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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Psicologia Comunitária Positiva: Um exemplo de integração paradigmática com populações de pobreza]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The ontological, epistemological and methodological aspects of community psychology make it particularly appropriate to elegantly and efficaciously intertwine this model with the new paradigm of positive psychology. The present article describes and reflects an intervention aimed at that integration, implemented with populations living under the poverty line in the Portuguese Azores Islands. While supporting priority changes in the material quality of life of the population, the project has been working with the professionals to be catalysts for inclusion and empowerment, while stimulating the consciousness on individual and collective virtues and strengths through the intervention at the speech act. Throughout participative and appreciative interventions, and under a community development positive focus, the project has been enhancing optimism, hope, sense of humour and positive emotions in general, as much as a new language where positive words are now possible to describe life experiences. We tried to move from a survival to a &#8220;Supervival&#8221; position. We therefore connect recent scientific data from positive psychology and from community psychology into a critical, appreciative, and generative practice involving transformational changes co-constructed between professionals and poverty populations.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Psicologia Comunit&aacute;ria Positiva: Um exemplo de integra&ccedil;&atilde;o    paradigm&aacute;tica com popula&ccedil;&otilde;es de pobreza </b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Helena &Aacute;gueda Marujo <sup>(*)</sup>, Lu&iacute;s Miguel Neto <sup>(*)</sup></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><sup>(*)</sup>&nbsp; Faculdade de Psicologia, Universidade de Lisboa, Alameda    da Universidade 1649-013 Lisboa; E-mail: <a href="mailto:lenamar@fpce.ul.pt">lenamar@fpce.ul.pt</a>    / <a href="mailto:neto@fpce.ul.pt">neto@fpce.ul.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>RESUMO</p>      <p>Os aspectos ontol&oacute;gicos, epistemol&oacute;gicos e metodol&oacute;gicos da psicologia comunit&aacute;ria tornam-na especialmente apropriada para se cruzar eficazmente com o novo paradigma da psicologia positiva. Este trabalho descreve e reflecte uma interven&ccedil;&atilde;o conducente a essa integra&ccedil;&atilde;o, realizada junto de popula&ccedil;&otilde;es no limiar da pobreza na Regi&atilde;o Aut&oacute;noma dos A&ccedil;ores. A par do priorit&aacute;rio apoio no dom&iacute;nio das condi&ccedil;&otilde;es materiais, para que a popula&ccedil;&atilde;o caminhe para uma vida mais digna, o projecto tem levado a que os profissionais no terreno sirvam de catalisadores na luta pela inclus&atilde;o e <i>empowerment </i>das popula&ccedil;&otilde;es, e estimulem a consciencializa&ccedil;&atilde;o sobre as for&ccedil;as e virtudes individuais e colectivas atrav&eacute;s da interven&ccedil;&atilde;o com base nos actos de fala. Usando metodologias participativas e apreciativas, e a implementa&ccedil;&atilde;o de um modelo de desenvolvimento comunit&aacute;rio focalizado no positivo, no funcional e nas excep&ccedil;&otilde;es aos problemas, tem-se potenciado o optimismo, a esperan&ccedil;a, o desenvolvimento do sentido de humor e as emo&ccedil;&otilde;es positivas em geral, bem como uma nova linguagem, onde s&atilde;o agora poss&iacute;veis palavras positivas para narrar a experi&ecirc;ncia, caminhando-se para uma perspectiva, n&atilde;o apenas de sobreviv&ecirc;ncia, mas de &#8220;Superviv&ecirc;ncia&#8221;. Cruzam-se assim os conhecimentos cient&iacute;ficos recentes da psicologia positiva e da psicologia comunit&aacute;ria numa pr&aacute;tica reflexiva, apreciativa e generativa dos profissionais e das popula&ccedil;&otilde;es com quem co-constroem mudan&ccedil;as transformadoras. </p>      <p><i>Palavras chave: </i>Acto de fala, Inqu&eacute;rito apreciativo, Pobreza, Psicologia comunit&aacute;ria, Psicologia positiva. </p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>ABSTRACT</p>      <p>The ontological, epistemological and methodological aspects of community psychology make it particularly appropriate to elegantly and efficaciously intertwine this model with the new paradigm of positive psychology. The present article describes and reflects an intervention aimed at that integration, implemented with populations living under the poverty line in the Portuguese  Azores Islands. While supporting priority changes in the material quality of life of the population, the project has been working with the professionals to be catalysts for inclusion and empowerment, while stimulating the consciousness on individual and collective virtues and strengths through the intervention at the speech act. Throughout participative and appreciative interventions, and under a community development positive focus, the project has been enhancing optimism, hope, sense of humour and positive emotions in general, as much as a new language where positive words are now possible to describe life experiences. We tried to move from a survival to a &#8220;Supervival&#8221; position. We therefore connect recent scientific data from positive psychology and from community psychology into a critical, appreciative, and generative practice involving transformational changes co-constructed between professionals and poverty populations. </p>      <p><i>Key words: </i>Appreciative inquiry, Community psychology, Positive psychology, Poverty, Speech act. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>NOVOS DISCURSOS PSICOL&Oacute;GICOS</p>      <p>The word which we most often use to talk about the quality without a name is the word &#8220;alive&#8221;. There is a sense in which the distinction between something alive and something lifeless is much more general, and far more profound, that the distinction between living things and nonliving things, or between life and death. Things which are living may be lifeless; nonliving things may be alive... </p>      <p><i>Christopher Alexander, &#8220;The Timeless Way of Building&#8221; </i></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>O objectivo deste artigo &eacute; examinar como o recente modelo da psicologia positiva (Seligman &amp; Csikszentmhihalyi, 2000) pode entrecruzar-se elegante e eficazmente com o paradigma da psicologia comunit&aacute;ria, no sentido de potenciar ambos: levar a uma psicologia positiva aplicada, que veja mais longe do que o intra-individual, e se dedique abertamente ao estudo e interven&ccedil;&atilde;o junto das comunidades e institui&ccedil;&otilde;es, mobilizando-se assim para ser parte activa e &uacute;til nas mudan&ccedil;as sociais e no restabelecimento da justi&ccedil;a social; caminhar para uma psicologia de comunit&aacute;ria que v&aacute; cada vez mais para al&eacute;m do modelo cient&iacute;fico de resolu&ccedil;&atilde;o de problemas e da identifica&ccedil;&atilde;o de necessidades das pessoas, grupos e comunidades (Levine, Perkins, &amp; Perkins, 2005), e concretize verdadeiramente o seu des&iacute;gnio dos &uacute;ltimos anos: avan&ccedil;ar de uma perspectiva de d&eacute;fice para uma centrada nas for&ccedil;as, agenciamento e <i>empowerment </i>das popula&ccedil;&otilde;es, em busca da liberta&ccedil;&atilde;o e do bem-estar colectivo (Nelson &amp; Prilleltensky, 2005). Pretende-se, por conseguinte, que sejam modelos ou teorias verdadeiramente &#8220;vivos&#8221; (Cronen, 1995) propulsionadores de desenvolvimento comunit&aacute;rio, e suportados em narrativas, n&atilde;o sobre sofrimento ou necessidades, mas sobre &#8220;territ&oacute;rios de d&aacute;diva e de vida&#8221; (Hoffman &amp; Kinman, 2008). </p>      <p>Citando Mart&iacute;n-Bar&oacute;, num posicionamento tido j&aacute; em 1986, uma psicologia da liberta&ccedil;&atilde;o dever&aacute;, entre outros aspectos, estar menos preocupada com o seu estatuto social e cient&iacute;fico, e mais preocupada com os problemas das pessoas em necessidade; ser uma psicologia mais consciente das virtudes e for&ccedil;as das pessoas na busca da mudan&ccedil;a; e ser uma nova forma de conceber a liberta&ccedil;&atilde;o como um processo hist&oacute;rico e colectivo (Mart&iacute;n-Bar&oacute;, 1989). Associada &agrave; significativa e intensa palavra &#8220;liberta&ccedil;&atilde;o&#8221;, que nos transporta de volta a Paulo Freire (2008), Montero (2005), ao reflectir sobre o futuro da psicologia comunit&aacute;ria, sublinha o des&iacute;gnio de caminhar para o bem-estar das popula&ccedil;&otilde;es &#8211; tema especialmente caro &agrave; psicologia positiva, ainda que at&eacute; ao momento sobretudo perspectivado num entendimento subjectivo e intra-individual (Diener &amp; Biswas-Diener, 2008; Huppert, Baylis, &amp; Keverne, 2006). </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ambos estes subdom&iacute;nios da psicologia t&ecirc;m vindo recentemente a pretender mudar a aten&ccedil;&atilde;o conferida &agrave;s vari&aacute;veis psicol&oacute;gicas, para dar apre&ccedil;o a din&acirc;micas econ&oacute;micas, sociais, pol&iacute;ticas e contextuais, assim introduzindo novos discursos cient&iacute;ficos na rela&ccedil;&atilde;o com a vida social (Layard, 2005). Se considerarmos que a ideologia dominante se manifesta na linguagem (Meyer, 2001), podemos reconhecer que as mudan&ccedil;as valorativas s&atilde;o vis&iacute;veis e a ideologia pode estar a transformar-se: a entrada duma linguagem positiva e emancipat&oacute;ria das popula&ccedil;&otilde;es, refor&ccedil;adora de uma adjectiva&ccedil;&atilde;o esperan&ccedil;ada e de auto-efic&aacute;cia e auto-determina&ccedil;&atilde;o &eacute;, cada vez mais, um sinal do caminho feito pelas ci&ecirc;ncias sociais e humanas no sentido de uma investiga&ccedil;&atilde;o justa e transformadora. </p>      <p>Se a sociedade se preocupa hoje com os valores que levaram a um caos econ&oacute;mico, que dizer do impacto dos valores que subjazem &agrave; ci&ecirc;ncia? Em muitas inst&acirc;ncias, os valores colectivos como a justi&ccedil;a social, a solidariedade, a gratid&atilde;o, a generosidade... recebem uma aten&ccedil;&atilde;o m&iacute;nima. Se a ci&ecirc;ncia psicol&oacute;gica os descarta, preferindo antes estudar a depress&atilde;o, a ansiedade, o crime, a viol&ecirc;ncia ou o medo, acabamos com uma maior visibilidade destes &uacute;ltimos em detrimento dos anteriores e, em conson&acirc;ncia, com uma vis&atilde;o denegrida da humanidade em geral. Nas popula&ccedil;&otilde;es consideradas marginais, como as que vivem em pobreza, este fen&oacute;meno ganha ainda mais e doloroso impacto (Lott, 2002; Moreira, 2003; Neto, 1996). </p>      <p>Por detr&aacute;s da ci&ecirc;ncia est&atilde;o sempre posi&ccedil;&otilde;es morais. Por detr&aacute;s destas, est&atilde;o sempre diferentes pr&aacute;ticas. De acordo com Kekes (1993, cit. in Nelson &amp; Prilleltensky, 2005), valores s&atilde;o &#8220;benef&iacute;cios causados pela humanidade que os seres humanos dedicam uns aos outros... Como forma de ilustra&ccedil;&atilde;o, poderemos dizer que o amor e a justi&ccedil;a s&atilde;o bens morais&#8221; (p. 44). Ao investigar e intervir na comunidade com uma perspectiva transformadora, e ao escolher o centro de gravidade da interven&ccedil;&atilde;o e dos estudos emp&iacute;ricos, podemos fazer aumentar ou diminuir os bens morais. </p>      <p>Neste particular, o paradigma da psicologia positiva veio