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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Julgamentos de justiça em contexto escolar e comportamentos desviantes na adolescência]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Instituto Universitário ISPA - Instituto Superior de Psicologia Aplicada Unidade de Investigação em Psicologia Cognitiva da Educação e do Desenvolvimento]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Research in the justice field, namely in the field of the Relational Model of Authority (Tyler & Lind, 1992) have showed that the more people perceive authorities as fair, the more they legitimate those authorities and adopt pro-active behaviours towards the group. In this research our hypothesis is that adolescents&#8217; perceptions of injustice about school authority are related with deviant behaviors in adolescence. We also analyze the mediation of the evaluation of institutional authorities in the relationship between justice perceptions and deviant behavior. Participants were 331 adolescents, aged between 12 and 18 years old. Results showed that as the adolescents&#8217; justice judgments about teachers increase (in what regards the procedures used and the relationship&#8217;s quality), their involvement in deviant acts decreases. This relationship was mediated by the evaluation of institutional authority and it was significant even after controlling the effect of age and gender. These results indicate that adolescents&#8217; perception of their relationship with school authorities is a key factor for understanding deviance, and that judgments about procedural and relational justice have an important role in the development of that relationship.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Adolescência]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <P><b>Julgamentos de justi&ccedil;a em contexto escolar e comportamentos desviantes    na adolesc&ecirc;ncia</b></P >     <P><b>Cristina Sanches (<a href="#1">*</a>), Maria Gouveia-Pereira (<a href="#1">*</a>)    </b><a name="top1"></a> </P >     <P>Unidade de Investiga&ccedil;&atilde;o em Psicologia Cognitiva da Educa&ccedil;&atilde;o    e do Desenvolvimento, ISPA &ndash; Instituto Universit&aacute;rio</P >     <P>&nbsp;</P >     <P   align="left" ><b>RESUMO</b> </P >     <p>Pesquisas no &acirc;mbito da justi&ccedil;a, nomeadamente no &acirc;mbito do    modelo relacional da autoridade (Tyler &amp; Lind, 1992) t&ecirc;m demonstrado    que as pessoas quanto mais percepcionam as autoridades como justas mais as legitimam    e mais adoptam comportamentos pr&oacute;-activos face ao grupo. Nesta investiga&ccedil;&atilde;o    partimos da hip&oacute;tese de que os julgamentos de injusti&ccedil;a relativamente    &agrave; autoridade escolar por parte dos adolescentes est&atilde;o relacionados    com os comportamentos desviantes na adolesc&ecirc;ncia. Al&eacute;m disso, analisamos    tamb&eacute;m a media&ccedil;&atilde;o da avalia&ccedil;&atilde;o das autoridades    institucionais na rela&ccedil;&atilde;o entre os julgamentos de justi&ccedil;a    e os comportamentos desviantes. </P >     <p>Os participantes foram 331 adolescentes, com idades compreendidas entre os    12 e os 18 anos. </P >     <p>Os resultados mostraram que quanto mais positivos s&atilde;o os julgamentos    de justi&ccedil;a acerca dos professores, no que respeita aos procedimentos    utilizados e &agrave; qualidade da rela&ccedil;&atilde;o, menor &eacute; o envolvimento    dos adolescentes em actos de desvio. Esta rela&ccedil;&atilde;o foi mediada    pela avalia&ccedil;&atilde;o da autoridade institucional e mostrou-se significativa    mesmo controlando o efeito da idade e do g&eacute;nero. </P >     <p>Estes resultados evidenciam que a percep&ccedil;&atilde;o que os adolescentes    t&ecirc;m acerca da rela&ccedil;&atilde;o estabelecida com a autoridade escolar    &eacute; um factor central na compreens&atilde;o do desvio e que os julgamentos    de justi&ccedil;a procedimental/relacional desempenham um papel relevante no    desenvolvimento dessas rela&ccedil;&otilde;es. </P >     <p><I>Palavras-chave: </I>Adolesc&ecirc;ncia, Comportamentos desviantes, Julgamentos    de justi&ccedil;a. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P >     <p><b>ABSTRACT </b></P >     <p>Research in the justice field, namely in the field of the Relational Model    of Authority (Tyler &amp; Lind, 1992) have showed that the more people perceive    authorities as fair, the more they legitimate those authorities and adopt pro-active    behaviours towards the group. In this research our hypothesis is that adolescents&rsquo;    perceptions of injustice about school authority are related with deviant behaviors    in adolescence. We also analyze the mediation of the evaluation of institutional    authorities in the relationship between justice perceptions and deviant behavior.  </P >     <p>Participants were 331 adolescents, aged between 12 and 18 years old. </P >     <p>Results showed that as the adolescents&rsquo; justice judgments about teachers    increase (in what regards the procedures used and the relationship&rsquo;s quality),    their involvement in deviant acts decreases. This relationship was mediated    by the evaluation of institutional authority and it was significant even after    controlling the effect of age and gender. </P >     <p>These results indicate that adolescents&rsquo; perception of their relationship    with school authorities is a key factor for understanding deviance, and that    judgments about procedural and relational justice have an important role in    the development of that relationship. </P >     <p>Key-words: Adolescence, Deviant behaviours, Justice of judgments.</P >     <P>&nbsp;</P >     <P   align="center" >INTRODU&Ccedil;&Atilde;O </P >    <p>Na sociedade portuguesa, a delinqu&ecirc;ncia juvenil tem vindo a tornar-se um problema muito grave e com consequ&ecirc;ncias preocupantes. Do nosso ponto de vista, este fen&oacute;meno ter&aacute; tend&ecirc;ncia a aumentar, uma vez que emerge sobretudo nos bairros problem&aacute;ticos e em fam&iacute;lias com enormes car&ecirc;ncias, quer do ponto de vista s&oacute;cio-econ&oacute;mico quer do ponto vista emocional. Ora, a viv&ecirc;ncia de grandes dificuldades econ&oacute;micas, do aumento do desemprego, do trabalho prec&aacute;rio e evidentemente da pobreza, potencializa a exclus&atilde;o social e a emerg&ecirc;ncia de comportamentos de desvio por parte dos adolescentes. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Esta exclus&atilde;o pode acontecer em diferentes contextos sociais e relacionais    do indiv&iacute;duo, nomeadamente na escola e na comunidade. Sabemos que estes    factores n&atilde;o s&atilde;o os &uacute;nicos respons&aacute;veis da delinqu&ecirc;ncia,    e que este fen&oacute;meno resulta de uma combina&ccedil;&atilde;o de factores,    nomeadamente de factores sociais, relacionais e individuais (Goldestein, 1990).    