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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[As dimensões antedipianas das organizações limite na narrativa Rorschach]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[An amplification of the interpretative possibilities of the Rorschach&#8217;s technique is proposed, based on the theorique developments of Racamier about the Antoedip. This theory is presented and widened so it can be applied to borderline personality organization. The utilization of borderline antoedipian organizers on the interpretative analysis of the Rorschach&#8217;s narrative is described and illustrated with a protocol.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"   ><b>As dimens&otilde;es antedipianas das organiza&ccedil;&otilde;es limite na    narrativa Rorschach (<a href="#3">*</a><a name="top3"></a>)</b></p >     <p align="right"   >Filipa Falc&atilde;o Rosado (<a href="#4">**</a><a name="top4"></a>) </p >     <p align="right"   >Maria Em&iacute;lia Marques (<a href="#5">***</a><a name="top5"></a>) </p >     <P   align="center" >RESUMO </P >     <P   align="justify" >Prop&otilde;e-se uma amplia&ccedil;&atilde;o das possibilidades interpretativas    da t&eacute;cnica Rorschach a partir dos desenvolvimentos te&oacute;ricos de    Racamier sobre o Ant&eacute;dipo. Esta teoria &eacute; apresentada e alargada    de forma a ser aplicada &agrave;s organiza&ccedil;&otilde;es limite da personalidade.    S&atilde;o descritos os procedimentos de an&aacute;lise interpretativa da narrativa    Rorschach no que diz respeito aos organizadores espec&iacute;ficos do ant&eacute;dipo    limite. Um protocolo serve de ilustra&ccedil;&atilde;o &agrave; t&eacute;cnica    interpretativa utilizada. </P >     <P   align="justify" ><I>Palavras chave: </I>Ant&eacute;dipo, Organiza&ccedil;&otilde;es limite, Racamier,    Rorschach. </P >     <P   align="center" >ABSTRACT </P >     <P   align="justify" >An amplification of the interpretative possibilities of the Rorschach&rsquo;s    technique is proposed, based on the theorique developments of Racamier about    the Antoedip. This theory is presented and widened so it can be applied to borderline    personality organization. The utilization of borderline antoedipian organizers    on the interpretative analysis of the Rorschach&rsquo;s narrative is described    and illustrated with a protocol. </P >     <P   align="justify" ><I>Key words: </I>Ant&oelig;dip, Borderline organizations, Racamier, Rorschach.  </P >     <P   align="justify" >&nbsp; </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="center" >INTRODU&Ccedil;&Atilde;O </P >     <P   align="justify" >Com este trabalho procur&aacute;mos traduzir em procedimentos de an&aacute;lise da narrativa Rorschach os principais organizadores do conflito antedipiano (Racamier, 1980, 1992, 1993, 2003), tal como estes se expressam nas organiza&ccedil;&otilde;es limite. Desta forma, pretendemos ampliar as possibilidades interpretativas da t&eacute;cnica Rorschach e assim enriquecer a an&aacute;lise fina e minuciosa dos processos ps&iacute;quicos presentes nestas configura&ccedil;&otilde;es estruturais. </P >    <P   align="center" >ANT&Eacute;DIPO </P >     <P   align="justify" >O <I>ant&eacute;dipo </I>designa o processo de constitui&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica    precoce da individualidade e da objectalidade, vivido no seio da rela&ccedil;&atilde;o    precoce, intersubjectiva, m&atilde;e-beb&eacute;. Organiza-se em torno do <I>conflito    origin&aacute;rio, </I>conflito entre a indiferencia&ccedil;&atilde;o e a diferencia&ccedil;&atilde;o,    entre a estaticidade e o crescimento, entre o narcisismo e a objectalidade.    Como o grafismo do termo deixa antever, este pode ser um percurso <I>ante </I>ou    <I>anti </I>edipiano, conforme se resolva num ou noutro sentido o conflito origin&aacute;rio,    e se organizem, ou n&atilde;o, as estruturas intra e inter ps&iacute;quicas    que permitem a emerg&ecirc;ncia do verdadeiro complexo edipiano. </P >     <P   align="justify" >Assim, desde o in&iacute;cio, a rela&ccedil;&atilde;o de <I>sedu&ccedil;&atilde;o    narc&iacute;sica </I>entre a m&atilde;e e o beb&eacute;, que tem por fun&ccedil;&atilde;o    assegurar uma protec&ccedil;&atilde;o face &agrave;s for&ccedil;as de atrac&ccedil;&atilde;o    objectal e de excita&ccedil;&atilde;o pulsional, desorganizadoras se incontidas    nesta fase t&atilde;o precoce, pode ser vivida, na interac&ccedil;&atilde;o    e no fantasma, como um processo de gradual diferencia&ccedil;&atilde;o dos dois    elementos da d&iacute;ade, promovendo o crescimento e a autonomia, ou ao contr&aacute;rio,    como uma forma de fortalecer e eternizar a indiferencia&ccedil;&atilde;o e a    estagna&ccedil;&atilde;o. No primeiro caso, o conflito &eacute; abordado e elaborado,    e a sedu&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica desvanece-se gradualmente atrav&eacute;s    de um trabalho de <I>luto origin&aacute;rio, </I>que se fundir&aacute; nas bases    do Eu<Sup><a href="#1">1</a><a name="top1"></a> </Sup>emergente, possibilitando-lhe    toda uma s&eacute;rie de aquisi&ccedil;&otilde;es fundamentais. Ao contr&aacute;rio,    no segundo caso, na sua vers&atilde;o extremada e patol&oacute;gica, a organiza&ccedil;&atilde;o    antedipiana imortaliza a sedu&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica pela entrada    em cena do dom&iacute;nio <I>incestual </I>e pela organiza &ccedil;&atilde;o    de um sistema de recusa do real. </P >     <P   align="justify" >No percurso do desenvolvimento designado por Racamier como <I>ant&eacute;dipo vitalizante</I>, a sedu&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica original n&atilde;o &eacute; nem exclusiva nem constante, dando lugar a esse luto origin&aacute;rio que permite a progressiva diferencia&ccedil;&atilde;o, descoberta e co-cria&ccedil;&atilde;o do Eu e do objecto. A perda da viv&ecirc;ncia de uni&atilde;o narc&iacute;sica com a m&atilde;e introduz, portanto, uma distin&ccedil;&atilde;o fundamental, &ldquo;o mundo dividiu-se em duas partes: o interno e o externo. Estas partes n&atilde;o est&atilde;o clivadas, permanecem ligadas, mas distintas&rdquo; (Racamier, 1992, p. 32). No ponto fronteiri&ccedil;o &ldquo;organiza-se, em filigrana uma imago intermedi&aacute;ria que n&atilde;o &eacute; exactamente a representa&ccedil;&atilde;o de si nem do objecto, embora participe de ambos, e que se constitui como uma representa&ccedil;&atilde;o fundamental do Humano&rdquo; (Racamier, 1980, p. 115). A Ideia do Eu constitui-se como inst&acirc;ncia mediadora, que permite o com&eacute;rcio, a troca de investimentos, entre o Eu e o objecto, por instituir este sentimento de familiaridade, confian&ccedil;a e reconhecimento entre os dois. Neste percurso antedipiano, os instrumentos de interac&ccedil;&atilde;o &ndash; pele, respira&ccedil;&atilde;o e olhar &ndash; come&ccedil;am por assegurar um contacto contentor e passam gradualmente a trabalhar no sentido do reconhecimento e da qualifica&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua. Do ponto de vista fantasm&aacute;tico, d&aacute;-se uma gradual transforma&ccedil;&atilde;o de uma viv&ecirc;ncia omnipotente de englobamento