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<journal-title><![CDATA[Análise Psicológica]]></journal-title>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Clínica da psicossomática: Estudo de um caso]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Taking basis from a clinical case, one tries to explore interactions between some aspects of mental life, psychopathology, and convulsive crisis, on a psychosomatic clinical approach. One inquires of possible connections between acting out, convulsions, mental conception, and mental integration in the course of the psychotherapeutic process.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Crises convulsivas]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <P><b>Cl&iacute;nica da psicossom&aacute;tica: Estudo de um caso</b></P >     <P align="right">Raquel Vieira da Silva (<a href="#1">*</a>)<a name="top1"></a>  </P >     <P align="right">Eduardo S&aacute; (<a href="#2">**</a>)<a name="top2"></a></P >     <P align="center">RESUMO </P >     <P>Partindo de um caso cl&iacute;nico, procuram explorar-se as inter-rela&ccedil;&otilde;es    entre alguns aspectos do funcionamento mental e psicopatol&oacute;gico e, as    crises convulsivas, numa perspectiva cl&iacute;nica da Psicossom&aacute;tica.    Indagam-se as poss&iacute;veis conex&otilde;es entre <I>acting out</I>, convuls&otilde;es,    mentaliza&ccedil;&atilde;o e integra&ccedil;&atilde;o mental, no decurso do    processo psicoterap&ecirc;utico. </P >     <P><I>Palavras-chave</I>: Crises convulsivas, Integra&ccedil;&atilde;o mental,    Psicose psicossom&aacute;tica, Psicoterapia. </P >     <P>&nbsp;</P >     <P align="center">ABSTRACT </P >     <P>Taking basis from a clinical case, one tries to explore interactions between    some aspects of mental life, psychopathology, and convulsive crisis, on a psychosomatic    clinical approach. One inquires of possible connections between acting out,    convulsions, mental conception, and mental integration in the course of the    psychotherapeutic process. </P >     <P><I>Key words</I>: Convulsive crisis, Mental integration, Psychosomatic psychosis,    Psychotherapy. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P >     <P>&nbsp;</P >     <P>O Miguel tem dezoito anos. </P >     <P>Nasceu com uma cardiopatia, que o obrigou, ainda beb&eacute;, a trocar o colo da m&atilde;e e o toque do pai, pela sala de opera&ccedil;&otilde;es. </P >    <P>Aos quatro anos de idade j&aacute; sabia ler e escrever, facto que leva os pais a olharem-no como um sobredotado. Seria, talvez, j&aacute;, s&oacute; a necessidade marcadamente obsessiva de controlo a desenhar-se. </P >    <P>Aos treze anos come&ccedil;a a desenvolver convuls&otilde;es. Na sequ&ecirc;ncia de uma convuls&atilde;o mais violenta, entra, subitamente, em estado de coma, no qual permanece cerca de um m&ecirc;s. Define-se a encefalite viral como causa prov&aacute;vel. A encefalite viral &eacute; uma inflama&ccedil;&atilde;o, relativamente rara, que afecta os tecidos cerebrais com um precipitante virosal. </P >     <P>Quando acorda do coma, a vida do Miguel altera-se substancialmente. Tem, agora,    convuls&otilde;es que o fazem, frequentemente, perder a consci&ecirc;ncia.    