<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0870-9025</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Revista Portuguesa de Saúde Pública]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Rev. Port. Sau. Pub.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0870-9025</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Escola Nacional de Saúde Pública]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0870-90252016000300001</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.1016/j.rpsp.2016.10.002</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Redefinição dos cuidados de saúde em Portugal]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Redefining Health Care in Portugal]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Morais]]></surname>
<given-names><![CDATA[Luís]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Centro Hospitalar Médio Tejo, EPE Serviço de Patologia Clínica Área Laboratorial]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Tomar ]]></addr-line>
<country>Portugal</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>10</month>
<year>2016</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>10</month>
<year>2016</year>
</pub-date>
<volume>34</volume>
<numero>3</numero>
<fpage>197</fpage>
<lpage>198</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0870-90252016000300001&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0870-90252016000300001&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0870-90252016000300001&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>EDITORIAL</b></p>     <p><b>Redefini&ccedil;&atilde;o dos cuidados de sa&uacute;de em Portugal</b></p>     <p><b>Redefining Health Care in Portugal</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Lu&iacute;s Morais</b></p>     <p>&Aacute;rea Laboratorial, Servi&ccedil;o de Patologia Cl&iacute;nica, Centro Hospitalar M&eacute;dio Tejo, EPE, Tomar, Portugal E-mail:&nbsp;<a href="mailto:lmdfmorais@iol.pt">lmdfmorais@iol.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Aplicar os princ&iacute;pios competitivos para retirar vantagem da concorr&ecirc;ncia na presta&ccedil;&atilde;o de cuidados de sa&uacute;de deve ser um dos aspetos a considerar na nova gest&atilde;o das organiza&ccedil;&otilde;es de sa&uacute;de, sem descurar, antes pelo contr&aacute;rio, ter em linha de conta, os utentes, e tendo&#8208;os na centralidade das pol&iacute;ticas e do sistema de sa&uacute;de.</p>     <p>Deve assim existir uma nova forma de pensar o sistema de sa&uacute;de, assente na cria&ccedil;&atilde;o de valor para os doentes, e fazer algumas recomenda&ccedil;&otilde;es para o futuro e a sustentabilidade do sistema nacional de sa&uacute;de, tal como defendeu Michael Porter no simp&oacute;sio &laquo;Sistemas de Sa&uacute;de em tempos de crise: Proteger o Presente, Construir o Futuro&raquo; (Lisboa, 2012). A organiza&ccedil;&atilde;o dos sistemas de sa&uacute;de tem de estar centrada nos doentes e n&atilde;o nos resultados de um servi&ccedil;o ou de um hospital. Reitera&#8208;se a ideia de que criar valor &eacute; pensar em todo o ciclo do doente/utente e que o pagamento tem de deixar de ser por ato. Deve ser pago por todo o pacote de cuidados.</p>     <p>Portugal n&atilde;o tira vantagem da concorr&ecirc;ncia na presta&ccedil;&atilde;o de cuidados de sa&uacute;de. O conceito de concorr&ecirc;ncia na sa&uacute;de tem vindo a gerar algumas cr&iacute;ticas em determinados setores e correntes de opini&atilde;o, tendo&#8208;se sugerido o termo escolha, por se considerar que da&iacute; poderia advir uma nova din&acirc;mica nos sistemas de sa&uacute;de. N&atilde;o olhar s&oacute; para o acesso, mas tamb&eacute;m para a escolha.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Sobre os custos da sa&uacute;de, refira&#8208;se que o aumento dos copagamentos (taxas moderadoras) e a redu&ccedil;&atilde;o do sal&aacute;rio dos profissionais de sa&uacute;de s&atilde;o o tipo de medidas que n&atilde;o criam valor, havendo agora uma op&ccedil;&atilde;o por diminuir as taxas moderadoras e pelo incentivo a alguns profissionais de sa&uacute;de.