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<journal-title><![CDATA[Análise Psicológica]]></journal-title>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Para um racional bioniano de interpretação dos dados projectivos]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In this article, the author seeks to enrich the understanding and practice of projective methods, especially the Thematic Apperception Test, through a dynamic approach using for the first time, the conceptual apparatus of W. Bion and away from the classical psychoanalytic model, i.e., the Freudian&#8217;s psychoanalytical methodology and the structural edipian model. The following bionian concepts are used: psychic transformations, projective identification in continent/ content relation, and tolerance/intolerance to frustration. The article addressed the problem, in projective techniques, the relationship between perception and thinking and a new understanding of the TAT-process.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <P><b>Para um racional bioniano de interpreta&ccedil;&atilde;o dos dados projectivos    </b></P >     <P align="right">Lu&iacute;s Delgado (<a href="#1">*</a>) <a name="top1"></a></P >     <P align="center">&nbsp;</P >     <P align="center">RESUMO </P >     <P>Com o presente artigo o autor procura enriquecer a compreens&atilde;o e pratica    da metodologia projectiva, especialmente do Thematic Apperception Test, atrav&eacute;s    de uma aproxima&ccedil;&atilde;o din&acirc;mica utilizando, pela primeira vez,    o aparelho conceptual de W. Bion e afastando-se do modelo psicanal&iacute;tico    cl&aacute;ssico, isto &eacute;, da metodologia freudiana e do modelo estrutural    edipiano. </P >     <P>S&atilde;o utilizados os seguintes conceitos bionianos: transforma&ccedil;&otilde;es    ps&iacute;quicas, identifica&ccedil;&atilde;o projectiva na rela&ccedil;&atilde;o    continente/conte&uacute;do, toler&acirc;ncia/intoler&acirc;ncia &agrave; frustra&ccedil;&atilde;o.  </P >     <P>O artigo termina abordando o problema, nas t&eacute;cnicas projectivas, da    rela&ccedil;&atilde;o entre percep&ccedil;&atilde;o e pensamento assim como    uma nova compreens&atilde;o do &ldquo;processo-TAT&rdquo;. </P >     <P><I>Palavras chave: </I>Rela&ccedil;&atilde;o continente/conte&uacute;do, TAT,    Toler&acirc;ncia/intoler&acirc;ncia &agrave; frustra&ccedil;&atilde;o, Transforma&ccedil;&otilde;es    ps&iacute;quicas. </P >     <P>&nbsp;</P >     <P align="center">ABSTRACT </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>In this article, the author seeks to enrich the understanding and practice    of projective methods, especially the Thematic Apperception Test, through a    dynamic approach using for the first time, the conceptual apparatus of W. Bion    and away from the classical psychoanalytic model, i.e., the Freudian&rsquo;s    psychoanalytical methodology and the structural edipian model. </P >     <P>The following bionian concepts are used: psychic transformations, projective    identification in continent/ content relation, and tolerance/intolerance to    frustration. </P >     <P>The article addressed the problem, in projective techniques, the relationship    between perception and thinking and a new understanding of the TAT-process.  </P >     <P><I>Key words: </I>Continent/content relation, Psychic transformations, TAT,    Tolerance/intolerance to frustration. </P >     <P>&nbsp;</P >     <P>&nbsp;</P >     <P>Dispomos actualmente de instrumentos projectivos &ndash; nomeadamente o TAT,    pelo qual nos temos interessado mais (Delgado, 1989, 2001, 2006) &ndash; dotados    de uma t&eacute;cnica de passagem, de an&aacute;lise e interpreta&ccedil;&atilde;o    que permitem um processo metodol&oacute;gico rigoroso, o qual &eacute; um garante    de fiabilidade cient&iacute;fica destes instrumentos e que se articula de maneira    coerente, pertinente e rigorosa no seio de uma reflex&atilde;o metapsicol&oacute;gica    cada vez mais aprofundada e rica. Dispomos assim de garantias metodol&oacute;gicas    utilizadas e balizadas gra&ccedil;as ao corpo te&oacute;rico da metapsicologia    freudiana, identificadas pelas t&eacute;cnicas projectivas tal como s&atilde;o    concebidas por autores recentes consagrados tais como Catherine Chabert (1983,    1987), Fran&ccedil;oise Brelet (1986), Monica Boekholt (1993), Nina Rauch de    Traubenberg (1981), Rosine Debray (1977), Vica Shentoub (1972, 1973, 1990),    Brelet-Foulard e Chabert (2003), s&oacute; para falar dos autores da Escola    Francesa. </P >     <P>Estes instrumentos projectivos oferecem uma possibilidade de compreens&atilde;o do vivido humano t&atilde;o pertinente para as exig&ecirc;ncias da investiga&ccedil;&atilde;o como para as exig&ecirc;ncias da pr&aacute;tica cl&iacute;nica, a escuta da realidade ps&iacute;quica humana em todas as suas varia&ccedil;&otilde;es. </P >     <P>Tendo em conta a nossa forma&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica acad&eacute;mica    e cl&iacute;nica, a nossa escolha &eacute; a de nos colocar num sistema de pensamento    psicanal&iacute;tico, cl&aacute;ssico (freudiano e kleiniano), mas simultaneamente    abertos &agrave;s novas conceptualiza&ccedil;&otilde;es psicanal&iacute;ticas,    nomeadamente bionianas, como contentores conceptuais na actividade de psic&oacute;logo    &ldquo;projectivista&rdquo;. </P >     <P>Deste modo n&atilde;o iremos apresentar o modelo psicanal&iacute;tico cl&aacute;ssico,    objecto de in&uacute;meros trabalhos, utilizando a metapsicologia freudiana    e o modelo estrutural edipiano, para passarmos imediatamente a algumas contribui&ccedil;&otilde;es    psicanal&iacute;ticas de W. Bion que parecem poder vir a enriquecer as t&eacute;cnicas    projectivas. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P >     <P align="center">O MODELO BIONIANO DASTRANSFORMA&Ccedil;&Otilde;ES</P >     <P>Como &eacute; que os fen&oacute;menos mentais se transformam no sentido de    conduzir &agrave; constru&ccedil;&atilde;o dos resultados &ndash; resposta-Rorschach    ou hist&oacute;ria-TAT &ndash; e qual a fun&ccedil;&atilde;o da interpreta&ccedil;&atilde;o    s&atilde;o algumas das quest&otilde;es sobre as quais nos vamos debru&ccedil;ar,    utilizando os instrumentos conceptuais e metodol&oacute;gicos da concep&ccedil;&atilde;o    bioniana da vida mental, os quais podem ser aplicados de forma &uacute;til aos    nossos problemas. </P >     <P>De facto Bion foi um dos psicanalistas que se debru&ccedil;ou profundamente    sobre estas quest&otilde;es, e no &acirc;mago da sua reflex&atilde;o est&aacute;    uma tentativa de compreens&atilde;o do pr&oacute;prio processo de transfor-ma&ccedil;&atilde;o    ps&iacute;quica: como se transforma? Com que mecanismos? Como se operam os mecanismos    transformadores psicanal&iacute;ticos? Qual a natureza das transforma&ccedil;&otilde;es    ps&iacute;quicas? </P >     <P>Em <I>Aprender com a Experi&ecirc;ncia </I>(1962) Bion concebe a no&ccedil;&atilde;o de continente-conte&uacute;do (&#9793;&#9794;), modelo descritivo do funcionamento mental onde encontramos a ideia de uma mente em transforma&ccedil;&atilde;o e