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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Representações do suicídio na imprensa generalista portuguesa]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[According to the World Health Organization (WHO) there are one million suicides every year worldwide. Although suicide media coverage does not promote suicidal behaviors, the way the phenomenon is portrayed by the media may have that impact. Media could have an active role in suicide prevention, and so it is important to understand their approach to this issue. We will analyze media's representations of suicide, through the news published in six Portuguese newspapers in 2013. Our theoretical framework is within the news framing, and we will apply critical discourse analysis tools in order to analyze suicide texts thoroughly.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <P align="right"><b>ARTIGO ORIGINAL</b></P>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Representa&ccedil;&otilde;es do suic&iacute;dio na imprensa generalista portuguesa</b></p>     <p><b>Media reporting and coverage of suicide in Portuguese media</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Rita Ara&uacute;jo <sup>a</sup>, <a href="#c0">*</a><a name="topc0"></a>, Zara Pinto-Coelho <sup>b</sup>, Felisbela Lopes <sup>b</sup></b></p>     <p>a Centro de Estudos de Comunica&ccedil;&atilde;o e Sociedade, Universidade do Minho, Portugal</p>     <p>b Centro de Estudos de Comunica&ccedil;&atilde;o e Sociedade, Departamento de Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o, Universidade do Minho, Portugal</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Sa&uacute;de (OMS) estima que ocorram cerca de um milh&atilde;o de suic&iacute;dios anualmente. A cobertura do suic&iacute;dio em si mesma n&atilde;o promove comportamentos suicidas, mas sim o modo como &eacute; conduzida pelos <i>media</i>. Estes podem constituir-se como agentes ativos na preven&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio, pelo que importa conhecer a abordagem utilizada. As autoras ir&atilde;o proceder a uma an&aacute;lise das representa&ccedil;&otilde;es que os <i>media</i> fazem do suic&iacute;dio, a partir dos textos publicados em 2013 em 6 jornais nacionais. Tendo como refer&ecirc;ncia te&oacute;rica o <i>framing</i> das not&iacute;cias, recorremos &agrave;s t&eacute;cnicas da an&aacute;lise cr&iacute;tica do discurso para olhar mais pormenorizadamente para estas not&iacute;cias.</p>     <p><b>Palavras-chave</b>: Suic&iacute;dio. <i>Media</i>. Comunica&ccedil;&atilde;o. Jornalismo. Sa&uacute;de.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>According to the World Health Organization (WHO) there are one million suicides every year worldwide. Although suicide media coverage does not promote suicidal behaviors, the way the phenomenon is portrayed by the media may have that impact. Media could have an active role in suicide prevention, and so it is important to understand their approach to this issue. We will analyze media's representations of suicide, through the news published in six Portuguese newspapers in 2013. Our theoretical framework is within the news framing, and we will apply critical discourse analysis tools in order to analyze suicide texts thoroughly.</p>     <p><b>Keywords</b>: Suicide. Media. Communication. Journalism. Health.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>O ato de suicidar-se tem suscitado, ao longo dos tempos, um leque amplo de quest&otilde;es &ndash; conceptuais, morais, psicol&oacute;gicas, sociol&oacute;gicas, antropol&oacute;gicas, culturais &ndash; e de atitudes &ndash; glorifica&ccedil;&atilde;o, condena&ccedil;&atilde;o, vilifica&ccedil;&atilde;o, ang&uacute;stia, simpatia, compaix&atilde;o &ndash; n&atilde;o tendo nunca deixado de ser fonte de controv&eacute;rsia. No entanto, na hist&oacute;ria dos pa&iacute;ses ocidentais, a configura&ccedil;&atilde;o desse debate e a sua visibilidade e intensidade p&uacute;blicas n&atilde;o foram sempre id&ecirc;nticas. Em 2004, a Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Sa&uacute;de (OMS), com base em estat&iacute;sticas que indicavam um aumento das taxas de suic&iacute;dio, identificou o suic&iacute;dio como uma quest&atilde;o importante de sa&uacute;de p&uacute;blica ao n&iacute;vel global. Atualmente, a import&acirc;ncia do assunto &eacute; reconhecida politicamente em v&aacute;rios pa&iacute;ses, incluindo em Portugal, onde foi identificado como um problema de sa&uacute;de p&uacute;blica preven&iacute;vel nesse mesmo quadro de pensamento e de a&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&Agrave; semelhan&ccedil;a do que acontece relativamente a outras quest&otilde;es assim enquadradas, os <i>media</i>, enquanto institui&ccedil;&atilde;o, e os seus profissionais t&ecirc;m sido considerados como atores cr&iacute;ticos na preven&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio, ora vistos como aliados cruciais dos programas de preven&ccedil;&atilde;o, ora como obst&aacute;culos ou mesmo inimigos, com cr&iacute;ticas e den&uacute;ncias em torno de um eventual poder de cont&aacute;gio de certos tipos de cobertura &ndash; informativa e ficcional &ndash; e de representa&ccedil;&otilde;es medi&aacute;ticas sobre indiv&iacute;duos especialmente vulner&aacute;veis e em circunst&acirc;ncias particulares<sup>1&ndash;3</sup>. Importa, por isso, estudar as representa&ccedil;&otilde;es que os <i>media</i> fazem do suic&iacute;dio.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; isso que nos propomos fazer neste artigo, a partir dos textos sobre suic&iacute;dio publicados em 2013 nos jornais generalistas portugueses Expresso e Sol (seman&aacute;rios), P&uacute;blico, Jornal de Not&iacute;cias (JN), Di&aacute;rio de Not&iacute;cias (DN) e Correio da Manh&atilde; (di&aacute;rios). Apesar de, em n&uacute;mero, n&atilde;o serem muitos os artigos noticiosos dedicados &agrave; problem&aacute;tica do suic&iacute;dio (n = 30), importa conhecer os modos de abordagem que os jornalistas utilizam quando retratam este problema. Vamos, assim, olhar para os motivos de noticiabilidade por detr&aacute;s das est&oacute;rias sobre suic&iacute;dio, tentando perceber qual o &acirc;ngulo que mais motiva a constru&ccedil;&atilde;o destas not&iacute;cias. Tendo como quadro te&oacute;rico o <i>framing</i> das not&iacute;cias, fazemos uma an&aacute;lise detalhada dos textos, de um ponto de vista discursivo e cr&iacute;tico<sup>4,5</sup>.</p>     <p>Este estudo de caso sobre a cobertura do suic&iacute;dio insere-se numa investiga&ccedil;&atilde;o mais ampla, feita a partir de um projeto de doutoramento financiado pela Funda&ccedil;&atilde;o para a Ci&ecirc;ncia e Tecnologia (SFRH/BD/86634/2012) e que tem como objetivo perceber a mediatiza&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de na imprensa portuguesa.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Enquadramento te&oacute;rico</b></p>     <p><b>O suic&iacute;dio: retrato de um fen&oacute;meno</b></p>     <p>Uma vez que, neste artigo, olhamos para as representa&ccedil;&otilde;es do suic&iacute;dio na imprensa generalista portuguesa, imp&otilde;e-se explicar como tem sido abordado este fen&oacute;meno e qual a realidade que o envolve em Portugal. Os estudos que tra&ccedil;am a hist&oacute;ria do conhecimento cient&iacute;fico ocidental sobre o suic&iacute;dio e sobre o sujeito suicida<sup>6</sup> permitem-nos compreender a complexidade envolvida na descri&ccedil;&atilde;o e na explica&ccedil;&atilde;o desta a&ccedil;&atilde;o humana, bem como na quest&atilde;o relativa &agrave; forma de melhor agir face &agrave; mesma. As vis&otilde;es sobre a natureza do suic&iacute;dio, ao defini-lo de uma determinada forma, permitem-nos julgar a adequa&ccedil;&atilde;o da aplica&ccedil;&atilde;o do termo a condutas particulares. Mas isso n&atilde;o &eacute; tarefa f&aacute;cil. O ato de matar-se est&aacute; envolto num manto de emo&ccedil;&otilde;es negativas e de tabus que fazem com que essas defini&ccedil;&otilde;es integrem frequentemente julgamentos morais, n&atilde;o se tratando, por isso, de descri&ccedil;&otilde;es neutras desta a&ccedil;&atilde;o<sup>7,8</sup>. Tamb&eacute;m &eacute; claro que a conceptualiza&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio no mundo ocidental tem sido influenciada por cren&ccedil;as espirituais, culturais, cient&iacute;ficas e m&eacute;dicas, e que estas 2 &uacute;ltimas s&atilde;o modeladas por for&ccedil;as sociais, tendo variado no tempo e no espa&ccedil;o<sup>9</sup>.</p>     <p>O s&eacute;culo XIX e o in&iacute;cio do s&eacute;culo XX s&atilde;o apontados por v&aacute;rios autores<sup>6,7,10</sup> como marcos relevantes na hist&oacute;ria do pensamento sobre o suic&iacute;dio devido a v&aacute;rios fatores, a saber, a emerg&ecirc;ncia da psiquiatria como disciplina aut&oacute;noma, o estabelecimento do suic&iacute;dio como um sintoma de doen&ccedil;a ou desordem mental, e o trabalho de soci&oacute;logos onde se mostrou que o suic&iacute;dio est&aacute; ligado a for&ccedil;as coletivas e reflete males associados &agrave;s mudan&ccedil;as sociais (e.g. anomia, aliena&ccedil;&atilde;o<sup>11</sup>), ou a motivos e circunst&acirc;ncias individuais dependentes da estrutura social, cren&ccedil;as e costumes<sup>12</sup>.</p>     <p>Um e outro desenvolvimento est&atilde;o na base da vis&atilde;o atual do suic&iacute;dio como um ato humano involunt&aacute;rio e n&atilde;o deliberado, causado por for&ccedil;as sociais impessoais e/ou for&ccedil;as psicol&oacute;gicas<sup>10</sup>, vis&otilde;es que, de alguma forma, contribu&iacute;ram para atenuar as san&ccedil;&otilde;es sociais e morais sobre o suic&iacute;dio e a pessoa suicida<sup>13</sup>.</p>     <p>Para Battin<sup>14</sup>, o modelo m&eacute;dico, segundo o qual o suic&iacute;dio &eacute; causado por processos patol&oacute;gicos internos ao indiv&iacute;duo &ndash; e que por isso requer interven&ccedil;&atilde;o e tratamento especializado e profissional &ndash; continua a delimitar e a dominar nos dias de hoje o discurso p&uacute;blico sobre a quest&atilde;o, fazendo com que as demais perspetivas, como por exemplo as filos&oacute;ficas<sup>15</sup>, passem para segundo plano, ou sejam efetivamente desconsideradas<sup>16</sup>. No entanto, nas &uacute;ltimas 2 d&eacute;cadas, os progressos na tecnologia m&eacute;dica e a emerg&ecirc;ncia de grupos de defesa dos interesses dos doentes parecem ter reaberto as discuss&otilde;es filos&oacute;ficas em torno de 2 categorias particulares de morte &ndash; o suic&iacute;dio assistido e a eutan&aacute;sia<sup>7</sup>. A cobertura medi&aacute;tica continuada dada a v&aacute;rios casos de pessoas que reclamam o &laquo;direito de morrer&raquo;, em virtude de um sofrimento f&iacute;sico irrevers&iacute;vel e frequentemente terminal, tem levado a que o debate p&uacute;blico ultrapasse o dom&iacute;nio privilegiado da medicina e ao que parece ser uma simpatia crescente com a causa. Todavia, a tend&ecirc;ncia para atitudes moralmente mais permissivas face aos casos de &laquo;suic&iacute;dio racional&raquo; (em doen&ccedil;a f&iacute;sica, estados terminais ou dor cr&oacute;nica) n&atilde;o inclui os casos de pessoas com doen&ccedil;a mental<sup>10</sup>.</p>     <p>Marsh<sup>6</sup> argumenta que o suic&iacute;dio e as a&ccedil;&otilde;es suicidas s&atilde;o agora quase sempre explicadas por refer&ecirc;ncia a desordens mentais individuais ou processos, uma condi&ccedil;&atilde;o que ele descreve como uma &laquo;patologia ontol&oacute;gica compulsiva&raquo;. Neste quadro, o risco e a patologia s&atilde;o compreendidos com estando localizados no indiv&iacute;duo. Embora atualmente o suic&iacute;dio seja um objeto de estudo multidisciplinar, na verdade, a grande parte da investiga&ccedil;&atilde;o produzida nas 2 &uacute;ltimas d&eacute;cadas sobre o suic&iacute;dio &eacute; de natureza emp&iacute;rica e estuda o &laquo;papel de causas prov&aacute;veis e fatores de risco do comportamento suicida&raquo;<sup>9,17</sup>. Destacam-se, neste contexto, as investiga&ccedil;&otilde;es sobre a etiologia conduzidas no quadro de teorias psicol&oacute;gicas, neurobiol&oacute;gicas, da epidemiologia psiqui&aacute;trica e, mais recentemente, na gen&eacute;tica comportamental<sup>9,18</sup>. Todos estes trabalhos acentuam os fatores de risco ao n&iacute;vel individual, um postulado em harmonia com o paradigma dominante na produ&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de e na preven&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a<sup>19</sup>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A OMS<sup>20</sup> define o suic&iacute;dio como o &laquo;ato de deliberadamente se matar a si mesmo&raquo; e inclui nos fatores de risco para o suic&iacute;dio as perturba&ccedil;&otilde;es mentais, como a depress&atilde;o ou a esquizofrenia, o abuso de bebidas alco&oacute;licas, e algumas doen&ccedil;as f&iacute;sicas, como perturba&ccedil;&otilde;es neurol&oacute;gicas, cancro, e infe&ccedil;&atilde;o por VIH-Sida. As estat&iacute;sticas da OMS estimam que, anualmente, haja cerca de um milh&atilde;o de suic&iacute;dios no mundo.