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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Género e violência conjugal: Uma relação cultural]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This work emphasizes the need to pay attention to gender in the analysis of violence against women. It is considered that gender is a social construction closely implicated in the way marital violence is culturally experienced. Through a brief revision about how differences between men and women have been construed, and the analysis of &#8220;gender&#8221; conceptualization, a social constructionist perspective on the social and cultural nature of gender is defended. It is further analysed the way how the scientific community and the different theoretical approaches to violence look at the relation between marital violence and gender. In face of the existent controversies and lack of consensus, a cultural approach to the gender/ violence relation is proposed. It is stressed that marital violence and gender can&#8217;t be analysed separately: they are interconnected, gender being a part of the cultural context of violence.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Construcionismo social]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>G&eacute;nero e viol&ecirc;ncia conjugal &ndash; Uma rela&ccedil;&atilde;o cultural</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="right">Ana Rita Conde Dias (<a href="#1">*</a><a name="top1"></a>)</P>     <P align="right">Carla Machado (<a href="#1">*</a><a name="top1"></a>) </P>      <p>&nbsp;</p>      <p align="center">RESUMO </P>      <p>O presente artigo destaca a necessidade de atender &agrave;s quest&otilde;es de g&eacute;nero  na an&aacute;lise do fen&oacute;meno da viol&ecirc;ncia contra a mulher, considerando que a  constru&ccedil;&atilde;o social do g&eacute;nero &eacute; constitutiva da viv&ecirc;ncia cultural  deste fen&oacute;meno. Partindo de uma breve revis&atilde;o de como a diferen&ccedil;a entre homens e  mulheres tem sido abordada, da an&aacute;lise da forma como a no&ccedil;&atilde;o de  &ldquo;g&eacute;nero&rdquo; tem sido conceptualizada e, com base na abordagem construcionista social,  defende-se a sua natureza n&atilde;o s&oacute; social mas tamb&eacute;m cultural. Seguidamente, procede-se  a uma an&aacute;lise do modo como a rela&ccedil;&atilde;o viol&ecirc;ncia conjugal e g&eacute;nero  tem sido equacionada na comunidade cient&iacute;fica e nas diferentes abordagens te&oacute;ricas.  Face &agrave;s controv&eacute;rsias existentes, &agrave;s limita&ccedil;&otilde;es das v&aacute;rias  abordagens e, partindo da conceptualiza&ccedil;&atilde;o do g&eacute;nero enquanto constru&ccedil;&atilde;o  s&oacute;cio-cultural, propomos uma abordagem cultural da rela&ccedil;&atilde;o viol&ecirc;ncia/g&eacute;nero.  Sob esta abordagem, consideramos que a viol&ecirc;ncia conjugal e o g&eacute;nero n&atilde;o devem ser  analisados isoladamente, mas que est&atilde;o interligados, sendo o g&eacute;nero uma parte integrante  e constitutiva do enquadramento cultural do fen&oacute;meno da viol&ecirc;ncia. </P>      <p><I>Palavras-chave: </I>Construcionismo social, Cultura, G&eacute;nero, Viol&ecirc;ncia conjugal. </P>      <p>&nbsp;</p>      <p align="center">ABSTRACT </P>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>This work emphasizes the need to pay attention to gender in the analysis of violence against women.  It is considered that gender is a social construction closely implicated in the way marital violence  is culturally experienced. Through a brief revision about how differences between men and women have been  construed, and the analysis of &ldquo;gender&rdquo; conceptualization, a social constructionist  perspective on the social and cultural nature of gender is defended. It is further analysed the way  how the scientific community and the different theoretical approaches to violence look at the relation  between marital violence and gender. In face of the existent controversies and lack of consensus,  a cultural approach to the gender/ violence relation is proposed. It is stressed that marital violence  and gender can&rsquo;t be analysed separately: they are interconnected, gender being a part of the  cultural context of violence. </P>      <p><I>Key words: </I>Culture, Gender, Marital violence, Social constructionism. </P>      <p>&nbsp;</p>      <P align="center">DO BIOLOGISMO EXPLICATIVO DO &ldquo;SEXO&rdquo; &Agrave; EMERG&Ecirc;NCIA    DO CONCEITO DE &ldquo;G&Eacute;NERO&rdquo; </P>      <p>Desde a Antiguidade que se faz sentir a desigualdade entre os sexos &ndash; no  pensamento Grego, a ordem e a raz&atilde;o s&atilde;o associadas ao homem e a desordem  e a irracionalidade &agrave; mulher (Nogueira, 2001). Esta desigualdade, baseada nas  diferen&ccedil;as biol&oacute;gicas, que atribui caracter&iacute;sticas negativas &agrave;  mulher e sustenta a sua inferioridade, manteve-se ao longo do tempo at&eacute; ao Iluminismo.  Mesmo com a emerg&ecirc;ncia deste &ndash; com um discurso dirigido a todos os &ldquo;homens&rdquo;  e de cariz universal &ndash; a desigualdade persiste. Segundo Farge e Davis (1991), a mulher  surge como a metade dos &ldquo;homens&rdquo; mas &eacute; definida em fun&ccedil;&atilde;o do  masculino e n&atilde;o como seu par. Al&eacute;m disto, a mulher permanece associada aos sentidos,  &agrave; procria&ccedil;&atilde;o e &agrave; sexualidade, sendo a sua inferioridade legitimada pelo  discurso acerca das suas diferen&ccedil;as sexuais e intelectuais (H&eacute;ritier, 1996).  O pr&oacute;prio discurso cient&iacute;fico da &eacute;poca, com base no determinismo natural,  reduzia a mulher aos pap&eacute;is de m&atilde;e e esposa e traduzia um pensamento dualista  acerca do masculino e do feminino &ndash; racionalidade <I>versus </I>instintos, paix&atilde;o  <I>versus </I>intelecto e cultura <I>versus </I>natureza, respectivamente (Am&acirc;ncio, 1998;  H&eacute;ritier, 1996). </P>     <p>Esta desigualdade marca tamb&eacute;m as ci&ecirc;ncias humanas e sociais que emergem no  s&eacute;culo XIX, entre as quais a psicologia (Am&acirc;ncio, 1998; Nogueira, 2001; H&eacute;ritier,  1996). Bem (1993) identifica tr&ecirc;s cren&ccedil;as associadas ao homem e &agrave; mulher  que persistiram na ci&ecirc;ncia: (i) que possuem naturezas sexuais e psicol&oacute;gicas  diferentes, (ii) que a superioridade e a domin&acirc;ncia s&atilde;o caracter&iacute;sticas  inerentes ao homem e (iii) que a superioridade masculina e inferioridade feminina s&atilde;o  naturais. Subjacentes a estas cren&ccedil;as est&atilde;o o que Bem (1993) designa de &ldquo;lentes  de g&eacute;nero&rdquo;, no&ccedil;&otilde;es impl&iacute;citas enrai-zadas nos discursos culturais  que reproduzem o poder masculino ao longo do tempo. Assim, Bem refere tr&ecirc;s lentes de g&eacute;nero:  o androcentrismo (cren&ccedil;a na superioridade masculina e no&ccedil;&atilde;o de que o masculino  &eacute; a norma e o feminino o desvio), a polariza&ccedil;&atilde;o de g&eacute;nero (a  percep&ccedil;&atilde;o que homens e mulheres s&atilde;o diferentes e o uso desta no&ccedil;&atilde;o  como base para a organi-za&ccedil;&atilde;o da vida social e cultural) e o essencialismo  biol&oacute;gico (que sustenta as anteriores, conceptualizando-as como resultado das naturezas  biol&oacute;gicas do homem e da mulher). </P>     <p>Assim, at&eacute; recentemente, o conhecimento cient&iacute;fico postulava a exist&ecirc;ncia  de diferen&ccedil;as biol&oacute;gicas que justificavam a inferioridade psicol&oacute;gica e social  da mulher, legitimando a ordem e estrutura social que, deste modo, surgiam como algo natural e  n&atilde;o constitu&iacute;am por si s&oacute; objecto de an&aacute;lise (Am&acirc;ncio, 1998).  Por exemplo, o volume do c&eacute;rebro, a hip&oacute;tese da variabilidade do sexo masculino  (que, a partir de compara&ccedil;&otilde;es entre os dois sexos, postulava que as mulheres n&atilde;o  se encontravam entre os g&eacute;nios nem se destacavam na sociedade e apontava para a variabilidade  do sexo masculino e limita&ccedil;&atilde;o do sexo feminino) e a psicometria fundamentavam a  inferioridade intelectual da mulher; as diferen&ccedil;as hormonais justificavam a instabilidade  emocional feminina e a agressividade masculina; a programa&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica e  comportamental da maternidade, sustentada na cren&ccedil;a dos instintos (principalmente o  instinto maternal), explicava a afectividade e passividade associadas &agrave; mulher; os  pap&eacute;is tradicionais do homem e da mulher na sociedade eram sustentados pelos exemplos  de diferen&ccedil;as comportamentais dos machos e das f&ecirc;meas de outras esp&eacute;cies (idem). </P>     <p>Am&acirc;ncio (1998) refere que, mesmo no s&eacute;culo XX, a comunidade cient&iacute;fica  contribuiu para a &ldquo;cria&ccedil;&atilde;o de uma m&iacute;stica que visava <I>empurrar as  mulheres para casa</I>&rdquo; (p. 22), salientando a teoria de Parsons (1956a,b) no campo da  sociologia, a psican&aacute;lise na psicologia cl&iacute;nica (ambas sustentam o desempenho do  papel tradicional da mulher, pela manuten&ccedil;&atilde;o da estrutura