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</front><body><![CDATA[ <P><b>Comment L&acute;Enfant Devient Lecteur</b> (1997) &ndash; G. Chauveau, E.    Rogovas-Chauveau, & M. Alves-Martins. Paris: Editions Retz.</P>     <P>O que &eacute; a leitura? Como se aprende a ler? Quais as dificuldades com que a crian&ccedil;a se defronta no processo de aprendizagem da leitura e da escrita? O que fazer para a ajudar a ultrapassar essas dificuldades? S&atilde;o algumas das quest&otilde;es a que este livro procura responder.     <P>Segundo os autores, as respostas para estas quest&otilde;es est&atilde;o necessariamente interligadas, na medida que a percep&ccedil;&atilde;o de como o leitor fluente interage com o texto escrito e a explicita&ccedil;&atilde;o das opera&ccedil;&otilde;es cognitivas activadas no acto de ler, t&ecirc;m implica&ccedil;&otilde;es nas formula&ccedil;&otilde;es que se podem estabelecer sobre as estrat&eacute;gias que o aprendiz leitor precisa de desenvolver para dominar o c&oacute;digo alfab&eacute;tico e sobre as dificuldades conceptuais com que se defronta no processo de apropria&ccedil;&atilde;o desse c&oacute;digo. </P>      <P>Por outro lado, o conhecimento da maneira como as crian&ccedil;as pensam a natureza e objectivos da tarefa de ler, antes do ensino formal, e das estrat&eacute;gias utilizadas por elas nas fases iniciais de aprendizagem, assim como o modo como estas evoluem, dever&aacute; ser tomado em linha de conta na organiza&ccedil;&atilde;o e implementa&ccedil;&atilde;o de estrat&eacute;gias de ensino. </P>     <P>S&atilde;o v&aacute;rios os modelos que procuram representar o que se passa    na mente humana durante o acto de ler, tanto no que respeita ao funcionamento    do sistema no seu conjunto, como ao n&iacute;vel da especifica&ccedil;&atilde;o    das etapas de tratamento de informa&ccedil;&atilde;o. </P>     <P>Durante um largo per&iacute;odo da hist&oacute;ria da psicologia da leitura o processo de leitura foi equacionado no quadro de modelos hier&aacute;rquicos (modelos ascendente e descendente), nos quais a difus&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o seguia um percurso essencialmente serial. </P>     <P>No caso dos modelos ascendentes, a leitura implicaria um percurso linear que vai da percep&ccedil;&atilde;o das letras at&eacute; &agrave; compreens&atilde;o do significado do texto. </P>     <P>Nos modelos descendentes, o processo seria exacta-mente inverso ao anteriormente descrito, ou seja, a lei-tura partiria de processos cognitivos superiores de antecipa&ccedil;&atilde;o sobre o conte&uacute;do do texto e iria at&eacute; &agrave; an&aacute;lise perceptiva das letras. </P>     <P>Hoje em dia os procedimentos de leitura s&atilde;o concebidos no contexto de um funcionamento em paralelo, considerando-se que o sujeito leitor utiliza em simult&acirc;neo e em interac&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gias ascendentes e descendentes com efeitos retroactivos para ambos os n&iacute;veis, sendo estes modelos representativos do acto de leitura designados de interactivos. </P>     <P>Na perspectiva destes modelos, quando um leitor se confronta com um texto os seus v&aacute;rios componentes geram expectativas a diferentes n&iacute;veis: os tra&ccedil;os das letras induzem expectativas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sua identifica&ccedil;&atilde;o, a identifica&ccedil;&atilde;o das primeiras letras conduz a expectativas sobre o tipo de palavra, as palavras identificadas criam expectativas a n&iacute;vel sint&aacute;ctico, etc. Portanto, o processo funciona de modo que a informa&ccedil;&atilde;o identificada a cada um dos n&iacute;veis funcione como imput do n&iacute;vel seguinte num fluxo de informa&ccedil;&atilde;o ascendente. No entanto, em fun&ccedil;&atilde;o dos conhecimentos pr&eacute;vios do leitor ao n&iacute;vel do tema, do tipo de suporte, da estrutura do texto, s&atilde;o igualmente constru&iacute;das expectativas que guiam o processo de leitura, no sentido da verifica&ccedil;&atilde;o das hip&oacute;teses elaboradas com base em indicadores lexicais, sint&aacute;cticos e grafo-fon&eacute;ticos seguindo um percurso descendente. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>A compreens&atilde;o de um texto implica em simult&acirc;neo conhecimentos sobre o tema, sobre a estrutura e organiza&ccedil;&atilde;o dos diferentes tipos de textos e conhecimentos sobre as diferentes estrat&eacute;gias a mobilizar em fun&ccedil;&atilde;o das caracter&iacute;sticas do texto e dos objectivos do leitor e conhecimentos sobre o c&oacute;digo lingu&iacute;stico e alfab&eacute;tico. </P>     <P>A concep&ccedil;&atilde;o do processo de leitura inerente a estes modelos &eacute; uma concep&ccedil;&atilde;o holistica, na medida que cada uma das opera&ccedil;&otilde;es implicada no acto de ler s&oacute; contribuir&aacute; para um procedimento real de leitura quando integrada com todos as outras opera&ccedil;&otilde;es num jogo de equipa harmonioso. </P>     <P>A transposi&ccedil;&atilde;o desta perspectiva complexa do acto de ler para a aprendizagem da leitura requer modelos que consigam articular as opera&ccedil;&otilde;es inerentes &agrave; leitura com as compet&ecirc;ncias implicadas no seu desenvolvimento. </P>     <P>Chauveau, Rogovas-Chauveau e Alves-Martins (1997) apresentam um modelo que    procura exactamente dar conta da complexidade do procedimento de leitura real&ccedil;ando    o seu car&aacute;cter interactivo, heterog&eacute;neo e estrat&eacute;gico.  </P>     <P>Consideram estes autores que o acto de ler implica a s&iacute;ntese de opera&ccedil;&otilde;es centradas sobre a identifica&ccedil;&atilde;o dos segmentos gr&aacute;ficos de um texto (letras, s&iacute;labas, palavras) e opera&ccedil;&otilde;es mais orientadas para a identifica&ccedil;&atilde;o do sentido do texto. </P>     <P>Mais concretamente, sustentam os autores que o acto de ler implica a coordena&ccedil;&atilde;o de oito opera&ccedil;&otilde;es cognitivas: </P>     <P>- Identificar o suporte e o tipo de escrita;</P>     <P>- Interrogar o conte&uacute;do do texto;</P>     <P>- Explorar uma quantidade de escrita portadora de sentido; </P>     <P>- Identificar formas gr&aacute;ficas; </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>- Reconhecer directamente palavras; </P>     <P>- Antecipar elementos sint&aacute;cticos e sem&acirc;nticos;</P>     <P>- Organizar logicamente os elementos identificados e reconstruir o enunciado;  </P>     <P>- Memorizar o conjunto de informa&ccedil;&otilde;es sem&acirc;nticas.</P>     <P>&nbsp;</P>     <P>Estas v&aacute;rias opera&ccedil;&otilde;es s&atilde;o agrupadas pelos autores em duas dimens&otilde;es: </P>     <P>- Uma dimens&atilde;o instrumental que requer a coordena&ccedil;&atilde;o de    duas compet&ecirc;ncias bases: a habilidade para descodificar e para explorar    um texto. </P>     <P>- Uma dimens&atilde;o estrat&eacute;gica que inclui um componente de compreens&atilde;o    relativo &agrave; fus&atilde;o e interac&ccedil;&atilde;o dos v&aacute;rios    procedimentos mobilizados pela crian&ccedil;a leitora e um componente cultural    que conduz &agrave; adapta&ccedil;&atilde;o da conduta de leitor em fun&ccedil;&atilde;o    dos objectivos de leitura e do seu conhecimento sobre as utiliza&ccedil;&otilde;es    funcionais da leitura. </P>     <P>Os autores questionam-se sobre as bases conceptuais que a crian&ccedil;a ter&aacute; de dispor para que consiga desenvolver e integrar as v&aacute;rias opera&ccedil;&otilde;es que est&atilde;o implicadas num saber ler de base, considerando que aquelas requerem a disponibilidade de compet&ecirc;ncias metalingu&iacute;sticas, conceptuais e culturais. </P>     <P>Estas v&aacute;rias compet&ecirc;ncias s&atilde;o associadas &agrave;s diferentes opera&ccedil;&otilde;es de leitura do seguinte modo: </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>-<B> Saber descodificar </B>requer o desenvolvimento de compet&ecirc;ncias    de reflex&atilde;o e manipula&ccedil;&atilde;o sobre as unidades da linguagem    oral, na medida em que no sistema de escrita alfab&eacute;tico as regras que    ligam o oral &agrave; escrita se baseiam numa an&aacute;lise fon&eacute;tica    das palavras. </P>      <P>Este ponto vista est&aacute; em concord&acirc;ncia com os trabalhos emp&iacute;ricos efectuados no &acirc;mbito da consci&ecirc;ncia