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<journal-title><![CDATA[Análise Psicológica]]></journal-title>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A experiência de sem-abrigo como promotora de empoderamento psicológico]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade do Porto Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The main goal of this study is to understand how the experience of homeless people can develop the psychological empowerment. Using a qualitative research methodology, three homeless men with ages between 25 and 56 years old were interviewed. The results suggest that living as a homeless can promote a critical conscience of the sociopolitical environment in which the person lives, develop problems resolution capacities and a sense of self competence, as well as a capacity of access to existing resources. From these results, we discuss how the meanings of the experience of being homeless can involve dimensions that seem not to have been taken in consideration in the past.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Empoderamento psicológico]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>A experi&ecirc;ncia de sem-abrigo como promotora de empoderamento psicol&oacute;gico</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Maria Fernanda de Jesus <sup>(*)</sup>, Isabel Menezes <sup>(**)</sup> </p>      <p>&nbsp;</p>      <p><sup>(*)</sup>&nbsp; Estudante de doutoramento na Faculdade de Psicologia e    Ci&ecirc;ncias da Educa&ccedil;&atilde;o da Universidade do Porto; E-mail:    <a href="mailto:maria.fernandesjesus@gmail.com">maria.fernandesjesus@gmail.com</a> </p>      <p><sup>(**)</sup> Professora Associada com Agrega&ccedil;&atilde;o na Faculdade    de Psicologia e Ci&ecirc;ncias da Educa&ccedil;&atilde;o da Universidade do    Porto; E-mail: <a href="mailto:imenezes@fpce.up.pt">imenezes@fpce.up.pt</a> </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>RESUMO</p>      <p>O objectivo deste estudo visa compreender o modo como a experi&ecirc;ncia de viver sem-abrigo pode ser promotora do empoderamento psicol&oacute;gico. Com base numa metodologia qualitativa entrevistaram-se tr&ecirc;s homens sem-abrigo com idades compreendidas entre os 25 e os 56 anos. Os resultados sugerem que viver como sem-abrigo pode promover uma maior consci&ecirc;ncia cr&iacute;tica do ambiente sociopol&iacute;tico no qual o indiv&iacute;duo est&aacute; inserido, uma maior capacidade de resolu&ccedil;&atilde;o de problemas, um sentido de compet&ecirc;ncia pessoal, bem como uma maior capacidade de acesso aos recursos existentes. Mediante estes resultados &eacute; discutido o modo como os significados da experi&ecirc;ncia de viver sem-abrigo podem assumir dimens&otilde;es psicol&oacute;gicas que parecem ter sido pouco consideradas anteriormente nos estudos realizados com pessoas sem-abrigo. </p>      <p><i>Palavras chave: </i>Empoderamento psicol&oacute;gico, Pessoas sem-abrigo. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p>ABSTRACT</p>      <p>The main goal of this study is to understand how the experience of homeless people can develop the psychological empowerment. Using a qualitative research methodology, three homeless men with ages between 25 and 56 years old were interviewed. The results suggest that living as a homeless can promote a critical conscience of the sociopolitical environment in which the person lives, develop problems resolution capacities and a sense of self competence, as well as a capacity of access to existing resources. From these results, we discuss how the meanings of the experience of being homeless can involve dimensions that seem not to have been taken in consideration in the past. </p>      <p><i>Key words: </i>Homeless peoples, Psychological empowerment. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>INTRODU&Ccedil;&Atilde;O</p>      <p>O n&uacute;mero de pessoas a viver em situa&ccedil;&atilde;o de sem-abrigo &eacute; cada vez maior, o que parece fundamentar a preocupa&ccedil;&atilde;o, por parte das institui&ccedil;&otilde;es e do pr&oacute;prio estado, em compreender as causas e os factores que potenciam esta situa&ccedil;&atilde;o, bem como promover estrat&eacute;gias adequadas para lidar com os sem-abrigo. Apesar da preocupa&ccedil;&atilde;o crescente das institui&ccedil;&otilde;es em solucionar o problema, este n&uacute;mero tende a aumentar mesmo nas sociedades com n&iacute;veis de desenvolvimento socioecon&oacute;mico mais elevados. Ao longo das &uacute;ltimas d&eacute;cadas, o n&uacute;mero de estudos cient&iacute;ficos sobre as pessoas sem-abrigo aumentou, e v&aacute;rias t&ecirc;m sido as defini&ccedil;&otilde;es propostas para a caracteriza&ccedil;&atilde;o das pessoas sem-abrigo (Roll, Toro, &amp; Ortola, 1999; Toro 2007). Neste sentido, de modo a caracterizar o conceito de sem-abrigo um estudo realizado por Roll, Toro, e Ortola (1999) nos EUA, classificou as pessoas sem-abrigo em tr&ecirc;s grupos diferentes: homens solteiros, mulheres solteiras e mulheres solteiras com filhos. Os resultados sugerem que os homens solteiros s&atilde;o os que menos mant&ecirc;m contactos com os seus familiares, bem como os que apresentam taxas de abuso de &aacute;lcool e droga mais elevadas. Por outro lado, as mulheres solteiras com crian&ccedil;as referem receber mais assist&ecirc;ncia social do que os restantes, indicado que as pol&iacute;ticas de assist&ecirc;ncia norte-americana d&atilde;o menos apoios as pessoas sem-abrigo solteiras, sem filhos, e sem historial de consumo de &aacute;lcool e drogas (Roll, Toro, &amp; Ortola, 1999). Al&eacute;m disso, a pesquisa parece revelar que os dois grupos de