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<journal-title><![CDATA[Análise Psicológica]]></journal-title>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[&#8220;Existere&#8221; com o VIH! É possível(com)viver com este vírus: Para uma compreensão da experiência de seropositividade]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[With this theoretical essay, we try to think about the experience of being HIV positive from an existential and psychological standpoint, addressing both the difficulties of living with a body perceived as &#8220;unhealthy&#8221;, and the difficulties associated with this particular infection. We try also to think about the factors affecting treatment adherence to antiretroviral therapy and, finally, from an existential-phenomenological perspective, we seek to shed light on the reasons behind the difficulties in coping with this diagnosis.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Adesão medicamentosa]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>&#8220;Existere&#8221; com o VIH! &Eacute; poss&iacute;vel(com)viver com este v&iacute;rus?  Para uma compreens&atilde;o da experi&ecirc;ncia de seropositividade</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Edgar Correia (*) </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>(*) Psic&oacute;logo Cl&iacute;nico dos Servi&ccedil;os de Infecciologia e    Gastroenterologia do Hospital Garcia de Orta, Almada; Psicoterapeuta Existencial    certificado pela Society for Existential Analysis (SEA), pela United Kingdom    Council for Psychotherapy (UKCP) e European Association for Psychotherapy (EAP);    Membro fundador da Sociedade Portuguesa de Psicoterapia Existencial (SPPE);    URL: <a href="http://www.psi-consulta.com" target="_blank">www.psi-consulta.com</a>; E-mail: <a href="mailto:edgar.agrela@gmail.com">edgar.agrela@gmail.com</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>RESUMO</p>      <p>Neste artigo procura-se pensar a experi&ecirc;ncia de seropositividade a partir de uma perspectiva psicol&oacute;gica e existencial, abordando quer as dificuldades em conviver com um corpo percepcionado como &#8220;doente&#8221;, quer as dificuldades inerentes a esta infec&ccedil;&atilde;o em particular. Faz-se ainda uma abordagem &agrave;s condicionantes &agrave; ades&atilde;o medicamentosa e, por fim, a partir de uma perspectiva fenomenol&oacute;gico-existencial, procura-se lan&ccedil;ar luz sobre as raz&otilde;es subjacentes &agrave;s dificuldades em integrar este diagn&oacute;stico. </p>      <p><i>Palavras chave: </i>Ades&atilde;o medicamentosa, Seropositividade, Existir-doente. </p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>ABSTRACT</p>      <p>With this theoretical essay, we try to think about the experience of being HIV positive from an existential and psychological standpoint, addressing both the difficulties of living with a body perceived as &#8220;unhealthy&#8221;, and the difficulties associated with this particular infection. We try also to think about the factors affecting treatment adherence to antiretroviral therapy and, finally, from an existential-phenomenological perspective, we seek to shed light on the reasons behind the difficulties in coping with this diagnosis. </p>      <p><i>Key words: </i>Adherence, Coping with HIV. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>INTRODU&Ccedil;&Atilde;O</p>      <p>Existir doente! Colocada desta maneira, a primeira parte do t&iacute;tulo, parece responder &agrave; segunda com um pesado e inquestion&aacute;vel <i>N&Atilde;O! </i></p>      <p>Todavia, n&atilde;o &eacute; essa a experi&ecirc;ncia. Decorridos mais de 25 anos de consci&ecirc;ncia da exist&ecirc;ncia deste v&iacute;rus, pudemos constatar que grande parte das pessoas infectadas souberam, e sabem, (com)viver com o VIH, havendo inclusive quem tenha encontrado nesta nova condi&ccedil;&atilde;o existencial um ponto de viragem para uma nova forma de ser e de estar no mundo. </p>      <p>Ent&atilde;o, porqu&ecirc; este t&iacute;tulo aparentemente negativista? Bem, porque ao mesmo tempo que nos d&aacute; o sentido da impossibilidade de (co)existir com o VIH, aponta-nos,  pelo seu inverso, caminhos para a possibilidade de existir, ainda que com o v&iacute;rus. E, parece-nos ser este o caminho percorrido pelas pessoas que melhor convivem com a sua seropositividade: tomar como suas as inexor&aacute;veis dificuldades e mudan&ccedil;as trazidas pelo v&iacute;rus para assim, a partir desta nova condi&ccedil;&atilde;o de vida, encontrar novas &#8220;possibilidades