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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A bi-estabilidade nas representações de movimento humano a partir de estímulos visuais e auditivos]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade do Minho Campus de Gualtar Escola de Psicologia]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[There is not enough information about the interactions between visual and auditory stimuli in biological motion perception. Recent data suggests that there might be a brain area (STSp), which responds both to visual and auditory biological motion stimulation. It is also likely that the intermodal processes in biological motion should tend towards greater interaction and integration of stimuli. In this project, we intended to observe the nature of those interactions. To do so, we used strongly biased bistable visual stimuli. We then compared the visual, auditory and audiovisual conditions in two experiments. The results suggest interaction effects between the different stimuli. The audiovisual condition had the best results, both in the bias reduction and in the proportion of correct answers.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>A bi-estabilidade nas representa&ccedil;&otilde;es de movimento humano a    partir de est&iacute;mulos visuais e auditivos </b></p>      <p >&nbsp;</p>      <p >Catarina Mendon&ccedil;a <sup><a name="top1"></a>(<a href="#1">*</a>)</sup>, Jorge    A. Santos <sup>(<a href="#1">*</a>)</sup></p>      <p >&nbsp;</p>      <p >RESUMO </p>      <p >Pouco se sabe acerca das interac&ccedil;&otilde;es entre est&iacute;mulos visuais e auditivos na percep&ccedil;&atilde;o do movimento biol&oacute;gico. Dados recentes indicam que poder&aacute; haver uma &aacute;rea cerebral (STSp), que responde a estimula&ccedil;&atilde;o de movimento biol&oacute;gico, tanto visual quanto auditiva. &Eacute; prov&aacute;vel que os processos intermodais em movimento biol&oacute;gico tendam para uma maior interac&ccedil;&atilde;o e integra&ccedil;&atilde;o de pistas que em movimento r&iacute;gido. Neste trabalho, procurou-se observar a natureza dessas interac&ccedil;&otilde;es. Para tal, utilizaram-se est&iacute;mulos visuais bi-est&aacute;veis, com um forte vi&eacute;s frontal. Compararam-se condi&ccedil;&otilde;es visuais, auditivas e audiovisuais. Os dados revelam efeitos de interac&ccedil;&atilde;o entre est&iacute;mulos. A condi&ccedil;&atilde;o audiovisual apresenta resultados globalmente melhores na redu&ccedil;&atilde;o do vi&eacute;s perceptivo e nas taxas de acerto. </p>      <p ><i>Palavras-chave: </i>Bi-estabilidade, Integra&ccedil;&atilde;o intermodal, Movimento biol&oacute;gico, Percep&ccedil;&atilde;o multimodal, Vi&eacute;s. </p>      <p >&nbsp;</p>      <p >ABSTRACT </p>      <p >There is not enough information about the interactions between visual and auditory stimuli in biological motion perception. Recent data suggests that there might be a brain area (STSp), which responds both to visual and auditory biological motion stimulation. It is also likely that the intermodal processes in biological motion should tend towards greater interaction and integration of stimuli. In this project, we intended to observe the nature of those interactions. To do so, we used strongly biased bistable visual stimuli. We then compared the visual, auditory and audiovisual conditions in two experiments. The results suggest interaction effects between the different stimuli. The audiovisual condition had the best results, both in the bias reduction and in the proportion of correct answers. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p ><i>Key-words: </i>Bias, Biological motion, Bistability, Crossmodal integration, Multimodal perception. </p>      <p >&nbsp;</p>      <p >INTRODU&Ccedil;&Atilde;O </p>        <p >Os primeiros trabalhos cient&iacute;ficos em percep&ccedil;&atilde;o de movimento biol&oacute;gico (Johansson, 1973) permitiram a constata&ccedil;&atilde;o de que um est&iacute;mulo simplificado de movimento humano, denominado <i>Point-Light Walker </i>(PLW), produzia uma impress&atilde;o v&iacute;vida e imediata de uma pessoa <st1:PersonName ProductID="em ac&#231;&#227;o. Ou" w:st="on">em  ac&ccedil;&atilde;o. Ou seja, representa&ccedil;&otilde;es com pontos de luz das articula&ccedil;&otilde;es de uma pessoa em andamento s&atilde;o suficientes para proporcionar uma imagem clara de um humano <st1:PersonName ProductID="em movimento. Contudo" w:st="on">em movimento. Contudo, esta imagem d&aacute; lugar &agrave; observa&ccedil;&atilde;o de um conjunto sem sentido de pontos quando o PLW est&aacute; parado. Desde ent&atilde;o, o PLW tem permanecido como o est&iacute;mulo por excel&ecirc;ncia no estudo da percep&ccedil;&atilde;o do movimento biol&oacute;gico, n&atilde;o s&oacute; por permitir uma boa s&iacute;ntese e controlo de vari&aacute;veis, como tamb&eacute;m pelas suas propriedades perceptivas e robustez. </p>      <p >A ac&ccedil;&atilde;o humana n&atilde;o &eacute; processada da mesma forma que o movimento de um objecto r&iacute;gido. A sensibilidade ao movimento biol&oacute;gico aumenta com o n&uacute;mero de pontos luminosos associados &agrave;s articula&ccedil;&otilde;es, muito mais rapidamente que na detec&ccedil;&atilde;o de outros padr&otilde;es de movimento (Neri, Morrone, &amp; Burr, 1998). Por outro lado, esta informa&ccedil;&atilde;o &eacute; integrada durante intervalos de tempo 8 vezes superiores aos observados no movimento de objectos r&iacute;gidos. Uma boa detec&ccedil;&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel at&eacute; em condi&ccedil;&otilde;es altamente degradadas, como na diminui&ccedil;&atilde;o do n&uacute;mero de frames, na altera&ccedil;&atilde;o das traject&oacute;rias de pontos ou na introdu&ccedil;&atilde;o de um fundo constitu&iacute;do por pontos similares em movimento aleat&oacute;rio (Blake &amp; Shiffrar, 2006). Mesmo com os movimentos articulares misturados ou