<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0870-8231</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Análise Psicológica]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Aná. Psicológica]]></abbrev-journal-title>
<issn>0870-8231</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[ISPA-Instituto Universitário]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0870-82312009000300017</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Brincar e jogos de linguagem]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Neves]]></surname>
<given-names><![CDATA[Teresa Santos]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
<xref ref-type="aff" rid="A02"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,ISPA - Instituto Superior de Psicologia Aplicada  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A02">
<institution><![CDATA[,IUL - Instituto Universitário de Lisboa ISCTE - Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa Centro de Investigação e Intervenção Social]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>07</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>07</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<volume>27</volume>
<numero>3</numero>
<fpage>433</fpage>
<lpage>442</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0870-82312009000300017&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0870-82312009000300017&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0870-82312009000300017&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[O presente artigo aborda a evolução da comunicação simbólica, enquanto inter-relacção entre expressão simbólica e interpretação, ao longo do processo terapêutico. A noção de jogos-de-linguagem (Wittgenstein, 1953, 1975) é utilizada como quadro de referência para analisar as especificidades da comunicação simbólica. Com o desenvolvimento do processo terapêutico, vão-se estruturando diferentes jogos-de-linguagem temáticos entre paciente e analista. A partir de um caso clínico de uma psicoterapia analítica de uma criança, discute-se uma das características centrais dos jogos-de-linguagem usados na psicoterapia - a inter-relação entre discursos temáticos.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper analyses de evolution of the symbolic communication, as an interplay between symbolic expression and interpretation, during the therapeutic process. Wittgenstein&#8217;s (1953, 1975) notion of language-games is used as a framework to analyse the specificities of the symbolic communication. A clinic vignette of a child&#8217;s analytic psychotherapy is used in order to illustrate one of the central characteristics of the language-games used in therapy - the inter-relation between different thematic discourses.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Brincar]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Discursos temáticos]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[jogos-de-linguagem]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[simbolismo]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Language-games]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Play]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Symbolism]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Thematic discourse]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"   ><b>Brincar e jogos de linguagem (<a href="#3">*</a><a name="top3"></a>)</b></p >     <p align="right"   >Teresa Santos Neves (<a href="#4">**</a><a name="top4"></a>)<I> </I></p >       <P   align="center" >RESUMO </P >     <P   align="justify" >O presente artigo aborda a evolu&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o    simb&oacute;lica, enquanto inter-relac&ccedil;&atilde;o entre express&atilde;o    simb&oacute;lica e interpreta&ccedil;&atilde;o, ao longo do processo terap&ecirc;utico.    A no&ccedil;&atilde;o de jogos-de-linguagem (Wittgenstein, 1953, 1975) &eacute;    utilizada como quadro de refer&ecirc;ncia para analisar as especificidades da    comunica&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica. Com o desenvolvimento do processo    terap&ecirc;utico, v&atilde;o-se estruturando diferentes jogos-de-linguagem    tem&aacute;ticos entre paciente e analista. A partir de um caso cl&iacute;nico    de uma psicoterapia anal&iacute;tica de uma crian&ccedil;a, discute-se uma das    caracter&iacute;sticas centrais dos jogos-de-linguagem usados na psicoterapia    &ndash; a inter-rela&ccedil;&atilde;o entre discursos tem&aacute;ticos. </P >     <P   align="justify" ><I>Palavras-chave: </I>Brincar, Discursos tem&aacute;ticos, jogos-de-linguagem,    simbolismo. </P >     <P   align="center" >ABSTRACT </P >     <P   align="justify" >This paper analyses de evolution of the symbolic communication, as an interplay    between symbolic expression and interpretation, during the therapeutic process.    Wittgenstein&rsquo;s (1953, 1975) notion of language-games is used as a framework    to analyse the specificities of the symbolic communication. A clinic vignette    of a child&rsquo;s analytic psychotherapy is used in order to illustrate one    of the central characteristics of the language-games used in therapy &ndash;    the inter-relation between different thematic discourses. </P >     <P   align="justify" ><I>Key words: </I>Language-games, Play, Symbolism, Thematic discourse. </P >     <P   align="center" >INTRODU&Ccedil;&Atilde;O </P >    <P   align="justify" >&ldquo;So how do we explain to someone what &lsquo;understanding music&rsquo; means? By specifying the images, kinaesthesic sensations, etc., experienced by someone who understands? More likely, by drawing attention to his expressive movements. And we really ought to ask what function explanation has here&rdquo; (Wittgenstein, 1977, p. 70). </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >Entender a m&uacute;sica, tal como compreender o humor, &eacute; usado por Wittgenstein    (1977) como analogia para a sua concep&ccedil;&atilde;o de compreens&atilde;o    filos&oacute;fica. Este autor sublinha o facto de compreender a m&uacute;sica    n&atilde;o constituir uma explica&ccedil;&atilde;o, na medida em que n&atilde;o    diz respeito, nem &agrave; descoberta de factos, nem &agrave; constru&ccedil;&atilde;o    de teorias. A compreens&atilde;o da m&uacute;sica &eacute; mais complexa do    que simplesmente argumentar que algu&eacute;m que compreende m&uacute;sica a    escutar&aacute; de forma diferente (e.g., ter&aacute; uma express&atilde;o facial    espec&iacute;fica, poder&aacute; referir-se &agrave; m&uacute;sica de forma    diferente de algu&eacute;m que n&atilde;o entenda). Deveria antes ser encarada    como estando relacionada com a adop&ccedil;&atilde;o do ponto de vista correcto,    um &ldquo;<I>aspect-seeing</I>&rdquo;<Sup><a href="#1">1</a><a name="top1" id="top1"></a>    </Sup>associado ao que parece ser a capacidade para perceber uma piada ou apreciar    m&uacute;sica. Este &ldquo;<I>aspect-seeing</I>&rdquo;, na m&uacute;sica, poesia,    pintura, humor, s&atilde;o reac&ccedil;&otilde;es que pertencem a, e apenas    podem sobreviver no contexto de uma forma de vida, uma utiliza&ccedil;&atilde;o    envolvendo a partilha da experi&ecirc;ncia que &eacute; requerida para interpretar    a evid&ecirc;ncia imponder&aacute;vel, as subtilezas do olhar e dos gestos,    todos estes contribuindo para a emerg&ecirc;ncia do entendimento (Monk, 1990).  </P >     <P   align="justify" >A an&aacute;lise da comunica&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica no contexto terap&ecirc;utico &eacute; an&aacute;loga &agrave; compreens&atilde;o da m&uacute;sica e, em particular, &agrave; experi&ecirc;ncia de escutar m&uacute;sica. Tomemos como exemplo uma sinfonia p&oacute;s-rom&acirc;ntica que utiliza a sobreposi&ccedil;&atilde;o de diferentes linhas mel&oacute;dicas como t&eacute;cnica de composi&ccedil;&atilde;o e na qual podemos distinguir as ra&iacute;zes da atonalidade. A m&uacute;sica atonal n&atilde;o segue as regras habituais da harmonia e, na medida em que frustra as regras da sequ&ecirc;ncia dos acordes, produz um efeito de surpresa no ouvinte (B. Massin &amp; J. Massin, 1983). Todavia, a analogia entre escutar a m&uacute;sica e compreender a comunica&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica &eacute; baseada numa experi&ecirc;ncia particular de ouvir m&uacute;sica, necessariamente diferente da forma segundo a qual um compositor ou mesmo um m&uacute;sico escutaria uma pe&ccedil;a, ou da escuta selectiva de algu&eacute;m que procura o tema musical central enquanto escuta uma sinfonia. </P >     <P   align="justify" >Tal como numa sinfonia que utiliza a t&eacute;cnica do contraponto para sobrepor    diferentes linhas mel&oacute;dicas, que apesar de estarem inter-relacionadas    se mant&ecirc;m relativamente aut&oacute;nomas umas das outras, o encontro terap&ecirc;utico    entre o analista e o analisando cria diferentes discursos tem&aacute;ticos que    permanecem interligadas durante o processo terap&ecirc;utico. Como na m&uacute;sica,    esta inter-rela&ccedil;&atilde;o entre os diferentes discursos tem&aacute;ticos    &eacute; altamente din&acirc;mica, exposta a grandes mudan&ccedil;as nas associa&ccedil;&otilde;es    entre os mesmos, &agrave; medida que o processo terap&ecirc;utico se desenvolve.    &Agrave; semelhan&ccedil;a do que acontece numa sinfonia, na terapia &eacute;    imposs&iacute;vel reduzir o material cl&iacute;nico de uma sess&atilde;o terap&ecirc;utica    a um &uacute;nico discurso, j&aacute; que envolve uma inter-rela&ccedil;&atilde;o    complexa entre diferentes discursos, mesmo que um tema prevale&ccedil;a sobre    os outros. O n&iacute;vel de an&aacute;lise do contraponto de uma pe&ccedil;a    de m&uacute;sica enfatiza a perspectiva horizontal das diferentes linhas musicais    e de como estas evoluem ao longo da pe&ccedil;a. A t&eacute;cnica do contraponto    convida o ouvinte a prestar aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s direc&ccedil;&otilde;es    simult&acirc;neas das diferentes linhas mel&oacute;dicas e, por isso, introduz    uma dimens&atilde;o temporal na an&aacute;lise da m&uacute;sica. Pelo contr&aacute;rio,    a harmonia introduz uma perspectiva vertical sobre as sequ&ecirc;ncias de acordes    de um momento espec&iacute;fico da m&uacute;sica (B. Massin &amp; J. Massin,    1983).</P >     <P   align="justify" >Existe um outro argumento que parece apoiar o recurso a esta analogia para exemplificar    a temporalidade da comunica&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica na terapia. Em    ambas as produ&ccedil;&otilde;es h&aacute; uma tarefa hermen&ecirc;utica endere&ccedil;ada,    uma vez que, como na m&uacute;sica, a express&atilde;o simb&oacute;lica convida    &agrave; interpreta&ccedil;&atilde;o com duas caracter&iacute;sticas temporais.    Em primeiro lugar, h&aacute; uma qualidade linear em ambas as produ&ccedil;&otilde;es    que permite o reconhecimento de um princ&iacute;pio, um meio e um fim. Em segundo    lugar, h&aacute; uma estrutura temporal c&iacute;clica, t&iacute;pica de uma    temporalidade da repeti&ccedil;&atilde;o da express&atilde;o simb&oacute;lica    e da m&uacute;sica que organiza a interpreta&ccedil;&atilde;o em ciclos. Todavia,    se estou a escutar a grava&ccedil;&atilde;o de uma m&uacute;sica posso ouvi-la    repetidamente. Pelo contr&aacute;rio, o di&aacute;logo que tem lugar na terapia    &eacute; altamente vol&aacute;til e evapora-se, apenas os participantes directos    t&ecirc;m acesso privilegiado ao mesmo, sendo assim apoiado na mem&oacute;ria    do discurso. </P >     <P   align="justify" >Em psican&aacute;lise, a perspectiva freudiana do simbolismo (e.g., Freud e Jones)    real&ccedil;a a liga&ccedil;&atilde;o entre s&iacute;mbolo e simbolizado, nomeadamente    as origens e as caracter&iacute;sticas atribu&iacute;das &agrave; rela&ccedil;&atilde;o    simb&oacute;lica, as caracter&iacute;sticas do simbolizado e do s&iacute;mbolo.    Em contraste, a abordagem kleiniana (e.g., Klein, Segal, Meltzer) destaca os    mecanismos ps&iacute;quicos requeridos para a activa&ccedil;&atilde;o do uso    de s&iacute;mbolos nas fases iniciais do desenvolvimento. O presente artigo    procura introduzir uma perspectiva distinta do simbolismo, focalizando-se no    uso de s&iacute;mbolos no contexto terap&ecirc;utico. Pretende-se abordar a    forma segundo a qual a comunica&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica emerge, evolui    e &eacute; usada na psicoterapia. A no&ccedil;&atilde;o de jogos-de-linguagem    (Wittgenstein, 1953, 1975) &eacute; usada como modelo de an&aacute;lise para    a compreens&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica e assinalados    os principais discursos tem&aacute;ticos emergentes no processo terap&ecirc;utico.    S&atilde;o identificadas tr&ecirc;s principais caracter&iacute;sticas espec&iacute;ficas    dos jogos-de-linguagem usados na terapia: inter-rela&ccedil;&atilde;o entre    discursos, qualidade reflexiva dos jogos--de-linguagem e diferentes n&iacute;veis    de flu&ecirc;ncia na comunica&ccedil;&atilde;o (Neves, 2007). O presente artigo    desenvolve fundamentalmente a primeira destas caracter&iacute;sticas: a inter-rela&ccedil;&atilde;o    entre discursos tem&aacute;ticos. A fim de ilustrar o modelo de an&aacute;lise    utilizado, ser&aacute; apresentada uma vinheta cl&iacute;nica dum caso de uma    crian&ccedil;a de 5 anos que realizou uma psicoterapia anal&iacute;tica semanal    com a autora. </P >     <P   align="center" >QUE TIPO DE JOGO-DE-LINGUAGEM &Eacute; A SITUA&Ccedil;&Atilde;O TERAP&Ecirc;UTICA? </P >     <P   align="justify" >At&eacute; que ponto a rela&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica visa estabelecer    um jogo-de-linguagem privado entre o terapeuta e o paciente? Se assim for, quais    ser&atilde;o ent&atilde;o as caracter&iacute;sticas deste jogo-de-linguagem?    