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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Perturbação mental e ideação suicida entre reclusos preventivos]]></article-title>
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<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0870-82312010000100010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0870-82312010000100010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0870-82312010000100010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[A presente investigação tem dois objectivos: (1) Analisar a incidência de ideação suicida e de perturbação emocional numa amostra de 66 presos preventivos de um estabelecimento prisional central em dois momentos, durante a primeira semana de reclusão e após seis meses de cumprimento da pena, e nesse mesmo período de tempo; (2) explorar o grau de perturbação emocional e sintomatologia psicopatológica em dois grupos de reclusos, reclusos com ideação suicida (Grupo CIS) e reclusos sem ideação suicida (Grupo SIS). A ideação suicida foi avaliada através do Questionário de Ideação Suicida enquanto o Inventário de Sintomas Psicopatológicos permitiu avaliar a perturbação emocional e sintomatologia psicopatológica associada. Os resultados deste estudo permitem verificar que a incidência de ideação suicida se mantém estável ao longo dos primeiros seis meses de reclusão, enquanto a incidência de perturbação emocional diminui significativamente nesse mesmo período de tempo. A divisão da amostra em dois grupos, permitiu verificar que o Grupo CIS apresenta níveis de perturbação emocional significativamente superiores ao observado no Grupo SIS, particularmente sintomatologia psicopatológica depressiva, ansiosa, psicótica e hostil e, enquanto o Grupo CIS praticamente mantêm os mesmos níveis de perturbação emocional ao longo dos primeiros seis meses de reclusão, o Grupo SIS demonstra uma enorme diminuição nos níveis de perturbação emocional. Concluindo, a ideação suicida encontra-se fortemente associada à perturbação mental, nomeadamente à sintomatologia depressiva, ansiosa, psicótica e hostil. Nos reclusos com ideação suicida a perturbação mental apresenta um carácter disposicional, mantendo-se praticamente constante ao longo da execução da pena, enquanto nos reclusos sem ideação suicida apresenta carácter reactivo, diminuindo após seis meses de reclusão.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This study has two mainly purposes: (1) Analyze the incidence of suicide ideation and psychological distress in 66 remanded prisoners in a central prison of Portugal in two moments, during the first week of imprisonment and after six months, and, in this same period of time; (2) explore the degree of emotional distress and type of psychological distress in two groups, prisoners with suicidal ideation (CIS) and without suicidal ideation (SIS). Suicide ideation was measured with the Suicidal Ideation Questionnaire and psychological distress with the Brief Symptom Inventory. Our results show that the incidence of suicidal ideation is mainly the same through the first six months of imprisonment, while the incidence of psychological distress significantly decreases in the same period of time. Dividing our sample in two groups, we can see that compared with the SIS group, the CIS group has a highly significantly level of psychological distress, particularly depressive, anxious, psychotic and hostile distress and, while the CIS group mainly maintain the same levels of psychological distress through the first six months of imprisonment, the SIS group shows a highly reduction in the levels of psychological distress. In conclusion, suicidal ideation is highly associated with psychological distress, namely depressive, anxious, psychotic and hostile distress. In prisoners with suicidal ideation, psychological distress presents itself like a dispositional character, keeping generally constant during imprisonment, while in prisoners without suicidal ideation presents itself like reactive character, diminishing after six months of imprisonment.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Comportamentos suicidários]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Ideação suicida]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Psicopatologia]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Suicidal behaviors]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Suicidal ideation]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Psychopathology]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p  ><b>Perturba&ccedil;&atilde;o mental e idea&ccedil;&atilde;o suicida entre reclusos    preventivos</b> </p >     <p  ><b>Nuno Alexandre Costa Moreira (*)<I>, </I>Rui Abrunhosa Gon&ccedil;alves (**)</b></p >     <p  >&nbsp;</p >     <p  >(*) Mestre em Psicologia da Justi&ccedil;a; Integra o grupo de trabalho da Direc&ccedil;&atilde;o    Geral dos Servi&ccedil;os Prisionais respons&aacute;vel pelo Plano Integrado    da Preven&ccedil;&atilde;o do Suic&iacute;dio nas pris&otilde;es; Psic&oacute;logo    na Cl&iacute;nica Presente com Futuro, Maia, Portugal; e-mail: <a href="mailto:nuno.acm@sapo.pt">nuno.acm@sapo.pt</a>.  </p >     <p>(**) Escola de Psicologia, Universidade do Minho, Braga, Portugal; e-mail:    <a href="mailto:rabrunhosa@psi.uminho.pt">rabrunhosa@psi.uminho.pt</a>. </P >     <p  >&nbsp;</p >     <p  >&nbsp;</p >     <P   align="left" ><b>RESUMO </b></P >     <p>A presente investiga&ccedil;&atilde;o tem dois objectivos: (1) Analisar a incid&ecirc;ncia    de idea&ccedil;&atilde;o suicida e de perturba&ccedil;&atilde;o emocional numa    amostra de 66 presos preventivos de um estabelecimento prisional central em    dois momentos, durante a primeira semana de reclus&atilde;o e ap&oacute;s seis    meses de cumprimento da pena, e nesse mesmo per&iacute;odo de tempo; (2) explorar    o grau de perturba&ccedil;&atilde;o emocional e sintomatologia psicopatol&oacute;gica    em dois grupos de reclusos, reclusos com idea&ccedil;&atilde;o suicida (Grupo    CIS) e reclusos sem idea&ccedil;&atilde;o suicida (Grupo SIS). </P >     <p>A idea&ccedil;&atilde;o suicida foi avaliada atrav&eacute;s do Question&aacute;rio    de Idea&ccedil;&atilde;o Suicida enquanto o Invent&aacute;rio de Sintomas Psicopatol&oacute;gicos    permitiu avaliar a perturba&ccedil;&atilde;o emocional e sintomatologia psicopatol&oacute;gica    associada. Os resultados deste estudo permitem verificar que a incid&ecirc;ncia    de idea&ccedil;&atilde;o suicida se mant&eacute;m est&aacute;vel ao longo dos    primeiros seis meses de reclus&atilde;o, enquanto a incid&ecirc;ncia de perturba&ccedil;&atilde;o    emocional diminui significativamente nesse mesmo per&iacute;odo de tempo. A    divis&atilde;o da amostra em dois grupos, permitiu verificar que o Grupo CIS    apresenta n&iacute;veis de perturba&ccedil;&atilde;o emocional significativamente    superiores ao observado no Grupo SIS, particularmente sintomatologia psicopatol&oacute;gica    depressiva, ansiosa, psic&oacute;tica e hostil e, enquanto o Grupo CIS praticamente    mant&ecirc;m os mesmos n&iacute;veis de perturba&ccedil;&atilde;o emocional    ao longo dos primeiros seis meses de reclus&atilde;o, o Grupo SIS demonstra    uma enorme diminui&ccedil;&atilde;o nos n&iacute;veis de perturba&ccedil;&atilde;o    emocional. </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Concluindo, a idea&ccedil;&atilde;o suicida encontra-se fortemente associada    &agrave; perturba&ccedil;&atilde;o mental, nomeadamente &agrave; sintomatologia    depressiva, ansiosa, psic&oacute;tica e hostil. Nos reclusos com idea&ccedil;&atilde;o    