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<journal-title><![CDATA[Análise Psicológica]]></journal-title>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Desenvolvimento social: Algumas considerações teóricas]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) Unidade de Investigação em Psicologia Cognitiva do Desenvolvimento e da Educação (UIPCDE) ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The present paper discusses some theoretical perspectives of the developmental process, more specifically, at the level of the multiple factors contributing to child socio and emotional development. The authors aim to highlight the concept that development is constrained by both biological and contextual characteristics. Both parent/child interactions and peer relations are considered in this paper as critical developmental contexts.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><B>Desenvolvimento social: Algumas considera&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas </B></P>      <p>&nbsp;</p>      <p align="right">Manuela Ver&iacute;ssimo (<a href="#1">*</a><a name="top1"></a>)</P>     <p align="right">Ant&oacute;nio J. Santos (<a href="#1">*</a><a name="top1"></a>)  </P>      <p>&nbsp;</p>      <p align="center">RESUMO </P>      <p>O presente artigo tem como objectivo apresentar algumas perspectivas te&oacute;ricas  sobre o processo de desenvolvimento, especificamente ao n&iacute;vel dos m&uacute;ltiplos  factores que contribuem para o desenvolvimento s&oacute;cio-emocional da crian&ccedil;a.  Procura-se salientar a defini&ccedil;&atilde;o de desenvolvimento como produto de uma  co-ac&ccedil;&atilde;o entre a biologia e as influ&ecirc;ncias sociais. As  interac&ccedil;&otilde;es precoces assim como as interac&ccedil;&otilde;es entre pares  s&atilde;o abordadas como importantes contextos de desenvolvimento. </P>      <p><I>Palavras-chave</I>: Desenvolvimento social, perspectivas te&oacute;ricas,  interac&ccedil;&atilde;o. </P>      <p>&nbsp;</p>      <p align="center">ABSTRACT </P>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>The present paper discusses some theoretical perspectives of the developmental  process, more specifically, at the level of the multiple factors contributing to  child socio and emotional development. The authors aim to highlight the concept  that development is constrained by both biological and contextual characteristics.  Both parent/child interactions and peer relations are considered in this paper as  critical developmental contexts. </P>      <p><I>Key words</I>: Social development, theoretical perspectives, interactions. </P>      <p>&nbsp;</p>      <p>Embora os psic&oacute;logos do desenvolvimento contempor&acirc;neos concordem que retomar  o debate &ldquo;<I>nature-nurture</I>&rdquo; (biologia <I>versus </I>ambiente social) &eacute;  infrut&iacute;fero, estas duas diferentes concep&ccedil;&otilde;es, dos determinantes do  comportamento humano persistem na psicologia acad&eacute;mica, bem como no senso-comum.  Um bom exemplo disto &eacute; o controverso artigo de Scarr (1993), o qual tenta promover a  investiga&ccedil;&atilde;o em gen&eacute;tica comportamental, alegando que, devido ao facto  de o ambiente social que rodeia os indiv&iacute;duos ser t&atilde;o semelhante, a diversidade  do comportamento humano deve ser explicada pelas diferen&ccedil;as do patrim&oacute;nio gen&eacute;tico.  