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<journal-title><![CDATA[Análise Psicológica]]></journal-title>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Transição para a idade adulta: Das condições sociais às implicações psicológicas]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade do Porto Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação Centro de Psicologia Diferencial]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[During the last decades major social changes have introduced some special features into the transition to adulthood. On one hand the transition to adulthood tends to occur in later ages. On the other hand it involves a set of particular specificities that allows it to be considered as a developmental phase - emerging adulthood. This paper explores how social constrains act in the transition to adulthood, taking into account the international and national context. It intends to give a global overview about the challenges and opportunities that emerging adulthood provides to young adults.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p ><b>Transi&ccedil;&atilde;o para a idade adulta: Das condi&ccedil;&otilde;es        sociais &agrave;s implica&ccedil;&otilde;es psicol&oacute;gicas</b></p>      <p >Cl&aacute;udia Andrade <sup><a name="topc1"></a>(<a href="#c1">*</a>)</sup></p>      <p >&nbsp;</p>        <p >RESUMO </p>      <p >Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas assistiu-se a um conjunto de altera&ccedil;&otilde;es sociais que exercem influ&ecirc;ncia sobre os modos como a transi&ccedil;&atilde;o para a idade adulta &eacute; efectuada. Se por um lado se perspectiva um per&iacute;odo de transi&ccedil;&atilde;o cada vez mais extenso, por outro lado este envolve um conjunto de caracter&iacute;sticas pr&oacute;prias, adquirindo o estatuto de etapa desenvolvimental &#8211; a adultez emergente. O presente artigo explora o modo como as condi&ccedil;&otilde;es sociais se repercutem na transi&ccedil;&atilde;o para a idade adulta, no contexto internacional e, em particular, para o contexto Portugu&ecirc;s. Pretende tamb&eacute;m reflectir sobre o conceito de adultez emergente do ponto de vista dos desafios e das oportunidades que esta encerra para os jovens. </p>      <p ><i>Palavras-chave: </i>Adultez emergente, Desenvolvimento psicol&oacute;gico, Transi&ccedil;&atilde;o para a idade adulta. </p>      <p >&nbsp;</p>      <p >ABSTRACT </p>      <p >During the last decades major social changes have introduced some special features into the transition to adulthood. On one hand the transition to adulthood tends to occur in later ages. On the other hand it involves a set of particular specificities that allows it to be considered as a developmental phase &#8211; emerging adulthood. This paper explores how social constrains act in the transition to adulthood, taking into account the international and national context. It intends to give a global overview about the challenges and opportunities that emerging adulthood provides to young adults. </p>      <p ><i>Key-words: </i>Emergent adulthood, Psychological development, Transition to adulthood. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p >INTRODU&Ccedil;&Atilde;O</p>        <p >Na fase do ciclo vital que corresponde &agrave; passagem da adolesc&ecirc;ncia para a idade adulta, ocorrem transi&ccedil;&otilde;es traduzidas no desenvolvimento, realiza&ccedil;&atilde;o e consolida&ccedil;&atilde;o da identidade pessoal e social do sujeito, que culminar&atilde;o com a aquisi&ccedil;&atilde;o do estatuto social de adulto. Este &uacute;ltimo &eacute; sustentado pelo alcance de uma posi&ccedil;&atilde;o social decorrente do desempenho de pap&eacute;is profissionais e familiares, que simultaneamente assinalam o final da juventude e caracterizam a idade adulta. </p>      <p >Contudo, se classicamente, &#8220;ser adulto&#8221; era definido pelo exerc&iacute;cio de uma actividade profissional e pela constitui&ccedil;&atilde;o de uma fam&iacute;lia, as mudan&ccedil;as sociais actuais d&atilde;o novos contornos tanto &agrave; transi&ccedil;&atilde;o para a idade adulta, como ao assumir dos pap&eacute;is de adulto por parte dos jovens. Por um lado, surge o prolongamento dos estudos e uma marcada instabilidade profissional que dificulta a inser&ccedil;&atilde;o dos jovens no mercado de trabalho. Por outro lado, os processos de emancipa&ccedil;&atilde;o residencial em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; fam&iacute;lia de origem tendem a ocorrer mais tardiamente em termos et&aacute;rios, o que se repercute na idade para a constitui&ccedil;&atilde;o de uma fam&iacute;lia pr&oacute;pria. O papel parental parece, assim, tamb&eacute;m ser adiado. </p>      <p >De um modo geral, as mudan&ccedil;as sociais colocam novos desafios ao modo como os jovens vivem a transi&ccedil;&atilde;o para a idade adulta fazendo surgir uma nova figura de adulto &#8220;em transi&ccedil;&atilde;o&#8221;, o chamado adulto emergente. </p>      <p >&nbsp;</p>        <p >O PROLONGAMENTO DOS ESTUDOS E AS DIFICULDADES DE INSER&Ccedil;&Atilde;O PROFISSIONAL</p>        <p >Um dos aspectos que mais tem sido destacado na literatura sobre as novas configura&ccedil;&otilde;es de transi&ccedil;&atilde;o para a vida adulta est&aacute; relacionado com os investimentos prolongados dos jovens na forma&ccedil;&atilde;o escolar, originados pelo desenvolvimento do mercado de trabalho. De um modo geral, pode constatar-se, atrav&eacute;s dos indicadores sociol&oacute;gicos, que a melhoria generalizada das condi&ccedil;&otilde;es de vida e a modifica&ccedil;&atilde;o progressiva dos padr&otilde;es culturais do pa&iacute;s, associados &agrave; integra&ccedil;&atilde;o na Uni&atilde;o Europeia se, traduziram tanto no incremento dos n&iacute;veis de forma&ccedil;&atilde;o escolar, como na amplia&ccedil;&atilde;o das expectativas de realiza&ccedil;&atilde;o profissional que lhe est&atilde;o associadas. Os jovens s&atilde;o, assim, incentivados a investir na educa&ccedil;&atilde;o, a prosseguir os seus projectos vocacionais com vista &agrave; aquisi&ccedil;&atilde;o futura de uma profiss&atilde;o, que lhes possibilitar&aacute; n&atilde;o s&oacute; a realiza&ccedil;&atilde;o pessoal, como a obten&ccedil;&atilde;o de autonomia econ&oacute;mica. Isto implica, por si s&oacute;, que a entrada no mercado de trabalho se fa&ccedil;a mais tardiamente. Al&eacute;m disso, as modifica&ccedil;&otilde;es no mercado de trabalho vieram tamb&eacute;m introduzir altera&ccedil;&otilde;es no tradicional processo de continuidade entre estudos e inser&ccedil;&atilde;o profissional. A outrora previs&iacute;vel sequ&ecirc;ncia de <i>terminus </i>dos estudos e posterior integra&ccedil;&atilde;o na vida activa v&ecirc;-se hoje abalada por desajustamentos e fracturas, consequ&ecirc;ncia sobretudo da instabilidade laboral. Geram-se, assim, percursos de transi&ccedil;&atilde;o para a vida activa mais diversificados, que evidenciam as transforma&ccedil;&otilde;es do sistema educativo e do mundo laboral como, por exemplo, op&ccedil;&otilde;es de forma&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o eram inicialmente desejadas pelos jovens ou dificuldades de encontrar um emprego compat&iacute;vel com a forma&ccedil;&atilde;o adquirida (Elejabeitia, 1997). Estas altera&ccedil;&otilde;es afectam todos os jovens e, particularmente, os jovens licenciados, para os quais frequentemente as expectativas associadas ao investimento na forma&ccedil;&atilde;o acad&eacute;mica n&atilde;o t&ecirc;m correspond&ecirc;ncia no mercado de trabalho, tanto em termos de estabilidade de emprego, como em termos de estatuto profissional (Elejabeitia, 1997). Apesar destas dificuldades, &eacute; cada vez maior o n&uacute;mero de jovens de ambos os sexos que prossegue estudos universit&aacute;rios. </p>      <p >A par desta tend&ecirc;ncia generalizada, denota-se ainda a exist&ecirc;ncia