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</front><body><![CDATA[ <p><b>Doen&ccedil;a de Crohn – Caso Problema</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Unidade de Gastrenterologia Pedi&aacute;trica e Servi&ccedil;o de Cirurgia Pedi&aacute;trica, Hospital S. Jo&atilde;o</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Jovem com doen&ccedil;a de Crohn diagnosticada aos 13 anos de idade, no hospital da &aacute;rea de resid&ecirc;ncia e onde se manteve em seguimento at&eacute; Novembro 2010. A primeira manifesta&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a foi um abcesso escrotal. Ter&aacute; iniciado tratamento com azatioprina e messalazina com aparente controlo sintom&aacute;tico. Em 2008, iniciou dor abdominal e diarreias frequentes que motivaram m&uacute;ltiplos internamentos, iniciando tratamento com infliximab em 2009, com melhoria transit&oacute;ria. Em Janeiro de 2010 foi substitu&iacute;do infliximab por adalimumab associado a corticoterapia, que manteve at&eacute; Outubro 2010. Nessa data foi internado no hospital local por doen&ccedil;a perianal fistulizante agudizada. Foi proposta protocolectomia total que n&atilde;o foi exequ&iacute;vel dado o estado de caquexia do doente.</p>     <p>Em Novembro de 2010 transferido para o nosso Servi&ccedil;o onde foi iniciado programa de recupera&ccedil;&atilde;o nutricional com alimenta&ccedil;&atilde;o parent&eacute;rica total e ent&eacute;rica polim&eacute;rica. A resson&acirc;ncia magn&eacute;tica p&eacute;lvica mostrou doen&ccedil;a perianal complexa com colec&ccedil;&otilde;es abcedadas e trajectos fistulosos. Procedeu-se a drenagem cir&uacute;rgica dos abcessos e coloca&ccedil;&atilde;o de drenos e “setons”. Foi institu&iacute;da terap&ecirc;utica com prednisolona, azatioprina e antibioterapia de largo espectro. Re-iniciou infliximab em Dezembro 2010 (10 mg/kg e repetido esquema de indu&ccedil;&atilde;o).</p>     <p>Em Janeiro 2011, por agudiza&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a perianal foi realizada colostomia. Teve novo agravamento cl&iacute;nico com emagrecimento acentuado e subida dos indicadores de inflama&ccedil;&atilde;o. A resson&acirc;ncia p&eacute;lvica n&atilde;o mostrou altera&ccedil;&otilde;es de novo, sugerindo espessamento inflamat&oacute;rio do sigmoide e recto. A ileocolonoscopia, revelou mucosa de aspecto normal do ileo, colon ascendente e transverso; o descendente apresentava eritema mas sem &uacute;lceras; o segmento disfuncionalizado apresentava mucosa fri&aacute;vel revestida por muco. Durante o internamento iniciou dor lombar e nos membros inferiores que o impediam de deambular. Concluiu-se, ap&oacute;s investiga&ccedil;&atilde;o adequada, a exist&ecirc;ncia de dor miofascial por contractura do ilopsoas direito bem como polineuropatia desmielinizante e axonal de gravidade moderada. Repetiu-se a electromiografia 2 semanas ap&oacute;s a 3&ordf; perfus&atilde;o de infliximab (Mar&ccedil;o 2011), que mostrou agravamento em rela&ccedil;&atilde;o ao estudo pr&eacute;vio. Por esse motivo repensou-se a estrat&eacute;gia terap&ecirc;utica, abandonado-se o tratamento com infliximab e iniciou-se metotrexato. Observou-se melhoria progressiva das queixas neurop&aacute;ticas com recupera&ccedil;&atilde;o da marcha aut&oacute;noma ao fim de alguns meses.</p>     <p>O grande desafio actual consiste em definir a melhor estrat&eacute;gia terap&ecirc;utica para este doente, com doen&ccedil;a fistulizante particularmente agressiva e complexa, uma vez que as m&uacute;ltiplas combina&ccedil;&otilde;es efectuadas at&eacute; &agrave; data nunca se revelaram verdadeiramente eficazes.