Numa vigorosa reac&ccedil;&atilde;o a esta posi&ccedil;&atilde;o, Baumrind (1993) contestou  a no&ccedil;&atilde;o de semelhan&ccedil;a dos ambientes sociais, sublinhando os resultados  de numerosos estudos emp&iacute;ricos, que demonstraram como diferentes condi&ccedil;&otilde;es  sociais est&atilde;o relacionadas com diferen&ccedil;as no desenvolvimento precoce. </P>     <p>Curiosamente, os pioneiros da psicologia do desenvolvimento adoptaram uma vis&atilde;o  bastante diferente. Em vez de tentarem decifrar a contribui&ccedil;&atilde;o relativa dos  factores gen&eacute;ticos e ambientais no desenvolvimento humano, argumentaram que ambos  actuam em conjunto. Por exemplo, Preyer (1888), um dos primeiros investigadores do desenvolvimento  da crian&ccedil;a, prop&ocirc;s que o comportamento deve ser entendido enquanto produto  da interac&ccedil;&atilde;o entre a biologia e o ambiente social. As suas pesquisas sobre  o desenvolvimento dos sistemas sensoriais levaram-no a concluir que, ao longo do processo  de ontogenia humana, existe sempre um efeito bi-direcccional entre as fun&ccedil;&otilde;es  adaptativas observ&aacute;veis e as estruturas org&acirc;nicas subjacentes. Da mesma forma,  James Mark Baldwin (1902) prop&ocirc;s que, ao n&iacute;vel comportamental, os resultados d a interac&ccedil;&atilde;o entre processos biol&oacute;gicos e psicol&oacute;gicos devem  ser considerados mais do que a soma das partes. A adapta&ccedil;&atilde;o comportamental  &eacute; um produto de for&ccedil;as sociais e biol&oacute;gicas trabalhando juntas para  promover n&iacute;veis crescentes de adapta&ccedil;&atilde;o individual. As teorias de  Baldwin sobre a interac&ccedil;&atilde;o entre caracter&iacute;sticas pessoais e  experi&ecirc;ncias sociais real&ccedil;aram a import&acirc;ncia dos parceiros sociais  na constru&ccedil;&atilde;o da personalidade da crian&ccedil;a, bem como dos aspectos  bi-direccionais na adapta&ccedil;&atilde;o individual e social. Para Baldwin, a  crian&ccedil;a &eacute; ao mesmo tempo um arquitecto e um produto das estruturas sociais  que o rodeiam. </P>     <p>Numa reformula&ccedil;&atilde;o moderna destas perspectivas psicobiol&oacute;gicas, Gottlieb  (1991) prop&ocirc;s que o crescimento individual &eacute; conjuntamente determinado pelo  gen&oacute;tipo da crian&ccedil;a, pela sua experi&ecirc;ncia precoce e, ainda, por  constrangimentos imediatos do contexto desenvolvimental. Na sua perspectiva, o desenvolvimento  &eacute; o produto de uma co-ac&ccedil;&atilde;o entre a biologia e as influ&ecirc;ncias sociais.  As mudan&ccedil;as desenvolvimentais podem ser reguladas em diferentes n&iacute;veis de complexidade  org&acirc;nica, bem como dentro de cada um dos diferentes n&iacute;veis. Se os genes modelam  o comportamento, as condi&ccedil;&otilde;es ambientais, tamb&eacute;m, regulam a express&atilde;o  gen&eacute;tica. A no&ccedil;&atilde;o de epig&eacute;nese postula que o organismo e o contexto  est&atilde;o integrados enquanto componentes de um sistema aberto, onde o estado futuro  do sistema &eacute; determinado por transac&ccedil;&otilde;es multi-n&iacute;vel. Uma vez  que a varia&ccedil;&atilde;o no tempo dos processos biol&oacute;gicos, psicol&oacute;gicos  e sociais n&atilde;o pode ser pr&eacute;-estabelecido, a mudan&ccedil;a desenvolvimental  &eacute; necessariamente probabil&iacute;stica. Uma vis&atilde;o probabil&iacute;stica do  desenvolvimento sublinha a diversidade e a plasticidade de f&eacute;notipos particulares  e real&ccedil;a que as traject&oacute;rias de desenvolvimento individuais s&atilde;o sempre  incertas, embora permane&ccedil;am dentro dos limites de intervalos de reac&ccedil;&atilde;o  espec&iacute;ficos de cada esp&eacute;cie. </P>     <p>V&aacute;rios psicobi&oacute;logos contempor&acirc;neos argumentaram que, para  que seja assegurado um crescimento &oacute;ptimo, o processo de desenvolvimento humano  requer uma base gen&eacute;tica bem como um ambiente social suficientemente estimulante.  