de algumas especificidades para os designados pa&iacute;ses do Sul da Europa, nos quais Portugal se inscreve. Estes tendem a apresentar percursos escolares extensos, durante os quais a maioria dos jovens est&aacute; totalmente afastada do mercado de trabalho, contribuindo assim para o prolongamento do referido estatuto social de &#8220;n&atilde;o produtivo&#8221; (Cavalli, 1997). Para esta realidade, contribuem factores de natureza sociol&oacute;gica e cultural. Por contraste, no contexto norte-americano, o n&uacute;mero de jovens a trabalhar em tempo parcial enquanto estudam &eacute; elevado. Contudo, os estudos indicam que estes o fazem para ter mais recursos econ&oacute;micos a fim de usufruir de actividades de lazer. Assim, na maioria dos casos estas actividades profissionais, n&atilde;o implicam o desenvolvimento de compet&ecirc;ncias que possam ser transferidas para futuras actividades profissionais (Greenberger, Steinberg, Vaux, &amp; McAuliffe, 1980). Apesar disto, mais tarde torna-se mais frequente o jovem procurar actividades que proporcionem experi&ecirc;ncias pessoais, como actividades de voluntariado ou actividades mais pr&oacute;ximas daquelas que gostariam de vir a desempenhar no futuro, como, por exemplo, a realiza&ccedil;&atilde;o de est&aacute;gios. </p>        <p >De acordo com Arnett (2000), &agrave;s vezes experi&ecirc;ncias profissionais em jovens adultos servem tamb&eacute;m para identificar &aacute;reas e actividades para as quais estes jovens se sentem ou n&atilde;o vocacionados. Reportando-se ao contexto social europeu, algumas diferen&ccedil;as tendem a surgir. Cavalli (1997) refere que muitas vezes os estudantes preferem institui&ccedil;&otilde;es de educa&ccedil;&atilde;o/ /forma&ccedil;&atilde;o perto da resid&ecirc;ncia dos seus pais, o que lhes permite evitar o confronto com custos de vida elevados, que os levariam, com maior probabilidade, a ter de se inserir, mesmo que temporariamente, no mercado de trabalho. Deste modo, est&atilde;o tamb&eacute;m mais apoiados e incentivados para prosseguir a sua forma&ccedil;&atilde;o por per&iacute;odos cada vez mais longos. Paralelamente, o estatuto de estudante &eacute; socialmente encarado como uma actividade &agrave; qual o jovem se deve dedicar &#8220;a tempo inteiro&#8221;, contribuindo a fam&iacute;lia de origem para que tal seja poss&iacute;vel. A par deste processo, a escassez de oportunidades, em determinados pa&iacute;ses, para os jovens terem experi&ecirc;ncias profissionais como, por exemplo, programas de emprego a tempo parcial que fomentem o desenvolvimento de compet&ecirc;ncias profissionais, contribui tamb&eacute;m para a dificuldade em abandonar este estatuto de estudante &#8220;a tempo inteiro&#8221; (Cavalli, 1997). </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >Outro aspecto documentado por Cavalli (1997) diz respeito ao facto de grande parte dos jovens ingressarem no mercado de trabalho ap&oacute;s um per&iacute;odo relativamente longo de emprego prec&aacute;rio ou de desemprego. A estabilidade no mercado de trabalho s&oacute; &eacute; alcan&ccedil;ada progressivamente e tardiamente em termos et&aacute;rios (Cavalli, 1997; Arnett, 2001). A esta realidade acresce ainda a necessidade de realiza&ccedil;&atilde;o pessoal atrav&eacute;s do trabalho. De acordo com Arnett e Tanner (2006) o trabalho &eacute; hoje visto pelos jovens n&atilde;o apenas como uma tarefa que lhes deve permitir a autonomia econ&oacute;mica, mas tamb&eacute;m como um lugar de realiza&ccedil;&atilde;o pessoal. Esta vis&atilde;o do trabalho pode tamb&eacute;m, de algum modo, exigir um per&iacute;odo mais longo de &#8220;ajustamento&#8221; ao mercado de trabalho, ou seja, pode ser necess&aacute;rio mudar algumas vezes de trabalho, ou mesmo de profiss&atilde;o, at&eacute; se encontrar uma actividade considerada gratificante (Arnett &amp; Tanner, 2006). </p>        <p >Em resumo, existe algum consenso nos estudos, tanto no contexto norte-americano como no contexto europeu, quanto &agrave; individualiza&ccedil;&atilde;o dos percursos de transi&ccedil;&atilde;o entre o sistema de ensino e o mercado de trabalho para os jovens, que envolvem muitas incertezas (Arnett &amp; Tanner 2006; Cavalli, 1997; Elejabeitia, 1997). Para esta realidade contribuem, por certo, factores de natureza cultural, onde o incentivo para o prosseguimento de estudos e a manuten&ccedil;&atilde;o do estatuto de estudante &#8220;a tempo inteiro&#8221;, suportado pela fam&iacute;lia de origem, mant&ecirc;m os jovens afastados do mercado de trabalho por per&iacute;odos cada vez mais longos. Paralelamente, as dificuldades do mercado de emprego tamb&eacute;m contribuem para a necessidade de investimento em forma&ccedil;&atilde;o cada vez mais extensa, pr&eacute;via ao ingresso no mercado de trabalho. No seu conjunto, estes factores contribuem para percursos de inser&ccedil;&atilde;o profissional tardios, onde as altera&ccedil;&otilde;es nos projectos profissionais e de carreira, assim como a altern&acirc;ncia entre per&iacute;odos de emprego e desemprego, tamb&eacute;m tendem a surgir. Para esta realidade, contribui ainda a valoriza&ccedil;&atilde;o do trabalho enquanto fonte de realiza&ccedil;&atilde;o pessoal. Deste modo, os jovens est&atilde;o mais dispon&iacute;veis para procurarem empregos n&atilde;o s&oacute; que se aproximem da sua forma&ccedil;&atilde;o, como aqueles que lhes proporcionarem realiza&ccedil;&atilde;o pessoal. Esta busca contribui, de forma activa, para a exist&ecirc;ncia de percursos de ajustamento ao mercado de trabalho, mais extensos e irregulares, em termos do exerc&iacute;cio permanente de uma profiss&atilde;o. </p>      <p >&nbsp;</p>        <p >DEPEND&Ecirc;NCIAS EM RELA&Ccedil;&Atilde;O &Agrave; FAM&Iacute;LIA: ECON&Oacute;MICA, RESIDENCIAL E EMOCIONAL </p>        <p >As transforma&ccedil;&otilde;es estruturais dos sistemas de ensino e de forma&ccedil;&atilde;o e do mundo do trabalho induzem tamb&eacute;m a per&iacute;odos mais longos de coabita&ccedil;&atilde;o entre pais e filhos adultos (Cordon, 1997; Rossi, 1997), facilitados por mudan&ccedil;as culturais, que permitem, hoje em dia, aos jovens optar pela &#8220;coabita&ccedil;&atilde;o entre gera&ccedil;&otilde;es&#8221; (Rossi, 1997). Apesar desta ser uma realidade socialmente vari&aacute;vel, vimos que, para os pa&iacute;ses do Sul da Europa, o prolongamento da educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o levou os jovens a sair de casa para frequentar o ensino superior. Pelo contr&aacute;rio, a descentraliza&ccedil;&atilde;o e o alastramento das institui&ccedil;&otilde;es de forma&ccedil;&atilde;o permitiu a perman&ecirc;ncia dos jovens em casa dos pais, enquanto realizam a sua forma&ccedil;&atilde;o (Rossi, 1997). Quando o jovem se desloca para prosseguir os seus estudos noutra cidade ou regi&atilde;o, a situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se modifica substancialmente, na medida em que o afastamento da habita&ccedil;&atilde;o parental &eacute; tempor&aacute;rio. </p>      <p >Nesta linha, Tang (1997) efectuou um estudo que versou a tem&aacute;tica da sa&iacute;da de casa dos pais como factor de aquisi&ccedil;&atilde;o da independ&ecirc;ncia social face &agrave; fam&iacute;lia de origem. O autor utilizou o crit&eacute;rio et&aacute;rio, para comparar jovens que sa&iacute;ram de casa cedo (antes dos 17 anos), &#8220;na altura certa&#8221; (&#8220;on-time&#8221; no original), ou seja, entre os 18 e os 24 anos, e tardiamente, entre os 25 e os 30 anos. Verificou que, no que se refere aos jovens que sa&iacute;ram cedo de casa, as principais determinantes para essa sa&iacute;da estiveram associados a composi&ccedil;&otilde;es familiares que envolviam situa&ccedil;&otilde;es de recasamento ou de adop&ccedil;&atilde;o, parecendo que tais situa&ccedil;&otilde;es promovem a sa&iacute;da de casa dos jovens ou a redu&ccedil;&atilde;o do apoio