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</front><body><![CDATA[ <p><B>Barreiras Psico-socio-culturais e Estruturais &agrave; Preven&ccedil;&atilde;o    e ao Teste do VIH </b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Marta Maia </p>     <p><I>Centro em Rede de Investiga&ccedil;&atilde;o em Antropologia - ISCTE </I></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>INTRODU&Ccedil;&Atilde;O </b></p>     <p>A antropologia da sa&uacute;de e da doen&ccedil;a procura compreender melhor    as situa&ccedil;&otilde;es de cuidados de sa&uacute;de para al&eacute;m da leitura    m&eacute;dica, a um n&iacute;vel cultural, e as concep&ccedil;&otilde;es da    sa&uacute;de e da doen&ccedil;a: como reage o indiv&iacute;duo face &agrave;    doen&ccedil;a, como vive com ela, como a interpreta, etc. Por exemplo, a doen&ccedil;a    pode ser interpretada como o resultado de um acto de bruxaria e a cura pode    ser procurada junto de um curandeiro, em fun&ccedil;&atilde;o de como foi interpretada    a doen&ccedil;a. Todos temos pensamentos e comportamentos irracionais. As concep&ccedil;&otilde;es    irracionais da doen&ccedil;a n&atilde;o s&atilde;o um atributo exclusivo das    sociedades menos desenvolvidas. As protec&ccedil;&otilde;es imagin&aacute;rias    e os medos irracionais em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; transmiss&atilde;o    do VIH s&atilde;o um exemplo disso. </p>     <p>Aquilo a que chamamos protec&ccedil;&otilde;es imagin&aacute;rias s&atilde;o    cren&ccedil;as e comportamentos que conferem ao indiv&iacute;duo um sentimento    de protec&ccedil;&atilde;o face a um risco, mas &eacute; uma falsa protec&ccedil;&atilde;o    pois o indiv&iacute;duo tem comportamentos de risco de facto. Portanto, sentir-se    protegido sem o estar realmente e expondo-se de facto a situa&ccedil;&otilde;es    de risco. </p>     <p>A antropologia da sa&uacute;de pode ser &uacute;til na elabora&ccedil;&atilde;o    de campanhas de preven&ccedil;&atilde;o chamando a aten&ccedil;&atilde;o para    estes aspectos psico-socio-culturais que condicionam os pensamentos e as pr&aacute;ticas    dos indiv&iacute;duos. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><B>Barreias socioculturais e comportamentais &agrave; preven&ccedil;&atilde;o    do VIH </b></p>     <p>Estes s&atilde;o alguns exemplos de protec&ccedil;&otilde;es imagin&aacute;rias:  </p>     <p>- sentir-se protegido por n&atilde;o pertencer a grupos de risco. Perante algu&eacute;m    que lhes parece &ldquo;<I>normal</I>&rdquo; e &ldquo;<I>honesto</I>&rdquo;,    os indiv&iacute;duos n&atilde;o sentem necessidade de se protegerem. Sob o pretexto    da normalidade social, sentem-se fora de perigo. Este sentimento est&aacute;    ligado &agrave; ideia, que subsiste sobretudo entre as pessoas menos informadas,    que apenas os &ldquo;<I>marginais</I>&rdquo; (toxic&oacute;manos, imigrantes    em situa&ccedil;&atilde;o ilegal) ou os que t&ecirc;m comportamentos considerados    &ldquo;desviantes&rdquo; ou &ldquo;anormais&rdquo; (homossexuais) correm o risco    de estarem infectados. Deste modo, os indiv&iacute;duos adoptam uma pluralidade    de l&oacute;gicas preventivas irracionais no sentido de se colocarem dentro    da norma para se escaparem ao risco, l&oacute;gicas essas que v&atilde;o desde    a estrat&eacute;gia de evitamento de parceiros &ldquo;potencialmente perigosos&rdquo;    e a selec&ccedil;&atilde;o dos parceiros baseada num ju&iacute;zo est&eacute;tico    