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</front><body><![CDATA[ <div align="center"><b>O ruralismo em Eça de Queiroz</b><Sup><a href="#1">1 </a><a name="top1"></a></Sup>  </div>     <P align="center"> José Eduardo Mendes Ferrão<Sup><a href="#2">2</a> <a name="top2"></a></Sup></P>     <P align="center">&nbsp;</P>     <P align="justify" > Depois de um pedido de desculpas muito sincero e bem justificado    por não ter sido capaz de, num espaço de tempo tão curto que me foi concedido    ir para além de brevíssimos apontamentos sobre o tema que me propus tratar,    começarei esta minha intervenção com um pequeno mas, a meu ver, bem significativo    episódio. </P>     <P align="justify"> Numa Sexta-feira Santa, já lá vão alguns anos, com a primavera    instalada nas calendários e nos campos, quando a vista se regala numa vegetação    renascida e renovada, os ouvidos sentem o suave ondear das searas ou o marralhar    da folhagem nova das árvores, o odor das múltiplas flores beijadas pelas abelhas    nos encanta e conforta e nos faz esquecer os efeitos desgastantes da poluição    e do «stress», sucedeu termos passado a noite em três quartos com janelas para    o mesmo lado numa simpática estalagem integrada nas planuras alentejanas, um    engenheiro electrotécnico, um professor de agronomia e um licenciado em direito.  </P>     <P align="justify" > Nasceu o dia com um sol radioso contrastante com a tristeza    dos corações dos católicos nesse dia, levantámo-nos cedo, já que a tarefa que    nos esperava nesse dia era pesada, e vimo-nos os três, às janelas dos nossos    respectivos quartos, olhando como mesmo cenário os campos alentejanos de vista    alargada. </P>     <P align="justify" > Não trocámos palavra para além da circunspecta e tradicional    saudação matinal. </P>     <P align="justify" > Ao pequeno-almoço o primeiro considerou-se muito reconfortado    porque, ao olhar da janela do seu quarto essas planuras do sul do país, vira    muitos postes de alta e baixa tensão e linhas eléctricas que se estendiam em    todas as direcções. A sua luta pela electrificação do país em que andava empenhado    começava a dar resultados. O professor de agronomia replicou que nem sequer    reparara nos postes e nos fios mas que concentrou a sua atenção no aspecto das    searas que prometiam para esse ano uma boa produção de trigo. O licenciado em    direito confessou que ao chegar à janela sentiu frio, não olhou para nada e    voltou para a cama. </P>     <P align="justify" > Eis a mesma paisagem avaliada e apreciada por personalidades    com preocupações diferentes. </P>     <P align="justify" > Confesso que me impressiono muito ao percorrer as estradas    deste país galgando quilómetros à desfilada, na companhia de um citadino com    a atenção concentrada na fita negra do asfalto que nunca terá visto um boi senão    no Campo Pequeno, não é capaz de distinguir um nabo dum espinafre, um pinheiro    de um carvalho, conhece as hortaliças tal como as vê na banca do seu mercado    de bairro. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="justify" > Este meu companheiro de viagem não pode ter sensibilidade    para sentir a força criadora da terra, o cheiro da leiva revolvida, o perfume    do feno que se sega, nunca saboreou o gosto inigualável duma pêra colhida madura    da árvore que a criou, nunca sujou os sapatos na terra empapada pela chuva benfazeja,    nunca foi capaz de sentir e olhar o homem do campo que trabalha a terra, que    conduz o tractor, que colhe as uvas, como um seu igual numa sociedade diversificada    de funções. </P>     <P align="justify" > Confesso que tenho pena do citadino nascido na Maternidade    Alfredo da Costa que cresceu rodeado de confortos, carinhos e brinquedos, perfumado    com água-de-colónia que tem como horizontes imediatos o supermercado e a sala    do cinema e que nunca pôde apreciar o encanto da sombra acolhedora de uma árvore    em dia de canícula ou o quentinho oloroso da fogueira que crepita na lareira    enquanto se faz a ceia. </P>     <P align="justify" > Naturalmente que as pessoas com esse passado e esse presente    dificilmente sentirão o Eça rural, o Eça contrastante, o Eça mordaz ao delicada    mas firmemente comparar a «seca» das comodidades da ultima moda do 202 dos Champs-Elisées    com o «caldo de galinha» que rescendia com pedaços de fígado e moela que Jacinto    saboreou com inesperado prazer no dia da sua chegada à sua mansão de Tormes    na companhia do Zé Fernandes de Guiães. </P>     <P align="justify" > Em toda a obra de Eça de Queiroz se pode admirar o primor    e o rigor das suas descrições e de tal forma que quem o lê sente-se integrado    naquilo que descreve quer seja a sala de jantar do lisboeta, a alcofa onde o    Primo Basílio se deliciava em amores ilícitos, o complexo e diversificado instrumental    do palácio parisiense, o adro de uma igrejinha, «centro de devoção e romaria    de léguas em redor», o ambiente calmo mas abafado dum fim de tarde estival numa    pequena cidade de província quando os seus grandes senhores foram para águas    ou se acolhem nas suas quintas dos arredores para acompanharem as vindimas.  </P>     <P align="justify" > Ficamos impressionados com o pormenor das suas Notas Contemporâneas,    parece que estivemos com ele a assistir à abertura do canal de Suez. </P>     <P align="justify" > Nos seus escritos procura os termos certos e é notável nele    o ajustamento que faz nos nomes das pessoa e das coisas. Criticam-no pelo uso    e abuso de galicismos. Por um lado, ele nunca perdeu a influência dos salões    de Paris e para esses ambientes escolheu nos seus escritos as palavras inseridas    no meio. Também tenho pena que ele não fosse capaz de se libertar dessa muleta    quando se integrou em portuguesíssimos cenários. </P>     <P align="justify" > Na obra de Eça de Queiroz, muito diversificada, mas sempre    rica e profunda, encontramos por vezes temas algo escabrosos, daqueles que todos    sabiam que existiam mas sobre os quais se fazia um silêncio comprometedor. Lembro-me    dos tempos da minha juventude e do seu enquadramento social em que alguns dos    seus livros não eram aconselháveis a menores ou nem sequer a sua leitura autorizada.  </P>     <P align="justify" > Eça explorou alguns desses factos raros mas possíveis de    acontecer, mas a tudo e a todos ele deu um enquadramento e um envolvimento que    dá consistência aos episódios que de excepcionais quase se tomam como vulgares.  </P>     <P align="justify" > Vivendo nas cidades, nas tertúlias e nos ambientes requintados    da diplomacia, com fugidias passagens por cidade de província que havia de ser    o palco de um dos seus livros, nunca esqueceu nem menosprezou os agricultores.    Nas obras em que os refere ou integra, com linguagem rica e certeira, até faz    ressaltar que mesmo os grandes senhores rurais, ricos mais com o que lhes deixaram    do que pelo fruto do seu trabalho, no meio das suas prepotências e distanciamentos,    têm assomos de actos importantes e interessantes, algumas vezes autênticos hinos    de solidariedade, de carinho inimaginável, de humanismo que o autor pretende    fazer ressaltar nos confrontos que faz. </P>     <P align="justify" > Da sua obra vasta três livros marcam pelos temas ligados    ao meio rural que diga-se é bem diferente e muito mais abrangente que a agricultura    e os agricultores: O Crime do Padre Amaro, a Ilustre Casa de Ramires e a Cidade    e as Serras, este último para mim um livro admirável que durante muitos anos    foi meu livro de cabeceira. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="justify" > Naturalmente que no tempo que vou ter disponível não poderei    chamar à colação tantos e tantos aspectos em que Eça descreve magistralmente    o ambiente rural. Por uma decisão, sempre discutível, mas que a escassez de    tempo impõe, farei uma brevíssima apresentação dos dois primeiros e concentrar-me-ei    no último no tempo que me resta. </P>     <P align="justify" > No Crime do Padre Amaro o autor traz à ribalta a história    de um padre, saído de famílias humildes como tantos que na flor da idade e na    pujança do seu vigor físico, vai exercer o seu múnus sacerdotal numa pequena    freguesia rural dos arredores de Leiria e onde acabou por trair os seus votos    de castidade num meio em que era respeitado e querido, onde o trabalho paroquial    lhe deixava muitas horas sem ocupação, muito tempo de ócio e isolamento, onde    a necessidade de convívio o projectou para ambientes em que a tentação se revelou    superior às suas forças e o ânimo e as boas intenções frequentemente se afogam    noutras solicitações mais fortes e mais tentadoras de seguir. </P>     <P align="justify" > Mas veja-se a dignidade com que o autor trata os seus personagens,    mesmo inseridos numa sociedade tradicionalista, acompanhando-os na evolução    dos acontecimentos e das tentações progressivamente aumentadas logo que se cede    no primeiro combate, compreendendo e exaltando o seu sofrimento interior e dificuldade    de gerir uma vida dúbia, em que os personagens reconhecem o erro sem encontrarem    maneira de se libertaram de uma situação em que o prazer e satisfação carnais    se misturam com o forte remorso do dever e do compromisso solene a que se faltou.    Mesmo assim o autor não atira para o monturo um homem faltoso mas nem por isso    deixou de o ser. Exalta-o pela coragem e dignidade de assumir as suas responsabilidades,    de garantir a vida do fruto que criou, de assumir os riscos da crítica acerba    dos seus concidadãos. </P>     <P align="justify" > O Crime do Padre Amaro não é um livro pornográfico nem de    maus costumes e tem o condão de poder mostrar à juventude, o que deve conhecer    em idade própria, que a vida tem muitas ratoeiras. Entendo-o como um aviso a    todos aqueles que se julgam fortes na sua fraca carne e como uns momentos muito    curtos de prazer custam por vezes uma eternidade de sofrimento. </P>     <P align="justify" > Penso eu que, devidamente acompanhado, este livro deveria    ser conhecido e meditado por muitos dos nossos jovens para que compreendam e    entendam que, de um momento para o outro, cai a casa. </P>     <P align="justify" > Na Ilustre Casa de Ramires conta-se a história de Gonçalo    Mendes Ramires, conhecido no povo como «fidalgo da Torre», solteirão na sua    casa de Santa Ireneia, com torre fortificada vinda dos tempos anteriores à fundação    da nacionalidade «o mais genuíno e antigo fidalgo de Portugal» cuja casa «entroncava    em Ordonho Mendes, senhor de Treivedo que casou em 967 com D. Elduarda, condessa    de Carrion, filha de Bermudo o Gottoso rei de Leão» contando entre os seus antepassados    fidalgos que resistiram à invasão castelhana, outros que ajudaram os reis na    conquista como D. Tructesindo Mendes Ramires, o amigo e Alferes-mor de D. Sancho    I, outros que andaram nas cruzadas, outros que combateram no norte de África,    outros que foram nas armadas dos descobrimentos. </P>     <P align="justify" > Senhor de casa e quinta com eido, com feitor e jornaleiros,    com terras arrendadas e parcelas longínquas que mal conhecia, integra-o Eça    na paisagem