incongruentes e a velocidades lentas, h&aacute; uma percep&ccedil;&atilde;o v&iacute;vida de um sujeito em movimento (Beintema, Olesiak, &amp; Wezel, 2006). </p>      <p >O estudo da percep&ccedil;&atilde;o do movimento biol&oacute;gico a partir do uso das metodologias descritas tornou poss&iacute;vel conhecer a informa&ccedil;&atilde;o que pode ser deduzida a partir da observa&ccedil;&atilde;o do movimento de uma pessoa. Sabe-se hoje que a partir da visualiza&ccedil;&atilde;o de um PLW &eacute; poss&iacute;vel perceber a actividade desenvolvida, o g&eacute;nero do actor (Pollick, Kay, Heim, &amp; Stringer, 2005; Troje, 2002), a sua identidade (Jacobs &amp; Shiffrar, 2005; Loula, Prasad, Harber, &amp; Shiffrar, 2005; Richardson &amp; Johnston, 2005; Troje, Westhoff, &amp; Lavrov, 2005) e at&eacute; estados emocionais (Dittrich, Troscianko, Lea, &amp; Morgan, 1996). </p>      <p >A robustez deste tipo de est&iacute;mulo e as suas propriedades s&atilde;o melhor compreendidas &agrave; luz de dados neurofisiol&oacute;gicos. Os primeiros dados que indicaram a exist&ecirc;ncia de uma &aacute;rea cerebral espec&iacute;fica para a codifica&ccedil;&atilde;o de est&iacute;mulos de movimento humano resultaram de estudos com primatas. Nestes estudos, observou-se que neur&oacute;nios do sulco temporal superior (STS) respondiam selectivamente a caras (Perrett, Rolls, &amp; Caan, 1982), assim como a formas e movimentos humanos (Perret, Smith, Mistlin, Chitty, &amp; Head, 1985). A &aacute;rea STS &eacute; um ponto de converg&ecirc;ncia das vias visuais ventral e dorsal, com fun&ccedil;&otilde;es de processamento de forma e de movimento, respectivamente, e tem liga&ccedil;&otilde;es com a am&iacute;gdala e com o c&oacute;rtex orbitofrontal, regi&otilde;es implicadas no processamento de est&iacute;mulos de import&acirc;ncia social e emocional (Puce &amp; Perrett, 2003). </p>      <p >Num estudo com tomografia de emiss&atilde;o de positr&otilde;es (PET), identificou-se que &aacute;rea posterior do STS (STSp) responde apenas quando as pessoas v&ecirc;em PLW coerentes (Bonda, Petrides, Oery, &amp; Evans, 1996). Na mesma &aacute;rea, observou-se uma activa&ccedil;&atilde;o mais forte para os PLW de p&eacute; que para os invertidos (Grossman, Blake, &amp; Kim, 2004). Tanto figuras humanas est&aacute;ticas, como movimentos r&iacute;gidos complexos produzem pouca ou nenhuma activa&ccedil;&atilde;o da &aacute;rea STSp (Beauchamp, Lee, Haxby, &amp; Martin, 2002; Peuskens, Smith, Mistlin, Chitty, &amp; Head, 2005). As c&eacute;lulas desta &aacute;rea que respondem ao movimento de corpo inteiro s&atilde;o selectivas para a direc&ccedil;&atilde;o do movimento e activam-se maioritariamente perante movimentos de corpo apresentados em orienta&ccedil;&otilde;es frontais, ainda que algumas c&eacute;lulas respondam a movimentos de costas (Puce &amp; Perrett, 2003). Esta selectividade de activa&ccedil;&atilde;o celular poder&aacute; estar na base do vi&eacute;s perceptivo encontrado para posi&ccedil;&otilde;es frontais, e que ser&aacute; analisado em maior detalhe mais abaixo. </p>      <p >A &aacute;rea STSp parece responder n&atilde;o s&oacute; a imagens, como a sons relacionados com movimento biol&oacute;gico. Num estudo com resson&acirc;ncia magn&eacute;tica (fMRI), observou-se a activa&ccedil;&atilde;o desta &aacute;rea durante a percep&ccedil;&atilde;o auditiva de v&aacute;rios tipos de passos humanos, mas n&atilde;o para sons n&atilde;o relacionados (Bidet-Caulet, Voisin, Bertrand, &amp; Fonlupt, 2005). Esta descoberta levou &agrave; formula&ccedil;&atilde;o da hip&oacute;tese de que a &aacute;rea STSp poder&aacute; fazer parte de uma rede que abrange tudo quanto est&aacute; relacionado com o movimento biol&oacute;gico, com fun&ccedil;&otilde;es supramodais para a integra&ccedil;&atilde;o a um n&iacute;vel superior de est&iacute;mulos relevantes para a cogni&ccedil;&atilde;o da ac&ccedil;&atilde;o humana (Bidet-Caulet et al., 2005; Blake &amp; Shiffrar, 2006). Atendendo a estes dados, pode hipotetizar-se que o movimento biol&oacute;gico seja n&atilde;o s&oacute; funcionalmente, como tamb&eacute;m perceptivamente processado de forma pr&oacute;pria. Torna-se, ent&atilde;o, relevante estudar a din&acirc;mica dos est&iacute;mulos visuais e auditivos na percep&ccedil;&atilde;o de movimento biol&oacute;gico, de modo a compreender o impacto perceptivo desta especializa&ccedil;&atilde;o cerebral. </p>        <p >Nos estudos de percep&ccedil;&atilde;o bimodal (estimula&ccedil;&atilde;o visual e auditiva) cl&aacute;ssicos, frequentemente o est&iacute;mulo visual altera as propriedades do est&iacute;mulo auditivo, influenciando a percep&ccedil;&atilde;o final. Em tarefas de percep&ccedil;&atilde;o de movimento, os sujeitos falham frequentemente na discrimina&ccedil;&atilde;o da direc&ccedil;&atilde;o da fonte sonora, quando acompanhada de movimento visual na direc&ccedil;&atilde;o oposta. Por sua vez, a identifica&ccedil;&atilde;o do movimento visual n&atilde;o &eacute; afectada pela direc&ccedil;&atilde;o do movimento auditivo (Soto-Faraco, Spence, &amp; Kingstone, 2004). Tamb&eacute;m em tarefas que simulam o efeito de ventriloquismo, observa-se que os sujeitos tendem a redefinir a localiza&ccedil;&atilde;o percebida da fonte sonora de forma a encaixar com a fonte visual, assim como tendem a distorcer as propriedades do som, passando a perceb&ecirc;-lo como a mover-se na mesma direc&ccedil;&atilde;o do est&iacute;mulo visual (Soto-Faraco, Spence, Lloyd, &amp; Kingstone, 2004). </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >Observam-se, por outro lado, situa&ccedil;&otilde;es em que &eacute; o est&iacute;mulo auditivo a influenciar as fontes de informa&ccedil;&atilde;o visual. S&atilde;o, disso exemplo, os estudos que exploram o fen&oacute;meno de ventriloquismo temporal, em que um som apresentado em grande proximidade temporal pode alterar as dimens&otilde;es duracionais percebidas do est&iacute;mulo visual (Vroomen &amp; Gelder, 2004). Tamb&eacute;m s&atilde;o not&aacute;veis as influ&ecirc;ncias do est&iacute;mulo auditivo sobre o visual em procedimentos experimentais em que os sujeitos devem bater um dedo de acordo com o ritmo de est&iacute;mulos visuais e auditivos, sendo que os segundos t&ecirc;m sempre grande influ&ecirc;ncia (por vezes n&atilde;o percebida) sobre o ritmo reproduzido, em detrimento dos primeiros (Repp, 2003; Repp &amp; Pennel, 2002). Recentemente, Watkins, Shams, Tanako, Haynes, e Rees (2006) observaram ainda que a apresenta&ccedil;&atilde;o de um flash visual breve acompanhada de dois <i>bips </i>sonoros &eacute; frequentemente percebida incorrectamente como dois flashes visuais. </p>        <p >De acordo com os dados actuais, considera-se que interac&ccedil;&otilde;es multisensoriais da percep&ccedil;&atilde;o de movimento se caracterizam pelo dom&iacute;nio, ao inv&eacute;s da interfer&ecirc;ncia, de uma modalidade sensorial sobre a outra (Soto-Faraco, Spence, Lloyd, &amp; Kingstone, 2004). Repp e Pennel (2002) analisaram dados provenientes de v&aacute;rios estudos e conclu&iacute;ram que os est&iacute;mulos visuais s&atilde;o consistentemente dominantes em tarefas de percep&ccedil;&atilde;o espacial, deturpando as propriedades dos est&iacute;mulos auditivos. Observaram, simultaneamente, que os est&iacute;mulos auditivos s&atilde;o mais fortes em tarefas de percep&ccedil;&atilde;o temporal. </p>      <p >Os dados at&eacute; agora dispon&iacute;veis acerca da multimodalidade na percep&ccedil;&atilde;o do movimento biol&oacute;gico levam a supor que estes processos podem ser diferentes. Estudos com est&iacute;mulos biol&oacute;gicos sugerem que as pistas podem, quando incompat&iacute;veis, ser integradas, formando um novo percepto. No efeito McGurk (McGurk &amp; Mac Donald, 1976), enquanto os sujeitos ouviam uma voz humana dizer /ba/ e viam uma face humana dizer /ga/, o percepto final era frequentemente /da/. </p>      <p >Do ponto de vista do movimento biol&oacute;gico, pouco se sabe acerca destas interac&ccedil;&otilde;es. Num estudo em que se avaliava a magnitude de saltos, a condi&ccedil;&atilde;o em que foram emparelhados est&iacute;mulos visuais e auditivos congruentes produziu melhores resultados que as condi&ccedil;&otilde;es visual e auditiva, separadamente (Effenberg, 2005). Tamb&eacute;m, um trabalho recente investigou os correlatos comportamentais da integra&ccedil;&atilde;o audiovisual no processamento de pistas de movimento biol&oacute;gico (Brooks, Zwan, Billard, Petreska, Clarke, &amp; Blanke, 2007). Os resultados indicaram a exist&ecirc;ncia de efeitos selectivos de direc&ccedil;&atilde;o do som na detec&ccedil;&atilde;o do movimento biol&oacute;gico. Com efeito, quando comparada com a condi&ccedil;&atilde;o de som estacion&aacute;rio, a condi&ccedil;&atilde;o de movimento sonoro na mesma direc&ccedil;&atilde;o do movimento visual obteve melhores resultados de detec&ccedil;&atilde;o. Por outro lado, perante movimento sonoro e visual em direc&ccedil;&otilde;es opostas, observou-se o efeito inverso, com o aumento significativo dos tempos de detec&ccedil;&atilde;o. Esta facilita&ccedil;&atilde;o/inibi&ccedil;&atilde;o bimodal espec&iacute;fica para a detec&ccedil;&atilde;o de movimento audiovisual n&atilde;o foi encontrada em ensaios de controlo, com o PLW invertido. </p>      <p >Alais e Burr (2004) realizaram um estudo metodologicamente semelhante ao de Brooks e colaboradores (2007), com movimento r&iacute;gido. Neste estudo, os efeitos de facilita&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se verificaram, ou seja, n&atilde;o se encontraram melhorias para al&eacute;m do esperado pela mera combina&ccedil;&atilde;o estat&iacute;stica dos sinais perante o movimento na mesma direc&ccedil;&atilde;o. Por sua vez, o som em movimento oposto ao visual permitia resultados semelhantes aos encontrados quando ambos os est&iacute;mulos se deslocavam na mesma direc&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o se observando o efeito de inibi&ccedil;&atilde;o bimodal. </p>      <p >Analisados em conjunto, estes dados sugerem a exist&ecirc;ncia de um mecanismo espec&iacute;fico para a integra&ccedil;&atilde;o de est&iacute;mulos associados ao movimento humano. </p>      <p >O estudo descrito no presente trabalho teve como objectivo observar os processos envolvidos na percep&ccedil;&atilde;o audiovisual do movimento biol&oacute;gico. Esperava-se observar pouca predomin&acirc;ncia sensorial e maior tend&ecirc;ncia para a integra&ccedil;&atilde;o dos est&iacute;mulos visual e auditivo. Ou seja, esperava-se que os sujeitos n&atilde;o se centrassem apenas numa pista sensorial, em detrimento da outra. Tamb&eacute;m se procurava observar na condi&ccedil;&atilde;o audiovisual taxas de acerto mais elevadas que nas condi&ccedil;&otilde;es unimodais visual e auditiva. </p>      <p >De forma a testar estas hip&oacute;teses, optou-se por fazer uso de est&iacute;mulos visuais amb&iacute;guos e bi-est&aacute;veis, que podem ser percebidos como compat&iacute;veis ou como incompat&iacute;veis com os est&iacute;mulos sonoros. Com efeito, esta &eacute; uma propriedade poss&iacute;vel dos PLW, que foi alvo de estudo por Vanrie, Dekeyeser, e Verfaillie (2004). Por consistirem em representa&ccedil;&otilde;es empobrecidas do movimento biol&oacute;gico, os PLW n&atilde;o cont&ecirc;m pistas estruturais ou din&acirc;micas suficientes para permitir sempre uma identifica&ccedil;&atilde;o correcta da orienta&ccedil;&atilde;o do sujeito <st1:PersonName ProductID="em marcha. Assim" w:st="on">em marcha. Assim, um PLW orientado de frente (0&ordm;) para o observador pode ser confundido com um PLW de costas (180&ordm;), e o mesmo acontece para as anima&ccedil;&otilde;es semi-laterais, em que orienta&ccedil;&otilde;es de 45&ordm; s&atilde;o semelhantes &agrave;s de 135&ordm;. Varie, Dekeyeser, e Verfaillie (2004) constataram que, em est&iacute;mulos totalmente bi-est&aacute;veis (foram