mulheres sem-abrigo apresentam n&iacute;veis mais elevados de depress&atilde;o, ansiedade e sintomas psicol&oacute;gicos de ang&uacute;stia e tristeza do que os homens solteiros sem-abrigo (Roll, Toro, &amp; Ortola, 1999). Similarmente, Toro, em 2007, caracteriza as pessoas sem-abrigo em tr&ecirc;s subgrupos: pessoas sem-abrigo adultas e solteiras, fam&iacute;lias sem-abrigo e jovens sem-abrigo. As fam&iacute;lias sem-abrigo tendem a incluir uma m&atilde;e solteira com crian&ccedil;as menores que vivem na rua normalmente pelos seguintes motivos: extrema pobreza, perda de determinados benef&iacute;cios sociais ou materiais, expuls&atilde;o/despejo e viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica. Os jovens sem-abrigo distinguem-se dos adultos na mesma situa&ccedil;&atilde;o pela sua idade (normalmente inferior a 21 anos) e das crian&ccedil;as sem-abrigo (que se encontram com a fam&iacute;lia nesta situa&ccedil;&atilde;o) porque est&atilde;o sem os familiares. Normalmente caracterizam-se por serem fugitivos, porque abandonaram a casa sem autoriza&ccedil;&atilde;o dos pais, foram postos fora de casa pelos pais, ou ent&atilde;o sempre viveram na rua desde a inf&acirc;ncia (Toro, 2007). </p>      <p>Estes estudos (Roll, Toro, &amp; Ortola, 1999; Toro, 2007) parecem sugerir a exist&ecirc;ncia de diferen&ccedil;as em termos de etiologia dos sem-abrigo, o que leva os autores a considerar uma teoria baseada na viv&ecirc;ncia subjectiva da condi&ccedil;&atilde;o de sem-abrigo. Esta teoria postula que as causas que levam &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de sem-abrigo s&atilde;o vari&aacute;veis e multifactoriais e que a pr&oacute;pria forma de vivenciar esta experi&ecirc;ncia pode variar de sem-abrigo para sem-abrigo, o que vai de encontro com algumas pesquisas recentes que consideram, na defini&ccedil;&atilde;o das causas para a condi&ccedil;&atilde;o de sem-abrigo, a subjectividade inerente a esta experi&ecirc;ncia. Um conjunto de estudos desenvolvidos essencialmente nos Estados Unidos e no C&aacute;nada (Goering, Tolomiczenko, Sheldon, Boydell, &amp; Wasylenki, 2002; Roll, Toro, &amp; Ortola, 1999; Toro, 2005, 2007) refor&ccedil;a esta teoria, ao sugerir que as causas, para as pessoas viverem como sem-abrigo, tendem a ser vari&aacute;veis e potenciadas por diferentes e diversos factores, sugerindo uma complexidade das interac&ccedil;&otilde;es entre o sistema pessoal do sujeito e o contexto social, econ&oacute;mico e pol&iacute;tico no qual est&aacute; inserido (Toro, Trickett, Wall, &amp; Salem, 1991). </p>      <p>Contudo, apesar de algumas pesquisas recentes, a maioria dos autores continuam a sugerir que as desordens psiqui&aacute;tricas e o abuso de &aacute;lcool e drogas s&atilde;o os principais respons&aacute;veis pela situa&ccedil;&atilde;o de sem-abrigo (Gelberg &amp; Linn, 1989; Phelan &amp; Bruce, 1999). </p>      <p>Em contexto europeu a <i>a FEANTSA &#8211; Federa&ccedil;&atilde;o Europeia de Associa&ccedil;&otilde;es que Trabalham com os Sem-Abrigo </i>tem vindo a desenvolver v&aacute;rios estudos nos &uacute;ltimos anos, propondo que este termo se reporta n&atilde;o s&oacute; &agrave;s pessoas que se encontram a viver em espa&ccedil;os p&uacute;bicos e que como tal s&atilde;o obrigados a passar muitas horas do seu dia num espa&ccedil;o p&uacute;blico (sem-tecto), mas tamb&eacute;m a todos aqueles que vivem em condi&ccedil;&otilde;es habitacionais prec&aacute;rias, que est&atilde;o em risco de serem despejados, que se encontram a viver em pens&otilde;es, abrigos e albergues (FEANTSA, 2005). Esta defini&ccedil;&atilde;o parece ir de encontro &agrave; terminologia utilizada pelos Estados Unidos para caracterizar as pessoas sem-abrigo, pois inclui no grupo das pessoas sem-abrigo n&atilde;o s&oacute; &agrave;quelas que vivem na rua, mas tamb&eacute;m as que correm o risco de o vir a fazer. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A FEANTSA ao definir sem-abrigo, refere tamb&eacute;m que este termo reporta-se &agrave;quela pessoa que &eacute; incapaz de aceder e manter uma forma de viver adequada atrav&eacute;s dos seus pr&oacute;prios meios, ou &eacute; incapaz de manter um modo de lidar com as dificuldades mesmo com a ajuda dos servi&ccedil;os sociais (Philippot, Lecocq, Sempoux, Nachtergael, &amp; Galand, 2007). Ora, esta defini&ccedil;&atilde;o enfatiza a vertente mais improdutiva das pessoas sem-abrigo, acentua os seus d&eacute;fices e incapacidades e desvaloriza a influ&ecirc;ncia e interac&ccedil;&atilde;o de outros factores. A par desta vis&atilde;o reducionista, por parte dos estudos realizados at&eacute; ent&atilde;o, as pr&oacute;prias pol&iacute;ticas interventivas das institui&ccedil;&otilde;es que lidam com as pessoas sem-abrigo s&atilde;o orientadas, na maior parte das vezes, por uma l&oacute;gica de pol&iacute;tica de urg&ecirc;ncia (Branco, 2004), que tende a definir como priorit&aacute;rio na sua interven&ccedil;&atilde;o a satisfa&ccedil;&atilde;o das necessidades b&aacute;sicas (e.g., fome, sede) desvalorizando que existem outras necessidades (e.g., qualifica&ccedil;&atilde;o e forma&ccedil;&atilde;o profissional, promo&ccedil;&atilde;o de sentido de autonomia e auto-efic&aacute;cia) que quando satisfeitas poder&atilde;o por si mesmas facilitar a satisfa&ccedil;&atilde;o de necessidades prim&aacute;rias. Esta vis&atilde;o limita a compreens&atilde;o deste problema social e consequentemente as pr&oacute;prias estrat&eacute;gias de interven&ccedil;&atilde;o que s&atilde;o definidas pelas institui&ccedil;&otilde;es/ associa&ccedil;&otilde;es que lidam com as pessoas sem-abrigo. Sugere-se ent&atilde;o, que as pol&iacute;ticas de interven&ccedil;&atilde;o nas situa&ccedil;&otilde;es de sem-abrigo deveriam assentar numa l&oacute;gica de promo&ccedil;&atilde;o do empoderamento e n&atilde;o numa l&oacute;gica de assistencialismo. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p><i>O empoderamento </i></p>      <p>O empoderamento &eacute; o processo pelo qual os indiv&iacute;duos ganham mestria ou controlo sobre as suas vidas, autonomamente acedem aos recursos da comunidade e participam democr&aacute;tica e activamente na vida da sua comunidade (Zimmerman, 1990a,b). </p>      <p>O empoderamento pode ser analisado consoante 3 n&iacute;veis distintos de an&aacute;lise (comunit&aacute;rio, organizacional e psicol&oacute;gico), que s&atilde;o influenciados e se influenciam mutuamente. O empoderamento comunit&aacute;rio envolve todo o comportamento colectivo desenvolvido no sentido de favorecer uma maior qualidade de vida dos membros da comunidade. O empoderamento organizacional refere-se &agrave; forma como as institui&ccedil;&otilde;es e organiza&ccedil;&otilde;es das comunidades tendem a proporcionar aos seus membros recursos e bens de qualidade e a promover uma participa&ccedil;&atilde;o activa de todos os elementos nas tomadas de decis&atilde;o e na defini&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas da organiza&ccedil;&atilde;o. Por &uacute;ltimo importa descrever o empoderamento psicol&oacute;gico que &eacute; o n&iacute;vel de an&aacute;lise individual considerado neste estudo, apesar de se assumir que ambos os n&iacute;veis s&atilde;o influenciados e influenciam-se mutuamente. Este n&iacute;vel de an&aacute;lise remete para a percep&ccedil;&atilde;o de controlo da vida, para uma atitude pr&oacute;-activa na vida e uma compreens&atilde;o cr&iacute;tica do ambiente sociopol&iacute;tico (Zimmerman, 1995). </p>      <p>O n&iacute;vel de an&aacute;lise psicol&oacute;gico implica 3 componentes: uma componente intrapessoal que inclui vari&aacute;veis de personalidade (locus de controlo), cognitivas (autoefic&aacute;cia) e motivacionais; uma componente interaccional, que integra a forma como as pessoas utilizam as suas compet&ecirc;ncias para influenciar os seus ambientes e aceder aos recursos; e uma componente comportamental, ou seja, &agrave; ac&ccedil;&atilde;o de exercer controlo na participa&ccedil;&atilde;o activa das actividades das suas comunidades (Zimmerman, 1995). </p>      <p>Ao considerar, o car&aacute;cter din&acirc;mico e vari&aacute;vel do empoderamento (Zimmerman, 1995), e ao assumir que o indiv&iacute;duo &eacute; capaz de desenvolver um sentido de controlo e mestria na sua vida, aprender a utilizar compet&ecirc;ncias para influenciar os acontecimentos da vida, isto &eacute;, que o indiv&iacute;duo &eacute; capaz de se tornar empoderado mesmo nos ambientes que parecem menos favor&aacute;veis (Rappaport, 1981), sugere-se que viver numa condi&ccedil;&atilde;o de sem-abrigo pode contribuir para o desenvolvimento do empoderamento psicol&oacute;gico. O presente estudo teve como objectivo compreender o modo como a experi&ecirc;ncia de viver sem-abrigo pode potenciar o empoderamento psicol&oacute;gico. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>M&Eacute;TODO</p>      <p>De modo a aceder &agrave;s percep&ccedil;&otilde;es e viv&ecirc;ncias subjectivas das pessoas sem-abrigo, desenvolveu-se um estudo de metodologia qualitativa. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Dentro da metodologia qualitativa, optou-se, por uma entrevista de epis&oacute;dio, que assenta no pressuposto que as experi&ecirc;ncias dos sujeitos em determinado momento s&atilde;o armazenadas e recordadas na forma de conhecimento sem&acirc;ntico e de narra&ccedil;&atilde;o de epis&oacute;dios (Flick, 2005). O objectivo foi aceder &agrave;s experi&ecirc;ncias das pessoas que passaram pela situa&ccedil;&atilde;o de sem-abrigo atrav&eacute;s da realiza&ccedil;&atilde;o de entrevistas. Depois de realizadas as entrevistas e da sua respectiva transcri&ccedil;&atilde;o estas foram alvo de um processo de an&aacute;lise de conte&uacute;do. Optou-se por uma an&aacute;lise de conte&uacute;do segundo um processo de categoriza&ccedil;&atilde;o, de modo a aceder ao conte&uacute;do sem&acirc;ntico dos documentos analisados e representar de forma simplificada os dados obtidos com as entrevistas (Bardin, 2004). Depois de estarem definidas as unidades de registo, procedeu-se, a uma defini&ccedil;&atilde;o de categorias e subcategorias, baseadas nos temas (palavras, frases, v&aacute;rias frases, etc.). Esta defini&ccedil;&atilde;o de categorias baseou-se nos objectivos da investiga&ccedil;&atilde;o e nas narrativas dos sujeitos. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p><i>Caracteriza&ccedil;&atilde;o das pessoas sem-abrigo entrevistadas </i></p>      <p>Para a realiza&ccedil;&atilde;o do estudo, foram entrevistadas 2 pessoas que se encontram a viver nas ruas da cidade do Porto, outra pessoa que viveu como sem-abrigo durante 4 meses e meio, mas que entretanto passou a viver numa pens&atilde;o. Teve-se o cuidado de seleccionar tr&ecirc;s pessoas que n&atilde;o apresentassem historial de abuso de &aacute;lcool e outras drogas uma vez que esta &eacute; uma vari&aacute;vel relevante na experi&ecirc;ncia de viver sem-abrigo, que n&atilde;o se pretendia contemplar no estudo. Assim, o grupo foi constitu&iacute;do por tr&ecirc;s indiv&iacute;duos do sexo masculino aos quais se deu os seguintes nomes fict&iacute;cios: Jo&atilde;o, Ant&oacute;nio e Alberto. </p>      <p>Jo&atilde;o com 45 anos, encontra-se a viver na rua desde 2004. &Eacute; natural do Alentejo e veio para o Porto h&aacute; poucos anos, por motivos de