Sabemos tamb&eacute;m que, muitas vezes, prevalece um destes factores que acaba    por desencadear a teia complexa da delinqu&ecirc;ncia. </P >     <p>Ap&oacute;s uma revis&atilde;o de diferentes perspectivas te&oacute;ricas constatamos que a complexidade deste fen&oacute;meno come&ccedil;a desde logo com a enorme variedade de terminologias utilizadas. Diversas teorias e estudos emp&iacute;ricos provenientes de diferentes &aacute;reas utilizam uma defini&ccedil;&atilde;o pouco clara acerca do que entendem por delinqu&ecirc;ncia. Frequentemente, o mesmo tipo de comportamento &eacute; denominado, quase de uma forma indiscriminada, como desviante, transgressivo, anti-social ou delinquente, isto para mencionar apenas os termos mais utilizados. Importa ent&atilde;o definir o que entendemos por comportamentos desviantes e comportamentos de delinqu&ecirc;ncia. Os comportamentos desviantes podem ser considerados comportamentos de desvio &agrave;s normas e expectativas sociais, sem que haja necessariamente uma infrac&ccedil;&atilde;o legal, como &eacute; o caso da delinqu&ecirc;ncia. </P >    <p>Al&eacute;m disso, determinados comportamentos delituosos ocorrem ocasionalmente, como por exemplo roubos, actos de desordem p&uacute;blica, escolar e familiar, enquanto outros fazem parte da experimenta&ccedil;&atilde;o e emergem sobretudo no per&iacute;odo da adolesc&ecirc;ncia interm&eacute;dia (Gouveia-Pereira, 2009). Na perspectiva de Silbereisen, Noack, e Reitzle (1987), alguns dos comportamentos anti-normativos podem ser vistos como uma tentativa dos adolescentes ultrapassarem as dificuldades desenvolvimentais t&iacute;picas da adolesc&ecirc;ncia, n&atilde;o chegando a condutas de delinqu&ecirc;ncia cr&oacute;nica. Assim, nem sempre &eacute; f&aacute;cil definir de forma clara a normalidade ou o desvio das condutas juvenis. </P >    <p>A nossa abordagem adopta o conceito de comportamento desviante, uma vez que &eacute; um conceito suficientemente abrangente para nos permitir incluir n&atilde;o s&oacute; comportamentos que constituem viola&ccedil;&otilde;es das normas legais (e.g., usar armas, vender droga, conduzir sem carta de condu&ccedil;&atilde;o, roubar alguma coisa numa loja), mas tamb&eacute;m comportamentos que, apesar de n&atilde;o serem pun&iacute;veis legalmente, violam as normas sociais e s&atilde;o considerados inaceit&aacute;veis em determinadas idades (e.g., fumar cigarros, beber &aacute;lcool), ou em contextos espec&iacute;ficos tais como a escola (e.g., copiar nos testes, andar &agrave; luta com colegas, &ldquo;baldar-se&rdquo; &agrave;s aulas) ou a fam&iacute;lia (e.g., desobedecer ou mentir aos pais). </P >     <p>Acrescida &agrave; dificuldade de defini&ccedil;&atilde;o do termo desvio juvenil    existem na literatura diversas conceptualiza&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas,    vindas de diferentes &aacute;reas das ci&ecirc;ncias sociais e humanas (e.g.,    psicologia e sociologia) que t&ecirc;m como objectivo explicar as causas que    levam um adolescente a transgredir ou a n&atilde;o cumprir as normas sociais.    Umas centram as suas explica&ccedil;&otilde;es em factores de natureza sociopsicol&oacute;gica    (Gottfredson, 2001; Paterson &amp; Yorger, 2002; Rutter, 1983), outras colocam    o seu enfoque em factores individuais (Farrington, Biron, &amp; LeBlanc, 1982).    Face a um fen&oacute;meno t&atilde;o complexo e multifactorial como &eacute;    o desvio cada uma das teorias, naturalmente, contribuir&aacute; apenas em parte    para a compreens&atilde;o dos motivos que levam um adolescente a ser desviante    ou conformista. Contudo, na literatura, existe alguma unanimidade acerca das    causas mais relevantes para a emerg&ecirc;ncia de comportamentos desviantes,    que se prendem com factores ligados &agrave; fam&iacute;lia, &agrave; escola    e ao grupo de amigos (Goldestein, 1990). Por&eacute;m, o peso relativo de cada    uma destas entidades socializadoras na explica&ccedil;&atilde;o dos comportamentos    desviantes depender&aacute; da idade dos sujeitos analisados. Por exemplo, a    contribui&ccedil;&atilde;o do factor familiar na delinqu&ecirc;ncia pode diminuir    &agrave; medida que o indiv&iacute;duo vai crescendo e se vai envolvendo na    escola e no grupo de amigos (Harris, 1995, 1998), passando a socializa&ccedil;&atilde;o    secund&aacute;ria a ter um efeito determinante. </P >     <p>Este trabalho analisa o fen&oacute;meno do desvio juvenil a partir da perspectiva iniciada por Emler e Reicher (1995) e que inspirou os nossos trabalhos iniciais (Gouveia Pereira, 2009; Gouveia-Pereira &amp; Sanches, submetido). Nesses trabalhos temos vindo a articular dois tipos de modelos te&oacute;ricos: os julgamentos de justi&ccedil;a, nomeadamente o modelo relacional da autoridade (Tyler &amp; Lind, 1992) e os trabalhos sobre a delinqu&ecirc;ncia desenvolvidos por Emler e Reicher (1995, 2005). Pensamos que a articula&ccedil;&atilde;o entre estes dois tipos de trabalhos contribui para uma melhor compreens&atilde;o acerca do papel que os julgamentos de justi&ccedil;a podem desempenhar ao n&iacute;vel do desvio juvenil. Assim, neste trabalho pretendemos analisar o impacto que a percep&ccedil;&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o dos adolescentes com as institui&ccedil;&otilde;es socializadoras (e.g., a escola) e com as figuras de autoridade (pol&iacute;cia, ju&iacute;zes/tribunais e leis) tem na ocorr&ecirc;ncia dos comportamentos desviantes. </P >    <p>De seguida, iremos dar conta da rela&ccedil;&atilde;o entre as atitudes dos adolescentes face &agrave; escola e &agrave;s autoridades institucionais e o desvio. </P >     <P align="center"   >RELA&Ccedil;&Atilde;O ENTRE A AUTORIDADE INSTITUCIONAL A ESCOLA E O DESVIO </P >     <p>Emler e Reicher (1995) sugerem que o fen&oacute;meno do desvio e da delinqu&ecirc;ncia est&aacute; relacionado com uma cis&atilde;o na rela&ccedil;&atilde;o dos adolescentes com a autoridade institucional, manifestando-se atrav&eacute;s de comportamentos de n&atilde;o aceita&ccedil;&atilde;o das normas e regras que o sistema social e respectivas autoridades pretendem implementar. Os autores em 2005 defendem que quando os adolescentes percepcionam as autoridades institucionais como parciais e tendenciosas nas suas ac&ccedil;&otilde;es e incapazes de os proteger e de defender os seus interesses surgem sentimentos de exclus&atilde;o e aliena&ccedil;&atilde;o que podem facilitar o caminho para a delinqu&ecirc;ncia. </P >    <p>Alguns estudos emp&iacute;ricos t&ecirc;m demonstrado que a atitude negativa acerca da autoridade institucional por parte dos adolescentes est&aacute; fortemente relacionada com o n&atilde;o cumprimento das regras e o envolvimento em actos de delinqu&ecirc;ncia (e.g., Emler &amp; Reicher, 1987, 1995; Hirschi, 1969; Hoge, Andrews, &amp; Leischeid, 1996; Levy, 2001; Loeber, 1996; Reicher &amp; Emler, 1985; Tarry &amp; Emler, 2007). </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Essas investiga&ccedil;&otilde;es sugerem que a atitude negativa por parte