equalizados pontos de refer&ecirc;ncia como o alinhamento dos ombros, ancas, joelhos e p&eacute;s), os sujeitos apresentavam um forte vi&eacute;s perceptivo no sentido de observar os avatares em orienta&ccedil;&otilde;es frontais: em cerca de 80 por cento dos ensaios, o PLW era visto a mover-se em direc&ccedil;&atilde;o ao observador, sendo que apenas nos restantes 20 por cento dos casos era visto na orienta&ccedil;&atilde;o alternativa (de costas). Na condi&ccedil;&atilde;o de controlo (PLW invertidos), os valores mantiveram-se ao n&iacute;vel do acaso, em 50 por cento dos ensaios era visto de frente e nos restantes era visto de costas. No mesmo estudo, testou-se a robustez deste fen&oacute;meno perceptivo. Numa experi&ecirc;ncia, foram apresentados PLW com uma anima&ccedil;&atilde;o que avan&ccedil;ava do fim para o in&iacute;cio do ciclo de passada, ou seja, dava a sensa&ccedil;&atilde;o de que o est&iacute;mulo de movia <st1:PersonName ProductID="em afastamento. Nesta" w:st="on">em  afastamento. Nesta experi&ecirc;ncia, os sujeitos obtiveram taxas de acerto quanto &agrave; direc&ccedil;&atilde;o do movimento do est&iacute;mulo de 98 por cento, mas em 89 por cento das vezes em que responderam correctamente reportaram que os PLW se mantinham virados de frente, ou seja, frequentemente pareciam andar de costas para onde se dirigiam. Tamb&eacute;m numa terceira experi&ecirc;ncia, testou-se a robustez deste vi&eacute;s pela introdu&ccedil;&atilde;o de pistas: numa condi&ccedil;&atilde;o, introduziu-se a oclus&atilde;o dos pontos luminosos (estes desapareciam sempre que eram escondidos pelo corpo) e na outra condi&ccedil;&atilde;o usou-se a projec&ccedil;&atilde;o de perspectiva. A propor&ccedil;&atilde;o de respostas correctas quanto &agrave; orienta&ccedil;&atilde;o do est&iacute;mulo passou a ser de 85 por cento na primeira condi&ccedil;&atilde;o e de 97 por cento na segunda. Conclui-se, assim, que apesar de robusto, o vi&eacute;s visual &eacute; sens&iacute;vel a pistas espaciais. </p>      <p >Fazendo uso deste est&iacute;mulo bi-est&aacute;vel, procurou-se, neste trabalho, observar o impacto de est&iacute;mulos auditivos congruentes (cuja orienta&ccedil;&atilde;o de movimento era semelhante &agrave; do movimento apresentado visualmente) sobre as representa&ccedil;&otilde;es visuais fortemente enviesadas. Deste modo, num primeiro momento, este trabalho pretendeu obter uma replica&ccedil;&atilde;o dos dados de Vanrie, Dekeyeser, e Verfaillie (2004), para num segundo momento analisar o efeito das pistas auditivas sobre os est&iacute;mulos visuais de movimento biol&oacute;gico. </p>        <p >&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >M&Eacute;TODO </p>      <p ><i>Sujeitos </i></p>      <p >Usaram-se 7 participantes, todos dextros, 3 homens e 4 mulheres, com idades compreendidas entre os 23 e os 28 anos. Os sujeitos eram todos ing&eacute;nuos quanto aos objectivos do estudo e nunca haviam contactado com os est&iacute;mulos usados. Num momento pr&eacute;vio &agrave;s experi&ecirc;ncias, todos os participantes fizeram testes visuais e auditivos, de forma a assegurar que tinham vis&atilde;o normal ou corrigida, assim como uma boa audi&ccedil;&atilde;o, sem discrep&acirc;ncias de acuidade interaurais. </p>      <p ><i>&nbsp;</i></p>      <p ><i>Est&iacute;mulos e materiais </i></p>      <p >Os est&iacute;mulos visuais utilizados consistiram em PLW de 13 pontos luminosos animados com coordenadas 3D, constru&iacute;dos a partir da base de dados de Vanrie &amp; Verfaillie (2004). Os pontos luminosos eram esferas brancas de 1cm de di&acirc;metro (em m&eacute;dia) em movimento, com uma lumin&acirc;ncia de cerca de 68cd/m<sup>2 </sup>sobre um fundo cinza escuro de aproximadamente 1.53cd/m<sup>2</sup>. Os est&iacute;mulos eram projectados sobre uma tela a 60Hz, ocupando uma &aacute;rea de projec&ccedil;&atilde;o de 4.94mx2.10m. Os avatares ocupavam, dos p&eacute;s &agrave; cabe&ccedil;a, um &acirc;ngulo visual de 5.72&ordm; para o observador, que estava sentado a 3m da tela. </p>      <p >A apresenta&ccedil;&atilde;o e manipula&ccedil;&atilde;o inform&aacute;tica de todos os est&iacute;mulos foi feita a partir de uma aplica&ccedil;&atilde;o inform&aacute;tica baseada <st1:PersonName ProductID="em Open GL" w:st="on">em  Open GL sobre VR/Net Juggler. Trabalhou-se a com um cluster de tr&ecirc;s computadores com placa gr&aacute;fica Nv&iacute;dia Quadro FX 4500. Cada um dos computadores estava ligado a um canal de imagem, emitido por projectores DLP de 3 chips Christie Mirage S+4k, sendo que apenas se usaram dois canais nesta experi&ecirc;ncia. Cada canal tinha uma resolu&ccedil;&atilde;o de 1400x1050 pixel. A imagem dos dois canais era projectada na tela, em superf&iacute;cie cont&iacute;nua, com uma &aacute;rea central de blending das duas projec&ccedil;&otilde;es. </p>        <p >Durante as apresenta&ccedil;&otilde;es, os PLW moviam-se, como se estivessem a andar em cima de uma passadeira rolante (sem transla&ccedil;&atilde;o). Utilizaram-se 18 tipos de est&iacute;mulos diferentes, correspondentes a 6 orienta&ccedil;&otilde;es de PLW apresentadas nas condi&ccedil;&otilde;es visual, auditiva e audiovisual. Usaram-se as orienta&ccedil;&otilde;es frente (0&ordm;), tr&aacute;s (180&ordm;), em aproxima&ccedil;&atilde;o para a esquerda e para a direita (45&ordm;E e 45&ordm;D, respectivamente) e em afastamento para a esquerda e para a direita (135&ordm;E e 135&ordm;D, respectivamente). </p>      <p >Os est&iacute;mulos auditivos consistiram em seis tipos de ficheiros de som em que se ouvia um total de oito passos (quatro ciclos de passada). Estes est&iacute;mulos come&ccedil;avam sempre o ensaio num ponto central com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; cabe&ccedil;a do sujeito, e posteriormente deslocavam-se em aproxima&ccedil;&atilde;o ou afastamento e, nos ensaios de orienta&ccedil;&otilde;es 45&ordm;E, 135&ordm;E, 45&ordm;D e 135&ordm;D, para a esquerda ou para a