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<journal-title><![CDATA[Revista Portuguesa de Saúde Pública]]></journal-title>
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<publisher-name><![CDATA[Escola Nacional de Saúde Pública]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Determinantes sociais e económicos da Saúde Mental]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Agrupamento de Centros de Saúde do Grande Porto VII - Porto Oriental  ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The concept of "mental health" is comprehensive, and it isn't always easy to define or to identify its determinants. However, in the same way that "health" isn't merely the absence of disease, mental health is also more than just the absence of mental disorder. Thus, it has increasingly been understood as the product of multiple and complex interactions that include biological, psychological and social factors. This article reviews some of the social and economic determinants of mental health, including factors like working conditions and unemployment, education, poverty, housing conditions, urbanization, sexual discrimination and gender based violence, early experiences and family interactions, social exclusion and stigma, culture, and stressful life events. Finally, the importance of the knowledge of social and economic determinants of mental health in a Public Health perspective is also highlighted, as well as its relevance to reduce the global burden of disease and to improve the mental health of populations.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Saúde mental]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <P><b>Determinantes sociais e económicos da Saúde Mental</b></P>      <P>&nbsp;</P>      <P>Ana Alexandra Marinho Alves <SUP>a</SUP>, Nuno Filipe Reis Rodrigues  <SUP>b</SUP> </P>      <P><SUP>a</SUP>Psiquiatria. Hospital de Magalhães Lemos, Porto, Portugal, <A  href="mailto:analexandralves@gmail.com">analexandralves@gmail.com</A> </P>     <P><SUP>b</SUP>Saúde Pública. Agrupamento de Centros de Saúde do Grande Porto  VII &#151; Porto Oriental, Portugal</P>      <P>&nbsp;</P>      <P><B>Resumo</B></P>     <P>O conceito de "saúde mental" é amplo, e nem sempre é fácil  a sua definição, ou a identificação daquilo que a determina. No entanto, da  mesma forma que a "saúde" não é apenas a ausência de doença, também a saúde  mental é mais do que apenas a ausência de perturbação mental. Neste sentido, tem  sido cada vez mais entendida como o produto de múltiplas e complexas  interacções, que incluem factores biológicos, psicológicos e sociais. Neste  artigo são revistos alguns dos determinantes sociais e económicos da saúde  mental, nomeadamente factores como condições laborais e desemprego, educação,  pobreza, condições de habitação, nível de urbanização, discriminação sexual e  violência de género, experiências precoces e interacção familiar, exclusão  social e estigma, cultura e acontecimentos de vida stressantes. Por fim,  salienta–se também a importância do conhecimento dos determinantes sociais e  económicos da saúde mental numa perspectiva de Saúde Pública, e a sua relevância  para a redução da carga global de doença e a melhoria da saúde mental das  populações.</P>      <P><B>Palavras-Chave: </B>Saúde mental, Determinantes sociais, Determinantes económicos,  Doença mental, Pobreza, Saúde pública.</P>      <P>&nbsp;</P>      ]]></body>