Apresenta, tamb&eacute;m, altera&ccedil;&otilde;es graves do comportamento,    com epis&oacute;dios de uma viol&ecirc;ncia descontrolada. Apenas o pai parecia    escapar a estes acessos de f&uacute;ria destruidora. Nestas situa&ccedil;&otilde;es    de total descontrolo, s&oacute; as algemas da pol&iacute;cia &ndash; como, de    facto, chegou a acontecer &ndash; ou grandes doses de sedativos pareciam ser    capazes de conter estas hemorragias de agressividade. </P >     <P>Manifesta, ainda, sequelas, tamb&eacute;m, ao n&iacute;vel da mem&oacute;ria, que, a par do seu comportamento disruptivo e, de dificuldades de aten&ccedil;&atilde;o e concentra&ccedil;&atilde;o fazem ruir o seu percurso escolar, brilhante at&eacute; ent&atilde;o. </P >     <P>A sintomatologia que apresentava &agrave; altura e, que se tem vindo, progressivamente    a esbater, coincide, de facto, com a que os textos da medicina e neurologia    enunciam relativamente &agrave;s encefalites virais, isto &eacute;: altera&ccedil;&atilde;o    da personalidade, convuls&otilde;es, confus&atilde;o, sonol&ecirc;ncia, coma,    altera&ccedil;&otilde;es de estados de consci&ecirc;ncia, desorienta&ccedil;&atilde;o,    dist&uacute;rbios do comportamento e do discurso; perdas ao n&iacute;vel da    mem&oacute;ria, percep&ccedil;&atilde;o e capacidades de planifica&ccedil;&atilde;o    e organiza&ccedil;&atilde;o da ac&ccedil;&atilde;o (Deka, Bhuyan, &amp; Chaundhury,    2006; Kneen &amp; Solomon, 2007; Merck Sharp &amp; Dohme, 2003; Whitley &amp;    Guann, 2002). </P >     <P>Um diagn&oacute;stico m&eacute;dico exacto, nestes casos, s&oacute; se define atrav&eacute;s de uma an&aacute;lise dos tecidos afectados pela inflama&ccedil;&atilde;o, o que implicaria uma biopsia aos tecidos cerebrais (Kneen &amp; Solomon, 2007; Smith, 1981). Por&eacute;m, dado o car&aacute;cter perigoso e impratic&aacute;vel de tais procedimentos, a maior parte das vezes, o diagn&oacute;stico &eacute; estabelecido atrav&eacute;s de uma an&aacute;lise do l&iacute;quido cefalorraqu&iacute;deano, de an&aacute;lises imunol&oacute;gicas e de t&eacute;cnicas de imagiologia cerebral (Kneen &amp; Solomon, 2007; Merck Sharp &amp; Dohme, 2003). No entanto, s&oacute; em 30% dos casos &eacute; identificado o agente patog&eacute;nico, pelo que, frequentemente, o diagn&oacute;stico assenta apenas nos sintomas (Kneen &amp; Solomon, 2007). O que viria a acontecer no caso do Miguel, em que nunca ter&atilde;o sido confirmados quaisquer vest&iacute;gios do v&iacute;rus. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Temos, assim, um adolescente, que ainda beb&eacute; experimenta experi&ecirc;ncias    de quase-morte na sequ&ecirc;ncia de uma cardiopatia. Cresce entre os receios    e ang&uacute;stia de quem o tenta proteger na &acirc;nsia de p&ocirc;r o <I>medo    da morte </I>a correr. Podemos, imagin&aacute;-lo, crian&ccedil;a numa inf&acirc;ncia    prol&iacute;fera em tabuletas de: n&atilde;o pisar; n&atilde;o correr; n&atilde;o    ultrapassar; muitos n&atilde;os &ndash; demasiado ansiosos &ndash; a preencherem    os seus dias. </P >     <P>O dom&iacute;nio das compet&ecirc;ncias escolares e o desenvolvimento das capacidades    cognitivas surge, naturalmente, como ref&uacute;gio a um corpo que, por imprevis&iacute;vel,    pode ser assustador. Sentimento que se acentua com as manifesta&ccedil;&otilde;es    exuberantes da puberdade e, para o qual, o Miguel deixa de ter estrat&eacute;gias    eficazes