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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[No centenário do nascimento de um pioneiro e de um líder, a quem a nossa saúde pública muito deve: Coriolano Ferreira (1916&#8208;1996)]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade NOVA de Lisboa Escola Nacional de Saúde Pública Departamento de Ciências Sociais em Saúde]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <P align="right"><b>EDITORIAL</b></P>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>No centen&aacute;rio do nascimento de um pioneiro e de um l&iacute;der, a quem a nossa sa&uacute;de p&uacute;blica muito deve: Coriolano Ferreira (1916&#8208;1996)</b></p>     <p><b>Coriolano Ferreira (1916&#8208;1996): The centenary of the birth of a public health pioneer and leader</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Lu&iacute;s Gra&ccedil;a</b></p>     <p>Departamento de Ci&ecirc;ncias Sociais em Sa&uacute;de, Escola Nacional de Sa&uacute;de P&uacute;blica, Universidade NOVA de Lisboa, Lisboa, Portugal E-mail: <a href="mailto:luis.graca@ensp.unl.pt">luis.graca@ensp.unl.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>N&atilde;o h&aacute; homens <i>providenciais</i>, pelo menos para quem faz ci&ecirc;ncia. Pode hav&ecirc;&#8208;los aos olhos de quem tem f&eacute;. Para o historiador, h&aacute; apenas o homem certo no lugar certo ou no tempo certo. Nem sequer o homem justo, apenas o homem &laquo;just in time&raquo;. Coriolano Ferreira pode ter sido, na hist&oacute;ria da sa&uacute;de e da educa&ccedil;&atilde;o em sa&uacute;de, em Portugal, um desses homens. O pioneiro e o l&iacute;der, o que etimologicamente quer dizer <i>o que vai &agrave; frente, mostrando o caminho</i>. O pa&iacute;s, o Servi&ccedil;o Nacional de Sa&uacute;de, a Escola Nacional de Sa&uacute;de P&uacute;blica, a universidade, devem&#8208;lhe muito. No m&iacute;nimo, merece ser relembrado aqui, no primeiro centen&aacute;rio do seu nascimento.</p>     <p>O que &eacute; que ele fez de extraordin&aacute;rio para ser colocado num patamar acima dos seus pares, seus contempor&acirc;neos? Fundou, por exemplo, esta revista, a &laquo;Revista Portuguesa de Sa&uacute;de P&uacute;blica&raquo;, em 1983. Como tinha fundado, dirigido e editado, praticamente sozinho, os &laquo;Hospitais Portugueses&raquo;, no p&oacute;s&#8208;guerra, em 1948, uma revista de divulga&ccedil;&atilde;o, &iacute;mpar no seu g&eacute;nero, dedicada &agrave; atividade e &agrave; administra&ccedil;&atilde;o dos hospitais, numa &eacute;poca em que a simples ideia de forma&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica e profissionaliza&ccedil;&atilde;o desta fun&ccedil;&atilde;o era completamente estranha &agrave; ideologia corporativo&#8208;caritativa dominante na nossa incipiente rede de estabelecimentos de sa&uacute;de.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Foi presidente da comiss&atilde;o instaladora e, depois, o primeiro diretor da Escola Nacional de Sa&uacute;de P&uacute;blica do p&oacute;s&#8208;25 de abril (1976&#8208;1986), elevando&#8208;a um alto patamar de qualidade e de prest&iacute;gio, a n&iacute;vel nacional e internacional. Foi governante, em 3 governos constitucionais, entre 1978&#8208;1980, na qualidade de secret&aacute;rio de estado da Seguran&ccedil;a Social, um dom&iacute;nio aparentemente <i>minor</i> aos olhos daqueles que o admiram. Enfim, foi sobretudo o homem que ajudou a criar uma cultura de gest&atilde;o no nosso sistema de sa&uacute;de e que tinha a rara qualidade (nos l&iacute;deres) de saber descobrir e saber desenvolver talentos. Para ele, a lideran&ccedil;a nunca era um fim em si mesma; por outro lado, foi um not&aacute;vel exemplo de dedica&ccedil;&atilde;o &agrave; &laquo;res publica&raquo;, sabendo servir o pa&iacute;s, independentemente das elites, dos regimes e dos governos.