de ser e de vir-a-ser&#8221; (Teixeira, 1993). </p>      <p>Tomando como ponto de partida este pressuposto, &eacute; esta a sugest&atilde;o que fazemos ao leitor, ou seja, analisemos as dificuldades que a coexist&ecirc;ncia com o v&iacute;rus imp&otilde;e para que, com base nestas limita&ccedil;&otilde;es, possamos pensar se &eacute; ainda poss&iacute;vel usufruir de uma exist&ecirc;ncia significativa. </p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>PARA UMA COMPREENS&Atilde;O FENOMENOL&Oacute;GICA DA EXPERI&Ecirc;NCIA DE DOEN&Ccedil;A</p>      <p>E comecemos, precisamente, pelo t&iacute;tulo &#8211; &#8220;<i>Existere</i> com o VIH&#8221; &#8211;, que no imagin&aacute;rio colectivo parece assumir um significado pr&oacute;ximo de &#8220;Existir com um problema de sa&uacute;de (grave)&#8221;, remetendo para &#8220;Existir doente &#8211; caminhando para a morte&#8221;. </p>      <p>Se assumirmos este paralelismo entre &#8220;existir-com-o-VIH&#8221; e &#8220;existir-doente&#8221;, somos confrontados desde logo com uma rela&ccedil;&atilde;o de impossibilidade, isto porque, etimologicamente, existir (<i>ex-sistere</i>) significa &#8220;sair de si&#8221;, abrindo-se para aquilo que o &#8220;Mundo&#8221; nos apresenta, enquanto estar doente, pelo contr&aacute;rio, remete, fenomenologicamente, para uma experi&ecirc;ncia de fechamento em si-pr&oacute;prio, de enclausuramento sobre a experi&ecirc;ncia de dor ou desconforto (Gadamer, 2002). </p>      <p>Todos n&oacute;s temos esta experi&ecirc;ncia. Quando nos sentimos s&atilde;os n&atilde;o estamos cientes da nossa sanidade, a corporeidade passa despercebida e a nossa aten&ccedil;&atilde;o pode estar focalizada no exterior (no nosso trabalho, nas nossas rela&ccedil;&otilde;es, nos mais diversos problemas e/ou alegrias que o Mundo apresenta). Quando estamos saud&aacute;veis, podemos sair de n&oacute;s mesmos, podemos transcender-nos, atirar-nos ao Mundo. No entanto, quando nos sentimos doentes h&aacute; uma verdadeira concentra&ccedil;&atilde;o do pensamento sobre a viv&ecirc;ncia de enfermidade. Recordemo-nos com uma gripe: apesar do mundo correr &agrave; nossa volta, sentimo-nos aprisionados ao mal-estar, num inexor&aacute;vel fechamento sobre n&oacute;s pr&oacute;prios. Como nos diz Gadamer (2002), a doen&ccedil;a &#8220;isola-nos do vasto mundo exterior das nossas experi&ecirc;ncias e nos encerra no que &eacute; puramente interior&#8221;. Estranho paradoxo: se nos sentimos s&atilde;os n&atilde;o nos apercebemos (e por isso podemos ocupar-nos do &#8220;de l&aacute; de fora&#8221;), se nos sentimos doentes, institui-se uma verdadeira tirania da enfermidade, sin&oacute;nimo de fechamento, de enclausuramento, de solipsismo corp&oacute;reo. </p>      <p>O encerramento que estar doente provoca parece impedir o sair de si que caracteriza o acto de existir. Esta an&aacute;lise sugere, portanto, a impossibilidade de existir (expandir-se) doente (fechar-se). </p>      <p>O leitor poder&aacute; contestar, e com toda a propriedade, que ser portador do v&iacute;rus n&atilde;o implica necessariamente estar doente, ainda mais numa &eacute;poca em que a efic&aacute;cia dos antiretrovirais &eacute; j&aacute; inquestion&aacute;vel e, por conseguinte, existir e ser seropositivo n&atilde;o redunda obrigatoriamente na incompatibilidade acima explanada. Sim, &eacute; verdade! Todavia, j&aacute; vimos como no imagin&aacute;rio dominante a equa&ccedil;&atilde;o &#8220;seropositivo=doente&#8221; ainda persiste e, no que concerne &agrave; sa&uacute;de, n&atilde;o importa tanto o verbo estar (doente), mas sim o sentir (-se doente): </p>      <blockquote>     <p>&#8220;<i>Sim, n&atilde;o sinto nada, mas sei que ele </i>&#8211; v&iacute;rus &#8211; <i>est&aacute; c&aacute; dentro</i>&#8221;. </p>      <p>ou </p>      <p>&#8220;<i>Sim, n&atilde;o tenho tido nenhum problema, mas olhe, tomo medica&ccedil;&atilde;o todos os dias, estou c&aacute; </i>&#8211; no hospital &#8211; <i>sempre metido (ou para levantar os medicamentos, ou para tirar an&aacute;lises, ou para vir &agrave; m&eacute;dica): c&aacute; para mim, isto n&atilde;o &eacute; ser saud&aacute;vel!