de controlo. </P >     <P>Se, desde muito cedo, percebe n&atilde;o poder controlar o seu corpo e &eacute;    &ndash; paradoxalmente &ndash; ensinado a conter-se, a impor-se-lhe um ritmo    que n&atilde;o &eacute; o seu, rapidamente tenta controlar o que verdadeiramente    nunca poder&aacute; fazer: o seu pensamento. </P >     <P>Temos assim, um adolescente, com um contacto demasiado pr&oacute;ximo da morte,    que de um dia para o outro, v&ecirc; a sua vida devastada. Perante isto, vai    agindo todo o &oacute;dio incontido. E &ndash; facto a reter &ndash; &eacute;    o de que os seus <I>acting out </I>agressivos serem t&atilde;o mais frequentes,    quanto menor &eacute; a frequ&ecirc;ncia das suas convuls&otilde;es. O seu quadro    parece, assim, coincidir com as controversas considera&ccedil;&otilde;es de    muitos autores, como Landolt ou Tellanbach (cit. in Seethalak-shmi &amp; Krishnamoorthy,    2007), segundo os quais, quando h&aacute; uma tendente normaliza&ccedil;&atilde;o    do electro-encefalograma (e, consequentemente, uma menor propens&atilde;o para    as convuls&otilde;es) verifica-se uma maior emerg&ecirc;ncia da sintomatologia    psico-patol&oacute;gica (nomeadamente de car&aacute;cter psic&oacute;tico).  </P >     <P>Aquando das primeiras crises convulsivas, o Miguel, imediatamente, inicia uma    terap&ecirc;utica medicamentosa de anti-convulsivantes e neurol&eacute;pticos    que, usados simultaneamente, podem resultar numa maior recorr&ecirc;ncia de    sintomas psic&oacute;ticos previamente controlados, como alerta Kanner (2000).    Poderemos aqui lan&ccedil;ar uma primeira reflex&atilde;o sobre as manifesta&ccedil;&otilde;es    do Miguel: ser&atilde;o mais uma consequ&ecirc;ncia da terap&ecirc;utica medicamentosa    ou reflexos psicopatol&oacute;gicos da doen&ccedil;a? </P >     <P>&Eacute; na sequ&ecirc;ncia de todo este contexto, que o Miguel inicia um processo psicoterap&ecirc;utico. </P >     <P>Verifica-se, no ano seguinte, que os epis&oacute;dios agressivos e, as convuls&otilde;es    diminuem, um pouco, de intensidade e frequ&ecirc;ncia. Elas s&atilde;o quase    na sua totalidade, dirigidas a mulheres, e, numa fase posterior, direccionadas,    particularmente, &agrave; sua m&atilde;e. Tamb&eacute;m as suas capacidades    de aprendizagem parecem iniciar um ciclo de recupera&ccedil;&atilde;o. S&oacute;    as suas marcadas dificuldades relacionais, respons&aacute;veis por um profundo    isolamento social, se mant&ecirc;m inalteradas. </P >     <P>Contrariando este tra&ccedil;ado ascendente, o quadro cl&iacute;nico do Miguel    agrava-se, de uma forma s&uacute;bita, um ano e meio depois de iniciado o processo    psicoterap&ecirc;utico. As crises de descontrolo agressivo adquirem uma exuber&acirc;ncia    extrema. E &eacute; neste contexto de grande desorganiza&ccedil;&atilde;o,    que por decis&atilde;o parental, &eacute; internado numa Unidade de Pedopsiquiatria,    por algumas semanas. N&atilde;o ser&aacute; de todo indiferente, este agravamento    do seu quadro cl&iacute;nico, coincidir com o per&iacute;odo em que, por impedimento    da psicoterapeuta que o acompanhava, se estar a preparar a transi&ccedil;&atilde;o    de psic&oacute;logo. Podemos presumir que a imin&ecirc;ncia da separa&ccedil;&atilde;o    psico-terap&ecirc;utica reavivou ang&uacute;stias que, por