trabalho. Em termos profissionais, desde os 20 anos que entrou no mundo da comunica&ccedil;&atilde;o social e sempre trabalhou nessa &aacute;rea, at&eacute; o ano de 2004, data em que fica desempregado e passa a viver na rua. J&aacute; a viver numa condi&ccedil;&atilde;o de sem-abrigo, come&ccedil;ou a organizar o Movimento de Apoio ao Sem-Abrigo (MASA), que consiste num movimento constitu&iacute;do por pessoas que estiveram ou est&atilde;o a viver na rua. Um dos primeiros projectos deste movimento, organizado por um grupo de 6 pessoas sem-abrigo, &eacute; apoiar um jovem casal sem-abrigo prestes a ter um filho. Neste sentido, </p>      <p>o MASA tem desenvolvido campanhas de recolha de bens e de dinheiro para garantir a sobreviv&ecirc;ncia do casal e do filho at&eacute; o casal encontrar emprego. At&eacute; a data da realiza&ccedil;&atilde;o deste estudo, o MASA tinha feito manifesta&ccedil;&otilde;es silenciosas com vista a mostrar a indigna&ccedil;&atilde;o das pessoas sem-abrigo pela sua realidade e conseguir apoios para implementar os projectos idealizados. </p>      <p>Ant&oacute;nio tem 25 anos e encontra-se na rua h&aacute; 6 meses, contudo j&aacute; anteriormente viveu na rua, durante dois anos: entre 12 aos 14 anos, altura em que a sua m&atilde;e faleceu. Aos 14 anos foi viver para um internato, onde completou a escolaridade obrigat&oacute;ria e posteriormente fez um curso profissional. Ant&oacute;nio conta que durante alguns anos trabalhou na &aacute;rea de hotelaria e restaura&ccedil;&atilde;o, contudo foi despedido e como n&atilde;o podia pagar a renda da casa foi viver para a rua. Tal como o Jo&atilde;o, tamb&eacute;m Ant&oacute;nio faz parte do grupo de trabalho do MASA e acredita que este movimento vai tirar muitas pessoas da rua. </p>      <p>Por &uacute;ltimo, foi entrevistado o Alberto que tem 52 anos e viveu nas ruas da cidade do Porto durante 4 meses e meio, at&eacute; Maio de 2007, altura em que passa a frequentar um curso de Educa&ccedil;&atilde;o e Forma&ccedil;&atilde;o de Adultos (EFA) de Jardinagem e a viver numa pens&atilde;o paga pela Seguran&ccedil;a Social. Refere que nunca teve dificuldade em arranjar emprego at&eacute; ao momento em que ficou desempregado em 2006. Nesta altura, n&atilde;o teve outra alternativa sen&atilde;o viver na rua, pois apesar de ter familiares a quem pedir ajuda, considera que estes n&atilde;o tinham qualquer responsabilidade de o ajudar. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>RESULTADOS</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os resultados derivam de uma an&aacute;lise de conte&uacute;do aos documentos consequentes da transcri&ccedil;&atilde;o integral das entrevistas realizadas. Seguidamente, descreve-se algumas das categorias e subcategorias e incluem-se fragmentos de transcri&ccedil;&otilde;es que possam exemplificar e clarificar os resultados obtidos em termos das vari&aacute;veis de empoderamento.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><i>Categoria: Experi&ecirc;ncia de viver sem-abrigo </i></p>      <p>Esta categoria divide-se em dois subcategorias, sendo que a primeira &eacute; relativa aos aspectos positivos e negativos resultantes da viv&ecirc;ncia da experi&ecirc;ncia de sem-abrigo e segunda que diz respeito &agrave; percep&ccedil;&atilde;o das pessoas sem-abrigo sobre as institui&ccedil;&otilde;es. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p><i>Subcategoria: Aspectos positivos e negativos da experi&ecirc;ncia de viver sem-abrigo </i></p>      <p>Todas as pessoas sem-abrigo entrevistadas apontam espontaneamente alguns aspectos    positivos e negativos desta experi&ecirc;ncia, o que parece sugerir que a pr&oacute;pria    experi&ecirc;ncia de viver sem-abrigo pode ser encarada como positiva ou negativa    dependendo dos significados atribu&iacute;dos pela pessoa sem-abrigo. </p>     <p>__________________________________________________________________________________________________________</p>        <p><i><u>Aspectos positivos: </u></i></p>      <p><i>Jo&atilde;o</i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;A nossa liberdade &eacute; tal que n&atilde;o temos regras, ningu&eacute;m nos chateia, os patr&otilde;es n&atilde;o nos enchem a cabe&ccedil;a. N&oacute;s voamos para onde queremos.&#8221; </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Ant&oacute;nio</i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Aprendi que temos que nos ajudar uns aos outros, encarar as pessoas que est&atilde;o na rua de outra forma, e sempre que vir algu&eacute;m a tratar mal os sem-abrigo intervirei...&#8221; </p>      <p><i>Alberto</i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Aprendi a lutar pelos meus    objectivos, independentemente de arranjar emprego agora, vou acabar o curso.    A minha meta &eacute; acabar o curso, depois logo vejo o que consigo&#8221;.  </p>     <p>__________________________________________________________________________________________________________</p>        <p><i><u>Aspectos negativos: </u></i></p>      <p><i>Jo&atilde;o</i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;O mais negativo &eacute; as pessoas, n&oacute;s somos roubados: n&atilde;o temos nada mas roubam-nos o nada que n&oacute;s temos&#8221;. </p>      <p><i>Ant&oacute;nio</i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;O que gosto menos &eacute; que &eacute; muito dif&iacute;cil encarar o resto da popula&ccedil;&atilde;o...&#8221; </p>        <p><i>Alberto</i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Esta experi&ecirc;ncia tem um aspecto negativo: pela situa&ccedil;&atilde;o em que cheguei.