m&uacute;tuo, que evoca o retorno intra-uterino, para uma viv&ecirc;ncia co-criativa, que permite que o Eu se descubra como aquele que cria o objecto e que &eacute; por ele criado. A alian&ccedil;a entre narcisismo e objectalidade, a intrica&ccedil;&atilde;o pulsional, a criatividade e a capacidade de suportar perdas e desilus&otilde;es s&atilde;o as marcas fundamentais da din&acirc;mica ps&iacute;quica que emerge a partir deste processo de luto original. </P >     <P   align="justify" >Num percurso antag&oacute;nico, o do <I>ant&eacute;dipo furioso, </I>a sedu&ccedil;&atilde;o    narc&iacute;sica &eacute; n&atilde;o apenas exclusiva e constante, mas exacerbada    e cristalizada pela entrada em cena de mecanismos <I>incestuais</I><Sup>2</Sup>,    como forma de &ldquo;evitar o acontecimento ps&iacute;quico da separa&ccedil;&atilde;o,    da diferen&ccedil;a e da excita&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Racamier, 1992, p.    134). Trata-se da rigidifica&ccedil;&atilde;o de um universo estacion&aacute;rio    e indefinido, atrav&eacute;s de uma rela&ccedil;&atilde;o de desqualifica&ccedil;&atilde;o    narc&iacute;sica que, pela nega&ccedil;&atilde;o &ldquo;da diferen&ccedil;a    dos sexos, das gera&ccedil;&otilde;es e dos seres&rdquo; (op. cit, p. 134),    impede o desejo e o conflito de se esbo&ccedil;arem, e assim o Eu de se diferenciar:    &ldquo;quem nada tem a desejar, nada &eacute;&rdquo; (op. cit, p. 135). Este    percurso antedipiano, marcado pela l&oacute;gica incestual, leva &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o    de uma Ideia do Eu monstruosa e omnipotente, que recusa, ao mesmo tempo, a exist&ecirc;ncia    do Eu e do objecto. Os instrumentos de interac&ccedil;&atilde;o, pele, respira&ccedil;&atilde;o    e olhar, trabalham aqui ao servi&ccedil;o dessa desqualifica&ccedil;&atilde;o    ps&iacute;quica que recusa a diferencia&ccedil;&atilde;o; e a viv&ecirc;ncia    fantasm&aacute;tica que subjaz a este universo indiferenciado &eacute; a do    auto-engendramento omnipotente. Ao anular o desejo, o ant&eacute;dipo furioso    anula o pensamento sobre as origens e, suprimindo os seus progenitores, o Eu    declara-se mestre absoluto das suas origens e do mundo inteiro: &ldquo;quem    se criou, criou o mundo&rdquo; (op. cit, p. 51). Complementar a este auto-engendramento    megaloman&iacute;aco est&aacute; o fantasma inverso, o do auto-desengendramento:    &ldquo;aquele que se criou pode tamb&eacute;m descriar-se, quem se fez, desfazer-se;    e quem se engendrou, desengendrar-se&rdquo; (op. cit, p. 69). Um ser que assim    existe, como se n&atilde;o existisse e simult&acirc;nea e paradoxalmente como    se nada existisse al&eacute;m dele, despende todos os seus recursos num combate    desenfreado com a realidade, numa expuls&atilde;o permanente do conflito. O    seu funcionamento ps&iacute;quico caracteriza-se, ent&atilde;o, por uma din&acirc;mica    assente na recusa, na clivagem, na projec&ccedil;&atilde;o e na identifica&ccedil;&atilde;o    projectiva. </P >     <P   align="center" >O PERCURSO ANTEDIPIANO DAS ORGANIZA&Ccedil;&Otilde;ES LIMITE</P >     <P   align="justify" >Da literatura sobre as organiza&ccedil;&otilde;es limite (Bergeret, 1986, 1989,    1996/2000, 1972/2004; Chabert, Brusset, &amp; Brelet-Foulard, 1999; Green, 1990,    1973/2004; Kernberg, 1986) destacamos uma configura&ccedil;&atilde;o estrutural    assente num d&eacute;fice narc&iacute;sico prim&aacute;rio, que inviabiliza    o processo de constitui&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os intra e inter ps&iacute;quicos    bem delimitados, comprometendo a organiza&ccedil;&atilde;o de processos e espa&ccedil;os    de liga&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o (a intrica&ccedil;&atilde;o    pulsional, a elabora&ccedil;&atilde;o da posi&ccedil;&atilde;o depressiva, a    constitui&ccedil;&atilde;o do pr&eacute;-consciente, a operatividade do recalcamento,    dos fen&oacute;menos transitivos e da simboliza&ccedil;&atilde;o), o que determina    uma viv&ecirc;ncia relacional marcada por ang&uacute;stias de separa&ccedil;&atilde;o-intrus&atilde;o    face a um objecto vivido como perigoso mas narcisicamente imprescind&iacute;vel,    que o recurso a defesas arcaicas baseadas na clivagem e no esvaziamento ps&iacute;quico    procura controlar. </P >     <P   align="justify" >Com base nestas caracter&iacute;sticas estruturais pens&aacute;mos uma terceira possibilidade de percurso antedipiano, que design&aacute;mos como <I>ant&eacute;dipo esvaziado</I>. Colocamos, ent&atilde;o, como hip&oacute;tese, a exist&ecirc;ncia de uma falha na viv&ecirc;ncia e integra&ccedil;&atilde;o original da sedu&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica, ditada pela imposi&ccedil;&atilde;o de um luto demasiado precoce e radical, e por isso n&atilde;o elabor&aacute;vel. Este luto institui uma clivagem entre o Eu e o objecto, sem que se constitua a fun&ccedil;&atilde;o mediadora proporcionada pela Ideia do Eu: a aus&ecirc;ncia de uma uni&atilde;o pr&eacute;via, <I>suficientemente boa, </I>compromete a familiaridade e confian&ccedil;a entre o Eu o objecto, tornando o primeiro narcisicamente fr&aacute;gil e o &uacute;ltimo, simultaneamente, imprescind&iacute;vel e amea&ccedil;ador, j&aacute; que, quer o abandono, quer a aproxima&ccedil;&atilde;o implicam o desmoronamento das fr&aacute;geis fronteiras do Eu. Face a uma viv&ecirc;ncia clivada perante um objecto narcisicamente indispens&aacute;vel, o incestual vai servir, n&atilde;o para perenizar a sedu&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica (como vimos acontecer na constru&ccedil;&atilde;o antedipiana psic&oacute;tica), mas para a fazer nascer. A rela&ccedil;&atilde;o com o objecto ser&aacute; vivida como perp&eacute;tua tentativa de anular a dist&acirc;ncia, a diferen&ccedil;a e a excita&ccedil;&atilde;o, demasiado intensas e n&atilde;o transform&aacute;veis, provocada por esse objecto t&atilde;o necess&aacute;rio quanto temido. </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >Neste quadro intra e inter ps&iacute;quico os instrumentos de interac&ccedil;&atilde;o trabalham de forma bastante prec&aacute;ria e descont&iacute;nua na manuten&ccedil;&atilde;o das fronteiras do Eu e na aproxima&ccedil;&atilde;o incestual ao objecto, sustentados por uma fantasm&aacute;tica de n&atilde;o lugar na origem pr&oacute;pria &ndash; se a sedu&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica n&atilde;o foi vivida, o fantasma-n&atilde;o-fantasma de auto-engendramento n&atilde;o se estabeleceu, logo, tamb&eacute;m n&atilde;o o seu complementar, o fantasma-n&atilde;o-fantasma de auto-desengendramento. O que se vive &eacute; o terror da cria&ccedil;&atilde;o e destrui&ccedil;&atilde;o pelo outro, na qual o Eu n&atilde;o interv&eacute;m, numa fantasm&aacute;tica primitiva, crua, sem simboliza&ccedil;&atilde;o. </P >    <P   align="justify" >Porque privada de um processo de individualiza&ccedil;&atilde;o progressiva, em que Eu e objecto se descobrem e se criam mutuamente a partir do que os une e separa, esta organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o disp&otilde;e verdadeiramente de capacidades de liga&ccedil;&atilde;o (intra-ps&iacute;quicas de