crescimento, desde que o <I>O </I>n&atilde;o seja r&iacute;gido mas, pelo contr&aacute;rio, &ldquo;enredado&rdquo; pelas emo&ccedil;&otilde;es, flex&iacute;vel e apto a tolerar a d&uacute;vida e a incerteza. </P >    <P>Em <I>Transforma&ccedil;&otilde;es: a passagem da aprendizagem ao crescimento </I>(Bion, 1965) desenvolve o conceito de transforma&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica e indica tr&ecirc;s marcos sinalizadores de campo importantes: </P >     <blockquote>       <p>&ndash;as transforma&ccedil;&otilde;es mentais v&atilde;o da aprendizagem      para o crescimento;</p>       <p>&ndash;&ldquo;<I>O campo do psicanalista &eacute; o que est&aacute; entre      o ponto em que o sujeito recebe impress&otilde;es sensoriais e o ponto em      que exprime a transforma&ccedil;&atilde;o que ele operou sobre elas</I>&rdquo;      (Bion, 1965, p. 57); </p>       <p>&ndash;a pr&aacute;tica psicanal&iacute;tica consiste na &ldquo;<I>transforma&ccedil;&atilde;o      de uma realiza&ccedil;&atilde;o (a experi&ecirc;ncia psicanal&iacute;tica      real) numa interpreta&ccedil;&atilde;o ou numa s&eacute;rie de interpreta&ccedil;&otilde;es</I>&rdquo;      (Bion, 1965, p. 13). </p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Extrapolando para o dom&iacute;nio das t&eacute;cnicas projectivas, ser&aacute;,    pois, no campo da transforma&ccedil;&atilde;o que a an&aacute;lise/interpreta&ccedil;&atilde;o    da resposta/hist&oacute;ria do sujeito deve ser considerada. </P >     <P>Cabe ao cl&iacute;nico &ldquo;projectivista&rdquo; determinar o significado    e a qualidade das transforma&ccedil;&otilde;es operadas pelo sujeito na situa&ccedil;&atilde;o    projectiva. Ao examinador s&atilde;o dados a conhecer a conjun&ccedil;&atilde;o    que emana do material (conte&uacute;dos manifesto e latente do material) e a    conjun&ccedil;&atilde;o, a constela&ccedil;&atilde;o de fen&oacute;menos que    emanam de <I>O </I>(realidade incognosc&iacute;vel), tendo tamb&eacute;m em    conta que a hist&oacute;ria do sujeito cont&eacute;m uma dimens&atilde;o tranferencial    (Brelet, 1986). </P >     <P>Uma das tarefas do examinador &eacute;, por exemplo, determinar se o relato    do sujeito (hist&oacute;ria-TAT) &ldquo;<I>se caracteriza sobretudo pela necessidade    de dissimular O ou pela necessidade de dar de O uma representa&ccedil;&atilde;o    t&atilde;o directa quanto poss&iacute;vel</I>&rdquo; (Bion, 1965, p. 30), o    que muitas vezes s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel saber pelo efeito cumulativo    que v&aacute;rias hist&oacute;rias/respostas produzem no examinador. </P >     <P>Os enunciados (respostas-Rorschach ou hist&oacute;rias-TAT) do sujeito s&atilde;o interpretadas sob a forma de um outro ponto de vista (<I>Ta beta</I>) em fun&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do latente de cada imagem pois &ldquo;<I>a verdade &eacute; essencial a todo e qualquer valor de (Ta beta)</I>&rdquo; (Ibid., p. 48). Isto quer dizer que a interpreta&ccedil;&atilde;o do examinador visa repor/descodificar a transforma&ccedil;&atilde;o do sujeito, em direc&ccedil;&atilde;o a <I>O </I>(realidade incognosc&iacute;vel). A &ldquo;resposta- hist&oacute;ria ideal&rdquo; estar&aacute; portanto na procura da verdade de si mesmo, ou seja, na capacidade de ser aquilo que se &eacute;, &ldquo;<I>being O</I>&rdquo;, de acordo com <I>K</I>&rarr;<I>O </I>(transforma&ccedil;&atilde;o em <I>O</I>). </P >    <P>Em termos da rela&ccedil;&atilde;o continente/conte&uacute;do (&#9793;&#9794;) &ndash; e mais evidentemente