</p>     <p>No entanto, o fen&oacute;meno do suic&iacute;dio poder&aacute; estar sub-representado e o problema &laquo;dever&aacute; ser bem mais grave na Europa, e muito particularmente em Portugal, do que atualmente reconhecido&raquo;<sup>21</sup>. Por contabilizar ficam, segundo os autores, as mortes por causa desconhecida e as mortes violentas de inten&ccedil;&atilde;o indeterminada, para al&eacute;m de &laquo;suic&iacute;dios mascarados&raquo;, como as mortes por acidente ou por <i>overdose</i>. O Plano Nacional de Preven&ccedil;&atilde;o do Suic&iacute;dio, publicado pela Dire&ccedil;&atilde;o-Geral de Sa&uacute;de (DGS), tamb&eacute;m refere que este se constitui como &laquo;um fen&oacute;meno reconhecidamente subdeclarado&raquo;, por ser &laquo;uma morte fortemente estigmatizada por raz&otilde;es de ordem religiosa, sociocultural e pol&iacute;tica&raquo;<sup>22</sup>. Deste modo, e uma vez que os n&uacute;meros oficiais n&atilde;o refletem a realidade, a DGS afirma que &laquo;a verdadeira dimens&atilde;o do fen&oacute;meno &eacute; desconhecida&raquo;.</p>     <p>No mesmo documento, l&ecirc;-se que &laquo;desde que h&aacute; registos oficiais de taxas de suic&iacute;dio em Portugal, este tem-se caraterizado por predominar entre a popula&ccedil;&atilde;o idosa e ser mais marcado na regi&atilde;o sul&raquo;.</p>     <p>O organismo respons&aacute;vel pela divulga&ccedil;&atilde;o de estat&iacute;sticas na Uni&atilde;o Europeia (EU), o EUROSTAT<sup>23</sup>, refere que, embora o suic&iacute;dio n&atilde;o seja uma das principais causas de morte e os dados para alguns dos pa&iacute;ses-membros da UE possam estar sub-representados, geralmente considera-se que este &eacute; um indicador importante e que deve ser avaliado. Em m&eacute;dia, l&ecirc;-se, houve 9,4 mortes por 100.000 habitantes resultantes de suic&iacute;dios nos 27 pa&iacute;ses da UE, no ano de 2010. Em Portugal, a m&eacute;dia para 2010 foi de 8,2 suic&iacute;dios por 100.000 habitantes, sendo que a taxa de suic&iacute;dios &eacute; mais alta nos homens (13,5) do que nas mulheres (3,8). Quando olhamos para a distribui&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio por faixas et&aacute;rias, o grupo dos 85 ou mais anos concentra a taxa mais elevada (38,4), seguido do grupo dos indiv&iacute;duos entre os 50-54 anos (13,1) e, por fim, aqueles dos 15-19 anos (2,5). Os dados relativos &agrave; m&eacute;dia para 2010, quando comparados com os relativos a 1939, ano em que a taxa de suic&iacute;dio atingiu o seu valor m&aacute;ximo no per&iacute;odo compreendido entre 1902-2000 em Portugal, com 12,8 suic&iacute;dios por 100.000 habitantes, &eacute; menor, mas se a compararmos com o valor de 5,1 &oacute;bitos por 100.000 habitantes no ano de 2000, poderemos perguntar-nos se estar&atilde;o em causa as tend&ecirc;ncias de uma quebra generalizada no n&uacute;mero e nas taxas de suic&iacute;dio gerais e da popula&ccedil;&atilde;o ativa verificada nos anos 90<sup>24</sup>.</p>     <p>Olhando para o problema tendo como refer&ecirc;ncia a &eacute;tica m&eacute;dica, o c&oacute;digo deontol&oacute;gico da profiss&atilde;o refere que &laquo;ao m&eacute;dico &eacute; vedada a ajuda ao suic&iacute;dio, a eutan&aacute;sia e a distan&aacute;sia&raquo; (artigo 57&deg;, n.&deg; 2)<sup>25</sup>.</p>     <p><b>Os <i>media</i> e o suic&iacute;dio: impacto e representa&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>A grande parte dos estudos sobre os <i>media</i> e o suic&iacute;dio analisaram o impacto dos <i>media</i> no suic&iacute;dio, nomeadamente se as not&iacute;cias de suic&iacute;dio podem conduzir &agrave; imita&ccedil;&atilde;o. Os investigadores australianos Pirkis e Blood<sup>26</sup> fizeram uma an&aacute;lise sistem&aacute;tica de 42 estudos deste tipo, concluindo que h&aacute; uma associa&ccedil;&atilde;o causal entre as not&iacute;cias de suic&iacute;dios e o efeito de imita&ccedil;&atilde;o. Adicionalmente, Gould et al.<sup>2</sup> referem que a literatura comprova o impacto dos <i>media</i> no &laquo;cont&aacute;gio&rdquo; dos suic&iacute;dios&raquo;, que pode ser entendido no &acirc;mbito do cont&aacute;gio comportamental, ou seja, uma situa&ccedil;&atilde;o na qual o comportamento se alastra r&aacute;pida e espontaneamente num grupo<sup>2</sup>. Um outro estudo refere que as explica&ccedil;&otilde;es para o cont&aacute;gio dos suic&iacute;dios atrav&eacute;s da imprensa centram-se na capacidade que os <i>media</i> t&ecirc;m de chegar a v&aacute;rios segmentos da popula&ccedil;&atilde;o, aumentando as hip&oacute;teses de que aqueles que est&atilde;o vulner&aacute;veis ao suic&iacute;dio sejam influenciados pela cobertura medi&aacute;tica<sup>27</sup>. Jane Pirkis afirma que o &laquo;efeito de Werther&raquo; &eacute; real e que as representa&ccedil;&otilde;es do suic&iacute;dio nos <i>media</i> podem conduzir a comportamentos imitativos<sup>28</sup>. Estes estudos apresentam dados que sugerem que certas formas de apresentar e retratar o suic&iacute;dio podem levar &agrave; imita&ccedil;&atilde;o em indiv&iacute;duos vulner&aacute;veis, mas n&atilde;o fornecem dados que comprovem realmente essa alegada liga&ccedil;&atilde;o de causa e efeito. Al&eacute;m disso, os modelos te&oacute;ricos que explicam como os <i>media</i> podem influenciar os comportamentos suicidas s&atilde;o escassos<sup>29</sup>. Ali&aacute;s, como bem sabem os estudiosos de comunica&ccedil;&atilde;o nos <i>media</i>, a chamada teoria hipod&eacute;rmica dos efeitos &eacute; uma hip&oacute;tese que peca pela excessiva simplifica&ccedil;&atilde;o de um fen&oacute;meno em tudo complexo como &eacute; o da influ&ecirc;ncia dos <i>media</i> nos comportamentos individuais.</p>     <p>Para al&eacute;m dos estudos centrados no impacto e na influ&ecirc;ncia que a cobertura medi&aacute;tica pode ter no comportamento suicida, h&aacute; outros que se centram no tratamento que os <i>medi</i>a d&atilde;o aos temas (suic&iacute;dio e tentativas de suic&iacute;dio), podendo incluir-se aqui uma preocupa&ccedil;&atilde;o com a dimens&atilde;o &eacute;tica desta cobertura<sup>29</sup>.</p>     <p>Um estudo desenvolvido na Nova Zel&acirc;ndia refere que, embora o suic&iacute;dio geralmente tenha valor-not&iacute;cia, as carater&iacute;sticas do suic&iacute;dio relatadas nos <i>media</i> muitas vezes n&atilde;o s&atilde;o representativas dos suic&iacute;dios na popula&ccedil;&atilde;o<sup>30</sup>. O estudo em quest&atilde;o debru&ccedil;a-se sobre o <i>framing</i> das not&iacute;cias sobre suic&iacute;dio na Nova Zel&acirc;ndia, focando-se na forma como os suic&iacute;dios relacionados com ambientes <i>online</i> s&atilde;o enquadrados pelos <i>media</i>. O grupo de investigadores conclui que o foco principal das not&iacute;cias &eacute; a tecnologia <i>online</i>, e n&atilde;o o suic&iacute;dio em si. A t&iacute;tulo de exemplo, um dos casos apresentados no artigo &eacute; o de um homem que comete suic&iacute;dio ao mesmo tempo que &eacute; filmado por uma <i>webcam</i>, difundindo o conte&uacute;do <i>online</i>.</p>     <p>Os mesmos autores declaram que os suic&iacute;dios que mais atraem a aten&ccedil;&atilde;o dos <i>media</i> s&atilde;o at&iacute;picos e fora do comum, embora sejam representados pelos <i>media</i> como t&iacute;picos. Esta situa&ccedil;&atilde;o pode levar a uma falta de informa&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o a est&oacute;rias de suic&iacute;dio, bem como a uma banaliza&ccedil;&atilde;o do assunto. Outro dos riscos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; mediatiza&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio &eacute; a simplifica&ccedil;&atilde;o levada a cabo pelos <i>media</i>, que tendem a generalizar demasiado as causas do suic&iacute;dio<sup>30</sup>. De facto, os <i>media</i> por vezes indicam como causa para o suic&iacute;dio um &uacute;nico fator, como a crise financeira ou os div&oacute;rcios &ndash; os autores sublinham que a causa mais comum para o suic&iacute;dio &eacute; a doen&ccedil;a mental, que geralmente &eacute; posta de lado pelos jornalistas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mas estes estudos, que se centram na extens&atilde;o e na natureza da reportagem medi&aacute;tica sobre o suic&iacute;dio, s&atilde;o em muito menor n&uacute;mero<sup>31</sup>. Por isso mesmo, importa analisar o fen&oacute;meno nas not&iacute;cias para perceber o tipo de representa&ccedil;&otilde;es que os <i>media</i> fazem do suic&iacute;dio.</p>     <p><b>Para uma cobertura respons&aacute;vel do suic&iacute;dio nos <i>media</i></b></p>     <p>A OMS lan&ccedil;ou, em 1999, o SUPRE, uma iniciativa mundial para a preven&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio. Como parte desse programa, publicou, em 2000, um guia dirigido a profissionais dos <i>media</i><sup>32</sup>.</p>     <p>No gui&atilde;o da OMS pode ler-se que &laquo;noticiar o suic&iacute;dio de uma forma apropriada, cuidadosa e potencialmente &uacute;til poder&aacute; prevenir tr&aacute;gicas perdas de vida por suic&iacute;dio&raquo;<sup>32</sup>. Deste modo, a OMS entende que n&atilde;o &eacute; a cobertura do suic&iacute;dio em si mesma que pode promover comportamentos suicidas, mas sim o modo como essa cobertura &eacute; conduzida pelos <i>media</i>. A OMS apresenta algumas pistas para os profissionais dos <i>media</i>, alertando para a interpreta&ccedil;&atilde;o cuidada e correta das estat&iacute;sticas e o uso de fontes cred&iacute;veis e aut&ecirc;nticas. Apesar dos constrangimentos de tempo, l&ecirc;-se, os coment&aacute;rios devem ser feitos com cuidado, bem como as generaliza&ccedil;&otilde;es. Em termos de recomenda&ccedil;&otilde;es concretas, a OMS considera que &laquo;a cobertura sensacionalista de suic&iacute;dios deve ser evitada a todo o custo, particularmente quando est&aacute; envolvida uma celebridade&raquo; e deve evitar-se a cobertura pormenorizada. Deste modo, &laquo;devem ser evitados os detalhes dos m&eacute;todos utilizados e de como foram produzidos&raquo;, e o jornalista deve ter cautela na cobertura, de forma a evitar a banaliza&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio. A OMS real&ccedil;a a import&acirc;ncia dos <i>media</i> enquanto agente ativo na preven&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio, publicando sinais de aviso de comportamentos suicidas e disponibilizando informa&ccedil;&atilde;o sobre a ajuda dispon&iacute;vel. Os <i>media</i> devem ainda transmitir a mensagem &laquo;de que a depress&atilde;o est&aacute; geralmente associada ao comportamento suicid&aacute;rio e de que a depress&atilde;o &eacute; uma doen&ccedil;a trat&aacute;vel&raquo;. O suic&iacute;dio n&atilde;o deve ser referido pelos <i>media</i> como &laquo;bem-sucedido&raquo;, antes como &laquo;consumado&raquo;.</p>     <p>A autora australiana Jane Pirkis refere que a Austr&aacute;lia &eacute; um dos pa&iacute;ses com uma estrat&eacute;gia mais sistem&aacute;tica relativamente &agrave; preven&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio, tendo desenvolvido uma iniciativa chamada &laquo;Mindframe National Media Initiative&raquo;<sup>28</sup>, e destaca a necessidade de os profissionais da sa&uacute;de mental e da preven&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio trabalharem em conjunto com os <i>media</i>. Um estudo de investigadores neozelandeses destaca o reconhecimento do suic&iacute;dio como um problema de sa&uacute;de p&uacute;blica na N ova Zel&acirc;ndia e os esfor&ccedil;os desenvolvidos para o prevenir, nomeadamente a cria&ccedil;&atilde;o de <i>guidelines</i> para os <i>media</i><sup>30</sup>.