alian&ccedil;a pulsional e inter-ps&iacute;quicas de alian&ccedil;a entre narcisismo e objectalidade), de cria&ccedil;&atilde;o, de desilus&atilde;o e de separa&ccedil;&atilde;o. A sua din&acirc;mica ps&iacute;quica oscila, assim, entre a clivagem objectal, com suas concomitantes idealiza&ccedil;&otilde;es e desvaloriza&ccedil;&otilde;es, e que testemunham esse luto n&atilde;o super&aacute;vel, e a utiliza&ccedil;&atilde;o de equivalentes incestuais, como a identifica&ccedil;&atilde;o projectiva e o esvaziamento ps&iacute;quico (brancura fantasm&aacute;tica, actua&ccedil;&otilde;es e somatiza&ccedil;&otilde;es) que procuram simular a sedu&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica perdida. </P >    <P   align="center" >UMA LEITURA ANTEDIPIANA DO RORSCHACH</P >    <P   align="justify" >Os trabalhos desenvolvidos pela Escola Francesa de T&eacute;cnicas Projectivas sublinham a ideia de que a narrativa Rorschach se constr&oacute;i a partir de uma dupla mobiliza&ccedil;&atilde;o, perceptiva e projectiva, proporcionada quer pela instru&ccedil;&atilde;o, quer pelas solicita&ccedil;&otilde;es manifestas e latentes do material. Por esta raz&atilde;o, a narrativa Rorschach permite observar as capacidades e/ou dificuldades de <I>encontro</I>, <I>reconhecimento</I>, <I>diferencia&ccedil;&atilde;o </I>e <I>comunica&ccedil;&atilde;o criativa </I>face ao objecto, indicadores fundamentais do percurso antedipiano trilhado pelo psiquismo a partir da sedu&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica original. </P >    <P   align="justify" >Nesse sentido, procur&aacute;mos adaptar os procedimentos de an&aacute;lise interpretativa consagrados pela Escola Francesa (Anzieu, 1967; Anzieu &amp; Chabert 1961/2004; Chabert, 1997/2003, 1998/2000; De Traubenberg, 1970, 1983a,b, 1996), de forma a aceder &agrave;s diversas dimens&otilde;es do funcionamento ps&iacute;quico antedipiano. Assim, estabelecemos tr&ecirc;s organizadores de an&aacute;lise, (1) a <I>geografia antedipiana </I>(que avalia a diferencia&ccedil;&atilde;o da t&oacute;pica tern&aacute;ria antedipiana Eu/objecto/ /Ideia do Eu)<I>, </I>(2) os <I>fantasmas e seus instru</I><I></I><I>mentos </I>(que avalia o trabalho fantasm&aacute;tico e de interac&ccedil;&atilde;o) e (3) as <I>din&acirc;micas ps&iacute;quicas ante</I><I></I><I>dipianas </I>(que avalia os recursos ps&iacute;quicos derivados do percurso antedipiano trilhado). Cada um destes organizadores apresenta uma configura&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica para cada um dos percursos antedipianos assinalados. Explicitaremos em seguida, recorrendo a exemplos de um protocolo de um sujeito limite, Daniel, 42 anos, os procedimentos de an&aacute;lise da narrativa Rorschach que permitem identificar uma configura&ccedil;&atilde;o antedipiana esvaziada. </P >    <P   align="justify" ><I>Geografia ps&iacute;quica: A fragilidade da constitui&ccedil;&atilde;o do Eu e as dificuldades de separa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o Eu/objecto </I></P >    <P   align="justify" ><I>a) Eu </I></P >    <P   align="justify" >Se o primeiro sinal de uma sedu&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica estruturante, fundida no tecido do Eu ap&oacute;s a travessia completa do luto original, &eacute; a constitui&ccedil;&atilde;o de um espa&ccedil;o interior coeso, unificado e investido, inversamente, o sinal da aus&ecirc;ncia dessa vitaliza&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica prim&aacute;ria, e de um luto imposto mas n&atilde;o elaborado, que caracteriza a constela&ccedil;&atilde;o antedipiana das organiza&ccedil;&otilde;es limite, &eacute; precisamente a constitui&ccedil;&atilde;o de um espa&ccedil;o interior vazio, carente de coes&atilde;o, em perigo permanente face a quaisquer movimenta&ccedil;&otilde;es que, a partir do interior ou do exterior, exijam conten&ccedil;&atilde;o e elabora&ccedil;&atilde;o. Esta car&ecirc;ncia narc&iacute;sica &eacute; observ&aacute;vel, no Rorschach, a partir das projec&ccedil;&otilde;es da imagem de si, sobretudo nos cart&otilde;es I, IV, V e VI, em G simples, sem espessura, sem vitalidade, acompanhadas de uma excessiva preocupa&ccedil;&atilde;o com a delimita&ccedil;&atilde;o, que s&oacute; &eacute; eficaz enquanto as din&acirc;micas do luto n&atilde;o forem contrariadas pelas din&acirc;micas incestuais. </P >    <P   align="justify" >O protocolo de Daniel inicia-se com a resposta &ldquo;um insecto grande&rdquo;, seguida do coment&aacute;rio subjectivo &ldquo;Eu n&atilde;o gosto muito de insectos... Fazem-me uma certa impress&atilde;o, a viscosidade deles...&rdquo;. Trata-se de um animal pouco definido, pequeno e invertebrado, o que aponta desde logo para alguma falta de solidez e coes&atilde;o interna, tra&iacute;da at&eacute; pelo contraste com o adjectivo &ldquo;grande&rdquo; que indicia o car&aacute;cter perturbador da imagem e pelo coment&aacute;rio que revela o investimento negativo. No inqu&eacute;rito Daniel procura de novo assegurar a coer&ecirc;ncia da imagem, assinalando o contorno, o aspecto mais formal, &ldquo;o contorno todo, as asas&rdquo;, mas procura manter o objecto coeso atrav&eacute;s de uma f&oacute;rmula que trai o risco de desintegra&ccedil;&atilde;o, &ldquo;as asas ligadas ao corpo&rdquo;. No cart&atilde;o IV, a resposta &ldquo;Uma pele de animal qualquer, estendida no ch&atilde;o a fazer de tapete, ou pendurado numa parede&rdquo;, revela novamente a projec&ccedil;&atilde;o de uma representa&ccedil;&atilde;o fr&aacute;gil e desvitalizada, pouco definida, passiva e carente de um suporte que n&atilde;o encontra. No cart&atilde;o V Daniel projecta a sua fragilidade atrav&eacute;s da seguinte sequ&ecirc;ncia: &ldquo;Pode ser um insecto. Pode ser uma m&aacute;scara de carnaval (...); e no inqu&eacute;rito &lsquo;a ideia m&iacute;tica de vampiro, transformada em cinema. Tamb&eacute;m h&aacute; aqui um bocadinho a ideia de vampiro&rdquo;. A sequ&ecirc;ncia de respostas &eacute; reveladora das dificuldades de constitui&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica, numa altern&acirc;ncia entre o indefinido (insecto) e o definido (m&aacute;scara de carnaval, vampiro), entre a aus&ecirc;ncia de eixo central (a coluna) e a necessidade de refor&ccedil;ar a dureza da pele (a m&aacute;scara), entre a viv&ecirc;ncia depressiva de uma desvitaliza&ccedil;&atilde;o que s&oacute; pode ser estancada pela parasita&ccedil;&atilde;o do outro (o vampiro) e o engrandecimento espectacular e dram&aacute;tico desta sua condi&ccedil;&atilde;o, num movimento de omnipot&ecirc;ncia auto-engendradora (m&iacute;tico, cinematogr&aacute;fico). </P >    <P   align="justify" >Ainda relativamente &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica, devemos ter em aten&ccedil;&atilde;o que a sensibilidade ao branco, as tentativas de agarrar os recortes perceptivos, ou o eixo mediano organizador da simetria, podem ser utilizadas como forma de configurar os limites e coordenadas de um espa&ccedil;o vazio e em risco de dilui&ccedil;&atilde;o. </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >No protocolo de Daniel observamos disso exemplos quando atrav&eacute;s do branco, e por vezes apelando ao eixo, s&atilde;o constitu&iacute;dos objectos