e/ou &eacute;tico do outro, at&eacute; &agrave; &#64257;delidade. H&aacute;    tamb&eacute;m, nas representa&ccedil;&otilde;es dos indiv&iacute;duos, uma suposta    intencionalidade da transmiss&atilde;o do VIH (&laquo; <I>ele/ela ama-me, nunca    me feria tal coisa, n&atilde;o me pode acontecer nenhum mal porque con&#64257;o    nele/nela</I> &raquo;) que est&aacute; subjacente &agrave; ideia que uma rela&ccedil;&atilde;o    baseada no amor e na con&#64257;an&ccedil;a &eacute; impenetr&aacute;vel aos    virus. </p> 	     <p>- sentir-se protegido por andar constantemente com um preservativo no bolso,    que acaba por funcionar como um talism&atilde; pois n&atilde;o &eacute; utilizado.  </p>     <p> - sentir-se protegido por fazer testes periodicamente (&ldquo;&#64257;z o    teste, por isso estou protegida/o&rdquo;). </p>     <p>- sentir-se protegido por frequentar apenas pessoas consideradas &ldquo;de    bem&rdquo; e escolher &ldquo;bem&rdquo; os seus parceiros, escolha baseada em    aprecia&ccedil;&otilde;es sociais e est&eacute;ticas. Os indiv&iacute;duos sentem-se    protegidos pela sua perten&ccedil;a social quando recrutam os seus parceiros    no seu pr&oacute;prio meio social, isto &eacute;, entre pessoas que estimam    serem &laquo; <I>de bem</I>&rdquo;, sentem-se protegidos tanto pela classe social    como pela proximidade com indiv&iacute;duos da mesma classe (o seu semelhante).  </p>     <p>- sentir-se protegido por ter muitos conhecimentos sobre o VIH. Alguns jovens    conhecem todos os detalhes dos mecanismos biol&oacute;gicos da transmiss&atilde;o    do v&iacute;rus e desenvolvem sentimentos de seguran&ccedil;a pelo simples facto    de estarem bem informados. A pr&oacute;pria informa&ccedil;&atilde;o cria o    sentimento de se estar fora de perigo. </p>     <p>- sentir-se protegido por se lavar meticulosamente depois de rela&ccedil;&otilde;es    sexuais sem preservativo. </p>     <p>- sentir-se protegido por ser &#64257;el, amar e con&#64257;ar no namorado(a)    e porque j&aacute; se conhecem h&aacute; muito tempo, isto &eacute;, a con&#64257;an&ccedil;a    e a longevidade da rela&ccedil;&atilde;o substituem o teste e o preservativo,    como se o amor e a con&#64257;an&ccedil;a constitu&iacute;ssem uma garantia    de protec&ccedil;&atilde;o contra as infec&ccedil;&otilde;es. As primeiras rela&ccedil;&otilde;es    sexuais s&atilde;o protegidas, mas o preservativo &eacute; pouco mais tarde    abandonado, sem testes de despistagem pr&eacute;vios. A rela&ccedil;&atilde;o    sexual &eacute; vista como uma express&atilde;o de afecto, uma troca de sentimentos    &ldquo;<I>bons</I>&rdquo;, um compromisso e uma prova de con&#64257;an&ccedil;a.    O preservativo &eacute; ent&atilde;o interpretado como um gesto para &ldquo;<I>se    proteger do outro</I>&rdquo;, um gesto de descon&#64257;an&ccedil;a contr&aacute;rio    &agrave; habitual representa&ccedil;&atilde;o do amor. </p>      <p>H&aacute; ainda tabus, h&aacute;bitos, valores culturais e condi&ccedil;&otilde;es    sociais que alimentam os comportamentos de risco. Por exemplo: </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>- A falta de motiva&ccedil;&atilde;o para procurar informa&ccedil;&atilde;o,    alimentada ainda pela aus&ecirc;ncia de educa&ccedil;&atilde;o sexual nas escolas.    A popula&ccedil;&atilde;o portuguesa &eacute; pouco informada acerca das IST.    