t&atilde;o prim&aacute;rias    e intensas, desencadearam as crises convulsivantes. Tudo o n&atilde;o mentaliz&aacute;vel,    todo o sofrimento cumulativo emergiu como uma descarga el&eacute;ctrica neuronal    que curto-circuita todo o aparelho do pensamento. Para n&atilde;o enlouquecer    ou, mesmo, para n&atilde;o morrer, os sistemas de consci&ecirc;ncia s&atilde;o    desligados abruptamente. </P >     <P>Pouco tempo depois de deixar este internamento, o Miguel retoma a psicoterapia, de regularidade semanal, com um novo psicoterapeuta. </P >     <P>Com o consolidar da rela&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica, o seu estado cl&iacute;nico    volta a apresentar melhoras progressivas: as convuls&otilde;es, ou os <I>trecos</I>,    como o Miguel lhes chama, voltam a ser menos frequentes e os epis&oacute;dios    agressivos come&ccedil;am a ser, cada vez mais, epis&oacute;dicos. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Por defini&ccedil;&atilde;o, as convuls&otilde;es resultam, geralmente, de momentos de maior estimula&ccedil;&atilde;o, que provocam descargas el&eacute;ctricas no c&eacute;rebro (Merck Sharp &amp; Dohme, 2003). Neste contexto, seria de esperar que os momentos de maior estimula&ccedil;&atilde;o vividos no espa&ccedil;o terap&ecirc;utico, como as interpreta&ccedil;&otilde;es e a viv&ecirc;ncia intensa de emo&ccedil;&otilde;es, pudessem desencadear convuls&otilde;es. Ora tal nunca aconteceu! Paradoxalmente, o Miguel viria a ter a primeira e &uacute;nica convuls&atilde;o (com perda de consci&ecirc;ncia) no espa&ccedil;o terap&ecirc;utico, numa fase em que a psicoterapia parecia entrar numa situa&ccedil;&atilde;o de impasse, marcada por um desencontro relacional/aus&ecirc;ncia de <I>r&ecirc;verie</I>, em que as interpreta&ccedil;&otilde;es do psicoterapeuta eram meramente orbitais: em tese, menos geradoras de estimula&ccedil;&atilde;o e, na pr&aacute;tica, menos contentoras e transformadoras. </P >    <P>&Eacute; tamb&eacute;m nesta altura, que o quadro cl&iacute;nico do Miguel exibe um retrocesso significativo, com um aumento exponencial da frequ&ecirc;ncia das convuls&otilde;es, principalmente em contexto escolar. As convuls&otilde;es e, uma crise de descontrolo agressivo para com uma colega, precipitam o abandono da escolaridade, quando frequentava o 10.&ordm; ano. Come&ccedil;a, ent&atilde;o, a ter convuls&otilde;es menos fortes (a que denomina de <I>aus&ecirc;ncias</I>), nas quais ap&oacute;s intensos movimentos oculares, fecha os olhos e n&atilde;o consegue falar, mas ouve e mant&eacute;m-se consciente. Os m&eacute;dicos n&atilde;o encontram uma causa org&acirc;nica. Estas <I>aus&ecirc;ncias </I>coexistem com os <I>trecos</I>, em que perde, efectivamente, a consci&ecirc;ncia. </P >    <P>O abandono escolar remete-o para as quatro paredes da sua casa, o que agrava ainda mais o seu isolamento social. </P >     <P>As crises convulsivas do Miguel parecem estar associadas a um controlo r&iacute;gido    do pensamento, como demonstra uma passagem de uma sess&atilde;o, alguns meses    depois de ter tido a convuls&atilde;o no espa&ccedil;o psicoterap&ecirc;utico:    &ldquo;<I>Eu gosto de perguntas porque sei l&aacute; &hellip; quando come&ccedil;o    a </I><I>pensar assim, sem perguntas &hellip; est&aacute; a ver ali o ch&atilde;o;    d&aacute;-me uma coisinha e eu fico l&aacute; deitado a babar-me &hellip; Quando    penso muito, come&ccedil;o a pensar porque &eacute; que eu pensei aquilo, depois    n&atilde;o sei, depois fico muito nervoso e tenho uma convuls&atilde;o</I>&rdquo;.    