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>INTRODU&Ccedil;&Atilde;O</b></p>     <p><b>Dr. Jorge Amil Dias (JAD): </b>Este caso cl&iacute;nico, que provavelmente j&aacute; ter&atilde;o lido na documenta&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via desta sess&atilde;o, consiste num jovem com Doen&ccedil;a de Crohn, com v&aacute;rios anos de evolu&ccedil;&atilde;o. Quando andei na Faculdade aprendi que a Doen&ccedil;a de Crohn e a colite ulcerosa, eram doen&ccedil;as do adulto jovem, mas hoje um 1/3 a &frac14; de todos os novos doentes com doen&ccedil;a inflamat&oacute;ria intestinal tem menos de 20 anos e isto ocorre em todo o mundo ocidental.Por isso &eacute; muito importante que todos os m&eacute;dicos tenham sensibilidade para identificar estes doentes, ainda que o caso de hoje falar seja um pouco at&iacute;pico na sua gravidade como v&atilde;o ver. Reparem que a DII &eacute; actualmente um problema tamb&eacute;m do &acirc;mbito da assist&ecirc;ncia pedi&aacute;trica; &eacute; necess&aacute;rio estabelecer diagn&oacute;stico atempado e correcto para influenciar e melhorar a evolu&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica. Antes de iniciar a discuss&atilde;o agrade&ccedil;o ao Prof. J&uacute;lio Leite o favor de ter acedido a participar nesta sess&atilde;o e comentar alguns aspectos do nosso doente. Todos os outros s&atilde;o participantes da casa, e agrade&ccedil;o a todos os colegas que v&atilde;o intervir o empenho que puseram e o tempo que dedicaram a estudar a preparar este caso cl&iacute;nico. Convido a Dr&ordf; Eunice Trindade de Gastrenterologia Pedi&aacute;trica a fazer a apresenta&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica, que depois iremos complementar com coment&aacute;rios ou quest&otilde;es que queiram colocar.</p>     <p><b>Dr&ordf; Eunice Trindade (ET)</b>: A hist&oacute;ria que hoje vos trazemos refere-se a um jovem que tem agora 18 anos de idade do sexo masculino, cujos antecedentes pessoais patol&oacute;gicos s&atilde;o de mononucleose infecciosa aos 3 anos de idade, meningite v&iacute;rica aos 6 anos e p&uacute;rpura Henoch-Schonlein aos 8 anos. Estas entidades s&atilde;o relativamente frequentes em idade pedi&aacute;trica; a mononucleose &eacute; relativamente frequente: na idade adulta cerca de 95% das pessoas j&aacute; tiveram contacto com o v&iacute;rus Epstein-Barr, a cl&iacute;nica pode ser vari&aacute;vel e muitos casos s&atilde;o assintom&aacute;ticos. A meningite v&iacute;rica tamb&eacute;m &eacute; relativamente frequente em pediatria e o agente habitualmente implicado &eacute;  Enterovirus: s&atilde;o meningites com curso absolutamente benigno sem sequelas. A p&uacute;rpura de Henoch-Schonlein &eacute; uma vasculite sist&eacute;mica em que h&aacute; dep&oacute;sito de IgA e C3 ao n&iacute;vel dos tecidos e vasos; habitualmente cursa com bom progn&oacute;stico, ainda que uma pequena percentagem destes doentes (at&eacute; 5%) tenha sequelas renais. Este doente n&atilde;o teve repercuss&atilde;o subsequente de nenhuma destas doen&ccedil;as. Nos antecedentes familiares n&atilde;o havia hist&oacute;ria familiar da doen&ccedil;a inflamat&oacute;ria intestinal, que envolve algum risco familiar acrescido. A doen&ccedil;a actual deste rapaz come&ccedil;a aos 13 anos: foi diagnosticada Doen&ccedil;a de Crohn, no Hospital local, com base num abcesso escrotal e investiga&ccedil;&atilde;o subsequente. Ter&aacute; sido institu&iacute;da terap&ecirc;utica com mesalazina e azatioprina nessa altura. A mesalazina  &eacute; um anti-inflamat&oacute;rio t&oacute;pico de mucosa e constitui em muitos caos a 1&ordf; linha de tratamento. A azatioprina &eacute; um imunomodulador, usada tamb&eacute;m em idade pedi&aacute;trica, no sentido de tentar obter remiss&atilde;o mais prolongada da doen&ccedil;a. Apesar disso a evolu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi favor&aacute;vel e aos 15 anos foi internado v&aacute;rias vezes por agudiza&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a luminal, diarreia com sangue, dor abdominal e febre; e ter&aacute; feito v&aacute;rios cursos de corticoterapia e antibi&oacute;ticos. Ainda assim, tamb&eacute;m n&atilde;o foi conseguido controlo da doen&ccedil;a e cerca dos 16 anos iniciou terap&ecirc;utica com infliximab, um anticorpo monoclonal que &eacute; j&aacute; um passo terap&ecirc;utico mais avan&ccedil;ado: com este f&aacute;rmaco pretende-se obter remiss&atilde;o r&aacute;pida da doen&ccedil;a e cicatriza&ccedil;&atilde;o da mucosa intestinal. Apesar desta terap&ecirc;utica a doen&ccedil;a manteve-se activa e aos 17 anos foi mudado para um outro anticorpo monoclonal, adalimumab, e fez mais do que um ciclo de corticoterapia. Apesar de tudo houve progress&atilde;o da doen&ccedil;a, nomeadamente da doen&ccedil;a perianal que se tornou incontrol&aacute;vel. Por esse motivo foi proposta protocolectomia. Foi ent&atilde;o enviado a outro hospital  mas dado o estado de caquexia foi ent&atilde;o referenciado &agrave; nossa Unidade, no sentido de se tentar recupera&ccedil;&atilde;o nutricional e tratamento subsequente.