socio-econ&oacute;mico que lhes &eacute; concedido (Tang, 1997). </p>      <p >Quanto aos jovens que saem na &#8220;altura certa&#8221;, o cumprimento do    servi&ccedil;o militar, a constitui&ccedil;&atilde;o de sua pr&oacute;pria fam&iacute;lia    e a ruptura no casamento dos progenitores parecem ser os factores com maior    influ&ecirc;ncia. J&aacute; para os jovens que sa&iacute;ram de casa mais tarde,    a idade apresenta-se como o principal desencadeador da sa&iacute;da. Neste estudo,    destaca-se que factores externos &agrave; din&acirc;mica familiar, como o prosseguimento    de estudos ou a inser&ccedil;&atilde;o no mercado laboral, numa &aacute;rea    geogr&aacute;fica diferente da de resid&ecirc;ncia da fam&iacute;lia de origem,    nunca surgem como factores decisivos para a sa&iacute;da de casa dos pais. Importante    &eacute; ainda o facto de que, para o grupo dos jovens que saem tarde, o factor    idade ser o mais referenciado, e n&atilde;o qualquer outro como, por exemplo,    o desejo de ser independente ou de constituir uma fam&iacute;lia. De facto,    este &uacute;ltimo grupo personifica o fen&oacute;meno de perman&ecirc;ncia    prolongada em casa dos pais, que parece definir uma nova categoria social de    jovens adultos (Cordon, 1997; Rossi, 1997; Tang, 1997). </p>      <p >Esta situa&ccedil;&atilde;o de coabita&ccedil;&atilde;o, encarada como fruto de circunst&acirc;ncias sociais, n&atilde;o &eacute; alvo de &#8220;penaliza&ccedil;&atilde;o social&#8221;, para o jovem adulto, sobretudo para as culturas da Europa do Sul. Num estudo efectuado sobre as diferen&ccedil;as culturais entre estes pa&iacute;ses e os chamados pa&iacute;ses da Europa do Norte, verificou-se que, apesar do desemprego ou do emprego prec&aacute;rio, os jovens nos pa&iacute;ses da Europa do Norte mant&ecirc;m a independ&ecirc;ncia residencial, enquanto que o oposto se verifica nos pa&iacute;ses do Sul da Europa, onde a fam&iacute;lia partilha a sua resid&ecirc;ncia com os filhos. </p>      <p >Mesmo assim, as dificuldades de emprego constituem um outro factor importante para o prolongamento da coabita&ccedil;&atilde;o. Nos pa&iacute;ses europeus que partilham problemas de desemprego ou emprego prec&aacute;rio, observa-se um aumento da depend&ecirc;ncia residencial dos jovens, relativa &agrave; fam&iacute;lia de origem (Cordon, 1997). Apesar deste estudo n&atilde;o ter inclu&iacute;do dados relativos a Portugal, pensamos que, no nosso pa&iacute;s, a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; muito semelhante &agrave; dos outros pa&iacute;ses da Europa do Sul. Rossi (1997) indica que os jovens preferem optar pelo estatuto e pelo bem-estar que a resid&ecirc;ncia familiar lhes proporciona, em detrimento da autonomia, uma vez que, na maioria dos casos, o seu n&iacute;vel de vida fora de casa dos pais tenderia a ser consideravelmente inferior. De facto, tanto os pais como os filhos adultos sentem-se confort&aacute;veis num processo onde aqueles concordam em apoiar residencialmente os filhos, at&eacute; que estes consigam atingir a independ&ecirc;ncia econ&oacute;mica que lhes permita uma vida aut&oacute;noma. Deste modo, tamb&eacute;m a pr&oacute;pria fam&iacute;lia de origem n&atilde;o assume um papel de incentivo para o abandono do lar familiar e para a aquisi&ccedil;&atilde;o da autonomia econ&oacute;mica. </p>        <p >Um dos aspectos menos positivos da depend&ecirc;ncia residencial &eacute;, de acordo com Arnett (2000), o facto desta proporcionar aos estudantes universit&aacute;rios percursos educacionais muitas vezes demasiado extensos e inst&aacute;veis, mudando de curso com alguma frequ&ecirc;ncia ou deixando de estudar e retomando os estudos mais tarde. Esta situa&ccedil;&atilde;o pode, na opini&atilde;o do autor, implicar um processo de explora&ccedil;&atilde;o demasiado livre e mesmo &#8220;intermin&aacute;vel&#8221;, dado que n&atilde;o apresenta qualquer custo para o jovem, retardando assim a defini&ccedil;&atilde;o do seu percurso acad&eacute;mico, profissional e mesmo pessoal (Arnett, 2000). </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >No contexto nacional pensamos que existem, contudo, algumas diferen&ccedil;as. Apesar da independ&ecirc;ncia residencial ser muito pouco frequente durante o ensino universit&aacute;rio, porque a maioria dos estudantes n&atilde;o exerce nenhuma actividade profissional que o permita, tamb&eacute;m as interrup&ccedil;&otilde;es dos estudos n&atilde;o s&atilde;o muito frequentes. Mesmo que essa independ&ecirc;ncia se verifique quando os jovens estudam em localidades distantes da resid&ecirc;ncia dos pais, n&atilde;o se pode esquecer que ela serve apenas essa finalidade e que os jovens regressam a casa dos pais durante as f&eacute;rias escolares ou quando terminam os seus estudos superiores. </p>      <p >Neste quadro, Cavalli (1997) considera que a depend&ecirc;ncia residencial dos jovens reflecte uma escolha racional por parte destes e recorda que a melhoria generalizada das condi&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas, particularmente da classe m&eacute;dia, consequ&ecirc;ncia da moderniza&ccedil;&atilde;o, repercute-se ao n&iacute;vel das condi&ccedil;&otilde;es habitacionais. Nesta classe social, os jovens t&ecirc;m frequentemente, no lar dos seus progenitores, um espa&ccedil;o pr&oacute;prio, muitas vezes personalizado ao seu gosto, onde a vinda de colegas e amigos se efectua sem criar tens&otilde;es. Assim, podem beneficiar de uma &#8220;semi-autonomia&#8221; residencial, na medida em que t&ecirc;m um espa&ccedil;o que &eacute; considerado como seu, mas que n&atilde;o necessitam de suportar do ponto de vista econ&oacute;mico. </p>        <p >Apesar de, no contexto norte-americano, a idade mais frequente de deixar a casa dos pais seja os 18/19 anos, a independ&ecirc;ncia residencial &eacute; tamb&eacute;m muitas vezes efectuada de acordo com este estatuto de &#8220;semi-autonomia&#8221;, na medida em que tem um car&aacute;cter tempor&aacute;rio, ou seja, ocorre durante os estudos ou para viver uma rela&ccedil;&atilde;o afectiva. Mesmo no contexto norteamericano, os jovens que ingressam no ensino superior tendem a depender de bolsas de estudos e das suas actividades profissionais em tempo parcial, e tamb&eacute;m mant&ecirc;m, na maioria dos casos, o apoio econ&oacute;mico dos seus pais (Furstenberg, Kennedy, McCloyd, Rumbaut, &amp; Settersten, 2003). No entanto, uma vez terminados os estudos ou ap&oacute;s experi&ecirc;ncias mal sucedidas ao n&iacute;vel afectivo, tendem a regressar a casa dos pais. Este regresso pode ainda ser provocado por experi&ecirc;ncias de desemprego, emprego prec&aacute;rio ou sub-emprego que impedem a manuten&ccedil;&atilde;o da resid&ecirc;ncia (Arnett, 2000). Estas flutua&ccedil;&otilde;es ao n&iacute;vel da independ&ecirc;ncia/depend&ecirc;ncia residencial reflectem tamb&eacute;m instabilidades decorrentes da explora&ccedil;&atilde;o e experimenta&ccedil;&atilde;o ao n&iacute;vel educacional e at&eacute; profissional. Uma vez conclu&iacute;dos os estudos, face &agrave;s dificuldades do mercado de trabalho e &agrave; escassez de apoios sociais, os jovens acabam por perpetuar a sua depend&ecirc;ncia econ&oacute;mica face aos pais, uma vez que a sua actividade profissional n&atilde;o lhes permite ter uma vida economicamente independente. Assim, a sua depend&ecirc;ncia &eacute; acima de tudo justificada por factores econ&oacute;micos. </p>      <p >Todavia, tamb&eacute;m existem jovens que, mesmo exercendo uma profiss&atilde;o que lhes poderia permitir viver de forma independente optam por continuar a ser apoiados pelos pais. Nestes casos, estes jovens v&ecirc;em as principais despesas relativas &agrave; habita&ccedil;&atilde;o, aos estudos e &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o, entre outras, ser garantidas pelos pais, o que lhes permite continuar a usufruir dos recursos econ&oacute;micos