suicida a perturba&ccedil;&atilde;o mental apresenta um car&aacute;cter disposicional,    mantendo-se praticamente constante ao longo da execu&ccedil;&atilde;o da pena,    enquanto nos reclusos sem idea&ccedil;&atilde;o suicida apresenta car&aacute;cter    reactivo, diminuindo ap&oacute;s seis meses de reclus&atilde;o. </P >     <p><I>Palavras-chave: </I>Comportamentos suicid&aacute;rios, Idea&ccedil;&atilde;o    suicida, Psicopatologia. </P >     <p>&nbsp;</P >     <P   align="left" ><b>ABSTRACT</b> </P >     <p>This study has two mainly purposes: (1) Analyze the incidence of suicide ideation    and psychological distress in 66 remanded prisoners in a central prison of Portugal    in two moments, during the first week of imprisonment and after six months,    and, in this same period of time; (2) explore the degree of emotional distress    and type of psychological distress in two groups, prisoners with suicidal ideation    (CIS) and without suicidal ideation (SIS). </P >     <p>Suicide ideation was measured with the Suicidal Ideation Questionnaire and    psychological distress with the Brief Symptom Inventory. Our results show that    the incidence of suicidal ideation is mainly the same through the first six    months of imprisonment, while the incidence of psychological distress significantly    decreases in the same period of time. Dividing our sample in two groups, we    can see that compared with the SIS group, the CIS group has a highly significantly    level of psychological distress, particularly depressive, anxious, psychotic    and hostile distress and, while the CIS group mainly maintain the same levels    of psychological distress through the first six months of imprisonment, the    SIS group shows a highly reduction in the levels of psychological distress.  </P >     <p>In conclusion, suicidal ideation is highly associated with psychological distress,    namely depressive, anxious, psychotic and hostile distress. In prisoners with    suicidal ideation, psychological distress presents itself like a dispositional    character, keeping generally constant during imprisonment, while in prisoners    without suicidal ideation presents itself like reactive character, diminishing    after six months of imprisonment. </P >     <p><I>Key-words: </I>Suicidal behaviors, Suicidal ideation, Psychopathology. </P >     <p  >&nbsp;</p >     <P   align="center" >INTRODU&Ccedil;&Atilde;O </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os <I>comportamentos autolesivos </I>podem ser definidos como todo e qualquer    acto atrav&eacute;s do qual um indiv&iacute;duo causa uma les&atilde;o em si    mesmo, independentemente do grau de inten&ccedil;&atilde;o letal e conhecimento    do verdadeiro motivo desse acto. Este termo permite-nos conglomerar uma ampla    gama de comportamentos resultantes de autoles&otilde;es, estejam eles relacionados    com actos manipulativos, para-suic&iacute;dios, tentativas de suic&iacute;dio    ou suic&iacute;dios consumados (Moreira, 2008). Todavia, entre cada um destes    comportamentos, existem diferen&ccedil;as significativas relativamente ao planeamento,    motiva&ccedil;&atilde;o, letalidade, psicopatologia associada, reac&ccedil;&atilde;o    &agrave; descoberta e, sobretudo, no que respeita ao n&iacute;vel de intencionalidade    suicida experienciada (Lohner &amp; Konrad, 2006; Moreira, 2008). Como tal,    a avalia&ccedil;&atilde;o da idea&ccedil;&atilde;o suicida poder&aacute; constituir    um forte indicador de risco &agrave; efectiva&ccedil;&atilde;o destes comportamentos    (Brown, Beck, Steer, &amp; Grisham, 2000; Raynolds, 1988, 1991a), principalmente    nos comportamentos autolesivos em que prevalece a inten&ccedil;&atilde;o suicida    (McAuliffe, 2002). </P >     <p>Embora n&atilde;o raras vezes seja poss&iacute;vel observar-se sobreposi&ccedil;&atilde;o entre diferentes tipos de autoles&atilde;o, nas autoles&otilde;es com car&aacute;cter manipulativo encontramos usualmente indiv&iacute;duos com perturba&ccedil;&atilde;o anti-social da personalidade e que apenas enveredam pela autoles&atilde;o com intuito de obten&ccedil;&atilde;o de ganhos secund&aacute;rios. No para-suic&iacute;dio encontramos geralmente indiv&iacute;duos com perturba&ccedil;&atilde;o borderline da personalidade, desregulados emocionalmente devido a um qualquer problema interpessoal e que utilizam o corte superficial da pele, n&atilde;o com inten&ccedil;&atilde;o suicida, mas com intuito de p&ocirc;r fim a um estado ps&iacute;quico que muitas vezes se torna insuport&aacute;vel (Chapman, Gratz, &amp; Brown, 2006; Hayes, Wilson, Gifford, Follette, &amp; Strosahl, 1996; Moreira, 2008). Na tentativa de suic&iacute;dio encontramos indiv&iacute;duos desesperan&ccedil;ados e que padecem de perturba&ccedil;&otilde;es depressivas. Experienciam geralmente elevada inten&ccedil;&atilde;o suicida, encontram-se cognitivamente constritos e n&atilde;o perspectivam outra sa&iacute;da que n&atilde;o a morte para um estado extremo de sofrimento mental (Moreira, 2008; Rudd, 2000). </P >     <p>No que se refere ao fen&oacute;meno suicid&aacute;rio em meio prisional, tem-se    verificado que as taxas de comportamentos autolesivos s&atilde;o v&aacute;rias    vezes mais elevadas nas pris&otilde;es comparativamente ao observado entre a    popula&ccedil;&atilde;o geral (Daniel &amp; Fleming, 2006; Haycock, 1986; Joukamaa,    1997; Kerkhof &amp; Bernasco, 1990; Shaw, Baker, Hunt, Moloney, Appleby, 2004).    A n&iacute;vel nacional, embora exista um acervo de literatura consider&aacute;vel    sobre comportamentos autolesivos na popula&ccedil;&atilde;o geral (e.g., Martins,    1990; Sampaio, 2006; Saraiva, 1999)<Sup><a href="#1">1</a></Sup>,<a name="top1"></a>    os estudos sobre este fen&oacute;meno em meio prisional s&atilde;o escassos,    reportando-se sobretudo &agrave; compila&ccedil;&atilde;o das caracter&iacute;sticas    socio-demogr&aacute;ficas dos suicidas (e.g., Moreira, 1998) a estudo de casos    (e.g., Pinho, Gon&ccedil;alves, &amp; Mota, 1997) e estudo das perturba&ccedil;&otilde;es    da personalidade dos indiv&iacute;duos com hist&oacute;ria de auto-mutila&ccedil;&atilde;o    (Duque &amp; Neves, 2004). Efectivamente, nas pris&otilde;es apenas dispomos    de dados relativos a um tipo de comportamento autolesivo, ao suic&iacute;dio    consumado, tendo Moreira (2008) apurado que entre 1998 e 2006 os suic&iacute;dios    foram respons&aacute;veis em m&eacute;dia por 16,6% de todos os &oacute;bitos    ocorridos em meio prisional portugu&ecirc;s. Quando o autor comparou as taxas    de suic&iacute;dio por 100.000 habitantes entre pris&otilde;es e popula&ccedil;&atilde;o    geral entre 1999 e 2004 encontrou taxas de suic&iacute;dio consumado extremamente    elevadas nas pris&otilde;es, variando entre um m&iacute;nimo de 77,3% em 1999    e um m&aacute;ximo de 173,5% em 2001, com uma m&eacute;dia de 124,7% entre 1999    e 2004, comparativamente &agrave; m&eacute;dia de 8,8% na popula&ccedil;&atilde;o    em geral. Como tal, concluiu que entre 1999 e 2004, por cada suic&iacute;dio    na popula&ccedil;&atilde;o em geral ocorreram 14 suic&iacute;dios nas pris&otilde;es    portuguesas. </P >     <p>V&aacute;rios estudos (Daniel &amp; Fleming, 2006; Haycock, 1986; Joukamaa,    1997; Kerkhof &amp; Bernasco, 1990; Shaw, Baker, Hunt, Moloney, Appleby, 2004)    t&ecirc;m tentado dar a conhecer as raz&otilde;es pelas quais nas pris&otilde;es    os suic&iacute;dios, tentativas de suic&iacute;dio e para-suic&iacute;dios se    encontram mais exacerbados. Numa revis&atilde;o liter&aacute;ria sobre a tem&aacute;tica,    Moreira (2008) identificou