luxuriante dos arredores da cidade de Oliveira, nesse tempo sede    de grande actividade política. Vivendo dos seus rendimentos, com a sua roda    de amigos e alguns outros com quem não tem ou não deseja ter relações ou estas    são tensas, tentam-no os amigos aduladores no seu amor próprio para escrever    uma crónica, mesmo que historicamente pouco exacta, dos actos e feitos notáveis    dos seus antepassados a publicar numa revista dirigida por um seu amigo que    lhe daria guarida e que aparecia nos escaparates da capital. </P>     <P align="justify" > Essa tarefa que o fidalgo aceitou como um compromisso de    honra à memória dos seus antepassados tê-lo-á tornado muito mais sensível ao    bichinho da política para onde os amigos o iam empurrando- poucos o podiam ser    melhor que ele, segredavam-lhe ao ouvido e ele tudo foi fazendo para obter a    suprema ventura de se sentar numa cadeira do poder político. Para isso não recusou    retractar-se fazendo as pazes com antigo adversário só porque ele tinha os cordelinhos    na mão, de se passear de braço dado e em sinal de grande amizade nas tertúlias    de Oliveira onde dias antes o crucificara e ridicularizara, de colocar no caminho    de sua própria irmã, esposa de Barrolo, o homem que brevemente roubaria a fidelidade    que ela prometera a seu marido. </P>     <P align="justify" > Como o tempo que tenho é muito pouco, vou pegar num dos muitos    trechos de excelente e profunda descrição de uma paisagem rural, discutível    entre tantas outras e todas elas profundamente significativas. Vamos meter-mo-nos    com o autor numa cena curiosa e significativa. </P>     <P align="justify" > Gonçalo Mendes Ramires era fidalgo. Naquele tempo palavra    de fidalgo era palavra de rei, era compromisso sagrado. O povo tinha pelo fidalgo    consideração e respeito pela condição social que reconhecia, pela casa que habitava,    pela empregadoria que as suas posses concediam numa terra rural e pobre. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="justify" > Um dia, sem feitor nas suas terras da Torre, foi abordado    pelo José Casco, um lavrador de Bravaes respeitado em toda a freguesia pela    sua seriedade e força espantosa, que lhe queria tomar de renda a referida propriedade.    O fidalgo, talvez contente por sair de uma enrascadela, apressou-se a aceitar    a oferta de 910 mil réis. À maneira antiga, o fidalgo «apertou a mão ao lavrador    que entrou na cozinha a enxugar um largo copo de vinho, esfregando na testa    nas endoveias rijas do pescoço o suor ansiado que o alagava». </P>     <P align="justify" > Alguns dias mais tarde o fidalgo foi abordado pelo velho    e experimentado agricultor da região, o Pereira, com o mesmo objectivo. O fidalgo,    vendo em perspectiva um bom negócio, fez-se esquecido do compromisso anteriormente    tomado e pediu ao lavrador uma renda de 950 mil réis. Um significativo aumento.    O Pereira ficou hesitante, estava no meio do negócio o José Casco com o qual    não desejava conflitos «porque ele era um homem violento e assomado». O fidalgo    tranquilizou-o. Pela parte dele não houvera compromisso mas apenas se falou.    O Pereira «tirou da algibeira do colete a caixa de tartaruga e sorveu detidamente    uma pitada com o carão pendido para a esteira, hesitava depois da palavra trocada    pelo fidalgo». </P>     <P align="justify" > O fidalgo desculpou-se porque «não lavrara escritura» com    o Casco e «não confirmara decisivamente a palavra de Gonçalo Mendes Ramires».    Ele tinha na sua frente os oitenta mil reis de diferença das duas propostas.    Mas a consciência não o apoiava. </P>     <P align="justify" > O fidalgo, «depois de um momento em que pestanejava nervosa    e tremulamente», estendeu a mão aberta ao Pereira: agora ficava definitivamente    a palavra dada. </P>     <P align="justify" > Algum tempo mais tarde o fidalgo passeava pelos campos, «uma    girândola de foguetes estalou ao largo para os lados de Bravães onde no domingo    se fazia a romaria celebrada da Senhora das Candeias. Depois das chuvas daqueles    três dias uma frescura descia da céu amaciado e lavado sobre os campos mais    verdes. Pela vereda silenciosa e ainda húmida, o fidalgo chegara à esquina do    muro da quinta onde uma ladeirenta e apertada azinhaga a divida do pinheiral    e da mata. Do portão nobre, que outrora se erguera nesse recôndito com lavores    e brasão de armas restam apenas os dois umbrais de granito amarelados do musgo,    cerrados contra o gado por uma cancela de tábuas mal pregadas, carcomidas da    chuva e dos anos. E nesse momento da azinhaga funda, apagada em sombra, subia,    chiando carregado de mato, um carro de bois, que uma linda boeirinha guiava.    O carro passou lento. E logo atrás surdiu um homem esgrouviado e escuro trazendo    ao ombro o cajado, donde pendia um molho de cordas. O fidalgo reconheceu o José    Casco dos Bravaes. E seguia como quem desatento pela orla do pinheiral assobiando,    raspando com a bengalinha as silvas floridas do valado. O outro porém estugou    o passo esgalgado e lançou duramente no silêncio do arvoredo e da tarde o nome    do fidalgo. Então, com um pulo do coração Gonçalo Mendes Ramires parou forçando    um sorriso afável: olá é você José. Então que temos?» </P>     <P align="justify" > Casco ficou furioso. Se o fidalgo como era tinha dado a sua    palavra isso para um fidalgo deveria ser tudo. «O Casco engasgara com as costelas    a arfar sob a encardida camisa de trabalho. </P>     <P align="justify" > Por fim, desenfiando as cordas do marmeleiro que cravou no    chão pela choupa: Temos