</p>     <p><b>Prof. Sobrinho Sim&otilde;es (SS)</b>: Estes anticorpos monoclonais s&atilde;o contra o qu&ecirc;?</p>     <p><b>ET: </b>S&atilde;o antiTNF-alfa.</p>     <p><b>SS:</b> Ambos?</p>     <p><b>ET: </b>Ambos, sim.</p>     <p>N&oacute;s conhecemos este jovem em <b>Novembro de 2010</b> na admiss&atilde;o no nosso hospital; ele estava profundamente sintom&aacute;tico, com v&oacute;mitos, diarreia e febre, era incapaz de ter marcha aut&oacute;noma e no exame objectivo era not&oacute;rio o aspecto muito emagrecido, tinha um &iacute;ndice de massa corporal de 12! Para terem a no&ccedil;&atilde;o da gravidade e fazerem paralismo, a anorexia nervosa define-se com o &iacute;ndice de massa corporal de cerca de 17, portanto percebe-se como estava profundamente desnutrido. Observava-se um dreno colocado atrav&eacute;s da n&aacute;dega direita com drenagem sero-hem&aacute;tica. Na avalia&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica inicial era not&oacute;rio um desequil&iacute;brio metab&oacute;lico e sinais de inflama&ccedil;&atilde;o importantes, nomeadamente trombocitose, PCR e VS bastante elevadas e os v&aacute;rios i&otilde;es sangu&iacute;neos estavam tamb&eacute;m diminu&iacute;dos. Os exames culturais sangu&iacute;neos e de fezes viriam a ser negativos. Portanto t&iacute;nhamos um jovem de 17 anos, com doen&ccedil;a de Crohn luminal e perianal n&atilde;o controlada, e desnutri&ccedil;&atilde;o severa.</p>     <p>A nossa preocupa&ccedil;&atilde;o imediata foi promover a recupera&ccedil;&atilde;o nutricional: foi iniciada alimenta&ccedil;&atilde;o parent&eacute;rica de forma progressiva com muito cuidado no sentido de se evitar o s&iacute;ndrome de renutri&ccedil;&atilde;o. Na desnutri&ccedil;&atilde;o severa, ser demasiado ambicioso logo na fase inicial pode levar a desequil&iacute;brios metab&oacute;licos importantes, nomeadamente insufici&ecirc;ncia card&iacute;aca, arritmias e que podem ser fatais. No sentido de efectuar a avalia&ccedil;&atilde;o da extens&atilde;o e gravidade da doen&ccedil;a foram programados outros exames, nomeadamente a Resson&acirc;ncia Magn&eacute;tica (RM).</p>     <p><b>JAD</b>: Vale a pena explicar que a RM faz parte do protocolo de avalia&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a inflamat&oacute;ria intestinal, particularmente da Doen&ccedil;a de Crohn, porque permite avaliar a extens&atilde;o e a gravidade dos trajectos fistulosos perianais, mas tamb&eacute;m a extens&atilde;o da doen&ccedil;a no Intestino Delgado, que condiciona as op&ccedil;&otilde;es terap&ecirc;uticas e progn&oacute;stico dos doentes.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>H&aacute; alguma quest&atilde;o?</p>     <p><b>SS</b>: Vou colocar uma aos nossos alunos – Que diferen&ccedil;a &eacute; que h&aacute; entre este nome infliximab e o do outro anticorpo que se chama adalimumab? Ent&atilde;o? O “mab” final indica <i>monoclonal antibody</i>, um &eacute; “ximab” e o outro &eacute; “mumab”; donde vem o “u” em vez de “i”? De humanizado, claro.</p>     <p><b>JAD</b>: O infliximab &eacute; um anticorpo monoclonal quim&eacute;rico desenvolvido com uma percentagem ainda que muito pequena, menos de 5% de prote&iacute;na de ratinho e como tal, sendo eficaz no controlo da doen&ccedil;a &eacute; em si um est&iacute;mulo antig&eacute;nico que leva a que alguns doentes desenvolvam, com o tempo, anticorpos que v&atilde;o inactivar o medicamento; quando isso acontece opta-se ent&atilde;o por uma vers&atilde;o semelhante do f&aacute;rmaco, mas totalmente humanizado e que consegue recapturar efeito em doentes que deixaram de responder ao infliximab.