r&iacute;gidos, mas sempre esvaziados internamente: &ldquo;m&aacute;scara&rdquo; no cart&atilde;o II, &ldquo;jarro&rdquo; no cart&atilde;o III, &ldquo;coroa&rdquo; no VIII e &ldquo;candeeiro&rdquo; no IX. </P >    <P   align="justify" ><I>b) Ideia do Eu </I></P >    <P   align="justify" >Face a um luto imposto ao inv&eacute;s de lentamente elaborado, Eu e objecto s&atilde;o radicalmente separados, sem possibilidade de se constituir eficazmente esse elemento mediador que garante que a diferencia&ccedil;&atilde;o n&atilde;o compromete o reconhecimento e a familiaridade, assegurando a perten&ccedil;a a um mundo humano comummente partilhado. A fragilidade da constitui&ccedil;&atilde;o da Ideia do Eu pode ser observada, no Rorschach, na estranheza, desconforto, desconfian&ccedil;a ou desvitaliza&ccedil;&atilde;o que emana das imagens humanas ou animais produzidas, mas tamb&eacute;m dos outros objectos em geral, e das manchas em particular (provocando cr&iacute;ticas objectivas ou subjectivas), bem como na dificuldade em sustentar representa&ccedil;&otilde;es relacionais que respeitem, simultaneamente, a diferencia&ccedil;&atilde;o e a familiaridade. </P >    <P   align="justify" >No protocolo por n&oacute;s estudado, um insecto viscoso, no cart&atilde;o I, &ldquo;dois elefantes do circo&rdquo; imediatamente transformados em perigosos rinocerontes no cart&atilde;o II, similar &agrave; transforma&ccedil;&atilde;o, no cart&atilde;o IV, de &ldquo;pele de um animal qualquer&rdquo; em &ldquo;pele de um lobo (...) um b&uacute;falo (...) um urso&rdquo; e da m&aacute;scara de carnaval em vampiro, no V, bem como a cr&iacute;tica &agrave; cor, &ldquo;&eacute; a cor que &eacute; muito... embora goste de cinzento e preto, mas aqui... faz parte dessa viscosidade dos insectos&rdquo; no cart&atilde;o I, &ldquo;deste cinzento que n&atilde;o me agrada muito, este contraste com o cinzento e o branco n&atilde;o gosto&rdquo;, no cart&atilde;o IV, revelam a dificuldade em construir imagens cuja familiaridade possa apaziguar o contacto com o objecto mancha. A escassez de representa&ccedil;&otilde;es humanas (apenas dois H em 18 respostas) e a exist&ecirc;ncia de apenas um K que representa duas figuras humanas, mas indiferenciadas e sem verdadeiro investimento relacional, &ldquo;duas pessoas sentadas a uma mesa&rdquo; no cart&atilde;o III, aponta igualmente para a n&atilde;o operacionalidade desta instancia mediadora. </P >     <P   align="justify" >Numa observa&ccedil;&atilde;o mais ampla, a inefic&aacute;cia organizadora desta    representa&ccedil;&atilde;o mediadora entre a interioridade e a exterioridade,    entre o Eu e o outro, revela-se na atitude ao longo da prova, na dificuldade    em tolerar esse objecto estranho que s&atilde;o as manchas Rorschach, que conduz    &agrave; impossibilidade de projectar imagens que tornem familiar e seguro um    objecto que, &agrave; partida, n&atilde;o o &eacute;. Nessa medida, a observa&ccedil;&atilde;o    da din&acirc;mica das respostas a um mesmo cart&atilde;o, e ao protocolo como    um todo, revelar&aacute; a aus&ecirc;ncia ou escassez de movimentos organizadores,    contentores, securizantes. </P >     <P   align="justify" >No protocolo de Daniel, apesar de algumas tentativas, n&atilde;o se observam movimentos verdadeiramente contentores ao longo das respostas, pelo contr&aacute;rio, as sequ&ecirc;ncias tendem a esbater as fronteiras entre o Eu e o objecto, sobretudo a partir da invas&atilde;o sensorial, em que a cor acaba por dominar conduzindo &agrave; indefini&ccedil;&atilde;o dos limites, &agrave; confus&atilde;o ou &agrave; brancura representacional: &ldquo;&eacute; a cor que &eacute; muito... embora goste de cinzento e preto, mas aqui... (...) a cor tem sempre muita import&acirc;ncia para mim&rdquo;, no inqu&eacute;rito ao cart&atilde;o I explicando a alus&atilde;o &agrave; viscosidade com que termina a resposta espont&acirc;nea; &ldquo;A sensa&ccedil;&atilde;o de aguarela, e as cores muito bonitas, muito mediterr&acirc;nicas... se estiv&eacute;ssemos nalguma cidade acho que pensaria em Paris&rdquo;, explica no inqu&eacute;rito ao cart&atilde;o IX; &ldquo;E gosto do... do vermelho, gosto de vermelho&rdquo;, refer&ecirc;ncia com que termina o cart&atilde;o II, similar &agrave; verbaliza&ccedil;&atilde;o final do cart&atilde;o VIII, que procura igualmente uma tranquiliza&ccedil;&atilde;o sensorial mas que anula a possibilidade de representa&ccedil;&atilde;o, &ldquo;Mas vem-me a priori a cor, n&atilde;o sei, por os outros serem escuros... &Eacute; o rosa, &eacute; bonito&rdquo;. </P >    <P   align="justify" ><I>c) Objecto </I></P >    <P   align="justify" >A extrema fragilidade destas duas inst&acirc;ncias, do Eu enquanto espa&ccedil;o interior investido, e da Ideia do Eu enquanto elemento mediador, implica que a rela&ccedil;&atilde;o com o objecto seja vivida numa l&oacute;gica de depend&ecirc;ncia e perigosidade: dist&acirc;ncia e proximidade, ambas podem comprometer a manuten&ccedil;&atilde;o das t&eacute;nues fronteiras ps&iacute;quicas. Esta situa&ccedil;&atilde;o conduz a oscila&ccedil;&otilde;es entre movimentos que, sentindo a perigosidade do objecto, procuram salvaguardar o luto vivido, permitindo a produ&ccedil;&atilde;o de representa&ccedil;&otilde;es que investem a delimita&ccedil;&atilde;o perceptiva, como forma de assegurar a conserva&ccedil;&atilde;o dos limites, mas que s&atilde;o extremamente &aacute;ridas, planas, sem interven&ccedil;&atilde;o de uma projec&ccedil;&atilde;o capaz de enriquecer o objecto-mancha (e portanto de boa qualidade formal, mas sem qualquer movimento ou participa&ccedil;&atilde;o da cor e do esbatimento); ou inversamente, a movimentos de aproxima&ccedil;&atilde;o incestual, determinados pela car&ecirc;ncia, que visam refazer a uni&atilde;o com o objecto, mas que terminam em invas&atilde;o e desmoronamento das fronteiras (produ&ccedil;&otilde;es em F-, C, C&rsquo; ou E, ou com conte&uacute;dos fragmentados). A realiza&ccedil;&atilde;o dos dois movimentos em simult&acirc;neo, sem possibilidade de organizar nenhuma das solu&ccedil;&otilde;es, conduz &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de imagens sem delimita&ccedil;&atilde;o formal definida (F&plusmn;, CF, C&rsquo;F, EF), dando conta de uma tentativa de afastamento que falha, resultando no desabamento dos limites ps&iacute;quicos, e reenviando para a aus&ecirc;ncia da fun&ccedil;&atilde;o contentora da sedu&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica prim&aacute;ria. </P >    <P   align="justify" >A sequ&ecirc;ncia dada por Daniel em reac&ccedil;&atilde;o ao cart&atilde;o VIII &eacute; ilustrativa das suas dificuldades face ao objecto: a produ&ccedil;&atilde;o relativa a este cart&atilde;o inicia-se com um choque face &agrave; introdu&ccedil;&atilde;o das cores pastel, num movimento omnipotente que recusa o impacto brutal do objecto, mas que resvala na impossibilidade de representar: &ldquo;Ah, logo &agrave; primeira &eacute; cor, que &eacute; uma coisa que me faz bem &agrave; sa&uacute;de, tem rosas que eu gosto&rdquo;. O movimento seguinte, que produz uma resposta distanciada, &ldquo;pode parecer&rdquo;, revela a necessidade de retirada narc&iacute;sica, com constitui&ccedil;&atilde;o de um objecto