de que a fam&iacute;lia disp&otilde;e (e muitas vezes ainda lhes oferece sob a forma de mesada). Os seus recursos econ&oacute;micos pr&oacute;prios podem, assim, ser canalizados para actividades de lazer ou para bens mais diferenciados (f&eacute;rias, despesas pessoais, etc...), permitindo-lhes ter uma qualidade de vida muito superior &agrave; que teriam, se vivessem de forma economicamente independente, pois n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que o estabelecimento e a manuten&ccedil;&atilde;o de um lar independente implica, na maioria dos casos, um decr&eacute;scimo significativo no n&iacute;vel de vida. &Eacute; nesta sequ&ecirc;ncia que se situa o paradoxo da depend&ecirc;ncia <i>versus </i>independ&ecirc;ncia, que leva Cavalli (1997) a considerar que, nestes casos, os jovens tomam uma decis&atilde;o racional, dado o valor que atribuem ao seu pr&oacute;prio bem-estar, em detrimento da autonomia: a decis&atilde;o de serem apoiados economicamente pelos pais &eacute; perfeitamente racional e baseada numa perspectiva utilit&aacute;ria de vida. </p>      <p >&Eacute; ainda importante salientar que o conv&iacute;vio residencial n&atilde;o implica necessariamente proximidade psicol&oacute;gica entre pais e filhos. Estudos efectuados no contexto norte-americano evidenciaram que os adultos que apresentavam uma proximidade f&iacute;sica elevada com os pais, ou seja, que residiam em casa dos pais ou pr&oacute;ximo da mesma, apresentavam indicadores muito fracos de ajustamento psicol&oacute;gico e de proximidade com os pais (Dubas &amp; Pertersen, 1996). J&aacute; os dados relativos a estudos europeus indicam que os jovens que permanecem em casa dos pais, n&atilde;o s&oacute; est&atilde;o satisfeitos com a sua situa&ccedil;&atilde;o, como continuam a considerar os pais como uma fonte de apoio econ&oacute;mico e emocional, embora manifestem elevados n&iacute;veis de autonomia na sua viv&ecirc;ncia em fam&iacute;lia (Chisholm &amp; Hurrelman, 1995). </p>      <p >A este n&iacute;vel, Cavalli (1997) argumenta que, apesar dos padr&otilde;es de apoio econ&oacute;mico e social terem sido mais marcantes para as chamadas fam&iacute;lias de classe m&eacute;dia e alta, este modelo depressa se popularizou nas outras classes, pelo que se apresenta na actualidade como dominante. Na verdade, muitas vezes o facto dos jovens de fam&iacute;lias modestas terem um n&iacute;vel mais elevado de escolaridade do que os seus pais, leva-os a invocarem as suas responsabilidades escolares e profissionais para legitimar a necessidade de apoio por parte daqueles. De igual modo, quando negoceiam com eles as condi&ccedil;&otilde;es de coabita&ccedil;&atilde;o demarcam o seu direito &agrave; &#8220;liberdade&#8221;, ou seja, &agrave; sua independ&ecirc;ncia no seio da vida familiar. Esta situa&ccedil;&atilde;o gera, na opini&atilde;o do autor, um aparente paradoxo, que se traduz no facto de que, quanto mais autonomia os jovens sentem em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sua fam&iacute;lia, mais dependentes da mesma aceitam tornar-se. Na realidade, as pr&oacute;prias altera&ccedil;&otilde;es nos contextos familiares e nos processos de socializa&ccedil;&atilde;o, nomeadamente na rela&ccedil;&atilde;o pais-filhos, tem reduzido os conflitos entre gera&ccedil;&otilde;es, limitando assim a necessidade de sa&iacute;da da fam&iacute;lia para procurar a autonomia (Cavalli, 1997). </p>      <p >Os valores culturais associados &agrave;s fam&iacute;lias do Sul da Europa, que tendiam a exigir comportamentos semelhantes dos seus membros, atrav&eacute;s do exerc&iacute;cio do poder paternal, est&aacute; hoje a ser alterado, dando lugar a uma progressiva redu&ccedil;&atilde;o da autoridade parental e das clivagens associadas ao g&eacute;nero e &agrave; idade. Esta transforma&ccedil;&atilde;o efectua-se sem que a fam&iacute;lia ponha em causa a sua fun&ccedil;&atilde;o primordial de apoio emocional e econ&oacute;mico aos jovens. Para al&eacute;m disso, as fam&iacute;lias podem constituir-se como recursos para os jovens em dois sentidos: por um lado, podem, quando disp&otilde;em de recursos econ&oacute;micos para tal, apoiar a escolha vocacional dos filhos, independentemente do curso ser leccionado numa institui&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica ou privada, nacional ou estrangeira. Por outro lado, no caso de pais com forma&ccedil;&atilde;o acad&eacute;mica superior, podem n&atilde;o s&oacute; disponibilizar aos filhos um leque mais alargado de informa&ccedil;&otilde;es relativas ao mercado de trabalho, mas ajuda-os a ponderar os benef&iacute;cios e custos potenciais das suas escolhas vocacionais. Isto n&atilde;o significa que estes jovens vejam o apoio familiar como isento de &#8220;obriga&ccedil;&otilde;es&#8221;. N&atilde;o s&oacute; respeitam os conselhos dados pelos pais, como tentam integr&aacute;-los nas suas decis&otilde;es e op&ccedil;&otilde;es educacionais, profissionais e mesmo pessoais. No nosso pa&iacute;s, um estudo efectuado por Papp&aacute;mikail (2004), revelou que, do ponto de vista dos jovens, a fam&iacute;lia funciona como uma rede de apoio, at&eacute; que consigam posicionar-se no mercado de trabalho. Este apoio &eacute; n&atilde;o s&oacute; de natureza instrumental, com forte incid&ecirc;ncia no apoio econ&oacute;mico, mas tamb&eacute;m de natureza emocional, que apesar de ser de grande import&acirc;ncia, n&atilde;o interv&ecirc;m, de forma restritiva nas suas escolhas pessoais, educacionais e profissionais (Papp&aacute;mikail, 2004). </p>      <p >Assim, o processo de transi&ccedil;&atilde;o para o estatuto de adulto parece hoje menos previs&iacute;vel e mais complexo (Pais, 1998; Pais, Caims, &amp; Papp&aacute;mikail, 2005). A condi&ccedil;&atilde;o de adulto parece passar essencialmente pelo desenvolvimento de compet&ecirc;ncias pessoais que caracterizam a autonomia psicol&oacute;gica e a maturidade, sendo menos dependente de marcadores sociais, como </p>      <p >o exerc&iacute;cio de um papel profissional ou familiar. Os pais contribuem tamb&eacute;m para este processo, j&aacute; que preferem manter o apoio, de modo a garantir que os filhos invistam na aquisi&ccedil;&atilde;o de compet&ecirc;ncias de natureza escolar, profissional e relacional, que lhes permitam &#8220;estar preparados para a vida de adulto&#8221; actuando enquanto rede de apoio instrumental e emocional dos filhos (Papp&aacute;mikail, 2004). </p>      <p >&nbsp;</p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p >O QUE SIGNIFICA &#8220;SER ADULTO?&#8221; CARACTER&Iacute;STICAS E REPRESENTA&Ccedil;&Otilde;ES DA IDADE ADULTA</p>      <p >Apesar de no contexto das sociedades ocidentais a autonomia e a liberdade associadas ao per&iacute;odo de transi&ccedil;&atilde;o para a idade adulta poderem influenciar o modo como os jovens representam e antecipam o que &eacute; ser adulto, a literatura sugere que as representa&ccedil;&otilde;es do papel de adulto adquirem hoje uma configura&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria, n&atilde;o isenta de aspectos negativos. Alguns autores que analisaram as representa&ccedil;&otilde;es dos jovens sobre o que significa &#8220;ser adulto&#8221; indicam que estas aparecem identificadas com aspectos menos agrad&aacute;veis da vida adulta, nos quais se destacam as obriga&ccedil;&otilde;es familiares e profissionais e a monotonia da&iacute; decorrente (Andrade, 2006; Nilsen, 1998). Como aspectos mais positivos do papel de adulto, os jovens do mesmo estudo referiram, acima de tudo, actividades que s&atilde;o essencialmente caracter&iacute;sticas da fase de transi&ccedil;&atilde;o para a idade adulta, como, por exemplo, conhecer novas pessoas, viajar, encontrar ocupa&ccedil;&otilde;es, com a condi&ccedil;&atilde;o de poder abandon&aacute;-las logo que se &#8220;tornem aborrecidas&#8221; ou quando aparece algo mais interessante, prosseguir os