</p>     <p>O sistema de sa&uacute;de, em qualquer parte do mundo e n&atilde;o s&oacute; em Portugal, &eacute; um dos fatores de insustentabilidade do pr&oacute;prio sistema, inclusive o econ&oacute;mico. O aumento da qualidade de vida, devido &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es socioecon&oacute;micas e ao progresso tecnol&oacute;gico para diagnosticar, tratar e curar doen&ccedil;as, leva a que a popula&ccedil;&atilde;o viva mais tempo, contribuindo para o crescimento dos cuidados de sa&uacute;de. No entanto, n&atilde;o houve um acompanhamento por parte das reformas do Estado no modo como os cuidados s&atilde;o prestados. N&atilde;o foi prioridade reform&aacute;&#8208;los. O utente limitou&#8208;se a pagar cada vez mais por eles.</p>     <p>Existe atualmente um aumento do sector privado na presta&ccedil;&atilde;o de cuidados e um aumento de pessoas idosas. Para manter um Estado Social, h&aacute; que equilibrar o or&ccedil;amento, controlar os custos, melhorar a sustentabilidade, a eficiencia e ter melhores resultados (<i>outcomes</i>) para os doentes, atrav&eacute;s de reformas e da obten&ccedil;&atilde;o de consensos.</p>     <p>Deve elaborar&#8208;se uma agenda estrat&eacute;gica para a cria&ccedil;&atilde;o de valor para o sistema de sa&uacute;de, defendendo alguns princ&iacute;pios que devem prevalecer na reforma do sistema: em primeiro lugar, a necessidade de organizar os cuidados em unidades integradas (cuidados de sa&uacute;de prim&aacute;rios, cuidados diferenciados e cuidados continuados), em torno das condi&ccedil;&otilde;es de determinados grupos de doentes. Um dos problemas em Portugal &eacute; o elevado n&uacute;mero de urg&ecirc;ncias hospitalares, onde &eacute; dif&iacute;cil planear, s&atilde;o mais caras e onde os cuidados de sa&uacute;de prim&aacute;rios podiam e deviam fazer a diferen&ccedil;a (acesso, qualidade, etc.). Atualmente os cuidados de sa&uacute;de prim&aacute;rios s&atilde;o iguais para toda a popula&ccedil;&atilde;o, mas deviam ser adaptados &agrave;s necessidades dos doentes e mais focados em determinados grupos de doentes. Aumentariam os custos numa primeira fase, mas numa segunda seriam mais eficientes. O que tamb&eacute;m n&atilde;o se justifica &eacute; haver duplica&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os, organiza&ccedil;&otilde;es a prestar o mesmo tipo de cuidados, devendo avan&ccedil;ar&#8208;se para a especializa&ccedil;&atilde;o das unidades (por exemplo, consolida&ccedil;&atilde;o hospitalar).</p>     <p>Em segundo lugar, medir os resultados (<i>outcomes</i>) da atividade (<i>performance</i>), os custos envolvidos no tratamento de cada doente. Devem ser criados par&acirc;metros de avalia&ccedil;&atilde;o diferentes (melhorar a qualidade e melhorar os resultados) para cada doente. &Eacute; a fraca qualidade que aumenta os custos e o desperd&iacute;cio. S&oacute; medindo &eacute; poss&iacute;vel introduzir melhorias e perceber em que &aacute;rea(s) se deve intervir.</p>     <p>Terceiro ponto: pagamento diferenciado, n&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o de um determinado servi&ccedil;o, mas associado &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de valor. Os servi&ccedil;os de sa&uacute;de devem ser remunerados pela totalidade do tratamento e n&atilde;o por um determinado servi&ccedil;o. Deve haver uma partilha do risco com os prestadores, principalmente em torno dos aspetos que estes possam controlar &ndash; doente como gestor da sua sa&uacute;de.</p>     <p>Por fim, utilizar as tecnologias da informa&ccedil;&atilde;o no setor da sa&uacute;de, com a cria&ccedil;&atilde;o de plataformas tecnol&oacute;gicas (acesso de todos os intervenientes a informa&ccedil;&atilde;o sobre todas as interven&ccedil;&otilde;es e cuidados a que foram sujeitos).