<body><![CDATA[<P><b>Mental health: social and economic determinants</b></P>      <P><B>Abstract</B></P>      <P>The concept of "mental health" is comprehensive, and it  isn't always easy to define or to identify its determinants. However, in the  same way that "health" isn't merely the absence of disease, mental health is  also more than just the absence of mental disorder. Thus, it has increasingly  been understood as the product of multiple and complex interactions that include  biological, psychological and social factors. This article reviews some of the  social and economic determinants of mental health, including factors like  working conditions and unemployment, education, poverty, housing conditions,  urbanization, sexual discrimination and gender based violence, early experiences  and family interactions, social exclusion and stigma, culture, and stressful  life events. Finally, the importance of the knowledge of social and economic  determinants of mental health in a Public Health perspective is also  highlighted, as well as its relevance to reduce the global burden of disease and  to improve the mental health of populations.</P>      <P><B>Keywords: </B>Mental health, Social determinants, Economic determinants, Mental illness,  Poverty, Public health.</P>      <p>&nbsp;</p>      <P><B>Introdução </B></P>      <P>No passado, a política de saúde era entendida como algo que se destinava  apenas à provisão de financiamento para os cuidados médicos, e os determinantes  sociais da saúde eram tema de discussão apenas ao nível académico <SUP>1</SUP>.  No entanto, esta visão tem vindo a mudar, sendo adoptada uma perspectiva de  Saúde Pública Global. Deste modo, a saúde é cada vez mais entendida numa  perspectiva abrangente. Por outro lado, a comunidade científica tem vindo a ser  chamada a participar na transposição do saber académico, eminentemente teórico,  para a prática quotidiana (seja ela clínica, na comunidade ou política). Esta  mudança tem permitido o desenvolvimento de sistemas de saúde que incluem  estratégias de promoção da saúde e prevenção da doença e que integram a  informação sobre os determinantes da saúde. Assim, é possível a organização de  sistemas de saúde culturalmente sensíveis, que compreendem uma prestação dos  cuidados adequados à população que servem, bem como aos factores que, num  determinado contexto, influenciam a manifestação de doença <SUP>2</SUP>. Esta  visão integradora é particularmente relevante no âmbito da saúde mental  (SM).</P>     <P>O conhecimento dos determinantes sociais e económicos da SM é extremamente  importante, na medida em que pode e deve ser integrado na formulação de  políticas numa perspectiva de Saúde Pública, contribuindo deste modo para  melhorar a SM das populações e reduzir a carga global de doença. Assim, o  presente artigo constitui uma revisão dos principais determinantes sociais e  económicos da SM.</P>     <p>&nbsp;</p>     <P><B>Determinantes sociais e económicos da Saúde Mental </B></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>O conceito de "Saúde Mental" (SM) é amplo, pelo que nem sempre é fácil a sua  definição, e muito menos a identificação daquilo que a determina. No entanto, da  mesma forma que o conceito de "saúde" se refere a "um estado de completo  bem-estar físico, psíquico e social, e não apenas a ausência de doença ou  enfermidade", também a SM se refere a algo mais do que apenas a ausência de  perturbação mental <SUP>3</SUP>. Neste sentido, tem sido cada vez mais entendida  como o produto de múltiplas e complexas interacções, que incluem factores  biológicos, psicológicos e sociais.</P>     <P>As evidências sobre os determinantes sociais e económicos da SM, obtidas a  partir de diversos estudos realizados para avaliar o impacto das perturbações  mentais numa perspectiva abrangente, têm sido importantes para explicitar a  relevância da SM na saúde física, e também para evidenciar a relação entre  várias doenças orgânicas e a SM. Por outro lado, estes estudos têm demonstrado a  carga global que as doenças mentais acarretam, constituindo uma importante causa  de morbilidade e mortalidade <SUP>4</SUP>.