que eu falei sempre claro com o fidalgo e não era para    que depois faltasse à palavra. Gonçalo Mendes Ramires levantou a cabeça como    se levantasse uma massa de ferro e lá se tentou justificar dizendo que não havia    entre eles escritura assinada. </P>     <P align="justify" > Perante esta resposta o Casco emudeceu assombrado. Depois    com uma cólera em que lhe tremiam os beiços brancos, lhe tremiam as secas mãos    cabeludas fincadas no cabo do varapau retorquiu: Temos que eu falei sempre claro    com o fidalgo e não era para que depois me faltasse à palavra». </P>     <P align="justify" > O fidalgo sente-se em maus lençóis. Escuda-se que ali não    era lugar para conversarem sobre essas coisas, que o receberia em sua casa e    então tratariam do assunto. </P>     <P align="justify" > Gonçalo, «enfiado, já endireitava para o pinhal com as pernas    moles, um suor arrepiado na espinha quando o Casco num rodeio, num salto leve,    atrevidamente, se lhe plantou diante, atravessando o cajado. O fidalgo tem de    se justificar ali e agora. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="justify" > Gonçalo relanceou esgaseadamente em redor na ânsia de um    socorro. Só o cercava solidão, arvoredo cerrado, Na estrada apenas clara sob    o resto da tarde, o carro de lenha, ao longe chiava mais vago. As ramas altas    dos pinheiros gemiam com um gemer dormente e remoto. Entre os troncos já se    adensava sombra e névoa». Então estarrecido Gonçalo tentou um refúgio na ideia    da justiça e da lei que aterra os homens do campo. E como amigo que aconselha    um amigo, com brandura e «com os beiços ressequidos e trémulos» ameaçou o Casco    como tribunal e a cadeia. </P>     <P > «Então de repente o Casco cresceu todo no solitário caminho, negro e alto    como um pinheiro, num furor que lhe esbugalhava os olhos esbraseados quase sangrentos    interroga o fidalgo que ainda por cima o ameaça com a justiça e avança para    o fidalgo: então, com os diabos, primeiro que entre na cadeia lhe heide-lhe    esmigalhar os ossos. </P>     <P > Erguera o cajado. Mas num lampejo de razão e respeito ainda gritou com a    cabeça a tremer para trás através dos dentes cerrados: fuja fidalgo que me perco».  </P>     <P > E o fidalgo, o corajoso Ramires, «correu à cancela entalada nos velhos umbrais    de granito pulou por sobre as tábuas mal pregadas, enfiou pela latada que orla    o muro numa carreira furiosa de lebre acossada. </P>     <P align="justify" > Ao fim da vinha junto aos milheirais uma figueira-brava,    densa em folhas, alastrara dentro de um espigueiro de granito destelhado e desusado.    Nesse esconderijo de rama e pedra se alapou o fidalgo da Torre arquejando. O    crepúsculo descera sobre os campos e com ele uma serenidade em que adormeciam    frondes e relvas. Afoutado pelo silêncio, pelo sossego, Gonçalo abandonou o    cerrado abrigo recomeçou a correr, num correr manso, na ponta das botas brancas,    sobre o chão mole das chuvadas até ao muro da Mãe de Água e julgando vir gente    pediu socorro». </P>     <P align="justify" > E eis que tudo vira. </P>     <P align="justify" >Respirou «agasalhado no pomar vedado para onde entrou rebentando    furiosamente a cancela» e caminhou para casa sem conseguir ver ninguém. Finalmente    aparece o pessoal de sua serventia. O Casco bêbedo rompendo com ele sem o conhecer    «com uma foice enorme a berrar: morra que é marrão». E ele na estrada apenas    com a bengalinha. « Mas atira um salto, a foiçada resvala sobre um tronco de    pinheiro, então arremete desabaladamente brandindo a bengala e ataranta o Casco    que recua se some pela azinhaga a cambalear e a grunhir». Eis a versão que o    valente contou aos seus criados do encontro com o colérico Casco naquele fim    de tarde na azinhaga deserta. </P>     <P align="justify" > E assim se fazem as verdades. </P>     <P align="justify"> Daí a pouco o Fidalgo já acrescentava que o Casco trazia uma    espingarda no carro. </P>     <P align="justify" > E depois começa a descrição da cena de valentia do fidalgo    que deu uma lição num bêbado que sem o conhecer o queria matar numa viela erma    e sombria. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="justify" > Para termo deste episódio a pressão política do Fidalgo faz    prender o Casco. </P>     <P align="justify" > Eis a exploração da cobardia e do poder feita pelo Eça. Mas    logo a seguir o fidalgo atende a mulher do Casco que lhe pede para interceder    para que o marido saia da cadeia e vai ao ponto de levar para sua casa a filha    doente daquele com quem tivera o desentendimento. </P>     <P align="justify" > A Cidade e as Serras foi o último livro publicado cuja edição    o autor já não chegou a rever na sua totalidade. Dos três referidos é aquele    em que o autor contrasta mais o citadino e o rural. </P>     <P align="justify" > Vamos acompanhar Eça de Queiroz em algumas das passagens    deste livro. </P>     <P align="justify" > Eça leva-nos a Paris que muito bem conhecia, instala-nos    no 202 dos Champs Elisées onde nascera e vivia «o fidalgo Jacinto, descendente    de D. Jacinto Galião apoiante de D. Miguel que não quis ficar na terra perversa    donde partira, esbulhado e escorraçado, aquele rei de Portugal que levantava    na rua os Jacintos, quando aquele desejado infante com dois baús amarados sobre    um macho tomara o caminho de Sines e do final desterro». </P>     <P align="justify" > Jacinto cresceu e fez-se homem em Paris e nos anos que já    levava de vida nunca viera a Portugal. Vivia com os rendimentos das suas terras    do Douro entregues