em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s provas projectivas tem&aacute;ticas &ndash; partimos do princ&iacute;pio que se verifica um encontro entre o conte&uacute;do latente (CL) das imagens e a mente do sujeito: aquele ir&aacute; evocar emo&ccedil;&otilde;es e pensamentos que se constituem como conte&uacute;dos (&#9794;) que s&atilde;o activados na mente do sujeito, a qual funciona como continente (&#9793;) &ndash; pensamentos que pressionam o aparelho para pensar. </P >    <P>Este aspecto crucial est&aacute; relacionado com outra contribui&ccedil;&atilde;o muito importante que est&aacute; contida na rela&ccedil;&atilde;o que Bion estabelece entre a transforma&ccedil;&atilde;o e o campo emocional: o tipo de v&iacute;nculo e o grau de toler&acirc;ncia &agrave;s emo&ccedil;&otilde;es dolorosas. </P >    <P>As transforma&ccedil;&otilde;es do sujeito operadas na situa&ccedil;&atilde;o projectiva est&atilde;o sempre sob a influ&ecirc;ncia dos v&iacute;nculos L (amor), H (&oacute;dio) e K (conhe-cimento), isto &eacute;, as suas produ&ccedil;&otilde;es ser&atilde;o sempre mais ou menos deformadas por L, H ou K. </P >    <P>A transforma&ccedil;&atilde;o, que consiste em tornar <I>O </I>num pensamento, s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel se houver toler&acirc;ncia &agrave; experi&ecirc;ncia emocional de frustra&ccedil;&atilde;o. &Eacute; por esta raz&atilde;o que o psic&oacute;tico &ldquo;<I>n&atilde;o &eacute; capaz de transformar T (o equivalente fenomenal de O) em Tp beta. Na verdade, ele exprime-se como se sentisse incapaz de transformar O em T</I>&rdquo; (Bion, 1965, p. 51). </P >    <P>No caso extremo das transforma&ccedil;&otilde;es em alucinose, estas processam-se na &aacute;rea psic&oacute;tica da personalidade onde, por falha da fun&ccedil;&atilde;o alfa, as transforma&ccedil;&otilde;es n&atilde;o envolvem a forma&ccedil;&atilde;o de s&iacute;mbolos, mas sim de equa&ccedil;&otilde;es simb&oacute;licas. Essa falha deve-se &agrave; intoler&acirc;ncia &agrave; aus&ecirc;ncia do objecto (n&atilde;o-coisa), &agrave; intoler&acirc;ncia &agrave; dor da priva&ccedil;&atilde;o, &agrave;s emo&ccedil;&otilde;es dolorosas. </P >    <P>As transforma&ccedil;&otilde;es na mente do sujeito (<I>Tp</I>) v&atilde;o depender da qualidade mais ou menos flex&iacute;vel, el&aacute;stica da fun&ccedil;&atilde;o continente (capacidades receptivas dos conte&uacute;dos internos do sujeito), da qualidade da fun&ccedil;&atilde;o de <I>r&ecirc;verie </I>(capacidades transformadoras &ndash; pensamento on&iacute;rico de vig&iacute;lia &ndash; no sentido da transforma&ccedil;&atilde;o de proto-emo&ccedil;&otilde;es ou de turbul&ecirc;ncia emocional em pensamento), assim como do seu grau de toler&acirc;ncia &agrave; frustra&ccedil;&atilde;o e &agrave;s emo&ccedil;&otilde;es dolorosas &ndash; em suma, da sua capacidade continente. </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P>A produ&ccedil;&atilde;o do sujeito (o que conta, como conta e porque conta) vai ter em conta os seus estados mentais: a maior ou menor tolerabilidade &agrave; dispers&atilde;o (PS), a maior ou menor capacidade integrativa (D), o grau de toler&acirc;ncia aos pensamentos e &agrave;s emo&ccedil;&otilde;es dolorosas. </P >     <P>As fun&ccedil;&otilde;es da personalidade do sujeito que, no &acirc;mbito do    pensamento de Bion, achamos necess&aacute;rias para operar as transforma&ccedil;&otilde;es    da realiza&ccedil;&atilde;o em representa&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o a toler&acirc;ncia    &agrave; d&uacute;vida, a toler&acirc;ncia &agrave; incerteza, a