familiar equilibrada e da  pr&oacute;pria sociedade no caso da primeira e pela sa&uacute;de mental no caso da segunda) e Spock  (1946) no campo da medicina (que destaca a necessidade dos cuidados maternos, sem qualquer  refer&ecirc;ncia ao pai). Assim, a ideia de que o papel da mulher se restringia &agrave; esfera  dom&eacute;stica e materna, ou pelo menos que era esse o seu desempenho fundamental, acabava por  ser &ldquo;fundamentada&rdquo; por v&aacute;rias &aacute;reas cient&iacute;ficas. </P>     <p>A partir dos anos 60, assistiu-se na psicologia social americana &agrave; prolifera&ccedil;&atilde;o  da investiga&ccedil;&atilde;o sobre as diferen&ccedil;as entre os sexos. Maccoby e Jacklin (1974)  procederam a uma an&aacute;lise de um vasto n&uacute;mero de estudos acerca das diferen&ccedil;as  intelectuais, &ldquo;temperamentais&rdquo; e de desempenho entre homens e mulheres, verificando a  inconsist&ecirc;ncia dos resultados, a ambiguidade na defini&ccedil;&atilde;o de alguns conceitos  avaliados (e.g., agressividade) e os enviesamentos metodol&oacute;gicos, concluindo que as  explica&ccedil;&otilde;es biol&oacute;gicas n&atilde;o se encontram fundamentadas. </P>     <p>Face &agrave; ambiguidade dos resultados desta psicologia diferencial dos sexos (Am&acirc;ncio, 1998),  e com as cr&iacute;ticas tecidas ao determinismo biol&oacute;gico subjacente &agrave;s ci&ecirc;ncias  sociais e as cr&iacute;ticas feministas da segunda vaga (Nogueira, 2001), a associa&ccedil;&atilde;o  entre o sexo biol&oacute;gico e o sexo psicol&oacute;gico foi posta em causa, emergindo nos anos 70  o conceito de g&eacute;nero. Na Psicologia, o conceito de sexo foi substitu&iacute;do por  este novo conceito, o que implica uma transforma&ccedil;&atilde;o importante na  conceptualiza&ccedil;&atilde;o da diferen&ccedil;a &ndash; ao deixar de ser determinada biologicamente,  deixa de ser vista como algo est&aacute;tico, natural e imut&aacute;vel (Hollway, 1994). </P>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <P align="center">A NECESSIDADE DE RECONCEPTUALIZAR A NO&Ccedil;&Atilde;O DE G&Eacute;NERO </P>      <p><I>Da perspectiva essencialista ao construcionismo social </I></P>      <p>Ao contr&aacute;rio do termo &ldquo;sexo&rdquo;, o &ldquo;g&eacute;nero&rdquo; faz  refer&ecirc;ncia &agrave;s no&ccedil;&otilde;es de constru&ccedil;&atilde;o e de significado,  ou seja, refere-se a uma classifica&ccedil;&atilde;o constru&iacute;da pelas sociedades que  postulam diferentes significados sociais e culturais associados &agrave; categoria homem e &agrave;  categoria mulher (Denzin, 1995). O sexo refere-se &agrave; identidade biol&oacute;gica, ao facto  de se caracterizar biologicamente uma pessoa como sendo macho ou f&ecirc;mea (Andersen, 1997), enquanto  o g&eacute;nero se refere &agrave;s expectativas e comportamentos socialmente aprendidos que se  associam a cada um dos sexos, remetendo para a dimens&atilde;o cultural e n&atilde;o biol&oacute;gica (idem). </P>     <p>O conceito de g&eacute;nero vem assim proceder &agrave; subjectiva&ccedil;&atilde;o do  sexo biol&oacute;gico, expressando uma mudan&ccedil;a conceptual da explica&ccedil;&atilde;o  biol&oacute;gica para a psicossocial. Segundo Deaux (1984), a no&ccedil;&atilde;o de g&eacute;nero  faz refer&ecirc;ncia &agrave;s caracter&iacute;sticas psicol&oacute;gicas, sociais e culturais  que est&atilde;o associadas &agrave;quelas categorias. No entanto, esta mudan&ccedil;a n&atilde;o  reflecte, segundo alguns cr&iacute;ticos (e.g., Crawford, 1995; Skevington &amp; Baker, 1989;  Stockard &amp; Johnson, 1992), uma verdadeira transforma&ccedil;&atilde;o, dado que as diferen&ccedil;as  continuam a ser consideradas como um dado adquirido e objectivo e as explica&ccedil;&otilde;es  muitas vezes continuam a ser procuradas ao n&iacute;vel do indiv&iacute;duo &ndash; a explica&ccedil;&atilde;o  biol&oacute;gica das diferen&ccedil;as acabou por ser substitu&iacute;da pela explica&ccedil;&atilde;o  psicol&oacute;gica, associando-se a personalidade ao sexo (Nogueira, 2001). Segundo Am&acirc;ncio (1998),  o conceito de sexo foi substitu&iacute;do pelo do g&eacute;nero mas, na verdade, n&atilde;o se verificou  uma verdadeira mudan&ccedil;a no modelo de an&aacute;lise &ndash; continuou a prevalecer o paradigma  dualista e o psicologismo das explica&ccedil;&otilde;es. </P>     <p>O modelo de Deaux (1984) acerca das expectativas de g&eacute;nero constitui um exemplo  desta an&aacute;lise dualista e psicologista. Apesar de estabelecer a distin&ccedil;&atilde;o  entre o sexo e o sistema de cren&ccedil;as associado ao g&eacute;nero (associando ao g&eacute;nero  os estere&oacute;tipos e representa&ccedil;&otilde;es sobre os pap&eacute;is e as caracter&iacute;sticas  dos homens e das mulheres), postula a exist&ecirc;ncia da identidade de g&eacute;nero &ndash; que  decorre da internaliza&ccedil;&atilde;o das normas e expectativas sociais face a casa um dos g&eacute;neros  &ndash; como base para a diferen&ccedil;a entre os sexos. Am&acirc;ncio (1998) assume uma vis&atilde;o  cr&iacute;tica face &agrave; no&ccedil;&atilde;o de identidade de g&eacute;nero, indicando que esta  &eacute; tratada como algo objectivo, negligenciando-se o sistema social que produz  os conte&uacute;dos simb&oacute;licos associados ao sexo. Como afirma Am&acirc;ncio (1998),  estes conte&uacute;dos &ldquo;n&atilde;o se limitam a ser diferentes, mas tamb&eacute;m s&atilde;o  valorativamente desiguais&rdquo; (p. 27). A diferencia&ccedil;&atilde;o entre os sexos n&atilde;o  &eacute; neutra, tem consequ&ecirc;ncias diferentes para os homens e para as mulheres e sustenta  a desigualdade social. </P>     <p>Nogueira (2001) chama tamb&eacute;m a aten&ccedil;&atilde;o para o essencialismo  subjacente &agrave; no&ccedil;&atilde;o de g&eacute;nero, vis&iacute;vel na abordagem das  diferen&ccedil;as sexuais. O g&eacute;nero, sob esta perspectiva, &eacute; conceptualizado  como um conjunto de atributos fundamentais ou qualidades inerentes, como algo que mulheres  e homens possuem (Crawford, 1995). </P>     <p>Segundo Crawford (1995), a distin&ccedil;&atilde;o entre os conceitos &ldquo;sexo&rdquo;  e &ldquo;g&eacute;nero&rdquo; foi uma tentativa significativa de distinguir o biol&oacute;gico  do social, no sentido de permitir uma an&aacute;lise cr&iacute;tica das diferen&ccedil;as entre  o homem e a mulher. No entanto, a perspectiva essencialista permaneceu, acabando por refor&ccedil;ar  esta diferencia&ccedil;&atilde;o de g&eacute;nero: o g&eacute;nero &eacute; visto em termos de  atributos internos (compet&ecirc;ncias cognitivas, emo&ccedil;&otilde;es) que surgem separados  da interac&ccedil;&atilde;o com os v&aacute;rios contextos. Assistiu-se &agrave; emerg&ecirc;ncia  de novas diferen&ccedil;as sexuais sob a etiqueta de diferen&ccedil;as de g&eacute;nero mas que,  na verdade, s&atilde;o id&ecirc;nticas &agrave;s anteriores, continuando a situar-se dentro do  indiv&iacute;duo, descontextualizadas socialmente, e biologizadas (idem). </P>     <p>Esta concep&ccedil;&atilde;o essencialista do g&eacute;nero nas ci&ecirc;ncias sociais  reflecte tamb&eacute;m a resist&ecirc;ncia da abordagem positivista, com a sua procura de  verdades universais e absolutas. Segundo Morawski (1990), a ci&ecirc;ncia tem sustentado  as rela&ccedil;&otilde;es sociais existentes, fazendo uso do conceito de g&eacute;nero sob  uma leitura individualista, categorial e dualista. No contexto do p&oacute;s-modernismo e  das cr&iacute;ticas &agrave; ci&ecirc;ncia, emergem, contudo, vis&otilde;es alternativas  &agrave; abordagem tradicional do g&eacute;nero, nomeadamente atrav&eacute;s das propostas  do construcionismo social. Nesta leitura, o g&eacute;nero passa a ser conceptualizado como  uma constru&ccedil;&atilde;o social, como um sistema de significados que se constr&oacute;i e  organiza atrav&eacute;s das interac&ccedil;&otilde;es e que tem repercuss&otilde;es nas  pr&aacute;ticas sociais (Burr, 1995), como o acesso ao poder e aos recursos (Crawford, 1995). </P>     <p>Desta forma, as diferen&ccedil;as de g&eacute;nero s&atilde;o entendidas como descri&ccedil;&otilde;es  modeladas pelos padr&otilde;es culturais, pelo que n&atilde;o devem ser aceites como naturais e devem  ser alvo de uma an&aacute;lise cr&iacute;tica. Como Nogueira refere (2001), muitas categorias reflectem  ideias acerca da experi&ecirc;ncia em fun&ccedil;&atilde;o do masculino, ou seja, favorecem  determinados modos de ser e de conduta associadas ao homem ou valorizam aspectos da vida da mulher  que beneficiam o homem. Por exemplo, enquanto ao homem se associam compet&ecirc;ncias ligadas ao  mundo do trabalho, &agrave; autoridade e ao controlo dos outros e das situa&ccedil;&otilde;es, &agrave;  mulher associam-se compet&ecirc;ncias relacionais, como a emotividade, a sensibilidade ou o cuidado  dos outros. Tais atribui&ccedil;&otilde;es conferem ao masculino uma posi&ccedil;&atilde;o dominante,  remetendo-o para contextos onde adquire um estatuto mais elevado, recursos e poder. Por seu turno,  &agrave; mulher &eacute; atribu&iacute;da responsabilidade social, enquanto m&atilde;e e esposa,  remetendo para a esfera dom&eacute;stica a sua realiza&ccedil;&atilde;o e estatuto (Am&acirc;ncio, 1998). </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Deste modo, as diferen&ccedil;as entre o homem e a mulher n&atilde;o existem em si mesmas,  tratam-se de produtos culturais e relacionais (Hare-Mustin &amp; Marecek, 1994). O g&eacute;nero  n&atilde;o est&aacute; na pessoa, no homem e na mulher, mas na interac&ccedil;&atilde;o, nas  rela&ccedil;&otilde;es sociais (Burr, 1995). Por outro lado ainda, o masculino e o feminino  s&atilde;o conceitos que ganham o seu significado n&atilde;o apenas nos padr&otilde;es conversacionais  e discursivos, mas tamb&eacute;m no seu contexto mais amplo (hist&oacute;rico, social e cultural).  