expandir algo que era terreno pr&oacute;prio da psicologia comunit&aacute;ria: uma acep&ccedil;&atilde;o clara de valores e o reconhecimento da impossibilidade de uma ci&ecirc;ncia neutra. Quando hoje, contra ventos e mar&eacute;s, dentro do <i>mainstream </i>conservador da psicologia (Seligman, comunica&ccedil;&atilde;o pessoal, 2009), se critica a abordagem da psicologia positiva, reconhece-se ainda assim a sua relev&acirc;ncia s&oacute; ao falar dela, e refor&ccedil;a-se a ideia de que &eacute; inevit&aacute;vel tomar posi&ccedil;&otilde;es em ci&ecirc;ncia. Quando a psicologia positiva se dedica ao estudo da felicidade, ou do que faz a vida merecer ser vivida (Csikszentmhihalyi &amp; Csikszentmhihalyi, 2006) est&aacute; a ser sens&iacute;vel aos valores e a posicionar-se numa dan&ccedil;a dial&eacute;ctica entre o bem e o mal, o belo e o feio, o saud&aacute;vel e o doente, o justo e o injusto... criando condi&ccedil;&otilde;es para uma pr&aacute;tica reflectida (Freire, 2008; Freire &amp; Horton, 2002). </p>      <p>Enquanto investigadores, tomamos posi&ccedil;&otilde;es claras quando respondemos &agrave;s quest&otilde;es: &#8220;<i>O que decido estudar </i>&#8211; a patologia de uma popula&ccedil;&atilde;o ou indiv&iacute;duo, ou as condi&ccedil;&otilde;es da excel&ecirc;ncia das pessoas e das comunidades?&#8221;; &#8220;<i>Quem decido conhecer com o meu estudo </i>&#8211; os estudantes universit&aacute;rios, t&atilde;o acess&iacute;veis aos investigadores acad&eacute;micos, e t&atilde;o bem posicionados em termos de poder social, ou as popula&ccedil;&otilde;es marginalizadas, sem voz e sem qualquer tipo de soberania?&#8221;; &#8220;<i>Que perguntas fa&ccedil;o</i>: sobre o que d&aacute; vida, mesmo nas piores circunst&acirc;ncias, a alguma pessoa ou grupo, ou sobre as causas da fragilidade ou da patologia desses mesmos alvos?&#8221;; &#8220;<i>Como decido questionar </i>&#8211; dando voz directa aos intervenientes, ou quantificando e transformando os &#8216;sujeitos&#8217; de investiga&ccedil;&atilde;o em n&uacute;meros, de forma distanciada e desumanizada?&#8221;; &#8220;<i>Como intervenho</i>: para al&eacute;m da falsa distin&ccedil;&atilde;o entre descritivo e prescritivo, escolho melhorar (aumentando o bem-estar, numa posi&ccedil;&atilde;o centrada no &#8220;perito&#8221;) ou escolho transformar (promovendo o bem-estar ao mesmo tempo que mudo as rela&ccedil;&otilde;es de poder, eliminando a opress&atilde;o, em verdadeira colabora&ccedil;&atilde;o e solidariedade) (to &#8220;ameliorate&#8221; or &#8220;transform&#8221;, tal como diferenciam Prilleltensky &amp; Nelson, 1997)?&#8221; (Marujo &amp; Neto, 2008). </p>      <p>As psicologias positiva e comunit&aacute;ria, em paralelo com outros modelos n&atilde;o deficit&aacute;rios de interven&ccedil;&atilde;o dentro dos sistemas humanos (Cooperrider, 2004; De Shazer, 1991; 1994), podem ser considerados movimentos cr&iacute;ticos e corajosos em rela&ccedil;&atilde;o ao <i>status quo </i>da psicologia, intentando um horizonte de representa&ccedil;&atilde;o da mudan&ccedil;a e dos seres humanos baseado nas for&ccedil;as e no positivo, e na reflex&atilde;o sobre mudan&ccedil;as de segunda-ordem &#8211; que mais do que criar altera&ccedil;&otilde;es dentro do sistema, procuram transformar o sistema e os seus pressupostos (Rappaport, 1977). Como resultado, estes dois bra&ccedil;os da psicologia t&ecirc;m vindo a convidar, impl&iacute;cita ou explicitamente, a uma transforma&ccedil;&atilde;o nos valores dos investigadores, na sua &eacute;tica e na sua responsabilidade social. T&ecirc;m aberto as possibilidades e as escolhas sobre novos t&oacute;picos de conversa, inquiri&ccedil;&atilde;o e ac&ccedil;&atilde;o. </p>      <p>Recentemente, Mihaly Csikszentmhihalyi (2006, p. 5), um dos fundadores da psicologia positiva, afirmava: </p>      <p>&#8220;A perspectiva da psicologia positiva est&aacute; direccionada para ser correctiva quer, por um lado, do posicionamento de neutralidade valorativa das abordagens experimentais quer, por outro, das vis&otilde;es orientadas exclusivamente para a patologia que permearam muita da psicologia cl&iacute;nica&#8221;. Estas influ&ecirc;ncias hist&oacute;ricas, culturais e morais est&atilde;o a impactar com intensidade a psicologia, permitindo-nos entrar em novos tipos de di&aacute;logo com os proponentes das teorias, dos m&eacute;todos e das pr&aacute;ticas interventivas (Marujo, Neto, Caetano, &amp; Rivero, 2007; Oishi, 2007; Snyder &amp; Lopez, 2007). </p>      <p>A aten&ccedil;&atilde;o aos oprimidos e a luta pela inclus&atilde;o, integra&ccedil;&atilde;o, liberta&ccedil;&atilde;o e reequil&iacute;brio na distribui&ccedil;&atilde;o de poder (Machado, 1984) tem sido uma das mais fascinantes bandeiras da psicologia comunit&aacute;ria (Levine, Perkins, &amp; Perkins, 2005). Ser psic&oacute;logo, enquanto identidade pessoal e profissional (Nelson &amp; Prilleltensky, 2005), pode significar &#8211; significa frequentemente &#8211; fazer parte dos detentores de poder, pelo que estes novos discursos prop&otilde;em a possibilidade de libertar os profissionais de paternalismos tradicionalmente utilizados atrav&eacute;s da observa&ccedil;&atilde;o, classifica&ccedil;&atilde;o, diagn&oacute;stico, defini&ccedil;&atilde;o e imposi&ccedil;&atilde;o de propostas de mudan&ccedil;a, levandoos assim a p&ocirc;r fim a uma actua&ccedil;&atilde;o com base em pr&aacute;ticas de hegemonia e opress&atilde;o (Cobb, 1993; Gergen, Hoffman, &amp; Anderson, 1996). Ao trabalhar com popula&ccedil;&otilde;es desfavorecidas e marginais ao poder, ainda &eacute; mais urgente tomar consci&ecirc;ncia do tipo de pr&aacute;ticas implementadas e de teorias subjacentes, pelo ainda maior risco de cria&ccedil;&atilde;o de depend&ecirc;ncias e menoriza&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es, as