<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0870-8231</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Análise Psicológica]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Aná. Psicológica]]></abbrev-journal-title>
<issn>0870-8231</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[ISPA-Instituto Universitário]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0870-82312009000300011</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A expressão no Rorschach dos fenómenos transitivos e do espaço potencial na personalidade borderline]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Godinho]]></surname>
<given-names><![CDATA[Marta Queiroz]]></given-names>
</name>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Marques]]></surname>
<given-names><![CDATA[Maria Emília]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Pinheiro]]></surname>
<given-names><![CDATA[Catarina Bray]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A02"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Instituto Superior de Psicologia Aplicada  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A02">
<institution><![CDATA[,Hospital Fernando Fonseca  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>07</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>07</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<volume>27</volume>
<numero>3</numero>
<fpage>349</fpage>
<lpage>363</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0870-82312009000300011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0870-82312009000300011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0870-82312009000300011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Pretendemos compreender, à luz do método Rorschach, as características dos fenómenos transitivos e do espaço potencial no sujeito borderline. O estudo destes conceitos é desenvolvido tendo por base as teorias de Winnicott e Ogden sobre a psicopatologia dos fenómenos transitivos e do espaço potencial, respectivamente. Para uma melhor compreensão destes conceitos no caso borderline, procuramos articulá-los com os conceitos de função materna e de angústia branca de Green. O método Rorschach é perspectivado na sua dimensão intersubjectiva e dinâmica, em que o apelo a um duplo modo de funcionamento (perceptivo e projectivo) permite uma compreensão mais aprofundada da dinâmica relacional entre o interno e o externo, no espaço psíquico do sujeito borderline. É elaborada uma leitura dos conceitos de fenómenos transitivos e de espaço potencial, procurando integrar e articular a revisão de literatura e os elementos Rorschach. Neste contexto é aplicado o Rorschach a um sujeito do sexo feminino com o diagnóstico de perturbação borderline da personalidade. Da análise do protocolo destacamos que, apesar da impossibilidade de estabelecer uma relação intersubjectiva entre o real e o imaginário, o interno e o externo, o sujeito é capaz de mobilizar estratégias arcaicas que lhe permitem um contacto mínimo com o outro. A imagem Rorschach é experimentada como um objecto real, adquirindo a função (suporte) e as qualidades (reconfortantes) de um objecto transitivo. Os movimentos do sujeito dão conta de uma aproximação ao espaço potencial - espaço prépotencial.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This study uses the Rorschach method in order to understand the characteristics of both transitional phenomena and potential space in patients with Borderline Personality Disorder (BPD). The approach to the aforementioned concepts follows respectively Winnicott and Ogden&#8217;s theories about transitional phenomena and potential space psychopathology. For a better understanding of both concepts in the context of BPD, we have articulated them with motherhood function and Green&#8217;s white anguish. Inter-subjective and dynamic features of the Rorschach Method, both of which call for a double working mode (perceptive and projective), are herewith used eventually leading to a deeper understanding of the existing relational dynamics &#8220;internal-external&#8221; in the psychic space of borderline patients. Thus, the main concepts under analysis are interpreted in the light of a literature review, which is duly articulated with Rorschach elements. In this context we have applied the Rorschach method to a female individual who had been previously diagnosed BPD. The analysis performed to the protocol demonstrates the patient&#8217;s ability to apply very basic strategies in order to enter into a minimum contact with external objects, though she is not capable of establishing an inter-subjective relation between fantasy and reality or between the internal world and the external world. The patient with BPD experiences the Rorschach image as if it was a real object that bears the function (holding) and the (cheering) characteristics of a transitional object. These strategies points to an approximation to a potential space, i.e., a pre-potential space.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Borderline]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Espaço potencial]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Fenómeno transitivo]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Função materna]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Rorschach]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Borderline]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Motherhood function]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Potential space]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Rorschach]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Transitional phenomena]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"   ><b>A express&atilde;o no Rorschach dos fen&oacute;menos transitivos e do espa&ccedil;o    potencial na personalidade borderline (<a href="#1">*</a><a name="top1"></a>)</b>  </p >        <P   align="right" >Marta Queiroz Godinho (<a href="#2">**</a><a name="top2"></a>) </P >     <P   align="right" >Maria Em&iacute;lia Marques (<a href="#3">***</a><a name="top3"></a>) </P >     <P   align="right" >Catarina Bray Pinheiro (<a href="#4">****</a><a name="top4"></a>) </P >     <P   align="center" >RESUMO </P >     <P   align="justify" >Pretendemos compreender, &agrave; luz do m&eacute;todo Rorschach, as caracter&iacute;sticas    dos fen&oacute;menos transitivos e do espa&ccedil;o potencial no sujeito <I>borderline</I>.    O estudo destes conceitos &eacute; desenvolvido tendo por base as teorias de    Winnicott e Ogden sobre a psicopatologia dos fen&oacute;menos transitivos e    do espa&ccedil;o potencial, respectivamente. Para uma melhor compreens&atilde;o    destes conceitos no caso <I>borderline</I>, procuramos articul&aacute;-los com    os conceitos de fun&ccedil;&atilde;o materna e de ang&uacute;stia branca de    Green. </P >     <P   align="justify" >O m&eacute;todo Rorschach &eacute; perspectivado na sua dimens&atilde;o intersubjectiva    e din&acirc;mica, em que o apelo a um duplo modo de funcionamento (perceptivo    e projectivo) permite uma compreens&atilde;o mais aprofundada da din&acirc;mica    relacional entre o interno e o externo, no espa&ccedil;o ps&iacute;quico do    sujeito <I>borderline</I>. &Eacute; elaborada uma leitura dos conceitos de fen&oacute;menos    transitivos e de espa&ccedil;o potencial, procurando integrar e articular a    revis&atilde;o de literatura e os elementos Rorschach. Neste contexto &eacute;    aplicado o Rorschach a um sujeito do sexo feminino com o diagn&oacute;stico    de perturba&ccedil;&atilde;o <I>borderline </I>da personalidade. </P >     <P   align="justify" >Da an&aacute;lise do protocolo destacamos que, apesar da impossibilidade de estabelecer    uma rela&ccedil;&atilde;o intersubjectiva entre o real e o imagin&aacute;rio,    o interno e o externo, o sujeito &eacute; capaz de mobilizar estrat&eacute;gias    arcaicas que lhe permitem um contacto m&iacute;nimo com o outro. A imagem Rorschach    &eacute; experimentada como um objecto real, adquirindo a fun&ccedil;&atilde;o    (suporte) e as qualidades (reconfortantes) de um objecto transitivo. Os movimentos    do sujeito d&atilde;o conta de uma aproxima&ccedil;&atilde;o ao espa&ccedil;o    potencial &ndash; espa&ccedil;o pr&eacute;potencial. </P >     <P   align="justify" ><I>Palavras chave: Borderline</I>, Espa&ccedil;o potencial, Fen&oacute;meno transitivo,    Fun&ccedil;&atilde;o materna, Rorschach. </P >     <P   align="center" >ABSTRACT </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >This study uses the Rorschach method in order to understand the characteristics    of both transitional phenomena and potential space in patients with Borderline    Personality Disorder (BPD). The approach to the aforementioned concepts follows    respectively Winnicott and Ogden&rsquo;s theories about transitional phenomena    and potential space psychopathology. For a better understanding of both concepts    in the context of BPD, we have articulated them with motherhood function and    Green&rsquo;s white anguish. </P >     <P   align="justify" >Inter-subjective and dynamic features of the Rorschach Method, both of which    call for a double working mode (perceptive and projective), are herewith used    eventually leading to a deeper understanding of the existing relational dynamics    &ldquo;internal-external&rdquo; in the psychic space of borderline patients.    