Por outras palavras, a informa&ccedil;&atilde;o que &eacute; disponibilizada &agrave;  crian&ccedil;a em crescimento &eacute; fornecida tanto pela esfera gen&eacute;tica,  como pela esfera sociocultural (Valsiner, 1987). Tal como o patrim&oacute;nio gen&eacute;tico,  os ambientes sociais possuem uma organiza&ccedil;&atilde;o particular e uma coer&ecirc;ncia  interna pr&oacute;prias que tem implica&ccedil;&otilde;es funcionais no crescimento e no  desenvolvimento. O ambiente social n&atilde;o &eacute; apenas um suporte, mas &eacute;  tamb&eacute;m construtivo e informativo (Lickliter &amp; Berry, 1991). Os te&oacute;ricos  bio-sociais expandiram a perspectiva psicobiol&oacute;gica ao enfatizar a import&acirc;ncia  dos limites da plasticidade comportamental (Edelman, 1987). As mudan&ccedil;as que ocorrem  durante o desenvolvimento s&atilde;o, tamb&eacute;m, governadas por processos selectivos  que canalizam as actividades comportamentais e representacionais, e restringem a emerg&ecirc;ncia  de estrat&eacute;gias adaptativas alternativas. Estes constrangimentos selectivos limitam  as capacidades de ajustamento da crian&ccedil;a a situa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o familiares.  Apesar de ser esperado um certo grau de plasticidade, as diferen&ccedil;as precoces na  experi&ecirc;ncia social podem criar e manter diferen&ccedil;as qualitativas nas traject&oacute;rias  de desenvolvimento numa mesma popula&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;as (Strayer, 1989). </P>     <p>Adoptar uma perspectiva bio-social na psicobiologia do desenvolvimento permite  expandir as perspectivas dos sistemas desenvolvimentais, ao acentuar a import&acirc;ncia  de processos peculiares de desenvolvimento que ocorrem em nichos socio-ecol&oacute;gicos  particulares. Os nichos particulares imp&otilde;em constrangimentos espec&iacute;ficos ao  comportamento e servem de contexto facilitador de comportamentos culturalmente apropriados  (Strayer, Verissimo, &amp; Manakowska, 1996; Strayer, 1989). Numa perspectiva bio-social,  as crian&ccedil;as s&atilde;o vistas como agentes activos que integram, especificamente, a  informa&ccedil;&atilde;o sobre o seu ambiente que melhor corresponde ao seu n&iacute;vel  actual de funcionamento psicol&oacute;gico e fisiol&oacute;gico. O estudo das estruturas  interpessoais na transmiss&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o social, &eacute; essencial  para a compreens&atilde;o dos processos de desenvolvimento, que geram tanto as caracter&iacute;sticas  comuns como a diversidade da adapta&ccedil;&atilde;o humana (Strayer <I>et al.</I>, 1996). </P>     <p>As &uacute;ltimas duas d&eacute;cadas testemunharam uma renova&ccedil;&atilde;o do interesse  no papel prim&aacute;rio das rela&ccedil;&otilde;es precoces no desenvolvimento de capacidades  cognitivas, afectivas e comunicativas. Este interesse n&atilde;o &eacute; inteiramente novo.  J&aacute; na d&eacute;cada de 1930, Vygotsky, tinha defendido as origens socioculturais do  desenvolvimento cognitivo. Nesta perspectiva, a experi&ecirc;ncia cognitiva da crian&ccedil;a e st&aacute; socialmente enraizada, uma vez que ocorre em primeiro lugar num contexto interpessoal  e s&oacute; depois se torna integrada num plano psicol&oacute;gico pessoal. Dito de outro modo,  Vygotysky acreditava que o conhecimento &eacute; praticado inicialmente num contexto interpessoal,  antes de ser interiorizado e apropriado pela crian&ccedil;a. V&aacute;rios investigadores  que trabalharam posteriormente sobre esta ideia focaram os seus esfor&ccedil;os nos processos  de constru&ccedil;&atilde;o social &ndash; isto &eacute;, na forma como os adultos  facilitam diferencialmente o desenvolvimento cognitivo das crian&ccedil;as (Laboratory  of Comparative Human Cognition, 1983; Rogoff &amp; Gardner, 1984). De acordo com estes  te&oacute;ricos, as crian&ccedil;as s&atilde;o inicialmente dependentes dos outros para  exercer a regula&ccedil;&atilde;o dos seus pensamentos e ac&ccedil;&otilde;es, mas depois  sob a influ&ecirc;ncia dos adultos que servem de &ldquo;andaimes&rdquo;, por assim dizer,  as crian&ccedil;as