</p>     <p>Em Portugal, o livro de estilo da ag&ecirc;ncia de not&iacute;cias portuguesa refere que &laquo;a Lusa n&atilde;o noticia suic&iacute;dios a n&atilde;o ser que a divulga&ccedil;&atilde;o dessas ocorr&ecirc;ncias se revista de relev&acirc;ncia p&uacute;blica&raquo;<sup>33</sup>. Nenhum outro manual de estilo dos jornais portugueses se refere em particular ao fen&oacute;meno do suic&iacute;dio. No entanto, o C&oacute;digo Deontol&oacute;gico dos Jornalistas<sup>34</sup> defende que o jornalista deve &laquo;proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor&raquo;, devendo rejeitar qualquer tipo de sensacionalismo. Embora n&atilde;o haja refer&ecirc;ncias diretas ao suic&iacute;dio, existe um c&oacute;digo impl&iacute;cito nas reda&ccedil;&otilde;es, segundo o qual deve haver cautela na cobertura de suic&iacute;dios pelo receio de imita&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>O Plano Nacional para a Preven&ccedil;&atilde;o do Suic&iacute;dio, publicado pela DGS para o quinqu&eacute;nio 2013-2017, refere tamb&eacute;m como objetivo a sensibiliza&ccedil;&atilde;o dos <i>media</i> &laquo;para a necessidade de aplica&ccedil;&atilde;o dos princ&iacute;pios definidos para a informa&ccedil;&atilde;o/descri&ccedil;&atilde;o de comportamentos autolesivos e atos suicidas&raquo;. L&ecirc;-se ainda que &laquo;os <i>media</i> podem ajudar ou dificultar na preven&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio, consoante promovam a educa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica ou aumentem a visibilidade do suic&iacute;dio apresentando-o como uma solu&ccedil;&atilde;o para os problemas da vida&raquo;<sup>22</sup>.</p>     <p>V&aacute;rios organismos internacionais desenvolveram recomenda&ccedil;&otilde;es para os jornalistas, aconselhando sempre uma cobertura &laquo;respons&aacute;vel&raquo; do suic&iacute;dio. Isto implica ter aten&ccedil;&atilde;o ao destaque dado &agrave; est&oacute;ria, &agrave; titula&ccedil;&atilde;o sensacionalista e &agrave;s descri&ccedil;&otilde;es detalhadas do m&eacute;todo seguido<sup>27</sup>. Os autores sublinham que o prop&oacute;sito destas recomenda&ccedil;&otilde;es n&atilde;o &eacute; &laquo;desencorajar a cobertura do suic&iacute;dio&raquo;, mas &laquo;aproveitar a oportunidade para educar os p&uacute;blicos para o tratamento e op&ccedil;&otilde;es de ajuda&raquo;, bem como &laquo;desfazer alguns mitos sobre o suic&iacute;dio que possam desencorajar a procura de ajuda&raquo;<sup>27</sup>.</p>     <p><b>A teoria do <i>framing</i>: que &acirc;ngulo para as not&iacute;cias?</b></p>     <p>Estudar as representa&ccedil;&otilde;es que os <i>media</i> promovem em rela&ccedil;&atilde;o ao suic&iacute;dio implica pensar na teoria do <i>framing</i> das not&iacute;cias, ou seja, olhar para o enquadramento dado pelo jornalista a determinada pe&ccedil;a noticiosa.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Segundo Entman<sup>35</sup>, enquadrar &eacute; selecionar alguns aspetos do que se percebe ser uma determinada realidade e torn&aacute;-los mais salientes num texto, de forma a promover uma defini&ccedil;&atilde;o do problema, interpreta&ccedil;&atilde;o causal, avalia&ccedil;&atilde;o moral e/ou tratamento ou recomenda&ccedil;&atilde;o particulares. Esta atividade de sele&ccedil;&atilde;o de determinados atributos de um certo acontecimento ou assunto, e de atribui&ccedil;&atilde;o de uma maior relev&acirc;ncia aos mesmos, em detrimentos de outros aspetos, &eacute;, segundo Entman<sup>35</sup>, uma marca de poder. Por 2 raz&otilde;es: sinaliza a identidade dos atores ou grupos de interesse que conseguiram incluir as suas vis&otilde;es no relato do evento; restringe a informa&ccedil;&atilde;o que o p&uacute;blico tem sobre um determinado assunto e, mais do que isso, restringe o modo <i>como</i> o p&uacute;blico pensa sobre o mesmo. &Eacute; pois claro que esta atividade de enquadrar, isto &eacute;, selecionar e dar prioridade a determinados aspetos em preju&iacute;zo de outros, indica de que o trabalho jornal&iacute;stico n&atilde;o &eacute; simplesmente o de transmitir informa&ccedil;&atilde;o, mas sim o de reconstruir, no quadro de determinadas fronteiras, o mundo social<sup>36</sup>.</p>     <p>McCombs olha para o <i>framing</i> como uma &laquo;segunda dimens&atilde;o&raquo; do <i>agenda setting</i>, uma extens&atilde;o deste processo. No entanto, outros autores, nomeadamente Iyengar e Simon<sup>37</sup> ou Scheufele<sup>38</sup>, entendem o <i>framing</i> como uma parte do <i>agenda setting.</i> O norte-americano T. Michael Maher, num artigo dedicado a pensar o <i>framing</i>, questiona se as diferentes perspetivas que alguns autores apresentam deste processo ter&atilde;o por base conceitos distintos de <i>framing</i><sup>39</sup>. O autor relembra que, em termos hist&oacute;ricos, o <i>framing</i> e o <i>agenda setting</i> tiveram trajet&oacute;rias opostas. O segundo n&iacute;vel de <i>agenda setting</i> analisa &laquo;a forma como a cobertura medi&aacute;tica afeta aquilo em que o p&uacute;blico pensa e como pensa&raquo;, lidando com as carater&iacute;sticas espec&iacute;ficas de um assunto e com a maneira como esta &laquo;agenda de atributos&raquo; influencia a opini&atilde;o p&uacute;blica<sup>40</sup>. O segundo n&iacute;vel de <i>agenda setting</i> tem, no entanto, consequ&ecirc;ncias que v&atilde;o para al&eacute;m das imagens que se formam nas nossas cabe&ccedil;as<sup>41</sup>.</p>     <p>O modo como um assunto &eacute; explorado pelos <i>media</i> influencia a forma como o p&uacute;blico pensa sobre esse assunto, ou seja, a cobertura medi&aacute;tica afeta a import&acirc;ncia desse assunto na agenda p&uacute;blica. Dito de outra maneira, o segundo n&iacute;vel de <i>agenda setting</i> lida com o impacto que os <i>frames</i> (ou &acirc;ngulos) das not&iacute;cias t&ecirc;m na agenda p&uacute;blica<sup>40</sup>.</p>     <p>Num artigo sobre a converg&ecirc;ncia do <i>agenda setting</i> e do <i>framing</i>, McCombs e Ghanem<sup>41</sup> defendem que a jun&ccedil;&atilde;o dos 2 conceitos num &uacute;nico quadro te&oacute;rico unificado seria &uacute;til para uma maior coes&atilde;o do conhecimento relativamente ao modo como os <i>media</i> formam as imagens do mundo e de como o p&uacute;blico responde a essas imagens.</p>     <p>No fundo, &laquo;a principal diferen&ccedil;a entre a investiga&ccedil;&atilde;o sobre <i>frames</i> e a que se ocupa do segundo n&iacute;vel de <i>agenda setting</i> &eacute; que esta &uacute;ltima analisa o impacto que os <i>frames</i> das not&iacute;cias t&ecirc;m na agenda p&uacute;blica, enquanto muitos estudos de f<i>raming</i> ocuparam-se apenas dos <i>frames</i>&raquo;<sup>40</sup>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Metodologia</b></p>     <p>Este trabalho &ndash; desenvolvido no &acirc;mbito de uma tese de doutoramento sobre a mediatiza&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de na imprensa portuguesa &ndash; pretende estudar a forma como o fen&oacute;meno do suic&iacute;dio &eacute; noticiado nos jornais portugueses, atrav&eacute;s da an&aacute;lise das not&iacute;cias.</p>     <p>Procedemos a uma an&aacute;lise quantitativa das not&iacute;cias, recorrendo ao programa de an&aacute;lise estat&iacute;stica de dados <i>Statistics Package for Social Sciences (SPSS)</i>, centrada em 2 eixos de an&aacute;lise. Posteriormente, os textos sobre suic&iacute;dio foram analisados de forma mais pormenorizada, com recurso &agrave;s t&eacute;cnicas e ferramentas da an&aacute;lise cr&iacute;tica do discurso.</p>     <p>A nossa an&aacute;lise inclui os jornais generalistas nacionais Expresso, Sol, P&uacute;blico, JN, DN e Correio da Manh&atilde; &ndash; 2 seman&aacute;rios e 4 di&aacute;rios. A escolha destes jornais justifica-se pelo seu car&aacute;ter generalista e nacional; a amostra escolhida (n&atilde;o-probabil&iacute;stica) apresenta ainda diferentes linhas editoriais e periodicidades, uma vez que n&atilde;o sabemos se estes crit&eacute;rios poder&atilde;o influenciar a qualidade da informa&ccedil;&atilde;o prestada em sa&uacute;de. Deste modo, esta &eacute; uma das hip&oacute;teses que queremos testar numa fase posterior do nosso trabalho de doutoramento.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A an&aacute;lise compreende o per&iacute;odo entre janeiro e dezembro de 2013, sendo que o m&ecirc;s de agosto n&atilde;o &eacute; contabilizado por ser por n&oacute;s considerado um m&ecirc;s at&iacute;pico em termos noticiosos. Deste modo, o <i>corpus</i> de an&aacute;lise incorpora um total de 30 not&iacute;cias que mediatizam o suic&iacute;dio.</p>     <p>A recolha de dados foi efetuada com recurso &agrave;s vers&otilde;es impressas &ndash; em formato digital &ndash; dos cadernos principais dos jornais, sendo que s&atilde;o escolhidas as vers&otilde;es Lisboa ou Nacional dos peri&oacute;dicos selecionados, quando existam, excluindo-se as sec&ccedil;&otilde;es de Local (no P&uacute;blico) ou Porto (no JN), de Desporto e de Cultura.</p>     <p>No nosso estudo, a an&aacute;lise das not&iacute;cias sobre suic&iacute;dio divide-se em 2 n&iacute;veis, sendo que o primeiro nos permite caraterizar o tipo de texto que se publica na imprensa portuguesa quando se fala de sa&uacute;de; e o segundo &eacute; mais voltado para a an&aacute;lise das fontes de informa&ccedil;&atilde;o neste campo. O primeiro n&iacute;vel de an&aacute;lise &eacute; constitu&iacute;do por 12 vari&aacute;veis: <i>ano de an&aacute;lise, data, jornal, t&iacute;tulo, doen&ccedil;a, tipo de artigo, motivo de noticiabilidade, tempo da not&iacute;cia, tamanho, lugar da not&iacute;cia, presen&ccedil;a</i> e <i>n&uacute;mero de fontes de informa&ccedil;&atilde;o</i>. O segundo n&iacute;vel de an&aacute;lise &eacute; referente &agrave;s fontes de informa&ccedil;&atilde;o. Queremos saber quem &eacute; chamado a falar quando se noticia este t&oacute;pico na imprensa generalista, de onde vem, e que cargo ocupa, entre outros. Olhamos as fontes de informa&ccedil;&atilde;o pelo ponto de vista do leitor, uma vez que nos importa avaliar se a cita&ccedil;&atilde;o de fontes &eacute; feita de forma precisa e percet&iacute;vel ao p&uacute;blico em geral. Importa ainda referir que o investigador n&atilde;o transporta para a an&aacute;lise dos dados os conhecimentos pr&eacute;vios acerca de determinado indiv&iacute;duo, de forma a perceber as falhas existentes na identifica&ccedil;&atilde;o das fontes cometidas pelo jornalista. As fontes s&atilde;o caracterizadas quanto &agrave; sua geografia, tipo de fonte, identifica&ccedil;&atilde;o, estatuto e especialidade m&eacute;dica (quando aplic&aacute;vel). O estatuto das fontes de informa&ccedil;&atilde;o &eacute; encontrado a partir de uma tipologia por n&oacute;s criada e que nos permite saber se estamos a lidar com fontes oficiais, especializadas ou outras.</p>     <p>Para percebermos qual o &acirc;ngulo de abordagem utilizado pelos jornalistas portugueses quando o suic&iacute;dio &eacute; not&iacute;cia, olhamos atentamente para os textos e, tendo como refer&ecirc;ncia te&oacute;rica o <i>framing</i> das not&iacute;cias, fazemos uma an&aacute;lise detalhada dos mesmos. As teorias do <i>framing</i> das not&iacute;cias disponibilizam pouca informa&ccedil;&atilde;o sobre m&eacute;todos espec&iacute;ficos de an&aacute;lise. Muita da investiga&ccedil;&atilde;o realizada tem usado m&eacute;todos de an&aacute;lise quantitativos<sup>42</sup>. Todavia, s&atilde;o bem conhecidas as defini&ccedil;&otilde;es de Entman<sup>35</sup> e de Gamson e Modigliani<sup>43</sup> relativas &agrave; operacionaliza&ccedil;&atilde;o do <i>framing</i> na an&aacute;lise de textos jornal&iacute;sticos. Entman<sup>35</sup> refere que os <i>frames</i> nas not&iacute;cias podem ser identificados e examinados pela &laquo;presen&ccedil;a ou aus&ecirc;ncia de certas palavras-chave, frases feitas, imagens estereotipadas, fontes de informa&ccedil;&atilde;o e frases que, pela sua tem&aacute;tica, refor&ccedil;am grupos de factos ou julgamentos&raquo;. Gamson e Modigliani<sup>43</sup>, por sua vez, identificam <i>framing devices</i> que condensam a informa&ccedil;&atilde;o e oferecem o <i>media package</i> de um assunto. S&atilde;o eles: met&aacute;foras, exemplos, frases sonantes (<i>catch-phrases</i>), retratos e imagens visuais. Para al&eacute;m do recurso a estes <i>framings devices</i>, tamb&eacute;m alguns estudos emp&iacute;ricos combinam a an&aacute;lise destes meios com uma an&aacute;lise das 4 fun&ccedil;&otilde;es identificadas por Entman<sup>35</sup>: &laquo;defini&ccedil;&atilde;o do problema, interpreta&ccedil;&atilde;o causal, avalia&ccedil;&atilde;o moral e recomenda&ccedil;&atilde;o ou tratamento&raquo;.