Atendendo a que a linguagem, na concep&ccedil;&atilde;o construcionista, n&atilde;o &eacute; um  espelho da vida, mas antes a constru&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria vida (Gergen, 2001),  tendo um car&aacute;cter de <I>performance</I>, a linguagem utilizada nos discursos que operam  a constru&ccedil;&atilde;o social do g&eacute;nero deve ser foco de an&aacute;lise, procurando-se  analisar o modo como este discurso do g&eacute;nero foi sendo cons-tru&iacute;do e como contribui  para a manuten&ccedil;&atilde;o de uma determinada ordem social (Nogueira, 2001). </P>     <p>O objecto de an&aacute;lise deve deslocar-se das diferen&ccedil;as entre os homens e as  mulheres para a an&aacute;lise do pensamento social sobre a diferencia&ccedil;&atilde;o entre  o masculino e o feminino. A conceptualiza&ccedil;&atilde;o do sexo enquanto categoria social  n&atilde;o significa, pois, simplesmente passar de uma explica&ccedil;&atilde;o em termos de  diferen&ccedil;a biol&oacute;gica para um explica&ccedil;&atilde;o em termos de diferen&ccedil;a  psicol&oacute;gica (Am&acirc;ncio, 1998) &ndash; o pr&oacute;prio conceito de g&eacute;nero e  as no&ccedil;&otilde;es associadas ao feminino e ao masculino devem ser alvo de uma an&aacute;lise cr&iacute;tica. </P>      <p><I>Da constru&ccedil;&atilde;o social do g&eacute;nero ao enquadramento cultural </I></P>      <p>Na sequ&ecirc;ncia das cr&iacute;ticas expostas, entendemos que h&aacute; a necessidade de  adoptar uma perspectiva verdadeiramente cultural na an&aacute;lise do g&eacute;nero. Giddens (1997),  na caracteriza&ccedil;&atilde;o da abordagem s&oacute;cio-cultural ao g&eacute;nero, enfatiza as suas  ra&iacute;zes institucionais e estruturais, referindo que o g&eacute;nero &eacute; criado na estrutura  e pr&aacute;ticas das principais institui&ccedil;&otilde;es sociais (educativas, econ&oacute;micas,  pol&iacute;ticas, religiosas), al&eacute;m de nas rela&ccedil;&otilde;es familiares e interpessoais.  Na mesma linha, Mota-Ribeiro (2005) engloba na abordagem s&oacute;cio-cultural as teorias que procuraram  explicar a &ldquo;forma&ccedil;&atilde;o do g&eacute;nero e a constru&ccedil;&atilde;o social da identidade  sexual&rdquo; (p.19). No &acirc;mbito da psicologia, destaca a teoria da identifica&ccedil;&atilde;o e a  teoria da aprendizagem social, e na sociologia destaca as perspectivas que se centram na  socializa&ccedil;&atilde;o e na constru&ccedil;&atilde;o social das identidades (como Durkheim e Parsons),  dando especial relevo &agrave;s perspectivas interaccionistas, que abordam a socializa&ccedil;&atilde;o  como constru&ccedil;&atilde;o social da realidade baseada na interac&ccedil;&atilde;o e na troca de  significados simb&oacute;licos. </P>     <p>Do nosso ponto de vista, estas abordagens s&oacute;cio-culturais, embora fa&ccedil;am  refer&ecirc;ncia &agrave; quest&atilde;o cultural, acabam por se centrar mais na dimens&atilde;o  social e psicol&oacute;gica, nomeadamente na an&aacute;lise dos processos sociais que constrangem  as identidades e comportamentos dos indiv&iacute;duos (homens e mulheres). </P>     <p>Al&eacute;m disto, verificamos a tend&ecirc;ncia para estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o causal, mesmo dentro das abordagens que seguem a linha construcionista social. Por um lado,  as abordagens &ldquo;s&oacute;cio-culturais&rdquo; acima referidas enfatizam a  influ&ecirc;ncia dos processos e estruturas sociais na constru&ccedil;&atilde;o do  g&eacute;nero e, por outro, a abordagem construcionista social do g&eacute;nero (Nogueira,  2001) acaba por estabelecer de algum modo a rela&ccedil;&atilde;o inversa &ndash; por exemplo,  Crawford (1995) refere que os processos relacionados com o g&eacute;nero influenciam o  comportamento, os pensamentos e os sentimentos dos sujeitos, afectam as interac&ccedil;&otilde;es  sociais e determinam a estrutura das institui&ccedil;&otilde;es sociais. O que pretendemos  salientar &eacute; a necessidade de enfatizar n&atilde;o a influ&ecirc;ncia dos processos  sociais no g&eacute;nero ou vice-versa, mas a sua co-constru&ccedil;&atilde;o numa  rela&ccedil;&atilde;o interactiva. Trata-se de um processo de influ&ecirc;ncia m&uacute;tua:  o g&eacute;nero &eacute; constru&iacute;do nas interac&ccedil;&otilde;es sociais (Burr, 1995)  que n&atilde;o ocorrem num vazio contextual (encontram-se estruturadas e organizadas numa  determinada ordem ou sentido social) (Nogueira, 2001) e, por outro, os discursos acerca do  g&eacute;nero implicam determinados padr&otilde;es de ac&ccedil;&atilde;o e contribuem para a  sustenta&ccedil;&atilde;o da estrutura e organiza&ccedil;&atilde;o sociais. </P>     <p>H&aacute; que salientar que, quando falamos da necessidade de compreender o g&eacute;nero  dentro de uma perspectiva cultural, inclu&iacute;mos aqui n&atilde;o s&oacute; as normas e valores  culturais associados a cada um dos sexos no contexto cultural alargado, mas tamb&eacute;m a sua  intersec&ccedil;&atilde;o com a classe social, a etnia e mesmo a idade. Alguns autores referem que  a feminilidade &eacute; heterog&eacute;nea, que &eacute; vivida de maneiras diferentes nos  diferentes grupos de mulheres (Mota-Ribeiro, 2005; Nogueira, 2001) e que se deveria antes falar  de &ldquo;feminilidades&rdquo; (Betterton, 1987). Na nossa perspectiva, n&atilde;o se trata apenas  de uma heterogeneidade, parcialmente determinada pela classe ou pela etnia (o que remeteria para  uma an&aacute;lise grupal e n&atilde;o cultural), mas tamb&eacute;m da multiplicidade e diversidade  de discursos culturais que coexistem na actualidade, muitas vezes amb&iacute;guos e contradit&oacute;rios  relativamente &agrave; mulher. &Agrave; no&ccedil;&atilde;o de heterogeneidade subjaz, no nosso  entender, uma concep&ccedil;&atilde;o limitada e reificada da cultura &ndash; sustentada por  construtos como grupos sociais, classe social, etnias &ndash; e a confus&atilde;o entre especificidade  cultural e diferen&ccedil;as grupais. N&atilde;o pretendemos, com este argumento, negar a  import&acirc;ncia das quest&otilde;es estruturais ou estabelecer uma cis&atilde;o entre a estrutura  social e a cultura. Na nossa perspectiva, est&atilde;o inerentemente interrelacionadas, n&atilde;o  podendo separar-se a dimens&atilde;o cultural da estrutura social e vice-versa. No entanto, n&atilde;o  sendo universos separados, a perspectiva cultural do g&eacute;nero n&atilde;o se limita e n&atilde;o  deve ser confundida com a mera an&aacute;lise da estrutura social subjacente. </P>     <p>O g&eacute;nero, o ser homem ou mulher, &eacute; um processo de constru&ccedil;&atilde;o  n&atilde;o s&oacute; social mas predo-minantemente cultural. As normas e valores culturais variam  de cultura para cultura, dependem do seu contexto s&oacute;cio-cultural e hist&oacute;rico e,  mesmo dentro da mesma cultura e sociedade, encontramos diversidade entre diferentes grupos (Levesque, 2001).  Assim, partindo da no&ccedil;&atilde;o de que o g&eacute;nero &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o  s&oacute;cio-cultural, os significados associados ao feminino e ao masculino, ao que &eacute; ser  homem e mulher, tamb&eacute;m diferem consoante o contexto cultural, conforme v&aacute;rios  estudos interculturais e antropol&oacute;gicos confirmam (e.g., Dawla, 2000; Horne, 1999; Kozu, 1999). </P>     <p>N&atilde;o obstante tais varia&ccedil;&otilde;es, &eacute; importante destacar que o  g&eacute;nero &eacute; uma categoria central que organiza as rela&ccedil;&otilde;es em todas  as culturas e sociedade, apesar das diferen&ccedil;as ou varia&ccedil;&otilde;es culturais  espec&iacute;ficas (Andersen, 1997). O g&eacute;nero surge como a categoria que mais fortemente  determina e influencia o comportamento e o modo de vida dos indiv&iacute;duos e as interac&ccedil;&otilde;es  que estabelecem, sendo os padr&otilde;es comportamentais e pap&eacute;is atribu&iacute;dos ao  homem e &agrave; mulher vistos quase como naturais, sendo apreendidos e interiorizados no processo  de socializa&ccedil;&atilde;o (Andersen, 1997; Mota-Ribeiro, 2005) e refor&ccedil;ados no decurso  das interac&ccedil;&otilde;es e discursos sociais (Nogueira, 2001). </P>     <p>Em segundo lugar, apesar de todos os estudos indicarem que as normas de conduta e as expectativas  s&atilde;o diferentes para o homem e para a mulher, h&aacute; uma diversidade de normas e pr&aacute;ticas  associadas a cada um dos g&eacute;neros, que diferem de cultura para cultura. Por exemplo,  nas sociedades &aacute;rabes e africanas a virgindade &eacute; um valor sagrado, significando a  integridade da mulher e a honra para o homem. Nestas sociedades, o ter v&aacute;rios relacionamentos  &eacute; sinal de masculinidade para o homem, enquanto tal hip&oacute;tese nem se coloca &agrave; mulher.  