</i>&#8221; </p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Neste dois exemplos da nossa pr&aacute;tica cl&iacute;nica n&atilde;o h&aacute;, efectivamente, sintomatologia, ainda assim, ambos v&ecirc;m-se e sentem-se como doentes: no primeiro caso por imaginar que traz consigo um v&iacute;rus com conota&ccedil;&otilde;es altamente negativas; no segundo, por identifica&ccedil;&atilde;o com o papel de doente. </p>      <p>E v&aacute;rios s&atilde;o os seropositivos que se sentem literalmente enclausurados na viv&ecirc;ncia de seropositividade: </p>     <blockquote>     <p>&#8220;<i>Sinto-me metida num buraco fundo e escuro e n&atilde;o sei como sair. Os meus filhos chamam-me, d&atilde;o-me for&ccedil;a, e eu subo um ou dois degraus; a m&eacute;dica chama-me e d&aacute;-me esperan&ccedil;a e eu subo mais uns degraus, mas depois volto a cair e fico outra vez no fundo do buraco</i>&#8221;. (sabe da sua seropositividade h&aacute; 4 meses e iniciou medica&ccedil;&atilde;o h&aacute; 1 m&ecirc;s. Sem sintomas f&iacute;sicos) </p>      <p><i>&#8220;Quando soube da doen&ccedil;a foi um grande choque, mas consegui aguentar. Mas de h&aacute; uns meses para c&aacute; foi o descalabro, fui-me afundando, afundando, at&eacute; que j&aacute; n&atilde;o penso noutra coisa. Levantar-me para ir para o trabalho tem sido um sacrif&iacute;cio enorme. S&oacute; me apetece estar estirado no ch&atilde;o da sala a olhar para o vazio e a chorar</i>&#8221;.  (seropositivo h&aacute; 3 anos, sem sintomatologia f&iacute;sica e sem medica&ccedil;&atilde;o) </p> </blockquote>      <p>Nestes dois exemplos, a seropositividade parece ter a&ccedil;ambarcado todo o espa&ccedil;o mental destas pessoas, inibindo a possibilidade do sair de si que caracteriza o existir. Neste momento da vida destas pessoas podemos dizer que se tornou efectivamente imposs&iacute;vel existir com o VIH. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>DIFICULDADES NA VIV&Ecirc;NCIA DA SEROPOSITIVIDADE</p>      <p>Mas o que &eacute; que h&aacute; nesta infec&ccedil;&atilde;o de t&atilde;o invasivo, que quando se instala &eacute; capaz de ocupar todo o espa&ccedil;o psico-emocional do indiv&iacute;duo, usurpando, por vezes, todo o sentido do existir? </p>      <p>Os extraordin&aacute;rios avan&ccedil;os ao n&iacute;vel dos tratamentos levam muitos t&eacute;cnicos a secundarizar esta quest&atilde;o, o que se subentende na j&aacute; banal&iacute;ssima frase: &#8220;Hoje, a infec&ccedil;&atilde;o pelo VIH &eacute; uma doen&ccedil;a cr&oacute;nica como outra qualquer&#8221;. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Bem, num plano puramente t&eacute;cnico-cient&iacute;fico isto &eacute; verdade, no entanto, o bus&iacute;lis est&aacute; no facto do V&iacute;rus da Imunodefici&ecirc;ncia ser &#8220;<i>Humano</i>&#8221;e, por conseguinte, fora dos laborat&oacute;rios e das discuss&otilde;es acad&eacute;micas, o v&iacute;rus &eacute; &#8220;<i>vivido</i>&#8221; (pelos pacientes, mas tamb&eacute;m pelos t&eacute;cnicos que se esfor&ccedil;am por tratar), adquirindo sentidos que n&atilde;o bebem dos comp&ecirc;ndios, mas sim das emo&ccedil;&otilde;es, das experi&ecirc;ncias vividas, das representa&ccedil;&otilde;es sociais, das conota&ccedil;&otilde;es morais e/ou religiosas, ... </p>      <p>Neste plano vivencial, a infec&ccedil;&atilde;o pelo VIH pode at&eacute; ser, para alguns (mais bem informados), uma doen&ccedil;a cr&oacute;nica, mas n&atilde;o &eacute;, com certeza, uma doen&ccedil;a como outra qualquer. </p>      <p>Sublinho isto porque, n&atilde;o obstante os aparentes benef&iacute;cios ao n&iacute;vel do estigma que podem advir da banaliza&ccedil;&atilde;o do VIH, esta minimiza&ccedil;&atilde;o tende a reduzir a disponibilidade das equipas de sa&uacute;de para o acolhimento e compreens&atilde;o de reac&ccedil;&otilde;es emocionais intensas, dado que &eacute; &#8220;s&oacute; uma doen&ccedil;a cr&oacute;nica&#8221; (Catalan, Green, &amp; Thorley, 2001), despertando no paciente sentimentos de incompreens&atilde;o e isolamento. Por outro lado, o pr&oacute;prio utente pode olhar para as suas reac&ccedil;&otilde;es ao v&iacute;rus como desadequadas (ou mesmo patol&oacute;gicas), numa equipa que tende a banalizar o problema. Todavia, como nos diz Sch&ouml;nnesson (2002), &#8220;muitas das quest&otilde;es que as pessoas com o VIH enfrentam hoje s&atilde;o similares &agrave;quelas que enfrentavam antes da HAART (Highly Active Antiretroviral Therapy)&#8221; e podem ser vivenciadas de uma forma t&atilde;o invasiva que enclausurem o sujeito na condi&ccedil;&atilde;o de seropositividade. Vejamos porqu&ecirc;: </p>     <blockquote>     <p>1.&nbsp; Por mais que evoluam e se simplifiquem os esquemas terap&ecirc;uticos estes n&atilde;o retiram o car&aacute;cter traum&aacute;tico associado ao diagn&oacute;stico de infec&ccedil;&atilde;o pelo VIH, dada a amea&ccedil;a que constitui &agrave; &#8220;estrutura do self&#8221; (Spinelli, 2001) & #8211; vide conclus&atilde;o. </p>      <p>2.