dos adolescentes relativamente &agrave;s autoridades pode ganhar express&atilde;o de diferentes formas, nomeadamente a recusa dos procedimentos e da protec&ccedil;&atilde;o disponibilizados pelo sistema institucional (Emler &amp; Reicher, 1995), procurando fazer justi&ccedil;a pelas pr&oacute;prias m&atilde;os, envolvendo-se assim em ac&ccedil;&otilde;es que desafiam a autoridade (e.g., a propriedade privada &eacute; posta em causa atrav&eacute;s de roubos), e expressando comportamentos de rejei&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s de ataques directos a s&iacute;mbolos da ordem institucional (e.g., actos de vandalismo), bem como atrav&eacute;s do desafio directo dos seus representantes (e.g., professores e pol&iacute;cias). </P >    <p>Este conjunto de express&otilde;es negativas para com as autoridades parece significar que os adolescentes n&atilde;o confiam nas autoridades e, para al&eacute;m disso, se percebem que os modelos socializadores falham para com eles, tamb&eacute;m eles sentem que podem falhar no cumprimento das regras e normas sociais. </P >    <p>Um outro conjunto de estudos emp&iacute;ricos mostrou, tamb&eacute;m, que a atitude face &agrave; autoridade escolar est&aacute; relacionada com a atitude dos adolescentes face &agrave; autoridade institucional, particularmente face &agrave; pol&iacute;cia e face &agrave;s leis (Emler &amp; Reicher, 1987; Emler, Ohana, &amp; Dickinson, 1990; Reicher &amp; Emler, 1985; Rigby &amp; Rump, 1979, 1981). Mais especificamente, Gouveia-Pereira e Pires (1999), Palmonari, Rubini, e Casoni (1999) e Rubini e Palmonari (1995) mostraram que os resultados escolares, a adapta&ccedil;&atilde;o &agrave;s regras e o bem estar escolar est&atilde;o fortemente relacionados com as atitudes face &agrave; autoridade institucional. Assim, quanto mais os adolescentes percepcionam as suas experi&ecirc;ncias escolares em geral como positivas, mais positivas s&atilde;o as suas atitudes face &agrave; autoridade institucional (pol&iacute;cias e leis). </P >    <p>Mais recentemente, outro conjunto de estudos mostrou que as atitudes face &agrave;s autoridades escolares dependem da qualidade da interac&ccedil;&atilde;o com os professores (Ochoa, L&oacute;pez, &amp; Emler, 2007). Especificamente, interac&ccedil;&otilde;es negativas entre os estudantes e os professores influenciam n&atilde;o s&oacute; o desenvolvimento de atitudes negativa face &agrave; autoridade escolar, como tamb&eacute;m o envolvimento em comportamentos violentos e agressivos em contexto escolar (Est&eacute;vez, Musitu, &amp; Herrero, 2005; L&oacute;pez, P&eacute;rez, Ochoa, &amp; Ruiz, 2008; Murray &amp; Murray, 2004; Ochoa et al., 2007), em particular no caso dos rapazes (L&oacute;pez et al., 2008). </P >    <p>Este conjunto de estudos mostra que a rela&ccedil;&atilde;o entre a adapta&ccedil;&atilde;o &agrave;s regras escolares e o bem-estar escolar est&aacute; relacionado com a atitude face &agrave; autoridade institucional e mostra, igualmente, que a atitude face &agrave; autoridade institucional est&aacute; relacionada com os actos de delinqu&ecirc;ncia. </P >    <p>A literatura acerca das percep&ccedil;&otilde;es de justi&ccedil;a, sugere-nos que os julgamentos de justi&ccedil;a acerca da autoridade s&atilde;o determinantes na legitima&ccedil;&atilde;o dessas mesmas autoridades e nos comportamentos positivos face ao grupo. Neste trabalho, contrariamente, partimos do pressuposto de que os julgamentos de injusti&ccedil;a acerca da autoridade escolar (professor) s&atilde;o um factor cr&iacute;tico na ocorr&ecirc;ncia de comportamentos desviantes na adolesc&ecirc;ncia. Esta hip&oacute;tese tanto quanto sabemos nunca foi testada. </P >    <p>No sentido de tornar mais claro o nosso trabalho, no ponto seguinte iremos centrar-nos na literatura acerca dos julgamentos de justi&ccedil;a e a sua rela&ccedil;&atilde;o com a avalia&ccedil;&atilde;o das autoridades. </P >     <p align="center">JULGAMENTOS DE JUSTI&Ccedil;A E RELA&Ccedil;&Atilde;O COM AS    AUTORIDADES E O DESVIO </P >     <p>Diversas &aacute;reas cient&iacute;ficas, tais como a filosofia, a pol&iacute;tica, a sociologia, a economia e a psicologia, entre outras, t&ecirc;m prestado uma aten&ccedil;&atilde;o particular ao papel que as experi&ecirc;ncias de (in)justi&ccedil;a t&ecirc;m na vida do indiv&iacute;duo. Em particular, a psicologia social tem vindo a demonstrar que a experi&ecirc;ncia de situa&ccedil;&otilde;es de justi&ccedil;a ou injusti&ccedil;a influencia fortemente as reac&ccedil;&otilde;es das pessoas (ver Brokner &amp; Wendenfeld, 1996; Lind &amp; Tyler, 1988; Tyler &amp; Lind, 1992; Van den Bos &amp; Lind, 2001), bem como o grau de legitima&ccedil;&atilde;o das autoridades em diferentes contextos (Gouveia-Pereira, 2008; Tyler, 1997). </P >    <p>Tyler e Lind (1992), ao proporem o modelo relacional de autoridade nos grupos, evidenciam a import&acirc;ncia das dimens&otilde;es de justi&ccedil;a relacional na legitima&ccedil;&atilde;o da autoridade. Partindo dos pressupostos da Teoria da Identidade Social (Tajfel &amp; Turner, 1986) e da Autocategoriza&ccedil;&atilde;o (Turner, 1987), os quais sugerem que os indiv&iacute;duos usam a informa&ccedil;&atilde;o que retiram dos seus grupos de perten&ccedil;a para constru&iacute;rem a sua identidade social, o modelo de Tyler e Lind (1992) prop&otilde;e que a forma como os indiv&iacute;duos s&atilde;o tratados pela autoridade fornece-lhes informa&ccedil;&atilde;o sobre o seu valor no grupo e sobre o estatuto do grupo, contribuindo assim para a defini&ccedil;&atilde;o da sua identidade. </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Especificamente, o modelo relacional de autoridade nos grupos prop&otilde;e que quanto maior a percep&ccedil;&atilde;o de que a decis&atilde;o de uma autoridade &eacute; orientada por princ&iacute;pios relacionais de neutralidade (a autoridade usa procedimentos iguais com todos os indiv&iacute;duos), confian&ccedil;a (autoridade &eacute; honesta e preocupa-se com as necessidades das pessoas) e reconhecimento de <I>status </I>(a autoridade trata os indiv&iacute;duos com respeito e dignidade), mais essa decis&atilde;o &eacute; percebida como justa, e consequentemente mais bem aceite, favorecendo assim a legitima&ccedil;&atilde;o da autoridade. Segundo este modelo, somente essa legitima&ccedil;&atilde;o pode assegurar a aceita&ccedil;&atilde;o e o cumprimento volunt&aacute;rios das decis&otilde;es dessa autoridade. </P >    <p>Assim, este modelo, contrapondo-se ao modelo instrumental da justi&ccedil;a, indica que os indiv&iacute;duos aceitam e cumprem voluntariamente as decis&otilde;es das autoridades, mesmo quando estas decis&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o do seu interesse imediato, preferindo manter no longo prazo um relacionamento positivo com o grupo em que est&atilde;o inseridos e com as autoridades desse grupo. Deste modo, os julgamentos de justi&ccedil;a n&atilde;o se baseiam apenas em julgamentos de justi&ccedil;a distributiva, ou seja aspectos instrumentais (e.g., favorabilidade dos resultados e distribui&ccedil;&atilde;o dos recursos) (Adams, 1965; Berkowitz &amp; Walster, 1976), mas baseiam-se sobretudo em aspectos relacionais da justi&ccedil;a procedimental (e.g., neutralidade relativamente a todas as pessoas por parte das autoridades; confiar nas autoridades). </P >     <p>Estas hip&oacute;teses t&ecirc;m recebido apoio emp&iacute;rico em muitos contextos    institucionais (ver Tyler, 1997; Tyler, Degoey, &amp; Smith, 1996) e em diferentes    contextos nacionais e culturais (e.g., Lind, Tyler &amp; Huo, 1997; Sousa &amp;    Vala, 2002; Tyler, 1997; Tyler &amp; Caine, 1981; Tyler, Lind, Ohbuchi, Sugawara,    &amp; Huo, 1998). Contudo, estes estudos nunca tinham sido conduzidos com adolescentes    e em contextos diferentes da escola, o que &eacute; o caso do nosso estudo.  </P >     <p>Assim, no sentido de colmatar esta lacuna analis&aacute;mos as percep&ccedil;&otilde;es de (in)justi&ccedil;a dos adolescentes acerca das autoridades em contexto escolar e extra escolar (Gouveia-Pereira, Vala, Palmonari, &amp; Rubini, 2003), testando a hip&oacute;tese de que os julgamentos de justi&ccedil;a acerca dos professores, nomeadamente os julgamentos de justi&ccedil;a procedimentais e relacionais eram um factor cr&iacute;tico na legitima&ccedil;&atilde;o da autoridade escolar e institucional (pol&iacute;cias, leis e tribunais). Os resultados deram suporte a esta hip&oacute;tese, evidenciando que os julgamentos de justi&ccedil;a s&atilde;o cruciais na legitima&ccedil;&atilde;o das autoridades, nomeadamente da autoridade escolar. Assim, quanto mais os adolescentes percepcionaram os professores como justos mais os legitimaram e aceitaram voluntariamente as suas propostas e decis&otilde;es. Neste mesmo estudo verificou-se que a legitima&ccedil;&atilde;o da autoridade escolar &eacute; uma vari&aacute;vel mediadora da rela&ccedil;&atilde;o entre os julgamentos de justi&ccedil;a e a avalia&ccedil;&atilde;o da autoridade institucional. Os resultados sugerem que um tratamento justo por parte dos professores tem implica&ccedil;&otilde;es que ultrapassam a esfera escolar, afectando tamb&eacute;m a avalia&ccedil;&atilde;o que os adolescentes fazem das autoridades institucionais (pol&iacute;cia, leis e tribunais). Assim, a percep&ccedil;&atilde;o de justi&ccedil;a relativamente &agrave; autoridade escolar nas dimens&otilde;es procedimentais e relacionais, promove a internaliza&ccedil;&atilde;o de representa&ccedil;&otilde;es positivas acerca de outras autoridades extra-escolares (legal e judicial). </P >    <p>Num estudo subsequente, Gouveia-Pereira e Sanches (submetido) testaram a hip&oacute;tese de que os julgamentos de justi&ccedil;a acerca do comportamento dos professores s&atilde;o igualmente determinantes na ocorr&ecirc;ncia de comportamentos desviantes. As autoras partiram da hip&oacute;tese de que os julgamentos de justi&ccedil;a acerca da autoridade escolar n&atilde;o desempenham apenas um papel importante no legitima&ccedil;&atilde;o das autoridades, como atr&aacute;s se referiu, mas podem desempenhar igualmente um papel de relevo na ocorr&ecirc;ncia de actos desviantes na adolesc&ecirc;ncia. </P >    <p>As experi&ecirc;ncias de justi&ccedil;a e injusti&ccedil;a que os adolescentes vivenciam na rela&ccedil;&atilde;o com os professores s&atilde;o um factor importante para um maior ou menor envolvimento em comportamentos de desvio. De acordo com o modelo relacional da autoridade (Tyler &amp; Lind, 1992) se os adolescentes sentem que a autoridade escolar n&atilde;o &eacute; justa nos procedimentos e na distribui&ccedil;&atilde;o dos recursos, esse facto leva a que n&atilde;o tenham confian&ccedil;a nessas autoridades e n&atilde;o estejam dispon&iacute;veis para as legitimar. Por sua vez, esses sentimentos de injusti&ccedil;a e a falta de confian&ccedil;a relativamente &agrave; autoridade escolar podem ser transferidos para as autoridades institucionais, como mostrou o estudo de (Gouveia-Pereira et al., 2003), e como tal, os adolescentes reagem com comportamentos de confronto e de afastamento ao que lhes &eacute; pedido por essas autoridades, podendo acontecer o que Emler e Reicher (2005) sugerem &ndash; um corte com as autoridades. </P >    <p>Participaram no estudo 390 adolescentes, com idades compreendidas entre os 14 e os 17 anos, com sucesso e insucesso escolar e a frequentar seis escolas p&uacute;blicas na &aacute;rea de Lisboa. Verificou-se que os julgamentos de justi&ccedil;a, especialmente os aspectos relacionais da justi&ccedil;a procedimental tiveram um forte impacto negativo na ocorr&ecirc;ncia de comportamentos desviantes, quer nos comportamentos il&iacute;citos quer nos comportamentos de experimenta&ccedil;&atilde;o (comportamentos de desvio relativamente &agrave;s normas sociais). Torna-se assim claro a relev&acirc;ncia que os julgamentos de justi&ccedil;a acerca da autoridade escolar t&ecirc;m na ocorr&ecirc;ncia dos comportamentos desviantes na adolesc&ecirc;ncia. </P >    <p>Neste estudo procuramos testar a hip&oacute;tese de que existe um efeito de media&ccedil;&atilde;o da vari&aacute;vel avalia&ccedil;&atilde;o da autoridade institucional na rela&ccedil;&atilde;o entre os julgamentos de justi&ccedil;a acerca dos professores, especialmente os aspectos relacionais da justi&ccedil;a procedimental, e os comportamentos desviantes. </P >     <p>Dado que a evid&ecirc;ncia emp&iacute;rica mostra que as vari&aacute;veis idade    e g&eacute;nero s&atilde;o importantes no envolvimento em comportamentos desviantes    na adolesc&ecirc;ncia (Emler &amp; Reicher, 1995; Gottfredson &amp; Hirschi,    1990; Hirschi, 1969; Junger-Tas, Ribeaud, &amp; Cruyff, 2004; Moffitt, 1993;    Moffitt, Caspi, Rutter, &amp; Silva, 2001; Smith &amp; McVie, 2003), neste trabalho    iremos controlar o efeito destas duas vari&aacute;veis, introduzindo-as como    co-variantes nas an&aacute;lises de media&ccedil;&atilde;o. </P >     <P   align="center" >M&Eacute;TODO </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><I>Participantes </I></P >    <p>Os participantes deste estudo foram 331 adolescentes, com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos (<I>M</I>=15.5; <I>DP</I>=1.97), sendo 62.5% do sexo masculino e 37.5% do sexo feminino. Os dados foram recolhidos em 27 turmas de tr&ecirc;s escolas localizadas na &aacute;rea da Grande Lisboa e os participantes frequentavam o 2&ordm; e 3&ordm; ciclos do ensino b&aacute;sico. </P >    <p><I>Instrumentos </I></P >    <p><I>Julgamentos de justi&ccedil;a acerca dos professores </I></P >    <p>Esta escala foi desenvolvida por Gouveia-Pereira (2004) e &eacute; constitu&iacute;da por 16 itens que medem as tr&ecirc;s dimens&otilde;es de justi&ccedil;a mencionadas na literatura: <I>justi&ccedil;a distributiva </I>(e.g., &ldquo;em geral, os meus professores reconhecem o meu esfor&ccedil;o&rdquo;), <I>justi&ccedil;a procedimental </I>(e.g., &ldquo;os meus professores ouvem as minhas opini&otilde;es antes de tomar