tornam-se cada vez mais capazes de uma auto-regula&ccedil;&atilde;o efectiva  (Wertsch, 1979). </P>     <p>Embora &agrave; primeira vista a perspectiva socio-cultural de Vygotsky pare&ccedil;a  ser diferente em muitos aspectos de uma abordagem Piagetiana mais cl&aacute;ssica do  desenvolvimento, ambos os modelos est&atilde;o de acordo quanto &agrave; import&acirc;ncia  central das rela&ccedil;&otilde;es interpessoais enquanto for&ccedil;a motriz do crescimento  cognitivo da crian&ccedil;a. Piaget prop&ocirc;s que o sujeito epist&eacute;mico nunca &eacute;  um sujeito isolado, e que os significados simb&oacute;licos s&atilde;o constru&iacute;dos  atrav&eacute;s da interac&ccedil;&atilde;o com o mundo. Numa reinterpreta&ccedil;&atilde;o  das reflex&otilde;es de Piaget sobre a socializa&ccedil;&atilde;o precoce, Youniss (1980)  sublinhou que o desenvolvimento cognitivo n&atilde;o envolve apenas conhecimentos sobre  objectos e lugares mas, tamb&eacute;m, os conhecimentos adquiridos durante interac&ccedil;&otilde;es  sociais com outros. As rela&ccedil;&otilde;es sociais em si mesmas rapidamente se tornam  t&oacute;picos de reflex&atilde;o cognitiva. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Para Youniss, tal como para Piaget, o desenvolvimento cognitivo &eacute; mais r&aacute;pido  quando se d&aacute; no seio de rela&ccedil;&otilde;es interpessoais &iacute;ntimas e  pr&oacute;ximas. O crescimento e desenvolvimento do indiv&iacute;duo necessita de uma  cont&iacute;nua reconstitui&ccedil;&atilde;o do <I>self </I>atrav&eacute;s das  transac&ccedil;&otilde;es sociais com outros (Youniss, 1980). Em &uacute;ltima inst&acirc;ncia,  o significado das ac&ccedil;&otilde;es de cada um apenas pode ser entendido &agrave; luz das  ac&ccedil;&otilde;es dos outros. As rela&ccedil;&otilde;es pr&oacute;ximas, e em especial  as amizades com os pares, fornecem contextos importantes que modelam o desenvolvimento  afectivo e cognitivo. A din&acirc;mica da adapta&ccedil;&atilde;o socio-cognitiva existente  em tais rela&ccedil;&otilde;es n&atilde;o envolve apenas o dar e receber de informa&ccedil;&atilde;o.  O desenvolvimento socio-cognitivo requer n&iacute;veis de descentra&ccedil;&atilde;o que  envolvem a co-constru&ccedil;&atilde;o social de significados m&uacute;tuos com parceiros  sociais significativos. A perspectiva co-construtivista n&atilde;o s&oacute; sublinha o  papel das rela&ccedil;&otilde;es sociais na constru&ccedil;&atilde;o de um sistema integrado  de conhecimento, como coloca &ecirc;nfase tamb&eacute;m na import&acirc;ncia que os interesses  e valores pessoais t&ecirc;m na gest&atilde;o da aten&ccedil;&atilde;o selectiva a experi&ecirc;ncias  particulares (Wozniak, 1993). As mudan&ccedil;as desenvolvimentais que facilitam o ajustamento  face a press&otilde;es espec&iacute;ficas, num determinado contexto socio-cultural, contribuem  para a constru&ccedil;&atilde;o de n&iacute;veis apropriados de compet&ecirc;ncias comunicativas  locais. </P>      <p>&nbsp;</p>      <p align="center">ABORDAGENS ETOL&Oacute;GICAS </P>      <p>A investiga&ccedil;&atilde;o pioneira em etologia animal dirigiu-se sobretudo  para o estudo sistem&aacute;tico dos padr&otilde;es fixos de ac&ccedil;&atilde;o  [<I>fixed action patterns</I>]. Estas estruturas comportamentais foram consideradas inatas e o produto da selec&ccedil;&atilde;o filogen&eacute;tica. As estruturas sociais  de grupos est&aacute;veis eram, tamb&eacute;m, vistas como tend&ecirc;ncias espec&iacute;ficas  da esp&eacute;cie baseadas em determinados modos inatos de adapta&ccedil;&atilde;o colectiva  (Lorenz, 1965). No entanto, a emerg&ecirc;ncia da etologia social, nos anos 1970, implicou  uma maior &ecirc;nfase na forma como as din&acirc;micas da adapta&ccedil;&atilde;o social  reflectem a interac&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua entre processos comportamentais e  processos ecol&oacute;gicos de uma dada esp&eacute;cie no seu <I>habitat </I>particular  (Crook, 1966; Kummer, 1968).  </P>     <p>A diversidade da adapta&ccedil;&atilde;o social individual era, ent&atilde;o, vista como  uma fonte importante da variabilidade inter-individual, a qual se tornaria ent&atilde;o o  poss&iacute;vel objecto da selec&ccedil;&atilde;o natural. Se a integra&ccedil;&atilde;o e  o ajustamento dentro de um sistema social estabelecido eram considerados como sendo requesitos  para a sobreviv&ecirc;ncia a curto-prazo, ent&atilde;o tais adapta&ccedil;&otilde;es deveriam  determinar o sucesso reprodutivo individual a longo prazo (Crook, 1970; Kummer, 1968, 1971).  A dicotomia organismo-ambiente, que era tradicional na etologia social, foi ent&atilde;o  re-conceptualizada em termos da exist&ecirc;ncia de tr&ecirc;s sistemas em cont&iacute;nua  interac&ccedil;&atilde;o: o <I>habitat </I>f&iacute;sico, a estrutura do grupo social, e o  organismo em desenvolvimento. Esta reformula&ccedil;&atilde;o teve importantes  implica&ccedil;&otilde;es nos modelos te&oacute;ricos sobre o desenvolvimento social, em  disciplinas vizinhas, tais como, a etologia da crian&ccedil;a e a psicologia do desenvolvimento  (Crook, 1970). </P>     <p>Em vez de colocarem a &ecirc;nfase nas no&ccedil;&otilde;es cl&aacute;ssicas de padr&otilde;es  de ac&ccedil;&atilde;o espec&iacute;ficos da esp&eacute;cie, os estudos etol&oacute;gicos do  comportamento social de primatas n&atilde;o-humanos dedicaram grande aten&ccedil;&atilde;o  aos sistemas hierarquizados de sinaliza&ccedil;&atilde;o. Nesta perspectiva, a actividade  comunicativa foi conceptualizada como estando sujeita a modula&ccedil;&otilde;es estrat&eacute;gicas  em diferentes contextos sociais e f&iacute;sicos. Em geral, determinadas formas particulares  de comportamento social foram associadas com pap&eacute;is espec&iacute;ficos prevalentes  no interior da estrutura do grupo. O valor adaptativo de certos comportamentos particulares,  depende tanto do estatuto do indiv&iacute;duo no interior do sistema social, como do  relacionamento social estabelecido entre os indiv&iacute;duos (Crook, 1970). </P>     <p>Uma das contribui&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas mais importantes que surgiu da  etologia dos primatas foi a formula&ccedil;&atilde;o de um modelo dial&eacute;ctico sobre  a estabilidade dos relacionamentos sociais. Os pioneiros da primatologia formularam a teoria  de que a organiza&ccedil;&atilde;o social do grupo envolveria o equil&iacute;brio entre  for&ccedil;as coesivas e dispersivas que operavam no interior de uma dada unidade social  (Carpenter, 1942; Yerkes, 1928; Zuckerman, 1932). A necessidade de regular estas duas  for&ccedil;as opostas permitia explicar tanto a estrutura emergente do grupo bem como a  estabilidade dos relacionamentos sociais. Teoricamente, a coes&atilde;o social era vista  como decorrente do interesse comum do grupo para explorar de forma optimizada os recursos  ecol&oacute;gicos e sociais; por seu lado a dispers&atilde;o social decorreria da inevit&aacute;vel  competi&ccedil;&atilde;o que surge quando certos indiv&iacute;duos tentam maximizar o  seu acesso aos recursos &agrave;s custas de outrem. As diferen&ccedil;as no acesso aos recursos  que resultam destes v&aacute;rios processos t&ecirc;m consequ&ecirc;ncias directas e  imediatas para o crescimento e o desenvolvimento individual. Para al&eacute;m disso, as  discrep&acirc;ncias no acesso dos indiv&iacute;duos a tais recursos geram diferen&ccedil;as  significativas na aptid&atilde;o reprodutiva individual a longo prazo (Dawkins, 1976). </P>      <p>&nbsp;</p>      <p align="center">A ECOLOGIA SOCIAL DA COMUNICA&Ccedil;&Atilde;O </P>      <p>Na sua teoria ecol&oacute;gica da condi&ccedil;&atilde;o