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<journal-title><![CDATA[Análise Psicológica]]></journal-title>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ressonâncias do narcisismo na clínica psicanalítica contemporânea]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[The statement that we live under the sign of narcissism in our contemporary culture has become common and, in the field of psychoanalysis, this reference has occurred frequently as a result of the increase of the so-called narcissistic pathologies. We have sought to demonstrate that the narcissistic pathologies are more often guided by the seizure (clivagem) mechanism than by the repression. We understand that the concept of narcissism in psychoanalysis theory is essential for the comprehension of the contemporary subjectivities constitution.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Resson&acirc;ncias do narcisismo na cl&iacute;nica psicanal&iacute;tica    contempor&acirc;nea </b>      <p>&nbsp;     <p >Eliana Rigotto Lazzarini <sup><a name="topc1"></a>(<a href="#c1">*</a>)</sup>, Terezinha    de Camargo Viana <sup><a name="topc2"></a>(<a href="#c2">**</a>)</sup> </p>      <p >&nbsp;</p>      <p >RESUMO </p>      <p >Tem sido corrente a afirma&ccedil;&atilde;o de que vivemos, na cultura contempor&acirc;nea, sob o signo do narcisismo; e no campo da psican&aacute;lise isso aparece freq&uuml;entemente atrav&eacute;s das refer&ecirc;ncias ao crescimento das patologias chamadas narc&iacute;sicas. Procuramos mostrar que as patologias narc&iacute;sicas s&atilde;o pautadas pelo mecanismo da clivagem mais do que pela recalcamento. Entendemos que o conceito de narcisismo em psican&aacute;lise &eacute; essencial para a compreens&atilde;o das formas de constitui&ccedil;&atilde;o das subjetividades contempor&acirc;neas. </p>      <p ><i>Palavras-chave: </i>Narcisismo, Psican&aacute;lise, Subjetividade contempor&acirc;nea. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p >ABSTRACT </p>      <p >The statement that we live under the sign of narcissism in our contemporary culture has become common and, in the field of psychoanalysis, this reference has occurred frequently as a result of the increase of the so-called narcissistic pathologies. We have sought to demonstrate that the narcissistic pathologies are more often guided by the seizure (<i>clivagem</i>) mechanism than by the repression. We understand that the concept of narcissism in psychoanalysis theory is essential for the comprehension of the contemporary subjectivities constitution. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p ><i>Key-words: </i>Contemporary subjectivity, Narcissism, Psychoanalysis. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p >Temos observado uma crescente preocupa&ccedil;&atilde;o, por parte de psic&oacute;logos e psicanalistas contempor&acirc;neos, com a modifica&ccedil;&atilde;o do perfil da demanda cl&iacute;nica, dando conta da ocorr&ecirc;ncia de um progressivo deslocamento dos quadros neur&oacute;ticos cl&aacute;ssicos para as patologias do narcisismo. Diagn&oacute;sticos cada vez mais freq&uuml;entes de depress&atilde;o, drogadi&ccedil;&atilde;o, anorexia, bulimia e s&iacute;ndromes mais complexas constituem reflexos de uma cultura que passa por momentos de indefini&ccedil;&atilde;o e mudan&ccedil;a com rela&ccedil;&atilde;o a valores sociais rompendo com aspectos que eram considerados primordiais desde tempos anteriores. Desta feita, pensamos que uma revis&atilde;o nos aspectos relacionados a essa nova demanda e a cl&iacute;nica da atualidade se faz pertinente. </p>      <p >As subjetividades contempor&acirc;neas refletem certo grau de fragmenta&ccedil;&atilde;o do sujeito e conseq&uuml;&ecirc;ncias desse processo sobressaem em seu sofrimento ps&iacute;quico que ganha novos contornos. A fim de refletir sobre tais condi&ccedil;&otilde;es propomos neste artigo um breve retorno ao processo de constitui&ccedil;&atilde;o do sujeito ps&iacute;quico e aos fundamentos b&aacute;sicos da psican&aacute;lise para que possamos delinear e compreender um pouco mais a respeito dos processos subjetivos contempor&acirc;neos e suas vicissitudes. Estamos cientes de que apesar de ser uma problem&aacute;tica da cl&iacute;nica n&atilde;o podemos abandonar a id&eacute;ia de que esse processo se encontra mediado por algo tamb&eacute;m da cultura calcada na pr&oacute;pria crise da subjetividade p&oacute;s-moderna, portanto, ambas, cultura e cl&iacute;nica inter-relacionadas no estabelecimento do perfil atual da demanda cl&iacute;nica. </p>      <p >A maioria dos autores com os quais trabalhamos, e que s&atilde;o citados no corpo do presente artigo, admite que pode haver uma falha b&aacute;sica na constitui&ccedil;&atilde;o do eu narc&iacute;sico ou mesmo nas inst&acirc;ncias ideais desses sujeitos, ou seja, uma falha no recalcamento prim&aacute;rio atribu&iacute;da a uma esp&eacute;cie de insufici&ecirc;ncia (ou inefici&ecirc;ncia) dos cuidados maternos na primeira inf&acirc;ncia. Como conseq&uuml;&ecirc;ncia, a escolha do objeto (o outro da rela&ccedil;&atilde;o) se daria com base na elei&ccedil;&atilde;o narcisista na qual ocorre a identifica&ccedil;&atilde;o. Na impossibilidade de escolha do objeto externo elege-se o objeto a partir da imagem e semelhan&ccedil;a do pr&oacute;prio eu transformado em seu pr&oacute;prio ideal que se converteu em substituto do investimento er&oacute;tico. Sup&otilde;e-se que &eacute; pela identifica&ccedil;&atilde;o narcisista com o objeto que o investimento libidinal retorna ao eu n&atilde;o se direcionando ao objeto externo como esperado ficando, portanto, estagnado. A impossibilidade do estabelecimento dos processos terci&aacute;rios (Green, 2001) n&atilde;o poderia se dar e conseq&uuml;entemente a sa&iacute;da da condi&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica para a condi&ccedil;&atilde;o ed&iacute;pica, substrato da alteridade, tamb&eacute;m n&atilde;o se daria. </p>      <p>&nbsp;</p>        <p >AS CONFIGURA&Ccedil;&Otilde;ES NARC&Iacute;SICAS ATUAIS: CIRCUNSCREVENDO O FEN&Ocirc;MENO</p>        <p >A grande parte das queixas que vemos aparecer na cl&iacute;nica nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas diz de um mal estar difuso e invasor, um sentimento de vazio interior. Dito de outra forma, as configura&ccedil;&otilde;es subjetivas contempor&acirc;neas tendem a apresentar um sujeito que tr&aacute;s um sofrimento ps&iacute;quico que parece estar menos relacionado a conflitos neur&oacute;ticos cl&aacute;ssicos, regulados pela l&oacute;gica da castra&ccedil;&atilde;o e do desejo. O que tende a aparecer na cl&iacute;nica &eacute; algo da ordem do desamparo primordial, como ressaltado por Freud. A maioria dos sintomas neur&oacute;ticos cl&aacute;ssicos que correspondem em grande parte a uma sociedade mais repressiva, tir&acirc;nica, autorit&aacute;ria e puritana deram lugar &agrave;s desordens narcisistas que s&atilde;o mais coerentes com uma sociedade permissiva e tamb&eacute;m mais ecl&eacute;tica em suas manifesta&ccedil;&otilde;es, como a que vivemos na atualidade. Os pacientes n&atilde;o sofrem tanto de sintomas fixos e exuberantes na sua forma, mas, sim, de perturba&ccedil;&otilde;es vagas, sentimentos de vazio e uma queixa freq&uuml;ente que se reflete na incapacidade de sentir as coisas e as pessoas. Como observa Lipovetsky (2005): &#8220;A patologia mental obedece &agrave; lei da &eacute;poca (...): a crispa&ccedil;&atilde;o neur&oacute;tica foi substitu&iacute;da pela flutua&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica&#8221; (p. 55). </p>      <p >No consult&oacute;rio cl&iacute;nico falamos daqueles pacientes cujas din&acirc;micas ps&iacute;quicas se apresentam pautadas pelo mecanismo da clivagem, mais do que pelo recalcamento, e cuja caracter&iacute;stica &eacute; a de ser uma rea&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica &agrave; atitude do outro da rela&ccedil;&atilde;o primordial (o objeto primitivo) que pode ser dupla: ou a falta de liga&ccedil;&atilde;o ou um excesso de fus&atilde;o. No mecanismo da clivagem, como salientado por Green (2001), o retorno dos elementos segregados se acompanha de grave amea&ccedil;a de desamparo, o que &eacute; diferente do recalcamento, na qual o retorno do reprimido d&aacute; origem ao sinal de ang&uacute;stia. </p>        <p >Entendemos que determinados escritos de Freud sobre o narcisismo e a idealiza&ccedil;&atilde;o s&atilde;o essenciais para a compreens&atilde;o dessas formas de constitui&ccedil;&atilde;o das subjetividades contempor&acirc;neas. Em Freud evidenciamos algumas dessas quest&otilde;es j&aacute; antecipadas no artigo de 1914, <i>&Aacute; guisa de introdu&ccedil;&atilde;o ao narcisismo </i>e no artigo de 1921, <i>Psicologia de grupo e an&aacute;lise do ego</i>. No texto de 1914, Freud levanta considera&ccedil;&otilde;es a respeito dos mecanismos de idealiza&ccedil;&atilde;o, sublima&ccedil;&atilde;o e identifica&ccedil;&atilde;o que foram posteriormente repensadas em 1921. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >Neste artigo Freud analisa o comportamento dos grupos como simples manifesta&ccedil;&otilde;es dos mesmos, mas podemos ver impl&iacute;cita no texto, como pano de fundo, a realidade social na qual Freud est&aacute; inserido, qual seja, o final da primeira guerra mundial em <st1:metricconverter ProductID="1918, a" w:st="on">1918, a</st1:metricconverter> revolu&ccedil;&atilde;o sovi&eacute;tica em 1917 e a ascens&atilde;o do movimento nazista e fascista na Alemanha, na &Aacute;ustria e em toda a Europa. Um momento hist&oacute;rico marcado por intenso <i>stress </i>psicol&oacute;gico caracterizado pelos traumas de guerra recentes, pelas quest&otilde;es segregacionistas que se engendram na sociedade e pela viol&ecirc;ncia psicol&oacute;gica do cerceamento dos valores e ideais de cada um. </p>      <p >Nos dias de hoje, o que podemos dizer de uma sociedade como a nossa que se v&ecirc; compelida por uma revolu&ccedil;&atilde;o calcada nos avan&ccedil;os cient&iacute;ficos e tecnol&oacute;gicos, muitas vezes, em descompasso com a possibilidade de apreens&atilde;o imediata pelo indiv&iacute;duo; uma sociedade competitiva que pode gerar o empobrecimento da experi&ecirc;ncia coletiva e valorizar os interesses e as demandas &iacute;ntimas? Que bases essa sociedade estaria oferecendo para a constitui&ccedil;&atilde;o da individua&ccedil;&atilde;o/subjetiva&ccedil;&atilde;o? E mais, o que dizer dos sujeitos, estes n&atilde;o estariam sendo sobrecarregados e prejudicados pelos padr&otilde;es de efici&ecirc;ncia dessa sociedade altamente desenvolvida? E qual o destino desse sujeito? </p>      <p >Como aludido por Freud nos artigos supracitados, nos momentos de indefini&ccedil;&otilde;es, de grandes e r&aacute;pidas mudan&ccedil;as o sujeito esbo&ccedil;a um movimento regressivo, um movimento narc&iacute;sico direcionado a si pr&oacute;prio, ou seja, o eu deste sujeito se comporta como objeto de seu pr&oacute;prio investimento o qual se caracterizaria por uma idealiza&ccedil;&atilde;o de si, uma forma de se sentir pleno. Pensamos que o destino do sujeito hoje, em nossa sociedade, seria uma volta a si marcada pelo retorno &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o da perfei&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica e a prote&ccedil;&atilde;o e satisfa&ccedil;&atilde;o da viv&ecirc;ncia simbi&oacute;tica com o objeto primordial alojado dentro de si. </p>        <p >Se por um lado um modo narc&iacute;sico de subjetiva&ccedil;&atilde;o na contemporaneidade est&aacute; sinalizado pela descontra&ccedil;&atilde;o nos relacionamentos e nos ambientes, no culto ao natural, na rapidez das demandas, na mudan&ccedil;a dos valores e numa &eacute;tica mais tolerante e permissiva, tamb&eacute;m s&atilde;o sinais inerentes a essa subjetiva&ccedil;&atilde;o o <i>stress </i>e a depress&atilde;o e uma inclina&ccedil;&atilde;o &agrave; ang&uacute;stia e ansiedade mais profundas causadas pelo desapego da coisa externa. Nesta condi&ccedil;&atilde;o, o sujeito v&ecirc; amea&ccedil;ado seu projeto de vida pela impossibilidade de poder vivenciar plenamente suas experi&ecirc;ncias. A subjetiva&ccedil;&atilde;o na p&oacute;s-modernidade poderia se definir por uma disjun&ccedil;&atilde;o na qual entra em cena uma esp&eacute;cie de incapacidade de enfrentamento das inst&acirc;ncias p&uacute;blicas, fazendo com que o sujeito encontre mais espa&ccedil;o em seu mundo interiorizado. Nestes termos falamos de uma subjetividade mais narc&iacute;sica. </p>      <p >O indiv&iacute;duo na sociedade atual tem sido convocado para a busca do perfeito: corpo, <i>status</i>, trabalho, efici&ecirc;ncia, estilo e modo de vida. Como escapar dessa solicita&ccedil;&atilde;o? Podemos formular a resposta de que a forma mais comumente encontrada &eacute; a de tentar banir os afetos humanos b&aacute;sicos como a ang&uacute;stia e a tristeza do luto procurando dispositivos para sed&aacute;-los. As drogas, l&iacute;citas e il&iacute;citas, ganham espa&ccedil;o e, n&atilde;o &eacute; sem raz&atilde;o, que a droga mais difundida na atualidade, para esse prop&oacute;sito, sejam os anti-depressivos. As pessoas procuram cada vez mais os consult&oacute;rios m&eacute;dico-psiqui&aacute;tricos na busca da solu&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida para aplacar sua dor. Solu&ccedil;&atilde;o indolor, artificial, paliativa. </p>      <p >De tal sorte que a cl&iacute;nica psicanal&iacute;tica contempor&acirc;nea se v&ecirc; confrontada por configura&ccedil;&otilde;es psicopatol&oacute;gicas diferenciadas, mas que encontra par&acirc;metros de compara&ccedil;&atilde;o nos escritos psicanal&iacute;ticos freudianos e de seguidores da psican&aacute;lise, especialmente no per&iacute;odo compreendido entre as duas grandes guerras mundiais, per&iacute;odo esse contempor&acirc;neo aos escritos freudianos da segunda t&oacute;pica. Daquela &eacute;poca espec&iacute;fica temos registro de relatos de casos ditos &#8220;estados limites&#8221; (ou <i>borderlines</i>) que falam de estados diferenciados dos casos cl&aacute;ssicos freudianos, estes pautados na neurose. Um dos seguidores de Freud e representante desse momento &eacute; Fairbairn (1980) que na d&eacute;cada de 40 se interessava pelas configura&ccedil;&otilde;es cl&iacute;nicas derivadas do processo regressivo constitu&iacute;do por fortes desestrutura&ccedil;&otilde;es eg&oacute;icas, depend&ecirc;ncia absoluta do outro e impossibilidade de individua&ccedil;&atilde;o, modos que marcavam os pacientes descritos pelo autor. </p>      <p >&Eacute; uma das tem&aacute;ticas cl&iacute;nicas cl&aacute;ssicas que sobrev&ecirc;m no final da d&eacute;cada de 30 e in&iacute;cio de 40, possivelmente fundamentada numa situa&ccedil;&atilde;o social conturbada que ressurge nos dias de hoje, n&atilde;o referenciado a um conflito &uacute;nico e de grande porte como naquela &eacute;poca, mas de pequenas lutas cotidianas, geradoras de intenso <i>stress, </i>e de magnitude semelhante. De acordo com Amaral (2000) surge &#8220;como um efeito especular das tend&ecirc;ncias s&oacute;cio-culturais &agrave; fragmenta&ccedil;&atilde;o e das ang&uacute;stias narc&iacute;sicas&#8221; contempor&acirc;neas (p. 06). </p>      <p >O que tem predominado atualmente na cena psicanal&iacute;tica cl&iacute;nica s&atilde;o as chamadas &#8220;neuroses mistas&#8221;, nas quais as manifesta&ccedil;&otilde;es do eu do indiv&iacute;duo aparecem, freq&uuml;entemente, fragmentadas e descentradas. Trata-se de indiv&iacute;duos praticamente impossibilitados de se individuarem e que se apresentam incapazes, muitas vezes, de enfrentar uma situa&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica cl&aacute;ssica. Configuram sua subjetividade baseada numa falta de apoio interno necess&aacute;ria a uma viv&ecirc;ncia plena, caracter&iacute;stica de uma car&ecirc;ncia de natureza narc&iacute;sica oriunda de falhas nas etapas de desenvolvimento mais precoce, portanto, anterior ao desenvolvimento do complexo ed&iacute;pico e a viv&ecirc;ncia da castra&ccedil;&atilde;o, no sentido freudiano. </p>      <p >Acrescido a isso esses indiv&iacute;duos parecem n&atilde;o encontrar na cultura respaldo e amparo necess&aacute;rios para conseguir superar suas dificuldades internas. Como evidenciamos anteriormente e como coloca Safra (1999) &#8220;nossa cultura est&aacute; t&atilde;o impregnada pela idolatria da individualidade que perde de vista que o homem &eacute; um ser singular que abriga o coletivo&#8221; (p. 145). </p>      <p >Green (2001) tem trabalhado na cl&iacute;nica a respeito das formas narc&iacute;sicas de constitui&ccedil;&atilde;o do sujeito contempor&acirc;neo desde a d&eacute;cada de 60. Tais formas s&atilde;o configuradas por este autor no que denomina de configura&ccedil;&otilde;es narc&iacute;sicas