s&oacute;lido, valorizado e valorizante, &ldquo;uma coroa real&rdquo;, insistentemente empolgado: &ldquo;de um reino bastante importante... coroa grande, consistente&rdquo;. A acentua&ccedil;&atilde;o das caracter&iacute;sticas imponentes continua, procurando unificar e estabilizar o objecto, &ldquo;uma coroa com as armas reais e as bandeiras&rdquo;, e no inqu&eacute;rito &ldquo;Coroa de Inglaterra, com as bandeiras e os le&otilde;es&rdquo;, mas que come&ccedil;a a escorregar face a esta aproxima&ccedil;&atilde;o ao detalhe, revelando o risco de perda de coes&atilde;o t&atilde;o fortemente combatido, &ldquo;le&otilde;es ou leoas, uma coisa assim&rdquo; a que se segue um sil&ecirc;ncio marcando a ruptura do processo associativo. </P >    <P   align="justify" >Devemos estar atentos &agrave;s sequ&ecirc;ncias de respostas, &agrave;s oscila&ccedil;&otilde;es produzidas, de forma a destacar a for&ccedil;a de cada uma das din&acirc;micas &ndash; a do luto e a do incesto; &eacute; igualmente importante relacionar cada um dos movimentos ou sequ&ecirc;ncias de movimentos com as caracter&iacute;sticas perceptivas dos cart&otilde;es e as suas solicita&ccedil;&otilde;es latentes. Os cart&otilde;es unit&aacute;rios e inteiros, pelo contraste brutal entre figura e fundo e pela coes&atilde;o da mancha, solicitam a fragilidade e solid&atilde;o desse Eu privado do contacto organizador e narcisante da rela&ccedil;&atilde;o de sedu&ccedil;&atilde;o original; os cart&otilde;es bilaterais e com participa&ccedil;&atilde;o do vermelho, pela sua solicita&ccedil;&atilde;o relacional e pulsional intensificam a perigosidade do objecto e as dificuldades de conten&ccedil;&atilde;o e elabora&ccedil;&atilde;o interior; finalmente, os cart&otilde;es com lacunas intramaculares reenviam ao vazio narc&iacute;sico deixado pela radicalidade desse luto imposto. </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >O protocolo como um todo pode dar conta de movimentos incestuais de procura incessante de aderir ao objecto, fragmentando-se a unidade pela excessiva sensibilidade &agrave;s particularidades de cada cart&atilde;o, ou &agrave; repeti&ccedil;&atilde;o incessante das mesmas formula&ccedil;&otilde;es (numa rigidez de modos de apreens&atilde;o e/ou determinantes, e/ou conte&uacute;dos), como forma de conservar a fr&aacute;gil unidade do Eu, evitando o apelo desorganizador do objecto. </P >    <P   align="justify" ><I>Fantasm&aacute;tica antedipiana e seus instrumentos de interac&ccedil;&atilde;o: O n&atilde;o lugar na origem pr&oacute;pria e a fragilidade dos instrumentos antedipianos de contacto e conten&ccedil;&atilde;o </I></P >    <P   align="justify" ><I>a) Fantasm&aacute;tica </I></P >    <P   align="justify" >A aus&ecirc;ncia de um momento de omnipot&ecirc;ncia auto-engendradora vivido no seio da rela&ccedil;&atilde;o de sedu&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica original, e a sua transforma&ccedil;&atilde;o em processo de co-cria&ccedil;&atilde;o de si, do outro e do mundo, inscreve, como assinal&aacute;mos, uma fantasm&aacute;tica crua marcada pela impot&ecirc;ncia, pelo terror da cria&ccedil;&atilde;o e da destrui&ccedil;&atilde;o pelo outro, que como sabemos &eacute; combatida pelas duas vias antag&oacute;nicas do luto e do incesto. Esta fantasm&aacute;tica, que compromete a capacidade criadora do Eu, &eacute; observ&aacute;vel no Rorschach na impossibilidade de acrescentar significado, espessura, riqueza, &agrave;s imagens produzidas, mantendo-se o controlo perceptivo mas secando a projec&ccedil;&atilde;o criadora (numa separa&ccedil;&atilde;o radical entre o interior e o exterior), ou ao contr&aacute;rio, na perda das delimita&ccedil;&otilde;es e na invas&atilde;o sensorial ou projectiva a partir de uma resson&acirc;ncia extrema face &agrave;s solicita&ccedil;&otilde;es latentes dos cart&otilde;es (numa invas&atilde;o incestual do objecto). </P >    <P   align="justify" >A an&aacute;lise das respostas K dar&aacute; igualmente conta destas dificuldades: ou s&atilde;o K de postura reenviando ao fechamento, ao abatimento ou ao desamparo (numa l&oacute;gica de afastamento do objecto, num luto mal elaborado), ou se relacionais trazem a marca do perigo do encontro, e das dificuldades de diferencia&ccedil;&atilde;o que da&iacute; adv&eacute;m (os movimentos incestuais actuando aqui em menor ou maior grau, pela colagem e indiferencia&ccedil;&atilde;o dos dois elementos, ou pela perda do controlo perceptivo e formal). </P >    <P   align="justify" >A leitura da sequ&ecirc;ncia do protocolo dar&aacute; conta da dificuldade deste encontro com um objecto que solicita capacidades de comunica&ccedil;&atilde;o, liga&ccedil;&atilde;o, cria&ccedil;&atilde;o e transforma&ccedil;&atilde;o que este Eu n&atilde;o possui. As rupturas, as descontinuidades, a aus&ecirc;ncia de unidade e sentido estar&atilde;o presentes como sinais do combate travado pelo narcisismo deficit&aacute;rio face &agrave; excita&ccedil;&atilde;o desorganizadora do objecto. </P >    <P   align="justify" >No protocolo de Daniel em que abundam os cortes associativos e os sil&ecirc;ncios, em que existem apenas dois K (de postura), encontramos imagens como a do cart&atilde;o III que permite apreender a banalidade, &ldquo;duas pessoas sentadas a uma mesa&rdquo;, depois do necess&aacute;rio afastamento perceptivo &ldquo;parecem&rdquo;, mas em que nenhuma defini&ccedil;&atilde;o sexual &eacute; tentada, permanecendo, no inqu&eacute;rito, a express&atilde;o vaga &ldquo;pessoas&rdquo;, revelando ser imposs&iacute;vel produzir um enriquecimento da imagem a partir de uma vitaliza&ccedil;&atilde;o comunicante num K verdadeiramente relacional, mas encontramos igualmente, e com frequ&ecirc;ncia no final das sequ&ecirc;ncias como j&aacute; assinal&aacute;mos, invas&otilde;es sensoriais que aniquilam as possibilidades representativas, como exemplifica o final da produ&ccedil;&atilde;o espont&acirc;nea face ao cart&atilde;o VI &ldquo;e acho que isto deve ser aguarela, uma coisa assim, uma aguarela&rdquo;. </P >    <P   align="justify" ><I>b) Instrumentos de interac&ccedil;&atilde;o </I></P >    <P   align="justify" >A aus&ecirc;ncia de uma proximidade qualificadora, organizadora, que v&aacute; auxiliando o Eu na constitui&ccedil;&atilde;o de limites pr&oacute;prios, suficientemente s&oacute;lidos para que se distinga face ao exterior, mas simultaneamente suficientemente flex&iacute;veis para que o com&eacute;rcio seja poss&iacute;vel, marca estas organiza&ccedil;&otilde;es esvaziadas. A pele, o olhar e a respira&ccedil;&atilde;o, enquanto instrumentos de interac&ccedil;&atilde;o e de delimita&ccedil;&atilde;o, revelar&atilde;o as marcas da aus&ecirc;ncia de um objecto capaz de suster, organizar e qualificar o Eu neste trabalho sobre os limites. </P >    <P   align="justify" >A produ&ccedil;&atilde;o de imagens demasiado r&iacute;gidas, ou demasiado porosas, revelam a falha na fun&ccedil;&atilde;o de delimita&ccedil;&atilde;o flex&iacute;vel da pele. A dificuldade em olhar a mancha de forma a que Eu e objecto se constituam simultaneamente neste encontro, produzindo imagens que ou desqualificam o Eu pelo respeito exclusivo &agrave;s caracter&iacute;sticas do objecto, ou desqualificam o objecto pelo excesso de projec&ccedil;&atilde;o, indiciam as falhas da fun&ccedil;&atilde;o comunicante do olhar. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >Finalmente, no que diz respeito &agrave; respira&ccedil;&atilde;o, as desregula&ccedil;&otilde;es    r&iacute;tmicas dos tempos de lat&ecirc;ncia e das respostas, acusam as dificuldades    de circula&ccedil;&atilde;o desintoxicada entre o espa&ccedil;o interior e o    exterior. Mais uma vez, o que &eacute; necess&aacute;rio analisar em profundidade    s&atilde;o os movimentos de radical dissocia&ccedil;&atilde;o e esvaziamento    ou de aproxima&ccedil;&atilde;o incestual invasora. </P >     <P   align="justify" >No caso de Daniel observamos frequentemente constru&ccedil;&otilde;es a partir de uma pele dura e fria, que protege o interior atrav&eacute;s de uma rigidifica&ccedil;&atilde;o que impede a comunica&ccedil;&atilde;o, mas que, paradoxalmente, n&atilde;o consegue conter e diferenciar eficazmente os objectos do seu fundo: &ldquo;uma m&aacute;scara chinesa&rdquo; no cart&atilde;o II, &ldquo;um jarro bonito, com duas imagens a suster... o vaso l&aacute;...&rdquo; no cart&atilde;o III, ou o &ldquo;contraste de um bel&iacute;ssimo candeeiro <I>Art Deco</I>, com as cores por detr&aacute;s, do dia, do fim do dia&rdquo; no cart&atilde;o IX, objectos sempre constru&iacute;dos a partir da dificuldade em destacar a mancha do fundo branco. O olhar revela um excesso de projec&ccedil;&atilde;o que oscila entre a desqualifica&ccedil;&atilde;o de si (insectos nos cart&otilde;es I, V e VI, viscosidade no cart&atilde;o I, vampiro no cart&atilde;o V), e o engrandecimento excessivo do objecto (as refer&ecirc;ncias ao espect&aacute;culo e &agrave; dramatiza&ccedil;&atilde;o como no cart&atilde;o I &ldquo;uma imagem muito teatralizada&rdquo;, ou no cart&atilde;o VII &ldquo;uma imagem completamente oper&aacute;tica&rdquo;), mais uma vez sem tal permitir uma verdadeira estabiliza&ccedil;&atilde;o. Finalmente, chamam-nos &agrave; aten&ccedil;&atilde;o as descontinuidades r&iacute;tmicas (sil&ecirc;ncios e rupturas associativas) que n&atilde;o tornam poss&iacute;vel uma circula&ccedil;&atilde;o respirat&oacute;ria desintoxicada, revelando as dificuldades de contacto e conten&ccedil;&atilde;o. </P >    <P   align="justify" ><I>Din&acirc;micas antedipianas: O combate permanente entre narcisismo e objectalidade, a sombra do luto (a clivagem objectal, as idealiza&ccedil;&otilde;es e desidealiza&ccedil;&otilde;es) e a sombra do incesto (a identifica&ccedil;&atilde;o projectiva e a brancura ps&iacute;quica) </I></P >    <P   align="justify" ><I>a) O combate entre narcisismo e objectalidade </I></P >    <P   align="justify" >A marca absolutamente caracter&iacute;stica deste ant&eacute;dipo esvaziado &eacute; o combate permanente entre narcisismo e objectalidade, marcado pela presen&ccedil;a destes movimentos contr&aacute;rios que vimos assinalando, e que d&atilde;o conta da aus&ecirc;ncia de uma diferencia&ccedil;&atilde;o eficiente, porque carente de uma interioridade plena e de uma comunica&ccedil;&atilde;o enriquecedora entre a interioridade e a exterioridade, que procura estancar a excita&ccedil;&atilde;o do objecto sem nunca o poder recusar plenamente (como &eacute; feito pelo incesto prim&aacute;rio, em oposi&ccedil;&atilde;o a estes movimentos incestuais secund&aacute;rios ao esvaziamento provocado pela crispa&ccedil;&atilde;o dos limites). </P >    <P   align="justify" >Face a este quadro, a integridade identit&aacute;ria est&aacute; constantemente amea&ccedil;ada, a representa&ccedil;&atilde;o relacional comprometida (ou ausente, ou sem diferencia&ccedil;&atilde;o verdadeiramente conseguida entre os elementos), e as capacidades antedipianas vitalizantes de intrica&ccedil;&atilde;o pulsional, de criatividade e supera&ccedil;&atilde;o dos lutos n&atilde;o podem operar. A desintrica&ccedil;&atilde;o pulsional pode ser observada nos cart&otilde;es II e III, na produ&ccedil;&atilde;o de imagens em CF, C&rsquo;F, EF ou mesmo em C, C&rsquo; e E, e de representa&ccedil;&otilde;es K, kan ou kob desorganizadoras, demasiado intensas ou de m&aacute; qualidade formal. As dificuldades em criar transparecem no excesso de submiss&atilde;o perceptiva ou, ao contr&aacute;rio, de invas&atilde;o projectiva, sem possibilidades de enriquecimento m&uacute;tuo do Eu e do objecto. A intoler&acirc;ncia &agrave; perda &eacute; pass&iacute;vel de ser observada atrav&eacute;s da contamina&ccedil;&atilde;o das sequ&ecirc;ncias que procura impedir a separa&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m dos cortes associativos reveladores da dificuldade de manter uma unidade subjacente &agrave; diversidade; a marca dessa perda inicial n&atilde;o elaborada, porque sempre carente da vitaliza&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica que a deveria ter precedido, pode ser inferida a partir da preocupa&ccedil;&atilde;o extrema, mas nem sempre eficaz, com a distin&ccedil;&atilde;o entre a figura e o fundo, bem como a partir da excessiva sensibilidade &agrave;s lacunas intra-maculares. </P >    <P   align="justify" >No protocolo que nos tem servido de ilustra&ccedil;&atilde;o encontramos marcas claras deste combate entre narcisismo e objectalidade. Desde logo, e como j&aacute; assinal&aacute;mos, a integridade narc&iacute;sica encontra-se permanentemente amea&ccedil;ada (o que observ&aacute;mos atrav&eacute;s da projec&ccedil;&atilde;o de uma representa&ccedil;&atilde;o de si fragilizada e das invas&otilde;es sensoriais conducentes ao esvaziamento representativo), e as possibilidades relacionais encontram-se gravemente comprometidas (o que &eacute; revelado pelas tentativas de evitamento dos cart&otilde;es relacionais, em que apesar de serem enunciados dois elementos nunca s&atilde;o realmente postos em rela&ccedil;&atilde;o como mostra a aus&ecirc;ncia de K relacionais). Relativamente aos processos de intrica&ccedil;&atilde;o pulsional observamos a sua inoperatividade atrav&eacute;s da constru&ccedil;&atilde;o de respostas com determina&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria da cor nos cart&otilde;es II e III, a que se seguem respostas cinest&eacute;sicas com integra&ccedil;&atilde;o de elementos perturbadores: no cart&atilde;o II depois de uma m&aacute;scara chinesa devido ao branco e vermelho s&atilde;o representados animais de grande porte, oscilando entre elefantes mais pacatos e rinocerontes mais perigosos, e no cart&atilde;o III, depois do jarro constru&iacute;do a partir do &ldquo;contorno todo&rdquo; negro, as figuras humanas s&atilde;o reconhecidas &agrave; volta de uma fogueira, o que conduz &agrave; transforma&ccedil;&atilde;o do la&ccedil;o central, correctamente apreendido, em &ldquo;fogo&rdquo; no inqu&eacute;rito. As dificuldades em suster um processo verdadeiramente criativo transparecem na aus&ecirc;ncia de respostas organizadas e no excesso projectivo revelado pela escassez de imagens de boa qualidade formal (apenas um F+, dois FC e dois K de boa qualidade); e a dificuldade em suportar a perda &eacute; indiciada pela aus&ecirc;ncia de reorganiza&ccedil;&otilde;es significativas na sequ&ecirc;ncia de rupturas associativas, na contamina&ccedil;&atilde;o das sequ&ecirc;ncias das respostas (com