</p>     <p><b>Plateia</b>: O adalimumab &eacute; usado s&oacute; em 2&ordf; linha quando o doente deixa de responder ao infliximab?</p>     <p><b>JAD</b>: Habitualmente &eacute; poss&iacute;vel voltar a obter controlo da doen&ccedil;a com essa estrat&eacute;gia. Mas, particularmente em adultos, h&aacute; quem inicie o tratamento biol&oacute;gico com adalimumab. A vantagem maior deste f&aacute;rmaco &eacute; o conforto para o doente, porque &eacute; administrado por via subcut&acirc;nea, com uma caneta semelhante &agrave; de insulina e os doentes podem fazer isso em casa, sem precisar de vir ao Hospital, enquanto o infliximab &eacute; feito em perfus&atilde;o. Contudo vale a pena iniciar por aquilo que &eacute; eficaz e que nos deixa ainda uma reserva terap&ecirc;utica em caso de fal&ecirc;ncia.</p>     <p><b>JAD</b>: O TNF-alfa &eacute; um mediador inflamat&oacute;rio que se demonstrou estar aumentado na doen&ccedil;a inflamat&oacute;ria, nas fezes em per&iacute;odos de agravamento da doen&ccedil;a, que traduz produ&ccedil;&atilde;o e ac&ccedil;&atilde;o local na mucosa intestinal. Por isso, inibindo este mediador pode controlar-se a actividade da inflama&ccedil;&atilde;o. Isso n&atilde;o cura a doen&ccedil;a, mas permite controlar de forma razoavelmente eficaz o processo inflamat&oacute;rio intestinal.</p>     <p><b>Dr. Pedro Abreu (PA):</b> O etarnecpt tamb&eacute;m &eacute; usado para o tratamento?</p>     <p><b>Prof. Fernando Magro (FM)</b>: O etarnecept n&atilde;o foi eficaz na Doen&ccedil;a de Crohn, n&atilde;o tem o mesmo conceito farmacol&oacute;gico que tem o infliximab e o adalimumab. &Eacute; uma prote&iacute;na de fus&atilde;o que tem um receptor e n&atilde;o induz  apoptose das c&eacute;lulas e pensa-se que &eacute; por isso que n&atilde;o foi eficaz na Doen&ccedil;a de Crohn, embora n&atilde;o se tenha a certeza quanto a este facto. H&aacute; um outro anticorpo, natalizumab, que a Neurologia tamb&eacute;m utiliza, que &eacute; um anticorpo contra uma prote&iacute;na ou alfa4 que impede as c&eacute;lulas de ir para os tecidos, que foi aprovado pela FDA mas n&atilde;o pela EMEA por estar associado a leucoencefalopatia em 1/1000 doentes tratados. Por isso n&atilde;o est&aacute; autorizado na Europa para tratamento da doen&ccedil;a inflamat&oacute;ria, doen&ccedil;a de Crohn, embora seja eficaz.</p>     <p>H&aacute; quem diga que h&aacute; um efeito de classe entre os anti-TNFs que s&atilde;o todos iguais. Eu tenho algumas d&uacute;vidas… O infliximab &eacute; um anticorpo quim&eacute;rico, utilizado por via endovenosa; o adalimumab por via subcut&acirc;nea. Em termos de farmacocin&eacute;tica, a &aacute;rea debaixo da curva dos 2 f&aacute;rmacos n&atilde;o &eacute; a mesma e por isso tenho d&uacute;vidas quanto &agrave; sua efic&aacute;cia ser completamente sobrepon&iacute;vel: o infliximab est&aacute; aprovado na Europa para tratamento da Doen&ccedil;a de Crohn e colite ulcerosa, e o adalimumab at&eacute; agora s&oacute; para a Doen&ccedil;a de Crohn e ainda n&atilde;o demonstrou efic&aacute;cia muito acentuada na colite  ulcerosa.</p>     <p><b>Plateia: </b>O etarnecept tem sido muito utilizado em Reumatologia. Claro que s&atilde;o doen&ccedil;as diferentes, mas em termos biol&oacute;gicos a ac&ccedil;&atilde;o do TNF provavelmente &eacute; diferente no Crohn ou na artrite reumat&oacute;ide...</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>FM</b>: Pensa-se que a grande diferen&ccedil;a &eacute; a capacidade de induzir apoptose: na doen&ccedil;a inflamat&oacute;ria &eacute; quase obrigat&oacute;rio os induzir apoptose para ter alguma efic&aacute;cia em termos de terap&ecirc;utica e biol&oacute;gica.</p>     <p><b>SS</b>: Induzir apoptose de qu&ecirc; e porqu&ecirc;?