</P>     <P>O relatório sobre a Projecção da Mortalidade e da Carga Global de Doença  2002-2030 mostrou a verdadeira dimensão do contributo das perturbações mentais,  através do uso de uma medida integrada de carga de doença: ano ajustado vivido  com incapacidade (<I>Disability Adjusted Life-Year &#151; DALY</I>), e que é  constituído pela soma dos anos vividos com incapacidade e os anos de vida  perdidos <SUP>5</SUP>. O relatório revelou ainda que, as perturbações  neuropsiquiátricas contribuem para cerca de um quarto de todos os<I> DALY's</I>  e que, entre as doenças não comunicáveis, constituem a fracção mais  significativa, contribuindo para cerca de um terço das mesmas, embora esta  proporção seja variável entre os vários países, de acordo com o seu nível de  rendimento <SUP>5</SUP>. As condições neuropsiquiátricas que mais contribuem  para os<I> DALYs</I> são as perturbações mentais, especialmente a perturbação  afectiva unipolar e bipolar, as perturbações relacionadas com o abuso de  substâncias e álcool, a esquizofrenia e demência <SUP>5</SUP>.</P>     <P>Também têm sido conduzidos vários estudos em países com diferentes níveis de  desenvolvimento, mostrando que uma grande parte dos determinantes da SM é comum,  independentemente do nível de desenvolvimento.</P>     <P>De entre os factores sociais e económicos que influenciam a SM, salientam-se  os seguintes determinantes: </P>     <P>&#151; <I>Emprego: </I>a estabilidade laboral, tal como a satisfação no trabalho,  estão relacionadas com melhores níveis de saúde e bem-estar. Ao invés, o  desemprego está associado a maiores níveis de doença e mortalidade precoce  <SUP>6</SUP>. A insegurança laboral, o receio de perder o emprego e a  consequente vulnerabilidade, associam-se a baixa auto-estima e a sentimentos de  humilhação e desespero, especialmente em contextos de falta de suporte social,  nos quais a situação de desemprego pode levar à carência dos bens essenciais,  nomeadamente alimentação, para o próprio e para a sua família. Esta situação  associa-se a elevadas taxas de ansiedade e depressão, bem como suicídio  <SUP>1,7</SUP>.</P>     <P>&#151; <I>Educação: </I>vários estudos têm demonstrado uma forte associação  inversa entre o nível educacional e a ocorrência de doença mental (DM),  nomeadamente perturbações mentais comuns (PMC) <SUP>8</SUP>. Quanto maior o  nível educacional, menor a incidência de PMC <SUP>9</SUP>. Um dos mecanismos  implicados nesta associação seria o de que um maior nível de educação permite o  acesso a empregos melhor remunerados, melhores condições de habitação,  conduzindo a uma maior inclusão social <SUP>3,8</SUP>. Por outro lado, um nível  educacional baixo poderia ser um marcador de condições adversas na infância  <SUP>9</SUP>, ou de um nível socioeconómico baixo. No entanto, estes achados não  são universais. Em alguns estudos, nomeadamente no Reino Unido, esta associação  não foi identificada, verificando-se que o nível de rendimento, mas não o nível  educacional, estava associado com a ocorrência de PMC <SUP>9</SUP>. No entanto,  um baixo nível educacional, associado com outros factores que geralmente lhe  estão associados (desemprego, pobreza, exclusão social), pode constituir uma  barreira difícil de transpor no acesso aos cuidados de saúde naqueles que, em  virtude destes factores, se encontram já em maior risco de desenvolver uma  perturbação mental <SUP>3</SUP>.</P>     <P>&#151; <I>Pobreza: </I>Numa visão estrita, refere-se à falta de dinheiro ou bens  materiais. Numa perspectiva mais ampla, que é também aquela que abarca a relação  com a doença mental, pode ser entendida como a falta de meios (sejam eles  sociais, económicos, educacionais) <SUP>3</SUP>. Do ponto de vista  epidemiológico, a pobreza traduz-se por um baixo nível socioeconómico, privação,  más condições de habitação, desemprego, baixa escolarização e baixa coesão  familiar <SUP>10</SUP>, sendo que estes elementos também se associam à DM,  constituindo factores de risco. Estes estão presentes não apenas nos países com  um menor nível de rendimento, como também afectam uma minoria significativa da  população em países ricos. </P>     <P>A relação da "pobreza" com a DM é complexa e tem sido extensamente estudada.  Esta relação é multi-direccional, podendo ser identificados três níveis de  associação.