sexualidade (na sua variante transgressiva) se acomodassem. Talvez se possa por isso inferir que foi, ao fim e ao resto, na esfera de uma realidade muito consideravelmente religiosa que se intrometeu e agitou o reverso obs ceno dessa religiosidade. O mesmo seria dizer, enfim, que a quest&atilde;o sexual aparece configurada &#8211; como, ali&aacute;s, os textos citados comprovam &#8211; por vis&otilde;es religiosas, n&atilde;o se confinando, por conseguinte, ao registo muito medieval da lux&uacute;ria feminina. Da&iacute;, conforme mostra Arnaud de la Croix com inteira justeza, que a quest&atilde;o do erotismo medieval n&atilde;o seja irrelevante.</p>      <p>E desde logo tamb&eacute;m, for&ccedil;oso &eacute; diz&ecirc;-lo, por o leitor moderno ficar a perceber que muito do que supostamente presumia de moderno afinal mais n&atilde;o ser do que a atualiza&ccedil;&atilde;o do passado long&iacute;nquo. Mas n&atilde;o t&atilde;o long&iacute;nquo, como sugere por mais de uma vez o A., que n&atilde;o possa apresentar-se bem desempoeirado e at&eacute; com o seu qu&ecirc; de inovador. Numa palavra, a identifica&ccedil;&atilde;o que o leitor de hoje far&aacute; da Idade M&eacute;dia pode, vistas as coisas com rigor, muito bem ser invi&aacute;vel. O que n&atilde;o deixa de arrastar por vezes uma responsabilidade hermen&ecirc;utica e cr&iacute;tico-textual, como acontece com aqueles versos que citei de Jui&atilde;o Bolseiro e que jogam o seu sentido numa sem&acirc;ntica subliminar. A que convida a decifrar o corpo pulsional dos textos.</p>      ]]></body>
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