direita. Estes ficheiros de som foram gerados a partir de software baseado <st1:PersonName ProductID="em Open AL" w:st="on">em Open AL e posteriormente gravados, com frequ&ecirc;ncias que variaram entre os 20Hz e os 10.000Hz, concentrando-se a maior parte da informa&ccedil;&atilde;o auditiva apresentada em torno dos 1.000Hz. No contexto experimental, usou-se a placa de som Realtec Intel 8280 IBA, e o som era emitido por colunas colocadas nos pontos extremos da imagem (a 80cm do limite visual) e a 50cm do ch&atilde;o, orientadas para a cabe&ccedil;a dos sujeitos. </p>      <p >Em todos os ensaios audiovisuais, o est&iacute;mulo sonoro deslocava-se na mesma direc&ccedil;&atilde;o que o est&iacute;mulo visual e ambos os est&iacute;mulos eram apresentados em fase (sincronizados). </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p ><i>&nbsp;</i></p>      <p ><i>Design e procedimentos </i></p>        <p >Os dezoito tipos de est&iacute;mulo foram apresentados com cinco ensaios cada um segundo o m&eacute;todo do est&iacute;mulo constate. Cada apresenta&ccedil;&atilde;o teve a dura&ccedil;&atilde;o total de 4s, a mesma usada no estudo de Vanrie, Dekeyeser, e Verfaillie (2004), correspondente a quatro ciclos de passada por ensaio. O intervalo entre ensaios teve a dura&ccedil;&atilde;o de 3s. </p>      <p >Durante a experi&ecirc;ncia, os participantes deviam responder manualmente, apontando numa tabela octogonal qual a direc&ccedil;&atilde;o em que o est&iacute;mulo se movia. </p>      <p >Os participantes foram testados individualmente, numa sala escurecida, em frente &agrave; tela onde eram projectados os est&iacute;mulos. Estavam sentados no correspondente a um ponto interm&eacute;dio da &aacute;rea de projec&ccedil;&atilde;o. &Agrave; sua frente, os participantes tinham uma mesa de superf&iacute;cie negra, com a tabela octogonal. O experimentador estava sentado &agrave; esquerda dos indiv&iacute;duos, ligeiramente recuado, de forma a n&atilde;o integrar a &aacute;rea de visualiza&ccedil;&atilde;o dos mesmos. </p>      <p >Os sujeitos eram informados acerca da natureza dos est&iacute;mulos: um conjunto de pontos luminosos que permitem a impress&atilde;o de um sujeito humano em marcha, sons de passada, ou ambos <st1:PersonName ProductID="em simult&#226;neo. Posteriormente" w:st="on">em simult&acirc;neo.  Posteriormente, era apresentada a tabela octogonal. Todos os sujeitos foram instru&iacute;dos para se centrarem numa cruz branca apresentada durante o per&iacute;odo entre ensaios e responderem atempadamente, e foi-lhes dito que era permitido alterar o sentido das respostas durante os ensaios, se apercebessem de que tinham cometido um erro. Pediu-se que respondessem sempre, mesmo em caso de d&uacute;vida. Seguidamente, iniciava-se a sequ&ecirc;ncia experimental. </p>        <p >&nbsp;</p>      <p >RESULTADOS </p>        <p >Quanto &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o das respostas por orienta&ccedil;&atilde;o,    na condi&ccedil;&atilde;o visual, observou-se um forte vi&eacute;s frontal,    sendo que em cada cinco ensaios para a frente e cinco ensaios para tr&aacute;s,    os sujeitos responderam em m&eacute;dia oito vezes para a frente (&#948;=2,06)    e duas vezes para tr&aacute;s (&#948;=2,07) (cf. Figura 1). Na condi&ccedil;&atilde;o    auditiva observou-se uma distribui&ccedil;&atilde;o da orienta&ccedil;&atilde;o    de resposta n&atilde;o enviesada, com igual n&uacute;mero m&eacute;dio de respostas    frente e tr&aacute;s (&#948;=1,36). </p>     <p >&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p ><b>FIGURA 1</b> </p>     <p ><i>Distribui&ccedil;&atilde;o das respostas dadas em m&eacute;dia pelos sujeitos    nos cinco ensaios de cada orienta&ccedil;&atilde;o, na condi&ccedil;&atilde;o    visual </i></p>     <p ><i><img src="/img/revistas/aps/v28n2/28n2a07f1.jpg" width="302" height="186"></i></p>     
<p >&nbsp;</p>     <p >Na condi&ccedil;&atilde;o audiovisual, este vi&eacute;s foi largamente atenuado,    mas n&atilde;o desapareceu. Nesta condi&ccedil;&atilde;o, os sujeitos responderam    em m&eacute;dia quatro vezes para tr&aacute;s (&#948;=1,51) e seis vezes para    a frente (&#948;=1,46) (cf. Figura 2). </p>      <p >&nbsp;</p>     <p ><b>FIGURA 2 </b></p>     <p ><i>Distribui&ccedil;&atilde;o das respostas dadas em m&eacute;dia pelos sujeitos    nos cinco ensaios de cada orienta&ccedil;&atilde;o, na condi&ccedil;&atilde;o    audiovisual</i></p>     <p ><i><img src="/img/revistas/aps/v28n2/28n2a07f2.jpg" width="347" height="198"></i></p>     
<p >&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >A redu&ccedil;&atilde;o de vi&eacute;s que se observou na condi&ccedil;&atilde;o    audiovisual traduziu-se tamb&eacute;m num aumento claro do n&uacute;mero de    acertos.</p>     <p >A condi&ccedil;&atilde;o com maior discrep&acirc;ncia quanto aos acertos nas    diferentes orienta&ccedil;&otilde;es foi a visual (cf. Figura 3). Nesta condi&ccedil;&atilde;o,    observam-se taxas de acerto muito reduzidas nas orienta&ccedil;&otilde;es 135&ordm;    (0,3) e 180&ordm; (0,4), que contrastam com a facilidade dos ensaios de 0&ordm;    (taxa de acerto de 1), nos quais n&atilde;o se observaram erros. Naturalmente,    estas diferen&ccedil;as not&oacute;rias est&atilde;o relacionadas com os dados    acima apresentados acerca do forte vi&eacute;s visual, sendo poss&iacute;vel    que, tendo respondido predominantemente para a frente, os sujeitos tenham acertado    nos ensaios que efectivamente estavam orientados para a frente e tenham errado    mais nos ensaios que estavam orientados para tr&aacute;s. N&atilde;o se observaram,    nesta condi&ccedil;&atilde;o, erros por confus&atilde;o lateral, ou seja, os    erros deveram-se sempre &agrave;s confus&otilde;es em profundidade 0&ordm;/180&ordm;,    45&ordm;E/135&ordm;E e 45&ordm;D/135&ordm;D. </p>     <p >&nbsp;</p>     <p ><b>FIGURA 3</b> </p>     <p ><i>Taxa de respostas certas nas condi&ccedil;&otilde;es visual, auditiva e    audiovisual, nas orienta&ccedil;&otilde;es de 0&ordm;, 45&ordm;, 135&ordm; e    180&ordm; </i></p>     <p ><i><img src="/img/revistas/aps/v28n2/28n2a07f3.jpg" width="528" height="321"></i></p>        