</p>     <p><b>FM: </b>Induzir a apoptose dos linf&oacute;citos das c&eacute;lulas mononucleares porque na Doen&ccedil;a de Crohn h&aacute; uma resposta exagerada no modo e no tempo das c&eacute;lulas mononucleares: no modo porque h&aacute; um excesso de produ&ccedil;&atilde;o de TNF-alfa, interfer&atilde;o gama e interleucina 12; no tempo porque perante o mesmo est&iacute;mulo antig&eacute;nico as c&eacute;lulas respondem de forma diferente e desadequada durante muito tempo. &Eacute;, pois, importante ter mecanismos controladores das c&eacute;lulas biol&oacute;gicas de frena&ccedil;&atilde;o deste mecanismo imunol&oacute;gico e a apoptose &eacute; um desses mecanismos.</p>     <p><b>Dr. Lu&iacute;s Guimar&atilde;es (LG)</b>: O esf&iacute;ncter anal interno est&aacute; em continuidade com a camada circular da musculatura do recto. Visto desta outra forma n&oacute;s vemos o esf&iacute;ncter anal externo em continuidade com o diafragma p&eacute;lvico, o esf&iacute;ncter anal interno em continuidade com a camada circular da musculatura da parede do recto, e h&aacute; umas fibras longitudinais que s&atilde;o a continua&ccedil;&atilde;o da camada longitudinal muscular do recto. Visto em sec&ccedil;&atilde;o, em corte axial, que &eacute; assim que n&oacute;s geralmente vemos estas imagens de Resson&acirc;ncia Magn&eacute;tica, de facto temos aqui a mucosa do &acirc;nus, &agrave; volta uma camada muscular que corresponde ao esf&iacute;ncter anal interno e o esf&iacute;ncter anal externo a continuar-se com o diafragma p&eacute;lvico. Posto isto ao lado de uma imagem de RM, vemos o esf&iacute;ncter anal interno, e depois o esf&iacute;ncter anal externo a continuar-se com o diafragma p&eacute;lvico.</p>     <p>No doente em discuss&atilde;o existem muitos trajectos fistulosos que distorcem a anatomia desta zona. Temos aqui duas imagens ponderadas em  T2 (<a href ="/img/revistas/am/v26n4/26n4a05f2.jpg">Fig. 2</a>). Neste tipo de pondera&ccedil;&atilde;o, tudo o que seja  inflama&ccedil;&atilde;o ou edema aparece brilhante, aparece “muito branco”. Contudo, h&aacute; um problema nesta imagem  (<a href ="/img/revistas/am/v26n4/26n4a05f2.jpg">Fig. 2a</a>): &eacute; que tamb&eacute;m a gordura aparece a branco e isso reduz a  “conspicuidade” dos processos patol&oacute;gicos. Por isso usamos uma t&eacute;cnica em que damos um pulso de radiofrequ&ecirc;ncia que satura  toda a gordura, a qual passa a aparecer a preto. Assim, nesta figura (<a href ="/img/revistas/am/v26n4/26n4a05f2.jpg">Fig. 2b</a>) tudo  que v&ecirc;m a branco &eacute; de facto um processo patol&oacute;gico, que fica muito mais consp&iacute;cuo com esta sequ&ecirc;ncia, que  &eacute; na mesma ponderada em T2, mas com satura&ccedil;&atilde;o da gordura. Agora penso que conseguem reconhecer o esf&iacute;ncter anal  interno e &eacute; poss&iacute;vel ver aqui um tra&ccedil;o muito branco que, de facto, n&atilde;o devia existir aqui; o esf&iacute;ncter anal  interno devia ser uma estrutura cont&iacute;nua, como vos mostrei na figura anterior (<a href="#f1">Fig. 1c</a>). Isto &eacute;, pois, um trajecto  fistuloso que intercepta n&atilde;o s&oacute; o esf&iacute;ncter anal interno como o esf&iacute;ncter anal externo. Este trajecto fistuloso tem  origem no canal anal sensivelmente &agrave;s 6 horas. Os radiologistas e os cirurgi&otilde;es costumam imaginar um rel&oacute;gio a n&iacute;vel  do esf&iacute;ncter anal interno em que as 12 horas est&atilde;o na parede anterior e assim entendemo-nos quanto &agrave; localiza&ccedil;&atilde;o  das les&otilde;es nos exames de imagem.</p>     
<p>&nbsp;</p> <a name="f1"> <img src="/img/revistas/am/v26n4/26n4a05f1.jpg">     
<p>&nbsp;</p>      <p>H&aacute; um trajecto fistuloso que sai no &acirc;nus sensivelmente &agrave;s 6 horas e depois tem 3 ramifica&ccedil;&otilde;es, uma para o  lado esquerdo, outro trajecto que continua para cima e que vai originar uma f&iacute;stula de grandes dimens&otilde;es (h&aacute; quem chame a  isto uma pequena colec&ccedil;&atilde;o, h&aacute; quem chame a isto uma f&iacute;stula de grandes dimens&otilde;es) –  <a href ="/img/revistas/am/v26n4/26n4a05f3.jpg">Fig. 3a</a> - localizada na fossa isquioanal &agrave; direita e depois este trajecto,  esta f&iacute;stula transfinct&eacute;rica, que intercepta o esf&iacute;ncter anal interno e externo, continua-se tamb&eacute;m para um trajecto  que desce at&eacute; sair