Esta incapacidade de tolerar o desconhecido, o incognosc&iacute;vel, encapsula    o seu aparelho de pensar e bloqueia qualquer movimento da fantasia. &Eacute;    incapaz de integrar imagens mentais. Pelo contr&aacute;rio, elas desintegram-no.  </P >     <P>Neste sentido, o trabalho da rela&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica &eacute;, acima de tudo, um trabalho integrador. Interpreta&ccedil;&otilde;es que permitam o trajecto da imagem para a fantasia, da fantasia para a fun&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica e da&iacute; para a linguagem da comunh&atilde;o: a fun&ccedil;&atilde;o do terapeuta &eacute;, assim, p&ocirc;r os diferentes n&iacute;veis de consci&ecirc;ncia em comunh&atilde;o uns com os outros (S&aacute;, 2000). O que s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel quando a rela&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica &eacute; capaz de criar, ela pr&oacute;pria, experi&ecirc;ncias de comunh&atilde;o. </P >    <P>&Eacute; este o caminho, entretanto tra&ccedil;ado pelo Miguel e o seu psic&oacute;logo. As interpreta&ccedil;&otilde;es procuram promover a mentaliza&ccedil;&atilde;o da ang&uacute;stia atrav&eacute;s, por exemplo, da constru&ccedil;&atilde;o de enredos em torno do mal, em torno da defici&ecirc;ncia/ /doen&ccedil;a, abrindo espa&ccedil;o para a representa&ccedil;&atilde;o mental, para a imagem, para o simb&oacute;lico e, inevitavelmente, expandindo o imagin&aacute;rio. </P >    <P>Come&ccedil;aram a orientar-se, de uma forma mais incisiva, para a raiva imensa &ndash; &oacute;dio &ndash; que o Miguel sente; para as fantasias destrutivas; para a ang&uacute;stia de morte e fragmenta&ccedil;&atilde;o (que alimentam o imenso desamparo, solid&atilde;o e abandono que sente). Quando se integram os aspectos mais atemorizantes do Miguel, menos o Miguel convulsiona. Quando se integram imagens mentais, elas s&atilde;o coladas de novo, mas agora &agrave; margem das experi&ecirc;ncias de terror que vivenciou. </P >    <P>O Miguel come&ccedil;a a poder zangar-se, abertamente, nas sess&otilde;es. Zanga que verbaliza, primeiro, em rela&ccedil;&atilde;o aos pais, particularmente ao pai, para, depois, estimulado pelas interpreta&ccedil;&otilde;es na transfer&ecirc;ncia, a poder dirigir, directamente, ao terapeuta, qual tubo de ensaio para poder afrontar directamente o pai, sem o cariz de descontrolo associado, em si, habitualmente, &agrave; viol&ecirc;ncia. </P >    <P>Os <I>acting out </I>agressivos para al&eacute;m de serem cada vez menos intensos e frequentes, s&atilde;o, agora, preferencialmente dirigidos ao pai, o &uacute;nico que, a princ&iacute;pio, parecia escapar aos seus epis&oacute;dios de viol&ecirc;ncia agida. Podemos questionar esta n&atilde;o aleatoriedade das crises. Se a causa fosse meramente neurol&oacute;gica, a morfologia das crises n&atilde;o teria um car&aacute;cter mais incerto? A verdade &eacute; que, gradualmente, foram cessando at&eacute; serem, progressivamente, substitu&iacute;das por discuss&otilde;es abertas e, por fantasias violentas, acompanhadas de fobia de impuls&atilde;o, como ilustram as seguintes passagens: </P >     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1) &ldquo;<I>Se fosse h&aacute; dois anos atr&aacute;s eu tinha partido tudo...      