quais assumem, por regra, por expectativas antecipadas de apoio, e por &oacute;bvia resposta ao sistema que estimula depend&ecirc;ncias e fragilidades, a posi&ccedil;&atilde;o de v&iacute;timas. </p>      <p>Nesta mudan&ccedil;a de valores, linguagem e posicionamento moral dos cientistas, acad&eacute;micos e pr&aacute;ticos, o actual reenquadramento das v&iacute;timas &#8211; de qualquer tipo de situa&ccedil;&atilde;o &#8211; como sobreviventes, foi um dos muitos sinais da mudan&ccedil;a recente no discurso e da transforma&ccedil;&atilde;o em termos dos valores. Veja-se a prop&oacute;sito a aplica&ccedil;&atilde;o desta mudan&ccedil;a lingu&iacute;stica nas situa&ccedil;&otilde;es de viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica (Teles, 2008). Como desenvolveremos em seguida, temos vindo a propor avan&ccedil;ar ainda mais, e intervir numa perspectiva narrativa de &#8220;Superviv&ecirc;ncia&#8221; &#8211; entendida como o reconhecimento das extraordin&aacute;rias for&ccedil;as e virtudes inerentes a viver numa posi&ccedil;&atilde;o social, econ&oacute;mica, cultural, entendida como deficit&aacute;ria e marginal. O segmento da popula&ccedil;&atilde;o que vive em situa&ccedil;&otilde;es socialmente injustas, e que &eacute; ainda muitas vezes rotulado como desonesto ou aproveitador do sistema (que o oprime) &#8211; tal como acontece com as popula&ccedil;&otilde;es benefici&aacute;rias do Rendimento Social de Inser&ccedil;&atilde;o &#8211; merece um entendimento e um olhar de admira&ccedil;&atilde;o e apre&ccedil;o, por conseguir, tantas vezes, mais do que sobreviver, ser inspirador de uma extraordin&aacute;ria e her&oacute;ica capacidade de Superviv&ecirc;ncia. &Eacute; preciso celebrar cada acto de hero&iacute;smo, por mais banal (Cronen &amp; Lang, 1995; Zimbardo, 2007). </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p>O PROJECTO V.I.P. &#8211; VALORES, INFLU&Ecirc;NCIAS E PROJECTOS</p>      <p>Blake saw that if your myth-created ideology was hierarchical, you couldn&#8217;t function outside that hierarchy. </p>      <p><i>Northrup Frye </i></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>A ant&iacute;tese do valor da igualdade est&aacute; bem patente no conceito VIP &#8211; sin&oacute;nimo das pessoas realmente importantes, que t&ecirc;m privil&eacute;gios especiais, no fundo os que j&aacute; t&ecirc;m tanto e, por isso, merecem ainda mais. Foi esta a ideia inspiradora do t&iacute;tulo do programa desenvolvido, com o apoio do Instituto de Ac&ccedil;&atilde;o Social &#8211; Rendimento Social de Inser&ccedil;&atilde;o &#8211; da Regi&atilde;o Aut&oacute;noma dos A&ccedil;ores, em conjun&ccedil;&atilde;o com C&acirc;maras Municipais (Ribeira Grande) e Santas Casas da Miseric&oacute;rdia da mesma regi&atilde;o. A concep&ccedil;&atilde;o de que todos somos e &#8211; merecemos ser &#8211; VIP (<i>Very Important Person</i>), juntou-se aos tr&ecirc;s pilares que pretend&iacute;amos desenvolver com este projecto de Psicologia Positiva Comunit&aacute;ria: os Valores (dos profissionais, investigadores e acad&eacute;micos envolvidos, e das popula&ccedil;&otilde;es a viver em pobreza), as Influ&ecirc;ncias (positivas, recebidas e transformadas por cada um, quer fosse profissional, quer benefici&aacute;rio do RSI), e os Projectos (numa concep&ccedil;&atilde;o clara de uma psicologia e de uma interven&ccedil;&atilde;o avessa ao olhar determinista sobre o passado, e que tem, isso sim, os olhos postos no futuro, portanto idealizando, e colectivamente sonhando, outras possibilidades) (Marujo &amp; Neto, 2008). Estas linhas estruturais suportaram ac&ccedil;&otilde;es conjuntas pr&aacute;ticas, sempre feitas em formato de comunidade e em conversa din&acirc;mica &#8211; fossem elas uma interven&ccedil;&atilde;o num bairro de realojamento para optimizar a qualidade das rela&ccedil;&otilde;es e o surgimento de solu&ccedil;&otilde;es conjuntas num momento de crise e conflito entre os moradores, ou ac&ccedil;&otilde;es junto de grupos de mulheres dom&eacute;sticas sem outro projecto de vida que n&atilde;o a maternidade, ou interven&ccedil;&otilde;es junto de grupos de jovens para quem era relevante potenciar a estabilidade no projecto escolar atrav&eacute;s de ac&ccedil;&otilde;es pela arte ou da consci&ecirc;ncia e protec&ccedil;&atilde;o ambiental da maravilhosa ilha de S. Miguel. </p>      <p>O projecto iniciou-se com o repensar do papel dos profissionais no terreno, para que actuassem de forma verdadeiramente colaborativa e apreciativa, atrav&eacute;s da expans&atilde;o de narrativas, possibilidades emocionais e escolhas comunicacionais e comportamentais dos pr&oacute;prios. A conscientiza&ccedil;&atilde;o proposta por Paulo Freire (2008) fazia igualmente sentido na perspectiva do reconhecimento dos valores e influ&ecirc;ncias vividos pelos profissionais, e na forma como se sentiam libertos ou presos a modelos psicol&oacute;gicos e valorativos deterministas, classificadores e patologizadores das popula&ccedil;&otilde;es. A reflex&atilde;o inicial sobre o tipo de linguagem utilizada para falar com e sobre as popula&ccedil;&otilde;es com as quais trabalhavam, levou a um reconhecimento de um papel de opressores e de definidores autorit&aacute;rios da mudan&ccedil;a. Mesmo nos momentos em que deveria haver &#8220;negocia&ccedil;&atilde;o&#8221;, inerentes ao recebimento do RSI, o que os profissionais verificaram sob as suas pr&aacute;ticas foi a sua (at&eacute; a&iacute; pouco consciente) imposi&ccedil;&atilde;o de metas de mudan&ccedil;a &agrave;s fam&iacute;lias, metas tantas vezes n&atilde;o percebidas ou n&atilde;o reconhecidas como relevantes por aqueles que as deviam concretizar. Conceitos como &#8220;resist&ecirc;ncia&#8221;, &#8220;fam&iacute;lia desestruturada&#8221;, &#8220;agressivo&#8221; ou &#8220;alco&oacute;lico&#8221; foram