Thus, the main concepts under analysis are interpreted in the light of a literature    review, which is duly articulated with Rorschach elements. In this context we    have applied the Rorschach method to a female individual who had been previously    diagnosed BPD. </P >     <P   align="justify" >The analysis performed to the protocol demonstrates the patient&rsquo;s ability    to apply very basic strategies in order to enter into a minimum contact with    external objects, though she is not capable of establishing an inter-subjective    relation between fantasy and reality or between the internal world and the external    world. The patient with BPD experiences the Rorschach image as if it was a real    object that bears the function (holding) and the (cheering) characteristics    of a transitional object. These strategies points to an approximation to a potential    space, i.e., a pre-potential space. </P >     <P   align="justify" ><I>Key words: </I>Borderline, Motherhood function, Potential space, Rorschach,    Transitional phenomena. </P >     <P   align="center" >INTRODU&Ccedil;&Atilde;O </P >     <P   align="justify" >Partindo de uma abordagem psicodin&acirc;mica, visamos compreender as caracter&iacute;sticas dos fen&oacute;menos transitivos e do espa&ccedil;o potencial no sujeito <I>borderline</I>, atrav&eacute;s do m&eacute;todo Rorschach. Para o estudo destes conceitos, recorremos &agrave;s teorias de Winnicott e de Ogden sobre a psico-patologia dos fen&oacute;menos transitivos e do espa&ccedil;o potencial, respectivamente. </P >     <P   align="justify" >Dada a import&acirc;ncia dos cuidados prim&aacute;rios no desenvolvimento de    uma autonomia f&iacute;sica e ps&iacute;quica que permita ao sujeito construir    as suas pr&oacute;prias experi&ecirc;ncias, procuramos articular o conceito    de fun&ccedil;&atilde;o materna com os conceitos em estudo. Para uma melhor    compreens&atilde;o destes conceitos no caso <I>borderline</I>, procuramos relacion&aacute;-los    com o conceito de ang&uacute;stia branca de Green. </P >     <P   align="justify" >Tendo em conta o objectivo do estudo, propomos uma leitura dos conceitos de    fen&oacute;menos transitivos e de espa&ccedil;o potencial, procurando integrar    e articular a revis&atilde;o de literatura e os elementos Rorschach. Neste contexto,    &eacute; aplicado o Rorschach a um sujeito do sexo feminino com </P >o diagn&oacute;stico de perturba&ccedil;&atilde;o <I>borderline </I>da </P >personalidade. A pertin&ecirc;ncia deste estudo reside no facto de o Rorschach    permitir, atrav&eacute;s do apelo a um duplo modo de funcionamento (apelo ao    real e ao imagin&aacute;rio), conhecer, numa dimens&atilde;o simb&oacute;lica,    a din&acirc;mica relacional entre o mundo interno do sujeito e o mundo externo    e, por conseguinte, aferir sobre a capacidade do sujeito em aceder &agrave;    &aacute;rea dos fen&oacute;menos transitivos. </P ></P >     <P   align="justify" >Reconhecida a dificuldade do sujeito <I>border</I><I></I><I>line </I>em aceder    &agrave; &aacute;rea dos fen&oacute;menos transitivos, o Rorschach pode dar-nos    conta das estrat&eacute;gias mobilizadas para estabelecer uma separa&ccedil;&atilde;o    e um contacto m&iacute;nimo com o Outro.</P >     <P   align="center" >FEN&Oacute;MENOS TRANSITIVOS E ESPA&Ccedil;O POTENCIAL</P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >Winnicott (1971/1975) introduziu os conceitos objecto transitivo e fen&oacute;meno    transitivo para designar a &aacute;rea intermedi&aacute;ria entre o erotismo    oral e a verdadeira rela&ccedil;&atilde;o de objecto. </P >     <P   align="justify" >A primeira possess&atilde;o &ldquo;n&atilde;o-Eu&rdquo; &eacute; designada por Winnicott como objecto transitivo. &Eacute; atrav&eacute;s de um <I>holding </I>adequado que o beb&eacute; come&ccedil;a a construir a chamada &ldquo;continuidade de ser&rdquo;. A falta de um <I>holding </I>adequado, conduz &agrave; interrup&ccedil;&atilde;o da continuidade de ser (Winnicott, 1986). De acordo com Davis e Wallbridge (1981), em termos psicol&oacute;gicos, o <I>holding </I>tem a fun&ccedil;&atilde;o de suporte do Eu. </P >    <P   align="justify" >A caracter&iacute;stica essencial da &aacute;rea dos objectos e fen&oacute;menos transitivos &eacute; o paradoxo e a aceita&ccedil;&atilde;o do paradoxo: o beb&eacute; cria o objecto, mas este j&aacute; l&aacute; estava para ser criado e investido. Quando este paradoxo &eacute; aceite, o objecto transitivo &eacute; gradualmente desinvestido (Winnicott, 1971/1975). Segundo Pontalis (1999), ao perder gradualmente a sua significa&ccedil;&atilde;o, o objecto transitivo &eacute; substitu&iacute;do na sua fun&ccedil;&atilde;o por uma difus&atilde;o de fen&oacute;menos transitivos que n&atilde;o precisam do suporte real de um objecto. </P >     <P   align="justify" >Winnicott (1971/1975), refere que o objecto e os fen&oacute;menos transitivos    correspondem a uma &aacute;rea neutra de experi&ecirc;ncia. Segundo Davis e    Wallbridge (1981), Winnicott defende que &eacute; apenas ao ser criativo que    o indiv&iacute;duo descobre o <I>Self </I>e, ainda, que para viver criativamente    o indiv&iacute;duo tem que continuar a ser capaz de descobrir a sua pr&oacute;pria    realidade interna, atrav&eacute;s de uma forma pessoal de experienciar a realidade    externa. </P >     <P   align="justify" >O problema na patologia <I>borderline </I>&eacute; que a persist&ecirc;ncia de    inadequa&ccedil;&atilde;o do objecto externo leva ao desvanecimento do objecto    interno. Segundo Green (1997), o desvanecimento gradual das representa&ccedil;&otilde;es    internas est&aacute; relacionado com a representa&ccedil;&atilde;o interna    do negativo &ndash; uma representa&ccedil;&atilde;o da aus&ecirc;ncia de representa&ccedil;&atilde;o    &ndash; a qual se expressa ou em termos de uma alucina&ccedil;&atilde;o negativa    ou no campo do afecto, por anula&ccedil;&atilde;o, por vazio, ou num grau menor,    por futilidade e/ou sem sentido. Este autor refere que a grande contribui&ccedil;&atilde;o    de Winnicott &eacute; mostrar que, a certa altura, este negativo, esta n&atilde;o-exist&ecirc;ncia    ou vazio torna-se na &uacute;nica coisa real para o sujeito. </P >     <P   align="justify" >De acordo com as ideias defendidas por Green, Pinheiro (2005) refere que, perante a perda sofrida, o sujeito utiliza o desinvestimento do objecto maternal e a identifica&ccedil;&atilde;o inconsciente &agrave; m&atilde;e morta. Surge uma identifica&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria &agrave; m&atilde;e, sendo a rela&ccedil;&atilde;o sim&eacute;trica a &uacute;nica possibilidade de restabelecer a reuni&atilde;o. &Eacute; neste sentido que Green fala na exist&ecirc;ncia de um narcisismo negativo, isto &eacute;, um retorno &agrave; inexist&ecirc;ncia, ao afecto branco, ocorrendo uma aproxima&ccedil;&atilde;o &agrave; morte ps&iacute;quica. Segundo Pinheiro (op. cit.), o afecto branco &eacute; a indiferen&ccedil;a entre o bom e o mau, o dentro e o fora, o Eu e o objecto. A esta ang&uacute;stia de perda do objecto, Green d&aacute; o nome de ang&uacute;stia branca, porque o que existe &eacute; o vazio. Pinheiro (op. cit.) defende que sem um objecto constitu&iacute;do como continente n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel a constru&ccedil;&atilde;o do narcisismo positivo, isto &eacute;, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel construir o espa&ccedil;o potencial. </P >    <P   align="justify" >Davis e Wallbridge (1981) referem que o desenvolvimento de um espa&ccedil;o potencial depende do desenvolvimento de um sistema interno de limite, espa&ccedil;o e de tempo. Cada sujeito, atrav&eacute;s das experi&ecirc;ncias vividas, pode construir um sentido de continuidade. </P >    <P   align="justify" >O fracasso precoce da fidedignidade ambiental, que se verifica na patologia <I>borderline</I>, n&atilde;o permite ao sujeito ser capaz de fazer a distin&ccedil;&atilde;o entre o seu mundo interno e externo e, consequentemente, impossibilita a cria&ccedil;&atilde;o de um espa&ccedil;o potencial pr&oacute;prio, onde o sujeito possa construir e reconstruir as suas pr&oacute;prias experi&ecirc;ncias. </P >    <P   align="justify" >Para explicar como a actividade psicol&oacute;gica cria o espa&ccedil;o potencial, Ogden (1985) utiliza o conceito de processo