&#8221; </p>      <p>__________________________________________________________________________________________________________</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Subcategoria: Percep&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es </i></p>      <p>A seguinte subcategoria seguinte pretende aceder &agrave; vis&atilde;o acerca    das institui&ccedil;&otilde;es que lidam com os sem-abrigo, por parte das pessoas    entrevistas. Apenas o discurso de Jo&atilde;o revela a presen&ccedil;a de uma    percep&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica elevada acerca do modo de funcionamento    das institui&ccedil;&otilde;es que lidam com os sem-abrigo. </p>     <p>__________________________________________________________________________________________________________</p>        <p><i><u>Percep&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es: </u></i></p>        <p><i>Jo&atilde;o</i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Eu n&atilde;o tenho medo de dizer que as institui&ccedil;&otilde;es n&atilde;o funcionam: uma X...; uma Y..., etc., essas associa&ccedil;&otilde;es fantasmas, que exploram os sem-abrigo, roubam-nos. Sabe, que por exemplo a X recebe um subs&iacute;dio para cada sem-abrigo. Mas diga-me qual ser&aacute; o futuro de uma pessoa que entra para a associa&ccedil;&atilde;o e que trabalha gratuitamente para a associa&ccedil;&atilde;o. Acha que algum dia sair&aacute; da associa&ccedil;&atilde;o? Nunca sai, s&oacute; se fugir de l&aacute;. Conhe&ccedil;o muitas pessoas que saem da institui&ccedil;&atilde;o muito piores do que entraram. S&atilde;o muito exploradas, estas situa&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m que ser desmacaradas, temos a nossa forma&ccedil;&atilde;o, n&oacute;s somos pessoas, podemos estar fr&aacute;geis, mas pensamos, estamos vivos, temos que exigir o nosso respeito!&#8221; </p>      <p>__________________________________________________________________________________________________________</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><i>Categoria: Resultados empoderados </i></p>      <p>A categoria <i>resultados empoderados </i>pretende retratar o modo como a experi&ecirc;ncia de viver sem-abrigo pode promover o empoderamento psicol&oacute;gico. Foi subdividida em 4 subcategorias que pretendem representar &iacute;ndices de empoderamento. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p><i>Subcategoria: Percep&ccedil;&atilde;o de compet&ecirc;ncia e de controlo da pr&oacute;pria vida </i></p>      <p>A subcategoria percep&ccedil;&atilde;o <i>de compet&ecirc;ncia e de controlo    da pr&oacute;pria vida </i>refere-se ao modo como os indiv&iacute;duos se sentem    auto-eficazes e revelam uma percep&ccedil;&atilde;o de controlo da sua pr&oacute;pria    vida. As tr&ecirc;s pessoas sem-abrigo entrevistadas demonstram uma percep&ccedil;&atilde;o    de controlo nas diversas situa&ccedil;&otilde;es, essencialmente no que diz    respeito a deixar ou continuar a viver como sem abrigo. </p>     <p>__________________________________________________________________________________________________________</p>     <p><i><u>Percep&ccedil;&atilde;o de compet&ecirc;ncia e controlo da pr&oacute;pria vida: </u></i></p>      <p><i>Jo&atilde;o&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </i>&#8220;Mas n&atilde;o eu agora n&atilde;o quero sair de c&aacute;. Enquanto eu n&atilde;o cumprir esta miss&atilde;o eu n&atilde;o saio. (...) mas por maior qualidade de vida que eu venha a ter, nunca vou deixar os sem-abrigo, com ac&ccedil;&otilde;es, com movimentos... eu sinto que fa&ccedil;o c&aacute; falta!&#8221; </p>      <p><i>Ant&oacute;nio</i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Eu tenho for&ccedil;a de vontade... sei que um dia vou deixar de ser sem-abrigo.&#8221; </p>        <p><i>Alberto</i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Eu consegui sair da rua    porque tamb&eacute;m quis sair.&#8221; </p>     <p>__________________________________________________________________________________________________________</p>      <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p><i>Subcategoria: Compet&ecirc;ncias de resolu&ccedil;&atilde;o de problemas </i></p>      <p>Esta subcategoria pretende descrever o modo como os sujeitos resolvem problemas    com os quais se deparam (ou depararam) durante a fase em que viveram como sem-abrigo.    Jo&atilde;o refere que teve que aprender a lidar com tudo de novo e nascer para    outro mundo. Ant&oacute;nio apresenta uma situa&ccedil;&atilde;o em que refere    que foi capaz de resolver determinado conflito interpessoal. Por &uacute;ltimo,    Alberto explica uma situa&ccedil;&atilde;o em que foi trabalhar para Espanha,    numa situa&ccedil;&atilde;o muito prec&aacute;ria, acrescentado ter conseguido    arranjar um modo de se vir embora (o que se considera revelador da sua capacidade    de resolu&ccedil;&atilde;o de problemas). O MASA (Movimento de Apoio ao Sem-Abrigo)    surge como uma tentativa de delinear, estruturar e implementar estrat&eacute;gias    no sentido de resolver os problemas dos sem-abrigo. </p>     <p>__________________________________________________________________________________________________________</p>     <p><i><u>Compet&ecirc;ncias de Resolu&ccedil;&atilde;o de Problemas: </u></i></p>      <p><i>Jo&atilde;o&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </i>&#8220;(...) N&atilde;o &eacute; f&aacute;cil, leva um tempo para se integrar neste mundo. Aprendi a passar fome, a vestir roupa que n&atilde;o era minha, a viver sem dinheiro.&#8221; </p>      <p>&#8220;O MASA vai arranjar um programa que achamos vi&aacute;vel, para retirar as pessoas da rua.