escrutinados pelos pr&oacute;prios que os utilizavam, avaliando o impacto em si mesmos, naqueles a quem se referiam, bem como na rela&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua estabelecida. As pr&oacute;prias popula&ccedil;&otilde;es puderam partilhar as suas narrativas sobre as palavras que costumavam ouvir sobre si, vindas dos profissionais, e trabalhou-se o conceito de discurso, n&atilde;o como mero descritor da experi&ecirc;ncia, mas como ponto de partida para a constru&ccedil;&atilde;o da realidade (Gergen, 2001, 2004; Gergen &amp; Gergen, 2005). Desenvolveram-se conversas em grupo sobre o poder da linguagem e o nosso pr&oacute;prio poder na sua escolha &#8211; quer envolvendo profissionais, quer a popula&ccedil;&atilde;o benefici&aacute;ria de RSI. Abriram-se perspectivas sobre a liberdade de escolha na linguagem usada e experimentaram-se formas diferentes de descrever ou nomear pessoas e fen&oacute;menos. Trabalharam-se as palavras que quer&iacute;amos usar, as que quer&iacute;amos ouvir, as que nos orgulhavam e as que nos desvalorizavam; as que nos marcavam positivamente e as que nos feriam; as que nos davam des&acirc;nimo ou esperan&ccedil;a; as de passado e as relativas ao futuro. Introduziu-se nessa altura o modelo do Inqu&eacute;rito Apreciativo (Coopperider, 2004; Cooperrider &amp; Whitney, 2005; Whitney &amp; Cooperrider, 2000), e a import&acirc;ncia e poder das perguntas colocadas. </p>      <p>Deixam-se exemplos de interac&ccedil;&otilde;es apreciativas transformadoras ao n&iacute;vel do acto de fala (Pearce, 1994) utilizadas no projecto, quer das destinadas aos profissionais, quer &agrave; popula&ccedil;&atilde;o alvo de interven&ccedil;&atilde;o: &#8220;Qual o momento em que se sentiu mais vivo, realizado, feliz, no trabalho com estas popula&ccedil;&otilde;es?&#8221;; &#8220;Qual o momento em que se sentiu mais orgulhoso e entusiasmado por fazer parte desta comunidade?&#8221;; &#8220;O que tem posto de melhor de si neste trabalho?&#8221;; &#8220;O que mais admira em si como m&atilde;e/pai/ser humano?&#8221;; &#8220;Quem v&ecirc; de fora a sua fam&iacute;lia, que pontos altos e for&ccedil;as identifica? O que mais os une e os faz felizes?&#8221;; &#8220;Se encontrasse a l&acirc;mpada do Aladino, quais os 3 desejos que pedia para o futuro do trabalho com esta comunidade?&#8221;; &#8220;Se encontrasse essa l&acirc;mpada, quais os desejos que pedia para a sua fam&iacute;lia/comunidade onde vive?&#8221;). Estas quest&otilde;es, todas elas baseadas no modelo de David Cooperrider (2004), foram ponto de partida para novas conversas, sempre que poss&iacute;vel em contexto de grupo, comunidade, vizinhan&ccedil;a. Come&ccedil;ando com entrevistas dois a dois, como o modelo do Inqu&eacute;rito Apreciativo prev&ecirc;, passou-se depois nalgumas das comunidades e grupos a momentos usando o <i>World Cafe </i>(Brown &amp; Isaacs, 2005), e mantendo o questionamento apreciativo como forma de identificar o melhor do passado e caminhar conjuntamente para os sonhos de futuro. Nesta metodologia, os intervenientes &#8211; no caso, as popula&ccedil;&otilde;es de pobreza, os respons&aacute;veis pelas &aacute;reas da sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, forma&ccedil;&atilde;o profissional, os coordenadores de servi&ccedil;os do Instituto de Ac&ccedil;&atilde;o Social, os profissionais no terreno, professores, jornalistas... &#8211; reuniram-se em redor de m&uacute;ltiplas mesas, como em esplanada, sendo que cada mesa tinha um tema ou quest&atilde;o positiva e materiais que permitissem express&otilde;es m&uacute;ltiplas, e o uso do hemisf&eacute;rio direito e do esquerdo (toalhas de papel, canetas e l&aacute;pis de muitas cores para desenhar ou escrever, e sempre comida e bebida). A din&acirc;mica activa da metodologia, que implica viagens entre mesas e o m&aacute;ximo de &#8220;poliniza&ccedil;&atilde;o&#8221; de pessoas e ideias, permite um modelo de conversas transformadoras, entre pessoas de diferentes posi&ccedil;&otilde;es sociais que assim trabalham ao mesmo n&iacute;vel de poder, num formato de &#8220;rizoma&#8221; e n&atilde;o de verticalidade na interven&ccedil;&atilde;o (Hoffman &amp; Kinman, 2008). Daqui partiram ideias de futuro a trabalhar em conjunto, com responsabilidades partilhadas na concretiza&ccedil;&atilde;o das mudan&ccedil;as desejadas por todos. </p>      <p>A relev&acirc;ncia da forma de colocar quest&otilde;es &#8211; tamb&eacute;m j&aacute; abordada por Paulo Freire, que no seu livro de 1985 com Faundez nos fala em &#8220;Aprender a Questionar&#8221;, serve a concep&ccedil;&atilde;o de que as conversas s&atilde;o transformadoras e, quando positivas e centradas no futuro, permitem uma &#8220;consci&ecirc;ncia iluminada&#8221; &#8211; porque &#8220;iluminista&#8221; &#8211; das for&ccedil;as e virtudes individuais e sociais, e um maior poder sobre a forma de moldar o destino e transformar a realidade. </p>      <p>A fase seguinte do projecto foi manter vivas as conversas em comunidade, aumentar &#8211; no sentido de densificar &#8211; as rela&ccedil;&otilde;es e as redes sociais, e faz&ecirc;-lo numa perspectiva apreciativa e mobilizadora de emo&ccedil;&otilde;es positivas (falar do melhor, dos sonhos, das excep&ccedil;&otilde;es aos problemas, comer junto com outras pessoas, ter conversas significativas e com resultados pr&aacute;ticos, rir em conjunto, re-experimentar emo&ccedil;&otilde;es positivas j&aacute; vividas em momentos altos e bons da vida &#8211; alegria, entusiasmo, orgulho numa meta atingida...) aumenta a esperan&ccedil;a e o optimismo sobre o futuro (Fredrikson, 2006, 2009). Um clima de optimismo ecol&oacute;gico (Ornelas, 2007) mant&eacute;m acordada a confian&ccedil;a na capacidade de cada um em transformar a sua vida. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A mudan&ccedil;a de expectativa &#8211; por exemplo, de passar de estar &agrave; espera do pior, na pessoa dos profissionais, antecipando a reprodu&ccedil;&atilde;o intergeracional da pobreza, para passar a ver e falar das for&ccedil;as e hist&oacute;rias de sucesso j&aacute; vividas e, portanto, dos avan&ccedil;os j&aacute; conseguidos por todos &#8211; &eacute; um factor essencial para conseguir mobilizar a esperan&ccedil;a. Assim se aumenta a probabilidade, junto de psic&oacute;logos, assistentes sociais, animadores comunit&aacute;rios..., de renegar constru&ccedil;&otilde;es hegem&oacute;nicas de destino e inevitabilidade sobre as popula&ccedil;&otilde;es desfavorecidas (Montero, 2005). O mesmo acontece nas pr&oacute;prias popula&ccedil;&otilde;es oprimidas, que atrav&eacute;s desta interven&ccedil;&atilde;o se descobrem com uma for&ccedil;a muitas vezes nunca anteriormente reconhecida (Marujo &amp; Neto, 2007). </p>      <p>A par de muitas outras ac&ccedil;&otilde;es criativas e comunit&aacute;rias, que acompanharam este processo de modifica&ccedil;&atilde;o da linguagem, ac&ccedil;&otilde;es essas, sempre que poss&iacute;vel, constru&iacute;das conjuntamente com as popula&ccedil;&otilde;es, e de acordo com as suas metas sonhadas e com base nas suas maiores compet&ecirc;ncias, potencialidades, virtudes e recursos, o projecto VIP, que vai no seu 6&ordm; ano e est&aacute; ainda em implementa&ccedil;&atilde;o, invoca a liberdade para converter aceita&ccedil;&atilde;o silenciosa e descontentamento triste com a vida numa vocaliza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o apenas dolorosa, como defendia Freire (2008), mas sobretudo fortalecida, apreciativa e mobilizadora. Da&iacute; que, atrav&eacute;s do projecto, profissionais e comunidade tenham vindo a trabalhar intencionalmente juntos em formas de aumentar as emo&ccedil;&otilde;es positivas nas suas vidas, em rir mais, em treinar um discurso colectivo apreciativo e esperan&ccedil;ado, rico em palavras &#8220;gordas de boas emo&ccedil;&otilde;es&#8221;, numa perspectiva e linguagem de &#8220;d&aacute;diva&#8221; e descoberta das for&ccedil;as que os mobilizam contra a adversidade e os fortalecem. Continuar a questionar &#8220;quais s&atilde;o as d&aacute;divas e potencialidades que esta pessoa pode trazer para a comunidade&#8221;? &#8220;Quais as d&aacute;divas e potencialidades que a comunidade pode dar a esta pessoa?&#8221; ou &#8220;Como superar os impedimentos que nos limitam nestas d&aacute;divas?&#8221; (Hoffman, 2009; Kinman, 2001) ajuda a comunidade a ultrapassar melhor os exigentes desafios das suas exist&ecirc;ncias. Nunca negando ou esquecendo o negativo, cuida-se que a propor&ccedil;&atilde;o do que se partilha de bom sobre a vida seja sempre triplamente mais elevada que o que se narra sobre o sofrimento, para que esta comunidade possa florescer (Fredrickson &amp; Losada, 2005). </p>      <p>O impacto destas escolhas metodol&oacute;gicas em termos de sa&uacute;de f&iacute;sica e mental est&aacute; comprovado (Fredrickson, 2006, 2009) e esse fortalecimento beneficiar&aacute; uma popula&ccedil;&atilde;o j&aacute; de si enfraquecida em termos de sa&uacute;de e com menos longevidade que os menos oprimidos socialmente ou que partilham posi&ccedil;&otilde;es de poder social superior (Marujo &amp; Neto, 2008). </p>      <p>A avalia&ccedil;&atilde;o da efic&aacute;cia do programa est&aacute; entretanto a realizar-se mantendo o mesmo tipo de ideologia e metodologia positiva, nomeadamente atrav&eacute;s do uso do Inqu&eacute;rito Apreciativo (Coghlan, Preskill, Tzavaras, &amp; Catsambas, 2003). Os resultados v&atilde;o no sentido esperado de <i>empowerment </i>das popula&ccedil;&otilde;es e capacita&ccedil;&atilde;o para auto-efic&aacute;cia na constru&ccedil;&atilde;o do destino pessoal e colectivo (Marujo &amp; Neto, 2008). </p>      <p>Um estudo qualitativo, dando voz a 1200 fam&iacute;lias benefici&aacute;rias do RSI e representativo da popula&ccedil;&atilde;o de todas as ilhas do arquip&eacute;lago, permitiu preparar um documento &#8211; &#8220;&Aacute;lbuns de fam&iacute;lia: de viva voz&#8221; (Marujo &amp; Neto, 2007) &#8211; que pretendeu manter vivas as conversas transformadoras em comunidade, partindo das respostas das fam&iacute;lias e da&iacute; construindo uma <i>pool </i>de quest&otilde;es positivas e centradas nas solu&ccedil;&otilde;es eficazes para a vida. A partir desta lista de poss&iacute;veis quest&otilde;es tem-se tentado manter as comunidades participativas e os di&aacute;logos generativos, por forma a dar continuidade a uma verdadeira liberta&ccedil;&atilde;o esperan&ccedil;ada face &agrave; vida da comunidade e ao seu desenvolvimento. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>CONCLUS&Otilde;ES E DESCOBERTAS</p>      <p>Why no colour? Even in those darkest corners, there is never a purity of the degenerate. Beauty is always right before the eyes, glaring at us. What effort, what discipline we all must make to ensure that this beauty is not acknowledged. Open those blinded eyes... for there is no true effort in looking for it, those gifts of life are everywhere around us.