Nas sociedades ocidentais, ainda que a virgindade feminina possa ser valorizada, a sua  significa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o toma tais propor&ccedil;&otilde;es. Sabe-se tamb&eacute;m  que em algumas culturas &eacute; esperada a obedi&ecirc;ncia total da mulher e a sua  restri&ccedil;&atilde;o ao espa&ccedil;o dom&eacute;stico (e.g., &Aacute;frica do Sul),  enquanto noutras come&ccedil;am a operar-se mudan&ccedil;as devido &agrave;s dificuldades  econ&oacute;micas, sendo esperado que a mulher tamb&eacute;m contribua para o sustento da  casa (e.g., R&uacute;ssia, Ghana). Mesmo dentro de uma mesma cultura, &eacute; poss&iacute;vel  identificar diferentes constru&ccedil;&otilde;es de g&eacute;nero. Um estudo desenvolvido por  Williams (1996 cit. in Williams, 2002) em duas comunidades (<I>Greenville e Rolling Rock</I>),  nos Estados Unidos, com raparigas adolescentes identificou claramente diferen&ccedil;as no  processo de constru&ccedil;&atilde;o do g&eacute;nero feminino relacionadas com as  caracter&iacute;sticas s&oacute;cio-culturais espec&iacute;ficas daquelas comunidades. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No entanto, apesar da diversidade de normas e pr&aacute;ticas associadas a cada um dos  g&eacute;neros, verifica-se uma assimetria de g&eacute;nero sistem&aacute;tica no sentido  da superioridade e domin&acirc;ncia do masculino face ao feminino (De Welde, 2003; Stockard  &amp; Johnson, 1992). Esta assimetria de g&eacute;nero est&aacute; presente na pr&oacute;pria  diferencia&ccedil;&atilde;o do corpo feminino, sendo percepcionado como viol&aacute;vel e  fraco (Cahill, 2000, cit. in De Welde, 2003), socialmente e sexualmente vulner&aacute;vel.  Segundo De Welde (2003), a ideologia de g&eacute;nero dominante aprisiona a mulher em ciclos  de vitima&ccedil;&atilde;o e na auto-percep&ccedil;&atilde;o de fraqueza, havendo uma perspectiva  essencialista que reifica a mulher como subordinada e mais fraca. As instru&ccedil;&otilde;es  de feminilidade perpetuam o dualismo homem/masculino e mulher/feminino, em que o masculino  &eacute; visto como sendo mais f&iacute;sico e mais forte comparativamente ao feminino (idem). </P>      <p>&nbsp;</p>      <p align="center">G&Eacute;NERO E VIOL&Ecirc;NCIA CONJUGAL &ndash; QUE RELA&Ccedil;&Atilde;O?  </P>      <p><I>A controv&eacute;rsia acerca da simetria versus assimetria de g&eacute;nero na  viol&ecirc;ncia conjugal </I></P>      <p>A revis&atilde;o de v&aacute;rios estudos interculturais e antropol&oacute;gicos  aponta que a viol&ecirc;ncia conjugal &eacute; indissoci&aacute;vel da quest&atilde;o  do g&eacute;nero (Machado &amp; Dias, no prelo). A liga&ccedil;&atilde;o entre o  g&eacute;nero e a viol&ecirc;ncia conjugal tem gerado, contudo, bastante discuss&atilde;o  e controv&eacute;rsia (Currie, 1998; Miller &amp; White, 2003) havendo autores que defendem  a neutralidade/simetria de g&eacute;nero (e.g., Moffitt, Krueger, Caspi, &amp; Fagan, 2000;  Moffitt, Robins, &amp; Caspi, 2001; Stets &amp; Straus, 1990; Straus, Gelles, &amp; Steinmetz, 1980)  e outros que afirmam que o g&eacute;nero e o poder constituem o processo chave da  viol&ecirc;ncia conjugal, n&atilde;o sendo apenas um mero componente desta (Dobash &amp;  Dobash, 1998; Johnson, 1995; Kurz, 1993; Straus, 1993; Yllo, 1993). </P>     <p>Os que defendem a simetria de g&eacute;nero baseiam-se essencialmente em duas linhas  de investiga&ccedil;&atilde;o: (i) os estudos que encontram taxas similares de perpetra&ccedil;&atilde;o  da viol&ecirc;ncia entre os sexos (Stets &amp; Straus, 1990; Straus, Gelles, &amp; Steinmetz, 1980)  e, mais recentemente, os que descrevem que os homens e as mulheres que fazem uso de viol&ecirc;ncia  t&ecirc;m um perfil psicol&oacute;gico id&ecirc;ntico (Moffitt <I>et al.</I>, 2000, 2001). </P>     <p>Esta abordagem iniciou-se em 1977/78 com o estudo &ldquo;<I>The battered husband sindrome&rdquo; </I> (Steinmetz, 1977/78, cit. in Anderson, 2005), cujos resultados revelavam a exist&ecirc;ncia de uma  simetria de g&eacute;nero na viol&ecirc;ncia. Posteriormente, seguiram-se estudos que corroboram  esta simetria, ou seja, que indicam que n&atilde;o h&aacute; dife-ren&ccedil;as entre o homem e a  mulher no recurso &agrave; viol&ecirc;ncia (Stets &amp; Straus, 1990; Straus, Gelles, &amp; Steinmetz,  1980). Straus, Gelles, e Steinmetz (1980) referem alguns inqu&eacute;ritos que confirmam a  viol&ecirc;ncia da mulher contra o homem e Stets e Straus (1990) indicam tamb&eacute;m que n&atilde;o  h&aacute; diferen&ccedil;as de g&eacute;nero na iniciativa da viol&ecirc;ncia. Estes autores  defendem que os estudos que apontam para diferen&ccedil;as de g&eacute;nero no uso da viol&ecirc;ncia  t&ecirc;m s&eacute;rios problemas em termos de amostragem, sendo maioritariamente conduzidos com  amostras cl&iacute;nicas e n&atilde;o representativas (Stets &amp; Straus, 1990). Assim, assumindo  a simetria de g&eacute;nero na viol&ecirc;ncia, sugerem quatro raz&otilde;es pelas quais a mulher  pode ser t&atilde;o violenta como o homem: (i) As mulheres batidas podem incorporar a viol&ecirc;ncia  no seu repert&oacute;rio comportamental; (ii) Pode existir viol&ecirc;ncia rec&iacute;proca no casal;  (iii) O uso da viol&ecirc;ncia numa determinada esfera, como a educa&ccedil;&atilde;o dos filhos,  pode generalizar-se ao parceiro; (iv) Existem normas impl&iacute;citas de que a mulher pode usar  de viol&ecirc;ncia menor, como dar uma bofetada, em determinadas ocasi&otilde;es (Stets &amp; Straus,  1990). </P>     <p>Estes resultados foram usados para desafiar as teorias feministas, que defendem que a  viol&ecirc;ncia conjugal &eacute; um problema de g&eacute;nero e de poder (Anderson, 2005).  No entanto, estes estudos tamb&eacute;m t&ecirc;m sido alvo de cr&iacute;ticas, nomeadamente  ao n&iacute;vel metodol&oacute;gico, dado que a grande maioria se baseia no <I>Conflict Tactics Scale </I> como instrumento de recolha de dados (Currie, 1998). A discuss&atilde;o tem-se centrado na validade  desta escala, tendo-lhe sido apontadas v&aacute;rias limita-&ccedil;&otilde;es, nomeadamente que,  ao basear-se num <I>ranking </I>ordenado de tipos de abuso, negligencia o contexto, a  interpreta&ccedil;&atilde;o e o impacto dos actos abusivos. Assim, a principal cr&iacute;tica reside  no facto de o <I>CTS </I>se basear numa abordagem empiricista que se limita a contabilizar a  frequ&ecirc;ncia do abuso, mas que nada nos refere acerca da etiologia ou natureza da viol&ecirc;ncia  conjugal (Currie, 1998; Anderson, 2005; Miller &amp; White, 2003). </P>     <p>Mais recentemente, t&ecirc;m sido desenvolvidos estudos acerca dos perfis das mulheres e  dos homens agressores que procuram sustentar a simetria de g&eacute;nero (Moffitt <I>et al.</I>,  2000, 2001). No entanto, tamb&eacute;m estes t&ecirc;m sido alvo de cr&iacute;ticas, nomeadamente  pelo facto de focarem caracter&iacute;sticas psicol&oacute;gicas individuais e avaliarem o  g&eacute;nero como um atributo natural, n&atilde;o considerando a sua constru&ccedil;&atilde;o  social e os significados que lhe est&atilde;o associados (Miller &amp; White, 2003). </P>     <p>Por outro lado, v&aacute;rios autores (Anderson, 2005; Currie, 1998; Miller &amp; White, 2003)  enfatizam a necessidade de considerar o g&eacute;nero para se compreender o fen&oacute;meno da  viol&ecirc;ncia conjugal. Miller e White (2003) referem que &eacute; no modo pelo qual o g&eacute;nero  estrutura as rela&ccedil;&otilde;es &ndash; colocando maioritariamente a mulher numa situa&ccedil;&atilde;o  de desvantagem face ao homem &ndash; que encontramos a natureza <I>genderizada </I>da viol&ecirc;ncia  conjugal. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Segundo os mesmos autores, ainda que alguns estudos possam indicar taxas similares de viol&ecirc;ncia  ou encontrem perfis psicol&oacute;gicos id&ecirc;nticos entre os sexos, n&atilde;o se pode concluir  pela neutralidade de g&eacute;nero na viol&ecirc;ncia conjugal. </P>     <p>Yllo (1993) refere tamb&eacute;m que a viol&ecirc;ncia conjugal n&atilde;o pode ser  entendida sem se considerar o g&eacute;nero e o poder e, face &agrave; controv&eacute;rsia  entre a &ecirc;nfase na viol&ecirc;ncia como masculina ou a neutralidade de g&eacute;nero, afirma  que a maioria das abordagens tem obscurecido a import&acirc;ncia do g&eacute;nero. Embora exista  hoje a tend&ecirc;ncia para abandonar a leitura da viol&ecirc;ncia como algo individual ou  psicopatol&oacute;gico (teorias intra-individuais), afirma que tamb&eacute;m as outras abordagens te&oacute;ricas da viol&ecirc;ncia mais conhecidas, como a teoria dos sistemas, a teoria dos recursos,  a teoria da troca e a teoria da sub-cultura da viol&ecirc;ncia, ignoram o g&eacute;nero (idem).  