toler&acirc;ncia    &agrave; dor mental, o amor &agrave; verdade e o sentido est&eacute;tico. </P >     <P>&nbsp;</P >     <P align="center">A QUEST&Atilde;O DA INTOLER&Acirc;NCIA <I>VERSUS </I>INTOLER&Acirc;NCIA    &Agrave; FRUSTRA&Ccedil;&Atilde;O </P >     <P>Acab&aacute;mos de ver como esta &eacute; uma problem&aacute;tica fundamental quer na capacidade do paciente para realizar modifica&ccedil;&otilde;es mentais suficientemente &uacute;teis na sua mente e na sua vida, quer na capacidade do sujeito para realizar produ&ccedil;&otilde;es, que n&atilde;o s&atilde;o mais que o produto de transforma&ccedil;&otilde;es ps&iacute;quicas que lhe permitem responder &agrave; situa&ccedil;&atilde;o projectiva. </P >    <P>O ponto de vista de Bion sobre aquela problem&aacute;tica assenta no artigo <I>Uma Teoria do Pensar </I>(1962) em que ele exp&otilde;e um modelo te&oacute;rico onde articula a frustra&ccedil;&atilde;o (&ldquo;<I>realiza&ccedil;&atilde;o negativa</I>&rdquo;) com os desenvolvimentos b&aacute;sicos que est&atilde;o subjacentes ao pensamento: o desenvolvimento dos pensamentos e o desenvolvimento do aparelho para pensar os pensamentos e das duas condi&ccedil;&otilde;es mentais: a capacidade de toler&acirc;ncia ou incapacidade de toler&acirc;ncia &agrave; frustra&ccedil;&atilde;o. </P >    <P>Neste modelo de Bion, a problem&aacute;tica da toler&acirc;ncia/intoler&acirc;ncia &agrave; frustra&ccedil;&atilde;o tem reflexos indissoci&aacute;veis na problem&aacute;tica do pensamento e, perante a experi&ecirc;ncia de frustra&ccedil;&atilde;o (realiza&ccedil;&atilde;o negativa), dois desenvolvimentos cruciais podem acontecer: a modifica&ccedil;&atilde;o da frustra&ccedil;&atilde;o em pensamento (e em produ&ccedil;&atilde;o projectiva) ou a fuga e a cria&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o-pensamento (recusa, produ&ccedil;&atilde;o meramente perceptiva ou produ&ccedil;&atilde;o delirante). </P >    <P>Aplicando a contribui&ccedil;&atilde;o de Bion para as t&eacute;cnicas projectivas, poder&iacute;amos sintetizar esquematicamente do seguinte modo: </P >     <blockquote>       <p>&ndash; quer a &lsquo;fuga&rsquo; quer a &lsquo;modifica&ccedil;&atilde;o&rsquo;      t&ecirc;m como objectivo a remo&ccedil;&atilde;o da dor; </p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&ndash;a &lsquo;modifica&ccedil;&atilde;o&rsquo; &eacute; poss&iacute;vel      gra&ccedil;as ao uso da rela&ccedil;&atilde;o x K y, isto &eacute;, o sujeito      x quer conhecer algo sobre uma parte de si pr&oacute;prio y (confrontando-se      com um material projectivo dotado de um conte&uacute;do latente muitas vezes      doloroso para ser pensado), ou seja, pela via do conhecimento, sendo que      a rela&ccedil;&atilde;o x K y &eacute; ainda assim uma experi&ecirc;ncia emocional      dolorosa; </p>       <p>&ndash; a fuga &eacute; conseguida gra&ccedil;as &agrave; modifica&ccedil;&atilde;o      do sentido da rela&ccedil;&atilde;o x K y, que em vez de x conhecer algo sobre      y, se reverte para o sujeito x como j&aacute; conhecendo a sua parte y. </p> </blockquote>     <P>&nbsp;</P >     <P align="center">A QUEST&Atilde;O DA RELA&Ccedil;&Atilde;O ENTREPERCEP&Ccedil;&Atilde;O    E PENSAMENTO</P >     <P>Como &eacute; &oacute;bvio, esta quest&atilde;o &eacute; de primeir&iacute;ssima    import&acirc;ncia quer para a cl&iacute;nica quer para os pr&oacute;prios fundamentos    das t&eacute;cnicas projectivas. Talvez at&eacute; fosse mais correcto design&aacute;-las    t&eacute;cnicas ou provas de percep&ccedil;&atilde;o e pensamento, na medida    