humana, Bronfenbrenner (1978)  argumentou que as transac&ccedil;&otilde;es subjacentes ao desenvolvimento ocorrem &agrave;  medida que os grupos de organismos interagem colectivamente com o ambiente, para criar um  sistema din&acirc;mico aberto de n&iacute;vel superior. Inspirado pela no&ccedil;&atilde;o  de &ldquo;campos ambientais&rdquo; que modelam a ac&ccedil;&atilde;o humana, formulada  por Lewin, Bronfenbrenner elaborou um modelo ecol&oacute;gico do &ldquo;desenvolvimento  humano em contexto social&rdquo;, sublinhando o fen&oacute;meno de acomoda&ccedil;&atilde;o  m&uacute;tua progressiva entre a pessoa e os seus contextos sociais quotidianos  (Bronfenbrenner, 1978). O desenvolvimento &eacute; por ele entendido como acontecendo  atrav&eacute;s de processos progressivamente mais complexos de interac&ccedil;&atilde;o  rec&iacute;proca entre um organismo bio-social activo e as pessoas, objectos e s&iacute;mbolos  do seu ambiente envolvente (Bronfenbrenner, 1978). Percebendo a vastid&atilde;o das  capacidades adaptativas humanas, Bronfenbrenner insistiu na ideia de que modelos  te&oacute;ricos unidimensionais nunca poder&atilde;o explicar o desenvolvimento das  ac&ccedil;&otilde;es humanas. As explica&ccedil;&otilde;es para as quest&otilde;es  desenvolvimentais requerem abordagens multidimensionais e n&atilde;o-lineares. Os  estudos ecol&oacute;gicos devem ser bi-direccionais e multivariados, mas devem sobretudo  acentuar os sistemas abertos funcionando num contexto em cont&iacute;nua mudan&ccedil;a  (Soczka, 1989). </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em 1996, Bronfenbrenner clarificou quais as condi&ccedil;&otilde;es de aplica&ccedil;&atilde;o  do seu paradigma ecol&oacute;gico ao estudo do desenvolvimento humano. As pesquisas  ecol&oacute;gicas deveriam examinar as rela&ccedil;&otilde;es multivariadas existentes ao  longo do tempo entre as medidas relativas a <I>Pessoas, Processos e Contextos </I>(PCC).  No seu modelo <I>PCC</I>, Bronfenbrenner prop&otilde;e que as vari&aacute;veis relativas  &agrave; Pessoa dever&atilde;o incluir caracter&iacute;sticas do indiv&iacute;duo avaliadas  aos n&iacute;veis socio-hist&oacute;rico, psicol&oacute;gico e biol&oacute;gico.  O <I>Contexto </I>refere-se a constrangimentos situacionais que podem ir desde as  diferen&ccedil;as nos sistemas socio-culturais (e.g., Nativos americanos <I>versus </I>Euro-americanos),  diferen&ccedil;as contempor&acirc;neas no acesso aos recursos (e.g., classe oper&aacute;ria  <I>versus </I>classe m&eacute;dia), aos modos prevalentes de interac&ccedil;&atilde;o familiar  (e.g., estilos parentais autorit&aacute;rio <I>versus </I>democr&aacute;tico).  Os <I>Processos </I>variam ao longo do tempo e existem como fun&ccedil;&atilde;o conjunta  da pessoa e do contexto; a interac&ccedil;&atilde;o entre vari&aacute;veis da pessoa e  do contexto n&atilde;o &eacute; nem linear, nem aditiva, mas sim sinerg&eacute;tica. </P>     <p>O modelo ecol&oacute;gico rejeita explicitamente a assump&ccedil;&atilde;o de que  os processos desenvolvimentais s&atilde;o de car&aacute;cter universal. Em vez disso,  adopta um ponto de vista onde as diferen&ccedil;as qualitativas no desenvolvimento  individual resultam das varia&ccedil;&otilde;es nos atributos dos parceiros sociais  e dos padr&otilde;es de troca social. Apesar deste modelo fornecer um enquadramento  intuitivamente acess&iacute;vel para a investiga&ccedil;&atilde;o do desenvolvimento  humano, &eacute; muitas vezes dif&iacute;cil delinear distin&ccedil;&otilde;es operacionais  entre os v&aacute;rios componentes do modelo. Por exemplo, Strayer, Ver&iacute;ssimo e  Manikowska (1996) ilustraram como a seguran&ccedil;a da vincula&ccedil;&atilde;o  prim&aacute;ria pode ser entendida tanto como uma vari&aacute;vel da pessoa, como um  aspecto do contexto interpessoal, ou ainda como parte