ou casos limites (tamb&eacute;m chamado de estados limites ou <i>borderlines</i>) e tem sido um autor interessado nas quest&otilde;es sociais &agrave;s quais procura dar &ecirc;nfase por acreditar que estejam cada vez mais no centro das preocupa&ccedil;&otilde;es da cl&iacute;nica na atualidade. Green (2001) descreve os pacientes narc&iacute;sicos como sendo pessoas cuja capacidade de fantasiar &eacute; muito mais utilizada como forma de preenchimento do vazio; s&atilde;o pessoas que possuem um retardo afetivo acentuado, isto &eacute;, t&ecirc;m horror aos apetites sexuais e orais e, neste caso, se encontra, por exemplo, a quest&atilde;o da anorexia. Para ele, esse paciente vai se constituindo como sendo aquele que est&aacute; diante de uma enorme vergonha de ser um sujeito pulsional, libidinal, submetido ao desejo e a excita&ccedil;&atilde;o do corpo. Segundo Green, nesses pacientes, a quest&atilde;o do corpo &eacute; complicada porque o corpo, na sua materialidade, &eacute; algo dif&iacute;cil de suportar. Aquilo que aponta para o fato de que este sujeito &eacute; mortal, que est&aacute; submetido ao desejo, &agrave; lei, ao limite, &agrave; velhice, &agrave; fei&uacute;ra, tudo isso, &eacute; insuport&aacute;vel, pois precisamente o que est&aacute; em jogo &eacute; a purifica&ccedil;&atilde;o, a tentativa de atingir um limite do ascetismo, do puro, daquele que n&atilde;o necessita de nada, que n&atilde;o &eacute; contaminado. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >Anzieu (2000) observa que a cl&iacute;nica psicanal&iacute;tica se encontra confrontada nestas &uacute;ltimas d&eacute;cadas com a necessidade de delimitar os dist&uacute;rbios narc&iacute;sicos de personalidade (que s&atilde;o muitas vezes ligados &agrave;s neuroses de car&aacute;ter) e os estados limites. O autor complementa que em ambas as categorias, trata-se de pacientes com experi&ecirc;ncias ruins de individua&ccedil;&atilde;o e separa&ccedil;&atilde;o. Segundo ele, certas caracter&iacute;sticas de funcionamento ps&iacute;quico decorrem da&iacute;: s&atilde;o pessoas que n&atilde;o se sentem seguras; que vivem no aqui e agora; cujo modo de comunica&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fico &eacute; a narra&ccedil;&atilde;o, contam o fato e n&atilde;o a emo&ccedil;&atilde;o que sentiram; que tendem a n&atilde;o aprender pela experi&ecirc;ncia vivida pessoal; com dificuldade de se desprender intelectualmente de seu vivido; que na vida social permanecem grudadas (no sentido de fus&atilde;o) aos outros ou, excessivamente afastadas e que temem a penetra&ccedil;&atilde;o seja ela do olhar ou sexual. </p>      <p >Pontalis (2005) considera uma conquista da psican&aacute;lise o fato de ter reconhecido a exist&ecirc;ncia de um n&uacute;cleo psic&oacute;tico atuante no indiv&iacute;duo dito neur&oacute;tico e, inversamente, ter reconhecido a exist&ecirc;ncia de uma parte neur&oacute;tica no psic&oacute;tico. O autor pondera que fatores culturais devem ser levados em considera&ccedil;&atilde;o na elucida&ccedil;&atilde;o desses pacientes limites cuja denomina&ccedil;&atilde;o nosol&oacute;gica de sua enfermidade pode receber o nome de: neuroses-mistas, casos-limites, neuroses de car&aacute;ter, personalidades narc&iacute;sicas, etc. </p>        <p >Figueiredo (2003) se refere a essa modalidade cl&iacute;nica como a cl&iacute;nica dos pacientes dif&iacute;ceis com uma fenomenologia psicopatol&oacute;gica e exig&ecirc;ncias t&eacute;cnicas espec&iacute;ficas. Figueiredo articula o que ele considera ser a nova cl&iacute;nica, com os determinantes hist&oacute;ricos e culturais dos processos de subjetiva&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea e com os mecanismos metapsicol&oacute;gicos predominantes. O autor justifica trazendo para o contexto a metapsicologia de Fairbairn, ou seja, a metapsicologia da esquizoidia fairbairniana que fala de uma experi&ecirc;ncia anal&iacute;tica situada hist&oacute;rica e culturalmente. O autor acrescenta ainda que essa posi&ccedil;&atilde;o metapsicol&oacute;gica de Fairbairn diz mais da experi&ecirc;ncia contempor&acirc;nea do que diria a metapsicologia de Freud, pois essa experi&ecirc;ncia contempor&acirc;nea, qual seja, uma subjetiva&ccedil;&atilde;o esquiz&oacute;ide e fragmentada, se daria exatamente pela caracter&iacute;stica hist&oacute;rico-cultural do ultra-individualismo contempor&acirc;neo, que promove mais o afastamento das pessoas do que sua liga&ccedil;&atilde;o. Figueiredo vai falar de uma nova patologia denominada <i>sociofobia </i>sugerindo uma resson&acirc;ncia entre o que Fairbairn dizia a respeito do futuro em sua &eacute;poca e o que estaria acontecendo atualmente, ou seja, os fen&ocirc;menos sociais experimentados no final do s&eacute;culo XX e princ&iacute;pio do s&eacute;culo XXI. Segundo Figueiredo na cl&iacute;nica contempor&acirc;nea as melancolias cl&aacute;ssicas baseadas na culpa, as auto recrimina&ccedil;&otilde;es severas e os ataques cl&aacute;ssicos de ang&uacute;stia tendem ao desaparecimento e no seu lugar aparece uma esp&eacute;cie de desconforto consigo mesmo. N&atilde;o se trata de uma fala vazia, segundo ele, mas de uma dor, de um grito que vem de dentro, que afeta o sujeito. </p>      <p >Fairbairn (1940/1980) faz uma diferencia&ccedil;&atilde;o quando se refere &agrave; depress&atilde;o como uma esp&eacute;cie de rea&ccedil;&atilde;o defensiva contra uma estrutura endops&iacute;quica b&aacute;sica, contra a esquizoidia. Segundo ele, a esquizoidia provoca uma sensa&ccedil;&atilde;o de t&eacute;dio e depress&atilde;o porque sup&otilde;e uma separa&ccedil;&atilde;o e distanciamento do sujeito com ele mesmo. O estado depressivo em Fairbairn difere da queixa melanc&oacute;lica grave, ou seja, a depress&atilde;o em Fairbairn aparece como uma falta de interesse pelas coisas externas, de desligamento do mundo e de retorno a si. </p>        <p >O que caracteriza a psicopatologia de Fairbairn &eacute; o fato de estar calcada nos estados esquiz&oacute;ides e nos estados depressivos que se referem, respectivamente, &agrave; perda do eu e &agrave; perda do objeto. Em sua teoria os estados esquiz&oacute;ides se devem &agrave; psicog&ecirc;nese do eu e n&atilde;o s&atilde;o fatores que acontecem ocasionalmente. Para Fairbairn a base da psicog&ecirc;nese s&atilde;o as rela&ccedil;&otilde;es de objeto, pois as mesmas s&atilde;o fundamentais em fun&ccedil;&atilde;o da depend&ecirc;ncia absoluta do ser humano ao nascer com rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s pessoas que dele cuidam. E essa depend&ecirc;ncia, segundo ele, se deve ao desamparo com o qual todos n&oacute;s nos deparamos. A psicog&ecirc;nese do desenvolvimento da subjetividade, ou utilizando um termo mais pr&oacute;prio de Fairbairn, o desenvolvimento da personalidade, deve passar dessa depend&ecirc;ncia absoluta com respeito aos objetos e ir em dire&ccedil;&atilde;o a uma independ&ecirc;ncia mais madura. Interessante observar, mais uma vez, que a teoria de Fairbairn foi escrita num tempo em que a necessidade e a sobreviv&ecirc;ncia f&iacute;sica das pessoas estava em evid&ecirc;ncia e era herdeira desse estado de coisas. </p>      <p >Desta feita, a cl&iacute;nica contempor&acirc;nea pode ser caracterizada, utilizando a express&atilde;o de Green (1988) como uma <i>cl&iacute;nica do vazio </i>relacionada aos estados limites cuja caracter&iacute;stica &eacute; a presen&ccedil;a de configura&ccedil;&otilde;es narc&iacute;sicas. As quest&otilde;es do narcisismo est&atilde;o em primeiro plano. Ou seja, pode-se perceber um desinvestimento muito forte do sujeito, ou melhor, um investimento no eu, mas que visa uma redu&ccedil;&atilde;o a um n&iacute;vel zero de tens&atilde;o. </p>      <p >Na an&aacute;lise empreendida pelos autores acima citados, evidenciamos que tais patologias afetam o sentido e o valor do eu. Verifica-se nesses casos um tipo de escolha de objeto de tipo narc&iacute;sico na qual as rela&ccedil;&otilde;es com o objeto apresentam uma caracter&iacute;stica peculiar: uma forma de funcionamento defensivo que privilegia os mecanismos de recusa, apresentando um processo limitado de elabora&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica mais pr&oacute;ximo da condi&ccedil;&atilde;o neur&oacute;tica, mas que ao se descompensar tende a funcionar de uma forma negativa (na acep&ccedil;&atilde;o de Green) com produ&ccedil;&otilde;es de sintomas