&nbsp; De igual forma, ainda que a amea&ccedil;a &agrave; sobreviv&ecirc;ncia tenha diminu&iacute;do, a seropositividade continua a constituir uma amea&ccedil;a &agrave; sa&uacute;de f&iacute;sica, que atira o sujeito numa profunda incerteza face &agrave; sa&uacute;de no futuro. </p>      <p>3.&nbsp; N&atilde;o sendo j&aacute; uma infec&ccedil;&atilde;o que conduz necessariamente &agrave; morte, n&atilde;o deixa de confrontar o portador com a crueza da inevitabilidade da sua pr&oacute;pria finitude. A &#8220;ang&uacute;stia de morte&#8221; (Yalom, 1980) da&iacute; resultante &eacute; t&atilde;o mais significativa nos nossos tempos, onde o culto da eterna juventude, do corpo saud&aacute;vel e perfeito, erradicou a doen&ccedil;a e a morte do quotidiano social (Gadamer, 2002) (ou ent&atilde;o aparece de uma forma t&atilde;o banalizada nos notici&aacute;rios &#8211; sempre em s&iacute;tios ou contextos que nos parecem demasiado distantes &#8211; que j&aacute; n&atilde;o nos toca). A morte parece n&atilde;o fazer parte da nossa vida e, para muitos seropositivos, o confronto com o diagn&oacute;stico constituiu o primeiro frente-a-frente com a inevitabilidade da sua pr&oacute;pria morte. &Eacute; como se pela primeira vez sentisse a ang&uacute;stia e o peso desta dura realidade: &#8220;<i>Nunca tinha pensado na minha morte. Bem, &eacute; claro que sabia que um dia ia morrer, mas era muito longe, sabe!? Era aquela hist&oacute;ria: Ah! Sim, um dia vou morrer e quando for vou deitado. Mas quando a m&eacute;dica disse que eu tinha o v&iacute;rus n&atilde;o me encaixava que podia mesmo morrer! Nem sei como &eacute; que me senti!</i>&#8221; </p>      <p>4.&nbsp; Os sintomas foram adiados indeterminadamente, mas n&atilde;o a infecciosidade da infec&ccedil;&atilde;o, o que implica que a pessoa pode viver uma vida longa e saud&aacute;vel, mas continua a poder infectar terceiros. Com o prolongamento da vida &eacute; natural que a pessoa pense em encontrar algu&eacute;m com quem partilhar a sua exist&ecirc;ncia, todavia, o receio de transmitir o v&iacute;rus persiste, tal como persistem os receios associados &agrave; procria&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o, portanto, &oacute;bvias as consequ&ecirc;ncias que o VIH ainda acarreta para a sexualidade,  para a vida amorosa e para a pretens&atilde;o de procriar, consequ&ecirc;ncias que podem gerar fortes tens&otilde;es, d&uacute;vidas, ang&uacute;stias e culpabilidades no portador do v&iacute;rus. </p>      <p>5. Relacionado com o ponto anterior, est&aacute; o receio do isolamento. N&atilde;o s&oacute; pelos motivos acima colocados, mas pela persist&ecirc;ncia do estigma associado &agrave; infec&ccedil;&atilde;o pelo VIH. Apesar de mais de um quarto de s&eacute;culo ap&oacute;s a descoberta do v&iacute;rus, a sociedade continua a afastar, a discriminar e a acusar os seropositivos. O receio da discrimina&ccedil;&atilde;o e do abandono levantam dilemas dif&iacute;ceis de solucionar entre o contar e o n&atilde;o contar &agrave;s pessoas que os rodeiam (familiares, amigos, colegas de trabalho). Por vezes este dilema assume laivos de culpabilidade pela oculta&ccedil;&atilde;o do diagn&oacute;stico: &#8220;<i>Sinto-me culpado por n&atilde;o contar aos meus colegas que estou infectado. Sinto que estou a engan&aacute;-los. Eles est&atilde;o comigo normalmente, brincam comigo, vamos ao caf&eacute;, como se tudo estivesse bem, mas n&atilde;o est&aacute; e eles n&atilde;o sabem nada</i>&#8221;. </p>      <p>6.&nbsp; Outro sofrimento que a infec&ccedil;&atilde;o pelo VIH continua a infringir &eacute; o da culpabilidade pela infec&ccedil;&atilde;o, que se sustenta num sentimento de dano ao corpo, ou de destrui&ccedil;&atilde;o dos sonhos. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>7.&nbsp; Se as incertezas face &agrave; sobreviv&ecirc;ncia diminu&iacute;ram gra&ccedil;as aos antiretrovirais, eles pr&oacute;prios constituem uma prol&iacute;fica fonte de preocupa&ccedil;&otilde;es, d&uacute;vidas, ambival&ecirc;ncias e ansiedades, quer para pacientes, quer mesmo para os t&eacute;cnicos, quando os primeiros reagem duma forma aparentemente pouco racional, colocando em causa a efic&aacute;cia dos tratamentos. </p> </blockquote>     <p>O pensamento cient&iacute;fico diz-nos que estamos perante um tratamento que, cumprido escrupulosamente, poder&aacute; evitar a morte e com efeitos colaterais pouco significativos relativamente aos benef&iacute;cios. Imbu&iacute;do neste pensamento, o t&eacute;cnico de sa&uacute;de espera que o seu paciente responda