as decis&otilde;es acerca de mim pr&oacute;prio&rdquo;) e <I>justi&ccedil;a relacional </I>(e.g., &ldquo;os meus professores tratam-me com respeito e considera&ccedil;&atilde;o&rdquo;). As respostas eram dadas numa escala de 5 pontos (1=Discordo completamente; 5=Concordo completamente). Uma An&aacute;lise Factorial por Componentes Principais (PCFA), revelou dois factores (KMO=0.91) que explicam 48.9% da vari&acirc;ncia total (39.8% o primeiro factor e 9.1% o segundo factor). O primeiro factor agregou 4 itens relativos &agrave; justi&ccedil;a procedimental e 7 itens pertencentes &agrave; justi&ccedil;a relacional (&alpha;=.84; <I>M</I>=3.63; <I>DP</I>=.68). O segundo factor agregou 5 itens relativos &agrave; justi&ccedil;a distributiva (&alpha;=.83; <I>M</I>=3.75; <I>DP</I>=.78). Os itens da justi&ccedil;a procedimental e relacional t&ecirc;m sido agregados no mesmo factor em algumas pesquisas (ex. Folger, 1996; Gouveia-Pereira et al., 2003; Sousa &amp; Vala, 2002; Vermunt, Van der Kloote &amp; Van der Meer, 1993), indicando que as pessoas n&atilde;o distinguem de forma clara estas duas dimens&otilde;es da justi&ccedil;a. </P >    <p><I>Avalia&ccedil;&atilde;o da autoridade institucional </I></P >    <p>Esta escala foi desenvolvida por Gouveia-Pereira (2004), sendo constituida por 19 itens para medir tr&ecirc;s tipos de autoridade institucional: <I>pol&iacute;cia </I>(e.g., &ldquo;&agrave;s vezes os pol&iacute;cias multam as pessoas injustamente&rdquo;), <I>leis </I>(e.g., &ldquo;as leis protegem os direitos de todos os cidad&atilde;os&rdquo;) e os <I>ju&iacute;zes/tribunais </I>(e.g., &ldquo;os tribunais existem para que a sociedade seja melhor para todos&rdquo;)<I>. </I>As respostas eram dadas numa escala de 5 pontos (1=Discordo completamente; 5=Concordo completamente). </P >     <p>Pesquisas pr&eacute;vias indicaram que a avalia&ccedil;&atilde;o que os adolescentes    fazem destas autoridades est&atilde;o positivamente correlacionadas (Gouveia-Pereira    et al., 2003; Reicher &amp; Emler, 1985; Rigby, Schofield, &amp; Slee, 1987).    Assim, construiu-se uma vari&aacute;vel conjunta com os tr&ecirc;s tipos de    autoridade designada por <I>avalia&ccedil;&atilde;o da autoridade institucional    </I>(&alpha;=.67; <I>M=</I>3.06; <I>DP=</I>.54). </P >     <p><I>Comportamentos de desvio </I></P >    <p>Esta escala foi desenvolvida por Gouveia-Pereira e Carita (2005) e &eacute; constitu&iacute;da por 41 itens que medem a frequ&ecirc;ncia de comportamentos desviantes que ocorreram nos dois &uacute;ltimos anos em contexto escolar, familiar ou p&uacute;blico. De um modo geral, os itens remetiam para comportamentos de vandalismo, comportamentos aditivos, agress&otilde;es f&iacute;sicas ou verbais, comportamentos disruptivos na escola, roubos e desobedi&ecirc;ncia a regras e a figuras de autoridade. As respostas eram dadas numa escala de 6 pontos (0=nunca; 5=muitas vezes). </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Realizou-se uma An&aacute;lise Factorial por Componentes Principais, da qual emergiu uma estrutura factorial pouco intelig&iacute;vel. Assim, opt&aacute;mos por agregar os itens desta medida em dois factores, tal como a estrutura factorial resultante do estudo de Gouveia-Pereira e Sanches (submetido). </P >    <p>O primeiro factor, que denomin&aacute;mos <I>compor</I><I></I><I>tamentos il&iacute;citos </I>(&alpha;=.94; <I>M</I>=.58; <I>DP</I>=.77), inclui 24 itens que remetem para comportamentos que violam normas legais, tais como roubos (e.g., &ldquo;roubei ou tentei roubar alguma coisa barata numa loja&rdquo; &ndash; ex: revistas, doces, meias, canetas, etc.), uso de armas (e.g., &ldquo;usei algum tipo de arma &ndash; ex: navalha, &lsquo;naifa&rsquo;, etc. &ndash; quando andei &agrave; luta com algu&eacute;m&rdquo;), condu&ccedil;&atilde;o de ve&iacute;culos sem carta de condu&ccedil;&atilde;o, comportamentos violentos (e.g., &ldquo;bati ou atirei objectos a um professor ou a outro adulto na escola, numa altura em que estava zangado/chateado&rdquo;) e vandalismo (e.g., &ldquo;estraguei ou destru&iacute; bens p&uacute;blicos ou privados&rdquo; </P >    <p>&ndash; ex: cabines telef&oacute;nicas, parqu&iacute;metros, sinais de tr&acirc;nsito, m&aacute;quinas de cigarros, furar pneus de carros ou motas, partir espelhos ou janelas, etc.). O segundo factor, que denomin&aacute;mos <I>comportamentos de experimenta&ccedil;&atilde;o </I>(&alpha;=.86; <I>M</I>=1.43; <I>DP</I>=.97) inclui 13 itens que remetem para comportamentos como por exemplo &ldquo;Faltei &agrave;s aulas porque n&atilde;o me apetecia ir, para ficar com colegas meus, ou para ir dar uma volta&rdquo;, &ldquo;Fumei cigarros&rdquo;, &ldquo;Bebi bebidas alco&oacute;licas&rdquo; ou &ldquo;Sa&iacute; &agrave; noite sem autoriza&ccedil;&atilde;o dos meus pais&rdquo;. Quatro items n&atilde;o se agregaram de forma significativa em nenhum dos dois factores. </P >    <p><I>Procedimento </I></P >    <p>Foram seleccionadas tr&ecirc;s escolas de acordo com a disponibilidade e aceita&ccedil;&atilde;o demonstrada pelas respectivas direc&ccedil;&otilde;es para participar no estudo. Os directores foram informados acerca dos objectivos do estudo e, em coordena&ccedil;&atilde;o com os directores de cada turma, identificaram os momentos lectivos em que seria mais adequada a administra&ccedil;&atilde;o dos question&aacute;rios. </P >    <p>Os directores de turma ficaram respons&aacute;veis por distribuir pelos alunos os pedidos de autoriza&ccedil;&atilde;o aos pais, que inclu&iacute;am uma descri&ccedil;&atilde;o muito breve do estudo, a garantia de que o question&aacute;rio era an&oacute;nimo e que todos os dados recolhidos seriam absolutamente confidenciais. Com o acordo dos directores de cada escola, opt&aacute;mos pelo consentimento passivo, ou seja, era solicitado aos pais que assinassem e devolvessem os pedidos de autoriza&ccedil;&atilde;o no caso de n&atilde;o autorizarem que o seu filho participasse no estudo. </P >    <p>Os participantes foram informados que: (1) o question&aacute;rio era an&oacute;nimo, (2) as suas respostas eram totalmente confidenciais, garantido-lhes que n&atilde;o seriam mostradas a ningu&eacute;m da escola nem aos pais, (3) poderiam fazer todas as perguntas que desejassem depois de terem respondido ao question&aacute;rio e (4) a sua participa&ccedil;&atilde;o era volunt&aacute;ria. Todas as medidas foram administradas no mesmo dia, durante um tempo lectivo que foi especificamente cedido para o preenchimento do question&aacute;rio, mas na presen&ccedil;a exclusiva do investigador. Os participantes demoraram aproximadamente 30 minutos a preencher o question&aacute;rio. </P >    <P   align="center" >RESULTADOS </P >    <p><I>Correla&ccedil;&otilde;es entre as vari&aacute;veis do estudo </I></P >    <p>Com o objectivo de analisar a rela&ccedil;&atilde;o entre as diversas vari&aacute;veis em estudo realiz&aacute;mos an&aacute;lises de correla&ccedil;&atilde;o de Pearson, excepto para as vari&aacute;veis idade e g&eacute;nero (correla&ccedil;&otilde;es de Spearman) (ver Tabela 1). </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Observando a Tabela 1 verifica-se uma correla&ccedil;&atilde;o positiva significativa    entre as percep&ccedil;&otilde;es de justi&ccedil;a relativas aos professores    e a avalia&ccedil;&atilde;o que os adolescentes fazem das autoridades institucionais,    bem como uma associa&ccedil;&atilde;o negativa e significativa entre as percep&ccedil;&otilde;es    de justi&ccedil;a e as duas dimens&otilde;es dos comportamentos de desvio. Verificamos    tamb&eacute;m que as correla&ccedil;&otilde;es entre os julgamentos de justi&ccedil;a    e os comportamentos de desvio s&atilde;o mais fortes no caso dos aspectos relacionais    da justi&ccedil;a procedimental do que no caso da justi&ccedil;a distributiva.    