</P>     <P>Uma das teorias explicativas a este respeito, a da causalidade social,  postula uma associação entre baixo nível socioeconómico e maior adversidade  ambiental (nomeadamente<I> life events</I> stressantes, má qualidade dos  cuidados maternos e obstétricos, bem como escassos recursos sociais), sendo esta  a via através da qual se expressaria o maior risco de DM associado ao baixo  nível socioeconómico. Assim sendo, a pobreza material parece ser um factor de  risco para o desenvolvimento de DM <SUP>10</SUP>.</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Outra teoria, contrastante com a anterior, é a da selecção social. Esta  teoria defende que a DM ocorre mais frequentemente associada a um baixo nível  socioeconómico. De acordo com este modelo, a doença pelas limitações que  condiciona, e que se repercutem numa baixa escolarização, desemprego, maior  tensão familiar e, consequentemente, menor coesão familiar, isolamento e maior  exposição ao efeito do estigma, contribui para que as pessoas afectadas sejam  "arrastadas" para os estratos socioeconómicos mais baixos. Para além disso,  estes factores seriam preditivos de um mau prognóstico relativamente ao<I>  outcome</I> da DM. Assim, de acordo com esta teoria, a pobreza constitui não só  um factor de risco para a DM, como também contribui para um prognóstico negativo  no seu<I> outcome</I> <SUP>10</SUP>.</P>     <P>Tem havido alguma controvérsia relativamente a qual destes mecanismos será  mais preponderante. No entanto, ambos parecem ser relevantes e não mutuamente  exclusivos. Contudo, o mecanismo da causalidade social poderá ser mais válido no  caso das perturbações de ansiedade e na depressão, enquanto o mecanismo da  selecção social poderá ser mais relevante nas psicoses e nas situações de abuso  de substâncias <SUP>3</SUP>.</P>     <P>Por fim, pode ser também considerada a pobreza associada à prestação dos  cuidados de SM (falta de cuidados compreensivos, culturalmente apropriados e que  tenham em conta as necessidades e o contexto do doente, e não apenas os fármacos  e intervenções psicoterapêuticas e psicossociais disponíveis). Esta nem sempre  se associa à falta de recursos económicos mas, no entanto é um factor de  prognóstico fundamental para o<I> outcome</I> das DM. Uma evidência desta  situação decorre da observação de que os doentes que sofriam de psicose nos  países em desenvolvimento tinham um melhor prognóstico comparativamente com  aqueles de países desenvolvidos <SUP>10</SUP>.</P>     <P>A pobreza também condiciona barreiras no acesso aos serviços de saúde (não só  no que se refere à prestação de cuidados de saúde mental especializados, como  também para os cuidados de saúde primários), verificando-se sérias limitações  especialmente nos segmentos da população socialmente mais desfavorecidos  <SUP>3,7</SUP>. Esta situação tem obviamente um impacto negativo na saúde mental  e também física. </P>     <P>&#151; <I>Habitação: </I>uma habitação condigna proporciona abrigo, não só físico  mas também psíquico, sendo tradutor do nível de protecção que a pessoa em causa  possui (social, económica, física, psicológica). A qualidade da habitação está  também intimamente relacionada com o nível económico, e em alguns estudos  verificou-se que pode traduzir de forma mais fiável o grau de pobreza  <SUP>8</SUP>. As pessoas sem-abrigo encontram-se expostas ao maior risco de  doença, não só mental mas também física e ainda a um maior risco de mortalidade  <SUP>1</SUP>.