Mais especificamente, poder&aacute; a no&ccedil;&atilde;o de jogos-de-linguagem    de Wittgenstein (1953, 1975) proporcionar um quadro de refer&ecirc;ncia prof&iacute;cuo    &agrave; compreens&atilde;o da emerg&ecirc;ncia do significado na an&aacute;lise    de crian&ccedil;as, que usa o jogo simb&oacute;lico como principal suporte para    a comunica&ccedil;&atilde;o entre a crian&ccedil;a e o/a terapeuta? </P >     <P   align="justify" >Na sua teoria dos jogos-de-linguagem, Wittgenstein procura identificar os processos que usamos para estabelecer os princ&iacute;pios que regulam as liga&ccedil;&otilde;es entre a linguagem e o mundo real. A conex&atilde;o entre uma palavra e o seu significado &eacute; encontrada na pr&aacute;tica do uso da mesma e n&atilde;o nas teorias ou nas regras. De facto, as palavras ganham significado a partir de um uso espec&iacute;fico, que tem que ser contextualizado numa determinada forma de vida. Cada dom&iacute;nio de vida possui um invent&aacute;rio de palavras espec&iacute;fico ao uso nesse mesmo campo de ac&ccedil;&atilde;o. Os jogos-de-linguagem s&atilde;o os actos lingu&iacute;sticos que t&ecirc;m lugar dentro desses diferentes dom&iacute;nios da vida social. A este prop&oacute;sito, Wittgenstein (1953) refere &ldquo;Here the term <I>language-games </I>is meant to bring into prominence the fact that speaking of language is part of an activity or a form of life&rdquo; (p. 10). </P >    <P   align="justify" >A gram&aacute;tica do jogo-de-linguagem corresponde &agrave;s conex&otilde;es internas entre proposi&ccedil;&otilde;es e determina o que faz ou n&atilde;o faz sentido num determinado contexto pr&aacute;tico ou cient&iacute;fico. As regras da gram&aacute;tica e a sintaxe correspondem &agrave; configura&ccedil;&atilde;o de um jogo: n&atilde;o podem ser justificadas, apenas ser postas em pr&aacute;tica, ou seja, jogadas. A gram&aacute;tica fixa o grau de liberdade e estabelece o que podemos e o que n&atilde;o podemos fazer. As rela&ccedil;&otilde;es internas estabelecidas pela gram&aacute;tica n&atilde;o podem ser examinadas ou justificadas. Tal como nos jogos, apenas podemos dar exemplos das mesmas e de quando as regras s&atilde;o usadas correctamente ou n&atilde;o. Por exemplo, a l&oacute;gica &eacute; uma das gram&aacute;ticas poss&iacute;veis na qual as regras l&oacute;gicas constituem as condi&ccedil;&otilde;es de possibilidade do discurso l&oacute;gico. Por isso, as regras l&oacute;gicas n&atilde;o s&atilde;o justificadas pela sua correspond&ecirc;ncia com a realidade, mas resultam de uma conven&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica, uma op&ccedil;&atilde;o em descrever o mundo de acordo com essa gram&aacute;tica espec&iacute;fica (Wittgenstein, 1969). </P >    <P   align="justify" >Uma das implica&ccedil;&otilde;es desta abordagem para a constru&ccedil;&atilde;o de significado &eacute; que a atribui&ccedil;&atilde;o de sentido faz parte de um contexto mais alargado &ndash; a forma de vida &ndash;. Por isso, o significado &eacute; fundamentalmente extralingu&iacute;stico e o lugar da comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; exterior &agrave; linguagem, constituindo que os sinais, palavras e s&iacute;mbolos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o permitindo assim a partilha da experi&ecirc;ncia humana, das fantasias, emo&ccedil;&otilde;es e idea&ccedil;&atilde;o inconsciente. </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >Tomando o espa&ccedil;o terap&ecirc;utico como uma forma de vida, o significado simb&oacute;lico do jogo da crian&ccedil;a, de um sonho, o curso da associa&ccedil;&atilde;o livre, podem ser considerados como um jogo-de-linguagem espec&iacute;fico, constitu&iacute;do a partir da inter-rela&ccedil;&atilde;o entre a express&atilde;o simb&oacute;lica do material fornecido pelo paciente e a interpreta&ccedil;&atilde;o do terapeuta. Esta abordagem assenta na concep&ccedil;&atilde;o do simbolismo de Ricoeur (1965). O simbolismo &eacute;, na sua ess&ecirc;ncia, a regi&atilde;o de duplo significado, porque ao significado manifesto &eacute; adicionado um segundo ou mais significados de que o sujeito n&atilde;o est&aacute; consciente. A interpreta&ccedil;&atilde;o consiste neste trabalho de revela&ccedil;&atilde;o dos m&uacute;ltiplos significados, pois visa trazer &agrave; luz esta estrutura complexa de significa&ccedil;&atilde;o. Consequentemente, simbolismo e interpreta&ccedil;&atilde;o est&atilde;o intrinsecamente ligados, pois a interpreta&ccedil;&atilde;o pertence na sua ess&ecirc;ncia ao duplo sentido. Quando confrontado com a actividade l&uacute;dica de uma crian&ccedil;a no decurso da sess&atilde;o, o impacto no terapeuta assume a forma de uma pergunta: &ldquo;O que &eacute; que a crian&ccedil;a me est&aacute; a querer comunicar com este tipo de jogo?&rdquo; O terapeuta, tal como um fil&oacute;sofo que usa o m&eacute;todo dos jogos-de-linguagem para dissolver a confus&atilde;o filos&oacute;fica, quer ir para al&eacute;m da gram&aacute;tica de superf&iacute;cie duma palavra ou de um jogo para atingir a gram&aacute;tica profunda das fantasias inconscientes (Bouveresse, 1991). Com a interpreta&ccedil;&atilde;o, o terapeuta visa substituir o significado manifesto de um jogo por um novo significado latente, alcan&ccedil;ando, assim, a gram&aacute;tica profunda da comunica&ccedil;&atilde;o. No entanto, esta rela&ccedil;&atilde;o intr&iacute;nseca entre simbolismo e interpreta&ccedil;&atilde;o levanta v&aacute;rios pontos de discuss&atilde;o. Quais s&atilde;o os limites e as fronteiras desse jogo-de-linguagem que tem lugar na psicoterapia? </P >     <P   align="justify" >Em primeiro lugar, a interpreta&ccedil;&atilde;o, tal como no uso filos&oacute;fico    dos jogos-de-linguagem, n&atilde;o tem a ver meramente com a explica&ccedil;&atilde;o.    Pelo contr&aacute;rio, exige uma compreens&atilde;o que consiste em fazer liga&ccedil;&otilde;es    entre os diferentes aspectos do material cl&iacute;nico. Quando o terapeuta    formula uma interpreta&ccedil;&atilde;o de um sonho ou de um jogo, n&atilde;o    procura explicar ou identificar as causas que est&atilde;o na base dessas actividades    simb&oacute;licas. Na sess&atilde;o com a crian&ccedil;a, o intrigante no seu    jogo n&atilde;o s&atilde;o as causas mas sim o que significa. A interpreta&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o pretende fornecer uma explica&ccedil;&atilde;o sobre a constru&ccedil;&atilde;o    da liga&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica entre a actividade simbolizada e os    seus conte&uacute;dos inconscientes. Visa sim revelar o(s) poss&iacute;veis    sentido(s) oculto(s), estabelecendo conex&otilde;es que a crian&ccedil;a n&atilde;o    tinha pensado anteriormente e, consequentemente, ajud&aacute;-la a pensar sobre    a sua experi&ecirc;ncia emocional e desbloquear o processo comunicativo. Do    mesmo modo, em rela&ccedil;&atilde;o aos sonhos, o analisando n&atilde;o quer    uma explica&ccedil;&atilde;o, mas sim uma interpreta&ccedil;&atilde;o, porque    o que nos intriga num sonho n&atilde;o &eacute; o que o provoca, mas antes o    seu significado. No entanto, com a interpreta&ccedil;&atilde;o, o analista n&atilde;o    limita o seu trabalho &agrave; revela&ccedil;&atilde;o do sentido oculto; tamb&eacute;m    procura desenvolver um entendimento de forma a dar &agrave; crian&ccedil;a o    acesso a um ponto de vista diferente, a um v&eacute;rtice diferente sobre a    sua comunica&ccedil;&atilde;o &ndash; um &ldquo;ver como&rdquo;<Sup><a href="#2">2</a>    </Sup><a name="top2"></a>que assinala a dimens&atilde;o inconsciente do material.    