Ai, mas eu fiquei com tanta vontade de dar uns murros, ai, mas tanta vontade!      Eu qualquer dia...</I>&rdquo;; </p>       <p>2) &ldquo;(...) <I>ou isto muda e eu passo-me e n&atilde;o respondo por mim!      Olhe que se fosse dantes eu j&aacute; me tinha passado! Eu s&oacute; tenho      medo de me passar e matar algu&eacute;m!</I>&rdquo;. </p> </blockquote>     <P>O Miguel parece cada vez mais capaz de mentalizar as suas ang&uacute;stias.    Mas, o esbatimento da omnipot&ecirc;ncia e do controlo deixam o seu n&uacute;cleo    melanc&oacute;lico mais exposto. Traz, ent&atilde;o, para a sess&atilde;o, conte&uacute;dos    suicid&aacute;rios, acompanhados pela fantasia de que s&oacute; morrendo pode    marcar a sua presen&ccedil;a nos outros: &ldquo;(...) <I>eu moro num terceiro    andar e se eu me mando de l&aacute; abaixo. Ultimamente tenho pensado muito    nisso. Ainda no outro dia estava no meu quarto; s&oacute; estava o meu irm&atilde;o    em casa e, eu pensei em ir cham&aacute;-lo para vir ver uma coisa e, quando    ele entrasse no quarto eu subia para a varanda, para ver se ele me segurava    e atirava-me. Mas, depois, deitei-me na cama e fiquei a olhar para </I><I>o    tecto e a pensar: a minha vida &eacute; uma merda, vou-me atirar! Oh p&aacute;,    n&atilde;o, eu n&atilde;o me quero atirar! E fiquei nisto. Mas depois tamb&eacute;m    penso, se eu algum dia fizer isto n&atilde;o pode ser sozinho.Tem de estar gente    em casa. &Eacute; para ver se me agarram, n&atilde;o sei</I>&rdquo;. </P >     <P>Pela mesma altura traz para a rela&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica, as    suas fantasias violentas, que intui j&aacute; poder imaginar sem as agir. Uma,    por&eacute;m, angustia-o, particularmente: fantasias de viol&ecirc;ncia sexual    sobre mulheres. Verbaliza que quanto mais tenta n&atilde;o pensar nisso, mais    o faz de um modo compulsivo. O Miguel j&aacute; tolera a imagem, j&aacute; imagina    com contrapartida objectal. Isto &eacute;, j&aacute; n&atilde;o capitula perante    o quase-nada objectal, j&aacute; n&atilde;o coloca o corpo e a mente a protegerem-se    um do outro perante a imin&ecirc;ncia do vazio. Agora existe um outro, que lhe    permite sentir que a fantasia n&atilde;o fica &agrave; solta, indomada, ou o    coloca na emerg&ecirc;ncia destrutiva. Agora, podemos arriscar que o seu trajecto    digestivo mental est&aacute; a ser reposto. J&aacute; tem uma fun&ccedil;&atilde;o    simb&oacute;lica. O Miguel, no &acirc;mago de toda a sua fealdade e sentimento    de incapacidade, sente que n&atilde;o pode ambicionar amar uma mulher ou ser    amado por ela. Como se o m&aacute;ximo que pudesse esperar fosse agarr&aacute;-la    num beco e atac&aacute;-la. Mas, vai ser capaz de escrever uma carta de amor.    