e drenar na n&aacute;dega direita (<a href ="/img/revistas/am/v26n4/26n4a05f3.jpg">Fig. 3b</a>) e num segundo  local a n&iacute;vel do sulco internadegueiro na n&aacute;dega esquerda. Nesta imagem v&ecirc;-se um espessamento da parede do c&oacute;lon  sigmoide (<a href ="/img/revistas/am/v26n4/26n4a05f4.jpg">Fig. 4</a>). Esta imagem, obtida ap&oacute;s administra&ccedil;&atilde;o de produto  de contraste endovenoso, mostra uma linha branca a delinear internamente a parede do c&oacute;lon sigmoide e do recto, que n&atilde;o &eacute;  habitual ver-se com esta conspicuidade e traduz h&iacute;per-capta&ccedil;&atilde;o, hiperemia da mucosa e &eacute; o sinal mais importante que  confirma doen&ccedil;a activa. Os trajectos fistulosos, que descrevi h&aacute; pouco, captam tamb&eacute;m activamente o produto de contraste, por  isso aparecem a branco e vemos as paredes a captar; o interior &eacute; muito preto, neste caso provavelmente por presen&ccedil;a de algumas bolhas  de g&aacute;s. H&aacute; uma classifica&ccedil;&atilde;o (score de Van Assche) que nos indica a gravidade e severidade do atingimento da doen&ccedil;a perianal nos doentes de Crohn. Os par&acirc;metros que entram nesse &iacute;ndice t&ecirc;m a ver com a complexidade dos trajetos fistulosos, a localiza&ccedil;&atilde;o, etc. Este doente tem de facto um score alt&iacute;ssimo, porque tem m&uacute;ltiplos trajectos fistulosos, uma f&iacute;stula transfinct&eacute;rica e extens&atilde;o que chega ao andar supra-elevador, portanto acima do diafragma p&eacute;lvico, e tem hipersinal em T2 muito marcado; tem ainda o abcesso na fossa &iacute;squio-anal direita e envolvimento na parede rectal com hipercapta&ccedil;&atilde;o da mucosa e espessamento parietal.</p>     
<p><b>JAD</b>: Obrigado. Temos pois um jovem com Doen&ccedil;a de Crohn de in&iacute;cio precoce, com uma forma que responde mal ao tratamento, doen&ccedil;a penetrante muito agressiva, ind&iacute;cios de supura&ccedil;&atilde;o que dificultam tamb&eacute;m a op&ccedil;&atilde;o por medicamentos que s&atilde;o em si imunossupressores e desnutri&ccedil;&atilde;o muito grave. O quadro estava tra&ccedil;ado como situa&ccedil;&atilde;o particularmente agressiva.</p>     <p><b>ET</b>: Perante esta informa&ccedil;&atilde;o da resson&acirc;ncia foi programada explora&ccedil;&atilde;o cir&uacute;rgica da regi&atilde;o perianal sob anestesia. A seda&ccedil;&atilde;o profunda ou anestesia &eacute; essencial para facilitar a observa&ccedil;&atilde;o e tratamento sem agravar o desconforto do doente. Foram ent&atilde;o colocados drenos nos trajectos fistulosos para drenagem eficaz das colec&ccedil;&otilde;es purulentas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No mesmo tempo anest&eacute;sico procedeu-se a avalia&ccedil;&atilde;o endosc&oacute;pica da actividade da doen&ccedil;a no tracto digestivo alto que n&atilde;o mostrou altera&ccedil;&otilde;es. A observa&ccedil;&atilde;o endosc&oacute;pica do segmento distal do colon mostrou mucosa muito fri&aacute;vel com &uacute;lceras e fibrina abundante que impedia quase a observa&ccedil;&atilde;o de mucosa subjacente.</p>     <p><b>JAD</b>: E o que nos mostra a an&aacute;lise do material obtido em bi&oacute;psias?</p>     <p><b>Dr&ordf; Joanne Lopes (JoL)</b>: No Servi&ccedil;o de Anatomia Patol&oacute;gica, recebemos produtos de bi&oacute;psia de Endoscopia Alta: duodeno, est&ocirc;mago e es&oacute;fago. A mucosa duodenal apresentava caracter&iacute;sticas normais (vilosidades alongadas, digitiformes, sem altera&ccedil;&otilde;es inflamat&oacute;rias). (<a href="#f1">Fig. 1A</a>) Na mucosa g&aacute;strica do antro observam-se les&otilde;es de gastrite cr&oacute;nica focalmente activa e presen&ccedil;a de pequeno granuloma epiteli&oacute;ide, sem c&eacute;lulas gigantes ou necrose (<a href="#f1">Fig. 1B</a>). No es&oacute;fago observou-se alongamento das papilas sub-epiteliais, com infiltrado inflamat&oacute;rio polim&oacute;rfico e exocitose de c&eacute;lulas inflamat&oacute;rias na espessura do epit&eacute;lio esof&aacute;gico (<a href="#f1">Fig. 1C</a>). Em resumo, no tracto digestivo superior observam-se les&otilde;es de gastrite focalmente activa com granuloma e esofagite com actividade (sem granuloma).