</P>     <P>&#151; <I>Urbanização: </I>tem sido encontrada uma associação entre viver em  grandes cidades e ter um maior risco de DM. Esta associação pode ser explicada  por diversos factores de stress e circunstâncias adversas, nomeadamente o  enfraquecimento dos laços familiares, a sobrepopulação e as inerentes  dificuldades no acesso a bens essenciais, estilos de vida menos saudáveis (com  menor prática de exercício físico, obesidade, ambiente poluído), maior stress na  vivência do dia-a-dia (meios de transporte sobrelotados, condições de habitação  mais precárias, níveis mais elevados de violência) e menor apoio social  <SUP>3</SUP>. </P>     <P>Por outro lado, a vivência em meios rurais isolados também pode gerar  condições propícias ao desenvolvimento de perturbações mentais. O isolamento, a  falta de transportes e comunicações, a dificuldade no acesso a meios de educação  e formação profissional, e ainda a falta de oportunidades económicas podem  condicionar graves dificuldades socioeconómicas que favorecem o aparecimento de  doença mental, nomeadamente depressão <SUP>3</SUP>. Por outro lado, geralmente o  acesso aos cuidados de saúde mental é mais difícil em meios rurais, o que deixa  esta franja da população numa situação ainda mais precária perante condições  potencialmente adversas para a sua saúde mental. </P>     <P>&#151; <I>Discriminação sexual e violência de género</I>: a prevalência global de  DM não é diferente entre homens e mulheres <SUP>3</SUP>. No entanto, as mulheres  têm um risco de sofrer uma PMC (por exemplo depressão, ou uma perturbação de  ansiedade) duas vezes superior ao dos homens <SUP>4</SUP>; esta situação ocorre  não só nos países desenvolvidos, como também nos países em desenvolvimento  <SUP>3</SUP>. De facto, o género tem influência sobre muitos dos determinantes  da SM, nomeadamente a posição socioeconómica, o acesso a recursos, papéis  sociais e status. Nos países menos desenvolvidos, estes aspectos são mais  proeminentes, associando-se frequentemente a situações de abuso e violência  conjugal, pouca autonomia, dificuldade no acesso à educação <SUP>8</SUP>, o que  por sua vez se repercute de forma negativa a nível da SM (maior risco de  depressão, ansiedade e suicídio) e também física (somatização, queixas  ginecológicas) <SUP>4</SUP>. </P>     <P>Têm sido propostos vários mecanismos para explicar a prevalência aumentada de  depressão e perturbações de ansiedade nas mulheres, nomeadamente factores  biológicos (relacionados com aspectos hormonais) <SUP>3</SUP>. No entanto, os  factores psicológicos e sociais são extremamente relevantes; não só pelos papéis  multifacetados que a mulher desempenha e pelas responsabilidades que condicionam  (familiares, laborais, entre outras), como também pela situação frequente de  incapacidade para mudar os factores de stress do meio em que se encontra.</P>     <P>Por outro lado, as mulheres são com frequência vítimas de violência  doméstica, estimando-se que a prevalência ao longo da vida seja de 16 a 50 %  <SUP>3</SUP>. A violência sexual é também comum e estima-se que ao longo da  vida, uma em cada cinco mulheres seja vítima de violação ou tentativa de  violação <SUP>3</SUP>. Neste contexto a depressão e as perturbações de ansiedade  são consequências frequentes. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&#151; <I>Experiências precoces/ambiente familiar: </I>Circunstâncias adversas  numa fase precoce, nomeadamente a gravidez, podem condicionar défices no  desenvolvimento fetal, através de alterações no desenvolvimento neurobiológico.  A ocorrência de perturbação mental nas mães (nomeadamente o consumo de álcool ou  drogas, stress ou depressão materna, condicionando estilos de vida pouco  saudáveis) pode ter um impacto negativo na saúde dos filhos, com implicações a  longo prazo <SUP>1</SUP>. Um exemplo desta interacção é a associação entre DM  nas mães (nomeadamente psicose ou depressão) e um maior risco de parto  pré-termo, baixo peso ao nascer, desnutrição e problemas no desenvolvimento  infantil <SUP>4</SUP>. Estas circunstâncias vão afectar de forma negativa o  desenvolvimento dos filhos, gerando-se um ciclo vicioso em que existe maior  risco de DM. Por outro lado, determinadas perturbações mentais nos pais, como  por exemplo abuso ou dependência de álcool, associam-se a maior risco de  violência, gerando-se mais uma vez, um ciclo vicioso <SUP>4</SUP>. O  estabelecimento de relações afectivas estáveis com os pais ou com as figuras de  referência, desde