psicossom&aacute;ticos, explos&otilde;es no corpo, p&acirc;nico e condutas aditivas de toda ordem; uma tend&ecirc;ncia a valorizar a incid&ecirc;ncia das caracter&iacute;sticas dos v&iacute;nculos intersubjetivos e suas falhas, relativas &agrave; &eacute;pocas bastante precoces de constitui&ccedil;&atilde;o do eu. Tais sujeitos funcionariam, em termos ps&iacute;quicos, de acordo com uma organiza&ccedil;&atilde;o mais primitiva ou mesmo mais fusional em rela&ccedil;&atilde;o ao outro complementar (o objeto ps&iacute;quico). </p>      <p >Para tentarmos compreender um pouco a respeito desta din&acirc;mica ps&iacute;quica vamos seguir as etapas de constitui&ccedil;&atilde;o do eu procurando defini-las em termos da s&eacute;rie de objetos parciais que v&atilde;o se sucedendo. </p>      <p>&nbsp;</p>          <p>A EXPERI&Ecirc;NCIA TORNADA OBJETO</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p ><i>&#8220;A completude narcisista n&atilde;o &eacute; signo de sa&uacute;de, mas miragem de morte, ningu&eacute;m &eacute; sem objeto. Ningu&eacute;m &eacute; o que &eacute; sem objeto&#8221; </i></p>      <p >Andr&eacute; Green (1988, p. 211) </p>      <p >&nbsp;</p>        <p >Em trabalho anterior (Lazzarini, 2006) fizemos refer&ecirc;ncia ao conceito de eu e de corpo em psican&aacute;lise observando que a inst&acirc;ncia eu e a inst&acirc;ncia corpo, do ponto de vista ps&iacute;quico, n&atilde;o &eacute; algo dado <i>a priori </i>e nem tampouco de forma completa e absoluta, mas que se constitui na experi&ecirc;ncia e nas viv&ecirc;ncias apreendidas com o outro (o objeto primordial). &Eacute; o outro que concede e possibilita o nascimento do corpo do sujeito e, portanto, a constitui&ccedil;&atilde;o de seu eu. No entanto, se o outro/objeto n&atilde;o propicia suficientemente contato com o beb&ecirc;, por uma aus&ecirc;ncia, por exemplo, via depress&atilde;o (Aulagnier, 2002), o desinvestimento poder&aacute; provocar sa&iacute;das que s&atilde;o expressas nas v&aacute;rias formas de dissocia&ccedil;&atilde;o, desde as mais amenas at&eacute; as mais graves. </p>      <p >Teoricamente, o nascimento do beb&ecirc; colocaria um fim &agrave; experi&ecirc;ncia de auto-sufici&ecirc;ncia e uni&atilde;o narc&iacute;sicas. As repetidas experi&ecirc;ncias, na rela&ccedil;&atilde;o m&atilde;e/beb&ecirc;, de gratifica&ccedil;&atilde;o e a expectativa de seu retorno devem dar ao beb&ecirc; a confian&ccedil;a &iacute;ntima para tolerar a fome e o desconforto emocional. Ao mesmo tempo, essa s&eacute;rie de experi&ecirc;ncias tamb&eacute;m deveria refor&ccedil;ar a sua consci&ecirc;ncia de separa&ccedil;&atilde;o, ou seja, tornar claro o que est&aacute; fora, a fonte de gratifica&ccedil;&atilde;o e o que est&aacute; dentro, a necessidade e seu desejo. O beb&ecirc; deve passar, pouco a pouco, a compreender que as suas vontades n&atilde;o controlam o mundo. Em suma, a separa&ccedil;&atilde;o do nascimento naturalmente deve ser seguida por experi&ecirc;ncias adicionais de separa&ccedil;&atilde;o que v&atilde;o constituindo o sujeito humano quanto a sua capacidade criativa que unicamente ele &eacute; capaz de suscitar. </p>      <p >Segundo Green (1988), o objeto materno transformado em estrutura &eacute; conseguido quando o amor do outro/objeto &eacute; considerado seguro para desempenhar esse papel: pode-se suportar a espera e mesmo a depress&atilde;o tempor&aacute;ria. A crian&ccedil;a se sentindo segura mesmo que o objeto materno n&atilde;o esteja l&aacute; presente. Quando o espa&ccedil;o &eacute; assim enquadrado a garantia da presen&ccedil;a da m&atilde;e, em sua aus&ecirc;ncia, pode ser preenchida por fantasias de todos os tipos, inclusive agressivas, que n&atilde;o colocar&atilde;o em risco este continente. Green ressalta que esse espa&ccedil;o constitui o recept&aacute;culo do eu, circunscreve um campo vazio que servir&aacute; para ser ocupado pelos investimentos er&oacute;ticos e agressivos sob a forma de representa&ccedil;&otilde;es de objeto: &#8220;desempenha ent&atilde;o o papel de uma matriz primordial dos investimentos futuros&#8221; (1988, p. 265). </p>      <p >O outro/objeto, na acep&ccedil;&atilde;o do beb&ecirc;, nunca &eacute; total num primeiro momento. Os passos na constitui&ccedil;&atilde;o do sujeito ps&iacute;quico s&atilde;o tra&ccedil;ados em termos da s&eacute;rie de objetos parciais que v&atilde;o se sucedendo. O primeiro momento corresponde ao contexto da indiferencia&ccedil;&atilde;o e da depend&ecirc;ncia total do beb&ecirc; ao objeto/m&atilde;e que ainda n&atilde;o &eacute; percebido como tal. Pelo movimento de incorpora&ccedil;&atilde;o do leite e de contato com o seio o beb&ecirc; tem a possibilidade de recriar o objeto em sua aus&ecirc;ncia pela imagem alucinada do seio. </p>      <p >Em um segundo momento, se daria a instaura&ccedil;&atilde;o do narcisismo prim&aacute;rio e a incipiente constitui&ccedil;&atilde;o do eu, no qual o eu e o outro/objeto est&atilde;o come&ccedil;ando a se diferenciar. Nesse contexto a presen&ccedil;a da m&atilde;e e, principalmente o olhar materno, tem um papel crucial de espelhamento da imagem do beb&ecirc; &#8211; esse objeto narc&iacute;sico que faz ser eu &#8211; quando as vicissitudes, as puls&otilde;es, a dor e o desamparo venham amea&ccedil;ar a exist&ecirc;ncia do pequeno ser. </p>        <p >O terceiro momento trata da constitui&ccedil;&atilde;o do n&atilde;o-eu quando a aus&ecirc;ncia da m&atilde;e j&aacute; come&ccedil;a a se tornar toler&aacute;vel. Em Freud (1920) o jogo da bobine, o jogo do <i>Fort-da, </i>&eacute; a condi&ccedil;&atilde;o elevada a paradigma dos jogos infantis constituintes. Sua opera&ccedil;&atilde;o &eacute; universal e marca a possibilidade de simbolizar o corpo da m&atilde;e em sua aus&ecirc;ncia. Winnicott (1951, 1975) com os conceitos de &#8220;fen&ocirc;meno transicional&#8221; e de &#8220;objeto transicional&#8221; pontua igualmente a constru&ccedil;&atilde;o criativa da primeira possess&atilde;o n&atilde;o-eu criando um espa&ccedil;o intermedi&aacute;rio de experi&ecirc;ncia. Para Winnicott a m&atilde;e, na medida em que d&aacute; suporte &agrave;s necessidades b&aacute;sicas de seu beb&ecirc;, assegura a este a possibilidade de se relacionar com os objetos e, assim fazendo, possibilita ao beb&ecirc; a amplia&ccedil;&atilde;o de seu mundo real. Esse &eacute; um processo que marca o in&iacute;cio da separa&ccedil;&atilde;o do eu e do n&atilde;o eu, onde o objeto vai constituir o s&iacute;mbolo da uni&atilde;o beb&ecirc;-m&atilde;e. </p>      <p >Nesse momento, o beb&ecirc; passa a adquirir uma <i>gestalt </i>corporal e passa ao in&iacute;cio do jogo l&uacute;dico com a pr&oacute;pria imagem. No momento anterior, a crian&ccedil;a necessitava da identidade com a m&atilde;e para suas viv&ecirc;ncias, mas como a m&atilde;e n&atilde;o estava dispon&iacute;vel o tempo todo, isso propiciava &agrave; crian&ccedil;a, fortuitamente, encontrar outros caminhos para integrar seus processos o que ocorre atrav&eacute;s do encontro da imagem especular. &Eacute; no jogo do espelho, no qual a imagem &eacute; submissa &agrave;s vontades do beb&ecirc;, que a onipot&ecirc;ncia se revela. Ao iniciar-se o processo de identifica&ccedil;&atilde;o j&aacute; come&ccedil;a a existir a possibilidade de experimentar os pap&eacute;is sociais atrav&eacute;s do imagin&aacute;rio. O beb&ecirc; passa a reincorporar as vontades anteriores, experimentando-as em contraposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s suas pr&oacute;prias. A condi&ccedil;&atilde;o de realidade impede, em fun&ccedil;&atilde;o do grau de resist&ecirc;ncia, a fantasia onipotente do beb&ecirc;. O objeto caracteriza a zona de liga&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s da qual se faz a comunica&ccedil;&atilde;o entre interno e externo: uma zona de n&atilde;o repeti&ccedil;&atilde;o, de imagina&ccedil;&atilde;o e cria&ccedil;&atilde;o que significa a possibilidade de aprendizagem. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >De acordo com Winnicott (1975) a tarefa de aceita&ccedil;&atilde;o da realidade nunca &eacute; completada. Para o autor, nenhum ser humano est&aacute; livre da tens&atilde;o de relacionar a realidade interna e externa. Para ele, o al&iacute;vio dessa tens&atilde;o &eacute; proporcionado por uma &aacute;rea intermedi&aacute;ria de experi&ecirc;ncia que n&atilde;o &eacute; contestada (artes, religi&atilde;o). Esta &aacute;rea intermedi&aacute;ria, diz Winnicott, est&aacute; em continuidade direta com a &aacute;rea do brincar que &eacute; necess&aacute;ria para o in&iacute;cio de um relacionamento entre o beb&ecirc; e o mundo. O adulto conservaria esta zona intermedi&aacute;ria que no beb&ecirc; constitui a maior parte de experimenta&ccedil;&atilde;o, atrav&eacute;s da viv&ecirc;ncia intensa que diz respeito &agrave; religi&atilde;o, ao viver imaginativo e ao trabalho cient&iacute;fico. A manipula&ccedil;&atilde;o do objeto, assim como a imagem do espelho funcionam, neste caso, como substitutos da m&atilde;e ausente que a crian&ccedil;a domina e faz aparecer e desaparecer. Isso pode ser considerado a reprise, a repeti&ccedil;&atilde;o e tem como fun&ccedil;&atilde;o exteriorizar as viv&ecirc;ncias subjetivas de perda e levar a crian&ccedil;a a se reconhecer como representa&ccedil;&atilde;o de si pr&oacute;pria que lhe vem de fora e que refor&ccedil;a a imagem subjetiva dentro de si. </p>        <p >O quarto momento corresponde &agrave; instaura&ccedil;&atilde;o da castra&ccedil;&atilde;o que vai ressignificar retroativamente as sucessivas perdas e separa&ccedil;&otilde;es e o reconhecimento das diferen&ccedil;as sexuais. Segundo Green (2000) &#8220;A perda do objeto e a sua elabora&ccedil;&atilde;o chegar&atilde;o &agrave; separa&ccedil;&atilde;o m&atilde;e-crian&ccedil;a e &agrave; tomada de consci&ecirc;ncia da exist&ecirc;ncia efetiva do pai como outro objeto. &Eacute; (...) uma condi&ccedil;&atilde;o indispens&aacute;vel se se quiser falar de &Eacute;dipo precoce. O pai aparece posteriormente, como o separador, mas tamb&eacute;m como outro objeto a se amar. Donde um per&iacute;odo de vaiv&eacute;m, por parte da crian&ccedil;a, entre a m&atilde;e e o pai&#8221;(pp. 142-143). Esse corte dar&aacute; a crian&ccedil;a a possibilidade de outros destinos pulsionais que n&atilde;o o incestuoso, instaurando a condi&ccedil;&atilde;o do desejo. Para esses desdobramentos o sistema narcisista do eu &eacute; insuficiente. Ser&aacute; pela opera&ccedil;&atilde;o de incorpora&ccedil;&atilde;o do supereu, constitu&iacute;do pela interdi&ccedil;&atilde;o ao incesto, pela instaura&ccedil;&atilde;o da censura e do limite, que essa descontinuidade vai se dar. A interven&ccedil;&atilde;o do pai, como representante da cultura, possibilitar&aacute; &agrave; crian&ccedil;a o amparo para que ela possa suportar o vazio e, ao mesmo tempo, preench&ecirc;-lo com sua pr&oacute;pria hist&oacute;ria. </p>      <p >&Eacute; justamente o segundo momento que nos interessa para entendermos as condi&ccedil;&otilde;es de estabelecimento dos dist&uacute;rbios narc&iacute;sicos e a prec&aacute;ria estrutura&ccedil;&atilde;o eg&oacute;ica dos sujeitos. Os dist&uacute;rbios narc&iacute;sicos de personalidade ter&atilde;o como ponto de partida justamente as falhas do adulto em responder &agrave;s necessidades de reconhecimento e espelhamento assim como a dist&acirc;ncia e/ou aus&ecirc;ncia de figuras idealizadas que possam ser objeto de identifica&ccedil;&atilde;o. A ilus&atilde;o de totalidade do eu especular, quando compartilhada pelos pais e pela crian&ccedil;a, mant&eacute;m uma ilus&atilde;o de continuidade e de reciprocidade dos desejos. Neste momento, &eacute; essa ilus&atilde;o que dever&aacute; ser mantida igual, cotidianamente, pela crian&ccedil;a, pois a instabilidade introduzida pela aus&ecirc;ncia da m&atilde;e torna a crian&ccedil;a carente dessa presen&ccedil;a. Para crian&ccedil;as muito pequenas, a separa&ccedil;&atilde;o da presen&ccedil;a encarnada da m&atilde;e muito prolongada pelo tempo, torna-se insuport&aacute;vel e pode ser considerada por ela como um desaparecimento definitivo que &eacute;, muitas vezes, sentido como um abandono. O retorno posterior da m&atilde;e pode provocar uma rea&ccedil;&atilde;o de estranhamento, com rea&ccedil;&otilde;es agressivas, indiferen&ccedil;a ou n&atilde;o reconhecimento. A crian&ccedil;a pensar&aacute; a m&atilde;e como &#8220;morta&#8221;, o que nesse momento se traduz como &#8220;nunca ter existido&#8221;. Nesse caso, a crian&ccedil;a se esfor&ccedil;a por manter cativa a imagem da m&atilde;e, lutando contra seu desaparecimento &#8220;vendo reavivarem-se alternadamente as marcas mn&ecirc;micas do amor perdido com nostalgia e as da experi&ecirc;ncia da perda, que se traduz pela impress&atilde;o de uma dolorosa vacuidade&#8221; (Green, 1988, p. 266). </p>      <p >Anterior &agrave; instala&ccedil;&atilde;o do que chamamos acima o terceiro momento da constitui&ccedil;&atilde;o do sujeito, portanto entre o segundo e o terceiro momento, podemos examinar a quest&atilde;o da realidade do <i>borderline</i>. Green (2001) observa que com respeito ao princ&iacute;pio da realidade, o aparato ps&iacute;quico tem que decidir se o objeto est&aacute; ou n&atilde;o est&aacute; presente: <i>sim ou n&atilde;o. </i>A contribui&ccedil;&atilde;o que Green traz quanto a essa quest&atilde;o, diz respeito a uma posi&ccedil;&atilde;o que seria prerrogativa do <i>borderline</i>, ou seja, esse paciente diante da quest&atilde;o da aus&ecirc;ncia ou presen&ccedil;a do objeto responderia <i>nem sim, nem n&atilde;o</i>. Essa alternativa, segundo Green, seria uma recusa em decidir o destino do outro/objeto. Pensamos que esta ambig&uuml;idade seria tanto uma salvaguardada para lidar com uma intrus&atilde;o excessiva pela presen&ccedil;a maci&ccedil;a do objeto, quanto estaria tamb&eacute;m possibilitando uma prote&ccedil;&atilde;o da aus&ecirc;ncia total do objeto, que &eacute; sentida como uma perda para sempre. Para este sujeito faz falta diferenciar presen&ccedil;a, aus&ecirc;ncia e perda. </p>        <p >&nbsp;</p>      <p >ASPECTOS METAPSICOL&Oacute;GICOS E CL&Iacute;NICOS DOS FEN&Ocirc;MENOS NARC&Iacute;SICOS</p>        <p >Para a constru&ccedil;&atilde;o de uma compreens&atilde;o metapsicol&oacute;gica dos fen&ocirc;menos narc&iacute;sicos, subjacente &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o do sujeito <i>borderline</i>, podemos refletir sobre tr&ecirc;s aspectos: a constitui&ccedil;&atilde;o do eu corporal, as condi&ccedil;&otilde;es de instala&ccedil;&atilde;o do auto-erotismo e a rela&ccedil;&atilde;o pr&eacute;-edipiana m&atilde;e/beb&ecirc;. </p>      <p >Como vimos acima, o que vai construindo para o sujeito a imagem de seu corpo e, conseq&uuml;entemente, sua identidade &eacute; o investimento materno pela escuta e interpreta&ccedil;&atilde;o das suas sensa&ccedil;&otilde;es corporais. O beb&ecirc; est&aacute; impossibilitado de suprir suas necessidades mais b&aacute;sicas de sobreviv&ecirc;ncia e, sendo assim, sua depend&ecirc;ncia a esse outro se instala. A fun&ccedil;&atilde;o alimentar tem a&iacute; um destaque primordial na constitui&ccedil;&atilde;o do corpo er&oacute;geno, cujo funcionamento &eacute; fruto das primeiras rela&ccedil;&otilde;es m&atilde;e/beb&ecirc;. Uma falha na possibilidade de constitui&ccedil;&atilde;o desse corpo e no estabelecimento de fronteiras protetoras podem estabelecer fissuras no eu que tender&atilde;o a impedir o estabelecimento da &#8220;metaforiza&ccedil;&atilde;o do amor materno&#8221; (Amaral, 2000, p. 7) fundamental para a constitui&ccedil;&atilde;o do eu do sujeito. </p>      <p >De acordo com Green (1988), caso essa fun&ccedil;&atilde;o protetora n&atilde;o ocorra o corpo, como apar&ecirc;ncia, fonte de prazer, sedu&ccedil;&atilde;o e de conquista do outro, &eacute; banido. O corpo pr&oacute;prio, segundo ele, nesses casos, &eacute; o outro que ressurge, ou seja, o eu/corpo se faz presente como parte do corpo materno. Portanto, o sujeito narcisista estar&aacute; impregnado deste outro em seu pr&oacute;prio eu, vivenciando o fato como uma amea&ccedil;a de anula&ccedil;&atilde;o de si. Como conseq&uuml;&ecirc;ncia, o processo de constitui&ccedil;&atilde;o do mundo simb&oacute;lico se v&ecirc; fragmentado induzindo o sujeito para uma exist&ecirc;ncia falsa. </p>      <p >Podemos pensar que nesses sujeitos a capacidade de investimento libidinal n&atilde;o vai se exercer, ou vai se exercer de maneira muito prec&aacute;ria, pois o objeto deve a todo custo ser desinvestido pela pr&oacute;pria condi&ccedil;&atilde;o de superinvestimento. O sujeito desinveste seu corpo passando a ser seu ideal um corpo purificado, sem marcas de sexualidade afastando a possibilidade de ser um sujeito dotado de vida pulsional. O ideal buscado de corpo puro seria o ideal de liberta&ccedil;&atilde;o da marca do