dial&eacute;ctico. O processo dial&eacute;ctico encontra-se no centro da cria&ccedil;&atilde;o da subjectividade, que corresponde aos diferentes graus de conhecimento pr&oacute;prio, que v&atilde;o desde a auto-reflex&atilde;o intencional ao mais subtil e discreto &ldquo;sentido do Eu&rdquo; (<I>I-ness</I>). Paradoxalmente, o &ldquo;sentido do Eu&rdquo; s&oacute; se torna poss&iacute;vel atrav&eacute;s do Outro. No in&iacute;cio, o &ldquo;estado de dois&rdquo; (<I>two-ness</I>) &eacute; uma qualidade da rela&ccedil;&atilde;o m&atilde;e-beb&eacute;. A obten&ccedil;&atilde;o da capacidade de manter uma dial&eacute;ctica psicol&oacute;gica, envolve a transforma&ccedil;&atilde;o da unidade em &ldquo;estado de tr&ecirc;s&rdquo; (<I>three-ness</I>): o s&iacute;mbolo, o que este simboliza e o pr&oacute;prio sujeito. A diferen&ccedil;a entre os tr&ecirc;s cria a possibilidade de triangularidade, dentro da qual o espa&ccedil;o &eacute; criado. Segundo Ogden (1985), a fun&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica &eacute; uma consequ&ecirc;ncia directa da capacidade para manter dial&eacute;cticas psicol&oacute;gicas. </P >    <P   align="justify" >De acordo com Amaral Dias (2004), o problema nos sujeitos <I>borderline </I>&eacute; que eles est&atilde;o permanentemente a precisar de uma pele mental que organize, ou pseudo-organize, isto &eacute;, utilizam o objecto como uma segunda pele (mental). Para que o indiv&iacute;duo viva, &eacute; necess&aacute;rio que ele esteja no mesmo tempo e no mesmo espa&ccedil;o que o outro, isto &eacute;, tem de estar na depend&ecirc;ncia do outro &ndash; condi&ccedil;&atilde;o assimb&oacute;lica. A identifica&ccedil;&atilde;o &agrave; fun&ccedil;&atilde;o continente n&atilde;o fica feita de forma completa no <I>borderline</I>, e &eacute; por esta raz&atilde;o que Amaral Dias (2004) fala na exist&ecirc;ncia de uma permeabilidade do pensamento, porque, nestes casos, a pele rompe. </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >Ogden (1985), refere que a psicopatologia da simboliza&ccedil;&atilde;o que se verifica no sujeito <I>borderline</I>, &eacute; baseada em formas espec&iacute;ficas de fracasso em criar ou manter adequadamente um processo dial&eacute;ctico psicol&oacute;gico, destacando as seguintes: (a) <I>a realidade &eacute; substitu&iacute;da pela fantasia </I>&ndash; a dial&eacute;ctica da realidade e da fantasia cai na direc&ccedil;&atilde;o da fantasia, de tal forma que a fantasia torna-se uma coisa em si pr&oacute;pria, t&atilde;o tang&iacute;vel, poderosa, perigosa e gratificante como a realidade externa, da qual n&atilde;o pode ser diferenciada; (b) <I>a realidade como uma defesa contra a fantasia </I>&ndash; a dial&eacute;ctica da realidade e fantasia pode tornar-se limitada ou cair na direc&ccedil;&atilde;o da realidade, quando esta &eacute; usada predominantemente como uma defesa contra a fantasia. Nestas circunst&acirc;ncias, a realidade rouba a vitalidade da fantasia e a imagina&ccedil;&atilde;o &eacute; exclu&iacute;da; (c) <I>dissocia&ccedil;&atilde;o dos p&oacute;los da realidade e da fantasia do processo dial&eacute;ctico </I>&ndash; a dial&eacute;ctica entre a realidade e a fantasia torna-se restrita, quando ambas est&atilde;o dissociadas de forma a evitar um conjunto espec&iacute;fico de significados; e (d) <I>a exclus&atilde;o da realidade e da fantasia </I>&ndash; quando a constitui&ccedil;&atilde;o da unidade m&atilde;e-beb&eacute; se torna dif&iacute;cil, a consci&ecirc;ncia prematura e traum&aacute;tica desta separa&ccedil;&atilde;o torna a experi&ecirc;ncia t&atilde;o insuport&aacute;vel, que as medidas de defesa extrema s&atilde;o institu&iacute;das, tomando a forma de uma cessa&ccedil;&atilde;o da atribui&ccedil;&atilde;o do significado da percep&ccedil;&atilde;o. A experi&ecirc;ncia &eacute; exclu&iacute;da, e tal acontece, n&atilde;o tanto pelo facto de a fantasia e a realidade serem negadas, mas sim pelo facto de nem chegarem a existir. Para Ogden, este estado de n&atilde;o-experi&ecirc;ncia &eacute; visto como uma defesa super-ordenada, &agrave; qual se recorre quando todas as outras opera&ccedil;&otilde;es defensivas se mostraram insuficientes para proteger a crian&ccedil;a contra o sofrimento psicol&oacute;gico opressivo. </P >    <P   align="center" >OBJECTIVO DE ESTUDO </P >     <P   align="justify" >Apesar da dificuldade do sujeito <I>borderline </I>em se situar na &aacute;rea    dos fen&oacute;menos transitivos, poderia utilizar estrat&eacute;gias que possibilitassem    a comunica&ccedil;&atilde;o com o Outro. Partindo do princ&iacute;pio que os    objectos servem a fun&ccedil;&atilde;o de suporte, estes poderiam ser investidos    como se de objectos transitivos se tratassem. Tendo em conta o conceito de permeabilidade    do pensamento de Amaral Dias (2004), a utiliza&ccedil;&atilde;o do Outro como    um objecto de suporte evidenciaria a possibilidade de um contacto m&iacute;nimo    com a realidade, o Outro, podendo haver uma aproxima&ccedil;&atilde;o ao espa&ccedil;o    potencial &ndash; espa&ccedil;o pr&eacute;-potencial. </P >     <P   align="justify" >As ideias supramencionadas poderiam traduzir-se no Rorschach das seguintes formas:    (1) os sujeitos poderiam relacionar-se com as imagens Rorschach ou com os cart&otilde;es    como se estes fossem objectos reais; (2) as imagens ou cart&otilde;es seriam    transformados em objectos de suporte; e (3) seriam atribu&iacute;dos qualidades    espec&iacute;ficas dos objectos transitivos, sendo estes objectos convertidos    em objectos reconfortantes.</P >     <P   align="center" >PROCEDIMENTOS DE AN&Aacute;LISE </P >     <P   align="justify" >Dadas as caracter&iacute;sticas do m&eacute;todo Rorschach, propomos uma leitura    dos conceitos de fen&oacute;menos transitivos e espa&ccedil;o potencial no protocolo    Rorschach de um sujeito <I>borderline</I>, atrav&eacute;s da an&aacute;lise    cart&atilde;o a cart&atilde;o e dos tra&ccedil;os salientes do psicograma. Os    elementos usados na an&aacute;lise, est&atilde;o sintetizados na tabela que    a seguir apresentamos:</P >     <P   align="center" ><img src="/img/revistas/aps/v27n3/27n3a11t1.bmp"></P >     
<P   align="center" >PARTICIPANTE </P >    <P   align="justify" >O protocolo foi recolhido no Hospital de Santa Maria, onde Joana se encontra em internamento parcial no Hospital de Dia do Servi&ccedil;o de Psiquiatria. </P >     <P   align="justify" >Da avalia&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica realizada, concluiu-se tratar-se    de uma patologia <I>borderline</I>, destacando-se: (1) emerg&ecirc;ncia em processo    prim&aacute;rio; (2) permeabilidade da pele ps&iacute;quica; e (3) clivagem    de objecto e identifica&ccedil;&atilde;o projectiva patol&oacute;gica. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="center" >AN&Aacute;LISE DO PROTOCOLO </P >    <P   align="justify" ><I>An&aacute;lise cart&atilde;o a cart&atilde;o </I></P >    <P   align="justify" >No <I>cart&atilde;o I</I>, a abordagem aparentemente global e adaptativa da realidade (<I>&ldquo;um morcego&rdquo;</I>) pode ser entendida como uma defesa contra o surgimento do mundo fantasm&aacute;tico do sujeito. De acordo com a teoria da psicopatologia do espa&ccedil;o potencial de Ogden, a dial&eacute;ctica entre a realidade e a fantasia cai na direc&ccedil;&atilde;o da realidade, retirando-se toda a vitalidade &agrave; fantasia. Face a uma nova experi&ecirc;ncia sentida como amea&ccedil;adora, Joana n&atilde;o &eacute; capaz de estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o din&acirc;mica entre o interno e o externo, o real e o imagin&aacute;rio de forma a construir novos objectos. A rela&ccedil;&atilde;o ao real &eacute; marcada pela procura de neutralidade. Na busca do neutro, o outro &eacute; eliminado. </P >    <P   align="justify" >Tendo em conta o simbolismo materno do cart&atilde;o I, num segundo momento, o conte&uacute;do <I>&ldquo;tar&acirc;ntula&rdquo; </I>pode remeter-nos para uma imago materna amea&ccedil;adora, persecut&oacute;ria e destrutiva. No inqu&eacute;rito, a apreens&atilde;o global da mancha, atrav&eacute;s do recurso ao esbatimento de perspectiva, reflecte a procura de um apoio, permitindo ao sujeito manter uma certa dist&acirc;ncia espacial e temporal em rela&ccedil;&atilde;o ao objecto (<I>&ldquo;podia estar a v&ecirc;-la de um avi&atilde;o...