A adop&ccedil;&atilde;o deste novo &acirc;ngulo permitir&aacute; que a actividade    l&uacute;dica da crian&ccedil;a fa&ccedil;a sentido de uma forma diferente (Neves,    2008). </P >     <P   align="justify" >Por outro lado, a interpreta&ccedil;&atilde;o emerge no contexto de uma rela&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o pode ser isolada da din&acirc;mica da transfer&ecirc;ncia. Na maior parte dos casos, a emerg&ecirc;ncia de sentido depende muito mais de elementos extra-simb&oacute;licos que est&atilde;o relacionados com a forma de vida da psican&aacute;lise do que dos elementos simb&oacute;licos em si mesmos. Destes elementos extra-simb&oacute;licos destacam-se a experi&ecirc;ncia emocional partilhada pelo analista e a crian&ccedil;a, a an&aacute;lise das rela&ccedil;&otilde;es transferenciais e contratransferenciais, a escolha de uma determinada palavra ou de um brinquedo, a intui&ccedil;&atilde;o, aspectos n&atilde;o-verbais da comunica&ccedil;&atilde;o (tais como tom de voz, gestos, express&otilde;es faciais, pausas e olhares) e o modelo utilizado pelo analista para dar sentido &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o dentro da rela&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica. </P >     <P   align="justify" >Em segundo lugar, tal como defendido por Ricoeur (1965), a psican&aacute;lise    n&atilde;o pode ser reduzida a um exerc&iacute;cio de tradu&ccedil;&atilde;o;    envolve tamb&eacute;m a arte da interpreta&ccedil;&atilde;o, o trabalho com    as resist&ecirc;ncias, o manejo da rela&ccedil;&atilde;o. De facto, uma interpreta&ccedil;&atilde;o    dada demasiado cedo no tratamento pode intensificar resist&ecirc;ncias. O terapeuta    deve criar as condi&ccedil;&otilde;es para uma re-actualiza&ccedil;&atilde;o    na transfer&ecirc;ncia da problem&aacute;tica do paciente, porque &eacute; no    manejo directo da transfer&ecirc;ncia que a mudan&ccedil;a pode ocorrer. Contrariamente    a uma interpreta&ccedil;&atilde;o de um texto liter&aacute;rio ou de uma obra    de arte, na psican&aacute;lise a interpreta&ccedil;&atilde;o emerge no contexto    de uma rela&ccedil;&atilde;o. O analista opera a partir da fala do analisando    que est&aacute; investida de valor simb&oacute;lico, o que significa que &eacute;    uma express&atilde;o de uma outra l&iacute;ngua com as suas pr&oacute;prias    regras. Importa tamb&eacute;m analisar a forma como o sujeito recebe a interpreta&ccedil;&atilde;o    feita pelo analista. O <I>setting </I>anal&iacute;tico permite que o terapeuta    veja <I>in loco</I>, no aqui e agora, como o analisando recebe a sua comunica&ccedil;&atilde;o.  </P >     <P   align="center" >DISCURSOS TEM&Aacute;TICOS E COMUNICA&Ccedil;&Atilde;O SIMB&Oacute;LICA</P >    <P   align="justify" >Ao longo de um processo psicoterap&ecirc;utico &eacute; poss&iacute;vel identificar diferentes discursos tem&aacute;ticos, i.e., jogos-de-linguagem tem&aacute;ticos, na interac&ccedil;&atilde;o entre a crian&ccedil;a e o/a terapeuta. A no&ccedil;&atilde;o de discurso &eacute; utilizada enquanto processo altamente din&acirc;mico no tempo e no qual emo&ccedil;&otilde;es e pensamentos est&atilde;o interligados. Discurso tem&aacute;tico remete para a forma peculiar e idiossincr&aacute;tica de express&atilde;o de um tema que emerge e se desenvolve no encontro terap&ecirc;utico. </P >    <P   align="justify" >Sara vem pela primeira vez &agrave; consulta, aos 5 anos de idade, devido a uma masturba&ccedil;&atilde;o compulsiva que se manifestava em p&uacute;blico, nomeadamente na escola. Segundo a m&atilde;e, Sara friccionava a sua zona genital em qualquer objecto ou superf&iacute;cie desde que come&ccedil;ou a gatinhar e quando ainda usava fraldas. Dada a intensidade do sintoma, os genitais de Sara estavam deformados. Um pouco antes da entrevista inicial, o sintoma tinha parado de se manifestar em casa devido &agrave; proibi&ccedil;&atilde;o da m&atilde;e, mas continuava a manifestar-se na escola. No plano fantasm&aacute;tico, a m&atilde;e parecia ter interpretado o sintoma da filha como uma express&atilde;o de uma excita&ccedil;&atilde;o sexual excessiva, sentida como um sinal de perigo de desenvolvimento futuro de um dist&uacute;rbio ninfoman&iacute;aco ou mesmo de prostitui&ccedil;&atilde;o. A sintomatologia desta crian&ccedil;a colocou v&aacute;rias interroga&ccedil;&otilde;es devido ao seu aparecimento precoce e ao car&aacute;cter de exposi&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. O material que foi emergindo ao longo das sess&otilde;es, bem como o seu aparecimento precoce, fizeram excluir a hip&oacute;tese desta crian&ccedil;a poder ter sofrido um abuso sexual. O sintoma foi entendido como um equivalente da suc&ccedil;&atilde;o do polegar ou dos dedos pelos beb&eacute;s, como forma de evitar o vazio e de se confortar com uma m&atilde;e que, devido &agrave; sua pr&oacute;pria depress&atilde;o, n&atilde;o responde suficientemente &agrave;s iniciativas interactivas do beb&eacute;. </P >    <P   align="justify" >Os pais de Sara mantiveram um relacionamento de 9 anos, que haviam iniciado durante a adolesc&ecirc;ncia. Por uma certa press&atilde;o da fam&iacute;lia do pai, come&ccedil;aram a reparar uma casa disponibilizada pelo av&ocirc; paterno, tendo como objectivo virem a viver juntos, numa fase posterior. Entretanto, a m&atilde;e ficou inesperadamente gr&aacute;vida, o que ter&aacute; introduzido uma certa press&atilde;o no relacionamento, pois o pai n&atilde;o queria um beb&eacute; tendo mesmo sugerido um aborto. Progressivamente, a rela&ccedil;&atilde;o foi ficando mais tensa e as brigas tornaram-se frequentes. Durante a gravidez, a m&atilde;e sentia-se muito deprimida, chorava frequentemente por se sentir sozinha. Por seu lado, o pai n&atilde;o investia a gravidez o que se intensificou quando soube que iriam ter uma menina e n&atilde;o um rapaz, como desejava. Acabaram por se separar quando a Sara tinha cerca de dois anos. A m&atilde;e referiu que os primeiros meses de vida de Sara foram muito bons, sentindo um encaixe perfeito com a beb&eacute;. Descreve intensas fantasias simbi&oacute;ticas com a filha, parecendo que Sara era investida como um prolongamento narc&iacute;sico da m&atilde;e e funcionar como um anti-depressivo para a depress&atilde;o materna. </P >    <P   align="justify" >Desde as primeiras sess&otilde;es de psicoterapia, Sara verbalizava, atrav&eacute;s dos desenhos e das suas brincadeiras, intensas fantasias de abandono relativamente &agrave;s figuras parentais. Durante as sess&otilde;es, revelava um jogo simb&oacute;lico muito rico e no in&iacute;cio da psicoterapia era frequente organizar um jogo do caf&eacute;/pastelaria, no qual ela era a dona/empregada e a terapeuta era a cliente. Usando a plasticina, introduzia uma multiplicidade de bolos, doces e sobremesas que dava complusivamente &agrave; cliente/terapeuta. A repeti&ccedil;&atilde;o deste jogo foi interpretada como uma forma desta crian&ccedil;a se preencher e evitar o vazio que sentia dentro si, funcionando, por isso, como um equivalente da masturba&ccedil;&atilde;o. Durante os primeiros meses da sua psicoterapia, Sara reagia intensamente aos per&iacute;odos de separa&ccedil;&atilde;o, nomeadamente &agrave;s interrup&ccedil;&otilde;es para f&eacute;rias. Progressivamente, o jogo da loja foi assumindo diferentes formas que passaram pelo restaurante, a joalharia, a caixa multibanco, a loja multifuncional com bolos, doces mas tamb&eacute;m com livros que foram sendo introduzidos nas suas brincadeiras, &agrave; medida que Sara progredia no seu seguimento e com o in&iacute;cio da aquisi&ccedil;&atilde;o da escrita, ap&oacute;s a entrada na escola. </P >     <P   align="justify" >Na psicoterapia da Sara &eacute; poss&iacute;vel identificar diferentes discursos    tem&aacute;ticos na interac&ccedil;&atilde;o entre a crian&ccedil;a e a terapeuta.    