Vai ser capaz de a entregar. E perante a rejei&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o    so&ccedil;obrar. </P >     <P>Algumas semanas depois, traz, pela primeira vez um sonho para a sess&atilde;o: &ldquo;<I>A m&atilde;e dela n&atilde;o queria que n&oacute;s fal&aacute;ssemos. N&atilde;o sei porqu&ecirc;. Entrei no pr&eacute;dio dela e, aquilo ficou enorme, enorme, aquilo j&aacute; &eacute; grande, mas ficou enorme, cheio de portas, portas, parecia um labirinto, parecia mesmo um labirinto. Eu tocava nas portas e n&atilde;o era o s&eacute;timo direito. Quanto mais andava, mais portas apareciam. At&eacute; que encontrei um senhor que me disse onde era. L&aacute; fui e consegui sair do labirinto e tocar &agrave; porta dela. Ela estava &agrave; minha espera. Entrei e fic&aacute;mos a conversar na sala, todos contentes. Convers&aacute;vamos sobre as coisas passadas e sobre a vida de agora&rdquo;. Um sonho que d&aacute; conta do car&aacute;cter integrador da rela&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica, enquanto catalisador da constru&ccedil;&atilde;o da sa&iacute;da do labirinto da sua vida em que, tantas e tantas vezes, se foi sentindo completamente isolado, desamparado e entregue a um destino tr&aacute;gico, do pensar e integrar das &ldquo;coisas passadas e sobre a vida de agora</I>&rdquo;. </P >     <P>A sua capacidade crescente de metaboliza&ccedil;&atilde;o permite-lhe, poder    pensar-se, al&eacute;m da doen&ccedil;a, al&eacute;m do v&iacute;rus: &ldquo;<I>Mas    oh doutor, ent&atilde;o responda</I><I>-</I><I>me a uma pergunta: ent&atilde;o    isto de ser chato e aquilo de partir tudo que eu fazia n&atilde;o &eacute; da    epilepsia; &eacute; do meu feitio? Mas eu antes tinha uma vida normal; tinha    amigos, divertia-me. Era normal</I>&rdquo;. Permite-lhe pensar as rela&ccedil;&otilde;es    interpessoais; as raz&otilde;es do seu profundo isolamento, da sua profunda    solid&atilde;o e, esbo&ccedil;ar movimentos de alguma aproxima&ccedil;&atilde;o    aos outros. </P >     <P>N&atilde;o podemos esquecer que todo e qualquer processo de integra&ccedil;&atilde;o mental poder&aacute; implicar, no limite, desintegra&ccedil;&atilde;o. </P >    <P>&Eacute; a prop&oacute;sito destes conte&uacute;dos que um de n&oacute;s (S&aacute;, 2009), se refere a um quadro que se chamou de <I>psicose psicossom&aacute;tica</I>, referindo-se &agrave; presen&ccedil;a de reac&ccedil;&otilde;es violentas (compagin&aacute;veis com a psicose) a um sofrimento depressivo grave dos objectos internos, sentido como persecut&oacute;rio no pr&oacute;prio. Este sofrimento depressivo, mortificante da vida emocional, n&atilde;o podendo traduzir-se em epis&oacute;dios de viol&ecirc;ncia reactiva, em rela&ccedil;&atilde;o a ele (em consequ&ecirc;ncia de regras de conten&ccedil;&atilde;o educativa major), pode provocar, a n&iacute;vel do sistema nervoso, uma reac&ccedil;&atilde;o paradoxal, fazendo com que os indicadores emocionais de sa&uacute;de sejam sentidos muito mais como desorganizadores do que como integrativos. Nestas circunst&acirc;ncias, um sofrimento violento acompanhado por uma conten&ccedil;&atilde;o emocional violenta poder&aacute; levar ou contribuir para somatiza&ccedil;&otilde;es graves (tais como acidentes vasculares cerebrais, doen&ccedil;as oncol&oacute;gicas ou doen&ccedil;as degenerativas), nos adolescentes, o que poder&aacute; ter sucedido com o Miguel. </P >    <P>O Miguel, entretanto voltou &agrave; escola. Mas a uma escola para crian&ccedil;as com defici&ecirc;ncias adquiridas e atrasos de desenvolvimento graves, onde foi capaz, pela primeira vez, desde que acordou de coma, de manter uma rela&ccedil;&atilde;o de algum companheirismo com dois colegas da Escola. N&atilde;o sem inseguran&ccedil;as ou ang&uacute;stias persecut&oacute;rias! Mas com o valor potencial da passagem para novos investimentos relacionais. </P >     <P>Depois de um largo per&iacute;odo em que as crises convulsivas foram quase    extintas, o Miguel desenvolve algumas crises convulsivas no caminho para a Escola.    