</p>     <p><b>JAD</b>: Aqui podem perguntar, mas afinal se a doen&ccedil;a afectava o intestino distal, porque fomos fazer a endoscopia alta? E a resposta &eacute; r&aacute;pida: s&atilde;o internacionalmente aceites os crit&eacute;rios de avalia&ccedil;&atilde;o de Doen&ccedil;a Inflamat&oacute;ria Intestinal publicados e descritos como os “crit&eacute;rios do Porto” que consistem em avalia&ccedil;&atilde;o da extens&atilde;o da doen&ccedil;a em todos os doentes com DII e muito particularmente na situa&ccedil;&atilde;o da Doen&ccedil;a de Crohn porque sabemos que pode envolver todo o tubo digestivo. Por isso a endoscopia alta com bi&oacute;psias faz parte do protocolo diagn&oacute;stico. J&aacute; tivemos casos em que a identifica&ccedil;&atilde;o de granuloma numa bi&oacute;psia g&aacute;strica conduziu ao diagn&oacute;stico, pelo que fazemos biopsias de todos os segmentos.</p>     <p><b>ET</b>: Ap&oacute;s esta avalia&ccedil;&atilde;o inicial da actividade da doen&ccedil;a, continu&aacute;mos a investir na recupera&ccedil;&atilde;o nutricional, com alimenta&ccedil;&atilde;o parent&eacute;rica por cateter venoso central, e fomos conseguindo alguma autonomia digestiva o que permitiu iniciar dieta polim&eacute;rica e houve recupera&ccedil;&atilde;o ponderal significativa. No sentido de controlar a actividade da doen&ccedil;a, sabendo que n&atilde;o havia abcessos intra-abdominais nem perianais, foi institu&iacute;da terap&ecirc;utica com prednisolona, infliximab e mantivemos antibioterapia que parece ser eficaz no encerramento dessas f&iacute;stulas. Promoveu-se tamb&eacute;m a recupera&ccedil;&atilde;o funcional  e iniciou um programa de fisioterapia, para melhorar a mobilidade e for&ccedil;a muscular. Cerca de 1 m&ecirc;s mais tarde foi repetida a resson&acirc;ncia que mostrava trajectos sobrepon&iacute;veis e aumento do hipersinal em T2 indiciando persist&ecirc;ncia da actividade inflamat&oacute;ria. </p>     <p><b>LG</b>: Esta &eacute; a 1&ordf; resson&acirc;ncia do doente e vamos agora ver a 2&ordf;: nota-se que os trajectos fistulosos s&atilde;o  exactamente os mesmos. H&aacute; ainda a f&iacute;stula transfinct&eacute;rica com deriva&ccedil;&atilde;o para a esquerda, trajecto fistuloso de  grandes dimens&otilde;es para a fossa &iacute;squio-anal direita e um trajecto na n&aacute;dega direita que acaba por drenar na pele em dois  s&iacute;tios. Os trajectos fistulosos s&atilde;o os mesmos mas h&aacute; uma diferen&ccedil;a entre as duas que tem a ver com o maior brilho, ou  seja, &eacute; mais branco, isto &eacute;, h&aacute; aumento do hipersinal em T2, o que tem tradu&ccedil;&atilde;o fisiopatol&oacute;gica:  significa maior grau de inflama&ccedil;&atilde;o (<a href="#f5a">Fig. 5</a>). Havia, pois, agravamento dos achados perianais, apesar dos aspectos  fistulosos serem os mesmos.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5a"> <img src="/img/revistas/am/v26n4/26n4a05f5a.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5b"> <img src="/img/revistas/am/v26n4/26n4a05f5b.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f5c"> <img src="/img/revistas/am/v26n4/26n4a05f5c.jpg">     
<p>&nbsp;</p>      <p><b>ET:</b> Em Dezembro de 2010 t&iacute;nhamos j&aacute; efectuado duas perfus&otilde;es de infliximab do esquema de indu&ccedil;&atilde;o, continuava com corticoterapia e mantinha terap&ecirc;utica antibi&oacute;tica. Do ponto de vista bioqu&iacute;mico, est&aacute;vamos contentes com a evolu&ccedil;&atilde;o, pois havia normaliza&ccedil;&atilde;o dos par&acirc;metros que habitualmente utilizamos (VS normal e PCR negativa). Do ponto de vista nutricional tamb&eacute;m o doente continuava a recuperar e com bom estado geral, j&aacute; capaz de deambular sozinho. No entanto em <b>Janeiro de 2011</b> ocorreu novo reagravamento, em que a doen&ccedil;a perianal tinha aumento da supura&ccedil;&atilde;o. Por isso foi decidido proceder a colostomia de deriva&ccedil;&atilde;o no sentido de poupar a regi&atilde;o perianal e tentar controlar melhor esta doen&ccedil;a muito agressiva.</p>     <p><b>JoL</b>: A pe&ccedil;a de colostomia era constitu&iacute;da por um segmento c&oacute;lico com 3 cm de comprimento. No revestimento mucoso h&aacute; altern&acirc;ncia de &aacute;reas de mucosa preservada e outras constitu&iacute;das por tecido de granula&ccedil;&atilde;o, a traduzir ulcera&ccedil;&atilde;o (<a href ="/img/revistas/am/v26n4/26n4a05f2.jpg">Fig. 2</a> O processo inflamat&oacute;rio envolve toda a espessura da parede, com constitui&ccedil;&atilde;o de agregados linf&oacute;ides.</p>     