estas s&atilde;o provas constitu&iacute;das por est&iacute;mulos perceptivos    aos quais o sujeito &eacute; convidado a produzir pensamentos mais ou menos    articulados entre si. </P >     <P>Se, para Freud (1925, 1925a), pensar &eacute; um processo constitu&iacute;do    por uma permanente interac&ccedil;&atilde;o entre percep&ccedil;&atilde;o e    pensamentos, para Bion (1962) pensar &eacute; um processo constitu&iacute;do    por uma articula&ccedil;&atilde;o, uma teia entre os elementos beta propriamente    ditos, isto &eacute;, os elementos da percep&ccedil;&atilde;o e os elementos    alfa que os traduzem psiquicamente. </P >     <P>Amaral Dias traduz este processo interactivo desta forma exemplar: &ldquo;<I>pensar    &eacute; produzir um maior n&uacute;mero de elementos beta poss&iacute;veis,    para produzir o maior n&uacute;mero de elementos alfa poss&iacute;veis</I>&rdquo;    (2004, p. 27). </P >     <P>O problema que se p&otilde;e &eacute; assim o da permanente interac&ccedil;&atilde;o de elementos perceptivos que bombardeiam a mente e a necessidade de esta traduzir esses elementos atrav&eacute;s de uma fun&ccedil;&atilde;o pensante, a fun&ccedil;&atilde;o alfa, em elementos alfa. </P >    <P>Existe, deste modo, uma correla&ccedil;&atilde;o entre a capacidade do aparelho ps&iacute;quico tolerar um n&uacute;mero elevado de elementos beta e a capacidade que esse mesmo aparelho ps&iacute;quico tem de utilizar a fun&ccedil;&atilde;o alfa para produzir um maior n&uacute;mero de elementos alfa. </P >     <P>Existe pois, assim como o afirma Amaral Dias, uma rela&ccedil;&atilde;o ou    correspond&ecirc;ncia rec&iacute;proca directa entre o pensamento e o n&atilde;o-pensamento.    &ldquo;<I>Assim &eacute; poss&iacute;vel afirmar que pensar &eacute; permanentemente    livrarmo-nos de uma parte incompat&iacute;vel que &eacute; constitu&iacute;da    por aqueles elementos da percep&ccedil;&atilde;o que, n&atilde;o sendo transformados    em pensamento, s&atilde;o revertidos &agrave; percep&ccedil;&atilde;o sob a    forma de elementos alfa revertidos, ou seja, que s&atilde;o incompat&iacute;veis    com o ego</I>&rdquo; (Amaral Dias, 2004, p. 27). </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P >     <P align="center">O PROCESSO-TAT SEGUNDO A TEORIA BIONIANA DA IDENTIFICA&Ccedil;&Atilde;O    PROJECTIVA NA RELA&Ccedil;&Atilde;O CONTINENTE-CONTE&Uacute;DO </P >     <P>Tendo em conta as tr&ecirc;s problem&aacute;ticas tratadas neste trabalho, a saber: transforma&ccedil;&otilde;es ps&iacute;quicas, toler&acirc;ncia/<I>versus </I>intoler&acirc;ncia &agrave; frustra&ccedil;&atilde;o e a rela&ccedil;&atilde;o entre percep&ccedil;&atilde;o e pensamento, pensamos estar capacitados para procurar entender, utilizando um aparelho conceptual bioniano, o processo-TAT, isto &eacute;, o processo de elabora&ccedil;&atilde;o das hist&oacute;rias TAT, ou seja, o conjunto dos mecanismos mentais mobilizados na &ldquo;situa&ccedil;&atilde;o-TAT&rdquo;, isto &eacute;, nessa situa&ccedil;&atilde;o particular em que um examinador pede ao sujeito para imaginar uma hist&oacute;ria a partir de cada imagem (cart&atilde;o TAT), isto &eacute;, forjar uma fantasia a partir da realidade. </P >    <P>O modelo te&oacute;rico que subjaz ao processo-TAT &eacute; o de Bion (1962, 1963) e deriva do modelo de desenvolvimento infantil, reportando-se &agrave; rela&ccedil;&atilde;o precoce com o objecto materno e &agrave;s mais primitivas interac&ccedil;&otilde;es m&atilde;e-b&eacute;b&eacute;. </P >     <P>O conte&uacute;do latente das imagens-TAT desencadeia pensamentos e