</p>     <p>H&aacute; tamb&eacute;m quem, de uma forma dedutiva, trabalhe com tipologias de f<i>rames</i> noticiosos j&aacute; existentes, como por exemplo a de Vreese<sup>44</sup> que prop&otilde;e uma distin&ccedil;&atilde;o entre <i>frames</i> gen&eacute;ricos, isto &eacute;, comuns a v&aacute;rios assuntos, e que s&atilde;o estruturais e inerentes &agrave;s conven&ccedil;&otilde;es do jornalismo, e <i>frames</i> espec&iacute;ficos a certos assuntos. No grupo dos <i>frames</i> gen&eacute;ricos, Vreese<sup>44</sup> destaca a distin&ccedil;&atilde;o proposta por Iyengar entre <i>frames epis&oacute;dicos</i> (limitar o retrato de assuntos sociais a eventos em jeito de ilustra&ccedil;&atilde;o) e <i>frames tem&aacute;ticos</i> (colocar os eventos num contexto interpretativo mais vasto) e a tipologia de Semetko e Valkenburg dos 5 <i>frames</i> noticiosos: <i>conflito, interesse humano, atribui&ccedil;&atilde;o da responsabilidade, moralidade e consequ&ecirc;ncias econ&oacute;micas</i>. O <i>frame conflito</i> enfatiza o conflito entre indiv&iacute;duos, grupos, institui&ccedil;&otilde;es ou pa&iacute;ses; o do <i>interesse humano</i> d&aacute; uma face humana ou confere um &acirc;ngulo emocional &agrave; apresenta&ccedil;&atilde;o de um evento, assunto ou problema; o da <i>responsabilidade</i> apresenta um assunto de forma a atribuir responsabilidade (relativa a causas ou a resolu&ccedil;&otilde;es) a algum ator social ou indiv&iacute;duo; o <i>moral</i> interpreta o assunto ou evento no contexto de preocupa&ccedil;&otilde;es religiosas ou prescri&ccedil;&otilde;es morais, e o de <i>consequ&ecirc;ncias econ&oacute;micas</i> apresenta o evento em termos das consequ&ecirc;ncias que ter&aacute; para indiv&iacute;duo, grupo, institui&ccedil;&atilde;o, religi&atilde;o ou pa&iacute;s<sup>44</sup>.</p>     <p>A an&aacute;lise que apresentamos resulta de um trabalho de explora&ccedil;&atilde;o detalhada dos textos, onde se procurou articular os aspetos referidos da teoria do <i>framing</i> com instrumentos te&oacute;ricos e metodol&oacute;gicos fornecidos pela an&aacute;lise cr&iacute;tica do discurso<sup>4,5</sup>. Destes, destacamos os seguintes: a an&aacute;lise da estrutura esquem&aacute;tica das not&iacute;cias, isto &eacute;, da organiza&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o contida na not&iacute;cia e da distribui&ccedil;&atilde;o da sua import&acirc;ncia numa ordem hier&aacute;rquica, dando aten&ccedil;&atilde;o particular aos t&iacute;tulos, aos <i>leads</i> e aos t&oacute;picos neles apresentados; a an&aacute;lise da escolha das palavras usadas para designar atores e a&ccedil;&otilde;es; a an&aacute;lise das cita&ccedil;&otilde;es (escolha, conte&uacute;dos e argumentos) e a an&aacute;lise dos meios ret&oacute;ricos usados, dando particular relevo &agrave;s met&aacute;foras<sup>45,46</sup>. Ainda que de forma sucinta, inclu&iacute;mos nesta an&aacute;lise uma refer&ecirc;ncia &agrave; dimens&atilde;o visual do discurso.</p>     <p>Com estes instrumentos, fazemos uma identifica&ccedil;&atilde;o dos <i>frames</i> especificamente usados na cobertura do suic&iacute;dio e damos conta das suas fun&ccedil;&otilde;es nos termos sugeridos por Entman<sup>35</sup>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>An&aacute;lise e discuss&atilde;o dos resultados</b></p>     <p><b>Quando o suic&iacute;dio &eacute; not&iacute;cia</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ao longo de 2013, s&atilde;o 30 os artigos sobre suic&iacute;dio publicados nos jornais em an&aacute;lise. O maior n&uacute;mero de artigos foi publicado pelo jornal P&uacute;blico (12); seguido do JN com 9 textos; do DN com 6; do Correio da Manh&atilde; com 2; e, por fim, do Expresso, com um texto sobre o fen&oacute;meno. O seman&aacute;rio Sol n&atilde;o apresenta, no per&iacute;odo em an&aacute;lise, qualquer artigo noticioso sobre o suic&iacute;dio.</p>     <p>Os t&iacute;tulos (<a href="#t1">Tabela 1</a>) s&atilde;o, na sua maioria, negativos (rondando os 53%), sendo que a percentagem de t&iacute;tulos positivos em textos que retratam o suic&iacute;dio &eacute; diminuta (13%). O g&eacute;nero jornal&iacute;stico privilegiado &eacute; a not&iacute;cia, que representa 97% do total dos casos. H&aacute; apenas uma entrevista sobre o suic&iacute;dio ao longo de 2013, publicada pelo seman&aacute;rio Expresso, sendo que n&atilde;o existem reportagens sobre o assunto. Trabalhos anteriores j&aacute; tinham demonstrado que o jornalismo de sa&uacute;de se faz essencialmente com recurso ao g&eacute;nero de not&iacute;cia, menosprezando a entrevista e a reportagem<sup>47</sup>. O suic&iacute;dio &eacute;, geralmente, retratado a partir de textos extensos (60% dos casos), representando uma exce&ccedil;&atilde;o relativamente ao jornalismo de sa&uacute;de em geral.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="t1"></a> <img src="/img/revistas/rpsp/v34n2/34n2a09t1.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>Quando olhamos para os motivos de noticiabilidade (<a href="#t2">Tabela 2</a>) dos textos sobre suic&iacute;dio, verificamos que os jornalistas privilegiam os retratos de situa&ccedil;&atilde;o (com 40% dos artigos). O &acirc;ngulo dedicado &agrave; preven&ccedil;&atilde;o segue-se ao dos retratos de situa&ccedil;&atilde;o, com mais de 15% dos casos. Os restantes temas abordados nos artigos sobre suic&iacute;dio s&atilde;o a investiga&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento (13%), as situa&ccedil;&otilde;es de alarme e risco, as suspeitas de neglig&ecirc;ncia ou pr&aacute;ticas il&iacute;citas e as decis&otilde;es pol&iacute;ticas &ndash; que ocupam, todas elas, 10% do total de casos.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="t2"></a> <img src="/img/revistas/rpsp/v34n2/34n2a09t2.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>Quanto ao tempo da not&iacute;cia, os textos que fazem um ponto de situa&ccedil;&atilde;o s&atilde;o os mais frequentes (37%), seguidos dos artigos que se reportam ao dia anterior (27%).</p>     <p>&Agrave; semelhan&ccedil;a daquilo que acontece no jornalismo de sa&uacute;de em geral<sup>47</sup>, os textos noticiosos sobre o suic&iacute;dio s&atilde;o constru&iacute;dos tendo como lugar o nacional global, ou seja, s&atilde;o textos desenraizados de um lugar espec&iacute;fico e que pretendem apresentar uma vis&atilde;o global sobre o fen&oacute;meno (<a href="#t3">Tabela 3</a>). A regi&atilde;o da grande Lisboa ocupa mais de 15% dos textos, seguida das regi&otilde;es do norte e centro (cada uma com 7%), e Alentejo (3%). Apenas um dos artigos tem como lugar da not&iacute;cia a Europa, o que representa 3% do total.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="t3"></a> <img src="/img/revistas/rpsp/v34n2/34n2a09t3.jpg">     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Debrucemo-nos agora sobre as fontes de informa&ccedil;&atilde;o, que constituem um dos eixos dominantes do nosso trabalho. A este n&iacute;vel, apenas um dos textos n&atilde;o cita qualquer fonte. Tamb&eacute;m aqui se comprovam tend&ecirc;ncias j&aacute; verificadas em trabalhos anteriores<sup>48</sup>. Deste modo, 90% das fontes citadas pelos jornalistas s&atilde;o identificadas. Referimo-nos, deste modo, a fontes de informa&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s quais conhecemos o nome e o cargo que ocupam. As fontes n&atilde;o identificadas s&atilde;o aquelas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s quais n&atilde;o sabemos o nome mas conhecemos o cargo ocupado, ou vice-versa (e estas ocupam 10% do total). A an&aacute;lise de not&iacute;cias sobre o suic&iacute;dio mostra-nos que n&atilde;o houve recurso a fontes an&oacute;nimas, isto &eacute;, de quem nada sabemos. Quase 60% das fontes citadas falam &agrave; escala nacional, sendo que as restantes fontes de informa&ccedil;&atilde;o s&atilde;o provenientes do norte, centro e Lisboa e Vale do Tejo (cerca de 9% para cada uma das regi&otilde;es) e Alentejo (cerca de 4%). Uma pequena percentagem das fontes de informa&ccedil;&atilde;o citadas nos textos fala a partir da Europa ou s&atilde;o internacionais. As fontes citadas nos artigos em an&aacute;lise s&atilde;o maioritariamente pessoais (<a href="#t4">Tabela 4</a>), sendo que as masculinas predominam claramente em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s femininas. Seguem-se as fontes n&atilde;o pessoais, que representam 34% do total.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="t4"></a> <img src="/img/revistas/rpsp/v34n2/34n2a09t4.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>O estatuto das fontes (<a href="#t1">Tabela 5</a>), percebido atrav&eacute;s de uma tipologia por n&oacute;s criada, &eacute; maioritariamente oficial dentro do campo da sa&uacute;de. Quer isto dizer que 20% das fontes citadas nos artigos que retratam o suic&iacute;dio s&atilde;o oficiais e pertencem &agrave; &aacute;rea da sa&uacute;de, como &eacute; o exemplo do Diretor-Geral da Sa&uacute;de ou do pr&oacute;prio ministro da Sa&uacute;de. As fontes documentais tamb&eacute;m t&ecirc;m bastante express&atilde;o na nossa an&aacute;lise, representando 29,5% do total de fontes citadas &ndash; incluem-se aqui os diplomas governamentais ou estudos, dentro e fora do campo da sa&uacute;de. Por outro lado, o cidad&atilde;o comum (enquanto paciente ou potencial utilizador dos servi&ccedil;os de sa&uacute;de) &eacute; empurrado para as margens de sil&ecirc;ncio (com 7,5%). As fontes especializadas na &aacute;rea da sa&uacute;de, com e sem cargos (institucionais e n&atilde;o institucionais), representam 15 e 14%, respetivamente. No caso particular da mediatiza&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio, s&atilde;o as fontes dentro do campo da sa&uacute;de as que mais espa&ccedil;o ocupam nas not&iacute;cias. Em rela&ccedil;&atilde;o aos m&eacute;dicos, os jornalistas escolheram dar voz aos psiquiatras (82%) e aos psiquiatras da inf&acirc;ncia e da adolesc&ecirc;ncia (18%). &Eacute; o P&uacute;blico o jornal que mais recorre a este tipo de especialistas, seguido do JN e do DN.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="t5"></a> <img src="/img/revistas/rpsp/v34n2/34n2a09t5.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p><b>A abordagem do suic&iacute;dio: discursos e representa&ccedil;&otilde;es</b></p>     <p><b>O suic&iacute;dio enquanto fen&oacute;meno p&uacute;blico</b></p>     <p>Durante o ano de 2013, a imprensa aborda a quest&atilde;o do suic&iacute;dio sob 3 &acirc;ngulos:</p> <ul>       ]]></body>