aos cuidados do procurador Silvério e as terras de Tormes    entregues aos cuidados do caseiro Melchior. </P>     <P align="justify" > «Não teve sarampo e não teve lombrigas. As letras, a taboada,    o latim entraram por ele tão facilmente como o sol por uma vidraça». </P>     <P align="justify" > Jacinto concebeu a ideia de que «o homem só é superiormente    feliz quando é superior-mente civilizado». </P>     <P align="justify" > Exalta a felicidade do homem que, colocando nos olhos um    binóculo de corridas, é capaz de ver o que está dentro da montra da mercearia    do outro lado da rua. Como se isso fosse felicidade </P>     <P align="justify" > Rodeia-se de todas as comodidades e inventos, monta um elevador,    apesar do 202 ter apenas 2 andares e «para entreter os passageiros durante os    7 segundos da viagem, instala um divã, uma pele de urso, um roteiro das ruas    de Paris e prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na antecâmara manda    instalar um sistema de aquecimento onde um criado mais atento ao termómetro    que o piloto à agulha, regulava destramente a boca dourada do calorífero. A    biblioteca, atravancada com uma pilha monstruosa de novos livros, ficava iluminada    por uma coroa de lumes eléctricos comandada por um simples toque na parede,    nas estantes monumentais repousavam mais de 30 mil volumes encadernados em branco,    em escarlate, em negro, com retoques de ouro, hirtos na sua pompa e na sua autoridade    como doutores num concílio. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="justify" > No seu gabinete de trabalho Jacinto munira-o de tapetes sombrios    onde os passos perdem os sons, luzes, chaminés, cortinados, biombos e toda uma    máquina sumptuosa de tubos, engrenagens, hastes, friesas, rigidesas de metais.    Na sua imensa mesa de trabalho uma estranha e miúda legião de instrumentosinhos    de níquel, de aço, de cobre, de ferro, de gumes, com argolas, com tenazes, com    ganchos, com dentes, todos de utilidades misteriosas. Toca o telefone, noutro    canto ouve-se </P>     <P align="justify" > o tic-tic-tic açodado quase ansioso do telégrafo que anunciava    que a fragata russa Azzoff entrara em Marselha com avaria. No lado da cadeira    da secretária pendiam gordos tubos acústicos para Jacinto soprar as ordens através    do 202, cordões tímidos e moles que corriam para os recantos de sombra à maneira    de cobras assustadas. Sobre a banquinha uma máquina de escrever, adiante uma    máquina de calcular, uma estante repleta de dicionários, outra de manuais, outra    de atlas, outra de guias, um aparelho composto de lâminas de gelatina onde desmaiavam    meio chupadas as linhas de uma carta, outro erguia sobre um livro brochado como    para o decepar um cutelo funesto, outro avançando a boca duma tuba toda aberta    para as vozes do invisível e nem sequer faltavam as penas eléctricas. </P>     <P align="justify" > Como zumbido de um insecto de asas harmoniosas, um funil    de marfim debitava em voz muito mansa mas muito decidida uma conferência sobre    metafísica positiva. </P>     <P align="justify" > Noutro sitio um aparelho que arranca as penas velhas, outro    numerava rapidamente as páginas de um manuscrito, aqueloutro raspava emendas,    outro colava estampilhas, outro imprimia datas, outro derretia lacre, outro    contava documentos. </P>     <P align="justify" > A sua mesa de toilette, por causa dos micróbios, estava atulhada    de utensílios de tartaruga, marfim, madrepérola, aço, prata, escovas largas    como as rodas de um carro sabino, estreitas e mais recurvadas que o alfange    de mouro, côncavas em forma de telha aldeã, pontiagudas em feitio de folha de    hera, rijas que nem cerdas de javali, macias que nem penugem de rola, máquinas    monumentais com dois jactos de água graduados de 0 a 100, dois duches, fino    e grosso, para a cabeça, uma fonte esterilizada para os dentes, repuxos borbulhantes    para a barba, botões discretos que roçados desencadeavam esguichos, cascatas    cantantes ou um leve orvalho estival, toalhas de felpa, toalhas de linho, toalha    de corda entrançada para restabelecer a circulação». </P>     <P align="justify" > Ao jantar serviam-se «diversas águas engarrafadas, ostras    clássicas, de Marennes, sopa de alcachofras, ovas de carpa, frangos e túberas,    filetes de veado macerado em Xerez com geleia de noz e laranjas geladas com    éter». </P>     <P align="justify" > Zé Fernandes, regressado das durezas do Douro, depois de    5 anos de ausência dos ambientes parisienses, estava estupefacto com tão complexo    e diversificado equipamento. </P>     <P align="justify" > Eis a civilização, eis o príncipe da Grã-Ventura. </P>     <P align="justify" > Mas um dia num banquete especialmente preparado e com a casa    cheia de convidados, </P>     <P align="justify" > o peixe da refeição ficou parado no elevador que trazia a    comida da cozinha para a sala de jantar. Para uns foi uma festa, para outros    uma diversão. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="justify" > Para Jacinto «foi uma maçada» uma seca, uma desilusão. Toda    a alta técnica falhava, até se rebentara na casa de banho a tubagem de água    quente e lançara o pânico no 202. </P>     <P align="justify" > Jacinto, envolvido neste conjunto de progressos da técnica    que ele confundia como civilização, rodeado de amigos e de figuras simbólicas    que sempre aparecem e frequentam os lugares de mundanismo e onde se come bem,    sente o tédio da insatisfação. Nada enchia a sua alma sensível. Queria sempre    mais. A vida tornou-se «uma seca, o corpo ficou flácido e transparente iluminado    pela luz artificial dos candeeiros e a pele a sentir a necessidade dos afagos    de um bom sol meridional». </P>     <P align="justify" > Zé Fernandes, regressado da sua viagem a Portugal, impressionou-se    com a prostração de Jacinto. E foi o Grilo, o criado preto e que a seu lado    o acompanhava no cenário de uma vida de mundanismo, que melhor definiu o estado    de alma do seu amo: «O senhor padece de fartura». </P>     <P align="justify" > Mas de um momento para o outro deu-se uma grande mudança.  </P>     <P align="justify" > Recebe-se em Paris uma carta do procurador Silvério das terras    de Tormes anunciando que devido a uma tempestade, a capela onde repousavam os    «preciosos restos» dos antepassados de Jacinto fora arrastada pela força das    águas e das terras e com ela «as respeitáveis relíquias». Que ele «já recolhera    os despojos com todo o respeito e lhes dera uma morada provisória e pedia instruções    a Jacinto quanto à reconstrução da capela». </P>     <P align="justify" > No fundo da alma de Jacinto acordou o passado e os Jacintos    todos seus antepassados. Jacinto até aí concentrado e absorvido pelo mundanismo    de Paris volta a sua atenção para as suas origens, recorda-se que «nunca entrara    numa igreja» mas a sua corda sensível vibra de respeito pelos antepassados que    lhes deram o ser e a fortuna com a qual vivia opulentamente na Cidade-Luz. Deu    ordens para a reparação que se impunha. </P>     <P align="justify" > Começa a impacientar-se porque os aparelhos, maravilha da    técnica e da civilização, avariavam-se ou não funcionavam, os que lhe dão informações    supérfluas irritam-no, o pó incomoda-o, a Cidade de Paris, vista do alto do    Sacré Coeur, mostrou outros interiores que ele nunca desvendara e em que nunca    pensara. </P>     <P align="justify" > Os referenciais do seu espírito vão mudando. Paris já não    era para ele o centro da cultura, do progresso e da intelectualidade. Paris    era «uma seca». </P>     <P align="justify" > Jacinto caíra numa prostração e num pessimismo irritado.    Isola-se dos seus amigos e conhecidos, tudo o aborrece. Toda a sua postura «é    como a de um boi inconsciente que marcha sobre a canga e o aguilhão, os jornais    saturam-no, na sua rica biblioteca não encontra nada que lhe interesse ler,    aos criados recomenda que àqueles que o procuram os informe que não está em    Paris, que abalou para o campo, que abalou para Marselha, que morreu». </P>     <P align="justify" > A lembrança de Portugal continua a roêlo e a dominá-lo e    no fim de um inverno escuro e pessimista Jacinto assomou à porta do quarto de    Zé Fernandes e dispara como um tiro: «Vou partir para Tormes». </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="justify" > Zé Fernandes ficou abismado e preocupado com a decisão. A    casa de Tormes estava inabitável, «os caseiros que lá vivem há 30 anos dormem    em catres, comem o caldo à lareira, usam as salas para secar o milho e os únicos    móveis sobreviventes são um armário e uma espineta de charão coxa e já sem teclas».  </P>     <P align="justify" > Jacinto não recua. Partiria em Abril e entretanto mandaria    arranjar a casa e levaria para lá de Paris os confortos necessários a uma estadia    de alguns meses. </P>     <P align="justify" > E começou desde logo a tomar providências. Chamou um agente    da Companhia Internacional de Transportes para fazer a remessa das mobílias    e outros apetrechos e ficou espantado quando este declara saber muito bem onde    era Tormes, essa pequena aldeia enterrada nas serranias do Douro. Infeliz ou    felizmente para o fidalgo havia outra Tormes e essa é que o agente conhecia    e foi para aí que fez o despacho das coisas de Jacinto. </P>     <P align="justify" > Começa então no 202 o encaixotamento de todos os confortos    necessários «para um mês na serra áspera». </P>     <P align="justify" > Jacinto dá um passeio de despedida pelo Bois de Boulogne,    olha os jardins e as ruas , os fiacres dos amigos e conhecidos, pensa na grande    viagem que o espera. Descendo os Campos Elísios há nele uma hesitação: «é muito    grave deixar a Europa». </P>     <P align="justify" > A grande viagem começa. O Anatole e o Grilo seguem à frente    num fiacre atulhado de livros, de estojos, de paletós, de impermeáveis, de travesseiras,    de águas minerais, de sacos de couro, de rolos de mantas, mais atrás um omnibus    rangia sob a carga de 23 malas e na Estação, antes do embarque, Jacinto ainda    comprou todos os jornais, todas as ilustrações, horários, mais livros e um saca-rolhas    de forma complicada e hostil </P>     <P align="justify" > E meu caro Zé Fernandes: que aventura». </P>     <P align="justify" > A viagem longa e cansativa pelas Espanhas foi reconfortada    pelas deferências dos chefes das estações por onde iam passando avisados como    estavam da passagem do príncipe da Grã-Ventura. </P>     <P align="justify" > O comboio chegou atrasadíssimo e em noite chuvosa a Medina,    mal dando tempo a uma transferência rápida para o comboio de Salamanca que viria    para terras portuguesas e estava prestes a sair. </P>     <P align="justify" > Jacinto perdeu os criados, perdeu a bagagem e Zé Fernandes    apenas salvou um jornal e um «paletot». </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="justify" > E assim chegaram a Portugal tão distantes do conforto de    Paris. «Um fardeta, com imensa doçura pergunta se não tinham bagagem a declarar».    