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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENSÕES</b></p>     <p><b><i>Le Robert Junior illustré</i>. Nouvelle édition. Paris: Le Robert, 2013, 1484 pp.</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Félix Valentín Bugueño Miranda*</b></p>     <p>*Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil.</p>     <p><a href="mailto:felixv@uol.com.br">felixv@uol.com.br</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Na extensa gama de obras lexicográficas da Maison Robert, <i>Le Robert Junior illustré</i> (2013) (doravante RobJun (2013)) é um dicionário desenhado <i>ex professo</i> para o ensino-aprendizagem da língua materna.</p>     <p>O primeiro aspecto a ser salientado é a profusão de componentes estruturais que o dicionário apresenta. Segundo a disposição canônica para obras de orientação semasiológica, RobJun (2013) se inicia com o clássico <i>Avant-propos</i> da tradição lexicográfica francesa (p.X). Em um único parágrafo, o próprio dicionário se define como um &#8220;véritable dictionnaire de la langue française&#8221; [<i>i.e</i>., um dicionário semasiológico], destinado, na França, &#8220;aux élèves du cycle des approfondissements (...)&#8221; e, nos outros países francófonos &#8220;aux élèves du cycle primaire&#8221; (<i>Ibidem</i>). Destarte, o escopo da obra lexicográfica, assim como os consulentes potenciais, aparecem claramente definidos. </p>     <p>O segundo traço que caracteriza o <i>Front Matter</i> de RobJun (2013) é a oferta de um manual de instruções para a correta consulta da obra lexicográfica (p. IX-XII). Esse quesito aparece claramente formulado, embora, para um <i>élève</i> de 8 a 11 anos a leitura possa parecer um tanto cansativa. Por isso, segue ao Manual de instruções uma terceira parte do <i>Front Matter</i>, com o subtítulo de <i>Langue Française</i>, que começa com um tópico intitulado <i>Comment utiliser Le Robert Junior</i> (p. XIV-XV), e que obedece à tendência já amplamente consagrada da lexicografia alemã de oferecer um infográfico para explicar e comentar o programa constante de informações (pci). Na verdade, tratam-se de informações duplicadas. As informações contidas nas páginas IX a XII aparecem dispostas de forma muito mais simples nesse terceiro subtópico. Um outro componente do <i>Front Matter</i> é a Tabela de abreviaturas (<i>Les abréviations du dictionnaire</i>) (p. XVI). Considerando o público-alvo, o número de abreviaturas é razoável (20 no total). A esse quadro segue outro, referente ao alfabeto fonético (p. XVII). Esses são os últimos itens, acaba o <i>Front Matter</i>. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em relação à macroestrutura, RobJun (2013) afirma possuir uma densidade macroestrutural de 20.000 lemas. Considerando que em média, o número de entradas por página gira em torno de a 19,9, a quantidade total de lemas anunciada parece plausível. No âmbito da definição macroestrutural qualitativa, chama a atenção que um dicionário concebido <i>ex professo</i> para auxiliar no ensino da língua materna arrole uma nada desprezível quantidade de unidades léxicas exógenas ao francês, tais como <i>condor</i>, <i>conquistador</i>, <i>derrick</i>, <i>djellaba</i>, <i>jazz</i>, <i>parka</i>, <i>parking</i>, <i>patchwork</i>, <i>poncho</i>, <i>strip-tease</i> / <i>striptease</i>, <i>talkie-walkie</i>, <i>teck</i>, <i>tweed</i> e <i>stress</i>. A amostra merece vários comentários. Em primeiro lugar, nenhum dos lemas transcritos apresenta alguma classe de indicador não estrutural, de modo que se pode assumir, portanto, que foram avaliados como empréstimos -e não como estrangeirismos. Em segundo lugar, lemas como <i>conquistador</i> e <i>poncho</i> são de baixa frequência no francês, de forma que é questionável a sua lematização em um dicionário escolar. Na mesma esteira, é questionável também a forma <i>strip-tease</i> (lematizada até com variante ortográfica!). Não é nada ingênuo se perguntar em que