v&aacute;rios factores de risco associados a estes    comportamentos nas pris&otilde;es. De acordo com o autor, em primeiro lugar    &eacute; necess&aacute;rio ter em aten&ccedil;&atilde;o que as pris&otilde;es    presenteiam os reclu&iacute;dos com factores de risco qualitativamente diferentes    daqueles encontrados entre a popula&ccedil;&atilde;o geral. Normalmente, estas    institui&ccedil;&otilde;es s&atilde;o fonte de sofrimento, uma vez que afastam    o indiv&iacute;duo de seus amigos e familiares, obrigam-no a viver num meio    violento, sobrelotado e repleto de novas normas, a enfrentar um processo legal    desgastante, ao isolamento disciplinar e a lidar com in&uacute;meros microstressores    di&aacute;rios que potenciam o risco de comportamentos autolesivos. A fase da    execu&ccedil;&atilde;o da pena em que o risco se v&ecirc; mais exacerbado parece    ser a da admiss&atilde;o do recluso na pris&atilde;o e durante toda a pris&atilde;o    preventiva. Nesta fase, o recluso &eacute; confrontado com uma realidade completamente    distinta que se traduz num <I>acontecimento significativo de vida</I>, numa    &ldquo;martelada,&rdquo; num stressor, que requer processos adaptativos at&eacute;    ao momento desconhecidos do seu report&oacute;rio pessoal. Tal facto, associado    &agrave; revolta, vergonha, culpa e medo experienciado ap&oacute;s a admiss&atilde;o,    produz tens&atilde;o interior, sofrimento e tristeza, mais ainda, numa fase    em que o indiv&iacute;duo sente n&atilde;o ter suporte social e familiar. Quando    estes stressores ultrapassam determinado limiar, o recluso pode contemplar o    comportamento autolesivo como hip&oacute;tese de fuga a um estado de sofrimento    considerado pelo mesmo insuport&aacute;vel. </P >     <p>Moreira (2008) enfatiza ainda o facto de que somente alguns reclusos enveredam por comportamentos autolesivos perante estas fontes de stress, precisamente os mais predispostos, mais vulner&aacute;veis, ou seja, os que se encontram pouco &ldquo;equipados&rdquo; geneticamente, hereditariamente, ou em termos desenvolvimentais ou s&oacute;cio-familiares para responder de forma adequada e adaptativa &agrave;s conting&ecirc;ncias da perda da liberdade e vida em reclus&atilde;o. Normalmente indiv&iacute;duos negligenciados em crian&ccedil;a, com hist&oacute;ria de abuso psicol&oacute;gico, f&iacute;sico ou sexual, desesperan&ccedil;ados, com historial de perturba&ccedil;&atilde;o psiqui&aacute;trica, com antecedentes de comportamentos autolesivos, impulsivos, agressivos, que abusam ou dependem de subst&acirc;ncias, desempregados ou maritalmente abandonados. Ou seja, se por um lado as institui&ccedil;&otilde;es prisionais potenciam stress elevado, por outro, albergam os indiv&iacute;duos que j&aacute; em sociedade apresentavam in&uacute;meras predisposi&ccedil;&otilde;es que acabam por se constituir em meio prisional como factores de risco acrescido para comportamentos autolesivos. </P >    <p>A presen&ccedil;a de perturba&ccedil;&atilde;o psiqui&aacute;trica tem sido apontada como um dos factores de risco que mais exacerbam os comportamentos autolesivos (Asnis, Friedman, Sanderson, Kaplan, Van Praag, &amp; Harkavy-Friedman, 1993; Beautrais, 2002; Beautrais, Joyce, Mulder, Fergusson, Deavoll, &amp; Nightingale, 1996; He, Felthous, Holzer, Nathan, &amp; Veasey, 2001; Holmstrand, Nim&eacute;us, &amp; Tr&auml;skman-Bendz, 2006; Waern et al., 2002), embora seja importante notar que apesar da maior parte dos comportamentos autolesivos conhecerem o seu ep&iacute;logo no decurso de perturba&ccedil;&otilde;es psiqui&aacute;tricas, nem todos os indiv&iacute;duos com depress&atilde;o, psicose ou outros quadros psiqui&aacute;tricos acabam por enveredar por comportamentos autolesivos (Mann, 2003; Mann, Waternaux, Haas, &amp; Malone, 1999). Al&eacute;m disso, verificou-se que a severidade objectiva, ou seja, o n&uacute;mero de sintomas observados durante um quadro psiqui&aacute;trico n&atilde;o permite distinguir os pacientes que tentam o suic&iacute;dio dos pacientes que n&atilde;o enveredam por tal conduta (Mann et al., 1999; Sher, Oquendo, &amp; Mann, 2001). Em vez disso, ser&aacute; o impacto da doen&ccedil;a ou dos acontecimentos de vida experienciados (e.g., problemas financeiros, profissionais e conflitos e perdas interpessoais) que variam amplamente de indiv&iacute;duo para indiv&iacute;duo e se correlacionam com o comportamento autolesivo (Sher et al., 2001), corroborando a hip&oacute;tese de que tais comportamentos constituem fen&oacute;menos multidimensionais e que a capacidade de utiliza&ccedil;&atilde;o de coping adaptativo durante o decurso da doen&ccedil;a, reveste-se de grande import&acirc;ncia (Moreira, 2008). </P >    <p>Embora acabe por ser um determinado stressor psicossocial agudo que precipita o comportamento autolesivo em indiv&iacute;duos j&aacute; de si vulner&aacute;veis, nestes comportamentos a perturba&ccedil;&atilde;o psiqui&aacute;trica encontra-se, de facto, normalmente exacerbada (Mann et al., 1999), constituindo-se como um dos factores de risco normalmente presentes em indiv&iacute;duos que enveredam por tal conduta (Angst, Angst, &amp; Stassen, 1999; &Aring;sberg, &Aring;berg-Wistedt, &amp; Nordin, 1995; Goss, Peterson, Smith, Kalb, &amp; Brodey, 2002; He, Felthous, Holzer, Nathan, &amp; Veasey, 2001; Malone, Haas, Sweeney, &amp; Mann, 1995; Moreira, 2008; Palmer &amp; Connelly, 2005). Se tivermos em conta que nestas institui&ccedil;&otilde;es a preval&ecirc;ncia de perturba&ccedil;&atilde;o psiqui&aacute;trica &eacute; extremamente elevada (Fazel &amp; Danesh, 2002; Falissard et al.<I>, </I>2006; Singleton, Meltzer, Gatward, Coid, &amp; Deasy, 1997) n&atilde;o ser&aacute; dif&iacute;cil relacionar tal facto com maior risco suicida ou taxas elevadas de comportamentos autolesivos nas pris&otilde;es. Por exemplo, de acordo com o estudo de Goss e colaboradores (2002) referente a tentativas de suic&iacute;dio em meio prisional, dos 124 reclusos que tentaram o suic&iacute;dio pela primeira vez enquanto reclu&iacute;dos, 77% padecia de perturba&ccedil;&atilde;o psiqui&aacute;trica. Num outro estudo, Meltzer, Jenkins, Singleton, Charlton, e Yar (2003), verificaram que, comparativamente a reclusos que n&atilde;o tenham tentado o suic&iacute;dio os reclusos que tentam o suic&iacute;dio t&ecirc;m quatro vezes mais probabilidade de terem recebido tratamento psiqui&aacute;trico no ano anterior &agrave; sua deten&ccedil;&atilde;o. Em reclusas, essa probabilidade &eacute; tr&ecirc;s vezes maior. </P >    <p>No que diz respeito ao para-suic&iacute;dio, Palmer e Connelly (2005) referem que reclusos com hist&oacute;ria de para-suic&iacute;dio t&ecirc;m mais probabilidade de evidenciar um amplo espectro de caracter&iacute;sticas e sintomatologia depressiva. Estes reclusos, comparativamente a reclusos sem hist&oacute;ria pr&eacute;via de para-suic&iacute;dio, obt&ecirc;m pontua&ccedil;&otilde;es mais elevadas na <I>Beck Hopelessness Scale</I>, no <I>Beck Depression Inventory-II </I>e no <I>Beck Scale for Suicide Ideation </I>aquando da admiss&atilde;o no estabelecimento prisional. Entre n&oacute;s, Duque e Neves (2004) verificaram que os reclusos com comportamento de auto-mutila&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m maior tend&ecirc;ncia a apresentar perturba&ccedil;&otilde;es da personalidade evitante, esquizot&iacute;pica e borderline. </P >    <p>Relativamente a estudos com reclusos que acabaram por morrer por suic&iacute;dio na pris&atilde;o, tamb&eacute;m eles s&atilde;o reveladores de um historial de perturba&ccedil;&atilde;o psiqui&aacute;trica e de abuso ou depend&ecirc;ncia