emo&ccedil;&otilde;es    que ir&atilde;o pressionar a mente no sentido de serem pensados. O sujeito deve    ser capaz de aceitar, tolerar e transformar esses conte&uacute;dos &ndash; produzidos    pela identifica&ccedil;&atilde;o projectiva interna &ndash; de modo a que se    tornem aceit&aacute;veis, toler&aacute;veis para a sua mente; deve portanto    possuir a suficiente capacidade continente interna de modo a esses pensamentos    poderem ser tolerados e simbolizados. </P >     <P>O contacto com o complexo de representa&ccedil;&otilde;es/afectos activado    pelo conte&uacute;do latente da imagem, assim como a necessidade de os pensar,    implica a emerg&ecirc;ncia de sofrimento ps&iacute;quico.</P >     <P> S&oacute; com uma capacidade satisfat&oacute;ria de toler&acirc;ncia ao sofrimento/frustra&ccedil;&atilde;o    ps&iacute;quica o sujeito poder&aacute; elaborar uma hist&oacute;ria-TAT. A    intoler&acirc;ncia ao sofrimento/frustra&ccedil;&atilde;o &eacute; concomitante    com a mobiliza&ccedil;&atilde;o de defesas mais ou menos poderosas visando anular,    paralisar ou distorcer o pensamento e outras fun&ccedil;&otilde;es do ego.</P >     <P> Os processos de conten&ccedil;&atilde;o-transforma&ccedil;&atilde;o-devolu&ccedil;&atilde;o    interna est&atilde;o assim n&atilde;o s&oacute; na depend&ecirc;ncia da maior    ou menor toler&acirc;ncia &agrave; frustra&ccedil;&atilde;o/sofrimento, da qualidade    da fun&ccedil;&atilde;o continente e da fun&ccedil;&atilde;o alfa, mas tamb&eacute;m    do tipo de v&iacute;nculo emocional predominante (L, H ou K) que o sujeito tem    consigo pr&oacute;prio (e com o examinador).</P >     <P> Perante a experi&ecirc;ncia de frustra&ccedil;&atilde;o, a realiza&ccedil;&atilde;o    negativa pode dar lugar &agrave; sua simboliza&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o,    em fun&ccedil;&atilde;o da capacidade de toler&acirc;ncia a essa frustra&ccedil;&atilde;o,    e a experi&ecirc;ncia pode ser nomeada ou n&atilde;o atrav&eacute;s da palavra    (narrativa). </P >     <P>Deste modo, numa situa&ccedil;&atilde;o de toler&acirc;ncia &agrave; frustra&ccedil;&atilde;o,    pode dar-se uma realiza&ccedil;&atilde;o negativa (&ldquo;<I>n&atilde;o-coisa</I>&rdquo;),    uma transforma&ccedil;&atilde;o. Caso contr&aacute;rio, d&aacute;-se uma n&atilde;o-transforma&ccedil;&atilde;o:    a fuga, o evitamento, a defesa pelo perceptivo, ou pelo projectivo &ldquo;evacuativo&rdquo;,    etc., tudo o que possa afastar o sujeito da confronta&ccedil;&atilde;o com a    sua verdade interna. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Concluindo, o processo-TAT tem necessariamente de ter em conta a capacidade    do sujeito em tolerar a dor mental e a frustra&ccedil;&atilde;o para que possa    levar a cabo as transforma&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias &agrave;s experi&ecirc;ncias    de frustra&ccedil;&atilde;o, inevitavelmente impostas pelo contacto com aspectos    dolorosos da realidade interna, activadas pelas caracter&iacute;sticas do conte&uacute;do    latente das imagens. </P >     <P>O sujeito ir&aacute; assim testar o seu modo dominante de funcionamento psico-emocional:    fugir/evitar ou tolerar/transformar a frustra&ccedil;&atilde;o geradora de ang&uacute;stia,    pensando/criando algo. </P >     <P   >&nbsp;</P >     <P align="center"   >REFER&Ecirc;NCIAS </P >     <P>Amaral Dias, C. (2004). <I>Costurando as linhas da </I><I>psicopatologia borderline    (estados limites)</I>. Lisboa: Climepsi. </P >     <P>Bion, W. R. (1962/1991). Uma teoria do pensar. <I>Melanie Klein hoje </I>(vol.    1, 185-193). Rio-de-Janeiro: Imago Edit. </P >     <P>Bion, W. R. (1963). <I>The elements of psycho-analysis</I>. London: Heineman. </P >     <P>Bion, W. R. (1965). <I>Transformations &ndash; Passage de </I><I>l&rsquo;apprentissage    &agrave; la croissance</I>. Paris: Presses Universitaires de France. </P >     <P>Boekholt, M (1993). <I>&Eacute;preuves projectives en clinique infantile (approche psychanalytique)</I>. Paris: Dunod. </P >    <P>Brelet, F. (1986). <I>Le T.A.T. &ndash; Fantasme et situation projective</I>. Paris: Dunod. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Brelet-Foulard, F., &amp; Chabert, C. (2003). <I>Nouveau </I><I>manuel du TAT    (approche psychanalytique</I>). Paris: Dunod. </P >     <P>Chabert, C. (1983). <I>Le Rorschach en clinique adulte (interpr&eacute;tation psychanalytique) </I>Paris: Dunod. </P >    <P>Chabert, C. (1987). <I>La psychopathologie &agrave; l&rsquo;&eacute;preuve du Rorschach</I>. Paris: Dunod. </P >    <P>Debray, R. (1977). Normalit&eacute; et pens&eacute;e op&eacute;ratoire. <I>Psychologie Fran&ccedil;aise, 22</I>(1-2), 309-322. </P >    <!-- ref --><P>Delgado, L. (1989). Da actividade perceptiva &agrave; actividade imagin&aacute;ria ou da nudez crua da verdade ao manto di&aacute;fano da fantasia. <I>An&aacute;lise Psicol&oacute;gica, VII</I>(1/2/3), 339-341. </P >    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000087&pid=S0870-8231200900010000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P>Delgado, L. (2001). <I>Um olhar sobre a din&acirc;mica afectiva da criatividade atrav&eacute;s da prova projectiva do TAT. </I>Disserta&ccedil;&atilde;o de Mestrado em Psicopatologia e Psicologia Cl&iacute;nica. ISPA. </P >    <P>Delgado, L. (2006). <I>A din&acirc;mica criativa atrav&eacute;s do thematic apperception test &ndash; Sublima&ccedil;&atilde;o, repara&ccedil;&atilde;o e fun&ccedil;&atilde;o continente no processo criativo</I>. Disserta&ccedil;&atilde;o de Doutoramento em Psicologia Aplicada (Psicologia Cl&iacute;nica). UNL-ISPA. </P >    <P>Freud, S. (1925-1981). Los dos principios del funcionamiento mental. In Sigmundo Freud (Ed.), <I>Obras completas </I>(Tomo III, pp. 1638-1642). Madrid: Biblioteca Nueva. </P >     <P>Freud S. (1925a-1981) &ndash; La negation. In Sigmundo Freud (Ed.), <I>Obras    completas </I>(Tomo III, pp. 2884-2886). Madrid: Biblioteca Nueva. </P >     <P>Rauch de Traubenberg, N. (1981). <I>La pratique du Rorschach</I>. Paris: Dunod. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Shentoub, V. (1972). Introdution th&eacute;orique &agrave; la m&eacute;thode    du TAT. <I>Bulletin de Psychologie, 26</I>, 305 (10-11), 582-602. </P >     <P>Shentoub, V. (1973). A propos du normal et du pathologique dans le TAT. <I>Psychologie    Fran&ccedil;aise</I>, <I>18</I>(4), 251-259. </P >     <P>Shentoub, V. (1990). <I>Manuel d&rsquo;utilisation du TAT: Approche psychanalytique</I>. Paris: Dunod. </P >     <P>&nbsp;</P >     <P>&nbsp;</P >     <P>(<a href="#top1">*</a><a name="1"></a>)Professor Auxiliar do ISPA e Psicanalista    da SPP e IPA. </P>       ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Delgado]]></surname>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Da actividade perceptiva à actividade imaginária ou da nudez crua da verdade ao manto diáfano da fantasia]]></article-title>
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<year>1989</year>
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<issue>1/2/3</issue>
<page-range>339-341</page-range></nlm-citation>
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