&#8221; </p>      <p><i>Ant&oacute;nio&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </i>&#8220;H&aacute; dias houve um conflito entre o Jo&atilde;o e outro rapaz e eu aconselhei esse rapaz a sair daquele local, para n&atilde;o haver chatices. N&oacute;s estamos num s&iacute;tio em que todos n&oacute;s temos que contribuir para manter a limpeza daquilo, e ele era daqueles que n&atilde;o queria nada, que s&oacute; trazia lixo para o local.&#8221; </p>      <p><i>Alberto</i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entretanto vim-me embora. Disse    que precisava de vir c&aacute;, durante alguns dias (era P&aacute;scoa), para    fazer contas... deram-me 120 euros, e disseram que depois davam-me o resto...    at&eacute; hoje! Porque eu depois tamb&eacute;m n&atilde;o voltei, claro, j&aacute;    era esse o objectivo. E consegui... quando cheguei ao Porto, fiquei na rua,    quer dizer nos primeiros 5 dias, como tinha dinheiro fui para uma pens&atilde;o.    Depois fui para a rua... eu j&aacute; sabia que ia fica na rua, s&oacute; que    pronto </p>     <p>__________________________________________________________________________________________________________</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><i>Subcategoria: Capacidade de aceder aos recursos existentes </i></p>      <p>A subcategoria <i>aceder aos recursos </i>pretende mostrar como &eacute; que    as pessoas sem-abrigo entrevistadas acedem aos recursos da sociedade. Ant&oacute;nio    e Alberto fazem refer&ecirc;ncia &agrave; seguran&ccedil;a social e aos servi&ccedil;os    prestados por esta entidade &agrave;s pessoas em situa&ccedil;&atilde;o de sem-abrigo.    Os tr&ecirc;s homens entrevistados, descrevem situa&ccedil;&otilde;es em que    revelam capacidade de aceder aos recursos e oportunidades facultadas pela sociedade.  </p>     <p>__________________________________________________________________________________________________________</p>      <p><i><u>Capacidade de aceder aos recursos: </u></i></p>      <p><i>Jo&atilde;o&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </i>&#8220;&Eacute; uma dificuldade enorme pedir ajuda; chegar a uma carrinha e pedir uma sandes: cabe&ccedil;a baixa, vergonha. Tive que ultrapassar estas dificuldades. N&atilde;o sabia por exemplo que havia institui&ccedil;&otilde;es como a Cruz Vermelha Portuguesa que davam roupa, n&atilde;o sabia&#8221; </p>      <p><i>Ant&oacute;nio</i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Todas as segundas-feiras vou ao centro de emprego&#8221;. </p>      <p><i>Alberto</i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;(...) Portanto, fui &agrave; seguran&ccedil;a social, e consegui um quarto.&#8221; </p>      <p>__________________________________________________________________________________________________________</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><i>Subcategoria: Cr&iacute;tica ao meio social </i></p>      <p>Esta subcategoria remete para o modo como as pessoas entrevistadas se posicionam    criticamente face ao meio social e pol&iacute;tico em que est&atilde;o inseridos.    Pode-se verificar presente esta categoria essencialmente no discurso de Jo&atilde;o,    que apresenta argumentos concretos, para justificar a sua posi&ccedil;&atilde;o    face ao modo de actua&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es. </p>     <p>__________________________________________________________________________________________________________</p>      <p><i><u>Cr&iacute;tica &agrave; sociedade e ao meio envolvente: </u></i></p>      <p><i>Jo&atilde;o&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </i>&#8220;Conhe&ccedil;o alguns canis no pa&iacute;s, e os c&atilde;es s&atilde;o melhor tratados do que n&oacute;s. &Eacute; preciso pagar: 30 c&ecirc;ntimos para tomar banho sem toalha; 1.16 euros para tomar banho; e 0.16 c&ecirc;ntimos para utilizar a sanita (...) A exclus&atilde;o social come&ccedil;a nas autarquias, eles &eacute; que deviam olhar para este problema.&#8221; </p>       <p><i>Ant&oacute;nio&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;(...) &Eacute; isso que eu    acho, &agrave;s vezes, essas pessoas para manter esses v&iacute;cios roubam    todos os outros, n&atilde;o olham a meios. N&atilde;o acho isso bem!&#8221;    </i></p>     <p>__________________________________________________________________________________________________________</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p>DISCUSS&Atilde;O</p>      <p>Tendo em conta os resultados obtidos, considera-se que este estudo vem acrescentar algumas dimens&otilde;es, pouco consideradas at&eacute; ent&atilde;o nos estudos realizados com pessoas sem-abrigo, nomeadamente uma maior compreens&atilde;o do significado da experi&ecirc;ncia de viver enquanto sem-abrigo e o modo como esta experi&ecirc;ncia pode transformar o sujeito implicado nela. Parece que as experi&ecirc;ncias enquanto sem-abrigo s&atilde;o vivenciadas pelas pessoas entrevistadas como uma oportunidade para se desenvolverem e aumentarem a percep&ccedil;&atilde;o de controlo sobre a pr&oacute;pria vida. Como se pode verificar atrav&eacute;s dos resultados, todos os sujeitos entrevistados parecem considerar que o facto de viverem na rua, ou de terem estado, contribuiu para o desenvolvimento de determinadas compet&ecirc;ncias, que n&atilde;o seriam desenvolvidas caso n&atilde;o estivessem numa condi&ccedil;&atilde;o de sem-abrigo. Assim, apesar da experi&ecirc;ncia de viver sem-abrigo ser vista como uma situa&ccedil;&atilde;o em que os indiv&iacute;duos se sentem injusti&ccedil;ados e discriminados pela sociedade, &eacute; tamb&eacute;m encarada