Al&eacute;m disto, e de acordo com a literatura, a avalia&ccedil;&atilde;o das    autoridades institucionais encontra-se negativa e significativamente associada    aos comportamentos de desvio. A idade n&atilde;o revelou uma associa&ccedil;&atilde;o    significativa com as percep&ccedil;&otilde;es de justi&ccedil;a, mas est&aacute;    negativamente associada &agrave; avalia&ccedil;&atilde;o das autoridades institucionais    e positivamente associada &agrave;s duas dimens&otilde;es dos comportamentos    desviantes. Para responder &agrave; nossa hip&oacute;tese realizamos um conjunto    de an&aacute;lises que passaremos a descrever. </P >     <p>&nbsp;</P >     <p align="center">TABELA 1 </P >     <p align="center"><I>Correla&ccedil;&otilde;es de Pearson e Spearman entre vari&aacute;veis    </I>1 2 3 4 </P >     <p align="center"><img src="/img/revistas/aps/v28n1/28n1a06q1.jpg" width="697" height="188"></P >     
<p>&nbsp;</P >     <p><I>An&aacute;lises de media&ccedil;&atilde;o </I></P >    <p>Para analisar o efeito mediador da avalia&ccedil;&atilde;o das autoridades institucionais na rela&ccedil;&atilde;o entre as percep&ccedil;&otilde;es de justi&ccedil;a acerca dos professores e os comportamentos de desvio dos adolescentes, foram estimadas tr&ecirc;s equa&ccedil;&otilde;es de regress&atilde;o tal como sugerem Baron e Kenny (1986): (1) a vari&aacute;vel mediadora foi regredida sobre a vari&aacute;vel independente; (2) a vari&aacute;vel dependente foi regredida sobre a vari&aacute;vel independente; (3) a vari&aacute;vel dependente foi regredida simultaneamente sobre as vari&aacute;veis mediadora e independente. De acordo com Baron e Kenny (1986), para que haja media&ccedil;&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio satisfazer quatro condi&ccedil;&otilde;es: (a) na primeira equa&ccedil;&atilde;o de regress&atilde;o a vari&aacute;vel independente tem de ter um efeito significativo sobre a vari&aacute;vel mediadora; </P >     <p>(b) na segunda equa&ccedil;&atilde;o de regress&atilde;o a vari&aacute;vel    independente tem de ter um efeito significativo sobre a vari&aacute;vel dependente;    (c) na terceira equa&ccedil;&atilde;o de regress&atilde;o a vari&aacute;vel    mediadora tem de ter um efeito significativo sobre a vari&aacute;vel dependente    e, simultaneamente, (d) o efeito da vari&aacute;vel independente sobre a vari&aacute;vel    dependente tem de ser mais baixo na terceira equa&ccedil;&atilde;o de regress&atilde;o    do que na segunda. </P >     <p>Tal como atr&aacute;s referimos, para garantir que os efeitos    de media&ccedil;&atilde;o analisados n&atilde;o eram explicados por terceiras    causas nomeadamente a idade e/ou o g&eacute;nero, estas duas vari&aacute;veis    foram introduzidas como co-variantes nas equa&ccedil;&otilde;es de regress&atilde;o    que predizem os comportamentos desviantes, de modo a que o seu efeito fosse    controlado. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ao analisar os resultados, a primeira equa&ccedil;&atilde;o de regress&atilde;o evidenciou que a justi&ccedil;a distributiva n&atilde;o teve um efeito significativo sobre a avalia&ccedil;&atilde;o das autoridades institucionais. Uma vez que a primeira condi&ccedil;&atilde;o para a media&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi satisfeita, esta vari&aacute;vel n&atilde;o foi inclu&iacute;da nas equa&ccedil;&otilde;es de regress&atilde;o posteriores. </P >    <p>Observamos igualmente (Figuras 1 e 2) que na primeira equa&ccedil;&atilde;o de regress&atilde;o a justi&ccedil;a relacional/procedimental teve um impacto positivo significativo sobre a avalia&ccedil;&atilde;o das autoridades institucionais (&beta;=.48, <I>p</I>&lt;.001). Relativamente aos resultados, da segunda equa&ccedil;&atilde;o de regress&atilde;o, verific&aacute;mos que, mesmo controlando o efeito da idade e do g&eacute;nero, a justi&ccedil;a relacional/procedimental teve um impacto negativo significativo sobre os comportamentos il&iacute;citos (&beta;=-.35, <I>p</I>&lt;.001) e sobre os comportamentos de experimenta&ccedil;&atilde;o (&beta;=-.39, <I>p</I>&lt;.001). </P >    <p>Na terceira equa&ccedil;&atilde;o de regress&atilde;o, os resultados mostram que a vari&aacute;vel mediadora (avalia&ccedil;&atilde;o das autoridades institucionais) teve um impacto negativo significativo sobre os comportamentos il&iacute;citos (&beta;=-.29, <I>p</I>&lt;.001) e sobre os comportamentos de experimenta&ccedil;&atilde;o (&beta;=-.20, <I>p</I>&lt;.01). Al&eacute;m disso, a introdu&ccedil;&atilde;o desta vari&aacute;vel em simult&acirc;neo com a justi&ccedil;a relacional/procedimental fez diminuir o seu impacto nas duas dimens&otilde;es de comportamentos desviantes: comportamentos il&iacute;citos (&beta;=-.22, <I>p</I>&lt;.001) e comportamentos de experimenta&ccedil;&atilde;o (&beta;=-.29, <I>p</I>&lt;.001). Assim, podemos afirmar que, as quatro condi&ccedil;&otilde;es para a media&ccedil;&atilde;o foram satisfeitas. </P >    <p>O teste <I>z </I>de Sobel permitiu-nos verificar se a diminui&ccedil;&atilde;o do impacto da justi&ccedil;a relacional/ /procedimental sobre os comportamentos desviantes da segunda para a terceira equa&ccedil;&atilde;o de regress&atilde;o era significativa. Os resultados do teste de Sobel mostram que essa media&ccedil;&atilde;o &eacute; significativa, quer no caso dos comportamentos il&iacute;citos (<I>z</I>=-4.30, <I>p</I>&lt;.001), quer no caso dos comportamentos de experimenta&ccedil;&atilde;o (<I>z</I>=-3.23, <I>p</I>&lt;.01). Assim, os resultados indicam a exist&ecirc;ncia de um efeito de media&ccedil;&atilde;o parcial uma vez que na terceira equa&ccedil;&atilde;o de regress&atilde;o o impacto dos julgamentos de justi&ccedil;a sobre o desvio n&atilde;o deixou de ser significativo, tendo apenas diminu&iacute;do. </P >     <p>Tendo em conta estes resultados, podemos afirmar que a rela&ccedil;&atilde;o    entre os julgamentos de justi&ccedil;a relacional/procedimental acerca dos professores    e os comportamentos de desvio dos adolescentes &eacute; parcialmente mediada    pela avalia&ccedil;&atilde;o que os adolescentes fazem das autoridades institucionais    e que este efeito de media&ccedil;&atilde;o &eacute; significativo mesmo controlando    os efeitos das vari&aacute;veis idade e g&eacute;nero. </P >     <p>&nbsp;</P >     <P   align="center" >FIGURA 1 </P >     <P   align="center" ><I>An&aacute;lises de media&ccedil;&atilde;o para os comportamentos il&iacute;citos    </I></P >     <P   align="center" ><i><img src="/img/revistas/aps/v28n1/28n1a06f1.jpg" width="530" height="276"></i></P >     