Somos pouco pro-activos na busca de conhecimento, al&eacute;m de termos n&iacute;veis    de educa&ccedil;&atilde;o baixos comparados com a maioria dos pa&iacute;ses    europeus. </p>     <p>- Temos uma cultura de preven&ccedil;&atilde;o insu&#64257;ciente. Vamos ao    m&eacute;dico quando j&aacute; estamos muito doentes e n&atilde;o temos comportamentos    preventivos em geral. </p>     <p>- A virilidade &eacute; um imperativo que pode induzir nos homens um ilus&oacute;rio    sentimento de dom&iacute;nio e de poder. Entre os homens, a a&#64257;rma&ccedil;&atilde;o    da virilidade rouba espa&ccedil;o &agrave; preocupa&ccedil;&atilde;o pelos riscos    inerentes &agrave; sexualidade. Mais preocupados com o desempenho sexual e em    mostrar-se seguros de si, alguns homens relegam a pro&#64257;laxia para segundo    plano. Cada vez mais s&atilde;o as mulheres que trazem consigo e prop&otilde;em    o preservativo. </p>     <p>- Tamb&eacute;m o consumo excessivo de &aacute;lcool e outras drogas interfere    com a preven&ccedil;&atilde;o. As rela&ccedil;&otilde;es sexuais que ocorrem    sob o efeito de drogas, que alteram a percep&ccedil;&atilde;o e a consci&ecirc;ncia    da realidade, s&atilde;o uma situa&ccedil;&atilde;o prop&iacute;cia aos comportamentos    de risco. </p>     <p>En&#64257;m, o preconceito e a discrimina&ccedil;&atilde;o das pessoas seropositivas    representam um importante entrave &agrave; preven&ccedil;&atilde;o do VIH/sida.    &Eacute; banal um sujeito depositar uma con&#64257;an&ccedil;a cega na pessoa    pela qual est&aacute; apaixonado, mesmo se n&atilde;o conhece o seu passado    e, sobretudo, o seu estatuto serol&oacute;gico, mas descon&#64257;a de uma pessoa    seropositiva, que imagina ser uma pessoa &ldquo;pouco frequent&aacute;vel&rdquo;    e &ldquo;contagiosa&rdquo;. Muitos indiv&iacute;duos t&ecirc;m rela&ccedil;&otilde;es    sexuais sem preservativo com pessoas das quais desconhecem o estatuto serol&oacute;gico,    sem mesmo ter o sentimento de correr um risco, mas a&#64257;rmam que recusariam    beijar uma pessoa seropositiva, mesmo sabendo que a saliva n&atilde;o &eacute;    um vector de transmiss&atilde;o do VIH. Do mesmo modo, para um simples contacto    como o aperto de m&atilde;o, ou ainda a utiliza&ccedil;&atilde;o de casas de    banho p&uacute;blicas, o sentimento de correr um risco &eacute; ampli&#64257;cado    pelo medo irracional da infec&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>A maior preval&ecirc;ncia de VIH/sida nas popula&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o    j&aacute; alvo de preconceitos produz um agravamento da discrimina&ccedil;&atilde;o    dos seropositivos, assente numa acusa&ccedil;&atilde;o de desvian&ccedil;a ou    desrespeito pelas normas sociais e numa imputa&ccedil;&atilde;o de caracter&iacute;sticas    negativas e de perigosidade &agrave;s pessoas infectadas. Por conseguinte, as    pessoas seropositivas s&atilde;o por vezes incriminadas pela infec&ccedil;&atilde;o    de outras pessoas, como se tivessem uma maldade intr&iacute;nseca e toda a responsabilidade    da transmiss&atilde;o do v&iacute;rus, quando, na realidade, uma rela&ccedil;&atilde;o    estabelece-se a dois. </p>     <p>Nas representa&ccedil;&otilde;es sociais sexo est&aacute; ligado &agrave; ideia    de pecado. Nesta l&oacute;gica, uma crian&ccedil;a infectada atrav&eacute;s    de uma transfus&atilde;o sangu&iacute;nea &eacute; considerada &ldquo;inocente&rdquo;,    ao contr&aacute;rio de um indiv&iacute;duo contaminado por via sexual, ao qual    se aponta a