uma fase precoce é fundamental, para ocorra um desenvolvimento  psicológico e intelectual normal, assim como uma adequada regulação emocional. A  interacção precoce e as experiências durante a infância têm um impacto crucial  na saúde mental da criança, com repercussões que se estendem até à vida adulta,  influenciando deste modo a vulnerabilidade para a doença mental. Um exemplo  desta evidência vem de crianças institucionalizadas que não recebem afecto e  estimulação adequados e que apresentam mais tarde graves dificuldades ao nível  da expressão emocional e da interacção pessoal, não desenvolvendo os mecanismos  de<I> coping</I> adequados para lidar com situações de vida stressantes  <SUP>3</SUP>. Em alguns casos, e em virtude da falta de estimulação que  sofreram, ficam ainda com défices intelectuais <SUP>3</SUP>.</P>     <P>&#151; <I>Exclusão social e estigma:</I> O desemprego, o racismo, a discriminação  e estigmatização podem levar à exclusão social, condição que se associa, pelas  múltiplas vulnerabilidades que condiciona, a um elevado risco de DM e morte  prematura <SUP>1</SUP>. Nestas circunstâncias fica comprometido o acesso a bens  essenciais, bem como a uma habitação, educação e todos os outros elementos que  fazem parte do exercício da cidadania. A perda dos laços familiares, o  ressentimento, a desesperança e o sentimento de incapacidade ajudam a criar um  ciclo vicioso ao limitarem a capacidade para pedir ajuda, conduzindo a uma  deterioração social e pobreza crescentes. As pessoas portadoras de incapacidade,  os sem-abrigo, as minorias étnicas, os emigrantes, as pessoas  institucionalizadas (nomeadamente as que são portadoras de doença mental e as  crianças) encontram-se numa situação de maior vulnerabilidade para a DM  <SUP>1</SUP>.</P>     <P>&#151; <I>Cultura:</I> constitui o enquadramento de muitas patologias,  contribuindo para a definição do que é considerado "doença mental" num  determinado contexto cultural; também contribui para modular a forma de  apresentação da patologia mental (por ex. o Síndroma de Dhat na Índia). Pode  também afectar o padrão de procura de ajuda, pelo "rótulo" que associa a algumas  das perturbações mentais. Por outro lado, a cultura pode ainda predispor,  precipitar ou perpetuar DM através da geração de tipos de personalidade  vulneráveis, criando papéis stressantes, promovendo interacções familiares  patológicas, através dos processos de aculturação, reforçando determinados  comportamentos desajustados através da sua aprovação ou sancionando  comportamentos mais adaptativos, ou ainda estabelecendo práticas não saudáveis e  padrões rígidos de comportamento <SUP>11</SUP>.</P>     <P>&#151; <I>Acontecimentos de vida stressantes:</I> milhões de pessoas estão em todo  o mundo expostas a situações de catástrofe natural ou conflitos <SUP>3</SUP>.  Tais circunstâncias, como por exemplo abuso infantil, violência (familiar,  conjugal, em situações de guerra, entre outras), doenças crónicas ou lesões  incapacitantes, exposição a situações de catástrofe natural, constituem  vivências traumáticas que produzem um impacto negativo na SM, estando associados  a elevado risco de depressão, ansiedade, perturbação de stress pós-traumático e  suicídio <SUP>3</SUP>.</P>     <p>&nbsp;</p>     <P><B>Conclusão </B></P>     <P>O conhecimento dos determinantes sociais e económicos da SM é extremamente  importante, na medida em que pode e deve ser integrado na formulação das  políticas de Saúde numa perspectiva de Saúde Pública. Desta forma, poderá  contribuir para melhorar a SM das populações e assim, reduzir a carga global de  doença.