<P   align="center" >&nbsp;</P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="center" >FIGURA 2 </P >     <P   align="center" ><I>An&aacute;lises de media&ccedil;&atilde;o para os comportamentos de experimenta&ccedil;&atilde;o </I></P >     <p align="center"><img src="/img/revistas/aps/v28n1/28n1a06f2.jpg" width="529" height="277"></p>     
<P   align="center" >&nbsp;</P >     <P   align="center" >DISCUSS&Atilde;O </P >    <p>Com este trabalho pretendemos, por um lado, compreender melhor quais as vari&aacute;veis que podem contribuir para a ocorr&ecirc;ncia dos comportamentos desviantes na adolesc&ecirc;ncia, e por outro lado, pretendemos alargar e potencializar o modelo relacional da justi&ccedil;a a outros campos da psicologia. </P >    <p>Assim, e de forma geral, os nossos resultados confirmam a nossa hip&oacute;tese de que, quanto mais os adolescentes percepcionam os seus professores como justos ao n&iacute;vel dos procedimentos que utilizam e da qualidade das rela&ccedil;&otilde;es inter-pessoais que estabelecem, mais positivamente avaliam tamb&eacute;m outros tipos de autoridade institucional extra-escolar, nomeadamente a pol&iacute;cia, as leis, os ju&iacute;zes e os tribunais. Por sua vez, quanto mais positiva &eacute; a avalia&ccedil;&atilde;o das autoridades institucionais, menor &eacute; o envolvimento dos adolescentes em comportamentos desviantes, sejam eles il&iacute;citos ou comportamentos de experimenta&ccedil;&atilde;o, mesmo quando controlados os efeitos das vari&aacute;veis idade e g&eacute;nero. </P >    <p>Especificamente, os nossos resultados refor&ccedil;am o Modelo Relacional da Autoridade proposto por Tyler e Lind (1992), uma vez que tamb&eacute;m neste contexto (escolar) e com esta popula&ccedil;&atilde;o (adolescentes) s&atilde;o os julgamentos acerca dos aspectos relacionais dos procedimentos usados pela autoridade escolar (professor) que contribuem para a ocorr&ecirc;ncia de dois tipos de desvio: uma dimens&atilde;o constitu&iacute;da por comportamentos graves e il&iacute;citos e uma outra dimens&atilde;o de comportamentos considerados menos graves e que podem ser considerados comportamentos de experimenta&ccedil;&atilde;o t&iacute;picos no grupo et&aacute;rio analisado. Os aspectos distributivos da justi&ccedil;a, embora estejam relacionados com a ocorr&ecirc;ncia do desvio, como ali&aacute;s se pode ver na Tabela das correla&ccedil;&otilde;es, nas an&aacute;lises de media&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se revelaram estatisticamente significativos. Estes resultados sugerem que n&atilde;o s&atilde;o os julgamentos instrumentais da justi&ccedil;a, isto &eacute;, a justi&ccedil;a dos resultados que influenciam a ocorr&ecirc;ncia do desvio, mas s&atilde;o antes os julgamentos de justi&ccedil;a acerca dos procedimentos utilizados e a qualidade da rela&ccedil;&atilde;o que os professores estabelecem com os adolescentes que levam a uma menor ocorr&ecirc;ncia deste tipo de comportamentos. </P >    <p>Efectivamente, outros estudos t&ecirc;m demonstrado que s&atilde;o sobretudo os aspectos relacionais da justi&ccedil;a, que conduzem &agrave; legitima&ccedil;&atilde;o das autoridades, isto &eacute;, que levam a que as pessoas aceitem voluntariamente as decis&otilde;es e propostas dessas autoridades, em diversos contextos: legal, familiar, escolar, organizacional e pol&iacute;tico (Gouveia-Pereira et al., 2003; Gouveia-Pereira, 2008; Sousa &amp; Vala, 2002; Tyler, 1990, 1997; Vala &amp; Marinho, 2003); que mais contribuem para os comportamentos pr&oacute;-activos face aos grupos aos quais pertencem (Tyler &amp; Blader, 2000; Tyler et al., 1996) e para os comportamentos de cidadania no contexto escolar (Gouveia-Pereira, Mar&ccedil;al, &amp; Carita, 2006; Carita, Gouveia-Pereira, &amp; Brites, 2006). Este conjunto de estudos mostra de forma clara a relev&acirc;ncia que os julgamentos de justi&ccedil;a t&ecirc;m nos comportamentos positivos das pessoas face &agrave; autoridade e aos grupos aos quais pertencem. </P >     <p>Os resultados deste estudo refor&ccedil;am os j&aacute; encontrados por Gouveia-Pereira    (2009) e por Gouveia-Pereira e Sanches (submetido). Ou seja, o facto de os adolescentes    percepcionarem os professores como autoridades justas acerca dos processos aplicados    e da qualidade da rela&ccedil;&atilde;o estabelecida leva a uma diminui&ccedil;&atilde;o    da ocorr&ecirc;ncia de comportamentos il&iacute;citos (ex.: uso de armas brancas,    roubos, vandalismo, bater e insultar professores, etc.), mas tamb&eacute;m a    uma diminui&ccedil;&atilde;o de comportamentos que podem ser considerados menos    graves (ex.: faltar &agrave;s aulas, arranjar problemas com os colegas da escola,    sair &agrave; noite sem autoriza&ccedil;&atilde;o dos pais, etc.). Assim, os    resultados indicam que os julgamentos de justi&ccedil;a relacional/procedimental    acerca das autoridades n&atilde;o promovem apenas comportamentos pr&oacute;-sociais    face ao grupo, mas conduzem igualmente &agrave; preven&ccedil;&atilde;o de comportamentos    desviantes na adolesc&ecirc;ncia. Deste modo, &eacute; prov&aacute;vel que a    percep&ccedil;&atilde;o da autoridade escolar como injusta por parte dos adolescentes    possa levar &agrave; sua exclus&atilde;o social (Emler &amp; Reicher, 2005),    come&ccedil;ando pela sua auto-exclus&atilde;o. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Embora como vimos, existam alguns estudos que evidenciam que o tipo de interac&ccedil;&atilde;o entre os professores e estudantes est&aacute; relacionado com os comportamentos agressivos e violentos no contexto da escola (Est&eacute;vez et al., 2005; L&oacute;pez et al., 2008; Murray &amp; Murray, 2004; Ochoa et al., 2007), os resultados do nosso estudo evidenciam que n&atilde;o &eacute; apenas relevante a qualidade da interac&ccedil;&atilde;o professor-aluno, mas s&atilde;o tamb&eacute;m os processos utilizados pelos professores que determinam a ocorr&ecirc;ncia do desvio. Al&eacute;m disso, evidenciam ainda que os julgamentos de justi&ccedil;a acerca dos professores t&ecirc;m consequ&ecirc;ncias, quer nos comportamentos desviantes que ocorrem dentro do contexto escolar, quer nos comportamentos que ocorrem no contexto extra-escolar, uma vez que os conte&uacute;dos das duas dimens&otilde;es de desvio aqui analisadas remetem para ambos os contextos. </P >    <p>Apesar da an&aacute;lise do efeito da idade e do g&eacute;nero n&atilde;o ser o objectivo deste estudo, &eacute; importante referir que diversos estudos sugerem uma forte rela&ccedil;&atilde;o entre o grupo et&aacute;rio e o g&eacute;nero e a