de subst&acirc;ncias. Por exemplo, He e colaboradores (2001) verificaram que entre as perturba&ccedil;&otilde;es psiqui&aacute;tricas mais comuns em reclusos na situa&ccedil;&atilde;o de condenados v&iacute;timas de suic&iacute;dio, se encontravam as perturba&ccedil;&otilde;es do humor (44% antes da deten&ccedil;&atilde;o e 64% durante o encarceramento) e perturba&ccedil;&otilde;es psic&oacute;ticas (28% antes da deten&ccedil;&atilde;o e 44% durante o encarceramento). Finalmente, numa revis&atilde;o que envolveu 34 estudos (compreendendo 4780 casos de suic&iacute;dio na pris&atilde;o) Fazel, Cartwright, Norman-Nott, e Hawton (2008) encontraram que os factores de risco associados ao suic&iacute;dio prisional eram a ra&ccedil;a/etnia branca, ser do sexo masculino e casado, ser alojado em cela individual, ser preventivo e cumprir pena de pris&atilde;o perp&eacute;tua. J&aacute; nos factores de ordem cl&iacute;nica, salientava-se a idea&ccedil;&atilde;o suicida recente, hist&oacute;ria de tentativas de suic&iacute;dio, problemas de consumo de subst&acirc;ncias e ter um diagn&oacute;stico actual de perturba&ccedil;&atilde;o psiqui&aacute;trica com a consequente prescri&ccedil;&atilde;o de medica&ccedil;&atilde;o psicotr&oacute;pica. </P >    <p>Todos os estudos supramencionados, sejam eles relativos ao suic&iacute;dio, tentativa de suic&iacute;dio ou para-suic&iacute;dio, s&atilde;o reveladores da import&acirc;ncia da exacerba&ccedil;&atilde;o da perturba&ccedil;&atilde;o mental na efectiva&ccedil;&atilde;o destes comportamentos em meio prisional. Infelizmente, exceptuando a investiga&ccedil;&atilde;o de Duque e Neves (2004) entre n&oacute;s tamb&eacute;m escasseiam estudos sobre a preval&ecirc;ncia ou caracter&iacute;sticas dos problemas de sa&uacute;de mental dos reclusos portugueses, uma vez que as investiga&ccedil;&otilde;es que se conhecem t&ecirc;m ainda um car&aacute;cter muito limitado (e.g., Marques, 2007; Ribeiro &amp; Barros, 1995; Sousa, 2007) e estudos nacionais que cruzem os comportamentos suicid&aacute;rios com os problemas de sa&uacute;de mental dos reclusos, s&atilde;o quase inexistentes. </P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como tal, tendo em aten&ccedil;&atilde;o que a associa&ccedil;&atilde;o entre comportamentos suicid&aacute;rios e perturba&ccedil;&atilde;o psiqui&aacute;trica est&aacute; particularmente documentada (Angst et al., 1999; &Aring;sberg et al., 1995; Goss et al., 2002; He et al., 2001; Malone et al., 1995; Moreira, 2008; Palmer &amp; Connelly, 2005) e que a idea&ccedil;&atilde;o suicida parece ser o primeiro marcador de risco suicida (Raynolds, 1991a), este estudo tem como objectivo explorar a incid&ecirc;ncia de idea&ccedil;&atilde;o suicida e de perturba&ccedil;&atilde;o emocional em presos preventivos em dois momentos distintos da execu&ccedil;&atilde;o da pena, durante a primeira semana de reclus&atilde;o e ap&oacute;s seis meses de cumprimento da pena. Al&eacute;m disso, utilizando o ponto de corte do QIS (Raynolds, 1988), que nos permite verificar se determinado indiv&iacute;duo apresenta idea&ccedil;&atilde;o suicida, dividiu-se a amostra em dois grupos, grupo com idea&ccedil;&atilde;o suicida (CIS) e grupo sem idea&ccedil;&atilde;o suicida (SIS), procurando-se desta forma verificar se existem diferen&ccedil;as significativas ou rela&ccedil;&atilde;o de depend&ecirc;ncia entre perturba&ccedil;&atilde;o emocional e tipo de sintomatologia psicopatol&oacute;gica associada (i.e., somatiza&ccedil;&atilde;o, depress&atilde;o, hostilidade, ansiedade, ansiedade f&oacute;bica, psicoticismo, idea&ccedil;&atilde;o paran&oacute;ide, obsess&atilde;o-compuls&atilde;o e sensibilidade interpessoal) mediante o grau de idea&ccedil;&atilde;o suicida reportada em ambos os grupos. </P >    <P   align="center" >METODOLOGIA </P >    <p><I>Participantes </I></P >     <p>A amostra &eacute; constitu&iacute;da por 66 indiv&iacute;duos do sexo masculino,    maioritariamente jovens adultos com idades compreendidas entre os 23 e 40 anos    (<I>M=</I>32.48; <I>DP=</I>9.56), solteiros ou a viver em uni&atilde;o de facto,    com habilita&ccedil;&otilde;es escolares de n&iacute;vel b&aacute;sico e que    no per&iacute;odo antes da reclus&atilde;o se encontravam desempregados, a trabalhar    na constru&ccedil;&atilde;o civil ou em profiss&otilde;es que n&atilde;o exigiam    elevada qualifica&ccedil;&atilde;o. Quanto ao tipo de crime cometido, a amostra    &eacute; constitu&iacute;da maioritariamente por reclusos detidos pelo crime    de roubo ou furto e tr&aacute;fico de estupefacientes. No que se refere &agrave;    reincid&ecirc;ncia<Sup><a href="#2">2</a></Sup>, <a name="top2"></a>a amostra    fracciona-se praticamente em duas partes iguais. No Quadro 1 resumem-se os dados    relativos &agrave;s caracter&iacute;sticas sociodemogr&aacute;ficas e criminais    da amostra (Moreira, 2009, para consulta da an&aacute;lise inferencial entre    estas vari&aacute;veis e comportamentos autolesivos). </P >     <p>&nbsp;</P >     <p align="center">QUADRO 1 </P >     <p align="center"><I>Caracter&iacute;sticas sociodemogr&aacute;ficas e criminais    da amostra (N=66) </I></P >     <p align="center"><i><img src="/img/revistas/aps/v28n1/28n1a10q1.jpg" width="693" height="312"></i></P >     
<p align="center">&nbsp;</P >     <p><I>Instrumentos </I></P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><I>Question&aacute;rio de Idea&ccedil;&atilde;o Suicida (QIS) </I></P >     <p>A ocorr&ecirc;ncia de pensamentos suicidas foi avaliada pelo Question&aacute;rio    de Idea&ccedil;&atilde;o Suicida (QIS), vers&atilde;o portuguesa do <I>Suicide    Ideation Questionnaire </I>traduzida e adaptada por Ferreira e Castela (1999).    O QIS permite analisar a gravidade dos pensamentos suicidas em adolescentes    e adultos, avaliando hierarquicamente os pensamentos relativos ao suic&iacute;dio    entre pouco e muito graves. O QIS &eacute; constitu&iacute;do por 30 itens,    para os quais, s&atilde;o disponibilizadas sete alternativas de resposta que    avaliam a frequ&ecirc;ncia de ocorr&ecirc;ncia de idea&ccedil;&atilde;o suicida.    O formato de resposta oscila entre &ldquo;Nunca pensei nisto&rdquo; (0), at&eacute;    &ldquo;Quase todos os dias&rdquo; (6). Para prop&oacute;sitos de pontua&ccedil;&atilde;o,    os 30 itens s&atilde;o pontuados de 0 a 6, numa direc&ccedil;&atilde;o patol&oacute;gica,    sendo que a pontua&ccedil;&atilde;o m&aacute;xima de 180 indicia cogni&ccedil;&otilde;es    suicidas ocorrendo quase todos os dias. De acordo com Raynolds (1988) uma pontua&ccedil;&atilde;o    &ge;41 pode ser indicativo de significativa psicopatologia e de potencial risco    de suic&iacute;dio. Ao n&iacute;vel da consist&ecirc;ncia interna, os estudos    psicom&eacute;tricos efectuados na vers&atilde;o portuguesa (Ferreira &amp;    Castela, 1999) revelam um coeficiente alfa de <I>Cronbach </I>de .96 e correla&ccedil;&atilde;o    teste-reteste com intervalo de um m&ecirc;s entre as duas aplica&ccedil;&otilde;es    de .76. O QIS apresenta ainda correla&ccedil;&atilde;o positiva significativa    com o Invent&aacute;rio de Depress&atilde;o de Beck (.59, <I>p</I>&lt;.001)    e correla&ccedil;&atilde;o negativa e significativa com a Escala de Auto-estima    de Rosenberg (-.45, <I>p</I>&lt;.001). </P >     <p><I>Invent&aacute;rio de Sintomas Psicopatol&oacute;gicos (BSI) </I></P >    <p>A sintomatologia psicopatol&oacute;gica foi avaliada pelo Invent&aacute;rio de Sintomas Psicopatol&oacute;gicos, vers&atilde;o portuguesa do <I>Brief Symptom Inventory </I>(BSI; Derogatis, 1982) traduzida e adaptada por Canavarro (1999). &Eacute; um