tamb&eacute;m de uma forma racional, fundamentada nestes preceitos cient&iacute;ficos. Claro est&aacute; que isto nem sempre acontece e o t&eacute;cnico sente-se confuso e frustrado perante as frequentes atitudes aparentemente irracionais do utente; mas que resultam apenas da sua vis&atilde;o mais alargada (e, por conseguinte, mais real), que inclui, para al&eacute;m do fundamento cient&iacute;fico, os fundamentos que alicer&ccedil;am a sua exist&ecirc;ncia. &Eacute; como se o paciente afirmasse: &#8220;A ci&ecirc;ncia afirma que o meu v&iacute;rus pode desenvolver resist&ecirc;ncias e posso vir a morrer se n&atilde;o cumprir rigorosamente a prescri&ccedil;&atilde;o &#8211; fundamento cient&iacute;fico &#8211;, mas a minha vida est&aacute; sujeita a uma s&eacute;rie de facticidades, condicionalismos e emo&ccedil;&otilde;es que geram tens&otilde;es contradit&oacute;rias no meu comportamento de ades&atilde;o &#8211; fundamento psicossocial&#8221;. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>CONDICIONANTES &Agrave; ADES&Atilde;O AOS ANTIRETROVIRAIS</p>      <p>Na verdade, pesando sobre a efic&aacute;cia dos tratamentos existe uma mir&iacute;ade de factores que geram d&uacute;vidas e preocupa&ccedil;&otilde;es e que atiram o sujeito para a ambival&ecirc;ncia entre o tomar e n&atilde;o tomar, ou entre o persistir e o desistir: </p>      <p>&nbsp;</p>      <p><i>Factores relacionados com o tratamento </i></p>      <p>O tratamento, em si, acarreta consigo um mar de incertezas: Serei capaz de tolerar os efeitos secund&aacute;rios iniciais? E como &eacute; que o meu v&iacute;rus ir&aacute; responder ao tratamento? Durante quanto tempo ser&aacute; esta medica&ccedil;&atilde;o eficaz? A longo prazo, n&atilde;o me trar&aacute; efeitos colaterais perniciosos? E que efeitos poder&atilde;o surgir? E se o v&iacute;rus desenvolver resist&ecirc;ncias, que alternativas me restam? Como poderei conciliar as tomas com as minhas rotinas familiares, sociais e laborais? Conseguirei, ou quererei, alterar as minhas rotinas di&aacute;rias? E se algu&eacute;m repara e pergunta pelo motivo da toma di&aacute;ria de medicamentos? E se desconfiarem do que se trata? </p>      <p>&nbsp;</p>      <p><i>Factores relacionados com o contexto de sa&uacute;de </i></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O pr&oacute;prio contexto de sa&uacute;de pode criar dificuldades, barreiras e ansiedades relacionadas com os tratamentos: Como poderei deslocar-me ao hospital t&atilde;o frequentemente e com o pouco dinheiro que disponho? Estou saturado das intermin&aacute;veis horas de espera para ser atendido no hospital, para depois encontrar um t&eacute;cnico que descarrega o seu stresse, cansa&ccedil;o e  frustra&ccedil;&otilde;es em cima de mim. E se durante este tempo de espera passa algu&eacute;m conhecido, como &eacute; que justifico a minha presen&ccedil;a naquele s&iacute;tio? Como justifico no trabalho tanta ida ao hospital? O meu emprego &eacute; prec&aacute;rio e no hospital s&atilde;o pouco flex&iacute;veis no facilitar de hor&aacute;rios p&oacute;s-laborais, mas n&atilde;o posso dar-me ao luxo de perder este emprego. O m&eacute;dico tem pouco tempo para mim e ainda n&atilde;o o conhe&ccedil;o, como poderei confiar nele? E se n&atilde;o conseguir cumprir as prescri&ccedil;&otilde;es, ser&aacute; que o meu m&eacute;dico ir&aacute; compreender e apoiar-me nas pr&oacute;ximas tomas, ou ser&aacute; que ir&aacute; ralhar, ou at&eacute; mesmo desinvestir do meu caso? </p>      <p>&nbsp;</p>      <p><i>Factores de ordem psicossocial </i></p>      <p>N&atilde;o raras vezes a pessoa infectada guarda representa&ccedil;&otilde;es err&oacute;neas acerca do v&iacute;rus e dos tratamentos, representa&ccedil;&otilde;es estas que ainda assim (e por v&aacute;rias raz&otilde;es) se sobrep&otilde;em &agrave;s informa&ccedil;&otilde;es m&eacute;dicas levando o sujeito a desacreditar na efic&aacute;cia dos tratamentos &#8211; &#8220;<i>Acho que n&atilde;o vale a pena </i>(fazer a medica&ccedil;&atilde;o), <i>veja... o meu irm&atilde;o fazia tudo certinho e de que &eacute; que lhe serviu? Isto n&atilde;o tem cura e se n&atilde;o tem cura para que &eacute; que vou estar a tomar medicamentos?