Por exemplo, apesar de a teoria dos recursos chamar a aten&ccedil;&atilde;o para o facto de o poder  se basear nos recursos e de a viol&ecirc;ncia poder ser vista como um recurso para assegurar  determinado estatuto, esta teoria ignora os limites estruturais de acesso da mulher a alguns  recursos-chave e a ideologia cultural de domin&acirc;ncia do marido (Currie, 1998). </P>     <p>De facto, embora Gelles e Straus (1988) reconhe&ccedil;am que o poder e o controlo s&atilde;o  negociados na interac&ccedil;&atilde;o ente o homem e a mulher at&eacute; se poder chegar ao uso  da viol&ecirc;ncia, estes elementos acabam por desaparecer na interpreta&ccedil;&atilde;o dos  resultados do <I>CTS</I>. Yllo (1993), pelo contr&aacute;rio, refere que &eacute; a coer&ccedil;&atilde;o  e n&atilde;o o conflito de interesses, que est&aacute; na base da viol&ecirc;ncia. Esta autora  conclui que um modelo de controlo coercivo acerca da viol&ecirc;ncia conjugal &eacute; uma melhor  alternativa ao modelo do conflito de interesses. Identifica a viol&ecirc;ncia como uma estrat&eacute;gia  de controlo e de poder que &eacute; <I>genderizada</I>, em vez de ser algo individual ou inerente  &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es &iacute;ntimas. Assim, a autora desafia os investigadores a  aplicarem esta abordagem para compreenderem o uso da viol&ecirc;ncia por parte da mulher. </P>     <p>Face a esta controv&eacute;rsia, Anderson (2005) refere que o debate se tem centrado exclusivamente  na defini&ccedil;&atilde;o e avalia&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia conjugal, negligenciando  um aspecto central &ndash; a conceptualiza&ccedil;&atilde;o e avalia&ccedil;&atilde;o do g&eacute;nero.  Refere ainda que a quest&atilde;o central no debate acerca da simetria de g&eacute;nero na viol&ecirc;ncia  &eacute; te&oacute;rica e n&atilde;o metodol&oacute;gica. Dada a controv&eacute;rsia na defini&ccedil;&atilde;o  e avalia&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia, os investigadores t&ecirc;m esquecido que a mesma  controv&eacute;rsia se pode aplicar na conceptualiza&ccedil;&atilde;o e avalia&ccedil;&atilde;o do g&eacute;nero.  Assim, veremos seguidamente como a rela&ccedil;&atilde;o entre o g&eacute;nero e a viol&ecirc;ncia conjugal  tem sido abordada do ponto de vista te&oacute;rico. </P>      <p><I>Abordagens te&oacute;ricas do g&eacute;nero no &acirc;mbito da viol&ecirc;ncia conjugal </I></P>      <p>Segundo Risman (1998), no estudo do g&eacute;nero e da viol&ecirc;ncia podem identificar-se  tr&ecirc;s abordagens te&oacute;ricas diferentes &ndash; a individualista, a estruturalista e a interaccionista. </P>      <p><U>Abordagem individualista </U></P>      <p>A abordagem individualista defende que os indiv&iacute;duos s&atilde;o seres  <I>&ldquo;gendered&rdquo; </I>(Risman, 1998), ou seja, que a masculinidade e a feminilidade  s&atilde;o tra&ccedil;os que os homens e as mulheres incorporam na sua identidade, quer  atrav&eacute;s de uma determinada predisposi&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica para esses  tra&ccedil;os quer atrav&eacute;s dos processos de socializa&ccedil;&atilde;o. Os te&oacute;ricos  individualistas referem que a propens&atilde;o para a agress&atilde;o e a viol&ecirc;ncia  &eacute; uma caracter&iacute;stica masculina (seja inata ou aprendida) (Anderson, 2005). </P>     <p>Se o g&eacute;nero for definido como uma propriedade dos indiv&iacute;duos, a maioria das  evid&ecirc;ncias emp&iacute;ricas sugerem, como vimos atr&aacute;s, que n&atilde;o h&aacute;  rela&ccedil;&atilde;o entre o g&eacute;nero e a viol&ecirc;ncia conjugal &ndash; relembramos  que os estudos que conceptualizam o g&eacute;nero como autorelato de masculinidade ou de  feminilidade falham muitas vezes em encontrar rela&ccedil;&atilde;o entre o g&eacute;nero e  a perpetra&ccedil;&atilde;o e a vitima&ccedil;&atilde;o (Archer, 2000). Por outro lado, se o g&eacute;nero  for definido como a identidade masculina, feminina ou andr&oacute;gina &ndash;  como se verifica nas escalas de g&eacute;nero &ndash; a rela&ccedil;&atilde;o entre o g&eacute;nero  e a perpetra&ccedil;&atilde;o de maus-tratos contradiz a hip&oacute;tese individualista de  que as pessoas masculinas s&atilde;o mais violentas (Anderson, 2005). Alguns estudos (e.g.,  Bernard, Bernard, &amp; Bernard, 1985; Burke, Stets, &amp; Pirog-Good, 1988; Sugerman &amp; Frankel,  1996) indicam n&atilde;o encontrar qualquer rela&ccedil;&atilde;o entre a masculinidade do homem  e a viol&ecirc;ncia e n&atilde;o verificam que as mulheres e os homens mais femininos apresentem  maiores &iacute;ndices de vitima&ccedil;&atilde;o. </P>     <p>Assim, a investiga&ccedil;&atilde;o no &acirc;mbito da viol&ecirc;ncia conjugal que se  tem desenvolvido sob uma abordagem individualista do g&eacute;nero indica que este n&atilde;o  constitui um preditor importante da viol&ecirc;ncia conjugal (Anderson, 2005), sendo os seus  resultados utilizados por alguns autores (e.g., Dutton, 1994; Felson, 2002; Straus, 1999) para  sugerir que a viol&ecirc;ncia conjugal n&atilde;o &eacute; um fen&oacute;meno de g&eacute;nero.  No entanto, t&ecirc;m sido apontadas s&eacute;rias limita&ccedil;&otilde;es &agrave; abordagem  individualista (Anderson, 2005; Archer, 2000; Risman, 1998), entre as quais destacamos: </P>      ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&ndash;	Esta abordagem reduz o g&eacute;nero ao comportamento individual do homem e  da mulher; assume que se o homem e a mulher s&atilde;o igualmente violentos dentro da  rela&ccedil;&atilde;o conjugal, a viol&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; um fen&oacute;meno de  g&eacute;nero (Anderson, 2005), quando &eacute; f&aacute;cil compreender que actos an&aacute;logos  podem comportar motivos, inten&ccedil;&otilde;es e significa&ccedil;&otilde;es e consequ&ecirc;ncias distintas; </P>      <P>&ndash;	Quando os estudos encontram diferen&ccedil;as estatisticamente significativas,  n&atilde;o explicam porque &eacute; que as diferen&ccedil;as entre os sexos existem. Por exemplo,  o facto de os homens revelarem n&iacute;veis mais elevados de viol&ecirc;ncia do que a mulher  tem sido interpretado de formas contradit&oacute;rias (Archer, 2000); </P>      <P>&ndash;	Esta abordagem n&atilde;o consegue explicar as diferen&ccedil;as dentro  do grupo das mulheres e dos homens, ou seja, n&atilde;o explica porque &eacute; que s&oacute;  alguns homens e algumas mulheres s&atilde;o agressores conjugais, visto estes homens e estas  mulheres serem biologicamente similares e sujeitos aos mesmos processos de socializa&ccedil;&atilde;o  do que os outros elementos do seu g&eacute;nero (Archer, 2000); </P>      <p>&ndash;	Os investigadores que conceptualizam o g&eacute;nero sob a perspectiva  individualista e usam estudos com casais homossexuais (que apontam para taxas de viol&ecirc;ncia  similares &agrave;s dos casais heterossexuais) para sustentar a ideia de que o g&eacute;nero  n&atilde;o est&aacute; relacionado com a viol&ecirc;ncia conjugal (Felson, 2002), ignoram  a quest&atilde;o de como o g&eacute;nero interage com o sexismo dentro da sociedade e pode  influenciar as din&acirc;micas de viol&ecirc;ncia quer nas rela&ccedil;&otilde;es homossexuais  quer nas heterossexuais (Anderson, 2005). Segundo Anderson (2005), os casais homossexuais  t&ecirc;m de negociar com um mundo em que a sua masculinidade ou feminilidade &eacute; colocada  em quest&atilde;o, pelo que estas abordagens ignoram a interliga&ccedil;&atilde;o do g&eacute;nero  com as restantes interac&ccedil;&otilde;es sociais. </P>      <p><U>Perspectiva estruturalista </U></P>      <p>A abordagem estruturalista enfatiza que o g&eacute;nero &eacute; uma estrutura social  que organiza as institui&ccedil;&otilde;es sociais, assim como as identidades, atitudes e  interac&ccedil;&otilde;es. Os estruturalistas defen-dem que o g&eacute;nero &eacute; um sistema  de estratifica&ccedil;&atilde;o que coloca a mulher e o homem em categorias, pap&eacute;is e  ocupa&ccedil;&otilde;es desiguais (Risman, 1998). Segundo esta perspectiva, o g&eacute;nero  existe como uma for&ccedil;a social que opera independentemente dos desejos dos indiv&iacute;duos  &ndash; o homem e a mulher s&atilde;o constrangidos pelos significados associados ao seu  g&eacute;nero, mesmo quando n&atilde;o desejam seguir orienta&ccedil;&otilde;es de vida  baseadas no g&eacute;nero (idem). </P>     <p>Segundo Messerschmidt (1996, cit. in Brown, 1998) os rapazes e as raparigas tendem a espelhar  e recriar, no seio do grupo, as rela&ccedil;&otilde;es de trabalho e poder existentes na sociedade.  Um estudo etnogr&aacute;fico de Campbell (1984, cit. in Brown, 1998) com grupos de jovens nova-iorquinos,  pertencentes a minorias &eacute;tnicas e com menos recursos econ&oacute;micos, revelou que as  divis&otilde;es de poder e de trabalho que existem na sociedade s&atilde;o reproduzidas no seio  destes grupos: o grupo &eacute; um contexto de domin&acirc;ncia masculina, reflectindo as estruturas  e pr&aacute;ticas existentes na sociedade, em que os rapazes assumem as posi&ccedil;&otilde;es  centrais, enquanto que as raparigas s&atilde;o tidas como fonte de apoio, suporte e cuidado daqueles. </P>     <p>De acordo com Anderson (2005), a perspectiva estruturalista sobre a viol&ecirc;ncia defende  as seguintes assun&ccedil;&otilde;es: </P>     <p>&ndash;	Os homens recebem mais instru&ccedil;&otilde;es para o uso da viol&ecirc;ncia do  que a mulher. O acesso &agrave; viol&ecirc;ncia &eacute; distribu&iacute;do de maneira desigual,  sendo dadas maiores oportunidades ao homem para aprender a viol&ecirc;ncia do que a mulher  (De Welde, 2003; Fagot, Hagan, Leinbach, &amp; Kronsberg, 1985). As raparigas s&atilde;o  desencorajadas de usar a viol&ecirc;ncia ao longo do seu processo de socializa&ccedil;&atilde;o,  enquanto os homens s&atilde;o mais incentivados &agrave; mesma, por exemplo atrav&eacute;s dos  desportos e actividades que requerem o uso da for&ccedil;a f&iacute;sica (Fagot <I>et al.