</p>     <p>Foi verdadeiramente o primeiro administrador hospitalar ou o primeiro titular de um cargo de administrador num hospital central (em 1950, nos Hospitais da Universidade de Coimbra), esteve cumulativamente na comiss&atilde;o instaladora do Hospital Escolar de S&atilde;o Jo&atilde;o (Porto) (nomeado em 1954, em representa&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio do Interior), foi o primeiro administrador do hospital escolar de Santa Maria (Lisboa) (1956&#8208;1961), foi o primeiro diretor&#8208;geral dos hospitais (em 1961), e nessa qualidade o primeiro presidente da comiss&atilde;o de constru&ccedil;&otilde;es hospitalares, da comiss&atilde;o de reapetrechamento dos hospitais, da comiss&atilde;o de recurso dos novos medicamentos (Conselho Superior de Higiene e Assist&ecirc;ncia Social), das comiss&otilde;es inter&#8208;hospitalares de Lisboa e de Porto&hellip; Foi o primeiro secret&aacute;rio&#8208;geral do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de e Assist&ecirc;ncia (1972&#8208;1982) &hellip; <i>Last but not the least</i>, foi a &laquo;alma mater&raquo; do curso de administra&ccedil;&atilde;o hospitalar, cuja primeira edi&ccedil;&atilde;o remonta a 1970, ao tempo da Escola Nacional de Sa&uacute;de P&uacute;blica e de Medicina Tropical (1967&#8208;1972), e que ao fim de quase meio s&eacute;culo j&aacute; formou largas centenas de administradores hospitalares, uma profiss&atilde;o reconhecida desde 1968 e que tem uma associa&ccedil;&atilde;o, a Associa&ccedil;&atilde;o Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH) e uma revista, &laquo;Gest&atilde;o Hospitalar&raquo;.</p>     <p>O pioneirismo do professor Coriolano Ferreira n&atilde;o se esgota nestas atividades curriculares, em que deu sobejas provas do seu g&eacute;nio organizativo, lideran&ccedil;a e capacidade de trabalho em equipa: ter&aacute; sido tamb&eacute;m o primeiro noutras &aacute;reas, como o direito da sa&uacute;de, cujo gabinete criou e dirigiu ainda antes de se jubilar, como professor catedr&aacute;tico da Escola Nacional de Sa&uacute;de P&uacute;blica (em 1986).</p>     <p>Nada disto acontece por caso. H&aacute; um tempo e um espa&ccedil;o de matura&ccedil;&atilde;o do pensamento e da a&ccedil;&atilde;o dos homens e do desenvolvimento das organiza&ccedil;&otilde;es e institui&ccedil;&otilde;es. H&aacute; facetas de Coriolano Ferreira que ainda s&atilde;o pouco conhecidas ou valorizadas, para al&eacute;m da de gestor e de professor. Por exemplo, o legislador, o descobridor e animador de talentos, o pedagogo, o divulgador, o gestor da informa&ccedil;&atilde;o e conhecimento, o h&aacute;bil negociador, o construtor de consensos, etc. O estatuto hospitalar de 1968 e o regulamento geral dos hospitais s&atilde;o considerados, ainda hoje, marcos de refer&ecirc;ncia da nossa legisla&ccedil;&atilde;o de sa&uacute;de, para n&atilde;o falar tamb&eacute;m do trabalho seminal que realizou na seguran&ccedil;a social, de que foi igualmente em Portugal um dos primeiros estudiosos e teorizadores.</p>     <p>N&atilde;o lhe foi feita, em vida e na devida altura, a homenagem que merecia, com os testemunhos dos seus colaboradores, disc&iacute;pulos e amigos. A Revista Portuguesa de Sa&uacute;de P&uacute;blica dedicou&#8208;lhe um n&uacute;mero duplo (n.