estudos em dom&iacute;nios interessantes e desafiantes, mesmo que n&atilde;o conduzam a um trabalho bem remunerado, ter um emprego onde se aprendam coisas novas e se enfrentem novas situa&ccedil;&otilde;es, seguindo sempre, em qualquer dos casos, os pr&oacute;prios desejos e aspira&ccedil;&otilde;es. Para al&eacute;m destes aspectos, estes jovens destacaram ainda que a no&ccedil;&atilde;o de &#8220;assentar na vida&#8221; &eacute; frequentemente associada &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o de fam&iacute;lia com filhos, o que implica um emprego permanente para assegurar um rendimento fixo e, portanto, garantir a independ&ecirc;ncia econ&oacute;mica da fam&iacute;lia. Embora nenhum dos jovens desejasse o mesmo estilo de vida da gera&ccedil;&atilde;o anterior, ou seja, da gera&ccedil;&atilde;o dos seus pais, muitos pensam que, de algum modo, podem vir a acabar numa situa&ccedil;&atilde;o algo semelhante (Andrade, 2006; Nilsen, 1998). </p>        <p >Como consequ&ecirc;ncia indirecta destas representa&ccedil;&otilde;es, destaca-se a coexist&ecirc;ncia de expectativas elevadas e de representa&ccedil;&otilde;es negativas, em rela&ccedil;&atilde;o ao papel de adulto. Todavia, se as representa&ccedil;&otilde;es da vida adulta continuam associadas a um emprego est&aacute;vel e a um aumento crescente do n&iacute;vel de vida, na actualidade, este crit&eacute;rio n&atilde;o &eacute; considerado determinante para se &#8220;ser adulto&#8221; (Arnett, 1998). J&aacute; a parentalidade &eacute; considerada como um factor decisivo para se ser considerado adulto. Alguns autores indicam que os jovens, independentemente da idade e do g&eacute;nero, assumem que ser pai ou m&atilde;e implica ter uma responsabilidade sobre outra pessoa e sobre si pr&oacute;prio, o que &eacute; caracter&iacute;stica da idade adulta (Andrade, 2006; Arnett, 1998; Greene &amp; Wheatley, 1992). Tamb&eacute;m num estudo retrospectivo sobre as representa&ccedil;&otilde;es do papel de adulto, efectuado junto de jovens m&atilde;es, Aronson, Kimberly, e Schaler (2001) confirmam que &eacute; determinante para se &#8220;ser adulto&#8221;, o facto de ter sido m&atilde;e, a par da independ&ecirc;ncia econ&oacute;mica. Estas jovens mulheres, ali&aacute;s, n&atilde;o consideram nem o emprego, nem o casamento como marcos importantes para se verem a si mesmas como adultas. Outro estudo sobre o significado da vida adulta indicou que os jovens adultos distinguem categorias fundamentais para se analisar o significado de ser adulto: ao n&iacute;vel das rela&ccedil;&otilde;es familiares e com os amigos; do trabalho atrav&eacute;s do envolvimento na forma&ccedil;&atilde;o ou profiss&atilde;o; do bem-estar pessoal, associado a uma orienta&ccedil;&atilde;o individualista, com a procura hed&oacute;nica do prazer e a manuten&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de (f&iacute;sica e/ou mental); e da auto-realiza&ccedil;&atilde;o, atrav&eacute;s da concretiza&ccedil;&atilde;o de objectivos e do consequente desenvolvimento das compet&ecirc;ncias psicol&oacute;gicas (Reitzle, 2006). </p>      <p >Apesar disto, na actualidade, as menores exig&ecirc;ncias de responsabilidade associada &agrave; assump&ccedil;&atilde;o destes pap&eacute;is dominam a vida de muitos jovens, pelo que estes se encontram numa situa&ccedil;&atilde;o de &#8220;semi-adultos&#8221;, onde se perspectiva uma entrada na idade adulta progressiva, sem a press&atilde;o do compromisso com os tradicionais pap&eacute;is de adulto nos dom&iacute;nios do trabalho e da fam&iacute;lia (Reitzle, 2006). </p>      <p >Com efeito, e de um modo consensual, os estudos mais recentes t&ecirc;m identificado caracter&iacute;sticas pessoais como sendo priorit&aacute;rias para se ser considerado adulto, das quais se destacam ser respons&aacute;vel, ser capaz de tomar decis&otilde;es e ser capaz de sustentar-se a si pr&oacute;prio financeiramente (Andrade, 2006; Arnett, 1998; Facio &amp; Micocci, 2003; Greene &amp; Wheatley, 1992). De facto, tais estudos apontam para a import&acirc;ncia da percep&ccedil;&atilde;o de &#8220;auto-sufici&ecirc;ncia&#8221;, do ponto de vista psicol&oacute;gico e instrumental, como caracter&iacute;stica fundamental da idade adulta (Arnett, 1998; Greene &amp; Wheatley, 1992). Tamb&eacute;m o estudo comparativo efectuado por Gordon, Holland, Lahelma, e Thompson (2005) sobre representa&ccedil;&otilde;es da idade adulta, que inclui jovens mulheres inglesas e finlandesas, refere a independ&ecirc;ncia do ponto de vista psicol&oacute;gico e social como a principal caracter&iacute;stica do &#8220;ser adulto&#8221;. A import&acirc;ncia desta auto-sufici&ecirc;ncia foi tamb&eacute;m observada em outras culturas. Jovens universit&aacute;rios argentinos consideram que ser capaz de formar e sustentar uma fam&iacute;lia &eacute; o crit&eacute;rio mais importante para que se seja considerado adulto, havendo diferen&ccedil;as de g&eacute;nero, j&aacute; que as raparigas valorizam mais este aspecto do que os rapazes (Facio &amp; Micocci, 2003). Do mesmo modo, Mayseless e Scharf (2003), a partir de um estudo conduzido em Israel, consideraram que a responsabilidade sobre os seus pr&oacute;prios actos, a capacidade de decidir sobre as suas pr&oacute;prias cren&ccedil;as, o estabelecimento de uma rela&ccedil;&atilde;o igualit&aacute;ria com os pais s&atilde;o crit&eacute;rios mais importantes para se ser considerado adulto. Neste caso, verifica-se que o ser capaz de renegociar e reconstruir um relacionamento entre pais e filhos &eacute; um indicador de maturidade psicol&oacute;gica, que se reporta &agrave; conquista da autonomia. </p>      <p >&Eacute; de salientar, no entanto que o &#8220;ser adulto&#8221; &eacute; algo de din&acirc;mico que n&atilde;o corresponde a um estatuto est&aacute;vel (Reitzle, 2006). Mesmo os jovens que se consideram adultos continuam a achar que ainda n&atilde;o o s&atilde;o na sua plenitude, e que isto nem sempre depende de uma escolha pessoal, mas pode ser fruto de constrangimentos sociais. A posi&ccedil;&atilde;o dos jovens &eacute; marcada pela ambiguidade e pela ambival&ecirc;ncia. Por um lado, os jovens assumem, facilmente, uma imagem idealizada da vida adulta, que passa por representa&ccedil;&otilde;es positivas da mesma. Arnett (2001) constatou, com base num inqu&eacute;rito nacional para o Estados Unidos, que 96% dos jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos afirmam que a vida adulta lhes iria proporcionar a possibilidade de &#8220;virem a obter aquilo que sonharam para as suas vidas&#8221;. Por outro lado, n&atilde;o parecem querer entrar rapidamente e totalmente na idade adulta, se as circunst&acirc;ncias o permitirem e n&atilde;o se v&ecirc;em a si pr&oacute;prios para j&aacute; como adultos. Nesta linha, o estudo de Reitzle (2006), por exemplo, revelou que muitos jovens n&atilde;o se percepcionam a si mesmos nem, como adolescentes tardios, nem como jovens adultos, mas sim como estando numa fase situada entre estas duas categorias. A autora concluiu que a percep&ccedil;&atilde;o subjectiva de ser adulto s&oacute; estava associada aos pap&eacute;is normativos de adulto para os jovens de classe baixa e pouco escolarizados. Para os restantes, as restri&ccedil;&otilde;es no acesso ao emprego e a uma vida independente, bem como a instabilidade das rela&ccedil;&otilde;es afectivas fazem com que vivam o presente numa perspectiva de &#8220;hedonismo dos tempos modernos&#8221;, onde os pap&eacute;is de adulto n&atilde;o t&ecirc;m um significado muito importante. </p>      <p >Para o contexto nacional, e no que se refere especificamente &agrave;s transi&ccedil;&otilde;es para os pap&eacute;is de adulto, de acordo com Guerreiro e Abrantes (2004) estas efectuam-se em dois tempos: um primeiro per&iacute;odo, caracterizado pela liberdade, pelas experi&ecirc;ncias e pela aus&ecirc;ncia de compromissos; um segundo per&iacute;odo, caracterizado pela responsabilidade, estabilidade e compromissos. A viv&ecirc;ncia de uma transi&ccedil;&atilde;o para a idade adulta &#8220;livre&#8221; contrasta com as atitudes relativas &agrave; vida adulta considerada rotineira, aborrecida e desinteressante (Guerreiro &amp; Abrantes, 2004). Este estudo revelou ainda que, quando os jovens portugueses falam dos seus planos a longo prazo, revelam, de forma mais ou menos un&acirc;nime, a inten&ccedil;&atilde;o de aderir num primeiro momento, a esse modelo de vida hedonista, como &#8220;trajecto natural da vida&#8221;, onde os 30 anos parecem ser a fronteira para &#8220;assentar e assumir compromissos&#8221;. </p>      <p >Globalmente, os estudos apresentados parecem indicar que a representa&ccedil;&atilde;o partilhada pelos jovens sobre o que significa ser adulto est&aacute; impregnada de alguma ambiguidade, dado que nela s&atilde;o integrados simultaneamente aspectos caracter&iacute;sticos da juventude e da idade adulta. Contudo, parecem assumir consensualmente que ser adulto implica entrar numa fase diferente daquela em que se encontram.