&rdquo;</I>). A <I>&ldquo;tar&acirc;ntula&rdquo; </I>&eacute; sentida como amea&ccedil;adora, mas n&atilde;o constitui um perigo para o sujeito, n&atilde;o pode &ldquo;feri-lo&rdquo;. Na acep&ccedil;&atilde;o de Ogden, o &ldquo;estado de dois&rdquo; (<I>two-ness</I>) d&aacute; conta da possibilidade de comunica&ccedil;&atilde;o, t&eacute;nue, entre o sujeito e objecto e, por conseguinte, os movimentos de Joana evidenciam uma aproxima&ccedil;&atilde;o ao espa&ccedil;o potencial &ndash; espa&ccedil;o pr&eacute;-potencial. </P >    <P   align="justify" >Na an&aacute;lise global do cart&atilde;o observamos dois registos de funcionamento distintos. De acordo com a teoria de Ogden, num primeiro momento, a realidade &eacute; utilizada como defesa contra a fantasia, n&atilde;o sendo poss&iacute;vel o acesso ao mundo fantasm&aacute;tico do sujeito; num segundo momento, a dial&eacute;ctica entre a realidade e a fantasia cai na direc&ccedil;&atilde;o da fantasia. Esta situa&ccedil;&atilde;o revela a impossibilidade do sujeito mobilizar, simultaneamente, mecanismos perceptivos e projectivos na constru&ccedil;&atilde;o de um &ldquo;novo objecto&rdquo;. Joana n&atilde;o consegue aceder &agrave; &aacute;rea transitiva, embora se socorra de estrat&eacute;gias para amortecer o impacto fantasm&aacute;tico. </P >    <P   align="justify" >No <I>cart&atilde;o II</I>, a abordagem global da mancha evidencia um conte&uacute;do mutilado (<I>&ldquo;... animal morto... v&ecirc;-se o p&ecirc;lo de animal e sangue...&rdquo;</I>), o que d&aacute; conta da destrutividade da rela&ccedil;&atilde;o. Joana procura centrar-se no recorte perceptivo da mancha (<I>&ldquo;... animal... n&atilde;o sei se &eacute; um c&atilde;o ou um gato...&rdquo;</I>), mas acaba por ser invadida pelo seu mundo fantasm&aacute;tico (<I>&ldquo;... v&ecirc;-se o p&ecirc;lo do animal e sangue...&rdquo;</I>). A sensibilidade &agrave; cor vermelha (<I>&ldquo;porque est&aacute; cheio de sangue&rdquo;</I>) contribui para a invas&atilde;o dos afectos, na medida em que os movimentos pulsionais agressivos refor&ccedil;am a viv&ecirc;ncia destrutiva da rela&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m a refer&ecirc;ncia &agrave; qualidade t&aacute;ctil (<I>&ldquo;p&ecirc;lo&rdquo;</I>) evidencia a associa&ccedil;&atilde;o a uma representa&ccedil;&atilde;o e/ou afecto desagrad&aacute;vel atrav&eacute;s da rela&ccedil;&atilde;o &ldquo;p&ecirc;lo&rdquo; &rarr; &ldquo;sangue&rdquo; e, por conseguinte, a sensibilidade ao esbatimento n&atilde;o permite amortecer o impacto fantasm&aacute;tico. </P >    <P   align="justify" >Tendo em conta que este &eacute; um cart&atilde;o bilateral, a apreens&atilde;o do todo pode ser encarada como um defesa contra a rela&ccedil;&atilde;o sentida como perigosa e destrutiva. A utiliza&ccedil;&atilde;o do todo contra a bilateralidade d&aacute; conta da impossibilidade do sujeito em manter um compromisso entre os movimentos de integra&ccedil;&atilde;o e os de desestabiliza&ccedil;&atilde;o e dispers&atilde;o suscitados pela simetria do cart&atilde;o. Na acep&ccedil;&atilde;o de Ogden, esta falta de compromisso &eacute; entendida como o fracasso em manter uma dial&eacute;ctica de unidade e de separa&ccedil;&atilde;o. Esta situa&ccedil;&atilde;o p&otilde;e em evid&ecirc;ncia a impossibilidade de Joana desenvolver a sua pr&oacute;pria subjectividade, pois, s&oacute; na rela&ccedil;&atilde;o com o outro &eacute; que o sujeito pode construir as suas pr&oacute;prias experi&ecirc;ncias e, assim, possuir um espa&ccedil;o potencial pr&oacute;prio, constitutivo do sentimento de ser. </P >     <P   align="justify" >No inqu&eacute;rito, Joana revela uma perda de dist&acirc;ncia face &agrave;    imagem Rorschach (<I>&ldquo;quando passo de carro vejo um animal no ch&atilde;o    e arrepia-me&rdquo;</I>), o que indica que a imagem &eacute; experimentada como    um objecto &ldquo;real&rdquo;, sendo incorporada na experi&ecirc;ncia actual    do sujeito. A imagem Rorschach &eacute; justificada pela experi&ecirc;ncia passada    do sujeito, criando a ilus&atilde;o de que esta e as experi&ecirc;ncias passadas    do sujeito s&atilde;o permut&aacute;veis, permitindo, desta forma, negar a dist&acirc;ncia    temporal e espacial que existe relativamente ao objecto. A indiferencia&ccedil;&atilde;o    entre o sujeito e o objecto d&aacute; conta da impossibilidade do sujeito se    situar na &aacute;rea dos fen&oacute;menos transitivos. </P >     <P   align="justify" >Na abordagem do <I>cart&atilde;o III</I>, Joana come&ccedil;a por realizar um    movimento de separa&ccedil;&atilde;o entre as duas figuras. No entanto, estas    n&atilde;o se encontram em rela&ccedil;&atilde;o (<I>&ldquo;... uma pessoa de    cada lado&rdquo;</I>). A abordagem global e perceptiva da mancha pode ser entendida    como um defesa contra o mundo imagin&aacute;rio que amea&ccedil;a irromper.    No inqu&eacute;rito, a atribui&ccedil;&atilde;o de movimento &agrave;s duas    figuras (<I>&ldquo;... est&atilde;o t&atilde;o zangados que t&ecirc;m vontade    de arrancar </I><I>o cora&ccedil;&atilde;o um do outro, de matar um ao outro&rdquo;</I>),    bem como a associa&ccedil;&atilde;o de um movimento pulsional a um conte&uacute;do    anat&oacute;mico (<I>&ldquo;est&atilde;o t&atilde;o zangados que o cora&ccedil;&atilde;o    at&eacute; salta&rdquo;</I>), d&atilde;o conta da emerg&ecirc;ncia de um mundo    fantasm&aacute;tico destrutivo e arcaico. Ao centrarmo-nos no simbolismo do    conte&uacute;do anat&oacute;mico, o <I>&ldquo;cora&ccedil;&atilde;o&rdquo; </I>implica    um menor controlo do pensamento e, neste sentido, a express&atilde;o <I>&ldquo;o    cora&ccedil;&atilde;o at&eacute; salta&rdquo; </I>traduz a impossibilidade de    Joana conter a puls&atilde;o, ocorrendo uma invas&atilde;o dos afectos. O contacto    com o Outro &eacute; vivido como algo destrutivo e invasivo. Podemos considerar    a impossibilidade da cinestesia mobilizar, simultaneamente, movimentos perceptivos    e projectivos e, por conseguinte, a impossibilidade de Joana aceder &agrave;    &aacute;rea transitiva. </P >     <P   align="justify" >Em seguida, a focaliza&ccedil;&atilde;o de Joana numa parte da mancha indica    uma dificuldade de inser&ccedil;&atilde;o no real, devido &agrave; intensidade    da projec&ccedil;&atilde;o pulsional e fantasm&aacute;tica. O conte&uacute;do    <I>&ldquo;sapateira&rdquo; </I>revela que o contacto com o outro &eacute; sentido    como destrutivo e amea&ccedil;ador (<I>&ldquo;</I>... <I>D&aacute; a impress&atilde;o    que esta sapateira feriu algu&eacute;m&rdquo;</I>). A viv&ecirc;ncia destrutiva    e invasiva da rela&ccedil;&atilde;o d&aacute; conta da indiferencia&ccedil;&atilde;o    entre o dentro e o fora, entre a realidade e a fantasia, n&atilde;o sendo poss&iacute;vel    Joana situar-se na &aacute;rea transitiva. Esta situa&ccedil;&atilde;o &eacute;    traduzida, na linguagem de Ogden, por um fracasso em manter um processo dial&eacute;ctico,    em que a dial&eacute;ctica entre a realidade e a fantasia cai na direc&ccedil;&atilde;o    da fantasia, tornando-se t&atilde;o real como a realidade exterior, da qual    n&atilde;o se pode diferenciar. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >Por fim, a centra&ccedil;&atilde;o no recorte perceptivo da mancha (<I>&ldquo;... patas de um boi ou de uma vaca&rdquo;</I>) revela que a adapta&ccedil;&atilde;o ao real n&atilde;o permite o emergir do mundo fantasm&aacute;tico. A realidade &eacute; utilizada como defesa contra a fantasia. Joana n&atilde;o &eacute; capaz de se situar na &aacute;rea transitiva, n&atilde;o conseguindo integrar, na mesma resposta, movimentos perceptivos e projectivos. </P >    <P   align="justify" >Na passagem para o <I>cart&atilde;o IV </I>deparamo-nos com uma perda de dist&acirc;ncia relativamente ao objecto, evidenciada pela express&atilde;o directa de um sentimento de perigo ou amea&ccedil;a face &agrave; imagem Rorschach (<I>&ldquo;Ui aqui estou a ver um monstro...&rdquo;</I>). Esta situa&ccedil;&atilde;o representa uma perda de simboliza&ccedil;&atilde;o, na qual Joana reage afectiva-mente &agrave; imagem, como se esta fosse realmente o pr&oacute;prio objecto (<I>o monstro</I>), negando a diferencia&ccedil;&atilde;o entre o interno e o externo. </P >    <P   align="justify" >A abordagem global da mancha d&aacute; conta de um conte&uacute;do amea&ccedil;ador e terr&iacute;fico (<I>&ldquo;... monstro...&rdquo;</I>), que p&otilde;e em evid&ecirc;ncia uma invas&atilde;o fantasm&aacute;tica. A dificuldade de separa&ccedil;&atilde;o entre o real e o imagin&aacute;rio &eacute;, de igual modo, demonstrada pelo facto de o monstro, figura irreal, ter uma caracter&iacute;stica humana (<I>&ldquo;... com enormes pernas...&rdquo;</I>). No inqu&eacute;rito, a atribui&ccedil;&atilde;o de movimento ao monstro evidencia, por um lado, este conte&uacute;do amea&ccedil;ador e terr&iacute;fico (<I>&ldquo;... por um lado, pode meter medo...