como positiva e potenciadora do desenvolvimento de determinados compet&ecirc;ncias. No sentido destas conclus&otilde;es refira-se um estudo realizado com mulheres sem-abrigo que concluiu que as pessoas que passaram pela experi&ecirc;ncia de viver como sem-abrigo percepcionam aqueles momentos como muito dif&iacute;ceis, mas como um factor que contribuiu para o desenvolvimento de uma percep&ccedil;&atilde;o de si mais positiva (Boydell, Goering, &amp; Morrell-Bellai, 2000). Assim, estes resultados parecem sugerir que o indiv&iacute;duo pode fortalecer-se e tornar-se mais resiliente perante acontecimentos destabilizadores e aumentar os seus n&iacute;veis de empoderamento psicol&oacute;gico. No que diz respeito ao modo como os sujeitos percepcionam o sentido de compet&ecirc;ncia pessoal, parece encontrar-se outros sinais de empoderamento psicol&oacute;gico. Refira-se o caso de Ant&oacute;nio e Alberto que consideram que o acto de sair da rua depende sobretudo da motiva&ccedil;&atilde;o para o fazer, o que parece sugerir um sentido de controlo dos acontecimentos exteriores. </p>      <p>Por outro lado, verifica-se que as pessoas a viver como sem-abrigo que foram entrevistadas aludem a uma necessidade de aprender a lidar com situa&ccedil;&otilde;es novas para as quais n&atilde;o estavam anteriormente preparadas, o que parece ir de encontro ao pressuposto de que as pessoas sem-abrigo para sobreviverem nesta situa&ccedil;&atilde;o e contexto t&ecirc;m de desenvolver uma s&eacute;rie de compet&ecirc;ncias de resolu&ccedil;&atilde;o de problemas. Segundo Silva (2007), nas sociedades desenvolvidas as pessoas n&atilde;o aprendem a viver na rua quando nascem e da mesma forma os espa&ccedil;os p&uacute;blicos e exteriores n&atilde;o foram concebidos para alojar pessoas, o que sugere que quem passa por uma situa&ccedil;&atilde;o do g&eacute;nero tem, inevitavelmente, de passar por um processo de aprendizagem e de desenvolvimento de novas compet&ecirc;ncias o que pode implicar incremento do sentido de empoderamento. Directamente relacionado com a capacidade de resolu&ccedil;&atilde;o de problemas encontra-se a capacidade de aceder aos recursos existentes na sociedade na qual est&atilde;o inseridos. Neste estudo, as pessoas entrevistadas aludem aos servi&ccedil;os e referem-se &agrave; capacidade de adapta&ccedil;&atilde;o que sentiram perante a necessidade de pedir roupa e comida nas carrinhas de apoio &agrave;s pessoas sem-abrigo. Esta capacidade de adapta&ccedil;&atilde;o sugere empoderamento psicol&oacute;gico, no sentido em que revela capacidade de mobiliza&ccedil;&atilde;o e acesso aos recursos existentes no meio e contexto no qual o sujeito est&aacute; inserido (Zimmerman, 1995). Al&eacute;m disso, em Jo&atilde;o parece ser evidente (mais do que em Ant&oacute;nio e Alberto) uma grande capacidade de cr&iacute;tica, quer positiva quer negativa, relativamente &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es e ao meio sociopol&iacute;tico, o que remete para a dimens&atilde;o interaccional do empoderamento psicol&oacute;gico. </p>      <p>Considerando a constru&ccedil;&atilde;o e implementa&ccedil;&atilde;o de um Movimento de Apoio ao Sem-Abrigo (MASA), por parte das pr&oacute;prias pessoas sem-abrigo, uma capacidade no desenvolvimento de solu&ccedil;&otilde;es e estrat&eacute;gias para a resolu&ccedil;&atilde;o de problemas o MASA sugere um n&iacute;vel elevado de empoderamento psicol&oacute;gico (Zimmerman, 1995) por parte de Jo&atilde;o e Ant&oacute;nio. Pois, pode-se considerar que as pessoas sem-abrigo entrevistadas est&atilde;o a lutar para compreender e para agir nos contextos, participando activamente nas decis&otilde;es da comunidade na qual est&atilde;o inseridos. Por outro lado, parece ent&atilde;o que o conhecimento sobre determinada realidade pode resultar de pessoas que n&atilde;o os profissionais, e uma compreens&atilde;o mais profunda de uma realidade deve advir da percep&ccedil;&atilde;o daqueles que nela vivem. Este facto, parece ser uma limita&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es que trabalham com as pessoas sem-abrigo e do pr&oacute;prio governo que parece, em alguns pa&iacute;ses, n&atilde;o ter nenhum plano para lidar com os sem-abrigo (Toro &amp; Warren, 1991). As institui&ccedil;&otilde;es que lidam com as pessoas sem-abrigo, deveriam envolv&ecirc;-las na elabora&ccedil;&atilde;o de projectos no sentido de resolu&ccedil;&atilde;o dos seus pr&oacute;prios problemas (Toro &amp; Warren, 1991). O MASA parece ter este ideal subjacente, pois quem elaborou este projecto de interven&ccedil;&atilde;o foram as pr&oacute;prias pessoas sem-abrigo, sem o apoio de profissionais ou das institui&ccedil;&otilde;es. V&aacute;rios projectos nos Estados Unidos, revelam que a colabora&ccedil;&atilde;o das pessoas sem-abrigo na elabora&ccedil;&atilde;o de alternativas para os seus problemas tende a favorecer o seu empoderamento psicol&oacute;gico e uma resolu&ccedil;&atilde;o mais eficaz da condi&ccedil;&atilde;o de sem-abrigo (Toro &amp; Warren, 1991). </p>      <p>Tendo em conta os resultados, pode-se ent&atilde;o concluir que viver como sem-abrigo n&atilde;o implica que estas pessoas revelem apenas d&eacute;fices e incapacidades, podendo as pessoas sem-abrigo revelarem sinais de empoderamento psicol&oacute;gico (Hopson &amp; Scally, 1981). </p>      <p>Apesar das conclus&otilde;es evidentes, este estudo apresenta algumas limita&ccedil;&otilde;es do ponto de vista do tamanho e representatividade do grupo de pessoas entrevistadas, pois sendo um grupo muito espec&iacute;fico, n&atilde;o consumidor de &aacute;lcool e outras drogas, e pequeno que manifesta caracter&iacute;sticas