<body><![CDATA[<li>enquanto fen&oacute;meno p&uacute;blico;</li>       <li>enquanto objeto de a&ccedil;&atilde;o preventiva institucional;</li>       <li>enquanto <i>a&ccedil;&atilde;o individual</i>.</li>     </ul>     <p>Enquanto fen&oacute;meno p&uacute;blico, o suic&iacute;dio &eacute; retratado como algo que est&aacute; a causar cada vez mais mortes no seio da popula&ccedil;&atilde;o portuguesa. A &ecirc;nfase &eacute; posta na natureza surpreendente e extraordin&aacute;ria desse aumento, por um lado, e no car&aacute;ter encoberto, misterioso e simultaneamente amea&ccedil;ador, porque n&atilde;o &laquo;realmente&raquo; conhecido e com potencial de crescimento e de propaga&ccedil;&atilde;o desse algo, por outro. O suic&iacute;dio &eacute; assim concebido como uma entidade que mata, que mata mais do que aquilo que est&aacute; contabilizado e que, al&eacute;m disso, p&otilde;e em risco os vivos. Quem morre por essa causa, ou est&aacute; &laquo;em risco de&raquo;, &eacute; colocado como sujeito passivo sem for&ccedil;as e sem potencial de a&ccedil;&atilde;o, em suma, no papel de v&iacute;tima.</p>     <p>Estes significados resultam da op&ccedil;&atilde;o de representar aquilo que &eacute; um processo, uma a&ccedil;&atilde;o autoinfligida &ndash; matar-se &ndash; por via de um nome (&laquo;suic&iacute;dio&raquo;), como se fosse uma coisa, e de simultaneamente conceptualizar essa coisa em termos humanos, como se fosse uma entidade com vida, um inimigo que nos p&otilde;e em risco e pode matar, de que d&atilde;o conta express&otilde;es como &laquo;morte provocada pelo suic&iacute;dio&raquo;, &laquo;o suic&iacute;dio mata&raquo;, &laquo;risco de suic&iacute;dio&raquo;, &laquo;morrer por suic&iacute;dio&raquo;, &laquo;em risco de suic&iacute;dio&raquo;.</p>     <p>Os jornais alertam os leitores para esse perigo, mas simultaneamente tranquilizam-nos. Escolhem faz&ecirc;-lo por 2 formas: circunscrevendo o perigo a determinados grupos &ndash; homens, mulheres, idosos, adolescentes, adultos maduros &ndash;, condi&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas &ndash; desemprego &ndash; e regi&otilde;es; representando o suic&iacute;dio como objeto de a&ccedil;&otilde;es de &laquo;combate&raquo;.</p>     <p>O exerc&iacute;cio de delimita&ccedil;&atilde;o do fen&oacute;meno, de tra&ccedil;ar uma fronteira em torno do mesmo, faz-se por via da identifica&ccedil;&atilde;o de &laquo;um perfil das v&iacute;timas&raquo;, atuais e potenciais, e concretiza-se nas a&ccedil;&otilde;es de explicar e alertar. O tra&ccedil;o das v&iacute;timas destacado de forma sistem&aacute;tica e continuada &eacute; o estado mental, a &laquo;sa&uacute;de mental&raquo;. Todas as not&iacute;cias que exploram de forma tem&aacute;tica o &laquo;aumento dos suic&iacute;dios&raquo; ou o &laquo;aumento das tentativas de suic&iacute;dio&raquo; (mas n&atilde;o apenas estas, como iremos ver) estabelecem, de forma mais ou menos direta, associa&ccedil;&otilde;es entre suic&iacute;dio e pessoas num estado mental particular (sobretudo &laquo;depress&atilde;o&raquo;, &laquo;desespero&raquo;, &laquo;solid&atilde;o&raquo;, mas tamb&eacute;m com &laquo;problemas mentais&raquo; ou &laquo;doen&ccedil;as mentais&raquo;). Sempre que se fala do aumento do suic&iacute;dio sob o &acirc;ngulo da mortalidade &ndash; quantas pessoas se matam, a que grupo pertencem &ndash; neste tipo de artigos tamb&eacute;m se fala do suic&iacute;dio sob o &acirc;ngulo do risco que representa para os vivos. Mas s&oacute; para alguns. Neste &acirc;mbito, o suic&iacute;dio &eacute; conceptualizado como resultado de um problema interno, privado, individualizado de que s&atilde;o v&iacute;timas &laquo;os suicidas&raquo;, um problema que, apesar de interno, se manifesta de determinadas formas (&laquo;sinais de alerta&raquo;), cujos efeitos &ndash; o suic&iacute;dio &ndash; podem, portanto, ser impedidos ou prevenidos. &Eacute; representado, portanto, como consequ&ecirc;ncia ou efeito de uma patologia mental vivida por alguns. Mas &eacute; representado tamb&eacute;m como motor, for&ccedil;a que amea&ccedil;a ou coloca em risco pessoas que sofrem de depress&atilde;o, est&atilde;o desesperadas ou sofrem de solid&atilde;o. Em ambos os casos, o suic&iacute;dio &eacute; associado a pessoas com perturba&ccedil;&otilde;es mentais: s&atilde;o estas que se levam ao suic&iacute;dio; s&atilde;o estas que s&atilde;o apontadas como &laquo;fator de risco&raquo; mais importante.</p>     <p>Esta rela&ccedil;&atilde;o pode assumir v&aacute;rias formas em not&iacute;cias concretas. A mais frequente concretiza-se no recurso exclusivo a um leque restrito de fontes &ndash; da sa&uacute;de mental, da suicidologia e da sa&uacute;de p&uacute;blica &ndash; e de formas de as designar, atrav&eacute;s das quais se salienta o car&aacute;ter oficial e/ou especializado das fontes, emprestando assim a credibilidade (vista como) necess&aacute;ria &agrave;s explica&ccedil;&otilde;es oferecidas. Destacam-se tamb&eacute;m outros 2 tipos de recursos, ambos de natureza visual: a escolha das fotografias que integram estes artigos tem&aacute;ticos, atrav&eacute;s das quais se d&aacute; uma face aos atores referidos nos t&iacute;tulos do artigo em causa, e/ou na legenda que acompanha as fotos (&laquo;INEM socorre cada vez mais pessoas desesperadas que tentam suic&iacute;dio&raquo;, DN, 21 de fevereiro; &laquo;Isolamento &eacute; um dos sinais de alerta a ter em conta para quem costuma apresentar des&acirc;nimo constante&raquo;, JN, um de outubro; &laquo;Pedopsiquiatras dizem que tentativas de suic&iacute;dio dos adolescentes est&atilde;o a aumentar com a crise&raquo;, P&uacute;blico, 18 de novembro) e, no caso do DN e do JN, por via do destaque visual dado aos conte&uacute;dos referentes aos &laquo;sinais de alerta&raquo;, apresentando-os em caixa, meio atrav&eacute;s do qual o &laquo;estado de risco&raquo; imputado a esses atores se torna vis&iacute;vel, concreto e pode ser descoberto ou identificado.</p>     <p>Desta forma, o suic&iacute;dio &eacute; localizado em pessoas e em grupos, funcionando estes como um contentor. Esta met&aacute;fora espacial tem o efeito de tranquilizar os leitores porque cria um escudo protetor, uma esp&eacute;cie de cord&atilde;o sanit&aacute;rio que os protege, distanciando-os desse risco, mas desumaniza quem se suicida, como se essas pessoas fossem apenas vultos portadores de um mal. Em termos de imagens, a ideia substancia-se no uso de 2 tipos de fotos: fotos desfocadas, onde se mostra uma figura humana feminina sozinha num espa&ccedil;o p&uacute;blico com o rosto escondido, cabe&ccedil;a baixa, de lado, numa postura prostrada, vencida, derrotada, (DN, 11 de outubro; JN, 15 de mar&ccedil;o), e fotos onde se mostram figuras humanas femininas, sozinhas e em grupo, de costas, num cen&aacute;rio composto de forma a sugerir isolamento, abandono, fim de linha (DN, 21 de fevereiro), caminhada, passagem para, falta de luz e escurid&atilde;o (P&uacute;blico, 24 de outubro e 18 de novembro). Os 2 retratos oferecidos t&ecirc;m o efeito de colocar quem &eacute; portador do mal como se fosse algu&eacute;m que o leitor observa de longe, ou de lado, como se olhasse para um estranho, para o &laquo;outro&raquo;, mas um outro cuja vulnerabilidade &eacute; exposta, &eacute; aparente ou vis&iacute;vel, o que suscita sentimentos contradit&oacute;rios, de distanciamento mas tamb&eacute;m de compaix&atilde;o.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Do exposto podemos ent&atilde;o concluir que o suic&iacute;dio enquanto fen&oacute;meno &eacute; definido como um problema p&uacute;blico, quer dizer, como algo de errado e negativo que est&aacute; a acontecer no seio da popula&ccedil;&atilde;o portuguesa, como sendo uma amea&ccedil;a para a mesma (porque em crescimento) e, portanto, como algo que deve ser controlado ou combatido. A &ecirc;nfase na negatividade (moral ou emocional) obviamente decorre do significado, culturalmente dominante, associado ao termo &laquo;suic&iacute;dio&raquo; usado nos t&iacute;tulos dos artigos por todos os jornais. H&aacute; casos em que os di&aacute;rios optam por um estilo mais realista e cru, concretizado de 2 formas: em t&iacute;tulos que retratam o suic&iacute;dio como processo e facto (&laquo;Homens matam-se 3-4 vezes mais do que as mulheres&raquo;, DN, 7 de janeiro; &laquo;Em m&eacute;dia suicidam-se 5 pessoas por dia em Portugal&raquo;, JN, 15 de mar&ccedil;o); em passagens no desenrolar dos artigos em que se d&atilde;o detalhes (&laquo;se imolaram pelo fogo, morreu ao atirar-se do quarto andar&raquo;, DN, 7 de janeiro). O recurso a eufemismos tamb&eacute;m &eacute; uma realidade, um meio atrav&eacute;s do qual s&atilde;o ativados os conceitos associados &agrave; met&aacute;fora da vida como uma viagem (<i>por/colocar termo &agrave; vida</i>) e da morte como destino final. Mas importa real&ccedil;ar que no corpo dos artigos a escolha recai, na maior parte das vezes, no recurso a termos e express&otilde;es t&eacute;cnicas (portanto supostamente objetivos) usados pelos discursos das fontes consultadas, em especial daquelas atrav&eacute;s das quais se pensa o suic&iacute;dio como uma entidade ou coisa.</p>     <p>Vimos tamb&eacute;m que no retrato do suic&iacute;dio como fen&oacute;meno se explica o mesmo &ndash; essencialmente, atrav&eacute;s do recurso a cita&ccedil;&otilde;es das fontes acima referidas &ndash; no quadro de interpreta&ccedil;&atilde;o e de avalia&ccedil;&atilde;o fornecido pela epidemiologia psiqui&aacute;trica. Assume-se que os fatores de risco individuais &ndash; a doen&ccedil;a e complica&ccedil;&otilde;es mentais &ndash; s&atilde;o mais relevantes do que os fatores sociais e econ&oacute;micos na produ&ccedil;&atilde;o do ato suicida. Este pressuposto &eacute; coerente com o discurso dominante na sa&uacute;de p&uacute;blica da promo&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de e da preven&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a, onde se considera que os fatores de risco mais importantes s&atilde;o os que t&ecirc;m efeitos imediatos ao n&iacute;vel individual<sup>9</sup>. No entanto, tal n&atilde;o significa que a explica&ccedil;&atilde;o social ou econ&oacute;mica do suic&iacute;dio n&atilde;o entre no discurso dos jornais. J&aacute; vimos antes que a dimens&atilde;o social &eacute; mesmo chamada a t&iacute;tulo, gra&ccedil;as &agrave; associa&ccedil;&atilde;o que se faz entre (aumento do) suic&iacute;dio (ou tentativa de) e determinados grupos sociais. Quanto &agrave; dimens&atilde;o econ&oacute;mica, todos os jornais lhe d&atilde;o relev&acirc;ncia chamando-a por vezes a t&iacute;tulo (&laquo;Medidas de austeridade potenciam aumento de casos&raquo;, DN, 7 de janeiro; &laquo;Desemprego cria desesperan&ccedil;a e pode estar a alterar perfil das v&iacute;timas, alertam especialistas&raquo;, JN, 21 de abril; &laquo;Pedopsiquiatras dizem que tentativas de suic&iacute;dio dos adolescentes est&atilde;o a aumentar com a crise&raquo;, &laquo;No pa&iacute;s existem apenas 20 camas para internar crian&ccedil;as e adolescentes com problemas mentais&raquo;, P&uacute;blico, 18 de novembro), nem que seja para a negar em absoluto e de forma perent&oacute;ria, que &eacute;, ironicamente, outra forma de a tornar real, de a afirmar (&laquo;Ricardo Gusm&atilde;o, Coordenador Nacional da Alian&ccedil;a Europeia contra a Depress&atilde;o &lsquo;N&atilde;o h&aacute; aumento do suic&iacute;dio em consequ&ecirc;ncia da crise&rsquo;&raquo;, Expresso, 16 de mar&ccedil;o). Por&eacute;m, como as fontes usadas e citadas no corpo dos artigos est&atilde;o ligadas &agrave; sa&uacute;de mental, e apenas a ela, e &eacute; a essas fontes que os jornais pedem, ou v&atilde;o buscar, explica&ccedil;&otilde;es, evidentemente que a cadeia de causalidade, mesmo quando inclui refer&ecirc;ncia a fatores econ&oacute;micos como o desemprego, acaba sempre por terminar, de forma mais ou menos direta, no indiv&iacute;duo e na patologia.</p>     <p><b>O suic&iacute;dio enquanto objeto de a&ccedil;&atilde;o preventiva institucional</b></p>     <p>O &acirc;ngulo do suic&iacute;dio como objeto de a&ccedil;&atilde;o institucional predomina nas not&iacute;cias por n&oacute;s analisadas. &Eacute; o jornal P&uacute;blico que o usa mais, e f&aacute;-lo com artigos que tratam de forma tem&aacute;tica, e n&atilde;o apenas epis&oacute;dica, o assunto. Note-se que o uso deste &acirc;ngulo e do &acirc;ngulo do suic&iacute;dio como fen&oacute;meno p&uacute;blico n&atilde;o s&atilde;o exclusivos em not&iacute;cias concretas. Pelo contr&aacute;rio, eles coexistem, materializam-se em simult&acirc;neo. A diferen&ccedil;a est&aacute; na sali&ecirc;ncia que &eacute; atribu&iacute;da a um e a outro, tanto em termos de n&uacute;mero de textos, como em termos de tratamento do tema, e no momento temporal em que o fazem. Por exemplo, se compararmos a cobertura do DN com a do P&uacute;blico, &eacute; evidente que, ao longo de 2013, o primeiro d&aacute; prioridade ao &acirc;ngulo do suic&iacute;dio como fen&oacute;meno p&uacute;blico, e o segundo ao &acirc;ngulo do suic&iacute;dio como objeto de a&ccedil;&atilde;o institucional.