de um processo de regula&ccedil;&atilde;o  socio-afectiva. Uma vez que as pessoas se encontram em transac&ccedil;&otilde;es  cont&iacute;nuas com os contextos, &eacute; frequente esbaterem-se as fronteiras emp&iacute;ricas  entre os componentes do modelo ecol&oacute;gico. </P>     <p>A adop&ccedil;&atilde;o de uma perspectiva ecol&oacute;gica no estudo do desenvolvimento  da crian&ccedil;a requer uma revis&atilde;o das no&ccedil;&otilde;es construtivistas  sobre a interac&ccedil;&atilde;o organismo-ambiente, em favor de uma vis&atilde;o mais  din&acirc;mica dos processos co-adaptativos das popula&ccedil;&otilde;es. Segundo  Bronfenbrenner o modelo <I>PPC </I>do desenvolvimento da crian&ccedil;a, sublinha a  necessidade de um tratamento mais rigoroso de diversos factores que modelam a adapta&ccedil;&atilde;o  precoce da crian&ccedil;a. A especifica&ccedil;&atilde;o adequada de caracter&iacute;sticas  pr&eacute;-existentes das pessoas e dos contextos levanta quest&otilde;es profundas sobre  como descrever e classificar a diversidade din&acirc;mica dentro de dadas popula&ccedil;&otilde;es  de sujeitos. Os esfor&ccedil;os para elucidar as for&ccedil;as sist&eacute;micas que d&atilde;o  forma ao crescimento e ao desenvolvimento individual requerem o uso de estrat&eacute;gias  n&atilde;o-param&eacute;tricas multivariadas que s&atilde;o pouco familiares para muitos  investigadores das ci&ecirc;ncias sociais. </P>     <p>Problemas semelhantes a estes j&aacute; tinham ocorrido nas ci&ecirc;ncias  biol&oacute;gicas, nomeadamente, na pesquisa sobre processos co-adaptativos em  ecosistemas restritos ou semi-fechados (Legendre &amp; Legendre, 1984). Por exemplo,  a primeira tarefa da ecologia &eacute; estabelecer curvas de toler&acirc;ncia adaptativa  para uma determinada esp&eacute;cie; a curva de toler&acirc;ncia &eacute; uma  caracteriza&ccedil;&atilde;o multivariada do espectro de ambientes nos quais a  esp&eacute;cie &eacute; vi&aacute;vel. A evid&ecirc;ncia emp&iacute;rica indica-nos que  determinados aspectos f&iacute;sicos e sociais do ambiente co-variam de forma a modular  zonas de toler&acirc;ncia, e que essa modula&ccedil;&atilde;o est&aacute;, por sua vez,  normalmente sob a influ&ecirc;ncia de outras vari&aacute;veis. A adapta&ccedil;&atilde;o  emerge enquanto resposta integrada a press&otilde;es combinadas e em interac&ccedil;&atilde;o,  vindas de diferentes partes do ecossistema, e n&atilde;o envolve o ajustamento a press&otilde;es  selectivas unit&aacute;rias. Neste contexto, a no&ccedil;&atilde;o de que existe um n&iacute;vel  optimal fixo de desenvolvimento pode ser considerado como um artif&iacute;cio da  simplifica&ccedil;&atilde;o conceptual, a qual persiste no uso de an&aacute;lises  univariadas na sua explora&ccedil;&atilde;o do controlo ambiental (Putman &amp; Wratten, 1984). </P>     <p>De uma forma semelhante para a psicologia, os processos de desenvolvimento n&atilde;o  podem ser compreendidos atrav&eacute;s de an&aacute;lises singulares de aspectos pr&eacute;-seleccionados  do funcionamento social, psicol&oacute;gico ou biol&oacute;gico. A diferencia&ccedil;&atilde;o  de traject&oacute;rias de desenvolvimento requer que se fa&ccedil;a uma classifica&ccedil;&atilde;o  multi-dimensional, usando vari&aacute;veis ecol&oacute;gicas relevantes, de modo a derivar  categorias emp&iacute;ricas referentes &agrave;s normas locais que regulam os processos  adaptativos em sub-grupos espec&iacute;ficos de pessoas. </P>      <p>&nbsp;</p>      <p align="center">REFER&Ecirc;NCIAS </P>      <!-- ref --><p>Baldwin, J. M. (1902). <I>Development and evolution</I>. New York: Macmillan.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000040&pid=S0870-8231200800030000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P>Baumrind, D. (1993). 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