</I>,  1985; Messner, 1998). Existe uma organiza&ccedil;&atilde;o de g&eacute;nero no treino e uso da  viol&ecirc;ncia, o que tem implica&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&oacute; no uso da viol&ecirc;ncia  mas tamb&eacute;m no seu sucesso (Anderson, 2005; De Welde, 2003). &ndash;	As consequ&ecirc;ncias  da viol&ecirc;ncia conjugal diferem para o homem e para a mulher, devido ao sistema alargado da  desigualdade de g&eacute;nero que coloca a mulher em situa&ccedil;&otilde;es de desvantagem e  maior vulnerabilidade (ao n&iacute;vel dos danos f&iacute;sicos, psicol&oacute;gicos,  econ&oacute;micos e sociais) (Anderson, 2005). &ndash;	As taxas de viol&ecirc;ncia diferem  consoante o contexto estrutural, o que &eacute; vis&iacute;vel nas diferen&ccedil;as entre as  taxas de viol&ecirc;ncia no namoro e no casamento &ndash; no namoro a mulher tem menos probabilidade  de ser dependente do homem, tem um sistema de suporte mais aut&oacute;nomo e pode abandonar a  rela&ccedil;&atilde;o mais facilmente do que no contexto do casamento (Archer, 2000; Anderson, 2005).</p>     <p>Em suma, a perspectiva estruturalista prop&otilde;e que os homens e as mulheres experimentam  a viol&ecirc;ncia de maneira diferente porque est&atilde;o situados dentro de uma sociedade organizada  pela desigualdade de g&eacute;nero. Defende que, mesmo que as taxas de perpetra&ccedil;&atilde;o e  vitima&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia possam n&atilde;o variar consoante o g&eacute;nero,  as consequ&ecirc;ncias de vitima&ccedil;&atilde;o s&atilde;o diferentes para o homem e para a mulher  porque estes grupos enfrentam oportunidades e constrangimentos estruturais diferentes (Anderson, 2005). </P>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><U>Abordagem interaccionista </U></P>      <p>A abordagem interaccionista surge nos anos 80, em parte como cr&iacute;tica &agrave;s abordagens  individualistas (Anderson, 2005). Nesta perspectiva, o g&eacute;nero &eacute; visto como  uma caracter&iacute;stica da interac&ccedil;&atilde;o social e n&atilde;o com uma caracter&iacute;stica  de pessoas individuais. Nesta perspectiva, os indiv&iacute;duos &ldquo;fazem o g&eacute;nero&rdquo;  nas suas interac&ccedil;&otilde;es di&aacute;rias com os outros e t&ecirc;m <I>performances </I> de &ldquo;masculinidade&rdquo; ou de &ldquo;feminilidade&rdquo; face &agrave;s expectativas sociais  (Anderson, 2005; Brown, 1998; West &amp; Zimmerman, 1987). Assim, o g&eacute;nero &eacute;  considerado como uma consequ&ecirc;ncia das pr&aacute;ticas sociais e n&atilde;o como uma  caracter&iacute;stica individual que prediz o comportamento. A abordagem interaccionista deixa a  quest&atilde;o de como a masculinidade causa a viol&ecirc;ncia para se perguntar como &eacute;  que a viol&ecirc;ncia &ldquo;produz&rdquo; a masculinidade. </P>      <p>Destacamos duas ideias chave nesta abordagem: </P>     <p>&ndash;	A viol&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; um comportamento <I>&ldquo;gender-neutral&rdquo; </I> e o g&eacute;nero pode ser constru&iacute;do atrav&eacute;s da pr&aacute;tica da viol&ecirc;ncia.  A pr&aacute;tica da viol&ecirc;ncia &eacute; percepcionada como um comportamento masculino, dado  que a agress&atilde;o &eacute; uma componente da imagem cultural de masculinidade e, assim, a  viol&ecirc;ncia pode ser usada para mostrar aos outros que se &eacute; &ldquo;um verdadeiro  homem&rdquo; (Brown, 1998). A investiga&ccedil;&atilde;o tem mostrado que os homens fazem uso  da viol&ecirc;ncia contra as parceiras quando sentem que a sua posi&ccedil;&atilde;o ou autoridade  &eacute; desafiada (Babcock, Waltz, Jacobson, &amp; Gottman, 1993; Dobash &amp; Dobash, 1998; Totten, 2003),  pelo que a viol&ecirc;ncia pode ser um meio pelo qual os homens demonstram e alcan&ccedil;am a sua  masculinidade (Anderson &amp; Umberson, 2001; Babcock <I>et al.</I>, 1993). Brown (1998) refere que  o controlo e explora&ccedil;&atilde;o da sexualidade feminina por parte dos rapazes &eacute; uma  forma de constru&ccedil;&atilde;o da heterossexualidade normativa no seio dos grupos juvenis,  tendo subjacente uma representa&ccedil;&atilde;o da masculinidade caracterizada por um apetite  sexual ilimitado, o que ajuda a reproduzir a subordina&ccedil;&atilde;o das raparigas e constitui  um recurso para o exerc&iacute;cio do poder masculino. </P>      <p>&ndash;	A viol&ecirc;ncia do homem &eacute; avaliada e interpretada de maneira diferente da  viol&ecirc;ncia da mulher (Anderson, 2005; Anderson &amp; Umberson, 2001). O g&eacute;nero &eacute;  um compromisso ou acordo social que se baseia nas defini&ccedil;&otilde;es e interpreta&ccedil;&otilde;es  dos outros (West &amp; Zimmerman, 1987). Os te&oacute;ricos interac-cionistas defendem que as  audi&ecirc;ncias esperam diferentes <I>performances </I>dos homens e das mulheres e que o mesmo  comportamento ser&aacute; diferentemente avaliado dependendo do g&eacute;nero de quem o pratique e  do contexto interactivo (idem). Porque a viol&ecirc;ncia na cultura popular &eacute; definida  como &ldquo;masculina&rdquo;, as audi&ecirc;ncias esperam, legitimam e refor&ccedil;am a viol&ecirc;ncia  como sendo um comportamento normal do homem (Messerschmidt, 1997). </P>     <p>No sentido destes postulados te&oacute;ricos, v&aacute;rios autores (e.g., Fine, Weis, Addelston,  &amp; Marusza, 1997; Tomsen, 1997; Totten, 2003) destacam a rela&ccedil;&atilde;o entre a masculinidade  e a viol&ecirc;ncia. Por exemplo, Fine e colaboradores (1997) procuraram analisar porque &eacute;  que as taxas de viol&ecirc;ncia s&atilde;o mais elevadas entre as pessoas que vivem uma  situa&ccedil;&atilde;o de pobreza e verificaram que, nos Estados Unidos, o sucesso financeiro &eacute;  uma das caracter&iacute;sticas idealizadas da masculinidade mas que nem todos os homens o conseguem,  pelo que os que est&atilde;o no desemprego ou ganham menos podem sentir que a sua masculinidade  est&aacute; amea&ccedil;ada porque n&atilde;o s&atilde;o o &ldquo;sustento&rdquo; da fam&iacute;lia.  Assim, n&atilde;o tendo sucesso financeiro que lhes permita exercer controlo sobre o c&ocirc;njuge  atrav&eacute;s dos recursos econ&oacute;micos, pode surgir a necessidade de faz&ecirc;-lo  atrav&eacute;s da viol&ecirc;ncia. Totten (2003) indica tamb&eacute;m que, nos jovens rapazes marginalizados  e com menos recursos econ&oacute;micos, uma forma de exercerem e afirmarem a sua masculinidade &eacute;  atrav&eacute;s da viol&ecirc;ncia ou abuso contra as namoradas. Analogamente, Jefferson (1997) refere  que a viol&ecirc;ncia surge como um &ldquo;recurso simb&oacute;lico para a constru&ccedil;&atilde;o  de g&eacute;nero&rdquo; entre os sujeitos que n&atilde;o t&ecirc;m acesso a outras formas de  constru&ccedil;&atilde;o da masculinidade, isto &eacute;, que possuem menos recursos econ&oacute;micos  ou educacionais ou que se encontram numa posi&ccedil;&atilde;o subordinada na hierarquia social. </P>     <p>Assim, a perspectiva interaccionista do g&eacute;nero prop&otilde;e que a viol&ecirc;ncia pode  ser um m&eacute;todo compensat&oacute;rio de exercer controlo e de constru&ccedil;&atilde;o da masculinidade  entre os homens que sentem que a sua autoridade e masculinidade est&aacute; posta em causa. </P>     <p>Dependendo do modo como conceptualizamos o g&eacute;nero, a resposta &agrave;s quest&otilde;es  de &ldquo;se&rdquo;, &ldquo;quando&rdquo; e &ldquo;como&rdquo; a viol&ecirc;ncia tem base no  g&eacute;nero mudam substancialmente. Por exemplo, as teorias interaccionistas e estruturalistas  entendem o g&eacute;nero como sendo muito mais do que os comportamentos dos homens e das mulheres.  