contexto essa unidade léxica poderia fazer parte do currículo escolar. Um caso análogo <i>é talkie-walkie</i>. Além de apresentar uma freqüência de uso muito baixa, só aparece documentada em <i>Petit Robert</i> (1993, s.v.). Nessas condições, e embora a amostra seja pequena, não é possível desconsiderar a hipótese de a macroestrutura de RobJun (2013) não ser totalmente funcional. </p>     <p>No que diz respeito ao arranjo das entradas, e seguindo a tendência da sua <i>editionis maioris</i>, o <i>Petit Robert</i> (1993), RobJun (2013) adotou uma solução homonímica. Destarte, lematiza-se <i>grève</i><sup>1</sup> / <i>greve</i><sup>2</sup>, <i>lever</i><sup>1</sup> / <i>lever</i><sup>2</sup>, <i>vedette</i><sup>1</sup> / <i>vedette</i><sup>2</sup>, por exemplo. O padrão de lematização, no entanto, nem sempre é compreensível. Há casos em que as soluções adotadas não coincidem completamente com as adotadas por <i>Petit Robert</i> (1993), como nos casos de <i>gravité</i><sup>1</sup> / <i>gravité</i><sup>2</sup>, <i>patient</i><sup>1</sup> / <i>patient</i><sup>2</sup> / <i>patient</i><sup>3</sup> , <i>lot</i><sup>1</sup> / <i>lot</i><sup>2</sup>. O assunto não é de baixa relevância, se se leva em conta que um pilar do ensino da língua materna na França é a tomada de consciência da historicidade da língua. Esse fator é tão determinante que RobJun (2013) reserva um tópico no <i>Back Matter</i> à etimologia (ver <i>ad infra</i> detalhes sobre esse particular). Em vista disso, resulta um tanto estranho que nem sempre se consiga compreender o princípio adotado para a lematização por solução homonímica. Um último aspecto relevante é a decisão de fornecer famílias léxicas, em uma estranha mistura de estrutura lisa, nicho e ninho léxico. Assim, por exemplo, lematiza-se <i>joindre</i> como &#8220;lema de partida&#8221; de uma família léxica composta por <i>joint</i><sup>1</sup>, <i>jointe</i> adj; <i>joint</i><sup>2</sup> n.m. e <i>jointure</i>, n.f, todos recuados à esquerda e dotados de um indicador não estrutural („), para denotar a sua condição de &#8220;derivados&#8221; de <i>joindre</i>. Por sua vez, o verbete <i>jointure</i> possui um ninho léxico (sob a forma de <i>run-on-entries</i>), constituído por <i>adjoint</i>, <i>ci-joint</i>, <i>conjoint</i>, <i>disjoint</i>, etc. Não fica claro, no entanto, se a função da <i>famille lexical</i> é onomasiológica ou de ganho de massa léxica, ou seja, com o intuito de aumentar o vocabulário.</p>     <p>Em relação à microestrutura, cabe salientar que o programa constante de informações (pci) é relativamente simples (o que é acertado se se considera o público-alvo). No âmbito do comentário de forma, os segmentos informativos são a indicação ortográfica integrada ao lema (com uma presença ocasional de formas variantes de lematização dupla, como <i>combativité</i> ou <i>combativitté</i>, <i>cuti</i> ou <i>cutiréaction</i>); a indicação de pronúncia, tanto sob a forma de transcrição fonética (além dos casos dos estrangeirismos, em unidades léxicas vernáculas, tais como s.v. <i>culis</i> [k&#596;li] e <i>cul</i> [ky]), como sob a forma de indicação ortoépica (a aspiração de [h], assinalada pelo uso de um asterisco, como s.v. *<i>haïr</i>, *<i>halage</i>, *<i>haler</i>)). Naturalmente, RobJun (2013) indica também a variação de gênero nos substantivos e adjetivos, como s.v. <i>gitan</i> n.m., <i>gitane</i> n.f. ou s.v. <i>défensif</i>, <i>défensive</i> adj., assim como alguns casos de plurais, como s.v. <i>chouchou</i> &#8220;n.m. (pl. <i>chouchous</i>)&#8221; e <i>éditorial</i> &#8220;n.m. (pl. <i>éditoriaux</i>)&#8221;. A etimologia, questão central no ensino da língua materna na França, não aparece sistematicamente representada por um segmento, mas, em alguns casos, há uma remissão a um apartado do <i>Back Matter</i>, como s.v. <i>hémorragie</i> &#8220;n.f. àétym&#8221;. Finalmente, e seguindo a tendência do Petit Robert (1993), a lematização de verbos vai acompanhada também de uma remissão para a