</i>&#8221; </p>      <p>Outras vezes, crises emocionais intensas (associadas ao v&iacute;rus ou a outros condicionalismos do quotidiano) levam a um desinvestimento da pessoa em si pr&oacute;pria e, consequentemente, a um desinvestimento na rigorosidade requerida para os tratamentos. </p>      <p>Temos ainda o abuso de subst&acirc;ncias que cria um alheamento/esquecimento do real que dificulta o investimento e a aten&ccedil;&atilde;o exigida pelos tratamentos. </p>      <p>Por fim, vidas familiares e/ou sociais ca&oacute;ticas geram, por vezes, uma centra&ccedil;&atilde;o demasiado  forte sobre esses problemas, restando pouco espa&ccedil;o mental para o sujeito poder se &#8220;pr&eacute;-ocupar&#8221; com os medicamentos. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p><i>Factores de ordem existencial </i></p>      <p>Por fim, a medica&ccedil;&atilde;o desperta ambival&ecirc;ncias ancoradas em sentidos e valores atribu&iacute;dos &agrave; medica&ccedil;&atilde;o e ao pr&oacute;prio sentido que o sujeito atribui &agrave; sua exist&ecirc;ncia. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Num plano fenomenol&oacute;gico, tomar a medica&ccedil;&atilde;o remete directamente para um prolongamento da vida, que o paciente poder&aacute;, de uma forma consciente ou inconsciente, n&atilde;o querer prolongar: ou porque sente que os sonhos que nutria para o seu futuro s&atilde;o incompat&iacute;veis com a conviv&ecirc;ncia com o VIH e, portanto, apenas resta um vazio existencial, assente no vazio de sentido (Frankl, 2004); e/ou porque  sente que estragou a sua vida ao incorrer em comportamentos socialmente reprovados e que a &#8220;doen&ccedil;a&#8221; &eacute; a forma de expiar a culpa, perante si pr&oacute;prio e perante a sociedade, pelo que deve aceitar o destino natural da doen&ccedil;a. </p>      <p>Por outro lado, aderir &agrave; rigorosidade exigida pelos antiretrovirais implica um grande empenho pessoal, que psicologicamente pressup&otilde;e uma &#8220;pr&eacute;-disposi&ccedil;&atilde;o&#8221; para aceitar a medica&ccedil;&atilde;o como um elemento constituinte da vida da pessoa. Fenomenologicamente isto implica aceitar o VIH como parte integrante da vida, implica aceitar as limita&ccedil;&otilde;es que isso acarreta e tudo isto implica mudan&ccedil;as estruturais na forma como a pessoa se v&ecirc; e concebe na sua rela&ccedil;&atilde;o consigo e com o Mundo. Para algumas pessoas, o ter de aceitar as restri&ccedil;&otilde;es impostas pelo v&iacute;rus, o ter de se aceitar como seropositivo, &eacute; de tal maneira insuport&aacute;vel, que passam a viver &#8220;pr&eacute;-ocupadas&#8221; em se esquecer que (co)existem com o v&iacute;rus. Isto torna-se mais ou menos poss&iacute;vel durante os anos em que a medica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria (recordam-se apenas quando v&ecirc;m de tr&ecirc;s ou de seis em seis meses ao hospital). Todavia, a toma di&aacute;ria de medicamentos implica recordar (uma, duas ou, at&eacute; mesmo, tr&ecirc;s vezes ao dia) e, para estas pessoas, aderir aos regimes medicamentosos torna-se intoler&aacute;vel, pelo confronto constante com a realidade que n&atilde;o querem aceitar como sua, pelo constante recordar daquilo que querem esquecer &#8211; ent&atilde;o, certo dia, sem saber bem porqu&ecirc;, come&ccedil;am a se esquecer, at&eacute; que deixam de tomar os medicamentos. </p>      <p>A medica&ccedil;&atilde;o acarreta, portanto, um mar de d&uacute;vidas e preocupa&ccedil;&otilde;es que encerram o sujeito, n&atilde;o raras vezes, numa ambival&ecirc;ncia torturante. Aderir ou n&atilde;o aderir, eis a quest&atilde;o, que de um lado aponta para uma possibilidade de sobreviv&ecirc;ncia, mas que do outro acarreta todas as d&uacute;vidas e condicionalismos que acabamos de enunciar: n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil escolher; porque somos humanos, sujeitos &agrave; press&atilde;o de m&uacute;ltiplos vectores. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>CONCLUS&Atilde;O</p>      <p>Chegados a este ponto, resta-nos voltar &agrave; quest&atilde;o inicial: tendo em conta todos os condicionalismos acima explanados, &eacute; ainda poss&iacute;vel usufruir de uma exist&ecirc;ncia significativa, mesmo sendo seropositivo? </p>      <p>Vimos como a equa&ccedil;&atilde;o existir-doente remete para uma rela&ccedil;&atilde;o de incompatibilidade e como, efectivamente, alguns portadores do v&iacute;rus sentem-se enclausurados na condi&ccedil;&atilde;o de seropositividade, sem espa&ccedil;o ou disponibilidade mental para investir &#8220;no Mundo l&aacute; de fora&#8221;. Vimos ainda que n&atilde;o &eacute; condi&ccedil;&atilde;o obrigat&oacute;ria a pessoa estar doente (no sentido de apresentar sintomatologia f&iacute;sica) para se sentir tolhido no seu ex-sistere, dado que a infec&ccedil;&atilde;o pelo VIH coloca, ainda hoje, o sujeito perante uma s&eacute;rie de quest&otilde;es