Defendem que o g&eacute;nero se encontra nas expectativas e nas exig&ecirc;ncias que colocamos  nas pessoas e no seu desejo de corroborar ou de subverter estas expectativas (De Welde, 2003;  Jefferson, 1997; Messerschmidt, 1997; West &amp; Zimmerman, 1987). O g&eacute;nero existe na  forma como o sexo &eacute; usado como base para a divis&atilde;o de trabalho, na segrega&ccedil;&atilde;o  sexual das actividades e noutras formas de categoriza&ccedil;&atilde;o/organiza&ccedil;&atilde;o social  (Risman, 1998). Assim, se partirmos da concep&ccedil;&atilde;o interaccionista ou estrutural,  concluiremos que a viol&ecirc;ncia conjugal est&aacute; estreitamente ligada aos processos  sociais de g&eacute;nero. Pelo contr&aacute;rio, se partirmos da no&ccedil;&atilde;o individualista,  o g&eacute;nero pode ser um mero preditor da viol&ecirc;ncia, restringindo-se a sua defini&ccedil;&atilde;o  a tra&ccedil;os ou caracter&iacute;sticas individuais. </P>     <p>Em termos causais, a perspectiva individualista coloca a viol&ecirc;ncia como uma consequ&ecirc;ncia  do g&eacute;nero, ou seja, questiona como &eacute; que a masculinidade pode levar &agrave; viol&ecirc;ncia. No outro extremo, a perspectiva interaccionista conceptualiza o g&eacute;nero como o resultado  das pr&aacute;ticas sociais, invertendo a quest&atilde;o individualista ao interrogar como &eacute;  que a viol&ecirc;ncia leva &agrave; masculinidade (Anderson, 2005). </P>     <p>No nosso entender, as v&aacute;rias perspectivas apresentadas possuem, ainda que  em graus distintos, o risco de uma vis&atilde;o essencialista da rela&ccedil;&atilde;o  entre o g&eacute;nero e a viol&ecirc;ncia conjugal. Esta &eacute;, obviamente, mais evidente  nas perspectivas individualistas, que reduzem o g&eacute;nero &agrave; categoriza&ccedil;&atilde;o  sexual, associando-o a determinadas caracter&iacute;sticas psicol&oacute;gicas que podem  predizer o comportamento violento. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por seu turno, ainda que concordemos com Anderson (2005) quando afirma que a teoria  estruturalista do g&eacute;nero &eacute; necess&aacute;ria para se entender os modos pelos  quais a mulher e o homem encontram diferentes constrangimentos &agrave; perpetra&ccedil;&atilde;o  da viol&ecirc;ncia e as diferentes barreiras para deixar a rela&ccedil;&atilde;o, parece-nos que  a perspectiva estruturalista acaba por reduzir o g&eacute;nero &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es  s&oacute;cio-estruturais existentes, negligenciando os significados culturais associados.  Assim, a nosso ver, apesar de procurar contextualizar o fen&oacute;meno da viol&ecirc;ncia  em termos da sua constru&ccedil;&atilde;o s&oacute;cio-cultural, trata-se de uma  contextualiza&ccedil;&atilde;o focada na &ldquo;forma&rdquo; das condi&ccedil;&otilde;es sociais  e culturais, negligenciando o conte&uacute;do, ou seja, os discursos culturais subjacentes. </P>     <p>Para explicitar a nossa cr&iacute;tica, citemos como exemplo um estudo de Hollander (2001),  no qual se procurou identificar a rela&ccedil;&atilde;o entre a constru&ccedil;&atilde;o  discursiva do g&eacute;nero e a viol&ecirc;ncia. Partindo da ideia de que, atrav&eacute;s dos  discursos que ocorrem nas conversa&ccedil;&otilde;es quotidianas, as pessoas constroem e transmitem  modos particulares de entender os fen&oacute;menos sociais, a autora usou dados de 13 <I>focus group</I>,  evidenciando que as constru&ccedil;&otilde;es de g&eacute;nero dominantes no discurso dos  participantes sobre a viol&ecirc;ncia se referiam &agrave; mulher como vulner&aacute;vel e  n&atilde;o perigosa e ao homem como invulner&aacute;vel, protector mas tamb&eacute;m potencialmente  perigoso. Em alguns casos, a perigosidade &eacute; identificada tamb&eacute;m com outras  caracter&iacute;sticas sociais (ra&ccedil;a negra, classes desfavorecidas, idade) mas, na sua  maioria, basta ser homem para ser visto como potencialmente perigoso. Mesmo quando a vitima&ccedil;&atilde;o  do homem &eacute; discutida, a vulnerabilidade feminina e invulnerabilidade masculina persistem. </P>     <p>Hollander (2001) verificou tamb&eacute;m que estas percep&ccedil;&otilde;es de vulnerabilidade  e perigosidade tinham consequ&ecirc;ncias pr&aacute;ticas: as mulheres entrevistadas monitorizavam  constantemente sinais de alerta no seu ambiente, evitavam sair &agrave; noite sozinhas ou mesmo na  companhia de outras mulheres, procuravam familiares do sexo masculino para as proteger, modificavam  o seu modo de vestir e outros aspectos na sua apar&ecirc;ncia e restringiam as suas actividades  para reduzir o risco de viol&ecirc;ncia, limitando assim o uso do espa&ccedil;o p&uacute;blico.  Estas estrat&eacute;gias faziam parte da vida quotidiana das mulheres, enquanto os homens raramente  mencionavam o seu uso. </P>     <p>A autora interpreta estes dados de acordo com uma concep&ccedil;&atilde;o que nos parece  essencialmente interaccionista, considerando que, para parecer apropriadamente masculino ou feminino,  os indiv&iacute;duos se conformam com as expectativas sociais relativas &agrave; vulnerabilidade  e &agrave; perigosidade, expectativas essas que definem que ser mulher significa fragilidade,  falta de autonomia e necessidade da protec&ccedil;&atilde;o do homem. Deste modo, a mulher  encontra-se numa posi&ccedil;&atilde;o de depend&ecirc;ncia e vulnerabilidade face ao homem,  limitando as suas interac&ccedil;&otilde;es com os outros e a sua liberdade de ac&ccedil;&atilde;o  quer no espa&ccedil;o p&uacute;blico como privado (o que, consequentemente, a torna mais vulner&aacute;vel  &agrave; viol&ecirc;ncia conjugal). </P>     <p>Este estudo, que globalmente podemos enquadrar numa abordagem interaccionista, ilustra bem  o tipo de rela&ccedil;&otilde;es que nos parece importante explorar entre os discursos culturais  sobre o g&eacute;nero e a exposi&ccedil;&atilde;o &agrave; viol&ecirc;ncia. Contudo, a perspectiva  interaccionista, uma das influ&ecirc;ncias te&oacute;ricas dominantes do construcionismo social que  temos vindo a defender, n&atilde;o &eacute;, a nosso ver, em mat&eacute;ria de conceptualiza&ccedil;&atilde;o  da rela&ccedil;&atilde;o g&eacute;nero-viol&ecirc;ncia, tamb&eacute;m isenta de cr&iacute;ticas. </P>     <p>O principal reparo que podemos fazer a esta linha de investiga&ccedil;&atilde;o reside, a nosso ver,  no risco de os estudos que exploram a rela&ccedil;&atilde;o entre a viol&ecirc;ncia e a constru&ccedil;&atilde;o  da masculinidade poderem contribuir para naturalizar e essencializar a viol&ecirc;ncia masculina,  categorizando o homem como inerentemente violento, ainda que n&atilde;o por raz&otilde;es biol&oacute;gicas  mas sociais. Na verdade, ainda que tal nunca tenha sido afirmado pelos estudos da masculinidade, o  volume de estudos que enfatizam a viol&ecirc;ncia masculina e a ades&atilde;o &ldquo;f&aacute;cil&rdquo;  que estes podem produzir em alguns sectores, pode levar a esquecer que n&atilde;o s&oacute; existem  formas alternativas de constru&ccedil;&atilde;o da masculinidade, como estas est&atilde;o amplamente  disseminadas no quotidiano. Este efeito &eacute; facilmente constat&aacute;vel em alguns dom&iacute;nios  de investiga&ccedil;&atilde;o, dos quais damos como exemplo o do medo do crime, em que a constru&ccedil;&atilde;o  dominante (&ldquo;homens seguros&rdquo;, &ldquo;mulheres inseguras&rdquo;) tem ocultado que muitos homens  revelam sentimentos de fragilidade e inseguran&ccedil;a, enquanto muitas mulheres gerem quotidianamente  contextos e situa&ccedil;&otilde;es de risco (Machado, 2004). </P>      <p>&nbsp;</p>      <P align="center">G&Eacute;NERO E VIOL&Ecirc;NCIA CONJUGAL: UMA ABORDAGEM CULTURAL    INTEGRADORA </P>      <p>Anderson (2005) refere que a discuss&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o entre g&eacute;nero  e viol&ecirc;ncia, que tem proliferado nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, se tem centrado na  defini&ccedil;&atilde;o e avalia&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia, negligenciando a  defini&ccedil;&atilde;o e avalia&ccedil;&atilde;o do g&eacute;nero. Como resulta do ponto  anterior, tanto da abordagem interaccionista como da estruturalista, h&aacute; necessidade de  repensar a tem&aacute;tica do g&eacute;nero na compreens&atilde;o da viol&ecirc;ncia, em vez  de nos centrarmos apenas na quest&atilde;o de como as taxas de viol&ecirc;ncia diferem em  fun&ccedil;&atilde;o da vari&aacute;vel &ldquo;sexo&rdquo; (Anderson, 2005). Tal requer, a nosso  ver, n&atilde;o apenas a reconceptualiza&ccedil;&atilde;o da no&ccedil;&atilde;o de g&eacute;nero,  mas tamb&eacute;m a altera&ccedil;&atilde;o do modo como g&eacute;nero e a viol&ecirc;ncia t&ecirc;m  sido abordados &ndash; como se fossem fen&oacute;menos isolados e independentes. </P>     <p>Na verdade, apesar da controv&eacute;rsia acerca da simetria do g&eacute;nero, v&aacute;rias  abordagens te&oacute;ricas e a maioria dos estudos emp&iacute;ricos, sobretudo se considerarmos  os conduzidos em contextos n&atilde;o ocidentais (Campbell, 1999; Levinson, 1989), remetem para a i mport&acirc;ncia de considerar o g&eacute;nero na compreens&atilde;o da viol&ecirc;ncia conjugal.  Tamb&eacute;m Machado e Dias (no prelo), num artigo recente que faz uma revis&atilde;o exaustiva  dos estudos interculturais realizados sobre a viol&ecirc;ncia conjugal, concluem que a viol&ecirc;ncia c onjugal &eacute; indissoci&aacute;vel das quest&otilde;es do g&eacute;nero e das rela&ccedil;&otilde;es  de g&eacute;nero. Como refere Straus (1999), a maior parte do comportamento humano, no qual se inclui a  viol&ecirc;ncia, &eacute; influenciado por normas culturais, em que as pessoas seguem prescri&ccedil;&otilde;es  culturais de actua&ccedil;&atilde;o sem terem consci&ecirc;ncia disso. No caso da viol&ecirc;ncia, as  pessoas tendem a seguir regras e gui&otilde;es culturais impl&iacute;citos que s&atilde;o diferentes  para os homens e para as mulheres (Anderson, 2005; Straus, 1999). </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>De facto, v&aacute;rios trabalhos que oferecem uma revis&atilde;o dos estudos antropol&oacute;gicos  e interculturais sobre a viol&ecirc;ncia contra a mulher concluem que esta &eacute; um fen&oacute;meno  generalizado e que em quase todos os contextos culturais, mesmo os mais favorecidos, existem desigualdades  sociais na distribui&ccedil;&atilde;o do poder e dos recursos, assim como uma concep&ccedil;&atilde;o  hier&aacute;rquica da fam&iacute;lia (Campbell, 1999; Levinson, 1989; Machado &amp; Dias, no prelo).  