invent&aacute;rio de auto resposta com 53 itens, onde o indiv&iacute;duo dever&aacute; classificar o grau em que cada problema o afectou durante a &uacute;ltima semana, numa escala tipo <I>Likert </I>que varia entre &ldquo;Nunca&rdquo; (0) a &ldquo;Muit&iacute;ssimas vezes&rdquo; (4). O BSI avalia sintomas psicopatol&oacute;gicos em termos de nove dimens&otilde;es de sintomatologia (somatiza&ccedil;&atilde;o, obsess&atilde;o-compuls&atilde;o, sensibilidade interpessoal, depress&atilde;o, ansiedade, hostilidade, ansiedade f&oacute;bica, idea&ccedil;&atilde;o paran&oacute;ide e psicoticismo) e tr&ecirc;s &iacute;ndices globais, que constituem avalia&ccedil;&otilde;es sum&aacute;rias de perturba&ccedil;&atilde;o emocional, representando aspectos diferentes de psicopatologia (&Iacute;ndice Geral de Sintomas &ndash; IGS, Total de Sintomas Positivos &ndash; TSP e o &Iacute;ndice de Sintomas Positivos &ndash; ISP). De acordo com Canavarro um valor &ge;a 1.7 no ISP &eacute; prov&aacute;vel de ser encontrado em pessoas perturbadas emocionalmente. Os estudos psicom&eacute;tricos efectuados na vers&atilde;o Portuguesa (Canavarro, 1999) revelaram que a escala apresenta n&iacute;veis adequados de consist&ecirc;ncia interna para as nove escalas, com valores de alfa de Cronbach que variam entre .72 para psicoticismo e .85 para depress&atilde;o. </P >    <p><I>Procedimentos </I></P >    <p>Esta investiga&ccedil;&atilde;o decorreu num estabelecimento prisional (EP) central para presos masculinos da &Aacute;rea Metropolitana do Porto entre Abril e Dezembro de 2008 e para a sua implementa&ccedil;&atilde;o foi obtida autoriza&ccedil;&atilde;o por parte da Direc&ccedil;&atilde;o Geral dos Servi&ccedil;os Prisionais. </P >    <P   >T&iacute;nhamos como intuito incluir na nossa amostra todos os reclusos admitidos entre 7 de Abril e 7 de Junho de 2008 com medida de pris&atilde;o preventiva. Durante a 1&ordf; fase da investiga&ccedil;&atilde;o (7 de Abril e 7 de Junho de 2008) entraram 118 reclusos no estabelecimento prisional. O r&aacute;cio entre a totalidade de reclusos admitidos durante este per&iacute;odo de tempo e os participantes que acabaram por fazer parte da nossa amostra ap&oacute;s seis meses de reclus&atilde;o (<I>N</I>=66) pode ser explicado por: </P >    <P   ><I>Durante a 1&ordf; fase da investiga&ccedil;&atilde;o (7 de Abril e 7 de Junho de 2008) </I></P >    <P   >A participa&ccedil;&atilde;o no estudo implicava uma entrevista durante a primeira semana de reclus&atilde;o. A impossibilidade de desloca&ccedil;&atilde;o ao estabelecimento prisional sete dias por semana implicou desde logo algumas perdas, uma vez que 13 reclusos sa&iacute;ram em liberdade no mesmo dia ou nos dias seguintes &agrave; sua deten&ccedil;&atilde;o antes que fosse poss&iacute;vel convida-los a participar no estudo. Os reclusos foram seleccionados numa base volunt&aacute;ria. Neste sentido, 2 reclusos recusaram participar nesta investiga&ccedil;&atilde;o, alegadamente por n&atilde;o se sentirem capazes de responder &agrave;s perguntas dos question&aacute;rios. Um recluso de 67 anos de idade, apesar de ter aceite participar no estudo encontrava-se completamente alheado da realidade e n&atilde;o conseguiu completar os question&aacute;rios. Um dos crit&eacute;rios impl&iacute;citos &agrave; aplicabilidade dos instrumentos dizia respeito &agrave; inteligibilidade por parte dos reclusos da l&iacute;ngua portuguesa. 2 dos reclusos tinham nacionalidade estrangeira e n&atilde;o falavam portugu&ecirc;s, como tal, n&atilde;o foram inclu&iacute;dos nesta investiga&ccedil;&atilde;o. </P >    <P   ><I>Durante a 2&ordf; fase da investiga&ccedil;&atilde;o (7 de Outubro e 7 de Dezembro de 2008) </I></P >    ]]></body>
<body><![CDATA[<P   >A amostra referente &agrave; 2&ordf; fase do estudo (i.e., sensivelmente seis meses ap&oacute;s a admiss&atilde;o) contou apenas com a presen&ccedil;a de 66 reclusos dos cem pertencentes &agrave; 1&ordf; fase, uma vez que 34 reclusos da amostra inicial sa&iacute;ram em liberdade ou foram transferidos de estabelecimento prisional no per&iacute;odo de seis meses que mediou entre as duas fases do estudo. </P >    <P   >Todos os reclusos foram contactados pessoalmente pelo investigador e convidados a participar no estudo. Os participantes foram informados do prop&oacute;sito da investiga&ccedil;&atilde;o e pediu-se-lhes que assinassem um consentimento informado. Durante a 1&ordf; fase da investiga&ccedil;&atilde;o (primeira semana de reclus&atilde;o) procedeu-se &agrave; recolha de informa&ccedil;&atilde;o relativa &agrave;s caracter&iacute;sticas sociodemogr&aacute;ficas e criminais da amostra. Al&eacute;m disso, foram passados o QIS e o BSI, para avaliar, respectivamente, o risco suicida e a sintomatologia psicopatol&oacute;gica durante os primeiros sete dias de reclus&atilde;o. </P >    <p>Ap&oacute;s seis meses de cumprimento da pena foram novamente avaliados todos os reclusos que n&atilde;o sa&iacute;ram em liberdade, que n&atilde;o foram transferidos de estabelecimento prisional e que concordaram responder novamente aos question&aacute;rios. Administraram-se novamente o QIS e o BSI, que permitiram observar exacerba&ccedil;&atilde;o ou remiss&atilde;o do risco suicida e de sintomatologia psicopatol&oacute;gica ap&oacute;s esse per&iacute;odo de cumprimento de pena. </P >    <P   align="center" >RESULTADOS </P >     <p>O primeiro objectivo desta investiga&ccedil;&atilde;o passou pela avalia&ccedil;&atilde;o    das inced&ecirc;ncias de idea&ccedil;&atilde;o suicida e de perturba&ccedil;&atilde;o    emocional e tipo de psicopatologia associada entre a popula&ccedil;&atilde;o    reclusa em an&aacute;lise em dois momentos distintos da execu&ccedil;&atilde;o    da pena preventiva, durante a primeira semana de reclus&atilde;o e ap&oacute;s    seis meses de reclus&atilde;o. </P >     <p>Recorrendo-se ao Teste <I>t-student </I>para amostras emparelhadas e considerando-se    estatisticamente significativas as diferen&ccedil;as entre m&eacute;dias cujo    <I>p-value </I>seja inferior ou igual a .05, verificou-se que n&atilde;o existem    diferen&ccedil;as estatisticamente significativas [<I>t</I>(65)=.350, <I>p</I>=.728]    entre os n&iacute;veis m&eacute;dios de idea&ccedil;&atilde;o suicida observados    durante a primeira semana de reclus&atilde;o (<I>M</I>=22.20; <I>SD</I>=26.55)    e ap&oacute;s seis meses de cumprimento da pena (<I>M</I>=21.30; <I>SD</I>=28.16).    Contrariamente ao observado com os n&iacute;veis idea&ccedil;&atilde;o suicida,    constatou-se que os n&iacute;veis m&eacute;dios de perturba&ccedil;&atilde;o    emocional por participante s&atilde;o significativamente [<I>t</I>(65)=7.264,    <I>p</I>=.000] superiores durante a primeira semana de reclus&atilde;o (<I>M</I>=55.52;    <I>SD</I>=23.74) comparativamente aos observados ap&oacute;s seis meses de cumprimento    da pena (<I>M</I>=36.98; <I>SD</I>=20.13) (v. Quadro 2). </P >     <p>&nbsp;</P >     <P   align="center" >QUADRO 2 </P >     <P   align="center" ><I>M&eacute;dia e desvio padr&atilde;o das pontua&ccedil;&otilde;es do QIS e    do BSI durante a </I><I>primeira semana de reclus&atilde;o (1&ordf; fase) e    ap&oacute;s seis meses de cumprimento da pena (2&ordf; fase)</I></P >     <P   align="center" ><i><img src="/img/revistas/aps/v28n1/28n1a10q2.jpg" width="694" height="88"></i></P >     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P >     <p>No Quadro 3 encontram-se as m&eacute;dias, desvios padr&atilde;o e os resultados    do Teste <I>t-student </I>para amostras emparelhadas para &alpha;&le;.05 relativos    ao tipo de sintomas psicopatol&oacute;gicos associados &agrave; perturba&ccedil;&atilde;o    emocional e &iacute;ndices globais de perturba&ccedil;&atilde;o emocional avaliados    pelo BSI durante a primeira semana de reclus&atilde;o e ap&oacute;s seis meses    de cumprimento da pena. Iniciando a an&aacute;lise pelo final do quadro, verifica-se    desde logo que as pontua&ccedil;&otilde;es dos &iacute;ndices globais de perturba&ccedil;&atilde;o    emocional diminuem significativamente com o decorrer da execu&ccedil;&atilde;o    da pena. Entre as nove dimens&otilde;es de psicopatologia do BSI, a idea&ccedil;&atilde;o    paran&oacute;ide, a ansiedade, a hostilidade e a depress&atilde;o foram as    dimens&otilde;es que se encontraram mais exacerbadas durante a fase da admiss&atilde;o    na pris&atilde;o. Ap&oacute;s seis meses de reclus&atilde;o, exceptuando a dimens&atilde;o    sensibilidade interpessoal, todas as outras se viram significativamente diminu&iacute;das,    sendo que, entre estas quatro dimens&otilde;es de psicopatologia, a ansiedade    foi a dimens&atilde;o que mais viu as suas pontua&ccedil;&otilde;es diminu&iacute;das    comparativamente ao observado durante a primeira semana de reclus&atilde;o.  </P >     <p>&nbsp; </P >     <p align="center">QUADRO 3</P >     <p align="center"><I>M&eacute;dia, desvio padr&atilde;o e Teste t-student para    amostras emparelhadas referente aos resultados da avalia&ccedil;&atilde;o dos    sintomas psicopatol&oacute;gicos durante a primeira semana de reclus&atilde;o    (1&ordf; fase) e ap&oacute;s seis meses de cumprimento da pena (2&ordf; fase)    </I></P >     <p align="center"><img src="/img/revistas/aps/v28n1/28n1a10q3.jpg" width="694" height="267"></P >     
<p align="center">&nbsp;</P >     <p>O segundo objectivo desta investiga&ccedil;&atilde;o passou num primeiro momento por analisar o grau de associa&ccedil;&atilde;o entre perturba&ccedil;&atilde;o emocional, tipo de sintomatologia psicopatol&oacute;gica associada e idea&ccedil;&atilde;o suicida. Num segundo momento, procurou-se verificar a rela&ccedil;&atilde;o de depend&ecirc;ncia e independ&ecirc;ncia entre perturba&ccedil;&atilde;o emocional e sintomatologia psicopatol&oacute;gica associada nos reclusos com e sem idea&ccedil;&atilde;o suicida. </P >     <p>Neste sentido, procurou-se analisar a correla&ccedil;&atilde;o entre as pontua&ccedil;&otilde;es    totais do QIS e do BSI. Da an&aacute;lise correlacional, verifica-se que durante    a primeira semana de reclus&atilde;o as pontua&ccedil;&otilde;es totais de sintomatologia    psicopatol&oacute;gica dos reclusos perturbados emocionalmente correlacionam-se    positiva e significativamente com as de idea&ccedil;&atilde;o suicida (<I>R</I><Sub><I>sp</I></Sub>=.542;    <I>p=</I>.000). As dimens&otilde;es psicopatol&oacute;gicas com maior associa&ccedil;&atilde;o    positiva e estatisticamente significativas com as pontua&ccedil;&otilde;es de    idea&ccedil;&atilde;o suicida durante a primeira semana de reclus&atilde;o s&atilde;o    a depress&atilde;o, o psicoticismo, a hostilidade e a ansiedade (v. Quadro    4). </P >     <p>&nbsp;</P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center">QUADRO 4 </P >     <p align="center"><I>Correla&ccedil;&atilde;o de Rho de Spearman entre as pontua&ccedil;&otilde;es    do QIS, Dimens&otilde;es de Psicopatologia e &Iacute;ndices </I><I>Globais do    BSI durante a primeira semana de reclus&atilde;o e ap&oacute;s seis meses de    cumprimento da pena </I></P >     <P   align="center" ><img src="/img/revistas/aps/v28n1/28n1a10q4.jpg" width="693" height="266"></P >     
<P   align="center" >&nbsp;</P >     <p>Ap&oacute;s seis meses de reclus&atilde;o verifica-se aumento das correla&ccedil;&otilde;es entre as pontua&ccedil;&otilde;es totais de sintomatologia psicopatol&oacute;gica e idea&ccedil;&atilde;o suicida (<I>R</I><Sub><I>sp</I></Sub>=.770; <I>p=</I>.000). No Quadro 4 observa-se que, comparativamente &agrave; avalia&ccedil;&atilde;o efectuada na primeira semana de reclus&atilde;o, ap&oacute;s seis meses de reclus&atilde;o praticamente todas as dimens&otilde;es psicopatol&oacute;gicas e &iacute;ndices do BSI viram aumentadas as suas correla&ccedil;&otilde;es com as pontua&ccedil;&otilde;es de idea&ccedil;&atilde;o suicida. As dimens&otilde;es que mais se correlacionam com as pontua&ccedil;&otilde;es totais de idea&ccedil;&atilde;o suicida s&atilde;o a depress&atilde;o, a ansiedade, o psicoticismo e a hostilidade. </P >    <p>Ap&oacute;s an&aacute;lise de associa&ccedil;&atilde;o positiva e estatisticamente significativa entre idea&ccedil;&atilde;o suicida e perturba&ccedil;&atilde;o emocional, utilizou-se o ponto de corte do Question&aacute;rio de Idea&ccedil;&atilde;o Suicida (pontua&ccedil;&atilde;o &ge;41; Raynolds, 1988) e estratificou-se a amostra em dois grupos, grupo com idea&ccedil;&atilde;o suicida (Grupo CIS) e grupo sem idea&ccedil;&atilde;o suicida (Grupo SIS), sendo que, dos 66 reclusos que fizeram parte da investiga&ccedil;&atilde;o, 18 (27.3%) enquadram-se no Grupo CIS durante a 1&ordf; fase da investiga&ccedil;&atilde;o e 14 (21%) durante a 2&ordf; fase. </P >    <p>A observa&ccedil;&atilde;o dos Gr&aacute;ficos 1 e 2 permite-nos visualizar o tipo de sintomatologia psicopatol&oacute;gica experienciada pelos reclusos com e sem idea&ccedil;&atilde;o suicida. Assim, no Gr&aacute;fico 1 &eacute; poss&iacute;vel observar que durante a primeira semana de reclus&atilde;o o Grupo CIS apresenta pontua&ccedil;&otilde;es de sintomatologia psicopatol&oacute;gica bem mais elevadas que o Grupo SIS em todas as dimens&otilde;es psicopatol&oacute;gicas, particularmente ao n&iacute;vel da depress&atilde;o, hostilidade, psicoticismo, idea&ccedil;&atilde;o paran&oacute;ide e sensibilidade interpessoal. O Gr&aacute;fico 2 reflecte a varia&ccedil;&atilde;o da sintomatologia psicopatol&oacute;gica ap&oacute;s seis meses de reclus&atilde;o. Como &eacute; poss&iacute;vel observar, em ambos os grupos verifica-se uma diminui&ccedil;&atilde;o dos n&iacute;veis de sintomatologia psicopatol&oacute;gica, contudo, enquanto no grupo CIS os n&iacute;veis de sintomatologia psicopatol&oacute;gica apenas sofrem uma ligeira diminui&ccedil;&atilde;o, no grupo SIS essa diminui&ccedil;&atilde;o &eacute; abrupta. </P >    <p>No sentido de avaliar as diferen&ccedil;as nas pontua&ccedil;&otilde;es m&eacute;dias de perturba&ccedil;&atilde;o emocional (&Iacute;ndice de Sintomas Positivos) entre os grupos CIS e SIS durante a primeira semana de reclus&atilde;o e ap&oacute;s seis meses de cumprimento da pena utilizou-se o Teste n&atilde;o-param&eacute;trico <I>Mann-Whitney</I>. A an&aacute;lise foi efectuada para &alpha;=.05. </P >     <p>Durante a primeira semana de reclus&atilde;o constata-se que as pontua&ccedil;&otilde;es    m&eacute;dias de perturba&ccedil;&atilde;o emocional entre o grupo CIS e SIS    s&atilde;o significativamente diferentes (<I>U=</I>194.50, <I>W=</I>1370.50,    <I>p=</I>.001), com o Grupo CIS a apresentar n&iacute;veis significativamente    mais elevados de perturba&ccedil;&atilde;o emocional (<I>M=</I>2.303; <I>DP=</I>.411)    comparativamente ao Grupo SIS (<I>M=</I>1.974; <I>DP=</I>.274). Tal como durante    a primeira semana de reclus&atilde;o, ap&oacute;s seis meses de cumprimento    da pena o Grupo CIS apresenta n&iacute;veis de perturba&ccedil;&atilde;o emocional    (<I>M=</I>1.213; <I>DP=</I>.370) significativamente superiores (<I>U=</I>119.50,    <I>W=</I>1497.00, <I>p=</I>.000) comparativamente ao Grupo SIS (<I>M=</I>.568;    <I>DP=</I>.243). </P >     <p>&nbsp;</P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<P   align="center" >GR&Aacute;FICO 1 </P >     <P   align="center" ><I>Avalia&ccedil;&atilde;o dos sintomas psicopatol&oacute;gicos dos reclusos    com idea&ccedil;&atilde;o suicida (CIS) e sem idea&ccedil;&atilde;o suicida    (SIS) durante a primeira semana de reclus&atilde;o (1&ordf; fase) </I></P >     <P   align="center" ><i><img src="/img/revistas/aps/v28n1/28n1a10g1.jpg" width="697" height="366"></i></P >     