</p>     <p>Para al&eacute;m de serem paralelos, estes &acirc;ngulos tamb&eacute;m se complementam um ao outro. Digamos que s&atilde;o 2 faces de uma s&oacute; moeda. Esta realidade n&atilde;o acontece por acaso. Para compreendermos a sua raz&atilde;o de ser, destacamos 2 fatores. O primeiro est&aacute; relacionado com os acontecimentos referentes a 2013, o ano em que foi posto &agrave; discuss&atilde;o p&uacute;blica, aprovado e divulgado um &laquo;Plano Nacional de Preven&ccedil;&atilde;o do Suic&iacute;dio para os anos 2013/2017&raquo;. O plano est&aacute; enquadrado no Programa Nacional de Sa&uacute;de Mental 2007/2016 da Dire&ccedil;&atilde;o-Geral de Sa&uacute;de e foi elaborado por uma comiss&atilde;o de &laquo;especialistas&raquo; (psiquiatras, enfermeiros e acad&eacute;micos portugueses e estrangeiros, DN, 7 de janeiro). O segundo fator remete para as caracter&iacute;sticas mais globais e hist&oacute;ricas dos discursos sobre o suic&iacute;dio elaborados no &acirc;mbito da sa&uacute;de p&uacute;blica nas sociedades ocidentais<sup>6,19</sup>. As fontes de informa&ccedil;&atilde;o que os jornais mais citam s&atilde;o especialistas intervenientes na elabora&ccedil;&atilde;o e coordena&ccedil;&atilde;o do plano, dando particular import&acirc;ncia &agrave; voz psiqui&aacute;trica, como referimos no ponto dedicado &agrave;s fontes. Esta escolha n&atilde;o ser&aacute; alheia ao facto de o coordenador do plano ser um psiquiatra, e de neste, como noutros assuntos, os jornais julgarem a credibilidade das fontes em fun&ccedil;&atilde;o do seu estatuto social e poder<sup>49</sup>. Mas, para al&eacute;m desta quest&atilde;o de poder, tamb&eacute;m est&aacute; em jogo o privil&eacute;gio que assim concederam ao ponto de vista psiqui&aacute;trico sobre suic&iacute;dio, a perspetiva que, nas 2 &uacute;ltimas d&eacute;cadas, tem dominado, no plano internacional, o desenvolvimento para a preven&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio<sup>9</sup>. Ora, na conceptualiza&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio como um fen&oacute;meno p&uacute;blico, que explicit&aacute;mos anteriormente, a preocupa&ccedil;&atilde;o com as estat&iacute;sticas, com a etiologia e com o risco, e a configura&ccedil;&atilde;o particular em que ela se manifesta, j&aacute; &eacute; reveladora da presen&ccedil;a e do predom&iacute;nio do ponto de vista da epidemiologia psiqui&aacute;trica. Essa conceptualiza&ccedil;&atilde;o assenta no pressuposto moral fundamental que intervir no suic&iacute;dio &eacute; um dever, dado tratar-se de um comportamento irracional, e inscreve-se nas arenas privilegiadas da medicina e da sa&uacute;de p&uacute;blica, arenas que valorizam a preserva&ccedil;&atilde;o da vida e da sa&uacute;de das popula&ccedil;&otilde;es. &Eacute; tamb&eacute;m parte integrante de tend&ecirc;ncias contempor&acirc;neas, amplamente notadas por diversos autores, de uma progressiva medicaliza&ccedil;&atilde;o da vida e da morte. Neste contexto, os discursos da sa&uacute;de p&uacute;blica reclamam o direito a tomar medidas adequadas para proteger as popula&ccedil;&otilde;es contra a morte prematura. Assim, ver o suic&iacute;dio sob o &acirc;ngulo de fen&oacute;meno p&uacute;blico j&aacute; implica todo um conjunto de discursos que estabelecem, pelas suas an&aacute;lises e interroga&ccedil;&otilde;es, um espa&ccedil;o cognitivo onde se cristalizam objetos, eventos, identidades e rela&ccedil;&otilde;es. A defini&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio como um problema de sa&uacute;de p&uacute;blica traz consigo o estabelecimento de atores e alvos da a&ccedil;&atilde;o, ou seja, de rela&ccedil;&otilde;es de poder, justificadas ou legitimadas em vis&otilde;es particulares do suic&iacute;dio, das pessoas que se suicidam e da melhor forma de responder a estes comportamentos humanos. Da&iacute; termos afirmado que a representa&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio como fen&oacute;meno p&uacute;blico e como objeto de a&ccedil;&atilde;o institucional s&atilde;o 2 faces da mesma moeda.</p>     <p>No entanto, em termos de &acirc;ngulo jornal&iacute;stico, h&aacute; claramente diferen&ccedil;as no uso e na sali&ecirc;ncia que se d&atilde;o a essas representa&ccedil;&otilde;es em artigos concretos. Olhando para a quest&atilde;o de um ponto de vista diacr&oacute;nico, podemos afirmar que a explora&ccedil;&atilde;o do &acirc;ngulo do suic&iacute;dio como objeto de a&ccedil;&atilde;o institucional aconteceu em 3 momentos fundamentais: no momento anterior &agrave; divulga&ccedil;&atilde;o em abril do plano nacional de preven&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio, nos jornais P&uacute;blico e DN; no m&ecirc;s de divulga&ccedil;&atilde;o do plano, com o JN e o P&uacute;blico a darem not&iacute;cias relativas a um plano de preven&ccedil;&atilde;o de suic&iacute;dio na Amadora que ocorreu entre 2008-2012, e o Expresso a entrevistar o coordenador desse plano, tendo o jornal P&uacute;blico optado por continuar a cobrir o assunto sob este &acirc;ngulo, de forma mais ou menos direta, at&eacute; novembro.</p>     <p>Para al&eacute;m desta distribui&ccedil;&atilde;o da aten&ccedil;&atilde;o ao longo do tempo poder ser lida, com tudo o que referimos anteriormente, como manifesta&ccedil;&atilde;o do poder dos grupos de interesse intervenientes no processo para marcarem a agenda noticiosa, ela tamb&eacute;m mostra que os jornais participaram ativamente no processo. Em primeiro lugar, porque privilegiaram sempre o mesmo tipo de fontes. Ao faz&ecirc;-lo, fecharam o debate sobre o suic&iacute;dio como objeto de a&ccedil;&atilde;o institucional no quadro de interpreta&ccedil;&atilde;o fornecido pelas mesmas. Em segundo, porque a explora&ccedil;&atilde;o do assunto sob o &acirc;ngulo de fen&oacute;meno p&uacute;blico, nos termos em que foi feita, de aumento da mortalidade e de incertezas quanto &agrave; verdade das estat&iacute;sticas, criou o contexto de dramatiza&ccedil;&atilde;o necess&aacute;rio para a legitima&ccedil;&atilde;o, aos olhos do p&uacute;blico, da necessidade e da urg&ecirc;ncia da cria&ccedil;&atilde;o de medidas &laquo;para travar o fen&oacute;meno&raquo; (DN, 7 de janeiro), e para pressionar o governo a deslocar recursos para as mesmas. Por &uacute;ltimo, porque o fizeram privilegiando o <i>frame</i> do conflito a que usualmente os jornais recorrem na cobertura pol&iacute;tica, o que permitiu &agrave;s for&ccedil;as em causa ventilarem os seus argumentos.</p>     <p>Apesar de terem sido variadas as formas de concretiza&ccedil;&atilde;o do <i>frame</i> do conflito em textos concretos, h&aacute; 2 quest&otilde;es centrais exploradas sob esse &acirc;ngulo: qual &eacute; e quem tem a verdade sobre as estat&iacute;sticas do suic&iacute;dio, em termos de mortalidade, de custos econ&oacute;micos e de impacto dos programas de preven&ccedil;&atilde;o; quais dever&atilde;o ser as popula&ccedil;&otilde;es priorit&aacute;rias dos programas de preven&ccedil;&atilde;o, os desempregados, os idosos ou os jovens?</p>     <p>Estas quest&otilde;es, interligadas entre si, n&atilde;o s&atilde;o tipicamente nacionais, nem meramente conjunturais, apesar de o momento em que elas foram trazidas para o discurso p&uacute;blico ser particularmente relevante, como j&aacute; foi referido. Trata-se de quest&otilde;es que estruturam o debate cient&iacute;fico e t&eacute;cnico sobre o assunto, desenvolvido na medicina e na sa&uacute;de p&uacute;blica, e que j&aacute; s&atilde;o de longa data. Se nas primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX, na medicina, havia a certeza de que as estat&iacute;sticas da mortalidade falavam a verdade, essa perce&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica mudou ap&oacute;s a II Guerra Mundial. Hoje parece ser comum a vis&atilde;o de que h&aacute; dificuldades em determinar com precis&atilde;o &laquo;a causa clinicamente relevante&raquo; da morte e que h&aacute; falta de precis&atilde;o no registo da causa de morte nos certificados<sup>50</sup>.</p>     <p>Esta crise mais global de confian&ccedil;a na objetividade tradicional do certificado de morte, e no seu uso como instrumento epidemiol&oacute;gico, &eacute; particularmente relevante na quest&atilde;o do diagn&oacute;stico de morte por suic&iacute;dio, que para alguns deveria incluir dados n&atilde;o biol&oacute;gicos, tal como a inten&ccedil;&atilde;o do falecido. Isso exigiria um levantamento de informa&ccedil;&atilde;o junto de familiares e amigos sobre o estado mental da pessoa anterior &agrave; morte, uma esp&eacute;cie de &laquo;aut&oacute;psia psicol&oacute;gica&raquo; que deveria incluir os servi&ccedil;os do cientista comportamental, psic&oacute;logo, psiquiatra, soci&oacute;logo e trabalhador social<sup>50</sup>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mas todo este tipo de preocupa&ccedil;&otilde;es mais fundamentais, que incluem mesmo a necessidade de ouvir o ponto de vista do indiv&iacute;duo, nem que seja indiretamente, desvanece-se no retrato do conflito tra&ccedil;ado na cobertura. O retrato est&aacute; ancorado no pressuposto, largamente suscitado por toda a imprensa por via da cita&ccedil;&atilde;o das vozes especialistas e oficiais consultadas, de que a distin&ccedil;&atilde;o entre morte por suic&iacute;dio e morte por outras causas &eacute; um facto objetivo e evidente, quando na verdade n&atilde;o o &eacute;. Sendo que esta vis&atilde;o &eacute; dada como certa, ou como <i>a</i> verdade sobre o assunto, o conflito n&atilde;o se faz em torno da natureza arbitr&aacute;ria, porque social e interpretativa, do diagn&oacute;stico da morte por suic&iacute;dio, mas de outras quest&otilde;es, nomeadamente: a diverg&ecirc;ncia interinstitucional nos n&uacute;meros globais da taxa de suic&iacute;dio por ano em Portugal, e a incid&ecirc;ncia do suic&iacute;dio sob determinados grupos sociais (velhos, jovens, desempregados).</p>     <p>Sob a quest&atilde;o da diverg&ecirc;ncia, as vozes especialistas citadas dividem-se entre atribuir a responsabilidade pela mesma &agrave; press&atilde;o das fam&iacute;lias para ocultar o ocorrido (P&uacute;blico, 13 de janeiro, 15 de mar&ccedil;o; JN, 21 de abril), explicada por motivos religiosos ou econ&oacute;micos (JN, 7 de janeiro, 2013); ou atribuir a responsabilidade aos m&eacute;dicos, explicada pela imprepara&ccedil;&atilde;o dos mesmos (P&uacute;blico, 31 de janeiro). O conflito em torno da incid&ecirc;ncia do suic&iacute;dio, um assunto associado &agrave; defini&ccedil;&atilde;o de uma hierarquia de prioridades de a&ccedil;&otilde;es de preven&ccedil;&atilde;o, torna particularmente vis&iacute;veis 2 aspetos: as fragilidades das certezas sobre o assunto, e como elas podem funcionar entre grupos de interesse como armas de arremesso, numa conjuntura pol&iacute;tica de lan&ccedil;amento de um plano nacional de preven&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio, tutelado por um minist&eacute;rio onde a palavra de ordem &eacute; a redu&ccedil;&atilde;o de custos.</p>     <p><b>O suic&iacute;dio enquanto a&ccedil;&atilde;o individual</b></p>     <p>Quanto &agrave; representa&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio sob o &acirc;ngulo da a&ccedil;&atilde;o individual, destacam-se 2 tra&ccedil;os em particular: a pouca aten&ccedil;&atilde;o dada ao assunto (4 textos em 30: 2 no Correio da Manh&atilde;, um no JN e um no P&uacute;blico, sendo o &uacute;ltimo referido o &uacute;nico que trata o assunto tematicamente, enquanto os outros elegem a quest&atilde;o em termos epis&oacute;dicos); e o uso do &acirc;ngulo jornal&iacute;stico do interesse humano em todos eles. Nos 3 primeiros, o &acirc;ngulo jornal&iacute;stico do interesse humano &eacute; combinado com o &acirc;ngulo da responsabilidade. As hist&oacute;rias tecem-se em torno da atribui&ccedil;&atilde;o de responsabilidade a m&eacute;dicos ou psiquiatras a trabalharem para a seguran&ccedil;a social ou hospitais p&uacute;blicos. No caso do suic&iacute;dio de uma jovem, a responsabilidade &eacute; atribu&iacute;da por familiares; no caso de tentativas de suic&iacute;dio, as not&iacute;cias mostram que s&atilde;o acompanhantes ou o marido de uma das fontes a responsabilizar os profissionais da sa&uacute;de.