Esses diferentes jogos-de-linguagem, &agrave; medida que o processo se desenvolvia,    evolu&iacute;am de maneira diferente no que respeita ao seu conte&uacute;do    e tamb&eacute;m &agrave; frequ&ecirc;ncia com que ocorriam nas sess&otilde;es.    Na psicoterapia de Sara foram identificados cinco jogos-de-linguagem tem&aacute;ticos    principais: <I>(I) explora&ccedil;&atilde;o do setting e da terapeuta </I>&ndash;    discurso figurado por actividades de jogo e verbaliza&ccedil;&otilde;es que    expressavam a curiosidade de Sara sobre a terapeuta e material que sugeriam    a emerg&ecirc;ncia da rela&ccedil;&atilde;o transferencial. Este tipo de jogos-de-linguagem    expressava de que forma Sara estava a apreender as especificidades do encontro    terap&ecirc;utico e como as principais caracter&iacute;sticas do trabalho psicoterap&ecirc;utico    iam sendo estruturadas (e.g., o estabelecimento das principais regras do <I>setting</I>,    tais como os limites do tempo e do espa&ccedil;o, o pagamento da psicoterapia,    etc.); <I>(II) discurso tem&aacute;tico da oralidade &ndash; </I>o discurso    da oralidade emergiu num per&iacute;odo precoce do seguimento e foi repetido    por diversas vezes ao longo do processo terap&ecirc;utico. Este discurso era    essencialmente figurado na repeti&ccedil;&atilde;o do jogo do caf&eacute;/pastelaria.    A Sara assumia o papel de senhora da loja, alimentando constantemente a terapeuta/cliente    com todo o tipo de bolos, sobremesas e doces. A alimenta&ccedil;&atilde;o compulsiva    feita &agrave; terapeuta pode ser interpretada enquanto express&atilde;o da    din&acirc;mica entre a identifica&ccedil;&atilde;o projectiva e a contra-identifica&ccedil;&atilde;o    projectiva. Atrav&eacute;s da identifica&ccedil;&atilde;o projectiva, Sara pode    alimentar as suas partes famintas projectadas na terapeuta, revelando, por isso,    o profundo desejo de ser investida emocionalmente. Do ponto de vista da contra-identifica&ccedil;&atilde;o    projectiva, o movimento compulsivo de dar ao outro, esconde a outra face da    moeda &ndash; a expectativa impl&iacute;cita de receber algo em troca, &ldquo;de    ser retribu&iacute;da pelo objecto&rdquo;. Al&eacute;m disso, este material    sugere alguma liga&ccedil;&atilde;o com a tem&aacute;tica edipiana, na medida    em que revela as dificuldades desta crian&ccedil;a na elabora&ccedil;&atilde;o    da problem&aacute;tica edipiana. A cena primitiva era invadida por fantasias    orais e<I> </I>sentida como perigosa, porque &ldquo;se pode morrer pela boca&rdquo;;    <I>(III) </I>tem&aacute;tica da separa&ccedil;&atilde;o, fantasias de abandono/autonomia.    Este era um discurso nuclear na terapia de Sara e inclu&iacute;a material que    expressava as intensas fantasias de abandono, as suas dificuldades em lidar    com a separa&ccedil;&atilde;o, o desejo de fus&atilde;o com o objecto e a sua    progressiva transforma&ccedil;&atilde;o numa tem&aacute;tica de autonomia. Por    discurso nuclear entende-se o jogo-de-linguagem tem&aacute;tico mais comum no    encontro terap&ecirc;utico, mas tamb&eacute;m a tem&aacute;tica que est&aacute;    subjacente aos outros discursos, ou seja, ap&oacute;s a interpreta&ccedil;&atilde;o,    o material que expressa outros jogos-de-linguagem evoluia para uma tem&aacute;tica    de separa&ccedil;&atilde;o; <I>(IV) </I>discurso edipiano &ndash; neste discurso    emergiam as dificuldades de Sara e a progressiva elabora&ccedil;&atilde;o do    seu posicionamento face &agrave; cena primitiva. O material que expressava este    tipo de discurso inclu&iacute;a fantasias relativas &agrave; cena primitiva,    nomeadamente a curiosidade e excita&ccedil;&atilde;o que a mesma causava, a    exclus&atilde;o da cena primitiva e a rivalidade fraterna; <I>(V) </I>tem&aacute;tica    escolar e do conhecimento. Este discurso tem&aacute;tico emergiu mais frequentemente    na fase final do seguimento quando os jogos da Sara na sess&atilde;o tinham    por refer&ecirc;ncia o seu interesse nas actividades escolares &ndash; revelando    que a puls&atilde;o epistemof&iacute;lica estava a ser direccionada para escola    e para o conhecimento &ndash; e com a emerg&ecirc;ncia dos jogos com regras.  </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >Uma das caracter&iacute;sticas centrais dos jogos de linguagem tem&aacute;ticos usados na terapia &eacute; n&atilde;o terem um car&aacute;cter mutuamente exclusivo. O material da sess&atilde;o n&atilde;o constitui a express&atilde;o pura de um jogo de linguagem exclusivo e, &eacute;, muitas vezes, uma manifesta&ccedil;&atilde;o da inter-rela&ccedil;&atilde;o entre diferentes discursos. </P >     <P   align="justify" >O facto do terapeuta seleccionar estes principais discursos tem&aacute;ticos    e n&atilde;o outros levanta v&aacute;rias quest&otilde;es. Na realidade, outra    perspectiva poderia ter sido adoptada, como por exemplo, seleccionar discursos    tem&aacute;ticos a partir do conte&uacute;do manifesto do material das sess&otilde;es    (e.g., o discurso do jogo da loja em vez do discurso tem&aacute;tico da oralidade).    No entanto, esta abordagem dificultaria o desenvolvimento de uma an&aacute;lise    centrada nas dimens&otilde;es ocultas e inconscientes da comunica&ccedil;&atilde;o    simb&oacute;lica. Os limites e fronteiras da abordagem usada na an&aacute;lise    do material cl&iacute;nico (reveladas pelo facto da terapeuta seleccionar aqueles    cinco discursos principais e n&atilde;o outros), s&atilde;o uma consequ&ecirc;ncia    de um duplo papel &ndash; por um lado, como investigadora, enquanto algu&eacute;m    que procura investigar as especificidades da comunica&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica    e, por outro, como terapeuta de Sara, como algu&eacute;m que desenvolveu um    modo espec&iacute;fico de entender e sentir o material em resultado da rela&ccedil;&atilde;o    directa estabelecida com a crian&ccedil;a. Neste sentido, &eacute; poss&iacute;vel    argumentar que o processo de investiga&ccedil;&atilde;o est&aacute; profundamente    enraizado na perspectiva do terapeuta enquanto participante &ndash; n&atilde;o    s&oacute; como interprete mas tamb&eacute;m como sujeito que vivenciou uma rela&ccedil;&atilde;o    intersubjectiva particular com a crian&ccedil;a. De facto, a an&aacute;lise    do material est&aacute; alicer&ccedil;ada na contratransfer&ecirc;ncia do terapeuta    num duplo sentido. Tal como ocorre na pr&aacute;tica cl&iacute;nica, a pesquisa    desenvolvida tamb&eacute;m est&aacute; sujeita aos limites da interpreta&ccedil;&atilde;o    anal&iacute;tica e da produ&ccedil;&atilde;o de significado. Atingir o(s) significado(s)    &uacute;ltimo(s), assim como explorar todas as possibilidades de sentido evocados    pela complexidade do material &eacute; imposs&iacute;vel. Como referido por    Kristeva (1986), a abordagem psicanal&iacute;tica &agrave; produ&ccedil;&atilde;o    de sentido n&atilde;o pode