<p>&nbsp;</P >     <P   align="center" >GR&Aacute;FICO 2 </P >     <P   align="center" ><I>Avalia&ccedil;&atilde;o dos sintomas psicopatol&oacute;gicos dos reclusos    com idea&ccedil;&atilde;o suicida (CIS) e sem idea&ccedil;&atilde;o suicida    (SIS) ap&oacute;s seis meses de cumprimento da pena (2&ordf; fase) </I></P >     <P   align="center" ><i><img src="/img/revistas/aps/v28n1/28n1a10g2.jpg" width="697" height="374"></i></P >     
<P   align="center" >&nbsp;</P >     <p>Tendo por base o valor do ponto de corte do BSI (&Iacute;ndice de Sintomas Positivos &ge;1.7) para a popula&ccedil;&atilde;o portuguesa (Canavarro, 1999), na 1&ordf; fase deste estudo &eacute; poss&iacute;vel categorizar 59 (89.4%) dos 66 reclusos da amostra como perturbados emocionalmente, ou seja, demonstrando valores clinicamente significativos para sintomatologia psicopatol&oacute;gica durante a primeira semana de reclus&atilde;o. Na 2&ordf; fase verificouse uma diminui&ccedil;&atilde;o consider&aacute;vel na percentagem de indiv&iacute;duos com sintomatologia psicopatol&oacute;gica relativamente &agrave; analisada durante a primeira semana de reclus&atilde;o. Apenas 31 (47%) reclusos cotaram para perturba&ccedil;&atilde;o emocional, ou seja, verificou-se uma diminui&ccedil;&atilde;o de 42.4% entre as duas fases da investiga&ccedil;&atilde;o ao n&iacute;vel da perturba&ccedil;&atilde;o emocional. </P >     <p>Para se analisar se a incid&ecirc;ncia de idea&ccedil;&atilde;o suicida &eacute;    dependente da sintomatologia psicopatol&oacute;gica durante a primeira semana    de reclus&atilde;o e ap&oacute;s seis meses de cumprimento da pena, recorreu-se    ao teste de <I>Fisher, </I>considerando-se uma probabilidade de erro tipo I    para &alpha;=.05. Verificou-se que a sintomatologia psicopatol&oacute;gica na    primeira semana de reclus&atilde;o n&atilde;o se encontra significativamente    (<I>Fisher=</I>.176) associada com idea&ccedil;&atilde;o suicida. Dos 18 reclusos    com idea&ccedil;&atilde;o suicida (CIS), todos (100%) se encontram perturbados    emocionalmente enquanto dos 7 reclusos n&atilde;o perturbados emocionalmente    nenhum pontuou para idea&ccedil;&atilde;o suicida (v. Quadro 5). </P >     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P >     <P   align="center" >QUADRO 5 </P >     <p align="center"><I>Rela&ccedil;&atilde;o entre idea&ccedil;&atilde;o suicida    e perturba&ccedil;&atilde;o emocional durante a primeira semana de reclus&atilde;o</I></P >     <p align="center"><i><img src="/img/revistas/aps/v28n1/28n1a10q5.jpg" width="692" height="188"></i></P >     
<p>&nbsp;</P >     <p>Contrariamente ao observado na primeira semana de reclus&atilde;o, ap&oacute;s    seis meses de cumprimento da pena, a idea&ccedil;&atilde;o suicida encontra-se    claramente dependente do facto do recluso se encontrar perturbado emocionalmente    (<I>Fisher=</I>.02). Entre os 31 reclusos perturbados emocionalmente, 12 (38.7%)    pertencem ao Grupo CIS. Comparativamente, entre os 35 reclusos n&atilde;o perturbados    emocionalmente, apenas 2 (7.4%) pertencem ao Grupo CIS (Quadro 6).    <BR> </P >     <P   align="center" >QUADRO 6 </P >     <p align="center"><I>Rela&ccedil;&atilde;o entre idea&ccedil;&atilde;o suicida    e perturba&ccedil;&atilde;o emocional ap&oacute;s seis meses de cumprimento    da pena </I></P >     <p align="center"><i><img src="/img/revistas/aps/v28n1/28n1a10q6.jpg" width="694" height="187"></i></P >     
]]></body>
<body><![CDATA[<P   >&nbsp;</P >     <P   align="center" >DISCUSS&Atilde;O </P >     <p>Num primeiro momento, este estudo permitiu verificar que a conjuntura inerente    &agrave; admiss&atilde;o do recluso na pris&atilde;o obriga-o a experienciar    determinadas adversidades que exacerbam os n&iacute;veis de perturba&ccedil;&atilde;o    emocional, e que, com o tempo, esta condi&ccedil;&atilde;o tende a diminuir    significativamente. O mesmo foi igualmente verificado num outro estudo efectuado    entre n&oacute;s com 38 mulheres reclusas e que mediu as diferen&ccedil;as das    pontua&ccedil;&otilde;es obtidas no BSI &agrave; data da sua entrada na pris&atilde;o    e ap&oacute;s dois anos (em m&eacute;dia) de cumprimento de pena (cf. Sousa,    2007), bem como no estudo de Zamble e Porporino (1988). Estes dados v&atilde;o    ainda ao encontro de estudos que verificaram que a sobrecarga emocional pr&oacute;pria    da fase inicial da execu&ccedil;&atilde;o da pena se v&ecirc; esbatida &agrave;    medida que o recluso de adapta &agrave; institui&ccedil;&atilde;o prisional    e que, geralmente os reclusos retomam o seu normal funcionamento depois de reagirem    adaptativamente ao impacto da deten&ccedil;&atilde;o e &agrave; fase inicial    de reclus&atilde;o (Cooper, 1974; Elger, 2004; Gon&ccedil;alves, 2008; Reitzel    &amp; Harju, 2000; Ribeiro &amp; Barros, 1995; Zamble &amp; Porporino, 1988).    Por outro lado, verifica-se que os reclusos que experienciam idea&ccedil;&atilde;o    suicida continuam normalmente a experiencia-la ap&oacute;s seis meses de reclus&atilde;o.    Circunst&acirc;ncia provavelmente relacionada com a incapacidade destes reclusos    se adaptarem ao contexto prisional (Gon&ccedil;alves, 2002), ou ainda, com o    facto destes reclusos constitu&iacute;rem j&aacute; um grupo de elevada vulnerabilidade    mesmo em liberdade, o que querer&aacute; dizer que importam para o sistema prisional    caracter&iacute;sticas que os tornam mais predispostos a experienciar idea&ccedil;&atilde;o    suicida (Moreira, 2008). </P >     <p>Efectivamente, a divis&atilde;o da amostra em dois grupos, permitiu constatar que os reclusos que experienciam maior idea&ccedil;&atilde;o suicida s&atilde;o os que continuam perturbados emocionalmente ap&oacute;s seis meses de reclus&atilde;o e que os reclusos com n&iacute;veis baixos de idea&ccedil;&atilde;o suicida deixam de se encontrar perturbados e conseguem retomar o seu normal funcionamento, facto que, &agrave; semelhan&ccedil;a de outros estudos, deixa transparecer que a perturba&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica n&atilde;o seja o &uacute;nico factor de risco a concorrer para a idea&ccedil;&atilde;o suicida (Mann et al., 1999; Sher, Oquendo, &amp; Mann, 2001). Dee facto, &eacute; poss&iacute;vel verificar que no Grupo CIS a diminui&ccedil;&atilde;o da perturba&ccedil;&atilde;o emocional &eacute; diminuta, enquanto no Grupo SIS &eacute; extremamente elevada. Ou seja, o Grupo CIS apresenta n&iacute;veis de perturba&ccedil;&atilde;o emocional relativamente est&aacute;veis no tempo apresentando elevada sintomatologia depressiva, paran&oacute;ide, hostil e psic&oacute;tica. Tal como sugere Moreira (2008), s&atilde;o indiv&iacute;duos que na sua maioria entram perturbados na pris&atilde;o e assim continuam ao longo da execu&ccedil;&atilde;o da pena. Por outro lado, o Grupo SIS demonstra capacidade de resili&ecirc;ncia, capacidade de utiliza&ccedil;&atilde;o de <I>coping </I>adaptativo, retomando aos poucos o seu normal estado de funcionamento com o grau de perturba&ccedil;&atilde;o emocional na sua generalidade e a depress&atilde;o, a ansiedade, o psicoticismo e a hostilidade em particular a diminu&iacute;rem consideravelmente. Tais dados v&atilde;o ao encontro dos estudos que observaram maior grau de idea&ccedil;&atilde;o suicida em quadros psiqui&aacute;tricos (Goss et al., 2002; He et al., 2001; Meltzer et al., 2003; Palmer &amp; Connelly, 2005), bem como do facto de as perturba&ccedil;&otilde;es psiqui&aacute;tricas constitu&iacute;rem um dos factores de risco para o suic&iacute;dio mais importantes na popula&ccedil;&atilde;o reclu&iacute;da (e.g., Fazel et al., 2008). Al&eacute;m disso, o tipo de sintomatologia psicopatol&oacute;gica observada no Grupo CIS tem sido frequentemente abordada na literatura como intimamente associada a comportamentos autolesivos, mais propriamente a sintomatologia depressiva (Biggam &amp; Power, 1999; Bonner 2006; Cooper &amp; Berwick, 2001; Dieserud, Roysamb, Ekeberg, &amp; Craft, 2001; Hawton &amp; Catalan, 1987; Wichmann, Serin, &amp; Motiuk, 2000), ansiosa (Cooper &amp; Berwick, 2001; Miller, 1994), psic&oacute;tica (Hawton &amp; Catalan, 1987) e hostil (Apter et al.