utiliza&ccedil;&atilde;o dos mesmos movimentos e conte&uacute;dos em respostas diferentes, como nos cart&otilde;es abertos e relacionais com constru&ccedil;&otilde;es de objectos duros no branco, na contamina&ccedil;&atilde;o da imagem do insecto em tr&ecirc;s cart&otilde;es, na extens&atilde;o da aguarela do cart&atilde;o VI a todos os cart&otilde;es e na reutiliza&ccedil;&atilde;o da representa&ccedil;&atilde;o mediterr&acirc;nica no IX e X), na dificuldade em operar distin&ccedil;&otilde;es eficazes entre figura e fundo (cart&otilde;es II, III e IX), e na excessiva sensibilidade &agrave;s lacunas intra-maculares. </P >    <P   align="justify" ><I>b) A sombra do luto </I></P >    <P   align="justify" >A perigosidade do objecto, que incita movimentos mais pr&oacute;ximos da l&oacute;gica do luto mas sem essas suas capacidades organizadoras, &eacute; respons&aacute;vel pelas clivagens objectais, observadas na intermit&ecirc;ncia de processos de idealiza&ccedil;&atilde;o que suportam o narcisismo deficit&aacute;rio, e de desidealiza&ccedil;&atilde;o como combate &agrave; invas&atilde;o temida. S&atilde;o vis&iacute;veis no Rorschach na produ&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos de qualidades antag&oacute;nicas, e nos coment&aacute;rios e cr&iacute;ticas que visam enaltecer o Eu ou atacar o objecto. </P >    <P   align="justify" >A presen&ccedil;a destes mecanismos &eacute; observ&aacute;vel, no protocolo de Daniel, na transforma&ccedil;&atilde;o dos animais no cart&atilde;o II, na simultaneidade da passividade e da for&ccedil;a no animal/tapete do cart&atilde;o IV, na idealiza&ccedil;&atilde;o do vampiro anteriormente desqualificado como insecto no cart&atilde;o V, na transforma&ccedil;&atilde;o de &ldquo;duas velhas&rdquo; em personagens oper&aacute;ticas no cart&atilde;o VII, na transforma&ccedil;&atilde;o do elemento masculino mas desvitalizado &ldquo;torre&rdquo; em mulher poderosa e m&iacute;tica no cinzento superior do cart&atilde;o X &ldquo;alguma deusa mediterr&acirc;nica&rdquo;, e no permanente enaltecimento das cores dos cart&otilde;es a par da &oacute;bvia desqualifica&ccedil;&atilde;o que elas produzem no psiquismo de Daniel. </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" ><I>c) A sombra do incesto </I></P >    <P   align="justify" >A depend&ecirc;ncia narc&iacute;sica, pelo seu lado, organiza os processos incestuais que conduzem &agrave; confus&atilde;o dos objectos anteriormente delimitados (a identifica&ccedil;&atilde;o projectiva, de que s&atilde;o exemplos, no protocolo que estamos a utilizar, a invas&atilde;o do cinzento do cart&atilde;o IV &ldquo;fico t&atilde;o cinzento como os cinzentos&rdquo; ou a confus&atilde;o entre a luz do candeeiro e a luz natural por detr&aacute;s, no cart&atilde;o IX), e no extremo &agrave; brancura ps&iacute;quica que anula qualquer dist&acirc;ncia pela nadifica&ccedil;&atilde;o (conte&uacute;dos esvaziados e siderados, restri&ccedil;&atilde;o, rupturas e recusas). </P >    <P   align="center" >DISCUSS&Atilde;O </P >    <P   align="justify" >No final de uma an&aacute;lise pormenorizada do protocolo segundo os v&aacute;rios indicadores de cada organizador antedipiano, deve ser poss&iacute;vel sintetizar a constitui&ccedil;&atilde;o antedipiana do sujeito em estudo. Relativamente ao protocolo por n&oacute;s utilizado para ilustrar a t&eacute;cnica proposta pudemos concluir: </P >    <P   align="justify" >Do ponto de vista do diagn&oacute;stico psicol&oacute;gico, e referindo-nos aqui apenas ao universo antedipiano (e portanto deixando de fora uma &aacute;rea imensa desse diagn&oacute;stico), apesar das suas tentativas desesperadas (procura de limites perceptivos, constitui&ccedil;&atilde;o de objectos duros, protectores) Daniel apresenta uma profunda fragilidade na manuten&ccedil;&atilde;o da diferencia&ccedil;&atilde;o face ao objecto, com o qual o contacto &eacute; desnarcisante (viscoso), esvaziante, mas absolutamente imprescind&iacute;vel para a sua sobreviv&ecirc;ncia (vampiro). Mas &eacute; quando se aproxima mais da terra prometida, a rela&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica original, que Daniel melhor se organiza, e mais consegue fixar limites e estabelecer diferencia&ccedil;&otilde;es (na resposta VII, &ldquo;a silhueta&rdquo; de duas mulheres, enquanto contorno mesmo que t&eacute;nue n&atilde;o se perde na sequ&ecirc;ncia da resposta como sempre aconteceu com os objectos representados nos outros cart&otilde;es, e na resposta X a organiza&ccedil;&atilde;o de um espa&ccedil;o interno &eacute; poss&iacute;vel a partir de uma figura feminina omnipotente, &ldquo;como se fosse um lago e isto fosse um port&atilde;o, a escadaria, a imagem da dona desse mundo aqu&aacute;tico&rdquo;). </P >    <P   align="justify" >Assim, do ponto de vista de uma interven&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica, cujo pedido motivou a avalia&ccedil;&atilde;o, este dado permite-nos colocar a hip&oacute;tese de que h&aacute; alguma possibilidade de manuten&ccedil;&atilde;o da integridade no seio de uma rela&ccedil;&atilde;o regressiva, bem como uma centelha de diferencia&ccedil;&atilde;o interna; estas poderiam ser trabalhadas de forma a estabelecer, progressivamente, um pouco da vitaliza&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica de que carece, para que essas sementes de organiza&ccedil;&atilde;o interna possam, muito lentamente, encontrar algum solo onde germinar. Esta interven&ccedil;&atilde;o teria de ser extraordinariamente cuidadosa, pois a necessidade do objecto/terapeuta impeliria Daniel &agrave;s aproxima&ccedil;&otilde;es incestuais que conduzem ao seu esvaziamento, pelo que a conten&ccedil;&atilde;o desses movimentos, de forma narcisante e securizante, teria de ser constantemente observada. A promo&ccedil;&atilde;o de diferencia&ccedil;&otilde;es sexuais e de identifica&ccedil;&otilde;es a fun&ccedil;&otilde;es masculinas, que desconhece quase radicalmente (cart&otilde;es IV e VI), seriam imprescind&iacute;veis, para que algumas separa&ccedil;&otilde;es e constru&ccedil;&otilde;es ps&iacute;quicas se pudessem realizar, bem como para a valoriza&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica da sua identidade sexual. Uma reconstru&ccedil;&atilde;o, mesmo que pequena, desse tempo narc&iacute;sico que ficou por viver, pode ser poss&iacute;vel de forma a promover alguma solidifica&ccedil;&atilde;o das barreiras ps&iacute;quicas, de maneira a diminuir as aproxima&ccedil;&otilde;es incestuais, e a promover diferencia&ccedil;&otilde;es mais eficazes e menos empobrecedoras. </P >    <P   align="center" >CONCLUS&Atilde;O </P >    <P   align="justify" >O estudo do complexo antedipiano atrav&eacute;s do Rorschach, que tem como objectivo avaliar em que medida este processo de transforma&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria ocorreu ou n&atilde;o, que aquisi&ccedil;&otilde;es se realizaram, quais ficaram por fazer, permite ampliar a nossa compreens&atilde;o cl&iacute;nica no cruzamento com todos os outros dados que o pr&oacute;prio Rorschach, outras provas projectivas e a observa&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica facultam. E percorrer com o outro o caminho da descoberta, da compreens&atilde;o e da