ser reduzida &agrave; busca do significado &uacute;ltimo    devido &agrave; sobredetermina&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o    simb&oacute;lica e &agrave;s limita&ccedil;&otilde;es intr&iacute;nsecas da    comunica&ccedil;&atilde;o humana. </P >     <P   align="justify" >Por outro lado, esta abordagem do material cl&iacute;nico est&aacute; profundamente ligada &agrave; contratransfer&ecirc;ncia, uma vez que o/a terapeuta tem acesso a universo espec&iacute;fico de significado, a um espa&ccedil;o hermen&ecirc;utico a que o observador externo n&atilde;o tem acesso. O acesso a este espa&ccedil;o hermen&ecirc;utico est&aacute; enraizado na contratransfer&ecirc;ncia o que possibilita uma dada compreens&atilde;o do dom&iacute;nio simb&oacute;lico. Na pr&aacute;tica, quando o/a terapeuta &eacute; confrontado na sess&atilde;o com um material complexo, a sua atitude de aten&ccedil;&atilde;o flutuante assume uma express&atilde;o concreta na forma como &ldquo;escuta&rdquo;, mais de pr&oacute;ximo, um discurso em detrimento de outros. Este processo de selec&ccedil;&atilde;o de alguns aspectos do material, i.e., quando apesar da percep&ccedil;&atilde;o da complexidade do material o terapeuta escolhe uma linha de interpreta&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o outra(s), resulta do facto de ter um papel activo enquanto participante na produ&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o de significa&ccedil;&atilde;o criado na terapia. Assim sendo, o trabalho do investigador n&atilde;o &eacute; independente do terapeuta, pelo que a an&aacute;lise do material cl&iacute;nico est&aacute; profundamente interligada ao processo de compreens&atilde;o desenvolvido ao logo da psicoterapia. </P >    <P   align="justify" >Retomando a met&aacute;fora musical, a forma como a interliga&ccedil;&atilde;o entre diferentes discursos tem&aacute;ticos funciona pode sugerir ao observador externo a analogia com a escuta de uma m&uacute;sica polif&oacute;nica. Apesar do material sugerir a preval&ecirc;ncia de um dos discursos sobre os outros, isso n&atilde;o significa que os outros n&atilde;o estejam presentes, revelando a condensa&ccedil;&atilde;o de uma complexa rede de jogos-de-linguagem. No entanto, a analogia entre a polifonia musical e a maneira como os diferentes discursos se inter-relacionam, deve ser usada dentro de alguns limites. Ao contr&aacute;rio de algu&eacute;m que ouve uma pe&ccedil;a polif&oacute;nica e que centra a sua escuta no efeito da integra&ccedil;&atilde;o das diferentes linhas mel&oacute;dicas (por exemplo, numa m&uacute;sica polif&oacute;nica executada por um quarteto de cordas, &eacute; a integra&ccedil;&atilde;o dos diferentes registos produzidos pelos diferentes instrumentos que cria o efeito de polifonia), o terapeuta, apesar de reconhecer a inter-rela&ccedil;&atilde;o entre os diferentes discursos, deve deixar que o discurso dominante ressoe na sua mente por forma a trabalh&aacute;-lo na rela&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica. A &ecirc;nfase no discurso dominante &eacute; o resultado de um conjunto complexo de factores, tais como a pr&oacute;pria hist&oacute;ria e evolu&ccedil;&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica, da supervis&atilde;o (enquanto espa&ccedil;o onde s&atilde;o levantadas diferentes hip&oacute;teses e entendimentos do material, o papel da contratransfer&ecirc;ncia, etc...), a perspectiva te&oacute;rica do terapeuta, os seus factores pessoais, e assim por diante. </P >    <P   align="justify" >A supervis&atilde;o desempenha um papel igualmente importante na produ&ccedil;&atilde;o de sentido, permitindo a amplifica&ccedil;&atilde;o de certos aspectos do material e ajudando o/a terapeuta a elaborar a sua atitude relativamente ao caso. Funciona ainda como um espa&ccedil;o em que dois movimentos, diametralmente opostos, operam. Por um lado, s&atilde;o geradas novas hip&oacute;teses de sentido, em especial no que toca &agrave; compreens&atilde;o da din&acirc;mica da transfer&ecirc;ncia e da contratransfer&ecirc;ncia, e por outro lado, quando o/a terapeuta &eacute; confrontado com a multiplicidade de sentidos da comunica&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica, possibilita a escolha de algumas dimens&otilde;es de significa&ccedil;&atilde;o (reflectidas, na pr&aacute;tica, na &ecirc;nfase da interpreta&ccedil;&atilde;o de alguns discursos em detrimento de outros). </P >    <P   align="justify" >De forma a ilustrar o modelo de an&aacute;lise &ndash; como os diferentes discursos tem&aacute;ticos s&atilde;o figurados em cada sess&atilde;o e a forma segundo a qual os diferentes discursos se relacionam entre si &ndash; e tendo em considera&ccedil;&atilde;o as condi&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas da produ&ccedil;&atilde;o de sentido no <I>setting </I>terap&ecirc;utico (n&atilde;o visa produzir explica&ccedil;&otilde;es, mas sim gerar um entendimento, reconhecendo que a constru&ccedil;&atilde;o de sentido &eacute; uma produ&ccedil;&atilde;o intersubjectiva dependente do contexto relacional), ser&atilde;o apresentadas duas vinhetas cl&iacute;nicas da psicoterapia de Sara realizadas em diferentes per&iacute;odos do seu seguimento. A an&aacute;lise do material cl&iacute;nico n&atilde;o pretende ser uma explora&ccedil;&atilde;o exaustiva de todo o material emergente nas sess&otilde;es. Efectivamente, alguns aspectos do material poderiam ser mais desenvolvidos nesta an&aacute;lise. Por exemplo, o jogo da loja pareceu constituir-se como matriz, mas foi assumindo diferentes configura&ccedil;&otilde;es &agrave; medida que o processo terap&ecirc;utico se desenrolava. Apesar de o jogo do caf&eacute;/pastelaria ter emergido precocemente no seguimento de Sara, este mesmo jogo foi-se desmultiplicando em diversas vers&otilde;es, tais como o jogo da loja das j&oacute;ias, do banco e da caixa Multibanco, da loja multifuncional com brinquedos e livros, etc... No decurso da terapia, esta primeira vers&atilde;o foi entendida como uma esp&eacute;cie de narrativa prim&aacute;ria o que foi, de alguma forma, sugerido pelo funcionamento ps&iacute;quico da crian&ccedil;a e pelo v&iacute;nculo relacional estabelecido com a terapeuta. Destacar esta vers&atilde;o do jogo configurou a abordagem adoptada relativamente &agrave;s restantes vers&otilde;es que foram consideradas como deriva&ccedil;&otilde;es do jogo do caf&eacute;/pastelaria, o que provavelmente ter&aacute; negligenciado alguns aspectos relacionados com as idiossincrasias de cada narrativa l&uacute;dica. </P >    <P   align="justify" >O primeiro exemplo cl&iacute;nico &eacute; retirado de uma sess&atilde;o que ocorreu cerca de um ano ap&oacute;s o in&iacute;cio de seguimento de Sara. Esta era a &uacute;ltima sess&atilde;o antes da interrup&ccedil;&atilde;o para f&eacute;rias de ver&atilde;o. Na parte final da sess&atilde;o, Sara disse &ldquo;Sabes, tenho neve em minha casa. Um dia fui &agrave; Serra da Estrela e trouxe de l&aacute; um bocado de neve que tenho dentro dum frasco pequeno, apesar da neve j&aacute; ter derretido.