Este incremento da frequ&ecirc;ncia das convuls&otilde;es coincide com o seu    desejo em abandonar a institui&ccedil;&atilde;o de ensino que frequenta, por    h&aacute; muito ter aprendido toda a mat&eacute;ria e estar, h&aacute; algum    tempo, sem nada para fazer nas aulas e, por, no dizer dele, &ldquo;<I>s&oacute;    ver desgra&ccedil;as</I>&rdquo; (adolescentes com defici&ecirc;ncias graves).    Quer voltar ao Ensino Regular: &ldquo;<I>Eu n&atilde;o sei se consigo ou n&atilde;o    fazer o 12.&ordm; ano, mas eu </I><I>quero tentar! Eu sei que s&atilde;o muitas    cadeiras e muita mat&eacute;ria. Mas se eu fizer s&oacute; tr&ecirc;s ou quatro    cadeiras por ano, pode demorar muito, mas eu acho que consigo</I>&rdquo;. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Entre uma encefalopatia que o dilacerou sem que se questionasse a sua etiologia,    e as reac&ccedil;&otilde;es psicopatol&oacute;gicas que trouxe, o Miguel est&aacute;    a reencontrar-se. Pensa de uma forma organizada, e a incid&ecirc;ncia dos sintomas    esbateu-se significativamente. Foi por tudo isto que o entendemos como uma    situa&ccedil;&atilde;o did&aacute;ctica, a partir da qual mobiliz&aacute;mos    uma compreens&atilde;o cl&iacute;nica da psicossom&aacute;tica. </P >     <P>&nbsp;</P >     <P>&nbsp;</P >     <P align="center">REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS </P >     <P>Deka, K., Bhuyan, D., &amp; Chaundhury, P. H. (2006). Conduct disorder: A sequelae    of viral encephalitis. <I>Indian Journal of Psychiatry, 48</I>, 258-259. </P >     <P>Kanner, A. (2000). Review &ndash; Psychosis of Epilepsy: a Neurologist&rsquo;s    Perspective. <I>Epilepsy &amp; Behavior, 1</I>, 219-227. </P >     <P>Kneen, R., &amp; Solomon, T. (2007). Management and outcome of viral encephalitis    in children. <I>Paediatrics and Child Health, 18</I>(1), 7-16. </P >     <P>Merck Sharp &amp; Dohme (2003). <I>Manual Merck: Sa&uacute;de para a fam&iacute;lia</I>.    Porto: Editorial Oceano. </P >     <P>Seethalakshmi, R., &amp; Krishnamoorthy, E. (2007). The complex relationship    between seizures and behavior: An illustrative case report. <I>Epilepsy &amp;    Behavior, 10</I>, 203-205. </P >     <P>S&aacute;, E. (2009). <I>Esbo&ccedil;o para uma nova psican&aacute;lise</I>.    Coimbra: Almedina </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Smith, H. (1981). Acute viral encephalitis. <I>British Medical Journal, 283</I>,    935-936. </P >     <P>Whitley, R., &amp; Gnann, J. (2002). Viral encephalitis: familiar infections    and emerging pathogens. <I>Lancet, 359</I>, 507-514. </P >     <P>&nbsp;</P >     <P>&nbsp;</P >     <P><a name="1"></a>(<a href="#top1">*</a>) Psic&oacute;loga cl&iacute;nica. </P >     <P>(<a name="2"></a><a href="#top2">**</a>) Universidade de Coimbra e Instituto    Superior de Psicologia Aplicada. </P >      ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Kanner]]></surname>
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