Um estudo inter-&eacute;tnico realizado na Inglaterra (Hanmer, 1996), com mulheres inglesas e mulheres  cujas fam&iacute;lias de origem provinham do Paquist&atilde;o, Bangladesh, &Iacute;ndia e Cara&iacute;bas,  exemplifica precisamente estas quest&otilde;es. Segundo Hanmer (1996), entre os v&aacute;rios grupos  &eacute;tnicos existem muitas similaridades no modo como as mulheres experimentam e definem a  viol&ecirc;ncia, existindo temas comuns seja qual for o seu <I>background</I>, nomeadamente a  import&acirc;ncia dada &agrave; fam&iacute;lia. Deste estudo, o autor conclui que: (i) Em todos os  grupos &eacute;tnicos a mulher vive numa rede de rela&ccedil;&otilde;es atrav&eacute;s da qual os  membros da fam&iacute;lia e outros interv&ecirc;m na sua vida; (ii) A mulher luta contra a  domina&ccedil;&atilde;o, o controlo, a coer&ccedil;&atilde;o e a viol&ecirc;ncia que lhe s&atilde;o  dirigidas atrav&eacute;s das redes de rela&ccedil;&otilde;es na qual a sua vida se situa; (iii)  As fronteiras ou limites que orientam especificamente o comportamento familiar da mulher n&atilde;o  s&atilde;o os mesmos que para o homem, sendo este um factor que constitui a plataforma para a  legitima&ccedil;&atilde;o parcial ou total do uso da viol&ecirc;ncia contra as mulheres no contexto familiar. </P>     <p>Assim, as tentativas de a mulher lidar com a viol&ecirc;ncia envolvem lutas pessoais,  lutas que envolvem os outros e limites culturais que n&atilde;o s&atilde;o os mesmos para a mulher  e para o homem. Hanmer (1996) refere ainda que em todos os grupos &eacute;tnicos do seu estudo o  homem surge como estando do lado de fora dos constrangimentos da comunidade e da fam&iacute;lia,  quando comparado com a mulher. Na an&aacute;lise do relato das mulheres acerca da rela&ccedil;&atilde;o  dos maridos com outros membros da fam&iacute;lia, com ela e com os filhos, com os amigos, com os  colegas de trabalho e outras pessoas em geral, o homem pode adoptar uma s&eacute;rie de comportamentos,  mantendo intoc&aacute;vel o seu papel de marido e de pai aos olhos dos outros. Pelo contr&aacute;rio,  no caso da mulher, esta frequentemente &eacute; alvo de san&ccedil;&otilde;es e cr&iacute;ticas sociais.  Em todos os grupos &eacute;tnicos e culturais, os maridos t&ecirc;m vantagens culturais e familiares  que prov&ecirc;m do facto de serem homens e casados &ndash; o facto de ter uma fam&iacute;lia e  ser o &ldquo;chefe&rdquo; acarreta poder e estatuto para o homem na sua comunidade (idem). </P>     <p>Da an&aacute;lise dos estudos interculturais conclui-se tamb&eacute;m que a viol&ecirc;ncia  contra a mulher &eacute; maior onde h&aacute; mais desigualdade econ&oacute;mica, mais autoridade  masculina e menos poder da mulher (Campbell, 1999; Levinson, 1989; Machado &amp; Dias, no prelo),  o que vem validar a perspectiva feminista da viol&ecirc;ncia conjugal, focada nas desigualdades de  g&eacute;nero e de poder. Al&eacute;m disto, a an&aacute;lise inter-cultural do fen&oacute;meno  tem enfatizado tamb&eacute;m que a maior igualdade de g&eacute;nero, quer no contexto conjugal  quer no contexto social mais alargado, &eacute; um dos factores que surge associado ao decr&eacute;scimo  das taxas de viol&ecirc;ncia contra a mulher, a par com a maior autonomia financeira, a exist&ecirc;ncia  de san&ccedil;&otilde;es contra a viol&ecirc;ncia e de estruturas que permitam a sa&iacute;da da mulher  da rela&ccedil;&atilde;o abusiva (Campbell, 1999; Machado &amp; Dias, no prelo). </P>     <p>Contudo, vimos j&aacute; que o g&eacute;nero (e a sua rela&ccedil;&atilde;o com a viol&ecirc;ncia)  n&atilde;o pode ser simples-mente explicado pelos processos e estruturas sociais (Am&acirc;ncio, 1998).  Sob a abordagem construcionista social, salient&aacute;mos a necessidade de analisar a constru&ccedil;&atilde;o  dos conte&uacute;dos simb&oacute;licos associados a cada um dos g&eacute;neros (Am&acirc;ncio, 1998;  Nogueira, 2001), constru&ccedil;&atilde;o esta que se opera atrav&eacute;s das interac&ccedil;&otilde;es  e que acarreta consequ&ecirc;ncias para a vida das pessoas (Am&acirc;ncio, 1998; Anderson, 2005; Burr, 1995).  Al&eacute;m disto, conclu&iacute;mos ainda que a constru&ccedil;&atilde;o do g&eacute;nero n&atilde;o &eacute;  apenas social mas tamb&eacute;m cultural (Mota-Ribeiro, 2005), que os significados associados ao feminino  e ao masculino diferem consoante o contexto cultural e que, ainda que possam existir padr&otilde;es comuns  identificados pelos estudos inter-culturais, h&aacute; tamb&eacute;m uma grande diversidade de normas e  pr&aacute;ticas relativas a cada um dos g&eacute;neros. </P>     <p>Efectivamente, as rela&ccedil;&otilde;es de g&eacute;nero s&atilde;o fluidas, mut&aacute;veis e podem ser espec&iacute;ficas a certas circunst&acirc;ncias ou contextos culturais (Hanson, 1992,  cit. in Williams, 2002). Os v&aacute;rios estudos indicam, assim, que a cultura &eacute; uma  dimens&atilde;o essencial no estudo e compreens&atilde;o do fen&oacute;meno da viol&ecirc;ncia  contra a mulher, envolvendo uma multiplicidade de discursos e pr&aacute;ticas culturais relativos,  n&atilde;o s&oacute; &agrave; viol&ecirc;ncia em geral e contra a mulher em particular, mas  tamb&eacute;m &agrave; mulher e &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es de g&eacute;nero. </P>     <p>Assim, adoptar uma perspectiva cultural na an&aacute;lise da viol&ecirc;ncia conjugal  implicar&aacute; uma an&aacute;lise integrada do g&eacute;nero e da viol&ecirc;ncia.  N&atilde;o pretendemos com isto defender a no&ccedil;&atilde;o de que a viol&ecirc;ncia  &eacute; exclusivamente um fen&oacute;meno de g&eacute;nero, mas antes salientar que a  an&aacute;lise da viol&ecirc;ncia conjugal, sem considerar a natureza das rela&ccedil;&otilde;es  em que esta ocorre e os significados culturais que lhe est&atilde;o associados, n&atilde;o  seria uma an&aacute;lise verdadeiramente cultural. Por outro lado, o mesmo se aplica &agrave;  no&ccedil;&atilde;o de g&eacute;nero e &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es de g&eacute;nero: sendo  a viol&ecirc;ncia um fen&oacute;meno cultural e partindo da concep&ccedil;&atilde;o de que o  g&eacute;nero influencia n&atilde;o s&oacute; o significado de ser mulher e de ser homem mas  tamb&eacute;m o modo como interagem, a viol&ecirc;ncia tem de passar a ser inclu&iacute;da na  an&aacute;lise do g&eacute;nero e das rela&ccedil;&otilde;es de g&eacute;nero. </P>      <p>&nbsp;</p>      <p align="center">BIBLIOGRAFIA </P>      <p>Am&acirc;ncio, L. (1998). <I>Masculino e feminino &ndash; A constru&ccedil;&atilde;o social  da diferen&ccedil;a. </I>Porto: Edi&ccedil;&otilde;es Afrontamento. </P>      <p>Andersen, M. (1997). <I>Thinking about women: Sociological perspectives on sex and gender.  </I>New York: Macmillan Publishing. </P>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Anderson, K. L. (2005). Theorizing gender in intimate partner violence research.  <I>Sex Roles, 52</I>, 853-865. </P>      <p>Anderson, K. L., &amp; Umberson, D. (2001). Gendering violence: Masculinity and power  in men&rsquo;s accounts of domestic violence. <I>Gender and Society, 15</I>, 358-380.</P>       <P>Archer, J. (2000). Sex differences in aggression between heterosexual partners: A meta-analytic  review. <I>Psychological Bulletin, 126</I>, 651-680.</P>       <P>Babcock, J. C., Waltz, J., Jacobson, N. S., &amp; Gottman, J. M. (1993). Power and violence: T he relation between communication patterns, power discrepancies, and domestic violence.  <I>Journal of Consulting and Clinical Psychology, 61</I>, 40-50. </P>      <p>Beauvoir, S. (1976). <I>O segundo sexo. </I>Venda Nova: Bertrand.</P>       <P>Bem, S. (1993). <I>The lenses of gender</I>. London: Yale University Press. </P>      <p>Bernard, J. L., Bernard, S. L., &amp; Bernard, M. L. (1985). Courtship violence and sex-typing.  <I>Family Relations</I>, <I>34, </I>573-576. </P>      <p>Berns, N. (2001). Degendering the problem and gendering the blame. Political  discourse on women and violence. <I>Gender and Society, 15</I>, 262-281. </P>      <p>Betterton, R. (1987). <I>Looking on: Images of femininity in the visual arts  and media</I>. London: Pandora. </P>      <p>Brown, S. (1998). <I>Understanding youth and crime: Listening to youth? </I> Buckingham: Open University Press. </P>      ]]></body>
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<surname><![CDATA[Amâncio]]></surname>
<given-names><![CDATA[L.]]></given-names>
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<source><![CDATA[Masculino e feminino: A construção social da diferença.]]></source>
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<publisher-name><![CDATA[Edições Afrontamento]]></publisher-name>
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