&rdquo; Associei a neve no frasco ao meu apelido e perguntei-lhe simplesmente se ela sabia que o meu &uacute;ltimo nome era Neves ao que ela respondeu que sim e termin&aacute;mos a sess&atilde;o. O primeiro impacto deste material foi que Sara me estava a dizer de uma forma muito expressiva e surpreendente que me manteria dentro dela, apesar da longa separa&ccedil;&atilde;o para f&eacute;rias. </P >    <P   align="justify" >Nesta sess&atilde;o Sara revelou, de forma surpreendente, a internaliza&ccedil;&atilde;o da terapeuta evidenciando uma progressiva elabora&ccedil;&atilde;o do discurso de separa&ccedil;&atilde;o/autonomia. A associa&ccedil;&atilde;o imediata com o meu apelido foi sentida contratransferencialmente como um momento intenso de comunica&ccedil;&atilde;o inconsciente entre a terapeuta e Sara. Este momento da sess&atilde;o evocou, por contraste, a sess&atilde;o antes da interrup&ccedil;&atilde;o para f&eacute;rias do ano anterior, em que Sara se tinha desorganizado e ficado invadida de ang&uacute;stias de separa&ccedil;&atilde;o. De facto, a neve no frasco constituiu um s&iacute;mbolo muito rico que condensou a internaliza&ccedil;&atilde;o do terapeuta e da fun&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica e que foi usado como tentativa para lidar internamente com a separa&ccedil;&atilde;o. </P >    <P   align="justify" >A sess&atilde;o seguinte ocorreu um ano e quatro meses ap&oacute;s o in&iacute;cio da psicoterapia. No in&iacute;cio da sess&atilde;o, Sara voltou a estruturar o jogo da loja que vendia bolos, doces mas desta vez introduziu tamb&eacute;m livros. Tratava-se dum jogo que j&aacute; n&atilde;o aparecia h&aacute; muito tempo nas sess&otilde;es, ap&oacute;s ter sido repetido exaustivamente no in&iacute;cio do processo terap&ecirc;utico. A minha primeira associa&ccedil;&atilde;o foi ao significado anterior deste jogo e &agrave; express&atilde;o de fantasias orais para lidar com o vazio e as ang&uacute;stias de separa&ccedil;&atilde;o. Avisei Sara que naquela semana ter&iacute;amos outra sess&atilde;o para compensar uma sess&atilde;o que n&atilde;o t&iacute;nhamos tido na semana anterior devido a um feriado. Sara contou com os dedos o n&uacute;mero de dias de intervalo entre as sess&otilde;es e disse: &ldquo;Que chatice&rdquo;, mas num tom de voz que me deixou na d&uacute;vida se ela estaria descontente por ter outra sess&atilde;o t&atilde;o perto ou se estaria a reclamar como habitualmente, do intervalo entre sess&otilde;es. Apenas alguns minutos depois percebi que n&atilde;o queria ter uma outra sess&atilde;o t&atilde;o pr&oacute;xima daquela (que senti como um bom sinal, de que ela estava mais crescida e aut&oacute;noma e que j&aacute; n&atilde;o precisava de vir com tanta frequ&ecirc;ncia, contrariamente a uma fase inicial da psicoterapia quando ficava bastante desorganizada cada vez que precis&aacute;vamos de mudar sess&otilde;es). </P >    <P   align="justify" >Depois de organizar a loja, Sara agarrou nos tachos de brincar e retirou do seu interior os bolos de plasticina que l&aacute; permaneciam h&aacute; j&aacute; alguns meses. Tentou &ldquo;ler&rdquo; o que estava escrito nos bolos de plasticina (na &uacute;ltima vez que brincara &agrave; loja dos doces tinha escrito o nome dos bolos na plasticina). Vendeu-me ent&atilde;o alguns bolos. Perguntei-lhe se eram bolos frescos, ao que Sara respondeu que n&atilde;o era ela que os tinha feito, que a senhora que normalmente fazia os bolos se tinha ido embora, pois tinha outro emprego. Neste momento senti que ela estava a dizer-me que a &aacute;rea simbolizada pelos &ldquo;bolinhos&rdquo;e doces tinha sido elaborada, e era por isso que a &ldquo;Sara dos doces&rdquo; se tinha ido embora. Disse-lhe, &ldquo;A Sara dos doces n&atilde;o tem aparecido h&aacute; algum tempo, a Sara triste que precisava de doces para n&atilde;o se sentir t&atilde;o sozinha&rdquo;. Ela continuou o jogo e conta entretanto que tinha ido ao cinema com uma amiga da escola, enquanto a m&atilde;e tinha ficado com o namorado. Pega num papel e come&ccedil;a a escrever de forma muito viva algumas palavras relacionadas com princesas e pr&iacute;ncipes. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >Nesta sess&atilde;o, e ap&oacute;s um longo per&iacute;odo de aus&ecirc;ncia    de actividades l&uacute;dicas que figurassem o discurso da tem&aacute;tica da    oralidade, Sara reintroduziu o jogo da loja que vende bolos, doces, biscoitos    e, tamb&eacute;m, livros. Enquanto observava Sara a organizar a loja, a minha    associa&ccedil;&atilde;o foi que ela estava a reagir &agrave; aus&ecirc;ncia    de sess&otilde;es na semana anterior constituindo, por isso, uma figura&ccedil;&atilde;o    do discurso da separa&ccedil;&atilde;o/autonomia. O impacto inicial deste material    necessita de ser analisado a partir do v&eacute;rtice da contra-transfer&ecirc;ncia,    nomeadamente, em que medida as pr&oacute;prias ang&uacute;stias de separa&ccedil;&atilde;o    da terapeuta interferiram na &ldquo;leitura&rdquo; que fez do material desta    parte da sess&atilde;o. </P >     <P   align="justify" >Enquanto organizava o jogo da loja/casa interna, Sara comentou que a senhora dos doces se tinha ido embora porque tinha arranjado um novo trabalho, o que foi interpretado no contexto da rela&ccedil;&atilde;o transferencial como uma confirma&ccedil;&atilde;o de que esta problem&aacute;tica estava elaborada. De facto, o material desta sess&atilde;o revela uma inter-rela&ccedil;&atilde;o complexa entre diferentes discursos tem&aacute;ticos, tais como a tem&aacute;tica da oralidade, mas tamb&eacute;m o discurso tem&aacute;tico da separa&ccedil;&atilde;o/ /autonomia. A este jogo est&aacute; ainda subjacente uma rela&ccedil;&atilde;o com o discurso edipiano, visto que revela a integra&ccedil;&atilde;o dos aspectos maternos experienciados na rela&ccedil;&atilde;o transferencial (figurados pela m&atilde;e que alimenta) com os paternos, racionais, simbolizados pela presen&ccedil;a dos livros. &Eacute; interessante assinalar, que ao observar Sara a organizar e desenvolver o seu jogo, emergiram na terapeuta diferentes linhas de interpreta&ccedil;&atilde;o, o que de alguma forma traduz a complexa inter-rela&ccedil;&atilde;o dos significados no uso da comunica&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica. &Eacute; interessante notar que a tem&aacute;tica da oralidade nos per&iacute;odos iniciais da psicoterapia de Sara geralmente evolu&iacute;a (ap&oacute;s interpreta&ccedil;&atilde;o) para a tem&aacute;tica da separa&ccedil;&atilde;o. Pode-se por isso argumentar que o jogo-de-linguagem da oralidade era nesse per&iacute;odo usado como s&iacute;mbolo da tem&aacute;tica da separa&ccedil;&atilde;o. Desta vez, a clarifica&ccedil;&atilde;o da tem&aacute;tica da oralidade revelou a associa&ccedil;&atilde;o com o discurso edipiano, pois Sara introduziu material que evidenciava uma melhor capacidade para lidar com a problem&aacute;tica da exclus&atilde;o e come&ccedil;ado a escrever no papel (&agrave; qual est&aacute; tamb&eacute;m subjacente uma identifica&ccedil;&atilde;o ao adulto e mais especificamente &agrave; figura paterna associada ao discurso do conhecimento), um conte&uacute;do relacionado com pr&iacute;ncipes e princesas. </P >    <P   align="center" >CONCLUS&Atilde;O </P >    <P   align="justify" >Em conclus&atilde;o, a utiliza&ccedil;&atilde;o da no&ccedil;&atilde;o de jogos-de-linguagem como modelo de an&aacute;lise da