</p>     <p>Quanto ao jornal P&uacute;blico, o artigo relata a hist&oacute;ria da &laquo;primeira portuguesa a morrer com a ajuda da associa&ccedil;&atilde;o Dignitas&raquo; a prop&oacute;sito de um lan&ccedil;amento de um livro onde se conta o caso (P&uacute;blico, 12 de mar&ccedil;o). Se virmos a publica&ccedil;&atilde;o deste artigo no contexto da cobertura que o jornal P&uacute;blico fez sobre suic&iacute;dio no decorrer do ano de 2013, &eacute; particularmente evidente que o uso do &acirc;ngulo do suic&iacute;dio como a&ccedil;&atilde;o individual parece ter import&acirc;ncia apenas no caso do suic&iacute;dio assistido. Importa recordar que este jornal &eacute; aquele que integra o maior n&uacute;mero de artigos constru&iacute;dos sob o &acirc;ngulo do suic&iacute;dio como objeto de a&ccedil;&atilde;o preventiva institucional, o que significa, ainda que implicitamente, o reconhecimento da permissibilidade moral do dever de impedir atos de suic&iacute;dio, e do direito do Estado intervir enquadrado na sa&uacute;de p&uacute;blica e na sa&uacute;de mental. Mas s&oacute; no caso do suic&iacute;dio assistido interpreta o assunto de forma mais ou menos expl&iacute;cita sob o &acirc;ngulo moral. E esse cuidado e diferen&ccedil;a manifestam-se de v&aacute;rias formas: na pr&oacute;pria constru&ccedil;&atilde;o do t&iacute;tulo (&laquo;Maria jantou bacalhau antes de a ajudarem a morrer na Su&iacute;&ccedil;a&raquo;), que combina as op&ccedil;&otilde;es de designar a personagem principal da hist&oacute;ria pelo nome pr&oacute;prio e de incluir detalhes, ambas as op&ccedil;&otilde;es pouco vulgares em jornais chamados de refer&ecirc;ncia; na &ecirc;nfase dada n&atilde;o &agrave; a&ccedil;&atilde;o levada a cabo pela personagem principal da hist&oacute;ria, mas a quem a acompanhou; na import&acirc;ncia e no n&iacute;vel de detalhe fornecido na descri&ccedil;&atilde;o do estado f&iacute;sico da mesma, referido em subt&iacute;tulo pela designa&ccedil;&atilde;o &laquo;doente terminal&raquo;; nos muitos eufemismos usados para designar o ato de se suicidar; no contraste ret&oacute;rico criado entre o sofrimento dos envolvidos e a frieza da lei, e na escolha das fontes (ligadas aos direitos humanos, &agrave; defesa do suic&iacute;dio racional em caso de sofrimento sem recupera&ccedil;&atilde;o). Todos estes elementos contribuem para inspirar compaix&atilde;o nos leitores e parecem evidenciar da parte do jornal uma clara simpatia pela causa.</p>     <p>Em jeito de resumo, os 3 &acirc;ngulos escolhidos para interpretar o suic&iacute;dio resultam numa representa&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio como uma entidade mal&eacute;fica, oculta, cujos efeitos n&atilde;o s&atilde;o realmente conhecidos; algo de origem patol&oacute;gica, que urge combater, e face &agrave; qual se est&atilde;o a refor&ccedil;ar as barreiras de prote&ccedil;&atilde;o e os meios de controlo institucional. Ser&aacute; caso para perguntar se, na quest&atilde;o do suic&iacute;dio, para al&eacute;m dos n&uacute;meros, da abstra&ccedil;&atilde;o e da racionaliza&ccedil;&atilde;o, que alimentam o medo e a dist&acirc;ncia, n&atilde;o haver&aacute; lugar para a compreens&atilde;o do sentido deste ato humano.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Conforme vimos, a imprensa portuguesa aborda o suic&iacute;dio a partir de 3 &acirc;ngulos: enquanto fen&oacute;meno p&uacute;blico, enquanto objeto de a&ccedil;&atilde;o preventiva institucional e enquanto a&ccedil;&atilde;o individual. O suic&iacute;dio &eacute;, assim, representado como uma entidade mal&eacute;fica, que &eacute; preciso combater, nomeadamente atrav&eacute;s de meios institucionais. Na imprensa portuguesa, o suic&iacute;dio &eacute; geralmente abordado enquanto objeto de a&ccedil;&atilde;o institucional. Por vezes, os jornalistas usam este &acirc;ngulo &ndash; da a&ccedil;&atilde;o institucional &ndash; e o do suic&iacute;dio como fen&oacute;meno p&uacute;blico em simult&acirc;neo, na mesma not&iacute;cia. No entanto, o suic&iacute;dio como objeto de a&ccedil;&atilde;o institucional predomina, apesar de os 2 &acirc;ngulos de abordagem se complementarem.</p>     <p>No que toca ao tratamento jornal&iacute;stico, se olharmos para a linha temporal das not&iacute;cias, percebemos que o suic&iacute;dio como objeto de a&ccedil;&atilde;o institucional &eacute; explorado em 3 momentos: antes da divulga&ccedil;&atilde;o do plano nacional de preven&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio, no m&ecirc;s de divulga&ccedil;&atilde;o do plano (em abril de 2013), e posteriormente &agrave; sua divulga&ccedil;&atilde;o.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os grupos de interesse intervenientes neste processo tentaram marcar a agenda medi&aacute;tica durante este per&iacute;odo, mas tamb&eacute;m os jornalistas deram voz &agrave;s fontes ao mesmo tipo de fontes &ndash; oficiais e especializadas, nomeadamente do campo da sa&uacute;de p&uacute;blica e suicidologia. Estas fontes transmitiram a sua interpreta&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio como objeto de a&ccedil;&atilde;o institucional, como um fen&oacute;meno que urge travar. Privilegiou-se o <i>frame</i> do conflito, perseguindo nomeadamente 2 quest&otilde;es: qual &eacute; e quem tem a verdade sobre as estat&iacute;sticas do suic&iacute;dio em termos de mortalidade, de custos econ&oacute;micos e de impacto dos programas de preven&ccedil;&atilde;o; quais dever&atilde;o ser as popula&ccedil;&otilde;es priorit&aacute;rias dos programas de preven&ccedil;&atilde;o, os desempregados, os idosos ou os jovens?</p>     <p>O &acirc;ngulo do fen&oacute;meno p&uacute;blico consiste num retrato do suic&iacute;dio como um problema de sa&uacute;de p&uacute;blica, que causa cada vez mais mortes na popula&ccedil;&atilde;o. Os <i>media</i> abordam o suic&iacute;dio como algo que coloca as pessoas em risco e que pode matar, alertando, ao mesmo tempo, para o fen&oacute;meno e dando alguma tranquilidade sobre aquilo que se passa. Isto &eacute; conseguido atrav&eacute;s da limita&ccedil;&atilde;o do perigo a certos grupos et&aacute;rios, estados mentais, condi&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas e sociais ou regi&atilde;o do pa&iacute;s. A delimita&ccedil;&atilde;o do fen&oacute;meno &eacute; feita atrav&eacute;s de &laquo;um perfil das v&iacute;timas&raquo;, nomeadamente atrav&eacute;s da sa&uacute;de mental. As not&iacute;cias aqui analisadas mostram uma associa&ccedil;&atilde;o entre o &laquo;aumento dos suic&iacute;dios&raquo; ou &laquo;o aumento das tentativas de suic&iacute;dio&raquo; e um estado mental debilitado, seja pela &laquo;depress&atilde;o&raquo;, &laquo;desespero&raquo;, &laquo;solid&atilde;o&raquo;, ou &laquo;doen&ccedil;as mentais&raquo;.</p>     <p>Este retrato do suic&iacute;dio associado a pessoas &laquo;de risco&raquo; reflete-se no uso, pelos jornalistas, de fontes da &aacute;rea da sa&uacute;de mental, suicidologia, ou sa&uacute;de p&uacute;blica. Destacam-se as fontes oficiais e/ou especializadas, que pelo seu poder percebido conferem credibilidade &agrave; not&iacute;cia.</p>     <p>Enquanto fen&oacute;meno, o suic&iacute;dio &eacute; abordado como um problema p&uacute;blico, uma amea&ccedil;a &agrave; popula&ccedil;&atilde;o &ndash; que deve ser combatida. Por via do uso das fontes ligadas &agrave; sa&uacute;de p&uacute;blica, o discurso transmitido acaba por ser, predominantemente, o da sa&uacute;de p&uacute;blica. Deste modo, as associa&ccedil;&otilde;es entre suic&iacute;dio e doen&ccedil;a mental sobrep&otilde;em-se aos fatores econ&oacute;mico-sociais, como o desemprego.</p>     <p>Por fim, o suic&iacute;dio enquanto a&ccedil;&atilde;o individual n&atilde;o suscita grande interesse da parte da imprensa &ndash; e, quando isso acontece, privilegia-se o &acirc;ngulo do interesse humano.</p>     <p>Os&nbsp;<i>media</i>&nbsp;s&atilde;o percebidos como atores na preven&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio, podendo constituir-se como aliados, como obst&aacute;culos, ou como inimigos.&nbsp;Neste trabalho, constat&aacute;mos que os jornalistas se posicionam como aliados das autoridades de sa&uacute;de na preven&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio e no alerta para os sinais de risco. A cobertura n&atilde;o apresenta os tra&ccedil;os sensacionalistas identificados em estudos relativos a outros pa&iacute;ses e pela OMS. Raramente s&atilde;o apresentados detalhes sobre os m&eacute;todos usados; n&atilde;o h&aacute; titula&ccedil;&otilde;es dram&aacute;ticas, sendo preferencialmente constru&iacute;das num tom factual; os retratos de casos particulares s&atilde;o sempre enquadrados numa perspetiva de sa&uacute;de mental, n&atilde;o recebem uma aten&ccedil;&atilde;o particular e est&atilde;o imbu&iacute;dos de significa&ccedil;&otilde;es negativas. O destaque dado ao assunto segue de perto a agenda oficial, ligada &agrave; sa&uacute;de p&uacute;blica, n&atilde;o resultando, portanto, de um qualquer interesse menos socialmente respons&aacute;vel associado ao risco da banaliza&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Uma vez que as not&iacute;cias analisadas parecem cumprir as recomenda&ccedil;&otilde;es dadas pela OMS e pela DGS, podemos considerar a cobertura analisada como sendo uma cobertura &laquo;respons&aacute;vel&raquo; do suic&iacute;dio. Na verdade, a informa&ccedil;&atilde;o ao dispor dos leitores &eacute; variada, permitindo que os mesmos se apercebam da complexidade e da gravidade do tema. Simultaneamente, essa informa&ccedil;&atilde;o tem tamb&eacute;m a fun&ccedil;&atilde;o de os alertar para o perigo, ao mesmo tempo que evita a dramatiza&ccedil;&atilde;o, ao circunscrever o risco a determinados perfis, grupos e regi&otilde;es e ao retratar esse risco como control&aacute;vel. Por estes motivos, consideramos que desempenha uma fun&ccedil;&atilde;o preventiva. No entanto, tal como referimos na nossa an&aacute;lise, seria recomend&aacute;vel que a esta preocupa&ccedil;&atilde;o preventiva se aliasse uma preocupa&ccedil;&atilde;o humanista. &Eacute; que, na verdade, o tom factual das hist&oacute;rias, a preocupa&ccedil;&atilde;o com os n&uacute;meros e a objetiva&ccedil;&atilde;o dos processos e atos decorrentes do uso do discurso t&eacute;cnico das fontes consultadas, podem contribuir para um excessivo distanciamento dos leitores face &agrave; sorte do suicida e alimentar sentimentos de medo. Estes factos em nada ajudam o cuidado com o outro. Ora, o cuidado com o outro &eacute; essencial para que a sociedade se torne efetivamente um agente de preven&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></p>     <!-- ref --><p>1. Gould M., Kleinman M., Lake A., Forman J., Midle J.B. Newspaper coverage of suicide and initiation of suicide clusters in teenagers in the USA, 1988-96: A retrospective, population-based, case-control study. Lancet Psychiatry. 2014;1:34-43.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806091&pid=S0870-9025201600020000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>2. Gould M., Jamieson P., Romer D. Media contagion and suicide among the young. Am Behav Sci. 2003;46:1269-84.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806093&pid=S0870-9025201600020000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>3. Stack S. Media impacts on suicide: A quantitative review of 293 findings. Soc Sci Quart. 2000;81:957-71.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806095&pid=S0870-9025201600020000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>4. Fowler R. Language in the news: Discourse and ideology in the press. London: Routledge, (1991) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806097&pid=S0870-9025201600020000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>5. Van T.A. Discurso, not&iacute;cia e ideologia: estudos na an&aacute;lise cr&iacute;tica do discurso. Porto: Campo das Letras, (2005) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806099&pid=S0870-9025201600020000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>6. Marsh I. Suicide: Foucault, history, and truth. Cambridge, UK: Cambridge University Press, (2010) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806101&pid=S0870-9025201600020000900006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>7. Cholbi M. Suicide. The Stanford Encyclopedia of Philosophy., Stanford: The Metaphysics Research Lab. Center for the Study of Language and Information. Stanford University, 2013.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806103&pid=S0870-9025201600020000900007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> .</p>     <p>8. Coimbra D. Suic&iacute;dio merit&oacute;rio: reflex&otilde;es acerca da morte volunt&aacute;ria desde um ponto de vista &eacute;tico-negativo. Bras&iacute;lia: Instituto de Ci&ecirc;ncias Humanas. Departamento de Filosofia. Universidade de Bras&iacute;lia, (2012) .