&rdquo;</I>), mas, por outro, d&aacute; conta de um conte&uacute;do reconfortante, acolhedor (<I>&ldquo;... mas por outro </I>(...) <I>pode abra&ccedil;ar ou acarinhar algu&eacute;m... n&atilde;o &eacute; t&atilde;o mons</I><I></I><I>truoso assim&rdquo;</I>). Esta situa&ccedil;&atilde;o revela a presen&ccedil;a de um mecanismo de defesa caracter&iacute;stico do borderline &ndash; a <I>clivagem </I>&ndash; o objecto &eacute; mau, mas tamb&eacute;m &eacute; bom. A incapacidade de integrar as boas e m&aacute;s imagens do objecto remete para a impossibilidade de separa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o entre o interno e o externo, o sujeito e o objecto. Apesar desta realidade, a refer&ecirc;ncia a um conte&uacute;do reconfortante indica que este pode ser utilizado como um objecto de suporte, adquirindo a fun&ccedil;&atilde;o de um objecto transitivo, na acep&ccedil;&atilde;o de Winnicott. A cinestesia permite uma comunica&ccedil;&atilde;o t&eacute;nue com o Outro, embora &agrave; custa de um modo de funcionamento menos evolu&iacute;do. </P >     <P   align="justify" >Na passagem para o cart&atilde;o invertido, ocorre um movimento regrediente em    que a restri&ccedil;&atilde;o a uma parte da mancha d&aacute; conta de uma dificuldade    de inser&ccedil;&atilde;o no real, revelando a dificuldade do sujeito diferenciar    a parte (<I>&ldquo;... a cabe&ccedil;a de uma lula&rdquo;</I>) do todo (<I>&ldquo;...    tamb&eacute;m parece uma criatura voadora&rdquo;</I>). A presen&ccedil;a de    um conte&uacute;do que pode ser tanto inteiro como parcial, p&otilde;e em evid&ecirc;ncia    a dificuldade do sujeito se ver como um todo, inteiro, completo e separado do    mundo externo e, por conseguinte, a impossibilidade do sujeito aceder &agrave;    &aacute;rea transitiva. A dificuldade de Joana se adequar ao est&iacute;mulo    perceptivo revela, de acordo com Ogden, que esta n&atilde;o consegue manter    uma dial&eacute;ctica psicol&oacute;gica entre o real e o imagin&aacute;rio,    sendo a realidade substitu&iacute;da pela fantasia, ocorrendo uma invas&atilde;o    do mundo fantasm&aacute;tico. </P >     <P   align="justify" >A express&atilde;o de um sentimento de estranheza, no <I>cart&atilde;o V</I>,    d&aacute; conta de uma perda de dist&acirc;ncia relativamente ao objecto, na    qual Joana reage afectivamente ao cart&atilde;o como se este fosse o pr&oacute;prio    objecto (<I>&ldquo;Isto &eacute; s&oacute; criaturas estranhas...&rdquo;</I>).    Deste modo, a apreens&atilde;o global da mancha &eacute; utilizada como defesa    contra um mundo fantasm&aacute;tico sentido como amea&ccedil;ador. Por outro    lado, o recurso &agrave; globalidade da mancha s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel    atrav&eacute;s de uma imagem pouco definida (<I>&ldquo;parece-me um insecto    visto numa grande lupa&rdquo;)</I>. Esta dificuldade do sujeito se representar    como um todo definido no contacto com a mancha, evidencia a falta de diferencia&ccedil;&atilde;o    entre o dentro e o fora e, por conseguinte, indica a dificuldade do sujeito    aceder &agrave; &aacute;rea transitiva. Apesar desta realidade, Joana consegue    alcan&ccedil;ar a unidade (ainda que mal definida), utilizando a &ldquo;<I>lupa</I>&rdquo;    como um objecto de suporte, o que permite a comunica&ccedil;&atilde;o, prec&aacute;ria,    entre o interno e o externo. Joana utiliza a &ldquo;<I>lupa</I>&rdquo; como    se esta fosse um objecto transitivo, ao lhe atribuir a fun&ccedil;&atilde;o    deste objecto. </P >     <P   align="justify" >Em seguida, a restri&ccedil;&atilde;o a uma parte da mancha, bem como a ambiguidade    do conte&uacute;do (<I>&ldquo;... parece pernas, patas de um animal...&rdquo;</I>)    d&atilde;o conta da impossibilidade do sujeito se ver como um todo inteiro e    completo (<I>... Parece que s&oacute; tem patas&rdquo;</I>). </P >     <P   align="justify" >Nesta linha de pensamento, o eixo sim&eacute;trico indica que a uni&atilde;o    das duas patas (<I>... parecem juntas&rdquo;</I>) p&otilde;e em evid&ecirc;ncia    uma rela&ccedil;&atilde;o de fus&atilde;o entre o sujeito e o outro. Esta situa&ccedil;&atilde;o    traduz a impossibilidade em aceitar a diferen&ccedil;a, n&atilde;o sendo poss&iacute;vel    estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o com o outro. De acordo com a teoria de    Ogden, a dial&eacute;ctica entre a unidade e a separa&ccedil;&atilde;o cai na    direc&ccedil;&atilde;o da unidade&ndash; sujeito e objecto s&atilde;o o mesmo.    A indiferencia&ccedil;&atilde;o entre o sujeito e objecto revela falhas no processo    de simboliza&ccedil;&atilde;o e, por conseguinte, o sujeito n&atilde;o &eacute;    capaz de se situar na &aacute;rea intermedi&aacute;ria entre o real e o imagin&aacute;rio,    entre o dentro e o fora. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel a constitui&ccedil;&atilde;o    do &ldquo;estado de dois&rdquo; (<I>two-ness</I>) nem do &ldquo;estado de tr&ecirc;s&rdquo;    (<I>three-ness</I>). </P >     <P   align="justify" >No <I>cart&atilde;o VI</I>, a imagem global traduz uma imagem de suporte (<I>&ldquo;... pele de animal pendu</I><I></I><I>rada&rdquo;</I>). Tendo em conta que a sensibilidade t&aacute;ctil (<I>&ldquo;pele&rdquo;</I>) nos remete para os cuidados prim&aacute;rios, o esbatimento de textura d&aacute; conta, por um lado, da exist&ecirc;ncia de falhas no <I>holding </I>e, por outro, d&aacute; conta da procura de apoio, sendo a imagem investida como se se tratasse de um objecto transitivo, na medida em que adquire a sua fun&ccedil;&atilde;o de suporte. A utiliza&ccedil;&atilde;o do outro como um objecto anacl&iacute;tico, permite uma comunica&ccedil;&atilde;o t&eacute;nue entre o interno e o externo, entre o sujeito e o objecto. A possibilidade do sujeito estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o m&iacute;nima entre o dentro e o fora, permite-lhe aceder &agrave; &aacute;rea transitiva, ainda que &agrave; custa de um modo de funcionamento mais arcaico. </P >    <P   align="justify" >No cart&atilde;o invertido, a sensibilidade de Joana &agrave; simetria d&aacute; conta de uma tentativa de separa&ccedil;&atilde;o que falha, devido &agrave; refer&ecirc;ncia &agrave; imagem especular (<I>&ldquo;... um pulm&atilde;o de cada lado&rdquo;</I>). A linha m&eacute;dia (<I>&ldquo;a coluna vertebral&rdquo;</I>) representa a linha que separa duas entidades que s&atilde;o a repeti&ccedil;&atilde;o do mesmo. Esta situa&ccedil;&atilde;o traduz, na acep&ccedil;&atilde;o de Ogden, a impossibilidade do sujeito manter um processo dial&eacute;ctico de unidade e de separa&ccedil;&atilde;o, caindo a dial&eacute;ctica na direc&ccedil;&atilde;o da unidade. Esta impossibilidade representa falhas no processo de simboliza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o sendo o sujeito capaz de, no contacto com o Outro, se reconhecer como um ser &iacute;ntegro, coeso e diferenciado. A impossibilidade de Joana distinguir entre o &ldquo;Eu&rdquo; e o &ldquo;n&atilde;o-Eu&rdquo; d&aacute; conta da inexist&ecirc;ncia de um espa&ccedil;o potencial pr&oacute;prio, constitutivo do sentimento de ser. </P >    <P   align="justify" >Em seguida, ocorre um movimento progrediente, em que a sensibilidade aos tons esbatidos da mancha d&aacute; conta da possibilidade de Joana manter uma certa dist&acirc;ncia face ao objecto (<I>&ldquo;... uma estrada e de cada lado da estrada h&aacute; uma lagoa...&rdquo;</I>). A possibilidade de uma dist&acirc;ncia m&iacute;nima entre o sujeito e o objecto n&atilde;o &eacute; apenas espacial, mas tamb&eacute;m temporal (inqu&eacute;rito &ndash; <I>&ldquo;... Parece aquelas viagens ao lado do rio e depois h&aacute; cursos de &aacute;gua.&rdquo;</I>). A refer&ecirc;ncia ao &ldquo;<I>curso da &aacute;gua</I>&rdquo; remete-nos para a ideia de continuidade no tempo. Deste modo, o movimento impl&iacute;cito da &aacute;gua tamb&eacute;m evidencia a possibilidade de uma comunica&ccedil;&atilde;o prec&aacute;ria entre o dentro e o fora. O eixo de simetria (<I>a estrad</I>a) representa a separa&ccedil;&atilde;o t&eacute;nue entre o sujeito e o Outro. Apesar da impossibilidade de uma rela&ccedil;&atilde;o intersubjectiva entre o dentro e o fora, a constru&ccedil;&atilde;o tridimensional da imagem d&aacute; conta de uma aproxima&ccedil;&atilde;o ao espa&ccedil;o potencial. Falamos de espa&ccedil;o pr&eacute;-potencial na medida em que os movimentos de Joana apenas permitem um &ldquo;esbo&ccedil;ar&rdquo; deste espa&ccedil;o. </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >No <I>cart&atilde;o VII</I>, a atribui&ccedil;&atilde;o de movimento a um conte&uacute;do inanimado, desvitalizado (<I>&ldquo;... um boneco de cada lado a olhar um para o outro...&rdquo;</I>), bem como a refer&ecirc;ncia a duas figuras femininas que n&atilde;o se encontram num cen&aacute;rio relacional (<I>&ldquo;... parece duas meninas com um tot&oacute;...&rdquo;</I>), d&atilde;o conta da impossibilidade de rela&ccedil;&atilde;o. Contudo, a refer&ecirc;ncia ao conte&uacute;do &ldquo;<I>boneco</I>&rdquo; e ao conte&uacute;do infantilizado &ldquo;<I>meninas com tot&oacute;</I>&rdquo;, pode representar uma procura de conforto e, neste sentido, estes conte&uacute;dos adquirem o valor de um objecto transitivo. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o intersubjectiva entre o interno e o externo, o que traduz a impossibilidade de Joana se situar na &aacute;rea transitiva. No entanto, esta utiliza estrat&eacute;gias arcaicas para estabelecer um contacto com o Outro, procurando transformar a imagem Rorschach num objecto confort&aacute;vel. </P >    <P   align="justify" >Na passagem para o inqu&eacute;rito ocorre um movimento progrediente, na medida em que a refer&ecirc;ncia ao &ldquo;<I>baloi&ccedil;o</I>&rdquo; permite a rela&ccedil;&atilde;o entre as duas figuras femininas (<I>&ldquo;... duas meninas num baloi&ccedil;o para cima e para baixo...&rdquo;</I>). O car&aacute;cter inst&aacute;vel e desequilibrado do &ldquo;<I>baloi&ccedil;o</I>&rdquo; revela que este apenas permite um contacto fr&aacute;gil com o Outro, sendo utilizado como um objecto de suporte. A imagem Rorschach &eacute; investida como se fosse um objecto transitivo, servindo a sua fun&ccedil;&atilde;o. Joana consegue fazer uso do objecto transitivo ainda que de uma forma inadequada. </P >    <P   align="justify" >A resposta seguinte situa-se no mesmo registo, em que a <I>&ldquo;rocha&rdquo;</I>, tal como o <I>&ldquo;baloi&ccedil;o&rdquo;</I>, serve de suporte &agrave; rela&ccedil;&atilde;o, permitindo apenas uma comunica&ccedil;&atilde;o prec&aacute;ria com o outro (<I>&ldquo;... podia ser um gato </I>(...) <I>est&atilde;o a fazer equil&iacute;brio em cima de uma rocha&rdquo;</I>). No entanto, o &ldquo;<I>baloi&ccedil;o</I>&rdquo; poder&aacute; constituir um suporte mais evolu&iacute;do que a &ldquo;<I>rocha</I>&rdquo;, uma vez que serve de suporte a uma rela&ccedil;&atilde;o humana. </P >    <P   align="justify" >Atendendo &agrave; invers&atilde;o figura-fundo, a <I>&ldquo;ilha&rdquo; </I>pode constituir um conte&uacute;do isolado, que n&atilde;o permite o contacto com o outro. Tendo em conta que o branco remete para o vazio, o neutro, o preenchimento da lacuna extramacular (<I>&ldquo;... o branco &eacute; o mar&rdquo;</I>), no inqu&eacute;rito, representa uma procura de apoio que traduz a tentativa de Joana para restabelecer o contacto com o outro. O <I>&ldquo;mar&rdquo; </I>representa um limite mais vasto e, deste modo, pode constituir um elo de liga&ccedil;&atilde;o fr&aacute;gil entre o sujeito e o outro. A imagem Rorschach &eacute; utilizada como um objecto de suporte, adquirindo a fun&ccedil;&atilde;o de um objecto transitivo. O movimento impl&iacute;cito do mar (pela presen&ccedil;a da tend&ecirc;ncia kob) pode representar a amea&ccedil;a que a rela&ccedil;&atilde;o constitui. </P >    <P   align="justify" >Por fim, ocorre um movimento regrediente, na medida em que a sensibilidade ao branco d&aacute; conta do sentimento de incompletude (<I>r&atilde; sem est&ocirc;mago</I>). O branco &eacute; claramente representado como a aus&ecirc;ncia, o que nos remete para o conceito de ang&uacute;stia branca de Green, na medida em que o que se encontra no lugar do objecto &eacute; o vazio. Na linguagem de Ogden, esta situa&ccedil;&atilde;o evidencia a impossibilidade do sujeito manter um processo dial&eacute;ctico entre o dentro e o fora, devido &agrave; invas&atilde;o do mundo fantasm&aacute;tico do sujeito e, por conseguinte, d&aacute; conta da inexist&ecirc;ncia de um espa&ccedil;o potencial. </P >    <P   align="justify" >Na abordagem do <I>cart&atilde;o VIII</I>, os dois animais n&atilde;o s&atilde;o colocados em rela&ccedil;&atilde;o (<I>&ldquo;... uma fera, um animal selvagem de cada lado...&rdquo;</I>). A <I>&ldquo;fera&rdquo; </I>pode constituir um sinal de perigo, revelando a amea&ccedil;a destrutiva que a rela&ccedil;&atilde;o representa. A restri&ccedil;&atilde;o a uma parte da mancha constitui uma defesa contra a rela&ccedil;&atilde;o que &eacute; sentida como perigosa e destrutiva. No inqu&eacute;rito, Joana procura restabelecer o contacto com o outro, mas esta tentativa falha (<I>&ldquo;... dois animais, duas feras, eles est&atilde;o a querer subir, mas est&atilde;o com algum </I><I>receio&rdquo;</I>). A impossibilidade de rela&ccedil;&atilde;o &eacute; evidenciada pela busca de neutralidade; as duas feras procuram estabelecer o contacto uma com a outra, mas est&atilde;o &ldquo;paralisadas&rdquo;. Esta &ldquo;paralisia&rdquo; p&otilde;e em evid&ecirc;ncia a viv&ecirc;ncia amea&ccedil;adora e destrutiva do contacto (<I>&ldquo;N&atilde;o sei se &eacute; o receio de subir ou de se magoarem&rdquo;</I>). A impossibilidade de rela&ccedil;&atilde;o d&aacute; conta da inexist&ecirc;ncia de um espa&ccedil;o intersubjectivo &ndash; o espa&ccedil;o potencial &ndash; que permita a comunica&ccedil;&atilde;o entre o dentro e o fora. Na acep&ccedil;&atilde;o de Ogden, esta situa&ccedil;&atilde;o traduz o fracasso do sujeito em manter um processo dial&eacute;ctico entre a realidade e a fantasia. Num primeiro contacto com a mancha, a dial&eacute;ctica cai na direc&ccedil;&atilde;o da realidade, impedindo a invas&atilde;o do mundo fantasm&aacute;tico. Num segundo momento, a dial&eacute;ctica cai na direc&ccedil;&atilde;o da fantasia, remetendo para um mundo imagin&aacute;rio amea&ccedil;ador e perigoso. </P >    <P   align="justify" >A focaliza&ccedil;&atilde;o de Joana no contorno das cores (<I>&ldquo;... uma blusa, uns cal&ccedil;&otilde;es&rdquo;</I>) indica que esta procura refugiar-se na realidade perceptiva do cart&atilde;o, de forma a impedir a emerg&ecirc;ncia do mundo fantasm&aacute;tico. O vestu&aacute;rio pode representar uma procura de apoio. Este conte&uacute;do pouco contentor constitui uma segunda pele. A utiliza&ccedil;&atilde;o do Outro como uma segunda pele mental d&aacute; conta da aus&ecirc;ncia de um espa&ccedil;o potencial pr&oacute;prio. Contudo, a dimens&atilde;o protectora associada ao vestu&aacute;rio revela que a imagem Rorschach toma o valor de um objecto transitivo. </P >    <P   align="justify" >Por fim, a atribui&ccedil;&atilde;o de movimento aos dois animais referidos anteriormente d&aacute; conta da rela&ccedil;&atilde;o destrutiva e s&aacute;dica (<I>&ldquo;... assim continuo a ver os animais &agrave; mesma, os dois. D&aacute;-me a sensa</I><I></I><I>&ccedil;&atilde;o que eles est&atilde;o a pisar alguma coisa que custa a ferir...&rdquo;</I>). A emerg&ecirc;ncia da fantasia revela que a rela&ccedil;&atilde;o &eacute; vivida como algo que destr&oacute;i. </P >    <P   align="justify" >Neste cart&atilde;o &eacute; posto em evid&ecirc;ncia um ciclo vicioso, em que, perante a impossibilidade da rela&ccedil;&atilde;o, Joana procura restabelecer o contacto. No entanto, este falha sempre, devido ao car&aacute;cter destrutivo da rela&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel estabelecer um compromisso entre o real e o imagin&aacute;rio e, por conseguinte, Joana n&atilde;o se pode situar na &aacute;rea transitiva. </P >     <P   align="justify" >A sensibilidade ao branco remete, de acordo com Chabert (1997/1998), para a dial&eacute;ctica    relacional prim&aacute;ria. Deste modo, a interpreta&ccedil;&atilde;o do branco    (<I>&ldquo;... uma criatura escondida por tr&aacute;s de um quadro&rdquo;</I>),    no <I>cart&atilde;o IX</I>, remete para as falhas no <I>holding</I>. A atribui&ccedil;&atilde;o    de movimento &agrave; imagem (<I>&ldquo;... criatura com os olhinhos a esprei</I><I></I><I>tar...&rdquo;</I>),    no inqu&eacute;rito, d&aacute; conta da rela&ccedil;&atilde;o com uma <I>imago    </I>materna persecut&oacute;ria. Os &ldquo;olhos que espreitam&rdquo; pode dar    conta da falta de diferencia&ccedil;&atilde;o entre o &ldquo;Eu&rdquo; e o &ldquo;n&atilde;o-Eu&rdquo;.    A cinestesia associada a um conte&uacute;do irreal e persecut&oacute;rio evidencia    a invas&atilde;o do mundo fantasm&aacute;tico, revelando que n&atilde;o &eacute;    poss&iacute;vel a express&atilde;o do imagin&aacute;rio sem que seja posta em    causa a adapta&ccedil;&atilde;o ao real. Na linguagem de Ogden, a dial&eacute;ctica    entre a realidade e a fantasia cai na direc&ccedil;&atilde;o da fantasia, que    se transforma na &uacute;nica coisa real e amea&ccedil;adora para o sujeito.    A dificuldade em discriminar real e imagin&aacute;rio, traduz a incapacidade    do sujeito aceder &agrave; &aacute;rea transitiva. Apesar de representar uma    din&acirc;mica regressiva, o movimento de &ldquo;p&ocirc;r em quadro&rdquo;    (<I>&ldquo;... nesta pintura vejo uma criatura com uns olhos escondida por tr&aacute;s...&rdquo;</I>)    constitui um movimento progrediente, na medida em que permite manter uma certa    dist&acirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o ao objecto; a criatura torna-se menos    amea&ccedil;adora ao estar inserida numa pintura. A cor (<I>&ldquo;uma pintura&rdquo;</I>)    permite estabelecer um compromisso m&iacute;nimo entre o real e o imagin&aacute;rio,    ou, na acep&ccedil;&atilde;o de Ogden<I>, </I>o &ldquo;estado de dois&rdquo;    (<I>two-ness</I>), que d&aacute; conta da possibilidade de uma comunica&ccedil;&atilde;o    t&eacute;nue entre o sujeito e o objecto. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >O preenchimento do branco (<I>&ldquo;... do lago sai uma fonte luminosa...&rdquo;</I>),    no cart&atilde;o invertido, d&aacute; conta da tentativa para colmatar as car&ecirc;ncias    narc&iacute;sicas, atrav&eacute;s de uma din&acirc;mica regressiva, pela refer&ecirc;ncia    a um tema de &aacute;gua. De acordo com Chabert (1997/1998), Traubenberg considera    o cart&atilde;o IX como o &ldquo;cart&atilde;o uterino&rdquo;. Neste sentido,    a imagem pode remeter para o tema do nascimento, em que a &ldquo;<I>fonte luminosa</I>&rdquo;    poder&aacute; representar a fonte de vida e o &ldquo;<I>lago</I>&rdquo; o &uacute;tero    materno. A imagem &ldquo;calorosa&rdquo; do &uacute;tero materno dada, quer    pela atribui&ccedil;&atilde;o de movimento ao lago, quer pela sensibilidade    &agrave; cor, pode constituir uma imagem de suporte que permite &ldquo;camuflar&rdquo;    a falha narc&iacute;sica. A imagem Rorschach &eacute; investida como se fosse    um objecto transitivo, ao adquirir a sua fun&ccedil;&atilde;o de suporte. &Eacute;    este apoio que permite uma comunica&ccedil;&atilde;o fr&aacute;gil entre o dentro    e o fora, entre o real e o imagin&aacute;rio. </P >     <P   align="justify" >A &uacute;ltima resposta p&otilde;e em evid&ecirc;ncia a fragilidade identit&aacute;ria    e narc&iacute;sica de Joana, quer pela refer&ecirc;ncia a uma imagem cujos contornos    s&atilde;o pouco definidos (<I>&ldquo;... nuvens escuras...&rdquo;</I>), quer    pelo preenchimento do branco (<I>&ldquo;... parece </I>(...) <I>um tornado...&rdquo;</I>).    O &ldquo;<I>tornado</I>&rdquo; pode dar conta de uma rela&ccedil;&atilde;o amea&ccedil;adora    e destrutiva. Apesar do perigo que a rela&ccedil;&atilde;o representa, a capacidade    de manter o &ldquo;tornado&rdquo; &agrave; dist&acirc;ncia (<I>&ldquo;... parece    que ele &eacute; um tornado &aacute; dist&acirc;ncia&rdquo;</I>) indica a utiliza&ccedil;&atilde;o    do esbatimento de difus&atilde;o como um suporte que possibilita a manuten&ccedil;&atilde;o    de uma certa dist&acirc;ncia, espacial e temporal, entre o sujeito e o objecto.    Na acep&ccedil;&atilde;o de Ogden, o &ldquo;estado de dois&rdquo; (<I>two-ness</I>)    d&aacute; conta da possibilidade de comunica&ccedil;&atilde;o prec&aacute;ria    entre o sujeito e o objecto. </P >     <P   align="justify" >Tendo em conta que o <I>cart&atilde;o X </I>&eacute; o &ldquo;cart&atilde;o da transfer&ecirc;ncia&rdquo;, o elevado n&uacute;mero de associa&ccedil;&otilde;es dispersas (dez respostas em D) pode ser um indicador da desorganiza&ccedil;&atilde;o do sujeito face &agrave; situa&ccedil;&atilde;o de separa&ccedil;&atilde;o. A refer&ecirc;ncia ao &ldquo;esqueleto&rdquo; revela que Joana se v&ecirc; como um ser &ldquo;sem pele&rdquo; (<I>&ldquo;... uma esp&eacute;cie de esqueleto </I>(...) <I>Parece que lhe foi retirado tudo...&rdquo;</I>), evidenciando o sentimento de perda face &agrave; separa&ccedil;&atilde;o. Tal como &eacute; defendido por Amaral Dias (2004), o sujeito utiliza o objecto como uma segunda pele mental e, por conseguinte, a perda do objecto &eacute; vivida como a perda de si pr&oacute;prio. A imagem desvitalizada e destru&iacute;da (<I>&ldquo;... uma &aacute;rvore seca, queimada&rdquo;</I>), que marca o fim da rela&ccedil;&atilde;o, d&aacute; conta, atrav&eacute;s da sensibilidade ao cinzento, de um sentimento de ang&uacute;stia associado &agrave; separa&ccedil;&atilde;o. A impossibilidade do sujeito se ver como um todo inteiro e separado do outro revela a inexist&ecirc;ncia de um espa&ccedil;o intersubjectivo entre o interno e o externo. </P >    <P   align="justify" >Ao longo deste cart&atilde;o verificamos, essencialmente, a altern&acirc;ncia entre respostas de m&aacute; qualidade formal, que d&atilde;o conta da tentativa falhada do sujeito em adaptar-se &agrave; realidade (e.g., <I>&ldquo;... dois ratos...&rdquo;</I>) e respostas cuja sensibilidade crom&aacute;tica e cinest&eacute;sica despertam fantasmas amea&ccedil;adores e destrutivos (e.g., <I>&ldquo;... vampiro </I>(...) <I>Parece que atacou algu&eacute;m e ficou com as asas ensanguentadas&rdquo;</I>), o que evidencia a impossibilidade de um compromisso entre o real e o imagin&aacute;rio. Na acep&ccedil;&atilde;o de Ogden, a dial&eacute;ctica entre a realidade e a fantasia cai sempre na direc&ccedil;&atilde;o da fantasia, sendo o sujeito invadido pelo seu mundo fantasm&aacute;tico. Joana n&atilde;o consegue utilizar estrat&eacute;gias arcaicas para se defender do impacto fantasm&aacute;tico. </P >    <P   align="justify" ><I>An&aacute;lise dos tra&ccedil;os salientes do psicograma </I></P >     <P   align="justify" >A an&aacute;lise dos modos de apreens&atilde;o d&aacute; conta de um mundo interno    pouco delimitado e coeso. A impossibilidade do sujeito estabelecer um compromisso    entre o interno e o externo, o real e o imagin&aacute;rio, n&atilde;o lhe permite    aceder &agrave; &aacute;rea transitiva. O sujeito n&atilde;o pode construir    &ldquo;novos objectos&rdquo; a partir de novas rela&ccedil;&otilde;es entre    o dentro e o fora. </P >     <P   align="justify" >A an&aacute;lise dos determinantes evidencia &ndash; quer pela baixa percentagem de F, quer pela intensa express&atilde;o cinest&eacute;sica do protocolo &ndash;, a dificuldade de Joana em apreender a realidade externa. Tendo em conta a intensidade pulsional e fantasm&aacute;tica associada &agrave;s respostas cinest&eacute;sicas, K e k podem representar F din&acirc;micos e projectivos, o que reflecte esta dificuldade do sujeito em adaptar-se &agrave; realidade. A falta de diferencia&ccedil;&atilde;o entre o sujeito e o objecto revela a impossibilidade de se estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o intersubjectiva entre o interno e o externo que permita a exist&ecirc;ncia de um espa&ccedil;o potencial pr&oacute;prio, onde o sujeito possa construir as suas pr&oacute;prias experi&ecirc;ncias. </P >    <P   align="justify" >A an&aacute;lise dos conte&uacute;dos revela a enorme dificuldade de Joana em aceder &agrave; representa&ccedil;&atilde;o de si num sistema de rela&ccedil;&otilde;es, devido ao car&aacute;cter destrutivo e invasivo da rela&ccedil;&atilde;o. A dificuldade em se reconstruir no contacto com a mancha e com o outro, indica que n&atilde;o &eacute; capaz de reconhecer a sua subjectividade e, por conseguinte, n&atilde;o se pode situar na &aacute;rea intermedi&aacute;ria entre o interno e o externo. </P >    <P   align="justify" >As observa&ccedil;&otilde;es de simetria tamb&eacute;m d&atilde;o conta da dificuldade do sujeito se reconhecer no contacto com o Outro. A sensibilidade &agrave; simetria do cart&atilde;o indica que o sujeito procura fazer a separa&ccedil;&atilde;o entre ele e o Outro. No entanto, esta revela-se sempre inoperante, quer pelo desdobramento do mesmo em rela&ccedil;&atilde;o ao eixo de simetria, quer pelo car&aacute;cter destrutivo e invasivo da rela&ccedil;&atilde;o. </P >    <P   align="justify" >Relativamente ao T.R.I., identificamos um predom&iacute;nio do p&oacute;lo C sobre o p&oacute;lo K (extroversivo misto). Atendendo &agrave; intensidade pulsional e fantasm&aacute;tica associada &agrave;s respostas cinest&eacute;sicas, a atribui&ccedil;&atilde;o de movimento &agrave;s figuras humanas n&atilde;o constitui um processo criativo e evolu&iacute;do, mas sim a aus&ecirc;ncia de uma rela&ccedil;&atilde;o din&acirc;mica entre interno e externo. A predomin&acirc;ncia do p&oacute;lo C (7,5C) revela tamb&eacute;m uma falta de controlo afectivo, uma invas&atilde;o dos afectos. A falta de equil&iacute;brio entre os p&oacute;los K e C d&aacute; conta da impossibilidade do sujeito estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o intersubjectiva entre o interno e o externo. </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >A f&oacute;rmula complementar atesta um predom&iacute;nio das cinestesias menores sobre o esbatimento (6k&gt;3,5E), variando no sentido contr&aacute;rio ao T.R.I. Atendendo a que k&gt;K, k d&aacute; conta de uma din&acirc;mica regressiva, em que perante a dificuldade em suportar o conflito, Joana desloca os movimentos pulsionais destrutivos para conte&uacute;dos n&atilde;o humanos ou partes humanas, o que traduz a impossibilidade de contacto com o outro e, por conseguinte, a impossibilidade de aceder &agrave; &aacute;rea transitiva. Embora &agrave; custa de estrat&eacute;gias pouco evolu&iacute;das, o esbatimento permite um contacto, prec&aacute;rio, com o outro. O esbatimento d&aacute; conta de uma procura de apoio, em que a imagem Rorschach &eacute; investida como se fosse um objecto transitivo, adquirindo a sua fun&ccedil;&atilde;o. </P >    <P   align="justify" >A percentagem de RC situa-se acima do valor estimado. A extrema sensibilidade &agrave; cor pastel evidencia uma invas&atilde;o dos afectos. A