que podem ser vivenciadas de uma forma extremamente disruptiva e, consequentemente, encapsulante. </p>      <p>Tudo isto impele-nos a pensar que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel existir com o VIH. Todavia, qualquer  pessoa que conviva ou trabalhe com portadores do v&iacute;rus sabe perfeitamente que grande parte, ap&oacute;s um per&iacute;odo de choque e adapta&ccedil;&atilde;o (durante o qual se sentem efectivamente enclausurados) reencontram sentidos de e para existir, ainda que seropositivo. </p>      <p>O leitor ter&aacute; reparado, certamente, que as quest&otilde;es com as quais o seropositivo ainda se debate atingem &aacute;reas basilares ou estruturais da exist&ecirc;ncia humana, &aacute;reas estas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s quais desenvolvemos formas muito pr&oacute;prias e padronizadas (sedimentadas) de pensar, sentir e viver (constituindo aquilo que acreditamos ser a nossa &#8220;maneira de ser-no-mundo&#8221;). Como vimos, a condi&ccedil;&atilde;o de seropositividade amea&ccedil;a: </p>     <blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1)&nbsp; A forma como vemos o nosso corpo (<i>corporeidade</i>), j&aacute; que passamos a v&ecirc;-lo como corpo doente, ou afectado, e sem certezas sobre a sua sanidade no futuro; </p>      <p>2)&nbsp; Afecta a nossa rela&ccedil;&atilde;o com o tempo (<i>temporalidade</i>), pelo facto de termos mais presente a nossa finitude; </p>      <p>3)&nbsp; Compromete a nossa viv&ecirc;ncia sexual (<i>sexualidade</i>); </p>      <p>4)&nbsp; Obriga-nos a repensar o estilo relacional e desperta-nos a ang&uacute;stia do isolamento (<i>ser-com</i>); </p>      <p>5)&nbsp; Afecta a nossa concep&ccedil;&atilde;o de liberdade pela depend&ecirc;ncia m&eacute;dica e medicamentosa (<i>liberdade</i>); </p>      <p>6)&nbsp; Afecta o nosso olhar e a nossa proximidade relativamente &agrave; ansiedade, &agrave; culpa e &agrave;s incertezas (Brashers et al., 2003). </p> </blockquote>     <p>Ao sentir amea&ccedil;ados os padr&otilde;es de relacionamento com todas estas &aacute;reas fundamentais do nosso existir, o seropositivo ter&aacute; ou de mudar (reestruturar) a sua forma de ver-se e pensar-se (na sua rela&ccedil;&atilde;o com estas &aacute;reas), ou ter&aacute; de lutar di&aacute;ria e insistentemente para afastar, o mais longe poss&iacute;vel, o sentimento e/ou a ideia de que &eacute; portador do v&iacute;rus (para proteger e manter a sua &#8220;estrutura do self&#8221; &#8211; Spinelli, 2001). </p>      <p>Na infec&ccedil;&atilde;o pelo VIH, o fechamento, enclausuramento ou retraimento, que temos vindo a falar deve-se n&atilde;o tanto &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de doen&ccedil;a (sintomatol&oacute;gica, que hoje a medica&ccedil;&atilde;o consegue mais ou menos controlar), mas sim &agrave; forte amea&ccedil;a &agrave; maneira como a pessoa se olha e concebe, devido ao facto de ainda afectar diversas condi&ccedil;&otilde;es de possibilidade da nossa exist&ecirc;ncia. </p>      <p>Partindo do pressuposto de que esta an&aacute;lise est&aacute; correcta e acreditando na capacidade do ser humano para transcender-se, para ir mais al&eacute;m do que aquilo que lhe &eacute; dado, parece-nos que (com)viver com o VIH pode passar, precisamente, por assumir (racional e emocionalmente) a realidade desta nova condi&ccedil;&atilde;o existencial, com vista a encontrar novos caminhos de abertura e liberdade dentro dos condicionalismos existentes. </p>      <p>Acreditamos ser este o ensinamento que muitos seropositivos nos deram: parece n&atilde;o haver receitas m&aacute;gicas para ser feliz com o v&iacute;rus: cada um encontra maneiras pr&oacute;prias e espa&ccedil;os pr&oacute;prios para enquadr&aacute;-lo na sua vida. Todavia, o que parece haver em comum naquelas pessoas que realmente &#8220;ex-istem&#8221; (no sentido do sair de si), apesar do VIH, &eacute; o facto de assumirem-no como facto incontorn&aacute;vel (e assumir, aqui, n&atilde;o &eacute; no sentido de faz&ecirc;-lo perante outros, ou no sentido de pensar no problema o dia todo, mas t&atilde;o s&oacute; no sentido de aceitar o facto para si mesmo e integr&aacute;-lo na sua estrutura do self), para a partir desta dura condi&ccedil;&atilde;o encontrar novos caminhos, novas possibilidade, de ser e de &#8220;vir-a-ser&#8221;. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Parece caricato, mas &eacute; verdade: aquilo que acabamos de propor &eacute; admitir que estamos presos para podermos gozar a liberdade da pris&atilde;o! Imagine que estava efectivamente preso, e para suportar esta nova condi&ccedil;&atilde;o da sua exist&ecirc;ncia voc&ecirc; resolveu olhar dia e noite pela pequena janela existente na cela, procurando evitar o sentimento de que estava irremediavelmente condicionado. A verdade &eacute; que apesar do dispendioso esfor&ccedil;o para evitar a consci&ecirc;ncia da sua condi&ccedil;&atilde;o, de vez em quando, nem que fosse de relance, aperceber-se-ia que estava apenas a agir de m&aacute;-f&eacute;, que a janela n&atilde;o passava de uma ilus&atilde;o, e a ang&uacute;stia iria abra&ccedil;&aacute;-lo na mesma. Mas acima de tudo, ao n&atilde;o aceitar que estava preso, voc&ecirc; iria perder tudo o que de bom poderia ainda haver numa pris&atilde;o: tempo para poder ler e reflectir, conhecer o companheiro de cela, descobrir quem realmente se importava consigo e o vinha visitar e, mais importante, descobrir novos sentidos e novas forma de olhar para a vida. </p>      <p>E est&aacute; aqui uma das mais valias da interven&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica e psicoterap&ecirc;utica no &acirc;mbito de uma equipa multidisciplinar a trabalhar com o VIH/SIDA. A de proporcionar um espa&ccedil;o de auto-reflex&atilde;o onde o utente pode sentir-se acolhido para pensar e readaptar-se a esta nova condi&ccedil;&atilde;o existencial, onde v&aacute;rias esferas fundamentais da sua exist&ecirc;ncia foram inexoravelmente afectadas. </p>      <p>Deixo-vos com este pequeno trecho de uma consulta de psicologia: </p>     <blockquote>     <p>&#8220;<i>Antes n&atilde;o queria pensar nisto, mas sentia-me metida como num po&ccedil;o sem fundo; n&atilde;o tinha interesse nenhum em viver&#8230; Olhe, ia-me arrastando! Sempre que me vinha &agrave; ideia que tinha isto dava-me um aperto no peito e tinha logo de pensar noutra coisa: nem a medica&ccedil;&atilde;o conseguia fazer. Agora j&aacute; penso nisto abertamente e em vez de ficar no po&ccedil;o sinto agora uma vontade enorme de lutar, de tomar a medica&ccedil;&atilde;o, vencer isto, deixar o v&iacute;rus adormecido e lutar para voltar a ser algu&eacute;m na vida</i>&#8221;. </p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>      <p>REFER&Ecirc;NCIAS</p>      <p>Brashers, D. E., Neidig, J. L., Russell, J. A., Cardillo, L. W., Haas, S. M., Dobbs, L. K., Garland, M., McCartney, B., &amp; Nemeth, S. (2003). The medical, personal, and social causes of uncertainty in HIV illness. <i>Issues in Mental Health Nursing, 24</i>, 497-522. </p>      <p>Catalan, J., Green, L., &amp; Thorley, F. (2001). The changing picture of HIV: A chronic illness, again? <i>Focus &#8211; A Guide to AIDS Research and Counselling, 16</i>(3), 1-4. </p>      <p>Frankl, V. E. (2004). <i>Man&#8217;s search for meaning </i>(5&ordf; ed.). London: Rider Books. (Tradu&ccedil;&atilde;o do original em Alem&atilde;o <i>Ein psycholog erlebt das konzentrations-lager</i>, 1946) </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Gadamer, H.-G. (2002). <i>O mist&eacute;rio da sa&uacute;de: O cuidado da sa&uacute;de e a arte da medicina</i>. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70. (Tradu&ccedil;&atilde;o do original em Alem&atilde;o <i>&Ouml;ber die verborgenheit der gesundheit &#8211; Aufs&auml;tze  und vortr&auml;ge</i>. Suhrkamp Verlag Frankfurt am Main, 1993) </p>      <p>Sch&ouml;nnesson, L. N. (2002). Psychological and existential issues and quality of life in people living with HIV infection. <i>AIDS Care, 14</i>(3), 399-404. </p>      <p>Spinelli, E. (2001). <i>The mirror and the hammer: Challenges to therapeutic orthodoxy</i>. London: Continuum. </p>      <!-- ref --><p>Teixeira, J. A. C. (1993). Introdu&ccedil;&atilde;o &agrave;s abordagens fenomenol&oacute;gica e existencial em psicopatologia (I): A psicopatologia fenomenol&oacute;gica.  <i>An&aacute;lise Psicol&oacute;gica, 11(4</i>), 621-627. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000106&pid=S0870-8231201000040000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Yalom, I. D. (1980). <i>Existential psychotherapy</i>. New York: Basic Books.</p>       ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Teixeira]]></surname>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Introdução às abordagens fenomenológica e existencial em psicopatologia (I): A psicopatologia fenomenológica.]]></article-title>
<source><![CDATA[Análise Psicológica]]></source>
<year>1993</year>
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<page-range>621-627</page-range></nlm-citation>
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