</p>     <!-- ref --><p>9. Collings S., Beautrais A. Suicide prevention in New Zealand: A contemporary perspective: Social explanations for suicide in New Zealand. Wellington: Ministry of Health, (2005) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806106&pid=S0870-9025201600020000900008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>10. Hewitt J. Why are people with mental illness excluded from the rational suicide debate. Int J Law Psychiatry. 2013;36:358-65.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806108&pid=S0870-9025201600020000900009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>11. Durkheim E. O suic&iacute;dio. Lisboa: Presen&ccedil;a, (1987) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806110&pid=S0870-9025201600020000900010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>12. Halbwachs M. Les causes du suicide. Paris: Presses Universitaires de France, (2005) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806112&pid=S0870-9025201600020000900011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>13. Serra J. O suic&iacute;dio considerado como uma das belas artes. Covilh&atilde;: LusoSofia Press. Universidade da Beira Interior, (2008) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806114&pid=S0870-9025201600020000900012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>14. Battin M. The least worst death: Essays in bioethics on the end of life. New York: Open University Press, (1994) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806116&pid=S0870-9025201600020000900013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>15. Camus A. O mito de S&iacute;sifo: ensaio sobre o absurdo. Lisboa: Livros do Brasil, (2005) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806118&pid=S0870-9025201600020000900014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>16. Fitzpatrick S., Kerridge I. Challenges to a more open discussion of suicide. Med J Aust. 2013;198:470-1.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806120&pid=S0870-9025201600020000900015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>17. Minayo M. A autoviol&ecirc;ncia, objeto da sociologia e problema de sa&uacute;de p&uacute;blica. Cad Sa&uacute;de P&uacute;blica. 1998;14:421-8.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806122&pid=S0870-9025201600020000900016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>18. Turecki G. O suic&iacute;dio e sua rela&ccedil;&atilde;o com o comportamento impulsivo-agressivo. Rev Bras Psiquiatr. 1999;21:18-22.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806124&pid=S0870-9025201600020000900017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>19. Lupton D. The imperative of health: Public health and the regulated body. London: Sage, (1995) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806126&pid=S0870-9025201600020000900018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>20. World Health Organization. Health topics: Suicide. Geneva: WHO; 2013. [citado 21 Nov 2013]. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.who.int/topics/suicide/en/" target="_blank">http://www.who.int/topics/suicide/en/</a>.</p>     <!-- ref --><p>21. Gusm&atilde;o R., Quint&atilde;o S. Registo de suic&iacute;dio e de mortes resultantes de eventos com inten&ccedil;&atilde;o indeterminada: uma revisita&ccedil;&atilde;o de A verdade sobre o suic&iacute;dio em Portugal, 20 anos depois. Sa&uacute;de em N&uacute;meros. 2013;1:19-34.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806129&pid=S0870-9025201600020000900019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>22. Minist&eacute;rio Portugal. Plano Nacional de Preven&ccedil;&atilde;o do Suic&iacute;dio 2013-2017. Lisboa: DGS, (2013) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806131&pid=S0870-9025201600020000900020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>23. European Commission. Eurostat Suicide death rate, by age group. Luxembourg: European Commission; 2013. [citado 21 Nov 2013]. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://ec.europa.eu/eurostat/web/products-datasets/-/tsdph240" target="_blank">http://ec.europa.eu/eurostat/web/products-datasets/-/tsdph240</a>.</p>     <!-- ref --><p>24. Campos M., Leite S. O suic&iacute;dio em Portugal nos anos 90. Rev Estudos Demogr&aacute;ficos. 2002;32:81-106.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806134&pid=S0870-9025201600020000900021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>25. Ordem dos M&eacute;dicos. C&oacute;digo Deontol&oacute;gico dos M&eacute;dicos. Lisboa: Ordem dos M&eacute;dicos, (2008) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806136&pid=S0870-9025201600020000900022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>26. Pirkis J., Francis C., Blood R.W., Burgess P., Morley B., Stewart A., et al. Reporting of suicide in the Australian media. Aust N Z J Psychiatry. 2002;36:190-7.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806138&pid=S0870-9025201600020000900023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>27. Jamieson P., Jamieson K.H., Romer D. The responsible reporting of suicide in print journalism. Am Behav Sci. 2003;46:1643-60.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806140&pid=S0870-9025201600020000900024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>28. Pirkis J. Suicide and the media. Psyquiatry. 2009;8:269-71.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806142&pid=S0870-9025201600020000900025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>29. Cullen J. Meanings, messages and myths: The coverage and treatment of suicide in the Irish print media. Dublin: Health Service Executive, (2006) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806144&pid=S0870-9025201600020000900026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>30. Thom K., Edwards G., Nakarada-Kordic I., McKenna B., O&rsquo;Brien A., Nairn R. Suicide online: Portrayal of website-related suicide by the New Zealand media. New Media Soc. 2011;13:1355-72.</p>     <!-- ref --><p>31. Pirkis J., Blood R.W., Francis C., Putnis P., Burgess P., Morley B., et al. The media monitoring project. Canberra: Commonwealth Department of Health and Ageing, (2001) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806147&pid=S0870-9025201600020000900028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>32. Mundial Organiza&ccedil;&atilde;o Prevenir o suic&iacute;dio: um guia para profissionais dos m&eacute;dia. Genebra: OMS, (2000) .</p>     <p>33. Lusa. Livro de estilo. Lisboa: Lusa; 2011. [citado 14 Mai 2014]. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.lusa.pt/lusamaterial/PDFs/LivroEstilo.pdf" target="_blank">http://www.lusa.pt/lusamaterial/PDFs/LivroEstilo.pdf</a>.</p>     <p>34. dos Sindicato C&oacute;digo Deontol&oacute;gico do Jornalista: Aprovado em 4 de maio de 1993, em assembleia-geral do Sindicato dos Jornalistas. Lisboa: Sindicato dos Jornalistas, (1993) .</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>35. Entman R.B. Framing: Toward clarification of a fractured paradigm. J Commun. 1993;43:51-8.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806152&pid=S0870-9025201600020000900029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>36. Kitzinger J. Framing and frame analysis. Media studies: Key issues and debates., London: Sage, 2007. pp. 134-61.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806154&pid=S0870-9025201600020000900030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>37. Iyengar S., Simon A. News coverage of the Gulf crisis and public opinion: A study of agenda-setting, priming, and framing. Commun Res. 1993;20:365-83.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806156&pid=S0870-9025201600020000900031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>38. Scheufele D.A. Framing as a theory of media effects. J Commun. 1999;49:103-22.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806158&pid=S0870-9025201600020000900032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>39. Maher T.M. Framing: An emerging paradigm or a phase of agenda setting?. Framing public life: Perspectives on media and our understanding of the social world., New Jersey, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, 2003.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806160&pid=S0870-9025201600020000900033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> .</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>40. Ghanem S. Filling in the tapestry: The second level of agenda setting. Communication and democracy: Exploring the intellectual frontiers in agenda setting theory., New Jersey, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, 1997.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806162&pid=S0870-9025201600020000900034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> .</p>     <!-- ref --><p>41. McCombs M., Ghanem S. The convergence of agenda setting and framing. Framing public life: Perspectives on media and our understanding of the social world., New Jersey, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, 2003.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806164&pid=S0870-9025201600020000900035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> .</p>     <p>42. D&rsquo;Angelo P. News framing as a multi-paradigmatic research program: A response to Entman. J Commun. 2002;52:870-88.</p>     <!-- ref --><p>43. Gamson W.A., Mogdiliani A. Media discourse and public opinion on nuclear power: A constructionist approach. Am J Sociol. 1989;95:1-37.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806167&pid=S0870-9025201600020000900037&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>44. De C. News framing: Theory and typology. IDJ + DD. 2005;13:51-62.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806169&pid=S0870-9025201600020000900038&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>45. Lakoff G., Johnson M. Metaphors we live by. Chicago: The Chicago University Press, (1980) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806171&pid=S0870-9025201600020000900039&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>46. Sontag S. Illness as metaphor and AIDS and its metaphors. New York: Anchor, (1989) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806173&pid=S0870-9025201600020000900040&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>47. Lopes F., Ru&atilde;o T., Marinho S., Pinto-Coelho Z., Fernandes L., Ara&uacute;jo R., et al. A sa&uacute;de em not&iacute;cia: repensando pr&aacute;ticas de comunica&ccedil;&atilde;o. Braga: Centro de Estudos de Comunica&ccedil;&atilde;o e Sociedade, (2013) .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806175&pid=S0870-9025201600020000900041&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>48. Lopes F, Ru&atilde;o T, Marinho S, Ara&uacute;jo R. A sa&uacute;de em not&iacute;cia entre 2008 e 2010: retratos do que a imprensa portuguesa mostrou. Comunica&ccedil;&atilde;o e Sociedade. 2012; N&uacute;mero Especial: 129-70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806177&pid=S0870-9025201600020000900042&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>49. Hall S., Critcher C., Jefferson T., Clarke J., Roberts B. The social production of news. Policing the crisis: Mugging, the state and law and order, London: MacMillan, 1978. pp. 53-80.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806179&pid=S0870-9025201600020000900043&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>50. Armstrong D. Silence and truth in death and dying. Soc Sci Med. 1987;24:651-7.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=806181&pid=S0870-9025201600020000900044&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conflito de interesses</b></p>     <p>Os autores declaram n&atilde;o haver conflito de interesses.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Autor para correspond&ecirc;ncia</i>: <a href="mailto:rita.manso.araujo@gmail.com">rita.manso.araujo@gmail.com</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Recebido 7 de Setembro de 2014 Aceito 5 de Maio de 2016</p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body><back>
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<year>2014</year>
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