comunica&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica, permite por em evid&ecirc;ncia alguns aspectos. Por um lado, permite introduzir um eixo temporal na an&aacute;lise da comunica&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica. A an&aacute;lise do material cl&iacute;nico sugere modifica&ccedil;&otilde;es importantes, n&atilde;o s&oacute; no que se refere ao conte&uacute;do simb&oacute;lico/fantasm&aacute;tico (e.g., o discurso de separa&ccedil;&atilde;o/autonomia separa&ccedil;&atilde;o e a tem&aacute;tica da oralidade), mas tamb&eacute;m na capacidade da crian&ccedil;a usar s&iacute;mbolos. As altera&ccedil;&otilde;es ocorridas no uso do s&iacute;mbolo na psicoterapia de Sara sugerem alguma liga&ccedil;&atilde;o com a vis&atilde;o de Ricoeur (1965) sobre este tema. Nos s&iacute;mbolos actuam dois vectores opostos &ndash; um vector progressivo ou teleol&oacute;gico e um vector regressivo ou arqueol&oacute;gico. A componente regressiva da forma&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica tende a reproduzir as nossas experi&ecirc;ncias passadas e est&aacute;, por isso, fundamentalmente sob a &eacute;gide da compuls&atilde;o &agrave; repeti&ccedil;&atilde;o. O vector progressivo procura novas significa&ccedil;&otilde;es e novas solu&ccedil;&otilde;es para os conflitos internos. Embora os elementos progressivos e regressivos da forma&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica, n&atilde;o existam numa forma pura, mas sim como compromisso entre ambos, a evolu&ccedil;&atilde;o no processo terap&ecirc;utico envolve uma modifica&ccedil;&atilde;o na forma&ccedil;&atilde;o de s&iacute;mbolos no sentido dum tipo de simboliza&ccedil;&atilde;o mais prospectiva, na qual o sujeito tende a procurar novas formas de significa&ccedil;&atilde;o (e.g., no discurso de abandono e separa&ccedil;&atilde;o/ /autonomia, o uso da neve dentro do frasco como s&iacute;mbolo na sess&atilde;o antes da interrup&ccedil;&atilde;o para as f&eacute;rias de Ver&atilde;o pode ser considerado como uma simboliza&ccedil;&atilde;o prospectiva, na qual Sara d&aacute; novas configura&ccedil;&otilde;es e solu&ccedil;&otilde;es aos seus conflitos internos). Este tipo prospectivo de simboliza&ccedil;&atilde;o parece tamb&eacute;m envolver a produ&ccedil;&atilde;o de formas complexas de significa&ccedil;&atilde;o, produzindo uma esp&eacute;cie de simboliza&ccedil;&atilde;o plurivocal (s&iacute;mbolos que representam uma complexa rede de significados), que se expressa na pr&aacute;tica cl&iacute;nica atrav&eacute;s da progressiva interrela&ccedil;&atilde;o entre discursos e do qual o jogo da loja multifuncional constitui um exemplo. </P >    <P   align="justify" >Os exemplos do caso de Sara ilustram tamb&eacute;m de que forma funciona a modifica&ccedil;&atilde;o nas rela&ccedil;&otilde;es entre os s&iacute;mbolos no espa&ccedil;o hermen&ecirc;utico criado durante a terapia. A an&aacute;lise do material cl&iacute;nico mostra que a reestrutura&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o hermen&ecirc;utico ocorre por uma modifica&ccedil;&atilde;o constante das rela&ccedil;&otilde;es entre diferentes discursos/s&iacute;mbolos entre si, o que leva &agrave; quest&atilde;o da sobredetermina&ccedil;&atilde;o do simbolismo enquanto ordem simb&oacute;lica, na qual um s&iacute;mbolo ganha sentido por refer&ecirc;ncia a outros s&iacute;mbolos. </P >    <P   align="center" >REFER&Ecirc;NCIAS </P >     <P   align="justify" >Bouveresse, J. (1991). <I>Philosophie, mythologie et </I><I>pseudo-science: Wittgenstein    lecteur de Freud </I>(3rd ed.). N&icirc;mes: Editions de L&rsquo;&Eacute;clat.  </P >     <P   align="justify" >Kristeva, J. (1986). Psychoanalysis and the polis. In T. Moi (Ed.), <I>The Kristeva    reader </I>[M. Waller (Trans.)]. Oxford: Basil Blackwell Ltd. </P >     <P   align="justify" >Massin, B., &amp; Massin, J. (1983). <I>Histoire de la musique </I><I>occidentale.    </I>Paris: Fayard/Messidor &ndash; Temps Actuels. </P >     <P   align="justify" >Monk, R. (1990). <I>Ludwig Wittgenstein: The duty of a genius</I>. London: Jonathan Cape. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><P   align="justify" >Neves, T.S. (2007). Psychoanalytic symbolism: A critical approach. <I>Revista    Portuguesa de </I><I>Psican&aacute;lise, 27 </I>(2),19-38. </P >     &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000053&pid=S0870-8231200900030001700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P   align="justify" >Neves, T. S. (2008). Research in psychoanalysis: An area of controversy. <I>Revista    Portuguesa de </I><I>Psican&aacute;lise</I>, <I>28 </I>(2), 33-59. </P >     &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000054&pid=S0870-8231200900030001700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P   align="justify" >Ricoeur, P. (1965). <I>De l&rsquo;interpr&eacute;tation: Essai sur Freud</I>. Paris: &Eacute;ditions du Seuil. </P >    <P   align="justify" >Wittgenstein, L. (1953). <I>Philosophical investigations</I>. Oxford: Basil Blackwell. </P >    <P   align="justify" >Wittgenstein, L. (1969). <I>Grammaire philosophique </I>[Trans. M. Lescourret]. Paris: Gallimard. </P >    <P   align="justify" >Wittgenstein, L. (1975). <I>Blue and brown books. </I>Oxford: Basil Blackwell. </P >     <P   align="justify" >Wittgenstein, L. (1977). <I>Culture and value</I>. Edited by G. H. von Wright    (P. Winch, Trans., 2nd ed.) Oxford: Blackwell Publishers. </P >     <P   align="justify" >&nbsp;</P >     <P   align="justify" >(<a href="#top3">*</a><a name="3"></a>) Este artigo &eacute; adaptado da tese    de doutoramento apresentada em 2005 no Departamento de Psicologia da Universidade    de Kent, Canterbury &ndash; Inglaterra. </P >     <P   align="justify" >(<a href="#top4">**</a><a name="4"></a>) Professora Auxiliar do ISPA, membro    efectivo doutorado do Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o e Interven&ccedil;&atilde;o    Social, ISCTE-IUL. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="justify" >&nbsp;</P >     <P   align="justify" ><Sup><a href="#top1">1</a><a name="1"></a> </Sup>&ldquo;Aspect-seeing&rdquo;,    remete para um certo v&eacute;rtice de apreens&atilde;o. </P >     <P   align="justify" ><Sup><a href="#top2">2</a><a name="2"></a> </Sup>A designa&ccedil;&atilde;o utilizada    por Wittgenstein &eacute; &ldquo;seeing-as&rdquo;, aqui traduzida por &ldquo;ver    como&rdquo;. </P >     <P   align="justify" >&nbsp;</P >      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Neves]]></surname>
<given-names><![CDATA[T.S.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Psychoanalytic symbolism: A critical approach]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista Portuguesa de Psicanálise]]></source>
<year>2007</year>
<volume>27</volume>
<numero>2</numero>
<issue>2</issue>
<page-range>19-38</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Neves]]></surname>
<given-names><![CDATA[T. S.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Research in psychoanalysis: An area of controversy]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista Portuguesa de Psicanálise]]></source>
<year>2008</year>
<volume>28</volume>
<numero>2</numero>
<issue>2</issue>
<page-range>33-59</page-range></nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