</p>     <p>Assim sendo, o objetivo central de todas as reformas deve visar o aumento do valor para o doente, sendo esse valor definido pelos resultados de sa&uacute;de alcan&ccedil;ados em rela&ccedil;&atilde;o aos gastos.</p>     <p>O relat&oacute;rio &laquo;Health at a Glance Europe 2012&raquo;, publicado pela OCDE, mostra como a crise travou a tend&ecirc;ncia da maioria dos pa&iacute;ses para aumentar anualmente a despesa na sa&uacute;de. Nele &eacute; referido que o tempo atual de dificuldades foi precedido por um per&iacute;odo de abund&acirc;ncia, no qual quase toda a Europa aumentou a despesa na sa&uacute;de (p&uacute;blica e privada) muito acima do crescimento do seu PIB, contribuindo deste modo para a sua prov&aacute;vel insustentabilidade.</p>     <p>Advoga&#8208;se, assim, a reestrutura&ccedil;&atilde;o e a reorganiza&ccedil;&atilde;o da forma como se prestam cuidados de sa&uacute;de em Portugal, protegendo o presente e construindo o futuro dos sistemas de sa&uacute;de, nomeadamente a gest&atilde;o integrada da doen&ccedil;a, e tendo como foco o doente, solicitando a este a colabora&ccedil;&atilde;o na gest&atilde;o da sua sa&uacute;de/doen&ccedil;a.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os sistemas de sa&uacute;de poder&atilde;o desenvolver&#8208;se em dire&ccedil;&otilde;es que pouco contribuem para a equidade e justi&ccedil;a social, s&atilde;o pouco eficientes na consecu&ccedil;&atilde;o de melhores resultados em sa&uacute;de e podem p&ocirc;r em causa a sua sustentabilidade. As 3 tend&ecirc;ncias mais preocupantes podem ser caracterizadas da seguinte forma:</p> <ul>       <li>(i) sistemas de sa&uacute;de centrados, de forma desproporcionada, numa oferta em cuidados de sa&uacute;de especializados (ao inv&eacute;s, deveria apostar&#8208;se mais na preven&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a e promo&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de);</li>       <li>(ii) sistemas de sa&uacute;de em que a presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os est&aacute; a ser fragmentada por abordagens de controlo de doen&ccedil;as, com objetivos imediatistas, num esp&iacute;rito de comando&#8208;e&#8208;controlo;</li>       <li>(iii) sistemas de sa&uacute;de em que uma abordagem <i>laissez&#8208;faire</i> da governa&ccedil;&atilde;o facilitou a expans&atilde;o duma comercializa&ccedil;&atilde;o desregulamentada da sa&uacute;de.</li>     </ul>     <p>Estas tend&ecirc;ncias v&atilde;o totalmente contra uma resposta compreensiva e equilibrada &agrave;s necessidades de sa&uacute;de e &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de valor. Em alguns pa&iacute;ses, a iniquidade de acesso, os custos e a eros&atilde;o da confian&ccedil;a nos cuidados de sa&uacute;de constituem uma amea&ccedil;a &agrave; estabilidade social.</p>     <p>Estando&#8208;se a celebrar os 100 anos do nascimento de Coriolano Ferreira, e tendo passado em 2012 100 anos sobre o nascimento de Gon&ccedil;alves Ferreira, 2 vultos not&aacute;veis da sa&uacute;de p&uacute;blica portuguesa, ligados ao seu ensino, investiga&ccedil;&atilde;o, pol&iacute;tica e administra&ccedil;&atilde;o (quer a n&iacute;vel hospitalar quer a n&iacute;vel da sa&uacute;de p&uacute;blica), sem esquecer os 50 anos da Escola Nacional de Sa&uacute;de P&uacute;blica (a comemorar em 2017), deve colocar a &ecirc;nfase na promo&ccedil;&atilde;o e educa&ccedil;&atilde;o para a sa&uacute;de, a fim de existir no futuro uma popula&ccedil;&atilde;o portuguesa mais saud&aacute;vel, que participe na gest&atilde;o (integrada) da sua sa&uacute;de dando, desse modo, um exemplo de cidadania para o mundo.</p>     <p>Deve pois, caminhar&#8208;se para um sistema de reformas da cobertura universal, reformas da presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;o, reformas de pol&iacute;tica p&uacute;blica e reformas da lideran&ccedil;a.</p>      ]]></body>
</article>