tabela de conjugação correspondente (<i>mutiler</i> &#8220;v (conj. 3)&#8221;). </p>     <p>Sem dúvida alguma, além dessas informações, a <i>raison d´être</i> de um dicionário de orientação semasiológica é o comentário semântico. O programa constante de informações está composto, primeiramente, pela definição. Embora a tradição Robert empregue claramente a opção <i>genus proximum plus differentiae specificae</i>, (como s.v. <i>gamelle</i>, ou s.v. <i>initiative</i>), há também uma tímida tentativa de adotar alguns elementos próprios da <i>whole-sentence definition</i> (s.v. <i>abattage</i> &#8220;(...) <i>L´abattage d´un arbr</i>e <i>c´est l´action de le faire tomber</i> (...)"; s.v. <i>botanique</i> "(...) <i>La botanique</i> <i>c´est la science qui étudie les végétaux</i> (...)"). Ainda no âmbito desse segmento informativo, é possível encontrar casos tanto de definições suficientemente elucidativas (s.v. <i>détaxer</i>, <i>humus)</i> como de definições insatisfatórias (s.v. <i>constipation</i>). </p>     <p>Também em analogia com o <i>Petit Robert </i>(1993), há três segmentos com função eminentemente onomasiológica. O primeiro desses segmentos é a sinonímia (s.v. <i>lancer</i><sup>1</sup>: &#8220;(...) 1. Envoyer loin de soi avec force <b>à jeter</b> (...) "; s.v. <i>polyester</i> "(...) Tissu synthétique (...) <b>à nylon</b>"). O segundo são os campos léxicos associados ao lema (s.v. <i>lama</i> &#8220;(...) <b>à</b> plancheAnimaux <b>domestiques</b>"; s.v. <i>panthère</i> "(...) <b>à</b> aussi <b>léopard</b> et <b>jaguar</b>. <b>à </b>planche <b>Félins</b>"); nessa segunda manifestação onomasiológica, RobJun (2013) faz emprego massivo da substituição ostensiva, ou seja, remete o consulente a um quadro que contém uma série de gravuras que estão em uma relação de co-hiponímia em relação a um hiperônimo que define todo o campo (animais domésticos e felinos, neste caso). Finalmente, o terceiro é a antonímia (s v. <i>naître</i> &#8220;(...) 1. Venir au monde (...) ú contraire: <b>mourir</b> (...)"; s.v. <i>opaque</i> "(...) Qui ne laisse pas passer la lumière (...) ú contraires: <b>translucide</b>, <b>transparent</b>)"<b>.</b> Um terceiro segmento do comentário semântico são os exemplos (como s.v. <i>secondaire</i> &#8220;(...) 1. Peu important. <i>Cet acteur joue un rôle secondaire dans ce film</i> (...)&#8221;). O espaço reduzido de uma resenha impossibilita uma análise mais detalhada, mas, em termos gerais, os exemplos devem ser avaliados à luz de vários parâmetros antes de poder-se aferir a sua real funcionalidade. O exemplo pelo exemplo não diz muito sobre um dicionário. </p>     <p>O <i>Back Matter</i> de RobJun (2013) está constituído por uma série de quadros sinópticos de gramática (<i>Aide-mémoire de grammaire</i>, p. 1187-1231), que inclui as tabelas da conjugação. A esses quadros segue um <i>Petit Dictionnaire d´Étymologie</i> (p. 1233-1280). Esse dicionário possui uma estrutura de acesso triplo: por temas (l´alimentation, les animaux, etc.), pela origem das contribuições (allemand, anglais, etc.) e por progressão alfabética. Surpreendem as prolixas informações contidas no <i>Petit Dictionnaire d´Étymologie</i>, se se considera que o usuário é um aluno na faixa dos 8 aos 11 anos. A parte final do <i>Back Matter</i> está dedicada a um dicionário histórico e geográfico de ordenação alfabética. Uma avaliação desses dois últimos componentes foge à avaliação estritamente lexicográfica.</p>     <p>Não há como negar que a lexicografia francesa é de ótima qualidade. RobJun (2013) confirma essa afirmação. Da perspectiva do ensino-aprendizagem do francês, RobJun (2013) é uma instigante fonte de reflexão para o especialista em didática que se preocupa com dicionários. Também é potencialmente útil para um aprendiz avançado de francês como língua estrangeira se se considera o programa constante de informações. Em síntese, trata-se de uma obra admirável. </p>      ]]></body>
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