culpa. Uma mulher infectada por via sexual &eacute; julgada por    ter rela&ccedil;&otilde;es sexuais com &ldquo;<I>um qualquer</I>&rdquo;, comportamento    leviano numa sociedade onde a sexualidade fora do casamento &eacute; tabu. Assim    se instala no sistema de cren&ccedil;as e valores da popula&ccedil;&atilde;o    uma hierarquiza&ccedil;&atilde;o das responsabilidades e culpas, que tem duas    consequ&ecirc;ncias nefastas: o estigma associado ao VIH/sida, que diminui a    qualidade de vida das pessoas infectadas e o medo de fazer o teste e saber-se    que se est&aacute; infectado. &Eacute; portanto um problema individual e colectivo.  </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><B>CONCLUS&Atilde;O </b></p>     <p>A percep&ccedil;&atilde;o de correr um risco pessoal est&aacute; frequentemente    ligada, por um lado, ao facto de se conhecer pessoalmente uma pessoa seropositiva,    o que torna a realidade da doen&ccedil;a mais pr&oacute;xima e concreta, por    outro lado, &agrave; express&atilde;o de toler&acirc;ncia face aos seropositivos,    pois quando pensam que pode acontecer-lhes tamb&eacute;m a eles, os indiv&iacute;duos,    al&eacute;m de se protegerem mais, t&ecirc;m menos atitudes de culpabiliza&ccedil;&atilde;o    em rela&ccedil;&atilde;o aos doentes, enquanto que aqueles que se julgam <I>a    priori </I>fora de perigo ter&atilde;o uma maior tend&ecirc;ncia para manifestar    atitudes e discursos discriminat&oacute;rios em rela&ccedil;&atilde;o a esse    &ldquo;outro diferente e perigoso&rdquo;. No entanto, em Portugal, poucas s&atilde;o    as pessoas que revelam o seu estatuto serol&oacute;gico, visto haver muita discrimina&ccedil;&atilde;o.    O combate contra os preconceitos &eacute; necess&aacute;rio tanto para lutar    contra a discrimina&ccedil;&atilde;o das pessoas seropositivas como para lutar    contra a propaga&ccedil;&atilde;o do VIH, pois a discrimina&ccedil;&atilde;o,    a ignor&acirc;ncia e os comportamentos de risco est&atilde;o intimamente ligados.  </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O diagn&oacute;stico precoce representa: a) um benef&iacute;cio individual    pois favorece a adop&ccedil;&atilde;o de comportamentos seguros e garante o    acesso ao tratamento numa fase inicial da infec&ccedil;&atilde;o; b) um benef&iacute;cio    colectivo pois as pessoas que conhecem a sua seropositividade t&ecirc;m menos    comportamentos sexuais de risco, al&eacute;m de que os tratamentos antiretrov&iacute;ricos    diminuem os riscos de transmiss&atilde;o do VIH; c) um benef&iacute;cio social    pois o diagn&oacute;stico e o tratamento precoces t&ecirc;m menores custos econ&oacute;micos    do que o diagn&oacute;stico e tratamento tardios e as pesoas infectadas ganham    qualidade e anos de vida. </p>     <p>Em Portugal, todos os cidad&atilde;os podem realizar o teste de diagn&oacute;stico    do VIH/SIDA de forma an&oacute;nima, gratuita e con&#64257;dencial. No entanto,    os direitos, liberdades e garantias consagrados nas leis nacionais e nas conven&ccedil;&otilde;es    internacionais, que o Estado Portugu&ecirc;s subscreveu, s&atilde;o demasiadas    vezes desconsiderados. &Eacute; pois importante lutar contra a discrimina&ccedil;&atilde;o    das pessoas infectadas pelo VIH/SIDA, desmisti&#64257;car a doen&ccedil;a e    manter a popula&ccedil;&atilde;o informada e sensibilizada para a preven&ccedil;&atilde;o.  </p>      ]]></body>
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