ocorr&ecirc;ncia do desvio, nomeadamente que essa rela&ccedil;&atilde;o atinge o ponto mais elevado na adolesc&ecirc;ncia m&eacute;dia (14-16 anos) e que os rapazes se envolvem mais neste tipo de comportamentos do que as raparigas (Emler &amp; Reicher, 1995; Fagan &amp; Tyler, 2005; Farrington, 2002; Gottfredson &amp; Hirschi, 1990; Junger-Tas, Ribeaud, &amp; Cruyff, 2004; Moffitt, 1993; Moffitt, Caspi, Rutter, &amp; Silva, 2001; Smith &amp; McVie, 2003). Os nossos resultados indicam que a idade &eacute; um preditor positivo significativo dos comportamentos de desvio na adolesc&ecirc;ncia, sugerindo que &agrave; medida que a idade dos adolescentes aumenta, o seu envolvimento quer em comportamentos il&iacute;citos quer em comportamentos de experimenta&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m aumenta. Por sua vez, a vari&aacute;vel g&eacute;nero mostrou-se um preditor significativo dos comportamentos il&iacute;citos mas n&atilde;o dos comportamentos de experimenta&ccedil;&atilde;o. No nosso entender, esta constata&ccedil;&atilde;o poder&aacute; significar que, provavelmente, quer os rapazes quer as raparigas realizam os comportamentos de experimenta&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, s&atilde;o comportamentos comuns &agrave; maioria dos adolescentes, e portanto, ao ser analisado em conjunto com a dimens&atilde;o dos julgamentos de justi&ccedil;a, o g&eacute;nero acaba por n&atilde;o se apresentar significativo neste tipo de comportamentos. Ao contr&aacute;rio, relativamente &agrave; dimens&atilde;o comportamentos il&iacute;citos, o g&eacute;nero apresenta-se estatisticamente significativo, podendo ser interpretado de acordo com a literatura, ou seja, os rapazes comentem com mais frequ&ecirc;ncia do que as raparigas este tipo de comportamentos. </P >     <p>Apesar desta evid&ecirc;ncia, a robustez do modelo por n&oacute;s proposto    &eacute; refor&ccedil;ada pelo facto da media&ccedil;&atilde;o n&atilde;o ser    explicada por terceiras causas &ndash; nomeadamente a idade ou o g&eacute;nero    &ndash; uma vez que observamos que a media&ccedil;&atilde;o &eacute; estatisticamente    significativa mesmo quando o efeito destas duas vari&aacute;veis &eacute; controlado.  </P >     <p>Assim os nossos resultados permitem-nos referir que os aspectos relacionais da justi&ccedil;a procedimental acerca da autoridade escolar (professor) podem ser considerados como um factor estruturante do desenvolvimento normativo na adolesc&ecirc;ncia e ajudar na interioriza&ccedil;&atilde;o do cumprimento das regras sociais. </P >    <p>No nosso entender, uma poss&iacute;vel hip&oacute;tese explicativa para a import&acirc;ncia dos julgamentos de justi&ccedil;a acerca da autoridade escolar no desvio &eacute; o facto de a qualidade da rela&ccedil;&atilde;o entre a autoridade escolar e os adolescentes influenciar a forma como estes se v&ecirc;em, ou seja a constru&ccedil;&atilde;o da sua identidade. Um dos argumentos-chave dos modelos de justi&ccedil;a mobilizados neste estudo (Lind &amp; Tyler, 1988; Tyler &amp; Lind, 1992) &eacute; precisamente que os julgamentos de justi&ccedil;a procedimental e relacional s&atilde;o determinantes em termos identit&aacute;rios, na medida em as pessoas usam o feedback que recebem dos grupos e das autoridades grupais para construir e manter a sua identidade. Ou seja, a qualidade da rela&ccedil;&atilde;o estabelecida e os procedimentos utilizados, s&atilde;o aspectos da experi&ecirc;ncia interpessoal que comunicam &agrave;s pessoas que elas s&atilde;o membros valorizados naquele grupo (Tyler &amp; Blader, 2003), transmitindo-lhes desse modo informa&ccedil;&otilde;es identit&aacute;rias positivas. Seguindo esta ordem de ideias, parece-nos plaus&iacute;vel pensar que os julgamentos relacionais e procedimentais de justi&ccedil;a acerca da autoridade escolar possam estar relacionados com os comportamentos de desvio, por interm&eacute;dio do seu impacto na identidade dos adolescentes. </P >     <p>De facto, a adolesc&ecirc;ncia &eacute; um per&iacute;odo cr&iacute;tico para    a constru&ccedil;&atilde;o da identidade, e nesse per&iacute;odo o sentimento    de que se &eacute; valorizado e socialmente aceite adquire uma import&acirc;ncia    particular. Ora, a escola tem impacto nas diversas esferas da vida de um adolescente,    nomeadamente na constru&ccedil;&atilde;o de uma identidade positiva ou negativa,    que dever&aacute; estar dependente, quer dos resultados escolares obtidos quer    do sentimento de que se &eacute; um membro valorizado n&atilde;o s&oacute; pelos    pares mas tamb&eacute;m pelos professores. No sentido desta nossa hip&oacute;tese,    o estudo de Carroll, Houghton, Hattie, e Durkin (1999), mostra que, quando os    adolescentes n&atilde;o se sentem valorizados e aceites na escola t&ecirc;m    uma maior probabilidade de procurarem este reconhecimento social atrav&eacute;s    de outros meios, nomeadamente associando-se a outros que partilhem os mesmos    sentimentos e procurando uma reputa&ccedil;&atilde;o social baseada na rebeli&atilde;o    e na indisciplina. Tamb&eacute;m Emler e Reicher (1995) sugerem que a forma    como os adolescentes se relacionam com as autoridades institucionais e a op&ccedil;&atilde;o    por uma via normativa ou anti-normativa determina a identidade desses mesmos    adolescentes. Contudo, esta ideia necessita ainda de ser testada. </P >     <p>Uma das limita&ccedil;&otilde;es do nosso estudo &eacute; ser correlacional e como tal, &eacute; necess&aacute;rio ter alguma cautela no tipo de conclus&otilde;es que retiramos a partir dos resultados obtidos, uma vez que como refere Holmbeck (1997), as rela&ccedil;&otilde;es entre as vari&aacute;veis independente, mediadora e dependente podem n&atilde;o ser necessariamente causais. </P >     <p>Pensamos, no entanto, que este estudo contribuiu para tornar mais clara a relev&acirc;ncia    dos julgamentos de justi&ccedil;a relativamente &agrave; autoridade escolar,    bem como da avalia&ccedil;&atilde;o das autoridades institucionais na ocorr&ecirc;ncia    de actos de desvio na adolesc&ecirc;ncia. Al&eacute;m disso, os nossos resultados    mostram igualmente a robustez do modelo, por n&oacute;s aqui proposto, permitindo    uma vis&atilde;o mais coerente e integrada dos resultados em vez de uma dispers&atilde;o    de dados tantas vezes encontrada neste tipo de estudos. </P >     <p>&nbsp;</P >     <P   align="center" ><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b> </P >     ]]></body>
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<surname><![CDATA[Gouveia-Pereira]]></surname>
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<surname><![CDATA[Pires]]></surname>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Experiência escolar e julgamentos acerca da autoridade.]]></article-title>
<source><![CDATA[Análise Psicológica]]></source>
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<page-range>97-110</page-range></nlm-citation>
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