Que não. Pudera, ficara tudo com os criados que se perderam na mudança precipitada    de Medina. Chegam a Portugal como a terra prometida. «Cheira bem. Num largo    e doce silêncio aparece uma estação sossegada, muito varrida, com rosinhas brancas    trepando pelas paredes e outras rosas em moitas num jardim onde um tanquesinho    abafado de limos dormia sob mimosas em flor que rescendiam. Um moço pálido de    paletot cor de mel, vergando a bengalinha contra o chão, contemplava pensativamente    o comboio. Agachada diante da sua cesta de ovos, uma velha contava moedas de    cobre no regaço. Sobre o telhado secavam abóboras. Por cima rebrilhava o profundo    rico e macio azul de que os meus olhos andavam aguados. </P>     <P align="justify" > Atravessa os penhascos que desabavam até largos socalcos,    cultivados de vinhedos, numa esplanada branquejava uma casa nobre de opulento    repouso, com a capelinha muito caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio descia    com vela cheia um barco lento carregado de pipas». </P>     <P align="justify" > Fazendo planos para a vida das serras com os confortos mandados    de Paris e com o pessoal contratado pelo Melchior «chegam à estação de Tormes,    clara, simples, à beira do rio, entre rochas, com os seus vistosos girassóis    enchendo um jardinsinho breve, duas altas figueiras assombreando o pátio e por    trás a serra coberta de velho e denso arvoredo». </P>     <P align="justify" > Do pessoal a aguardar o senhor de Tormes não estava ninguém,    nem vivalma além do Pimentinha, «chefe da Estação, de imensa barriga e bochechas    menineiras». Ninguém esperava o Fidalgo. O Silvério «estava há meses para o    Alentejo para ver a mãe que apanhara uma cornada de um boi, o Melchior não aparecia    por ali há meses não havia cavalos para a jornada pelos contrafortes da serra».  </P>     <P align="justify" > E o senhor de Tormes e o seu amigo Zé Fernandes, depois de    horas de espera e de recados, lá conseguiram «uma égua e um burro em pelo cedidos    por um caseiro do fidalgo que vivia nas redondezas da Estação, um rapaz e um    podengo como guias». </P>     <P align="justify" > E assim se admirou esse Portugal amado, onde tudo que se    via se admirava e espantava nessas serras benditas. «Atravessaram uma trémula    ponte de pau sob um riacho quebrado por pedregulhos, admiraram a robustez das    oliveiras e os bandos de arvoredo. Por toda a parte a água sussurrante a água    fecundante». </P>     <P align="justify" > Deixemos os nossos viajantes subirem lentamente a serra e    extasiarem-se com a bonita e variegada paisagem das montanhas que subiam. </P>     <P align="justify" > Vamos esperá-los à avenida das faias. «Aí o rapaz, atirando    uma vergastada no burro e na égua, gritou: Aqui é que estemos meus amos». E    assim Jacinto, o parisiense habituado a todos os confortos e a recusar beber    outra água que não fosse a engarrafada, apareceu diante da casa dos seus avós.  </P>     <P align="justify" > «Ao fundo via-se o portão da quinta com o seu brasão de armas    de secular granito que o musgo retocava e envelhecia». </P>     <P align="justify" > Toca-se à porta, ladram os cães, vem o caseiro. Pasmado,    olha as visitas. Que não, que ninguém sabia de nada, que Silvério estava para    Castelo de Vide, que não tinham chegado nenhuns caixotes que as obras iam-se    fazendo lentamente, que só esperavam o fidalgo para as vindimas. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="justify" > Jacinto ficou como fulminado. Perdido mo meio da serra sem    quaisquer dos seus confortos de Paris. Zé Fenandes oferece a sua casa em Guiães    mas está distante «duas horas fartas a cavalo», aconselha Jacinto a ver o casarão,    comer a boa galinha que «o nosso Melchior nos assa no espeto», dormir nessa    noite numa enxerga e depois para sua casa pelo fresco da manhã. </P>     <P align="justify" > Subiram as escadas até ao salão nobre do casarão que Jacinto    contemplava com horror, com um «monte de canastras a um canto e algumas enxadas    entre paus» noutro, no tecto viam-se «manchas no céu», as janelas não tinham    vidraças, as tábuas podres do soalho rangiam e cediam. </P>     <P align="justify" > Mas noutras salas que visitaram já tinha entrado o carpinteiro.    O soalho estava remendado, as paredes tinham «a alvura da cal fresca», as janelas    já tinham vidros. A reparação recomendada por Jacinto estava em curso. A última    divisão, um grande salão «rasgado por 6 janelas», estava mobilado por um armário    e a um canto uma enxerga parda. </P>     <P align="justify" > Ali acamparam. Jacinto «caiu esbarrondado» pelo desastre    que lhe sucedera. Levantase, vem à janela, olha. «É uma lindeza» diz. «E que    paz». </P>     <P align="justify" > «Sob a janela vicejava fartamente uma horta com repolhos,    feijoal, talhões de alfaces, gordas folhas de abóboras rastejando. Uma eira    velha e mal alisada dominava o Vale. Toda a esquina do casario se encravava    num laranjal. E duma fontinha rústica, meio afogada em rosas tremedeiras, corria    um longo e rutilante fio de água». </P>     <P align="justify" > Jacinto embevecido desceu ao quintal. Tudo para ele era novo    e era belo. Deu-lhe a fome, passou pela cozinha onde no meio do negrume da fuligem    secular «refulgia a um canto sobre o chão de terra negra a fogueira vermelha    lambendo os tachos e panelas de ferro». O pessoal emudeceu diante do fidalgo:    «o jantarinho para suas incelências não demora um credo». </P>     <P align="justify" > Quanto a camas, bem, há «uma enxergazinha no chão» que é    o que se pode arranjar. Lá pela limpeza dos lençóis responde o Melchior. </P>     <P align="justify" > Jacinto entusiasmado continuou a viagem, bebeu água da fonte    e esqueceu as águas engarrafadas, «atirou pulos aos ramos copados de uma cerejeira    carregada de cerejas», apeteceu as alfaces que viu na horta, percorreu os milharais    com pasmo e admirou os vetustos carvalhos plantados pelos seus antepassados.  </P>     <P align="justify"> Voltaram a casa que agora, depois deste passeio reconfortante,    já não pareceu tão sombria, entram no salão, Jacinto aprecia o doce sossego,    contempla as estrelas. </P>     <P align="justify" > Daquela janela aberta sobre as serras Jacinto apercebeu-se    que havia outra forma de viver a vida e suspirou, mas suspirou como quem descansa.  </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="justify" > Vem aí o jantarinho. O príncipe ficou «estarrecido com a    mesa encostada ao muro enegrecido, coberta por uma toalha de estopa, duas velas    de sebo em castiçais de lata, grossos pratos de louça amarela, colheres de estanho,    garfos de ferro, os copos de um vidro áspero que ainda conservavam a cor roxa    do vinho, uma malga atestada de azeitonas pretas». </P>     <P align="justify" > A comida vem a caminho. Jacinto «esfregou energicamente com    a ponta da toalha o garfo negro e a fosca colher», aparece a sopa a fumegar.,    «desconfiado provou o caldo que era de galinha e rescendia». Provou, arregalou    os olhos e sorrindo gostou. </P>     <P align="justify" > Estava feita mais uma conversão do nosso Jacinto ao meio    rural. </P>     <P align="justify" > Três vezes comeu aquela preciosa e perfumada sopa com fígado    e moela e depois atirase ao arroz de favas, a comida dos jornaleiros das suas    propriedades. Em Paris abominava as favas. Aqui provou e gostou. Destas sim.    Destas favas «nem em Paris». Bateu-se com um «louro frango» acompanhado da salada    que tinha apetecido no quintal. Tudo «divino». O vinho de Tormes, «um vinho    fresco esperto e seivoso» caia de alto «duma bojuda infusa» e mereceu-lhe rasgados    elogios. </P>     <P align="justify" > Jantaram deliciosamente e voltaram para as janelas desvidraçadas    a contemplar o sumptuoso céu de verão. Jacinto sente sono. Despojado de tudo    aquilo que em Paris lhe era indispensável, os chinelos de quarto são substituídos    por uns tamancos e o pijama cómodo e macio pela «camisa enorme de estopa áspera    como uma estamenha de paciente» e dorme como um justo. </P>     <P align="justify"> O tempo que dispunha para vos falar esgotou-se. Deixemos o    Jacinto a admirar e a integrar-se no novo mundo que lhe trouxe uma felicidade    que ele nunca sentira. </P>     <P align="justify" > Jacinto fez-se lavrador, administrou os bens que os seus    antepassados lhe deixaram, casou-se com a prima do Zé Fernandes, teve filhos.    Finalmente chegaram os caixotes que durante muito tempo ficaram encalhados na    Tormes espanhola. Jacinto só mandou abrir alguns para dar comodidades ao seu    casarão mas a maior parte deles que continham dentro todos os primores da técnica    e os avanços da civilização nem sequer foram abertos. </P>     <P align="justify" > Jacinto quer levar a mulher e os filhos a Paris para conhecerem    a cidade em que durante tantos anos viveu e onde, no meio de todos os avanços    da técnica e da civilização, ele nunca encontrara a verdadeira felicidade. Mas    voltaria para Tormes para as suas terras onde pode ver as plantas crescerem    e frutificarem e à noite tem o espectáculo inigualável do céu estrelado e o    aconchego da família. </P>     <P align="justify"> Eu ao pensar como nasci e me criei, em pleno meio rural, sentindo    de manhã a acordarem-se as chilreadas dos pássaros, acompanhando com alegria    o rebentar das árvores e pleno de tristeza quando os frios de Outono as despiam,    que me consolava em subir às arvores para colher deliciosos frutos, tendo bebido    a água da nascente por um pedaço de telha, comido a sopa à lareira fabricada    lentamente numa fogueira que nunca se apaga, sentindo o cheiro atraente da terra    quando se fazem as sementeiras, passando noites de calças arregaçadas a guiar    a água que rega o milheiral, consolando-me com a fresca melancia nas tardes    escaldantes de Agosto, aconchegando o estômago com sopa de castanhas nos dias    frios de Inverno, criando uma alma nova quando chega a primavera com as flores,    a rebentação das árvores e as expressões de vitalidade e alegria da natureza,    dou graças a Deus pela felicidade que me deu em saber amar a natureza e não    ser escravo do dinheiro. </P>     <P align="justify"> Infelizmente o mundo está cheio de Jacintos parisienses que    julgam que a felicidade é ter muito e cada vez mais e assim não entenderão aquele    pastor da fábula que guardando o rebanho, conversando com as ovelhas e com as    árvores, se considerava inteiramente feliz apesar de não ter uma camisa para    vestir </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="justify" > Eça neste romance dá-nos uma lição e mostra-nos um caminho.    Quando encontramos a felicidade deixemos encaixotados os nossos bens e vivamos    a paz das coisas simples. </P>     <P align="justify" >&nbsp;</P>     <P ><a href="#top1"> <sup>1</sup></a> <a name="1"></a>Conferência apresentada    no Centro de Estudos Eça de Queiroz </P>     <P ><a href="#top2"><sup>2</sup></a> <a name="2"></a>Prof. Catedrático jubilado    de Agronomia Tropical do Instituto Superior de Agronomia, Lisboa. </P>     <P >&nbsp;</P>     <P> Recepção/Reception: 2007.06.25 </P>     <P>Aceitação/Acception: 2007.07.18 </P>     <P>&nbsp;</P>      ]]></body>
</article>