</p>        <p >&nbsp;</p>      <p >O ADULTO EMERGENTE: CONCEITO E IMPLICA&Ccedil;&Otilde;ES PSICOL&Oacute;GICAS</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >Numa tentativa de especifica&ccedil;&atilde;o desta etapa do ciclo vital, que se situa entre o final da adolesc&ecirc;ncia e o in&iacute;cio da idade adulta, surge, com alguma frequ&ecirc;ncia na literatura psicol&oacute;gica, a designa&ccedil;&atilde;o de adolesc&ecirc;ncia tardia. Falar em adolesc&ecirc;ncia implica reportarmo-nos a um per&iacute;odo desenvolvimental onde ocorrem mudan&ccedil;as tanto ao n&iacute;vel f&iacute;sico, como ao n&iacute;vel psicol&oacute;gico. Do ponto de vista do estatuto social, os adolescentes, na maioria dos casos, encontram-se a frequentar o sistema de ensino secund&aacute;rio e residem com os seus pais, de quem s&atilde;o dependentes do ponto de vista instrumental (depend&ecirc;ncia econ&oacute;mica e social) e afectivo (mant&ecirc;m rela&ccedil;&otilde;es de grande proximidade afectiva com os progenitores). Aliando os aspectos de natureza desenvolvimental aos aspectos de natureza social ser&aacute;, na opini&atilde;o de Arnett (2000), pouco adequado chamar adolescentes tardios aos jovens universit&aacute;rios, ou mesmos &agrave;queles que j&aacute; exercem uma actividade profissional, por exemplo, na medida em que estes se encontram numa fase claramente distinta da adolesc&ecirc;ncia. Se nos reportarmos ao desenvolvimento f&iacute;sico, as diferen&ccedil;as s&atilde;o not&oacute;rias entre os adolescentes e estes jovens, na medida em que estes &uacute;ltimos se encontram numa fase de maturidade f&iacute;sica ainda n&atilde;o alcan&ccedil;ada pelos primeiros. Ao n&iacute;vel psicol&oacute;gico, a tarefa da constru&ccedil;&atilde;o da identidade faz-se agora com recurso &agrave; explora&ccedil;&atilde;o, e muito menos numa &oacute;ptica de reprodu&ccedil;&atilde;o de modelos ou de indecis&atilde;o, que caracteriza a adolesc&ecirc;ncia (Arnett, 2000; Arnett &amp; Tanner, 2006). Por outro lado, na maioria dos casos, estes jovens s&atilde;o respons&aacute;veis pelas suas op&ccedil;&otilde;es e decis&otilde;es, tanto no dom&iacute;nio das rela&ccedil;&otilde;es afectivas como no dom&iacute;nio da educa&ccedil;&atilde;o e das escolhas profissionais. Ainda do ponto de vista da autonomia, e dado que s&atilde;o estudos que se referem ao contexto norte-americano, muitos destes jovens j&aacute; n&atilde;o residem com a fam&iacute;lia de origem (por exemplo, porque est&atilde;o a estudar ou trabalhar longe de casa dos pais) ou, quando o fazem, mant&ecirc;m um estilo de vida independente. Por &uacute;ltimo, do ponto de vista social existem diferen&ccedil;as marcantes entre os adolescentes e estes jovens, como, por exemplo, a possibilidade de tirar a carta de condu&ccedil;&atilde;o ou mesmo de votar, para referir algumas que s&atilde;o tarefas socialmente constru&iacute;das como indicadores do estatuto adulto. Com base nestes argumentos, parece inadequado tratar estes jovens como adolescentes tardios, visto que est&atilde;o, em termos do desenvolvimento psicol&oacute;gico e do estatuto social, numa etapa claramente distinta da adolesc&ecirc;ncia (Arnett, 2000). </p>        <p >Tamb&eacute;m comum na literatura psicol&oacute;gica &eacute; designar esta fase como transi&ccedil;&atilde;o para a idade adulta. Na perspectiva de Arnett (2000), &eacute; necess&aacute;rio especificar o que se entende por transi&ccedil;&atilde;o para a idade adulta, dado que esta designa&ccedil;&atilde;o assume que estes jovens est&atilde;o ainda a transitar para a idade adulta, e n&atilde;o s&atilde;o adultos de facto, at&eacute; alcan&ccedil;arem alguma das etapas que de modo mais ou menos normativo, s&atilde;o marcadores da entrada nessa fase de vida. Apesar da aceita&ccedil;&atilde;o comum desta designa&ccedil;&atilde;o, tanto por parte dos estudos sociol&oacute;gicos como dos psicol&oacute;gicos, fica na opini&atilde;o de Arnett (2000), por perceber, de facto, quais s&atilde;o as altera&ccedil;&otilde;es e como se caracteriza o processo de desenvolvimento, que culmina com a aquisi&ccedil;&atilde;o do estatuto social de adulto. Na verdade, est&aacute;-se a assumir-se que &eacute; uma etapa de passagem e n&atilde;o uma etapa da vida com caracter&iacute;sticas pr&oacute;prias. Do mesmo modo, a designa&ccedil;&atilde;o &#8220;juventude&#8221; para categorizar esta etapa do ciclo de vida encerra, numa mesma categoria, uma pluralidade demasiado abrangente de indiv&iacute;duos com caracter&iacute;sticas muito diversificadas, tanto ao n&iacute;vel et&aacute;rio como ao n&iacute;vel do seu desenvolvimento psicol&oacute;gico e do seu estatuto social e consequentemente, dif&iacute;cil de analisar (Arnett, 2000, 2001). Essa designa&ccedil;&atilde;o reporta-se a um per&iacute;odo da Hist&oacute;ria em que eclodiram os movimentos juvenis, mais ou menos institucionalizados, pelo que, na opini&atilde;o de Arnett (2000), ser&aacute; mais apropriada do ponto de vista sociol&oacute;gico, uma vez que permite estabelecer uma fronteira entre a inf&acirc;ncia e a idade adulta, mas inadequada do ponto de vista psicol&oacute;gico. </p>      <p >Mais recentemente, nos anos 90, este per&iacute;odo foi popularizado como &#8220;Gera&ccedil;&atilde;o X&#8221;, designa&ccedil;&atilde;o inspirada na obra de David Coupland, de 1991, que tinha precisamente este t&iacute;tulo. Contudo, n&atilde;o parece corresponder a um fen&oacute;meno tempor&aacute;rio. Esta etapa veio para ficar na vida dos jovens, sobretudo em determinadas culturas, e na opini&atilde;o de Arnett (2001), merc&ecirc; de uma designa&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria, dado que apresenta tamb&eacute;m caracter&iacute;sticas espec&iacute;ficas. </p>      <p >Para caracterizar este per&iacute;odo de desenvolvimento, Arnett (2000) prop&ocirc;s a designa&ccedil;&atilde;o &#8220;adultez emergente&#8221;. A adultez emergente &eacute; a designa&ccedil;&atilde;o proposta para os jovens que se situam entre os 18 e os 24 anos (embora este crit&eacute;rio et&aacute;rio possa ser vari&aacute;vel, o que corresponderia a um per&iacute;odo desenvolvimental com caracter&iacute;sticas pr&oacute;prias do ponto de vista psicossocial) (Arnett, 2000). Deste modo, a designa&ccedil;&atilde;o incorpora aspectos de natureza social, que se repercutem directamente ao n&iacute;vel do desenvolvimento psicol&oacute;gico. </p>      <p >A primeira caracter&iacute;stica da adultez emergente diz respeito ao facto de ser uma fase de explora&ccedil;&atilde;o ao n&iacute;vel da identidade, onde se ensaiam op&ccedil;&otilde;es, nomeadamente em rela&ccedil;&atilde;o aos dom&iacute;nios familiar e profissional. Para o dom&iacute;nio profissional, as crescentes exig&ecirc;ncias do mundo laboral implicam n&atilde;o s&oacute; uma