impossibilidade de manter uma dial&eacute;ctica entre a realidade e os afectos indica que Joana n&atilde;o &eacute; capaz de aceder &agrave; &aacute;rea transitiva. </P >    <P   align="center" >CONCLUS&Otilde;ES </P >    <P   align="justify" >Numa perspectiva psicodin&acirc;mica, procur&aacute;mos compreender as caracter&iacute;sticas dos fen&oacute;menos transitivos e do espa&ccedil;o potencial no protocolo Rorschach de um sujeito <I>borderline</I>. </P >    <P   align="justify" >Da an&aacute;lise do protocolo pudemos constatar a impossibilidade do sujeito estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o intersubjectiva entre o interior e o exterior e, deste modo, aceder &agrave; &aacute;rea transitiva. Apesar desta realidade, o sujeito &eacute; capaz de mobilizar estrat&eacute;gias de forma a estabelecer um contacto m&iacute;nimo com o outro. A imagem Rorschach &eacute; transformada num objecto real, sendo-lhe atribu&iacute;do a fun&ccedil;&atilde;o (de suporte) e as qualidades (reconfortantes, calmantes) de um objecto transitivo. Este funcionamento revela a falta de internaliza&ccedil;&atilde;o das propriedades calmantes e securizantes do objecto transitivo no decurso do desenvolvimento. O movimento de procurar estabelecer uma comunica&ccedil;&atilde;o t&eacute;nue com o objecto, d&aacute; conta de uma aproxima&ccedil;&atilde;o ao espa&ccedil;o potencial &ndash; espa&ccedil;o pr&eacute;-potencial. </P >    <P   align="justify" >A leitura proposta nos procedimentos dos conceitos de fen&oacute;menos transitivos e de espa&ccedil;o potencial, revelou-se extremamente &uacute;til no estudo destes conceitos no protocolo Rorschach da Joana. Nos procedimentos, procur&aacute;mos dotar os elementos Rorschach de valores interpretativos que possibilitassem a leitura dos conceitos em estudo, o que serviu de base &agrave; compreens&atilde;o destes conceitos na an&aacute;lise do protocolo. </P >    <P   align="justify" >Na situa&ccedil;&atilde;o Rorschach, Joana n&atilde;o &eacute; capaz de estabelecer um compromisso entre a percep&ccedil;&atilde;o (a realidade) e a projec&ccedil;&atilde;o (o imagin&aacute;rio): ou (1) apega-se &agrave; realidade concreta e objectiva, procurando defender-se do contacto com o Outro; ou (2) deixa-se invadir pelo seu mundo fantasm&aacute;tico, reflectindo o car&aacute;cter destrutivo e invasivo da rela&ccedil;&atilde;o. Na acep&ccedil;&atilde;o de Ogden, esta situa&ccedil;&atilde;o d&aacute; conta do fracasso do sujeito em manter uma dial&eacute;ctica psicol&oacute;gica entre a realidade e a fantasia, o que traduz uma incapacidade de simboliza&ccedil;&atilde;o. No primeiro registo de funcionamento, a realidade &eacute; usada como defesa contra a fantasia, retirando toda a vitalidade da fantasia; no segundo registo, a realidade &eacute; substitu&iacute;da pela fantasia, que se transforma numa realidade t&atilde;o tang&iacute;vel e perigosa como a realidade externa, da qual n&atilde;o se pode diferenciar. </P >    <P   align="justify" >Joana n&atilde;o &eacute; capaz de, no contacto com um est&iacute;mulo desconhecido, construir e reconstruir novas rela&ccedil;&otilde;es entre o dentro e o fora. A impossibilidade de uma rela&ccedil;&atilde;o din&acirc;mica entre o interno e o externo impedemna de se situar na &aacute;rea transitiva. </P >    <P   align="justify" >O n&atilde;o reconhecimento da pr&oacute;pria subjectividade reflecte-se no Rorschach por uma incapacidade de Joana construir imagens com o cunho da sua originalidade e unicidade, sem que seja posta em causa a sua adapta&ccedil;&atilde;o ao real. De acordo com as ideias de Winnicott, esta situa&ccedil;&atilde;o revela a aus&ecirc;ncia de um espa&ccedil;o potencial pr&oacute;prio, onde o sujeito possa construir as suas pr&oacute;prias experi&ecirc;ncias. </P >    <P   align="justify" >Apesar da aus&ecirc;ncia de um espa&ccedil;o intersubjectivo entre o real e o imagin&aacute;rio, o dentro e o fora, Joana &eacute; capaz de mobilizar estrat&eacute;gias, de forma a estabelecer um contacto com o Outro. A procura de apoio, de amortecimento de viv&ecirc;ncias mais angustiantes, ao longo do protocolo, indica que a imagem Rorschach criada pelo sujeito &eacute; transformada num objecto de suporte, sendo investida como se fosse um objecto transitivo na acep&ccedil;&atilde;o de Winnicott. A fragilidade e precariedade do suporte (e.g., &ldquo;<I>baloi&ccedil;o</I>, &ldquo;<I>rocha</I>&rdquo;), que remete para a car&ecirc;ncia do <I>holding</I>, permite apenas uma comunica&ccedil;&atilde;o t&eacute;nue entre o sujeito e o outro. Na acep&ccedil;&atilde;o de Amaral de Dias (2004), o objecto &eacute; utilizado como uma segunda pele (mental) e neste sentido, fala na exist&ecirc;ncia de uma pele ou permeabilidade do pensamento. Esta d&aacute; conta, por um lado, da falta de um limite claro entre o sujeito e o objecto mas, por outro, permite manter uma dist&acirc;ncia m&iacute;nima em rela&ccedil;&atilde;o ao objecto. Podemos acrescentar a tend&ecirc;ncia de Joana para transformar a imagem Rorschach num objecto reconfortante, de forma a &ldquo;mascarar&rdquo; o sentimento de vazio, sentimento associado &agrave; ang&uacute;stia branca de Green (e.g., IX &ndash; &ldquo;<I>... do lago sai uma fonte luminosa</I>&rdquo;). </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >As estrat&eacute;gias utilizadas por Joana, de forma a estabelecer uma comunica&ccedil;&atilde;o t&eacute;nue com o objecto, d&atilde;o conta de uma aproxima&ccedil;&atilde;o ao espa&ccedil;o potencial. Neste sentido, falamos na exist&ecirc;ncia de um espa&ccedil;o pr&eacute;-potencial. </P >    <P   align="justify" >Os coment&aacute;rios de Joana, ao longo da prova, atestam uma &ldquo;perda de dist&acirc;ncia&rdquo; face ao objecto, sendo a imagem Rorschach incorporada na experi&ecirc;ncia actual do sujeito (e.g., V &ndash; &ldquo;<I>Isto &eacute; s&oacute; criaturas estranhas...</I>&rdquo;). De acordo com Winnicott, a dificuldade de Joana em distinguir o s&iacute;mbolo do objecto simbolizado p&otilde;e em evid&ecirc;ncia a n&atilde;oaceita&ccedil;&atilde;o do paradoxo winnicottiano: o objecto n&atilde;o estava l&aacute; para ser criado pelo sujeito, mas antes, &eacute; fruto da pr&oacute;pria cria&ccedil;&atilde;o do sujeito. </P >    <P   align="center" >REFER&Ecirc;NCIAS </P >     <P   align="justify" >Chabert, C. (1997/1998). <I>O Rorschach na cl&iacute;nica do </I><I>adulto &ndash;    Interpreta&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica</I>. Lisboa: Climepsi. </P >     <P   align="justify" >Davis, M., &amp; Wallbridge, D. (1981). <I>Boundary and </I><I>space: An introduction    to the work of D. W. </I><I>Winnicott</I>. New York: Brunner/Mazel. </P >     <P   align="justify" >Dias, C. A. (2004). <I>Costurando as linhas da </I><I>psicopatologia borderland    (estados-limite)</I>. Lisboa: Climepsi. </P >     <P   align="justify" >Green, A. (1997). The intuition of the negative in playing and reality. <I>International    Journal of </I><I>Psycho-analysis, 78</I>(6), 1071-1084. </P >     <P   align="justify" >Ogden, T. (1985). On potential space. <I>International Journal of Psycho-analysis, 66 </I>(2), 129-141. </P >    <P   align="justify" >Pinheiro, C. B. (2005). <I>Cria&ccedil;&otilde;es sobre Leonardo Da Vinc. Arte e Psican&aacute;lise</I>. Lisboa: Climepsi </P >    <P   align="justify" >Pontalis, J.-B. (1999). <I>Entre o sonho e a dor</I>. Lisboa: Fenda. </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >Winnicott, D. W. (1986). The theory of the parent-infant relationship. In M. D. Peter Buckley (Ed.), <I>Essential papers on object relations </I>(pp. 233-253). New York: University Press. </P >     <P   align="justify" >Winnicott, D. W. (1971/1975). <I>O brincar e a realidade</I>. Rio de Janeiro:    Imago. </P >     <P   align="justify" >&nbsp;</P >     <P   align="justify" >(<a href="#top1">*</a><a name="1"></a>) Artigo elaborado a partir da disserta&ccedil;&atilde;o    com o mesmo t&iacute;tulo apresentada e defendida no ISPA, em 2009, no &acirc;mbito    do Mestrado Integrado em Psicologia Cl&iacute;nica. </P >     <P   align="justify" >(<a href="#top2">**</a><a name="2"></a>) Psic&oacute;loga Cl&iacute;nica. </P >     <P   align="justify" >(<a href="#top3">***</a><a name="3"></a>) Psic&oacute;loga Cl&iacute;nica, Professora    Associada do Instituto Superior de Psicologia Aplicada. </P >     <P   align="justify" >(<a href="#top4">****</a><a name="4"></a>) Psic&oacute;loga Cl&iacute;nica, Hospital    Fernando Fonseca. </P >     <P   align="justify" >&nbsp;</P >      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Chabert]]></surname>
<given-names><![CDATA[C.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[O Rorschach na clínica do adulto: Interpretação psicanalítica]]></source>
<year>1998</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Climepsi]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