<p >&nbsp;</p>     <p >Na condi&ccedil;&atilde;o auditiva, observou-se igualmente uma ligeira assimetria    entre as taxas de acerto nos ensaios orientados para a frente (0,86) e nos ensaios    orientados para tr&aacute;s (0,62), sendo os &uacute;ltimos mais dif&iacute;ceis    que os primeiros. Esta pequena diferen&ccedil;a poder&aacute; ser facilmente    explicada pelo facto de, nos ensaios a 180&ordm; e a 135&ordm;, haver uma clara    diminui&ccedil;&atilde;o da intensidade do est&iacute;mulo auditivo ao longo    da apresenta&ccedil;&atilde;o. Nestes ensaios, &eacute; importante referir que    39 dos 46 erros registados se deram por confus&atilde;o lateral (180&ordm;,    135&ordm;E e 135&ordm;D) e apenas 7 se deveram a confus&atilde;o entre as orienta&ccedil;&otilde;es    para a frente ou para tr&aacute;s. Assim, ser&aacute; relativamente seguro assumir    que os est&iacute;mulos auditivos tinham boas propriedades perceptivas quanto    &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o de aproxima&ccedil;&atilde;o/afastamento,    podendo esperar-se uma ac&ccedil;&atilde;o de desambigua&ccedil;&atilde;o sobre    os est&iacute;mulos visuais enviesados. Observou-se igualmente, na condi&ccedil;&atilde;o    auditiva, que os ensaios obl&iacute;quos obtiveram melhores resultados (0,81)    que os ensaios fronto-paralelos (0,51), tendo os melhores resultados surgido    nos ensaios de 45&ordm; (0,89) e os piores resultados surgido nos ensaios de    180&ordm; (0,51). Este dado poder&aacute; dever-se ao facto de, nos ensaios    obl&iacute;quos, haver uma pista adicional devida &agrave;s diferen&ccedil;as    de estimula&ccedil;&atilde;o interaural, eficaz na diminui&ccedil;&atilde;o    das confus&otilde;es laterais. </p>      <p >A condi&ccedil;&atilde;o audiovisual obteve resultados globalmente melhores (acerto m&eacute;dio de 0,87), por compara&ccedil;&atilde;o com as condi&ccedil;&otilde;es unimodais (0,6 na condi&ccedil;&atilde;o visual e 0,76 na condi&ccedil;&atilde;o auditiva). Adicionalmente, foi esta a condi&ccedil;&atilde;o em que se observaram menores discrep&acirc;ncias entre orienta&ccedil;&otilde;es. Os melhores resultados desta condi&ccedil;&atilde;o surgiram, como esperado, nos ensaios cujos est&iacute;mulos de moviam de frente para o observador. Nas orienta&ccedil;&otilde;es obl&iacute;quas, observaram-se ganhos relevantes quanto &agrave;s taxas de acerto, mas foi nas orienta&ccedil;&otilde;es fronto-paralelas que se observaram os efeitos mais interessantes. Com efeito, foi nos ensaios a 180&ordm; que se observou o efeito de interac&ccedil;&atilde;o entre as pistas visuais e auditivas mais forte, com um aumento muito expressivo nas taxas de acerto: de 0.4 na condi&ccedil;&atilde;o visual e de 0.51 na condi&ccedil;&atilde;o auditiva, obteve-se 0.8 na condi&ccedil;&atilde;o audiovisual. Poder-se-&aacute; afirmar, neste caso, que se observou uma diminui&ccedil;&atilde;o da confus&atilde;o lateral nos est&iacute;mulos auditivos por ac&ccedil;&atilde;o dos est&iacute;mulos visuais, a par da diminui&ccedil;&atilde;o do vi&eacute;s visual por ac&ccedil;&atilde;o das pistas auditivas. </p>      <p >Mas tamb&eacute;m nos ensaios de 0&ordm; surgiu um efeito de interac&ccedil;&atilde;o audiovisual not&oacute;rio. Nestes ensaios, a condi&ccedil;&atilde;o audiovisual n&atilde;o obteve melhores resultados que a condi&ccedil;&atilde;o unimodal visual, que tinha atingido um valor m&aacute;ximo. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >De acordo com o teste de Friedman, a diferen&ccedil;a de acertos entre as tr&ecirc;s condi&ccedil;&otilde;es &eacute; estatisticamente significativa (&#967;<sup>2</sup>=8,67, gl=2, <i>p</i>&#8804;0.05). Atrav&eacute;s da an&aacute;lise dos resultados emparelhados no teste U de Mann-Whitney compararam-se tamb&eacute;m os dados das condi&ccedil;&otilde;es duas a duas. Este teste confirmou que tanto a condi&ccedil;&atilde;o auditiva como a visual se distinguem da audiovisual (<i>p</i>&#8804;0.01 e <i>p</i>&#8804;0.05, respectivamente). Os resultados de ambas as condi&ccedil;&otilde;es unimodais s&atilde;o igualmente diferentes (<i>p</i>&#8804;0.5). </p>      <p >&nbsp;</p>      <p >DISCUSS&Atilde;O </p>      <p >Num primeiro momento, o presente trabalho pretendia uma replica&ccedil;&atilde;o dos dados observados por Vanrie, Dekeyeser, e Verfaillie (2004) quanto ao forte vi&eacute;s encontrado em est&iacute;mulos de movimento biol&oacute;gico potencialmente bi-est&aacute;veis. Naquele estudo, os autores tinham constatado uma tend&ecirc;ncia na ordem dos 80 por cento de respostas orientadas de frente para o observador. Contudo, este efeito era quase eliminado quando os investigadores introduziam pistas de perspectiva e tridimensionalidade. Neste estudo, os dados confirmaram em larga medida o esperado, tendo-se observado sempre taxas de vi&eacute;s na ordem dos 80 por cento. Estas taxas, contudo, n&atilde;o foram diminu&iacute;das pelas pistas de tridimensionalidade. Numa tentativa explicativa, poder-se-&aacute; argumentar que estas pistas continuaram atenuadas, nomeadamente pela dimens&atilde;o menor dos est&iacute;mulos visuais apresentados. Com efeito, os &acirc;ngulos visuais usados originalmente no estudo de Vanrie, Dekeyeser, e Verfaillie (2004) foram de 7.87&ordm; dos p&eacute;s &agrave; cabe&ccedil;a do avatar, enquanto os aqui usados foram de 5.72&ordm;. </p>      <p >Tamb&eacute;m os dados de Puce e Perrett (2003) podem ser elucidativos. Como foi descrito na introdu&ccedil;&atilde;o, estes autores encontraram uma activa&ccedil;&atilde;o preferencial de um maior n&uacute;mero de c&eacute;lulas neuronais da &aacute;rea STSp para est&iacute;mulos orientados para o observador, e um menor n&uacute;mero de c&eacute;lulas activadas perante est&iacute;mulos