maior necessidade de investimento ao n&iacute;vel da forma&ccedil;&atilde;o, como s&atilde;o acompanhadas por per&iacute;odos de trabalho em tempo parcial (trabalho e estudo), habitualmente em &aacute;reas diversificadas. Se bem que estes aspectos possam apresentar diferentes configura&ccedil;&otilde;es, consoante o pa&iacute;s/cultura a que cada um se refere, Arnett (2000) destaca o car&aacute;cter explorat&oacute;rio destas actividades laborais, servindo sobretudo para a identifica&ccedil;&atilde;o de &aacute;reas e actividades em que os jovens sentem que a sua voca&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se iria concretizar. Estas experi&ecirc;ncias no dom&iacute;nio profissional s&atilde;o caracterizadas tanto por fracassos e frustra&ccedil;&atilde;o, embora orientadas pela aus&ecirc;ncia de press&atilde;o social, para que seja alcan&ccedil;ada a estabilidade que caracteriza a idade adulta. Assim, este per&iacute;odo de vida foi designado por Arnett (2000) de &#8220;idade da instabilidade&#8221;, pois as explora&ccedil;&otilde;es na adultez emergente fazem com que este per&iacute;odo seja dedicado &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de um projecto de vida adulta. De facto, se este projecto acaba por se definir, na maioria dos casos, ainda est&aacute; sujeito a m&uacute;ltiplas revis&otilde;es, que se traduzem em altera&ccedil;&otilde;es nas &aacute;reas de estudo ou no abandono tempor&aacute;rio dos estudos, bem como no ingresso no mercado de trabalho, com altera&ccedil;&otilde;es de actividade profissional, ou mesmo no retorno ao sistema educativo. Tamb&eacute;m no campo das rela&ccedil;&otilde;es afectivas podem surgir compromissos mais ou menos duradouros, com per&iacute;odos de emancipa&ccedil;&atilde;o residencial relativa &agrave; fam&iacute;lia de origem, que nem sempre se estabilizam, podendo haver um regresso a casa dos pais ou o in&iacute;cio de um novo per&iacute;odo de coabita&ccedil;&atilde;o com outro parceiro. Em qualquer dos casos anteriormente apresentados, estamos perante uma etapa clara de explora&ccedil;&atilde;o, relativa aos pap&eacute;is conjugais, familiares e profissionais e como salienta Arnett (2000), explora&ccedil;&atilde;o e instabilidade s&atilde;o dois aspectos que est&atilde;o intimamente associados. </p>      <p >A adultez emergente &eacute; tamb&eacute;m classificada como uma idade de &#8220;auto-centra&ccedil;&atilde;o&#8221;. Se bem que tanto a inf&acirc;ncia como a adolesc&ecirc;ncia tamb&eacute;m apresentem esta caracter&iacute;stica, a verdade &eacute; que nestes per&iacute;odos existe sempre o espectro da vigil&acirc;ncia parental, familiar ou mesmo institucional, por parte da escola, por exemplo. Na adultez emergente, este controlo dissipa-se, sendo as op&ccedil;&otilde;es mais dependentes de uma decis&atilde;o individual e com consequ&ecirc;ncias para o pr&oacute;prio, como, por exemplo, ser&aacute; &#8220;devo estudar e trabalhar?&#8221; ou &#8220;deveria deixar a casa dos meus pais e ir viver com colegas?&#8221; ou &#8220;vou trabalhar para fazer umas f&eacute;rias?&#8221;. Estas e outras quest&otilde;es, que se colocam na adultez emergente, fazem com que o jovem se torne mais centrado em si pr&oacute;prio. Esta auto-centra&ccedil;&atilde;o n&atilde;o deve ser entendida s&oacute; como um per&iacute;odo de inseguran&ccedil;a e incerteza, na medida em que, embora isto possa acontecer em alguns casos, na maioria das vezes implica que o jovem efectue reflex&otilde;es aprofundadas sobre as diferentes op&ccedil;&otilde;es e as siga de modo aut&oacute;nomo (Arnett, 1999). Esta reflex&atilde;o &eacute; mesmo um pressuposto para o desenvolvimento da autonomia que caracteriza a idade adulta. </p>      <p >Destaca-se ainda, na adultez emergente, o sentimento de estar parcialmente na adolesc&ecirc;ncia e parcialmente na idade adulta, expresso por cerca de 60% dos adultos emergentes no estudo de Arnett (2000), que indicam, como principais crit&eacute;rios para se considerarem adultos, serem respons&aacute;veis pelos seus actos, serem capazes de tomar decis&otilde;es de forma aut&oacute;noma e serem economicamente independentes. Dentro destes crit&eacute;rios, o &uacute;ltimo &eacute; aquele que &eacute; assinalado como o principal respons&aacute;vel por n&atilde;o se sentirem completamente adultos. </p>        <p >Arnett (2000) faz alus&atilde;o a um inqu&eacute;rito nacional para o contexto norte-americano, onde 96% dos jovens entre os 18 e os 24 anos afirmavam que esperavam um dia &#8220;vir a obter aquilo que sonharam para as suas vidas&#8221;. Como &eacute; not&oacute;rio, trata-se de um per&iacute;odo onde as expectativas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; vida adulta s&atilde;o elevadas e positivas. Isto compreende-se pelo facto de estes jovens ainda n&atilde;o se terem confrontado, na maioria dos casos, com dificuldades ou responsabilidades que implicassem restri&ccedil;&otilde;es dos poss&iacute;veis desejos e uma vis&atilde;o menos optimista do futuro. &Eacute; uma idade que se caracteriza por uma imagem idealizada do futuro e onde se acredita que v&aacute;rias possibilidades de sucesso est&atilde;o <st1:PersonName ProductID="em aberto. Contudo" w:st="on">em aberto. Contudo, de acordo com Tanner (2006), podem ser identificados est&aacute;dios desenvolvimentais dentro da adultez emergente. Assim, existe um est&aacute;dio em que os adultos emergentes est&atilde;o a investir na sua forma&ccedil;&atilde;o acad&eacute;mica onde existem explora&ccedil;&otilde;es frequentes no dom&iacute;nio afectivo e profissional. Nesta etapa, eles questionam-se se devem tomar decis&otilde;es, de acordo com as directivas dos seus pais, dado que, nesta fase, o seu apoio financeiro e residencial &eacute; necess&aacute;rio, o que poder&aacute; fomentar a tend&ecirc;ncia para respeitarem as directrizes parentais. Nesta etapa, as escolhas e os compromissos que efectuam t&ecirc;m dois tipos de efeitos: est&atilde;o a dar-se os primeiros passos para futuros compromissos mais duradouros, que caracterizam a idade adulta e, por outro lado, est&atilde;o a estabelecer-se fronteiras mais claras e definitivas em rela&ccedil;&atilde;o aos pais. Na etapa seguinte, a aproxima&ccedil;&atilde;o ao estatuto de adulto torna-se mais clara: surgem os compromissos, nomeadamente no dom&iacute;nio profissional. Os efeitos da entrada num dos pap&eacute;is de adulto fazem-se sentir ao n&iacute;vel de uma identidade constru&iacute;da, que vai progressivamente substituir a identidade de morat&oacute;ria da etapa anterior da adultez emergente. Progressivamente, o envolvimento com as escolhas e os compromissos vai sendo crescente, dando lugar ao exerc&iacute;cio dos pap&eacute;is de adulto, assim como &agrave; cria&ccedil;&atilde;o da independ&ecirc;ncia emocional e residencial em rela&ccedil;&atilde;o aos pais. </p>        <p >Contudo, como defendem alguns autores, este per&iacute;odo de viv&ecirc;ncia sem grandes compromissos &eacute; visto pelos jovens de ambos os g&eacute;neros como um per&iacute;odo transit&oacute;rio, que &eacute; seguido por uma certa estabiliza&ccedil;&atilde;o nos padr&otilde;es de vida mais convencionais (Brannen &amp; Smitson, 1998). </p>      <p >J&aacute; outros jovens caracterizam-se por um longo per&iacute;odo p&oacute;s-adolescente, destinado a viver a vida de forma descontra&iacute;da, emocionante e sem grandes preocupa&ccedil;&otilde;es. A sua prioridade &eacute; conhecer novos locais e pa&iacute;ses, conviver com os amigos, sair &agrave; noite, procurar novas experi&ecirc;ncias, aprender e divertir-se, antes de assentar e assumir responsabilidades e compromissos duradouros. Estes jovens podem apresentar trajectos escolares longos, que incluem a frequ&ecirc;ncia de cursos e de forma&ccedil;&atilde;o p&oacute;s-graduada, com inser&ccedil;&otilde;es prec&aacute;rias e/ou tempor&aacute;rias no mercado de trabalho. Estas transi&ccedil;&otilde;es est&atilde;o marcadas pelo car&aacute;cter l&uacute;dico e hedonista da vida. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >Surgem ainda outros jovens inclu&iacute;dos num per&iacute;odo que os autores designam por &#8220;transi&ccedil;&otilde;es experimentais&#8221; (Guerreiro &amp; Abrantes, 2004). Estas caracterizam-se por uma sucess&atilde;o de configura&ccedil;&otilde;es de vida tempor&aacute;rias e imprevis&iacute;veis, como op&ccedil;&atilde;o de vida ou como per&iacute;odo de experimenta&ccedil;&atilde;o, antes de &#8220;assentar&#8221;, casar e ter filhos. Tal como acontece, de forma not&oacute;ria, em alguns pa&iacute;ses, viver sozinho, em coabita&ccedil;&atilde;o ou com um grupo de amigos tornam-se modelos culturalmente valorizados, pelo menos at&eacute; &agrave; parentalidade, sendo esta op&ccedil;&atilde;o muito caracter&iacute;stica dos jovens mais escolarizados (Guerreiro &amp; Abrantes, 2004; Nurmi &amp; Poole, 1994). Todavia, de acordo com Guerreiro e Abrantes (2004), em Portugal, n&atilde;o s&oacute; existe alguma resist&ecirc;ncia de natureza cultural, por parte da sociedade em geral e dos pr&oacute;prios jovens, como a insufici&ecirc;ncia de apoio p&uacute;blico e o desenvolvimento dos modelos de apoio familiar tornam esta op&ccedil;&atilde;o minorit&aacute;ria. </p>      <p >Apesar destas caracter&iacute;sticas poderem ser encontradas em qualquer jovem que se situe no contexto de transi&ccedil;&atilde;o para a idade adulta, o conceito de &#8220;adultez emergente&#8221; reporta-se, na maioria dos casos, a uma &#8220;classe&#8221; de jovens urbanos, de classe m&eacute;dia e a frequentar ou que frequentaram o ensino superior (Arnett, 2000). Para al&eacute;m disso, esta concep&ccedil;&atilde;o deve ser analisada do ponto de vista da especificidade de cada cultura; sendo culturalmente constru&iacute;da n&atilde;o &eacute;, portanto, universal. Na opini&atilde;o do autor, esta etapa, com as caracter&iacute;sticas que lhe foram apontadas, &eacute; mais vis&iacute;vel nos pa&iacute;ses industrializados, nomeadamente na Am&eacute;rica do Norte, Europa, Austr&aacute;lia e nalguns pa&iacute;ses asi&aacute;ticos, como o Jap&atilde;o e a Coreia do Sul e em contextos familiares de classe m&eacute;dia e urbana (Arnett, 1998, 2000). </p>      <p >Em suma, a vantagem da introdu&ccedil;&atilde;o do conceito de adultez emergente prende-se com o facto de ser um per&iacute;odo de explora&ccedil;&atilde;o de op&ccedil;&otilde;es, tanto no dom&iacute;nio afectivo como ocupacional, vivido longe do &#8220;controlo&#8221; das normas sociais relativas &agrave; vida adulta. Este per&iacute;odo de transi&ccedil;&atilde;o, conforme vimos, implica sentimentos de inseguran&ccedil;a e auto-centra&ccedil;&atilde;o que se manifestam em cen&aacute;rios de oportunidades e de desafios face ao futuro. S&atilde;o aquilo que Arnett (2000) designa por &#8220;anos vol&aacute;teis&#8221;, no sentido em que s&atilde;o vividos com alguma instabilidade. Contudo, aspectos de natureza cultural t&ecirc;m influ&ecirc;ncia no limitar ou prolongar da adultez emergente, ou de algumas das suas caracter&iacute;sticas, para a etapa seguinte. Mesmo j&aacute; tendo alcan&ccedil;ado alguma das tarefas desenvolvimentais que demarcam o in&iacute;cio da idade adulta, vimos que factores de natureza cultural fazem com que muitos dos jovens adultos permane&ccedil;am ainda numa situa&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o configura, na sua plenitude, o estatuto de adulto. De facto, como questiona Cavalli (1997), porqu&ecirc; antecipar a passagem para a vida adulta, com o esfor&ccedil;o que esta requer, se &eacute; algo que pode ser adiado a favor de um bem-estar di&aacute;rio? Esta perspectiva &eacute; corroborada por mensagens do tipo &#8220;goza a juventude enquanto puderes&#8221;, que s&atilde;o muito frequentes na nossa cultura e traduzem um refor&ccedil;o evidente de que a vida adulta n&atilde;o ir&aacute; ser t&atilde;o satisfat&oacute;ria como a vida na juventude, perspectiva que traduz uma valoriza&ccedil;&atilde;o extrema da etapa do ciclo de vida da adultez emergente. Isto &eacute; ainda refor&ccedil;ado por mensagens que indicam claramente aos jovens que os pais est&atilde;o dispostos a efectuar sacrif&iacute;cios pelos seus filhos e, por isso, ir&atilde;o certamente tentar corresponder &agrave;s expectativas dos mesmos, enquanto estes permanecerem no seu domic&iacute;lio. Deste modo, a adultez emergente constitui-se como uma etapa de explora&ccedil;&atilde;o e expectativas em rela&ccedil;&atilde;o aos pap&eacute;is de adulto e uma oportunidade de desenvolvimento psicol&oacute;gico e social. </p>        <p >&nbsp;</p>      <p >CONCLUS&Atilde;O </p>        <p >Como destacam diversos autores, a &#8220;estrada para a idade adulta&#8221; &eacute; cada vez mais longa e a tarefa de &#8220;ser adulto&#8221;, do ponto de vista psicol&oacute;gico e social, aparece como sendo mais exigente na actualidade, passando muitas vezes por ser, ou adiada em termos temporais e a ser completada mais tardiamente, em termos et&aacute;rios (Arnett, 2001; Arnett &amp; Tanner, 2006; Rossi, 1997). &Eacute; assim que as chamadas mudan&ccedil;as &#8220;normativas&#8221; para a aquisi&ccedil;&atilde;o do estatuto de adulto, nas quais se inscrevem o desempenho do papel profissional e familiar, perdem progressivamente este seu car&aacute;cter normativo, na medida em que o seu adiamento surge cada vez com uma maior frequ&ecirc;ncia. Entre o final da adolesc&ecirc;ncia e o in&iacute;cio da idade adulta, s&atilde;o exploradas uma s&eacute;rie de possibilidades, tanto ao n&iacute;vel das rela&ccedil;&otilde;es afectivas como ao n&iacute;vel das prefer&ecirc;ncias profissionais, que apenas gradualmente se ir&atilde;o transformar <st1:PersonName ProductID="em op&#231;&#245;es. Esta" w:st="on">em op&ccedil;&otilde;es. Esta liberdade de explora&ccedil;&atilde;o e de escolha faz com que esta etapa se caracterize por alguns paradoxos. Se, por um lado, &eacute; uma etapa de vida constitu&iacute;da por sonhos e desejos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; idade adulta, &eacute; tamb&eacute;m um tempo de incerteza e ansiedade, sendo assim simultaneamente um tempo de novas liberdades e novos receios (Arnett, 2001). Parece claro que as tomadas de decis&atilde;o relativas ao desempenho dos pap&eacute;is de adulto se inscrevem num processo mais amplo de desenvolvimento ao longo do ciclo vital, onde, seguramente, o desenvolvimento psicol&oacute;gico interage com as condi&ccedil;&otilde;es sociais e ambos propiciam diferentes op&ccedil;&otilde;es de vida, que v&atilde;o originar o desempenho dos pap&eacute;is de adulto. &Eacute; precisamente nesta articula&ccedil;&atilde;o, entre o desenvolvimento psicol&oacute;gico e social dos jovens e alguns dos novos contextos em que os jovens se movem, que radica a problem&aacute;tica central deste artigo. </p>        <p >&nbsp;</p>      <p >REFER&Ecirc;NCIAS</p>      <p >Andrade, C. (2006). <i>Antecipa&ccedil;&atilde;o da concilia&ccedil;&atilde;o dos pap&eacute;is familiares e profissionais na transi&ccedil;&atilde;o para a idade adulta: Estudo diferencial e intergeracional. </i>Disserta&ccedil;&atilde;o de Doutoramento n&atilde;o publicada. 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<body><![CDATA[<p >Investigadora de P&oacute;s-Doutoramento, Centro de Psicologia Diferencial,    Faculdade de Psicologia e de Ci&ecirc;ncias da Educa&ccedil;&atilde;o da Universidade    do Porto, Rua Dr. Manuel Pereira da Silva, 4200-392 Porto, Telefone: 226079700,    Fax: 226079725, E-mail: <a href="mailto:perdigao.claudia@gmail.com">perdigao.claudia@gmail.com</a></p>      <p>&nbsp;</p>           ]]></body><back>
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<source><![CDATA[Sociologia, Problemas e Práticas]]></source>
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