&deg; 1 e 2, jan&#8208;jun 1986, 176 pp.); mas &eacute; um n&uacute;mero essencialmente antol&oacute;gico. H&aacute; muitas lacunas no conhecimento do homem, do portugu&ecirc;s, do cidad&atilde;o, do administrador hospitalar, do professor, do gestor acad&eacute;mico, do jurista, do dirigente e membro sempre proactivo da Federa&ccedil;&atilde;o Internacional dos Hospitais e outras associa&ccedil;&otilde;es cong&eacute;neres.</p>     <p>Coriolano Albino Ferreira nasceu h&aacute; 100 anos, em 12 de maio de 1916, em Tr&aacute;s&#8208;os&#8208;Montes (no lugar de Valpereiro, concelho de Alf&acirc;ndega da F&eacute;). Aos 17 anos conclui o liceu, sec&ccedil;&atilde;o de letras, em Bragan&ccedil;a. Em 1939 &eacute; licenciado em Ci&ecirc;ncias Pol&iacute;tico&#8208;Jur&iacute;dicas pela Universidade de Coimbra e no ano seguinte conclui a licenciatura em Ci&ecirc;ncias Pol&iacute;tico&#8208;Econ&oacute;micas. Desde cedo concilia o gosto pelo ensino, em col&eacute;gios privados, com o exerc&iacute;cio da advocacia. Mas descobriu a seguran&ccedil;a social primeiro que a sa&uacute;de, ou melhor, &laquo;esse mundo fascinante e absorvente&raquo; que eram, para ele, os hospitais, a paix&atilde;o da sua vida. Contrariamente ao mito que se criou, de que a gest&atilde;o vinha retirar protagonismo aos m&eacute;dicos e demais prestadores de cuidados de sa&uacute;de diretos, Coriolano sempre soube qual era o seu papel e os seus aliados (a tutela, os profissionais, incluindo os enfermeiros, os doentes/utentes, a comunidade, o pa&iacute;s).</p>     <p>Por &uacute;ltimo, &eacute; sabido, de poucos, o seu papel (hist&oacute;rico) na g&eacute;nese (e at&eacute; no desenvolvimento) da Escola Nacional de Sa&uacute;de P&uacute;blica. Em 26 de janeiro de 1961, na v&eacute;spera do in&iacute;cio da guerra colonial que iria marcar profundamente a sociedade portuguesa dos anos 60/70, e ditar inexoravelmente o fim do Estado Novo, d&aacute; entrada na C&acirc;mara Corporativa, para aprecia&ccedil;&atilde;o, o projeto de proposta de lei n.&deg; 517/VII, visando a cria&ccedil;&atilde;o da &laquo;Escola Nacional de Sa&uacute;de P&uacute;blica&raquo; (sic). O projeto de diploma &eacute; assinado pelo ministro de Sa&uacute;de e Assist&ecirc;ncia, Henrique de Miranda Vasconcelos Martins de Carvalho (1919&#8208;1994), com data de 26/12/1960. Coriolano Ferreira &eacute; um dos 4 nomes que integra a comiss&atilde;o t&eacute;cnico&#8208;jur&iacute;dica que redige o diploma. A proposta, arrojada para a &eacute;poca, seguindo o modelo defendido pela OMS, passa na C&acirc;mara Corporativa, com votos favor&aacute;veis dos procuradores. Entretanto, em 23/1/1963, 2 anos passados sobre a submiss&atilde;o do projeto de diploma, o presidente da Assembleia Nacional manda ler, antes da ordem do dia, um of&iacute;cio do Presidente do Conselho, Ant&oacute;nio de Oliveira Salazar, &laquo;em face do qual foi retirada a proposta de lei sobre a cria&ccedil;&atilde;o da Escola Nacional de Sa&uacute;de P&uacute;blica&raquo;. Assim, sem mais explica&ccedil;&otilde;es, a n&atilde;o ser a de que o Governo ia reconsiderar o &laquo;problema&raquo;&hellip; J&aacute; noutra legislatura (IX) (1965&#8208;1969), o Governo acabou por optar por uma solu&ccedil;&atilde;o de recurso e que se ir&aacute; revelar inconsistente: o &laquo;casamento de conveni&ecirc;ncia&raquo;, efetivado em 1/1/1967, entre a sa&uacute;de p&uacute;blica e a medicina tropical, com uma dupla tutela, a da Sa&uacute;de e Assist&ecirc;ncia e a do Ultramar, que s&oacute; a conjuntura pol&iacute;tica, interna e externa, a par da cr&oacute;nica falta de dinheiro, podia justificar.</p>      ]]></body>
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