de costas. Estes dados podem indicar que o vi&eacute;s encontrado deriva de um processo perceptivo determinado fisiologicamente e de baixo n&iacute;vel, imperme&aacute;vel a factores desambiguadores de menor intensidade. Assim, observa-se que, apesar de sens&iacute;vel a pistas espaciais, o fen&oacute;meno de vi&eacute;s perceptivo nas representa&ccedil;&otilde;es bi-est&aacute;veis de movimento biol&oacute;gico se mant&eacute;m quando estas s&atilde;o atenuadas. </p>      <p >A um segundo n&iacute;vel, este trabalho procurava analisar o efeito de pistas auditivas sobre os est&iacute;mulos visuais de movimento biol&oacute;gico. De acordo com a primeira hip&oacute;tese enunciada, esperava-se observar um menor efeito de predomin&acirc;ncia sensorial e uma maior tend&ecirc;ncia para a integra&ccedil;&atilde;o de est&iacute;mulos incompat&iacute;veis. Os sujeitos n&atilde;o se deveriam centrar apenas numa pista, em detrimento da outra, &agrave; semelhan&ccedil;a do observado em variados estudos com movimento r&iacute;gido, mas deveriam demonstrar aten&ccedil;&atilde;o a ambas as fontes de informa&ccedil;&atilde;o. Atendendo &agrave; perspectiva apresentada por Repp e Pennel (2002), numa tarefa deste tipo (espacial) com movimento r&iacute;gido, o est&iacute;mulo visual deveria ser claramente predominante, e os resultados esperados poderiam ser semelhantes &agrave;queles encontrados nos estudos que simulam o efeito de ventriloquismo. Ou seja, seria de esperar que o som adquirisse propriedades perceptivas semelhantes &agrave;s da imagem, parecendo mover-se no mesmo sentido dos avatares. Apesar dos fortes efeitos de enviesamento frontal, esse efeito nunca se verificou. Todos os dados observados contrariaram esta possibilidade. Se o est&iacute;mulo visual tivesse adquirido propriedades de refer&ecirc;ncia, o vi&eacute;s visual deveria ter-se mantido na condi&ccedil;&atilde;o audiovisual. O que de facto se observou foi, pelo contr&aacute;rio, uma forte redu&ccedil;&atilde;o deste mesmo vi&eacute;s, indicadora de que n&atilde;o s&oacute; os est&iacute;mulos auditivos n&atilde;o pareceram mover-se no mesmo sentido dos est&iacute;mulos visuais, como foram integrados e agiram sobre aqueles. </p>        <p >Por outro lado, poderia argumentar-se que, pela elevada ambiguidade do PLW bi-est&aacute;vel, os sujeitos tenderiam a optar por usar como pista de refer&ecirc;ncia o est&iacute;mulo auditivo, mais est&aacute;vel. Observa-se, contudo, que os resultados de vi&eacute;s nunca foram totalmente atenuados, o que teria acontecido caso a pista de refer&ecirc;ncia fosse a auditiva (clara quanto &agrave; indica&ccedil;&atilde;o de movimento em profundidade frente/tr&aacute;s). </p>      <p >Uma das discuss&otilde;es mais activas entre os investigadores que estudam a percep&ccedil;&atilde;o multi-modal de est&iacute;mulos n&atilde;o biol&oacute;gicos prende-se, precisamente, com o momento que as pistas audiovisuais s&atilde;o combinadas. Mais concretamente, alguns investigadores argumentam que h&aacute; um momento de processamento comum de baixo n&iacute;vel, que seria respons&aacute;vel por efeitos como a distor&ccedil;&atilde;o de um input de forma a se assemelhar ao outro, apresentado concomitantemente (como nos efeitos de ventriloquismo visual e temporal). Outros autores argumentam que a elevada variedade encontrada nos resultados desta &aacute;rea poder&aacute; dever-se sobretudo ao tipo de tarefa que &eacute; colocada e que a combina&ccedil;&atilde;o dos est&iacute;mulos s&oacute; &eacute; feita a um n&iacute;vel decisional, de alto n&iacute;vel, levando os sujeitos a centrarem-se sempre nos est&iacute;mulos mais apropriados e cuja informa&ccedil;&atilde;o &eacute; mais confi&aacute;vel, quanto ao que &eacute; pedido (Soto-Faraco, Spence, &amp; Kingstone, 2004; Welsh, Duttonhurt, &amp; Warren, 1986). Dados recentes de fMRI indicam que os processos perceptivos e decisionais na percep&ccedil;&atilde;o audiovisual de movimento r&iacute;gido est&atilde;o intimamente ligados (Soto-Faraco, Spence, Lloyd, &amp; Kingstone, 2004). </p>        <p >Nos dados do presente estudo, n&atilde;o se observam os mesmos fen&oacute;menos de escolha de uma pista sensorial. Parece ent&atilde;o que a percep&ccedil;&atilde;o multimodal do movimento biol&oacute;gico pode n&atilde;o seguir as mesmas regras da percep&ccedil;&atilde;o multimodal de movimento r&iacute;gido. </p>      <p >A segunda hip&oacute;tese que se colocava neste trabalho indicava que a condi&ccedil;&atilde;o audiovisual apresentaria melhores resultados que as condi&ccedil;&otilde;es unimodais. Este efeito foi claramente confirmado nos resultados obtidos, sendo as diferen&ccedil;as encontradas entre as condi&ccedil;&otilde;es estatisticamente significativas. Os ensaios em que surgiu a mais forte interac&ccedil;&atilde;o foram aqueles de orienta&ccedil;&atilde;o a 180. Para este tipo de est&iacute;mulos, as propor&ccedil;&otilde;es de acerto eram bastante reduzidas e sofreram um forte aumento na condi&ccedil;&atilde;o audiovisual. &Eacute; particularmente interessante observar estes resultados neste tipo de ensaios, em que os est&iacute;mulos visuais e auditivos eram claramente incongruentes, uma vez que o vi&eacute;s fazia o avatar parecer andar de frente e o som indicava um claro movimento de afastamento. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >De acordo com o modelo interpretativo de Brooks e colaboradores (2007), quando os est&iacute;mulos de movimento biol&oacute;gico eram congruentes entre eles, surgia um efeito de facilita&ccedil;&atilde;o bimodal com claras melhorias perceptivas, mas quando estes est&iacute;mulos eram incongruentes, havia um efeito de inibi&ccedil;&atilde;o bimodal, com dificulta&ccedil;&atilde;o destes processos. Os resultados do presente trabalho parecem indicar que os est&iacute;mulos de ambas as modalidades sensoriais tendem a ser integrados, mesmo quando incompat&iacute;veis (quando h&aacute; vi&eacute;s visual para a frente e o est&iacute;mulo auditivo se move para tr&aacute;s). Naturalmente, que devido &agrave; natureza bi-est&aacute;vel dos est&iacute;mulos visuais e &agrave;s caracter&iacute;sticas pouco robustas dos est&iacute;mulos auditivos, apesar de estes est&iacute;mulos serem incongruentes separadamente, era sempre poss&iacute;vel encontrar um percepto integrador de ambos os dados sensoriais. Assim, observa-se que, sendo poss&iacute;vel, os sujeitos combinam ambas as pistas, que se influenciam mutuamente. Independentemente da facilita&ccedil;&atilde;o ou inibi&ccedil;&atilde;o da percep&ccedil;&atilde;o enquanto processo (no estudo supracitado, Brooks e colegas mediram os resultados em tempos de resposta), os resultados multimodais s&atilde;o melhores que as probabilidades de sucesso unimodais combinadas, podendo-se falar numa facilita&ccedil;&atilde;o perceptiva enquanto resultado. </p>      <p >Apesar de todas as an&aacute;lises desenvolvidas, mant&eacute;m-se contudo imprevis&iacute;vel a forma como os est&iacute;mulos audiovisuais interagem face aos valores obtidos nas condi&ccedil;&otilde;es unimodais. A este n&iacute;vel, ser&atilde;o necess&aacute;rios estudos adicionais, com melhor quantifica&ccedil;&atilde;o das propriedades perceptivas, de forma a obter valores que permitam compara&ccedil;&otilde;es mais claras. </p>      <p >Em suma, pode-se concluir que a percep&ccedil;&atilde;o audiovisual do movimento    biol&oacute;gico obedece a mecanismos de integra&ccedil;&atilde;o multimodal    pr&oacute;prios. Todos os nossos dados podem ser explicados por mecanismos de    interac&ccedil;&atilde;o entre as pistas visuais e auditivas, quando apresentadas    em simult&acirc;neo, o que suporta a ideia da exist&ecirc;ncia de uma &aacute;rea    cerebral de processamento comum, a &aacute;rea STSp, que pode ter propriedades    de integra&ccedil;&atilde;o supramodal, pr&eacute;vias ao momento de tomada    de decis&atilde;o. </p>      <p >Os resultados observados n&atilde;o esgotam todas as quest&otilde;es acerca da percep&ccedil;&atilde;o audiovisual do movimento biol&oacute;gico. Ser&atilde;o necess&aacute;rios estudos adicionais, nomeadamente no sentido de conhecer melhor a interac&ccedil;&atilde;o entre as pistas auditivas e visuais quando incompat&iacute;veis ou incongruentes, assim como ser&aacute; pertinente analisar em detalhe quais os valores de igualdade/discrep&acirc;ncia necess&aacute;rios para produzir efeitos de facilita&ccedil;&atilde;o/inibi&ccedil;&atilde;o bimodal espec&iacute;fica e qual a sua rela&ccedil;&atilde;o. Igualmente relevante, ser&aacute; aprofundar os dados neurofisiol&oacute;gicos acerca do papel da &aacute;rea STSp nos processos intermodais de percep&ccedil;&atilde;o do movimento biol&oacute;gico. </p>        <p >&nbsp;</p>      <p >REFER&Ecirc;NCIAS </p>          <p >Alais, D., &amp; Burr, D. (2004). No direction-specific bimodal facilitation for audiovisual motion detection. <i>Cognitive Brain Research, 19</i>, 185-194. </p>        <p >Beauchamp, M., Lee, K., Haxby, J., &amp; Martin, A. (2002). Parallel visual motion processing streams for manipulable objects and human movements. <i>Neuron, 34</i>, 149-159. </p>      <p >Beintema, J., Oleksiak, A., &amp; Wezel, R. (2006). The influence of biological motion perception on structure-from-motion interpretations at different speeds. <i>Journal of Vision, 6</i>, 712-726. </p>      <p >Bidet-Caulet, A., Voisin, J., Bertrand, O., &amp; Fonlupt, P. (2005). Listening to a walking human activates the temporal biological motion area. <i>Neuroimage, 28</i>, 132-139. </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p >Blake, R., &amp; Shiffrar, M. (2006). Perception of human motion. <i>Annual Review of Psychology, 58</i>, 12.1-12.27. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000093&pid=S0870-8231201000020000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p >Bonda, E., Petrides, M., Oery, D., &amp; Evans, A. (1996). Specific involvement of human parietal systems and the amygdala in the perception of biological motion. <i>Journal of Neuroscience, 16</i>, 3737-3744. </p>      <p >Brooks, A., Zwan, R., Billard, A., Petreska, B., Clarke, S., &amp; Blanke, O. (2007). Auditory motion affects visual biological motion processing. <i>Neuropsychologia</i>. </p>      <p >Dittrich, W., Troscianko, T., Lea, S., &amp; Morgan, D. (1996). Perception of emotion from dynamic point-light displays represented in dance. <i>Perception, 25</i>, 727-738. </p>        <p >Effenberg, A. (2005). Movement sonification: Effects on perception and action. <i>IEE Multimedia, 2</i>, 53-59. </p>        <p >Grossman, E., Blake, R., &amp; Kim, C. (2004). Learning to see biological motion: Brain activity parallels behaviour. <i>Journal of Cognitive Neuroscience, 16</i>, 1669-16679. </p>      <p >Jacobs, A., &amp; Shiffrar, M. (2005). Walking perception by walking observers. <i>Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance, 31</i>, 157-169. </p>      <p >Johansson, G. (1973). Visual perception of biological motion and a model for its analysis. <i>Perception and Psychophysics, 14</i>, 201-211. </p>      <p >Loula, F., Prasad, S., Harber, K., &amp; Shiffrar, M. (2005). Recognizing people prom their movement. <i>Journal of Experimental Psychology, 31</i>, 210-220. </p>      <p >McGurk, H., &amp; Mac Donald, J. (1976). Hearing lips and seeing voices. <i>Nature, 264</i>, 746-748. </p>      ]]></body>
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<body><![CDATA[<p ><sup><a name="1"></a>(<a href="#top1">*</a>)</sup>&nbsp; Escola de Psicologia,    Universidade do Minho, Campus de Gualtar, 4700 Braga, Portugal; Telefone: 253604240;    Fax: 253604224; E-mail: <a href="mailto:catarina.mendonca@hotmail.com">catarina.mendonca@hotmail.com</a>    / <a href="mailto:catarina.mendonca@hotmail.com">jorge.a.santos@psi.uminho.pt</a>  </p>     <p >&nbsp;</p>           ]]></body><back>
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