e percursos de vida n&atilde;o representativos de todos os grupos de pessoas sem-abrigo. N&atilde;o obstante, pretende-se com este estudo que se passe a considerar as pr&oacute;prias pessoas sem-abrigo na defini&ccedil;&atilde;o de estrat&eacute;gias de resolu&ccedil;&atilde;o dos seus problemas, assim como em qualquer interven&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria, pois se o alvo de interven&ccedil;&atilde;o se considerar parte envolvente do projecto, a efic&aacute;cia deste certamente ser&aacute; maior, tornando as pessoas mais empoderadas. O MASA tem este ideal subjacente e poderia ser o princ&iacute;pio de uma solu&ccedil;&atilde;o para os problemas das pessoas sem-abrigo. Para tal &eacute; necess&aacute;rio que profissionais, institui&ccedil;&otilde;es e Estado procurem compreender a leitura desta experi&ecirc;ncia, do ponto de vista de quem a viveu e alicer&ccedil;ar as suas pol&iacute;ticas intervencionistas nos pressupostos da interven&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria, fazendo dos pr&oacute;prios alvos de interven&ccedil;&atilde;o, agentes activos na elabora&ccedil;&atilde;o do projecto de interven&ccedil;&atilde;o (Montero, 2004). </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>REFER&Ecirc;NCIAS</p>      <p>Bardin, L. (2004). <i>An&aacute;lise de conte&uacute;do </i>(Reto &amp; Pinheiro, trad). Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Boydell, K., Goering, P., &amp; Morrell-Bellai, T. (2000). Narratives of identity: Representation of self in people who are homeless. <i>Qualitative Health Research, 10 (26</i>), 26-38. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000123&pid=S0870-8231201000030001200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Branco, F. (2004). Pol&iacute;ticas sociais e direitos humanos. In Sem-Abrigo e Imigra&ccedil;&atilde;o &#8211; Olhares sobre a realidade em  Portugal. <i>Colect&acirc;nea de Ensaios CAIS </i>(pp. 60-77). Lisboa: Padr&otilde;es Culturais Editora. </p>      <p>FEANTSA. (2005). <i>FEANTSA proposal for Urban Audit 2006. Definition of homelessness    for the collection of urban-level data on the number and profile of homeless    people in 300 European cities.</i> Consultado em Novembro de 2007 <a href="http://www.feantsa.org/code/en/theme.asp?ID=4" target="_blank">http://www.feantsa.org/code/en/theme.asp?ID=4    </a></p>      <p>Flick, U. (2005). <i>M&eacute;todos qualitativos na investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica </i>(Pereira, trad.). Lisboa: Monitor. Instituto de Seguran&ccedil;a Social (2004). <i>O estudo dos sem-abrigo</i>. Lisboa. </p>      <p>Gelberg, L., &amp; Linn, L S. (1989). Assessing the physical health of homeless adults. <i>JAMA, 262</i>, 1973-1979. </p>      <p>Goering, P., Tolomiczenko, G., Sheldon, T., Boydell, K., &amp; Wasylenki, D. (2002). Characteristic of persons who are homeless for the first time. <i>Psychiatric Services, 53</i>(11), 1472-1474. </p>      <p>Hopson, B., &amp; Scally, M. (1981). <i>Lifeskills teaching</i>. London: McGraw-Hill </p>      <p>Montero, M. (2004). Qu&eacute; es la Psicologia comunitaria. Introducci&oacute;n a la psicologia comunitaria. Dessarrollo, conceptos y processos. <i>Paid&oacute;s tramas sociales</i>, <i>2</i>, 87-102. </p>      <p>Phelan, J. C., &amp; Bruce G. L. (1999). Who are &#8220;the homeless&#8221;? Reconsidering the stability and composition of the homeless population. <i>American Journal of Public Health, 89</i>(9), 1334-1338. </p>      <p>Philippot, P., Lecocq, C., Sempoux, f., Nachtergael, H., &amp; Galand, B. (2007). Psychological research on homelessness in Western Europe: A review from 1970 to 2007. <i>Journal of Social Issues, 63</i>(3), 483-504. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Rappaport, J. (1981). In praise of paradox: A social policy of empowerment over prevention. <i>American Journal of Comnunity Psychology, 9</i>(1), 1-25. </p>      <p>Roll, C., Toro, P., &amp; Ortola, G. (1999). Characteristics and experiences of homeless adults: A comparison of single men, single women, and women with children. <i>Journal of Community Psychological, 27</i>(2), 189-198. </p>      <p>Silva, S. (2007). Homeless: Methods of producting biographical narratives. <i>Education Sciences Journal, 2, </i>67-80. </p>      <p>Toro, P. (2005). Community Psychology: where do we go from here? <i>American Journal of Psychology, 35</i>(1/2), 9-16. </p>      <p>Toro, P. (2007). Toward an international understanding of homelessness. <i>Journal of Social Issues, 63</i>(3), 461-481. </p>      <p>Toro, P., &amp; Warren, M. (1991). Homelessness, psychology, and public policy. Introduction to section three. <i>American Psycohologist, 46</i>(11), 1205-1207. </p>      <p>Toro, P. A., Trickett, E. J., Wall, D.D., &amp; Salem, D. A. A. (1991). Homelessness in the United States: An ecological perspective. Special Issue on Homeless, <i>American Psychologist, 46</i>, 1208-1218. </p>      <p>Zimmerman, M. (1990a). Toward a theory of learned hopefulness: A structural model. Analysis of participation and empowerment. <i>Journal of Research in Personality, 24</i>, 71-86. </p>      <p>Zimmerman, M. (1990b). Taking aim on empowerment research: On the distinction between individual and psychological conceptions. <i>American Journal of Community Psychology, 18</i>(1), 169-177. </p>      <p>Zimmerman, M. (1995). Psychological empowerment: Issues and illustrations. <i>American Journal of Community Psychology, 23</i>(5), 581-599. </p>      ]]></body>
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<surname><![CDATA[Boydell]]></surname>
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