<I>, </I>1991, 1995; Miller, 1994). </P >    <p>Por fim, &eacute; leg&iacute;timo referirem-se algumas limita&ccedil;&otilde;es nesta investiga&ccedil;&atilde;o. Desde logo, o aspecto metodol&oacute;gico referente &agrave; utiliza&ccedil;&atilde;o do Question&aacute;rio de Idea&ccedil;&atilde;o Suicida, que apenas se encontra aferido para a popula&ccedil;&atilde;o jovem adulta portuguesa (e.g., Ferreira &amp; Castela, 1999). Ora, como a m&eacute;dia de idades do presente estudo se cifra nos 33 anos, a validade das compara&ccedil;&otilde;es deve ser ponderada, embora a vers&atilde;o para adultos, o <I>Adult Suicidal Ideation Questionnaire </I>(ASIQ; Raynolds, 1991b) consista exactamente no mesmo question&aacute;rio ao qual foram retirados cinco itens. Como tal, teremos que esperar por uma adapta&ccedil;&atilde;o portuguesa da vers&atilde;o para adultos para ultrapassar este obst&aacute;culo. </P >    <p>No que concerne &agrave; generaliza&ccedil;&atilde;o dos resultados &agrave; restante popula&ccedil;&atilde;o reclusa, n&atilde;o nos esque&ccedil;amos que os estabelecimentos prisionais demonstram alguma heterogeneidade quanto &agrave; popula&ccedil;&atilde;o reclusa e aos stressores associados a cada tipo de estabelecimento prisional. O presente estudo foi levado a cabo num estabelecimento central para presos preventivos masculinos, do norte do pa&iacute;s. Como tal, os dados deste estudo devem ser cuidadosamente generalizados aos presos preventivos em cadeias regionais, que s&atilde;o estabelecimentos prisionais com poucos reclusos e onde os stressores poder&atilde;o ter efeitos menos nefastos. Por outro lado, a popula&ccedil;&atilde;o de presos preventivos de outras &aacute;reas do pa&iacute;s, contam nos seus efectivos com elevada popula&ccedil;&atilde;o prisional estrangeira, mais propriamente indiv&iacute;duos de etnia negra provenientes dos PALOPs, o que pressup&otilde;e tamb&eacute;m uma aprecia&ccedil;&atilde;o cuidada. Finalmente, a generaliza&ccedil;&atilde;o dos resultados a presos condenados deve ser cuidada, devendo-se ter em conta que estes estabelecimentos prisionais n&atilde;o encerram os mesmos tipos de stressores que uma pris&atilde;o para presos preventivos (e.g., Johnson &amp; Toch, 1982). </P >    <p>Alguns dos problemas referidos poder&atilde;o ser ultrapassados noutras investiga&ccedil;&otilde;es que contemplem amostras maiores e mais diversificadas, sendo que os dados obtidos por Sousa (2007) demonstram que o universo da reclus&atilde;o feminina dever&aacute; ser igualmente tido em conta dadas as suas particularidades. Al&eacute;m disso, tendo em conta que a popula&ccedil;&atilde;o reclusa n&atilde;o apresenta um risco uniforme, ser&aacute; fundamental ter em conta diferentes tipos de estabelecimentos prisionais bem como a preval&ecirc;ncia do abuso de subst&acirc;ncias e de perturba&ccedil;&otilde;es da personalidade do tipo anti-social, psicop&aacute;tico ou <I>borderline</I>, j&aacute; que todos estes elementos surgem associados &agrave; tipologia dos percursos adaptativos dos reclusos (e.g., Gon&ccedil;alves, 2008). Portanto, em futuros estudos seria interessante desenvolverem-se desenhos prospectivos com prazos de investiga&ccedil;&atilde;o alargados que permitam a identifica&ccedil;&atilde;o das caracter&iacute;sticas da personalidade dos reclusos em risco suicida. De qualquer forma, entendemos que o presente estudo contribuiu para o aumento do conhecimento emp&iacute;rico sobre o fen&oacute;meno suicid&aacute;rio em meio prisional portugu&ecirc;s, refor&ccedil;ando a necessidade de, cada vez mais, se proceder a avalia&ccedil;&otilde;es precoces para despiste dos reclusos mais problem&aacute;ticos (e.g., Moreira, 2009). </P >    <P   align="center" >CONCLUS&Atilde;O </P >     <p>O estudo apresentado, tendo um car&aacute;cter explorat&oacute;rio, logra obter    contudo alguns dados interessantes e que abrem caminho a futuras investiga&ccedil;&otilde;es.    Assim, de um lado verifica-se que a entrada para a pris&atilde;o constitui um    momento de &ldquo;choque&rdquo; para muitos indiv&iacute;duos e que, pelo facto    de muitos deles evidenciarem vulnerabilidades psicol&oacute;gicas significativas,    a idea&ccedil;&atilde;o suicida aparece como uma &ldquo;estrat&eacute;gia adaptativa&rdquo;    &ndash; ainda que paradoxal &ndash; ao cumprimento da pena, que permanece ao    longo do tempo de reclus&atilde;o. Por outro lado, e tendo em conta que uma    parte significativa da amostra deixa de evidenciar sintomatologia psicopatol&oacute;gica    ap&oacute;s seis meses de execu&ccedil;&atilde;o da pena, &eacute; l&iacute;cito    pensar que n&atilde;o s&oacute; tais reclusos poder&atilde;o ser portadores    de factores protectivos que aumentem a sua resili&ecirc;ncia, como tamb&eacute;m    se pode alvitrar que a pris&atilde;o enquanto institui&ccedil;&atilde;o normativa    e prestadora de cuidados, pode ter contribu&iacute;do para uma maior estrutura&ccedil;&atilde;o    apaziguando, aos poucos, o seu sofrimento psicol&oacute;gico. Em todo o caso,    a idea&ccedil;&atilde;o suicida surge fortemente associada &agrave; perturba&ccedil;&atilde;o    mental, mas dada a &ldquo;evolu&ccedil;&atilde;o&rdquo; da amostra ao longo    do cumprimento da pena, podemos considerar que haviam dois grupos &agrave; partida.    Um em que as duas condi&ccedil;&otilde;es j&aacute; apareciam associadas e que    portanto ser&atilde;o &ldquo;pr&eacute;-existentes&rdquo; &agrave; reclus&atilde;o,    e um outro em que as duas condi&ccedil;&otilde;es parecem se ter encontrado    na pris&atilde;o &ndash; pelo menos nos momentos iniciais do cumprimento da    pena &ndash; um &ldquo;terreno f&eacute;rtil&rdquo; para interagirem. Assim,    &eacute; poss&iacute;vel que possamos reeditar aqui, mais uma vez, a diferencia&ccedil;&atilde;o    entre uma explica&ccedil;&atilde;o disposicional para o primeiro caso e situacional    para o segundo. Por isso, e a exemplo do estudo cl&aacute;ssico de Zamble e    Porporino (1988), que refor&ccedil;a a necessidade de se proceder a investiga&ccedil;&otilde;es    de car&aacute;cter longitudinal para melhor cernir os processos adaptativos    dos reclusos, tamb&eacute;m aqui nos parece que avaliar os reclusos em tr&ecirc;s    momentos distintos (durante a entrada na pris&atilde;o, at&eacute; &agrave;    condena&ccedil;&atilde;o e depois da condena&ccedil;&atilde;o), poder&aacute;    fornecer uma resposta mais adequada para as diferen&ccedil;as de resultados    que obtivemos. </P >     <p>&nbsp;</P >     ]]></body>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Auto-mutilação em meio prisional: Avaliação das perturbações da personalidade]]></article-title>
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