cria&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o afinal os prop&oacute;sitos do nosso encontro com o sujeito psicol&oacute;gico. No caso espec&iacute;fico das organiza&ccedil;&otilde;es limite, parece-nos que estudar os movimentos antedipianos, na sua oscila&ccedil;&atilde;o entre um luto radical que exp&otilde;e o Eu em toda a sua fragilidade e solid&atilde;o, e as aproxima&ccedil;&otilde;es incestuais ao objecto sempre narc&iacute;sico, pode trazer &agrave; luz novos e importantes elementos sobre o sofrimento destes indiv&iacute;duos, e a forma de, com eles, (re)construir esse tempo que ficou por integrar. </P >     <P   align="center" >&nbsp;</P >     <P   align="justify" ><Sup><a href="#top1">1</a><a name="1"></a></Sup>Traduzimos &ldquo;moi&rdquo;    por Eu e n&atilde;o por Ego, para conservar os v&aacute;rios sentidos da formula&ccedil;&atilde;o    de Racamier: espa&ccedil;o de investimento narc&iacute;sico, interioridade por    oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; exterioridade do objecto e do mundo, e semente    a partir da qual o ego, enquanto inst&acirc;ncia ps&iacute;quica dotada de capacidades    elaborativas, poder&aacute; florescer. Racamier utiliza por vezes as designa&ccedil;&otilde;es    &ldquo;moi&rdquo;, &ldquo;soi&rdquo; e &ldquo;je&rdquo; numa mesma frase, como    se de sin&oacute;nimos se tratassem, precisamente porque essa distin&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o &eacute; ainda operacional no momento de desenvolvimento que o ant&eacute;dipo    engloba. Da mesma forma, a designa&ccedil;&atilde;o &ldquo;Id&eacute;e du Moi&rdquo;    foi traduzida por &ldquo;Ideia do Eu&rdquo;, j&aacute; que &ldquo;Ideia do Ego&rdquo;    deixaria cair a refer&ecirc;ncia &agrave; inter-subjectividade que o conceito    comporta. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" ><Sup><a href="#top2">2</a><a name="2"></a></Sup>Racamier utiliza esta designa&ccedil;&atilde;o    para se referir ao incesto propriamente dito ou aos seus equivalentes (que se    descobrem em ac&ccedil;&otilde;es simultaneamente banais e secretas, excessivamente    investidas no seio das fam&iacute;lias) que visam impedir a emerg&ecirc;ncia    do desejo, do conflito e da diferencia&ccedil;&atilde;o, atrav&eacute;s de uma    sedu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o sexual mas narc&iacute;sica, actuada e n&atilde;o    fantasmada. </P >     <P   align="center" >&nbsp;</P >     <P   align="center" >REFERENCIAS </P >     <P   align="justify" >Anzieu, D. (1967). La m&eacute;thode projective: Ses diff&eacute;rentes techniques. <I>Bulletin de Psychologie, 21</I>(260), 1183-1185. </P >    <P   align="justify" >Anzieu, D., &amp; Chabert, C. (2004). <I>Les m&eacute;thodes projectives</I>. Paris: Presses Universitaires de France. (Obra original publicada em 1961) </P >    <P   align="justify" >Bergeret, J. (1986). Faiblesse et violence dans le drame du d&eacute;pressif contemporain. <I>Narcisisme et &eacute;tats</I><I>-</I><I>limites </I>(pp<I>. </I>162-233). Paris: Dunod/Presses Universitaires de Montreal. </P >    <P   align="justify" >Bergeret, J. (1989). Oedipe avant Th&egrave;bes. <I>Revue Fran&ccedil;aise de Psychanalyse, 53</I>(3), 857-872. </P >    <P   align="justify" >Bergeret, J. (2000). <I>A personalidade normal e patol&oacute;gica</I>. Lisboa: Climepsi. (Obra original publicada em 1996) </P >    <P   align="justify" >Bergeret, J. (Org.). (2004). <I>Psicologia Patol&oacute;gica</I>. Lisboa: Climepsi. (Obra original publicada em 1972) </P >    <P   align="justify" >Chabert, C. (2000). <I>A psicopatologia &agrave; prova no Rorschach</I>. Lisboa: Climepsi. (Obra original publicada em 1998) </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >Chabert, C. (2003). <I>O Rorschach na cl&iacute;nica do adulto</I>. Lisboa: Climepsi. (Obra original publicada em 1997) </P >    <P   align="justify" >Chabert, B., &amp; Brelet-Foulard (1999). <I>N&eacute;vroses et fonctionnements limites. </I>Paris: Dunod. </P >    <P   align="justify" >De Traubenberg, N. R. (1970). <I>La pratique du Rorschach. </I>Paris: Presses Universitaires de France. </P >    <!-- ref --><P   align="justify" >De Traubenberg, N. R. (1983a). Actividade perceptiva e actividade fantasm&aacute;tica no teste de Rorschach: O Rorschach espa&ccedil;o de interac&ccedil;&otilde;es. <I>An&aacute;lise Psicol&oacute;gica, 4</I>(1), 17-22. </P >    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000086&pid=S0870-8231200900030001300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P   align="justify" >De Traubenberg, N. R. (1983b). Representa&ccedil;&atilde;o de si e rela&ccedil;&atilde;o de objecto. Grelha de representa&ccedil;&atilde;o de si: An&aacute;lise comparada dos resultados de adolescentes doentes ps&iacute;quicos e som&aacute;ticos. <I>An&aacute;lise Psicol&oacute;gica, 4</I>, 31-40. </P >    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000087&pid=S0870-8231200900030001300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P   align="justify" >De Traubenberg, N. R. (1996). De quelques modalit&eacute;s d&rsquo;interpr&eacute;tation du Rorschach. <I>Bulletin de Psychologie, 49</I>(423), 219-224. </P >    <P   align="justify" >Green, A. (1990) <I>La folie priv&eacute;e: Psychanalyse des cas</I><I></I><I>-limites</I>. &Eacute;ditions Gallimard. </P >    <P   align="justify" >Green, A. (2004). Le discours vivant: La conception psychanalytique de l&rsquo;affect. Paris: Presses Universitaires de France. (Primeira edi&ccedil;&atilde;o em 1973) </P >    <P   align="justify" >Kernberg, O. (1986). Borderline Personality Organization. <I>Essential papers on borderline disorders: One houndred years at the border </I></P >    <P   align="justify" >(pp. 279-319). New York: New York University. </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >Racamier, P.-C. (1980). <I>Les schizophr&egrave;nes</I>. Paris: Payot. </P >    <P   align="justify" >Racamier, P.-C. (1992). <I>Le g&eacute;nie d&ecirc;s origines: Psychanalyse et psychoses</I>. Paris: Payot. </P >    <P   align="justify" >Racamier, P.-C. (1993). <I>Cort&egrave;ge conceptuel. </I>Paris: Editions du Coll&egrave;ge de Psychanalyse Groupale et Familiale. </P >    <P   align="justify" >Racamier, P.C. (2003). <I>Antoedipe et ses destins. </I>Paris: Apsyg&eacute;e Editions. </P >     <P   align="center" >&nbsp; </P >     <P   align="justify" >(<a href="#top3">*</a><a name="3"></a>) Artigo elaborado a partir da disserta&ccedil;&atilde;o    com o mesmo t&iacute;tulo apresentada e defendida no ISPA, em 2009, no &acirc;mbito    do Mestrado Integrado em Psicologia Cl&iacute;nica. </P >     <P   align="justify" >(<a href="#top4">**</a><a name="4"></a>) Psic&oacute;loga Cl&iacute;nica. </P >     <P   align="justify" >(<a href="#top5">***</a><a name="5"></a>) Psic&oacute;loga Cl&iacute;nica, Professora    Associada do Instituto Superior de Psicologia Aplicada. </P >     <P   align="justify" >&nbsp;</P >      ]]></body><back>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Representação de si e relação de objecto. Grelha de representação de si: Análise comparada dos resultados de adolescentes doentes psíquicos e somáticos]]></article-title>
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