outro. Isto constitui uma conduta asc&eacute;tica. </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p >Na condi&ccedil;&atilde;o do sujeito narc&iacute;sico o eu parece n&atilde;o encontrar condi&ccedil;&otilde;es de se enriquecer na rela&ccedil;&atilde;o de objeto e por isto faz um retorno a si tornando-se um eu cujo autocentramento impede a perman&ecirc;ncia do outro. Dessa forma corre o risco de perder o v&iacute;nculo com a realidade. O sujeito narcisista encontra satisfa&ccedil;&atilde;o no seu empobrecimento interior, pois entende que dessa forma ele &eacute; melhor, em fun&ccedil;&atilde;o de ter conseguido, atrav&eacute;s de seu ascetismo, eliminar a depend&ecirc;ncia do objeto. O ideal do eu desses sujeitos est&aacute; impregnado por um desejo de renascimento, individualiza&ccedil;&atilde;o, diferencia&ccedil;&atilde;o. Green (1988) ressalta que ao se colocarem longe dos apetites humanos, orais e sexuais, n&atilde;o pela sublima&ccedil;&atilde;o, que implicaria sua aceita&ccedil;&atilde;o, mas pela recusa, est&atilde;o convencidos de sua superioridade sobre todos os mortais. </p>      <p >Essa depend&ecirc;ncia do corpo encontrada no narcisismo tem suas ra&iacute;zes, como vimos, na rela&ccedil;&atilde;o com a m&atilde;e. Freud (1926[1925]) observa que a aus&ecirc;ncia da m&atilde;e constitui uma situa&ccedil;&atilde;o traum&aacute;tica, dessa forma tornando-se poss&iacute;vel demonstrar que sem uma fun&ccedil;&atilde;o materna de p&aacute;ra-excita&ccedil;&atilde;o o incipiente aparelho ps&iacute;quico do beb&ecirc; ficaria a merc&ecirc; das for&ccedil;as pulsionais. Freud, em <i>Formula&ccedil;&otilde;es sobre os dois princ&iacute;pios do funcionamento mental </i>(1911), ressalta que se as necessidades internas do beb&ecirc; quando n&atilde;o satisfeitas a tempo ou, quando n&atilde;o satisfeitas da forma habitual ou enfim satisfeitas de forma alterada por raz&otilde;es diversas, geram uma esp&eacute;cie de desapontamento no beb&ecirc; que &eacute; por este vivido muito intensamente. O psiquismo do beb&ecirc; tende ent&atilde;o a um re-direcionamento. E este re-direcionamento torna-se estruturante na medida em que o beb&ecirc; dever&aacute; se adaptar as exig&ecirc;ncias da realidade al&eacute;m das suas pr&oacute;prias. </p>      <p >Os sujeitos narc&iacute;sicos s&atilde;o sujeitos que tem na figura do objeto/m&atilde;e uma grande identifica&ccedil;&atilde;o e idealiza&ccedil;&atilde;o e tanto a cumplicidade quanto a sedu&ccedil;&atilde;o s&atilde;o atribu&iacute;das &agrave; ela. H&aacute; uma forte rela&ccedil;&atilde;o de depend&ecirc;ncia com a m&atilde;e, depend&ecirc;ncia ambivalente, que s&atilde;o deslocados para todos os outros objetos. O recuo para o mundo interno pode ser uma das tentativas de lidar com essa depend&ecirc;ncia, ou seja, o afastamento pode ser uma fun&ccedil;&atilde;o reguladora que serviria como salvaguarda da identidade: uma forma de prote&ccedil;&atilde;o contra uma amea&ccedil;a de invas&atilde;o do eu e a subseq&uuml;ente amea&ccedil;a de desintegra&ccedil;&atilde;o. A conseq&uuml;&ecirc;ncia dessa impossibilidade de obter uma experi&ecirc;ncia satisfat&oacute;ria precoce na rela&ccedil;&atilde;o sujeito/objeto pode levar o sujeito ao fracasso rumo ao &Eacute;dipo genitalizado. </p>        <p >Na &#8220;patologia narc&iacute;sica&#8221; haveria uma impossibilidade de elabora&ccedil;&atilde;o satisfat&oacute;ria da etapa do narcisismo que ocupa lugar essencial no processo de separa&ccedil;&atilde;o/individua&ccedil;&atilde;o da crian&ccedil;a pequena em rela&ccedil;&atilde;o ao adulto. Isso &eacute; importante no sentido de pensarmos que se nesse confronto com a figura do objeto/m&atilde;e totalizante a possibilidade das etapas do auto erotismo e do narcisismo n&atilde;o puderem se instalar, o beb&ecirc; estaria desamparado para lidar tamb&eacute;m com sua aus&ecirc;ncia. E, se tal aus&ecirc;ncia n&atilde;o puder ser atenuada pelo recurso &agrave; satisfa&ccedil;&atilde;o auto er&oacute;tica, ela ser&aacute; dificilmente suportada. O auto erotismo, conforme salienta Freud, vem em resposta &agrave; perda do objeto que antes dava garantias &agrave; satisfa&ccedil;&atilde;o, ou seja, &eacute; a partir dessa condi&ccedil;&atilde;o que a aus&ecirc;ncia toma toda a sua dimens&atilde;o traum&aacute;tica pela impossibilidade do beb&ecirc; de lidar com as vicissitudes das puls&otilde;es, e sua conseq&uuml;ente fus&atilde;o. </p>      <p >Portanto, a fun&ccedil;&atilde;o materna &eacute; a de proteger, mediar, mas tamb&eacute;m libidinizar o beb&ecirc;. E se isso falhar o mecanismo de introje&ccedil;&atilde;o n&atilde;o poder&aacute; se dar ficando o sujeito restrito &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es do processo de incorpora&ccedil;&atilde;o que &eacute; mais prim&aacute;rio. A introje&ccedil;&atilde;o, como mecanismo secund&aacute;rio, facilitaria para o beb&ecirc;, posteriormente, o enfrentamento de suas necessidades e o exerc&iacute;cio de sua autonomia. </p>      <p >Em suma, todas essas quest&otilde;es relacionadas a um investimento materno prec&aacute;rio e a conseq&uuml;ente dificuldade de introje&ccedil;&atilde;o da fun&ccedil;&atilde;o de p&aacute;ra excita&ccedil;&atilde;o por parte do beb&ecirc;, ou por outro lado um investimento materno demasiadamente intrusivo (a m&atilde;e dos dois extremos) vai perturbar a constitui&ccedil;&atilde;o da identidade do beb&ecirc; e todas as viv&ecirc;ncias a ela relacionadas: percep&ccedil;&atilde;o, representa&ccedil;&atilde;o e sentimento de corpo pr&oacute;prio. O beb&ecirc; passa a viver a situa&ccedil;&atilde;o como uma situa&ccedil;&atilde;o de perigo, como colocado por Freud (1926[1925]), perigo de perda do objeto, perigo da castra&ccedil;&atilde;o, perigo da morte. S&atilde;o viv&ecirc;ncias muito extremas que levam o sujeito a se defender contra elas numa tentativa de se salvaguardar e se diferenciar. </p>      <p >A sa&iacute;da para o impasse da diferencia&ccedil;&atilde;o se daria na medida em que se instala para o beb&ecirc; a possibilidade de um olhar para uma outra cena (o quarto momento aludido acima). Freud (1925) observa que na medida em que a libido &eacute; deslocada do objeto primordial para outros objetos instala-se um campo de identifica&ccedil;&atilde;o com o objeto original marcado pela ambival&ecirc;ncia que &eacute; instaurada. O destino do &Eacute;dipo se dar&aacute;, segundo ele, conforme o desenlace da rela&ccedil;&atilde;o primeira com a m&atilde;e e a entrada do pai configurando a identifica&ccedil;&atilde;o sexual para al&eacute;m da determina&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica do corpo sexuado. A possibilidade de viv&ecirc;ncia do &Eacute;dipo e sua finaliza&ccedil;&atilde;o instaurariam novas identifica&ccedil;&otilde;es que iriam orientar a catexia do sujeito para um tipo particular de objeto posteriormente. Mas a duplicidade narc&iacute;sica pode criar um obst&aacute;culo no acesso ao objeto ficando, dessa forma, a catexia inibida no sujeito. </p>      <p >Com o narcisismo a estrutura se desdobra em uma dupla exig&ecirc;ncia de dire&ccedil;&otilde;es opostas: por um lado, a exig&ecirc;ncia de ser um, exclusivo, perfeito, mas por outro, trata-se de ser &uacute;nico para um outro, para o objeto, ocupado pela fun&ccedil;&atilde;o materna. Ocorre que esse objeto/m&atilde;e se divide entre o olhar que dirige para o filho e o olhar que dirige para a cena ocupada pelo pai (ou quem estiver exercendo sua fun&ccedil;&atilde;o). O sujeito deseja se reverter a esta cena, deseja estar l&aacute; e, ao mesmo tempo, em seu lugar. Esse &eacute; um conflito que dever&aacute; ser superado pela ascend&ecirc;ncia ao &Eacute;dipo. Podemos dizer que a identifica&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica seria a tentativa de ser um em dois lugares e ao mesmo tempo (o que seria imposs&iacute;vel!), enquanto que a identifica&ccedil;&atilde;o ed&iacute;pica seria uma defesa contra esta dublagem. </p>      <p >A fun&ccedil;&atilde;o paterna &eacute; um operador estruturante essencial para qualquer sujeito. No &Eacute;dipo a possibilidade de reorienta&ccedil;&atilde;o da libido para catexizar novos objetos se daria na medida da frustra&ccedil;&atilde;o no confronto com o objeto primordial, ou seja, a escolha segundo um modelo paterno seria uma escolha objetal e segundo um modelo narc&iacute;sico uma escolha narc&iacute;sica, como esp&eacute;cie de identifica&ccedil;&atilde;o regressiva. A escolha objetal teria como fun&ccedil;&atilde;o orientar o desejo no sentido de buscar no objeto/pai o que falta no objeto/m&atilde;e e conseq&uuml;entemente em si mesmo. </p>      <p >A separa&ccedil;&atilde;o m&atilde;e/crian&ccedil;a depende de um duplo consentimento, um contrato de duas partes que relaciona o objeto/m&atilde;e e a crian&ccedil;a com refer&ecirc;ncia a um terceiro em potencial &#8211; o objeto/pai &#8211; que deve estar presente desde o in&iacute;cio na psique da m&atilde;e. Esse processo &eacute; gradual e se acompanha de fases peri&oacute;dicas de reuni&atilde;o com o objeto e de fases nas quais a crian&ccedil;a trata de restabelecer a fus&atilde;o com o objeto materno. Estabelece-se, assim, em fun&ccedil;&atilde;o das frustra&ccedil;&otilde;es inevit&aacute;veis do processo de crescimento, que a crian&ccedil;a tolere sentimentos de bem estar ao lado de sentimentos de ira que est&atilde;o fixados de forma arcaica. S&oacute; dessa forma &eacute; que ambos, m&atilde;e e crian&ccedil;a ser&atilde;o separadas gradualmente. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >No caso dos estados limites a tentativa de separar falha e, em lugar de se promover a separa&ccedil;&atilde;o entre o eu e o objeto, vai se dar uma clivagem, que no caso resulta em uma exclus&atilde;o radical. A clivagem nestes casos ressalta Green (2001), produz uma amputa&ccedil;&atilde;o no eu, pois ela n&atilde;o consegue segregar somente as representa&ccedil;&otilde;es pulsionais destrutivas, segrega tamb&eacute;m partes importantes do eu. No caso da recalcamento, mais caracter&iacute;stico da neurose, a energia ps&iacute;quica continua ligada e os nexos permanecem intactos e se recombinam com outras representa&ccedil;&otilde;es ou afetos derivados dele. </p>      <p >&nbsp;</p>        <p >A CONDI&Ccedil;&Atilde;O PRIMORDIAL DO DESAMPARO E O MECANISMO DA CLIVAGEM NOS CASOS LIMITES</p>        <p >Essa distin&ccedil;&atilde;o &eacute; importante, pois na medida em que avan&ccedil;amos na compreens&atilde;o dos estados limites nos acercamos ao conceito de desamparo freudiano (Freud, 1926[1925]) relacionados aos primeiros momentos de vida. Pensamos que a condi&ccedil;&atilde;o subjetiva destes sujeitos o aproxima da viv&ecirc;ncia do desamparo uma vez que a busca de um semelhante est&aacute; mais motivada pela necessidade de um encontro com um objeto que venha suprir as necessidades mais b&aacute;sicas e priorit&aacute;rias, do que pela busca de um encontro com o objeto do desejo sexual. Como expressa Mc Dougall (1983) Narciso vai desempenhar um papel mais importante que o &Eacute;dipo; a sobreviv&ecirc;ncia ocuparia um lugar mais fundamental no inconsciente que o conflito ed&iacute;pico. </p>        <p >A no&ccedil;&atilde;o de desamparo em Freud aponta para uma condi&ccedil;&atilde;o que &eacute; inerente ao ser humano. Inicialmente Freud configura o desamparo como predominantemente relacionado &agrave; fragilidade f&iacute;sica e ps&iacute;quica pr&oacute;pria do in&iacute;cio da vida. Em 1926 [1925] Freud situa o desamparo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; separa&ccedil;&atilde;o do objeto como constituinte da situa&ccedil;&atilde;o de perigo geradora de ansiedade. Ele observa que o registro mn&ecirc;mico das experi&ecirc;ncias de insatisfa&ccedil;&atilde;o deixa marcas no sujeito e inaugura o sistema de ang&uacute;stia no aparelho ps&iacute;quico. Os estados de ansiedade, segundo Freud, s&atilde;o considerados como uma reprodu&ccedil;&atilde;o da condi&ccedil;&atilde;o de separa&ccedil;&atilde;o do nascimento e surgem, originalmente, como uma rea&ccedil;&atilde;o a um estado de perigo e &eacute; reproduzida sempre que o estado de perigo tornar a ocorrer. </p>      <p >Freud considera a situa&ccedil;&atilde;o do nascimento como a primeira situa&ccedil;&atilde;o de perigo pela qual o indiv&iacute;duo passa, mas o perigo mais prop&iacute;cio a gerar ansiedade, posteriormente, &eacute; o da castra&ccedil;&atilde;o. A situa&ccedil;&atilde;o de perigo que Freud sup&otilde;e iniciar-se no nascimento reaparece frente a situa&ccedil;&otilde;es nas quais a crian&ccedil;a sente que perdeu algo: quando &eacute; deixada sozinha pela m&atilde;e ou quando sente a dor da fome, sentimentos que s&atilde;o experimentados como uma amea&ccedil;a &agrave; pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia. </p>      <p >Freud sup&otilde;e que a experi&ecirc;ncia de desamparo, oriunda da separa&ccedil;&atilde;o, tende a ser dolorosa porque &eacute; precedida da satisfa&ccedil;&atilde;o oce&acirc;nica do &uacute;tero materno e est&aacute; atrelada a incapacidade do indiv&iacute;duo se prover, de modo aut&ocirc;nomo, dos meios para sua sobreviv&ecirc;ncia, f&iacute;sica e mental. Mas o mais importante talvez seja considerar que &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o de situa&ccedil;&atilde;o de perigo o que constitui a amea&ccedil;a de separa&ccedil;&atilde;o do objeto e &eacute; o que vai lan&ccedil;ar o sujeito na situa&ccedil;&atilde;o de desamparo ao longo da vida. Green (1991) ressalta que nos estados em que o sinal de ang&uacute;stia &eacute; ultrapassado por uma sobrecarga do psiquismo, ele perde sua fun&ccedil;&atilde;o sem&acirc;ntica e dispara tarde demais. N&atilde;o se trata, neste caso, segundo Green, de antecipar o perigo, mas de vivenciar os danos de um cataclisma. O autor observa que diante desse quadro &#8220;as transforma&ccedil;&otilde;es do aparelho ps&iacute;quico d&atilde;o &agrave; ang&uacute;stia de castra&ccedil;&atilde;o a apar&ecirc;ncia de ang&uacute;stia social que n&atilde;o &eacute; mais nada do que ang&uacute;stia frente ao superego&#8221; (p. 58). </p>        <p >A no&ccedil;&atilde;o do estado de desamparo articula-se com a n&atilde;o dimens&atilde;o do estabelecimento da alteridade e a conseq&uuml;&ecirc;ncia ps&iacute;quica resultante. A quest&atilde;o do estabelecimento da alteridade, ou seja, o reconhecimento do outro, carrega em si um duplo aspecto: esse outro &eacute; o que protege o indiv&iacute;duo contra o desamparo, mas &eacute; igualmente invasor, em fun&ccedil;&atilde;o da situa&ccedil;&atilde;o de passividade da crian&ccedil;a. Ou seja, o indiv&iacute;duo estaria &agrave; merc&ecirc; desse outro e, conseq&uuml;entemente, diante da constata&ccedil;&atilde;o de sua fragilidade, vai se posicionar diante de um paradoxo: necessita do outro para sua prote&ccedil;&atilde;o e, portanto dele n&atilde;o pode se separar, mas, ao mesmo tempo esse outro que o protege pode tamb&eacute;m amea&ccedil;&aacute;-lo com sua intrus&atilde;o. O indiv&iacute;duo diante disso, poder&aacute; vir a fazer uso de mecanismos defensivos arcaicos, principalmente a clivagem, para fazer frente a essa situa&ccedil;&atilde;o. </p>      <p >&nbsp;</p>        <p >CONCLUS&Atilde;O </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p >&Agrave; guisa de uma conclus&atilde;o sucinta podemos fazer alus&atilde;o &agrave; algumas reflex&otilde;es a respeito do tratamento. Acreditamos que no tratamento desses sujeitos n&oacute;s devemos ter em mente que os sintomas caracter&iacute;sticos dessas patologias foram gerados anterior &agrave; fase ed&iacute;pica e que, desta forma o analista deveria assumir a fun&ccedil;&atilde;o de objeto transicional (no sentido winnicottiano) um objeto que sirva para possibilitar rela&ccedil;&otilde;es objetais. </p>      <p >Podemos pensar com Winnicott que se tivermos a oportunidade de oferecer um    <i>setting </i>terap&ecirc;utico que permita estabelecer um ambiente suficientemente    bom, sustentador e espec&iacute;fico para cada paciente, estaremos criando a    possibilidade de emergir um v&iacute;nculo de presen&ccedil;a e de disponibilidade    necess&aacute;rios e, conseq&uuml;entemente de esperan&ccedil;a. A t&eacute;cnica    winnicottiana que se constitui em outorgar lugar ao enquadre, recomenda a aceita&ccedil;&atilde;o    de estados informais e a atitude n&atilde;o intrusiva, procurando suprir verbalmente    as car&ecirc;ncias dos cuidados maternos para assistir a emerg&ecirc;ncia de    uma rela&ccedil;&atilde;o com o eu e com o objeto at&eacute; o momento em que    o analista possa converter-se em objeto transicional e o espa&ccedil;o em espa&ccedil;o    potencial de &aacute;rea de jogo e &aacute;rea de ilus&atilde;o. De acordo com    Winnicott a an&aacute;lise talvez n&atilde;o seja outra coisa que a capacidade    do paciente de estar s&oacute;, mas na solid&atilde;o povoada pelo jogo<sup><a name="top1"></a><a href="#1">1</a></sup>.  </p>      <p >Green (2001) atesta ainda que no caso desses pacientes &eacute; cada vez maior o n&uacute;mero de analistas que tendem a reintroduzir a presen&ccedil;a potencial do objeto/pai, n&atilde;o por refer&ecirc;ncia expl&iacute;cita a ele, sen&atilde;o pela simples introdu&ccedil;&atilde;o de um elemento terceiro nesta dualidade comunicativa que se constitui a experi&ecirc;ncia anal&iacute;tica. </p>      <p >No caso do paciente <i>borderline </i>pensamos que se acrescenta algo ao processo anal&iacute;tico ao se sugerir o estabelecimento de um espa&ccedil;o entre analista e analisando que sirva &agrave; cria&ccedil;&atilde;o; um espa&ccedil;o de reserva potencial que talvez seja um algo a mais na condu&ccedil;&atilde;o da an&aacute;lise de tais pacientes, pois criaria a condi&ccedil;&atilde;o para o surgimento das condi&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas de manuten&ccedil;&atilde;o do processo anal&iacute;tico. Desta forma podemos pensar que todas as vari&aacute;veis do <i>setting </i>anal&iacute;tico ser&atilde;o consideradas a favor da an&aacute;lise se estiverem comprometidas com a cria&ccedil;&atilde;o e a conserva&ccedil;&atilde;o destas reservas. </p>      <p >Refletindo sobre essa quest&atilde;o pensamos que no sujeito <i>borderline </i>o que seria vital no caminho em dire&ccedil;&atilde;o a independ&ecirc;ncia (no sentido da n&atilde;o depend&ecirc;ncia) n&atilde;o seria uma continua&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia de onipot&ecirc;ncia, mas o restabelecimento da capacidade criativa, pois acreditamos como Winnicott que, em contraste com o reconhecimento de um mundo que &eacute; percebido apenas como algo que exige adapta&ccedil;&atilde;o, dever&iacute;amos definir a experi&ecirc;ncia criativa como uma sensa&ccedil;&atilde;o de que &#8220;a vida &eacute; digna de ser vivida&#8221; (1975, p. 95). </p>        <p >&nbsp;</p>      <p >REFER&Ecirc;NCIAS</p>        <p >Amaral, A. M. (2000). Da patologia das sociedades civilizadas. In Fuks &amp; Ferraz (Orgs.), <i>A cl&iacute;nica conta hist&oacute;rias. </i>S&atilde;o Paulo: Escuta. </p>      <!-- ref --><p >Anzieu, D. (2000). <i>O Eu-pele. </i>S&atilde;o Paulo: Casa do Psic&oacute;logo. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000091&pid=S0870-8231201000020000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p >Aulagnier, P (2002). Nascimento de um corpo, origem de uma hist&oacute;ria. <i>Corpo e hist&oacute;ria. IV Encontro psicanal&iacute;tico D&#8217;Aix-em-Provence. </i>S&atilde;o Paulo: Casa do Psic&oacute;logo. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >Fairbairn, W. R. D. (1940/1980). <i>Estudos psicanal&iacute;ticos da personalidade</i>. Rio de Janeiro: Interamericana. </p>      <p >Figueiredo, L. C. (2003). <i>Psican&aacute;lise. Elementos para a cl&iacute;nica contempor&acirc;nea. </i>S&atilde;o Paulo: Editora Escuta Ltda. </p>      <p >Freud, S. (1911). <i>Formula&ccedil;&otilde;es sobre os dois princ&iacute;pios do funcionamento mental. </i>Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud (vol. XII). Rio de Janeiro: Imago Editora. </p>      <p >Freud, S. (1914). <i>&Agrave; guisa de introdu&ccedil;&atilde;o ao narcisismo </i>(vol. I). Rio de Janeiro: Imago (2004). </p>      <p >Freud, S. (1920). <i>Al&eacute;m do princ&iacute;pio de prazer</i>. Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud (vol. XVIII). Rio de Janeiro: Imago Editora. </p>      <p >Freud, S. (1921). <i>Psicologia de grupo e a an&aacute;lise do ego</i>. Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud (vol. XVIII). Rio de Janeiro: Imago Editora. </p>      <p >Freud, S. (1925). <i>Algumas conseq&uuml;&ecirc;ncias ps&iacute;quicas da distin&ccedil;&atilde;o anat&ocirc;mica entre os sexos. </i>Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud (vol. XIX). Rio de Janeiro: Imago Editora. </p>      <p >Freud, S. (1926[1925]). <i>Inibi&ccedil;&otilde;es, sintomas e ansiedade</i>. Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud (vol. XX). Rio de Janeiro: Imago Editora. </p>      <p >Green, A (1988). <i>Narcisismo de vida, narcisismo de morte</i>. S&atilde;o Paulo: Editora Escuta Ltda. </p>      <p >Green, A (1991). <i>O complexo de castra&ccedil;&atilde;o. </i>Rio de Janeiro: Imago Editora. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >Green, A (2000). <i>As cadeias de Eros. </i>Lisboa: Climepsi Editores. </p>      <p >Green, A (2001). <i>De locuras privadas. </i>Buenos Aires: Amorrortu. </p>        <p >Lazzarini, E. (2006). <i>Emerg&ecirc;ncia do narcisismo na cultura e na cl&iacute;nica psicanal&iacute;tica contempor&acirc;nea: novos rumos, reiteradas quest&otilde;es</i>. Tese de Doutorado. Universidade de Bras&iacute;lia. </p>      <p >Lipovetsky, J. (2005). <i>A era do vazio</i>. S&atilde;o Paulo: Editora Manole. </p>      <p >Mcdougall, J. (1983). <i>Em defesa de uma certa anormalidade. </i>Porto Alegre: Artes M&eacute;dicas. </p>      <p >Pontalis, J. B. (2005). <i>Entre o sonho e a dor. </i>Aparecida, SP: Id&eacute;ias e Letras. </p>      <p >Safra, G. (1999). <i>A face est&eacute;tica do self</i>. <i>Teoria e cl&iacute;nica. </i>S&atilde;o Paulo: Unimarco Editora. </p>      <p >Winnicott, D. (1951). Objetos e fen&ocirc;menos transicionais. <i>Da pediatria &agrave; psican&aacute;lise </i>(1978). Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora. </p>      <p >Winnicott, D. (1958). A capacidade de estar s&oacute;<i>. O ambiente e os processos de matura&ccedil;&atilde;o </i>(1983). Porto Alegre: Artmed Editora. </p>      <p >Winnicott, D. (1975). <i>O brincar e a realidade. </i>Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >&nbsp;</p>      <p >NOTAS</p>      <p ><sup><a name="c1"></a>(<a href="#topc1">*</a>)</sup>&nbsp; Doutora, Pesquisadora    Associada da Universidade de Bras&iacute;lia, SHIS QL 08, conjunto 09, casa    13, Bras&iacute;lia DF, Brasil; Tel.: 55615773272/ 99895103; E-mail: <a href="mailto:elianarl@terra.com.br">elianarl@terra.com.br</a>  </p>      <p ><sup><a name="c2"></a>(<a href="#topc2">**</a>)</sup> Doutora, Professora    Associada do Instituto de Psicologia da Universidade de Bras&iacute;lia, Pesquisadora    bolsista do CNPq, SQN 208, Bloco B, apto. 603, 70853-020 Bras&iacute;lia DF,    Brasil; Tel.: 55613475484/ 556181984205; E-mail: <a href="mailto:tcviana@unb.br">tcviana@unb.br</a>.  </p>      <p ><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a> </sup>No artigo <i>A capacidade    de estar s&oacute; </i>(1958) Winnicott observa que &#8220;Embora muitos tipos    de experi&ecirc;ncia levem &agrave; forma&ccedil;&atilde;o da capacidade de    ficar s&oacute;, h&aacute; um que &eacute; b&aacute;sico, e sem o qual a capacidade    de ficar s&oacute; n&atilde;o surge; essa &eacute; a experi&ecirc;ncia de ficar    s&oacute; como lactente ou crian&ccedil;a pequena na presen&ccedil;a da m&atilde;e.    Portanto &eacute; um paradoxo: capacidade de ficar s&oacute; na presen&ccedil;a    de algu&eacute;m. [...] ficar s&oacute; nesses termos &eacute; quase sin&ocirc;nimo    de maturidade emocional. [...] estar s&oacute; na presen&ccedil;a de algu&eacute;m    pode ocorrer num est&aacute;gio bem precoce, quando a imaturidade do ego &eacute;    naturalmente compensada pelo apoio do ego da m&atilde;e. &Agrave; medida que    o tempo passa o indiv&iacute;duo introjeta o eu auxiliar da m&atilde;e e dessa    maneira se torna capaz de ficar s&oacute; sem apoio freq&uuml;ente da m&atilde;e    ou de um s&iacute;mbolo da m&atilde;e. &#8216;Estar s&oacute;&#8217; &eacute;    uma decorr&ecirc;ncia do &#8216;eu sou&#8217;, dependente da percep&ccedil;&atilde;o    da crian&ccedil;a da exist&ecirc;ncia cont&iacute;nua de uma m&atilde;e dispon&iacute;vel    cuja consist&ecirc;ncia torna poss&iacute;vel para a crian&ccedil;a estar s&oacute;    e ter prazer em estar s&oacute;, por per&iacute;odos limitados&#8221; (1958,    pp. 33-34). Em Winnicott, <i>O ambiente e os processos de matura&ccedil;&atilde;o</i>,    1983. </p>     <p >&nbsp;</p>               ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Anzieu]]></surname>
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<year>2000</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Casa do Psicólogo]]></publisher-name>
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