</P>     <P>Enquanto os cuidados médicos podem melhorar a sobrevida e o prognóstico de  algumas doenças graves, mais importante para a saúde da população como um todo  são as condições sociais e económicas que podem, em primeiro lugar, contribuir  para o adoecer e para a necessidade de cuidados médicos. Contudo, o acesso  universal aos cuidados de saúde é claramente um dos determinantes sociais da  saúde <SUP>1</SUP>. Deste modo, o conhecimento dos determinantes sociais e  económicos da SM é útil para evidenciar não só a importância da garantia ao  acesso universal a serviços de saúde apropriados e custo-efectivos, como também  a necessidade de implementação de programas que se destinem à promoção da SM e à  prevenção das perturbações mentais. Para tal, é fundamental o incentivo e apoio  à investigação, não apenas no âmbito do desenvolvimento de tratamentos eficazes,  mas também com o objectivo de elucidar os seus determinantes e avaliar a  prestação de cuidados pelos serviços de saúde <SUP>3</SUP>.</P>     <P>Numa perspectiva mais abrangente, as evidências sobre os determinantes  sociais e económicos da SM são também relevantes para salientar a necessidade da  colaboração inter-sectorial para que possa ser possível uma melhoria das  condições de vida das populações, e através desta, a melhoria dos níveis de  saúde da população. Por outro lado, estas evidências reforçam a importância de  promover a distribuição equitativa dos recursos existentes e assegurar cuidados  equitativos ao longo de todo o espectro da sociedade, incluindo a protecção dos  direitos dos doentes mentais graves institucionalizados. O conhecimento do  impacto na SM de factores como a educação, a pobreza, a desigualdade e a  discriminação sexual das mulheres, a exclusão social, entre outros, permite que  estes sejam tidos em conta aquando da formulação das políticas de saúde. Reforça  ainda a necessidade de uma avaliação e monitorização adequadas da SM ao nível da  comunidade, contemplando também as populações mais vulneráveis, como as  crianças, mulheres e idosos.</P>     <P>A promoção de estilos de vida saudáveis e a redução de factores de risco para  as perturbações mentais e comportamentais, como por exemplo ambientes familiares  instáveis, situações de pobreza, abuso e injustiças sociais, podem também ser  alvo de intervenções norteadas pelo conhecimento sobre os determinantes da SM.  Pretende-se assim que estas intervenções possam contribuir para a melhoria das  circunstâncias nas quais as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e  envelhecem.</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>A divulgação das evidências que vão surgindo a partir de investigações e  estudos realizados um pouco por todo o mundo pode ser um factor crucial na  mobilização da vontade política a nível mundial. A implementação de políticas de  apoio à família, permitindo uma maior estabilidade familiar, a promoção da  coesão social e do desenvolvimento sustentado das comunidades pode ser uma  realidade tangível, se for tida em conta a importância da SM, e dos factores que  a determinam, numa perspectiva de saúde global.</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><B>Conflito de interesse </B></P>     <P>Os autores declaram não haver conflito de interesse.</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><B>Bibliografía</B></P>     <P>1. Wilkinson R, Marmot M, editors. Social determinants of health: the solid    facts. 2nd ed. Copenhagen: World Health Organization; 2003. [cited 2010 Feb    24]. Available from: <a href="http://www.euro.who.int/__data/assets/pdf_file/0005/98438/e81384.pdf" target="_blank">http://www.euro.who.int/__data/assets/pdf_file/0005/98438/e81384.pdf</a>.</a>  </P>     <!-- ref --><P>2. Fried LP, Bentley ME, Buekens P, Burke DS, Frenk JJ, Klag MJ, et al. Global    health is public health. Lancet. [Internet]. 2010 [cited 2010 Mar 3];375:535–7.    Available from: <a href="http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140%966736(10)60203%966/fulltext?_eventId=login" target="_blank">http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140–6736(10)60203–6/fulltext?_eventId=login</a>.  &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000060&pid=S0870-9025201000020000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P>3. WHO. The world health report 2001. Mental health: new understanding, new    hope. Geneva: World Health Organization; 2001. [cited 2010 Feb 24]. Available    from: <a href="http://www.who.int/whr/2001/en/whr01_en.pdf" target="_blank">http://www.who.int/whr/2001/en/whr01_en.pdf</a>.  </P>     <!-- ref --><P>4. Prince M, Patel V, Saxena S, Maj M, Maselko J, Phillips MR, et al. No health    without mental health. Lancet. [Internet]. 2007 [cited 2010 Feb 24];370:859–77.    Available from: <a href="http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140%966736(07)61238%960/fulltext" target="_blank">http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140–6736(07)61238–0/fulltext</a>.  &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000062&pid=S0870-9025201000020000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>5. Mathers CD, Loncar D. Projections of global mortality and burden of disease    from 2002 to 2030. PLoS Med. &#91;Internet]. 2006 &#91;cited 2010 Mar 13];3:e442. Available    from: <a href="http://www.plosmedicine.org/article/info:doi/10.1371/journal.pmed.0030442" target="_blank">http://www.plosmedicine.org/article/info:doi/10.1371/journal.pmed.0030442</a>.  &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000063&pid=S0870-9025201000020000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P>6. Stevens P. The real determinants of health. London: International Policy    Network; 2005. [cited 2010 Feb 1]. Available from: <a href="http://www.policynetwork.net/sites/default/files/Determinants_of_Health_web.pdf" target="_blank">http://www.policynetwork.net/sites/default/files/Determinants_of_Health_web.pdf</a>.</a>  </P>     <P>7. WHO. Commission on Social Determinants of Health. Closing the gap in a generation:    health equity through action on the social determinants of health: final report:    executive summary. Geneva: World Health Organization; 2008. [cited 2010 Feb    1]. Available from: <a href="http://whqlibdoc.who.int/hq/2008/WHO_IER_CSDH_08.1_eng.pdf" target="_blank">http://whqlibdoc.who.int/hq/2008/WHO_IER_CSDH_08.1_eng.pdf</a>.</a>  </P>     <!-- ref --><P>8. Patel V, Kleinman A. Poverty and common mental disorders in developing countries.    &#91;Internet] Bull World Health Organ. 2003 &#91;cited 2010 Feb 24];81:609–15. Available    from: <a href="http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2572527/pdf/14576893.pdf." target="_blank">http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2572527/pdf/14576893.pdf.</a>  &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000066&pid=S0870-9025201000020000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>9. Araya R, Lewis G, Rojas G, Fritsch R. Education and income: which is more    important for mental health? [Internet]. J Epidemiol Community Health. 2003    [cited 2010 Feb 24];57:501–5. Available from: <a href="http://jech.bmj.com/content/57/7/501.full.pdf." target="_blank">http://jech.bmj.com/content/57/7/501.full.pdf.</a>  &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000067&pid=S0870-9025201000020000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>10. Saraceno B, Barbui C. Poverty and mental illness. [Internet]. Can J Psychiatry.    1997 [cited 2010 Feb 24];42:285–90. Available from: <a href="http://server03.cpa%96apc.org:8080/Publications/archives/CJP/1997/April/revpaper2_0497.htm" target="_blank">http://server03.cpa–apc.org:8080/Publications/archives/CJP/1997/April/revpaper2_0497.htm</a>.</a>  &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000068&pid=S0870-9025201000020000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P>11. Brugha D. Influence of culture on presentation and management of  patients. In: Brugha D, Leff J, editors. Principles of social psychiatry.  Oxford: Blackwell Scientific Publications; 1993. p. 67–81. </P>      <P>&nbsp;</P>      <P><I>Recebido em 15 de Junho de 2010</I></P>      <P><I>Aceite em 13 de Setembro de 2010</I></P>      ]]></body>
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