</p>      <p><i>Chris Kinman </i></p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este projecto faz sentido dentro da concep&ccedil;&atilde;o de que as formas de vida s&atilde;o criadas, recriadas e mantidas pela comunica&ccedil;&atilde;o, e que &eacute; nela que as identidades s&atilde;o socialmente constru&iacute;das (Cronen, 1995). Assim, a descoberta mais profunda que temos vindo a fazer &eacute; a do poder extraordin&aacute;rio da linguagem para transformar e para propulsionar o desenvolvimento comunit&aacute;rio. Em conson&acirc;ncia, o maior desafio &eacute; o de como colocar as quest&otilde;es que realmente libertam, fazem sentido e promovem bem-estar em cada comunidade, caminhando em simult&acirc;neo para uma ci&ecirc;ncia social que se defina em termos de &#8220;capacidade geradora&#8221;, isto &eacute;, capacidade para orientar os pressupostos da cultura, colocar as quest&otilde;es fundamentais relativas &agrave; vida social actual, e fornecer novas e inovadoras alternativas para uma interven&ccedil;&atilde;o social que gere vida, suporte as potencialidades da exist&ecirc;ncia e estimule uma revolu&ccedil;&atilde;o positiva em torno de conversas e mudan&ccedil;as significativas (Gergen, 1982, 1991; Ludema, Cooperrider, &amp; Barrett, 2001). </p>      <p>Naturalmente que toda a interven&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria &eacute; feita de paradoxos, inevit&aacute;veis e at&eacute; desej&aacute;veis para um avan&ccedil;o cr&iacute;tico da ci&ecirc;ncia e da pr&aacute;tica. No programa aqui brevemente descrito, e mais detalhado noutra publica&ccedil;&atilde;o (Marujo &amp; Neto, 2008), sentimos naturalmente esses desafios, que levam a todos os intervenientes a continuar ainda mais as conversas e levantar ainda mais e novas quest&otilde;es. Um dos desafios colocados implica o reconhecimento de que desenvolver o bem-estar pode ser considerado recomend&aacute;vel (Huppert, Baylis, &amp; Keverne, 2006) mas, como refere Etzioni (2001), pode tamb&eacute;m ser facilmente distorcido numa orienta&ccedil;&atilde;o de apoio social e servi&ccedil;o com as caracter&iacute;sticas tradicionais, orienta&ccedil;&atilde;o essa mais baseada numa perspectiva de caridade do que de justi&ccedil;a social (Montero, 2005). Manter-nos alerta para este risco, sobretudo potenciando os factores que mostram ser facilitadores de interven&ccedil;&otilde;es realmente justas, participadas e colaborativas, &eacute; um dos horizontes da continua&ccedil;&atilde;o do projecto. Ainda, evitar impor modelos definidos <i>&agrave; priori </i>e exteriores sobre bem-estar ou felicidade, mas sim ajudar cada comunidade a descobrir qual &eacute; o seu, ou os seus, &eacute; uma das orienta&ccedil;&otilde;es do trabalho dos profissionais. </p>      <p>&Eacute; regra deste projecto que todas as pr&aacute;ticas e actividades desenvolvidas sejam feitas de igual forma por todos os participantes, seja qual for a posi&ccedil;&atilde;o de poder ou fun&ccedil;&atilde;o no grupo. A humaniza&ccedil;&atilde;o e aproxima&ccedil;&atilde;o que adv&eacute;m desta igualdade coloca-nos a todos numa posi&ccedil;&atilde;o mais equilibrada para fazer convites m&uacute;tuos a mudan&ccedil;as &#8211; as mudan&ccedil;as que todos constru&iacute;mos e desejamos &#8211; e para conseguir balancear a manuten&ccedil;&atilde;o de uma perspectiva cr&iacute;tica com uma perspectiva apreciativa (Ludema, Cooperrider, &amp; Barrett, 2001), mantendo a capacidade de resolver problemas ao mesmo tempo que todos nos tornamos em especialistas em solu&ccedil;&otilde;es, excep&ccedil;&otilde;es e sucessos. Assim, acreditamos ter uma &#8220;ci&ecirc;ncia mais humana&#8221; (Polkinghome, 1983) e conseguir, como dizia Harry Aponte (1994, p. 11, cit. in Smith, 2005), &#8220;servir, nunca colonizar&#8221;. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>REFER&Ecirc;NCIAS</p>      <p>Brown, J., &amp; Isaacs, D. (2005). <i>The world cafe. Shaping our futures through conversations that matter. </i>California:  Berrett-Koehler. </p>      <p>Cobb, S. (1993). Empowerment and mediation: A narrative perspective. <i>Negotiation Journal, 9</i>(3), 245-255. </p>      <p>Coghlan, A., Preskill, H., Tzavaras, &amp; Catsambas, T. T. (2003). An overview of appreciative inquiry in evaluation. In Hallie Preskill &amp; Anne T. Coghlan (Eds.), <i>Using appreciative inquiry in evaluation</i>. New Directions for Evaluation no.100. 2003. </p>      <p>Cooperrider, D. L. (2004). <i>Introduction to Advances in appreciative inquiry. Constructive discourse and human organization, Vol. 1. </i>Oxford Elsevier Science. </p>      <p>Cooperrider, D. L., &amp; Whitney, D. (2005). <i>Appreciative inquiry: A positive revolution in change</i>. San Francisco, CA: Berrett-Koehler Publishers, Inc. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Cronen, V. (1995). Practical theory and the task ahead for social approaches to communication. In W. Leeds-Hurwitz (Ed.), <i>Social approaches to communication</i>. New York:Lawrence Earlbaum and Associates. </p>      <p>Cronen, V., &amp; Lang, P. (1995). Language and Action: Wittgenstein and Dewey in the practice of therapy and consultation. <i>Human Systems, 5</i>, 5-43. </p>      <p>Csikszentmihalyi, M. (2006). Introduction. In M. Csikszentmihalyi &amp; I. S. Csikszentmihalyi (Eds.), <i>A life worth living: Contributions to positive psychology </i>(pp. 3-14). New York: Oxford  University Press. </p>      <p>Csikszentmihalyi, M., &amp; Csikszentmihalyi, I. S. (Eds.). (2006). <i>A life worth living: Contributions to positive psychology</i>. New York: Oxford University Press. </p>      <p>De Shazer, S. (1991). <i>Putting difference to work</i>. New York: Norton. </p>      <p>De Shazer, S. (1994). <i>Words were originally magic</i>. New York: Norton. </p>      <p>Diener, E., &amp; Biswas-Diener, R. (2008). <i>Happiness: Unlocking the mysteries of psychological wealth</i>. Malden, MA: Blackwell Publishing. </p>      <p>Etzioni, A. (2001. <i>The monochrome society</i>. Princeton: Princeton University Press. </p>      <p>Fredrickson, B. L. (2006). The broaden-and-build theory of positive emotions. In M. Csikszentmihalyi &amp; I. S. Csikszentmihalyi (Eds.), <i>A life worth living. Contributions to positive psychology (pp. 85-103).</i> Oxford: Oxford University Press. </p>      <p>Fredrickson, B. L. (2009). <i>Positivity: Groundbreaking research reveals how to embrace the hidden strength of positive emotions, overcome negativity, and thriv</i>e. New York: Crown.