fonol&oacute;gica, os quais assumem a import&acirc;ncia que as compet&ecirc;ncias de reflex&atilde;o expl&iacute;cita sobre a linguagem oral, e em particular sobre os componentes sonoros das palavras, t&ecirc;m para a compreens&atilde;o do princ&iacute;pio alfab&eacute;tico da escrita. </P>     <P>O saber descodificar implica igualmente outra capacidade fundamental que &eacute;    a compet&ecirc;ncia grafo-fon&eacute;tica ou seja o conhecimento dos valores    f&oacute;nicos das letras ou de grupos de letras e o conhecimento das re-gras    de combinat&oacute;ria. </P>     <P>-<B> Saber explorar </B>um texto implica dois tipos de compet&ecirc;ncias base:    compet&ecirc;ncias verbo-preditivas ou seja a capacidade para se servir do contexto    lingu&iacute;stico tendo em conta as restri&ccedil;&otilde;es sint&aacute;cticas    e sem&acirc;nticas para antecipar uma palavra que falta num enunciado; compet&ecirc;ncias    textuais, ou seja, a capacidade para controlar a estrutura de um texto e estabelecer    liga&ccedil;&otilde;es entre as partes e o todo. Sem esta capacidade a crian&ccedil;a    pode por vezes ser um descodificador sem compreender o que l&ecirc;. Esta capacidade    revela-se em tarefas como p&ocirc;r em ordem v&aacute;rias frases, encontrar    um t&iacute;tulo para a hist&oacute;ria, etc. </P>     <P>-<B> Ser capaz de reflectir sobre a natureza do c&oacute;digo alfab&eacute;tico</B>,    dimens&atilde;o que remete para o entendimento conceptual das particularidades    alfab&eacute;ticas da linguagem escrita. </P>     <P>Nos seus esfor&ccedil;os para compreender os significados das marcas escritas e atrav&eacute;s de interac&ccedil;&otilde;es com os outros (pares e adultos), as crian&ccedil;as desenvolvem ideias muito pr&oacute;prias sobre as propriedades da escrita e sobre o que esta representa, construindo uma s&eacute;rie de hip&oacute;teses conceptuais geneticamente ordenadas que podem estar mais pr&oacute;ximas ou mais afastadas da realidade alfab&eacute;tica. Os v&aacute;rios trabalhos neste dom&iacute;nio apontam para a exist&ecirc;ncia de uma verdadeira psicog&eacute;nese da linguagem escrita, caracterizada por v&aacute;rias eta-pas evolutivas conforme a natureza das hip&oacute;teses in-fantis sobre o funcionamento do sistema de escrita. </P>     <P>Inicialmente, as crian&ccedil;as limitam-se a distinguir a escrita dos desenhos; depois, come&ccedil;am por ter a ideia que a escrita das palavras implica uma quantidade m&iacute;nima de letras e ainda que para se diferenciar as palavras, tem que se proceder a diferentes combina&ccedil;&otilde;es das letras. Frequentemente, nesta fase, as crian&ccedil;as consideram que a escrita representa algumas propriedades do referente como, por exemplo, o tamanho. Posteriormente, as crian&ccedil;as come&ccedil;am a relacionar a lingua-gem oral e a linguagem escrita passando a escrever uma letra por cada s&iacute;laba e s&oacute; mais tarde entendem que as letras codificam os fonemas. </P>     <P>Para que as crian&ccedil;as sejam capazes de efectuar as opera&ccedil;&otilde;es de descodifica&ccedil;&atilde;o, &eacute; necess&aacute;rio que algumas das confus&otilde;es cognitivas associadas &agrave; linguagem escrita sejam ultrapassadas, ou seja, &eacute; necess&aacute;rio que as crian&ccedil;as tenham compreendido o princ&iacute;pio alfab&eacute;tico </P>     <P>- <B>Dominar um certo n&uacute;mero de dimens&otilde;es culturais </B>associadas    ao acto de ler, nomeadamente a identifica&ccedil;&atilde;o dos diferentes suportes    de leitura e a explicita&ccedil;&atilde;o de finalidades da leitura e da sua    aprendizagem. </P>     <P>Este modelo revela potencialidades para abranger a complexidade do acto de    ler e da sua aprendizagem, como para integrar os diferentes tipos de pesquisas    que procuraram, nas &uacute;ltimas duas d&eacute;cadas, investigar os factores    cognitivos e as condi&ccedil;&otilde;es pedag&oacute;gicas consideradas importantes    para optimizar a aprendizagem da leitura e da escrita nas fases iniciais. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P align="right">Ana Cristina Silva </P>      ]]></body>
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