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Frederickson, B. L., &amp; Losada, M. (2005). Positive affect and the complex dynamics of human flourishing. <i>American Psychologist, 60(7</i>), 678-686. </p>      <p>Freire, P. (2008). <i>Pedagogia do oprimido</i>. S. Paulo: Editora Paz e Terra (47th ed.). </p>      <p>Freire, P., &amp; Faundez, A. (1985). <i>Por uma pedagogia da pergunta. </i>Rio de Janeiro: Paz e Terra. </p>      <p>Freire, P., &amp; Horton, M. (2002). <i>O caminho se faz caminhando. Conversas sobre educa&ccedil;&atilde;o e mudan&ccedil;a social</i>. Petr&oacute;polis, RJ: Editora Vozes. </p>      <p>Gergen, K. J. (1982). <i>Toward transformation in social knowledge</i>. New York: Springer-Verlag.</p>      <p>Gergen, K. J. (1991). <i>The saturated self</i>. New York: Basic Books. </p>      <p>Gergen, K. J. (2001). Psychological science in a post-modern context. <i>American Psychologist, 56</i>, 803-813.</p>      <p>Gergen, K. J. (2004). Forward for the book <i>Experiential learning exercises in social construction. A field book for creating change</i>. Ohio: Taos Institute Publications (pp. xi-xii). </p>      <p>Gergen, K. J., &amp; Gergen, M. (2005). <i>Social construction: Entering the dialog</i>. Ohio: Taos Institute Publications. </p>      <p>Gergen, K. J., Hoffman, L., &amp; Anderson, H. (1996). Is diagnostic a disaster? A constructionistic trialogue. In F. Kaslow (Ed.), <i>Relational diagnosis</i>. Passadena, CA: Wiley. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Hoffman, L. (2009). Meeting Chris Kinman retrieved from <a href="http://christopherkinman.blogspot.com/2008/07/meeting-chris-kinman-by-lynn-hoffman.html" target="_blank">http://christopherkinman.blogspot.com/2008/07/meeting-chris-kinman-by-lynn-hoffman.html</a>    em 15 de Julho de 2009. </p>      <p>Hoffman, L., &amp; Kinman, C. (2008). From system to rhizome: A change in the    &#8220;creation concept&#8221; retrieved from <a href="http://christopherkinman.blogspot.com/2008/07/from-system-to-rhizome-change-in.html" target="_blank">http://christopherkinman.blogspot.com/2008/07/from-system-to-rhizome-change-in.html</a>    em 3 de Janeiro de 2009. </p>      <p>Huppert, F. A., Baylis, N., &amp; Keverne, B. (2006). <i>The science of well-being</i>. Oxford: Oxford University Press (2nd ed.).</p>      <p>Kekes, J. (1993). <i>The morality of pluralism</i>. Princeton, NJ: Princeton University Press. </p>      <p>Kinman, C. (2001). <i>The rhizome connection</i>. Self-published book. British Columbia. </p>      <p>Layard, R. (2005). <i>Happiness: Lessons from a new science</i>. London: Penguin. </p>      <p>Levine, M., Perkins, D.  D., &amp; Perkins, D. V. (2005). <i>Principles of community psychology: Perspectives and applications</i>. New York: Oxford University Press. </p>      <p>Lott, B. (2002). Cognitive and behavioral distancing from the poor. <i>American Psychologist, 57</i>, 100-110. </p>      <p>Ludema, J. D., Cooperrider, D. L., &amp; Barrett, F. J. (2001). Appreciative Inquiry: The power of the unconditional positive question. In P. Reason &amp; H. Bradbury (Eds.), <i>Handbook of action research </i>(pp. 189-199). London: Sage Publications.</p>      <p>Machado, R. (1984). Introdu&ccedil;&atilde;o. Por uma genealogia do poder. In M. Foucault (Ed.), <i>Microf&iacute;sica do poder</i>. Rio de Janeiro: Graal. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mart&iacute;n-Bar&oacute;, I. (1986). Hac&iacute;a una pedagog&iacute;a de la liberaci&oacute;n. <i>Bolet&iacute;n> de Psicolog&iacute;a. UCA, V(22</i>), 219-231. </p>      <p>Mart&iacute;n-Bar&oacute;, I. (1989). <i>Sistema, grupo y poder. Psicologia social desde Centro Am&eacute;rica II</i>. San Salvador: UCA Ed. (<i>Colecci&oacute;n Textos Universit&aacute;rios</i>, <i>Serie Psicologia, 10</i>) </p>      <p>Marujo, H., &amp; Neto, L. M. (2007). <i>&Aacute;lbuns de fam&iacute;lia: De viva voz. Manual de possibilidades para constru&ccedil;&atilde;o do futuro</i>. Ponta Delgada, A&ccedil;ores: Instituto de Ac&ccedil;&atilde;o Social. </p>      <p>Marujo, H., &amp; Neto, L. M. (2008). Programa VIP: Hacia una psicologia positiva aplicada. In C. V&aacute;zquez &amp; G. Herv&aacute;s (Eds.), <i>Ps&iacute;cologia positiva aplicada </i>(pp. 312-336). Bilbao: Descl&eacute;e de Brower. </p>      <!-- ref --><p>Marujo, H., &amp; Neto, L. M., Caetano, A., &amp; Rivero, C. (2007). Revolu&ccedil;&atilde;o positiva: Psicologia positiva e pr&aacute;ticas apreciativas em contextos organizacionais. <i>Comportamento Organizacional e Gest&atilde;o, 13</i>(1), 115-136. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000097&pid=S0870-8231201000030001100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Meyer, M. (2001). Between theory, method and politics: Positioning of the approaches to CDA. In R. Wodak &amp; M. Meyer (Eds.), <i>Methods of critical discourse analysis </i>(pp. 14-31). London:Sage. </p>      <p>Montero, M. (2005). Between person and society: community psychology&#8217;s voyage into complexity. In G. Nelson &amp; I. Prilleltensky (Eds.), <i>Community psychology: In pursuit of liberation and well-being </i>(pp. 489-499). New York: Palgrave MacMillan. </p>      <p>Moreira, V. (2003). Poverty and psychopathology. In S. Carr &amp; T. Sloan (Eds.), <i>Poverty and psychology: From global perspective to local practice </i>(pp. 69-86). New York: Kluwer Academic/Plenum Publishers. </p>      <p>Nelson, G, &amp; Prilleltensky, I. (2005). <i>Community psychology: In pursuit of liberation and well-being</i>. New York: Palgrave MacMillan. </p>      <p>Neto, L. M. (1996). Familias pobres y multiassistidas. In M Milan (Ed.), <i>Psicolog&iacute;a de la familia: Un enfoque evolutivo y sist&eacute;mico </i>(pp. 34-45). Val&ecirc;ncia: Promolibro.</p>      ]]></body>
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