<p><b>ET</b>: Cerca de 15 dias depois da colostomia temos novo agravamento cl&iacute;nico, desta vez com perda ponderal, um humor depressivo e um dado novo que foi o aparecimento de dores nos membros inferiores e regi&atilde;o lombar com altera&ccedil;&otilde;es da sensibilidade com hiperstesias. Nesta altura fazemos nova avalia&ccedil;&atilde;o da atividade da doen&ccedil;a, colonoscopia efectuada pelo topo da colostomia mostrava apenas um discreto eritema do c&oacute;lon descendente e uma mucosa algo fri&aacute;vel e na colonoscopia que foi efectuada pelo &acirc;nus apresentava-se a mucosa revestida por muco e com &aacute;rea de eritema, do ponto de vista macrosc&oacute;pico a endoscopia era dif&iacute;cil dizer se se tratava de doen&ccedil;a ativa ou se correspondia de facto a uma situa&ccedil;&atilde;o de disfuncionaliza&ccedil;&atilde;o deste segmento.</p>     <p><b>JAD: </b>Nestafase da evolu&ccedil;&atilde;o pe&ccedil;o Prof J&uacute;lio Leite para comentar a perspectiva cir&uacute;rgica perante a evolu&ccedil;&atilde;o agressiva deste doente.</p>     <p><b>Prof. J&uacute;lio Leite (JL)</b>: &Eacute; um caso complicado. A terap&ecirc;utica m&eacute;dica por vezes, como neste caso, n&atilde;o estava a ser eficaz, revelando doen&ccedil;a refract&aacute;ria ao tratamento. O processo supurativo era grande a n&iacute;vel p&eacute;lvico, e o que a equipe m&eacute;dico-cirurgica decidiu foi desviar as fezes nessa &aacute;rea tentando reduzir o processo inflamat&oacute;rio sem ainda tomar ainda a decis&atilde;o de extrac&ccedil;&atilde;o cir&uacute;rgica. Est&aacute;vamos numa fase interm&eacute;dia em que a decis&atilde;o foi desfuncionalizar: com o sigm&oacute;ide colocado &agrave; pele, por colostomia, as fezes deixam de passar pelo recto e pode admitir-se que haja redu&ccedil;&atilde;o do processo inflamat&oacute;rio. A cirurgia que foi feita antes consistiu na coloca&ccedil;&atilde;o de drenos.N&atilde;o era previsivel que s&oacute; com isso curasse porque havia uma solu&ccedil;&atilde;o de continuidade a n&iacute;vel do canal anal. A doen&ccedil;a de Crohn ocorre porque a mucosa come&ccedil;a a estar alterada e h&aacute; solu&ccedil;&atilde;o de continuidade que &eacute; foco da entrada da infec&ccedil;&atilde;o e come&ccedil;a a drenar por v&aacute;rios s&iacute;tios. Com tratamento m&eacute;dico tudo pode voltar ao normal, mas neste caso n&atilde;o estava a acontecer.</p>     <p><b>JAD</b>: O doente j&aacute; tinha sido anteriormente tratado com f&aacute;rmacos biol&oacute;gicos – infliximab e adlimumab – e havia algum risco de hipersensibilidade ao reiniciar esse tratamento. Contudo, com a agressividade da doen&ccedil;a, uma vez controlado o componente s&eacute;ptico fazia sentido tentar recuperar o efeito do biol&oacute;gico. Aproveitando a men&ccedil;&atilde;o do Prof. J&uacute;lio Leite &agrave; desfuncionaliza&ccedil;&atilde;o de um segmento intestinal, trata-se de t&eacute;cnica usada muito antes dos novos f&aacute;rmacos. Ao eliminar o contacto antig&eacute;nico nutricional com a mucosa h&aacute; melhoria. Particularmente em Pediatria temos experi&ecirc;ncia de que a 1&ordf; linha de tratamento da Doen&ccedil;a de Crohn &eacute; um tratamento nutricional, que consiste em alimenta&ccedil;&atilde;o polim&eacute;rica, eliminando grande parte da estimula&ccedil;&atilde;o antig&eacute;nica e por modifica&ccedil;&atilde;o do microbioma intestinal, conseguimos controlar a inflama&ccedil;&atilde;o. Portanto, desfuncionalizar um determinado segmento e tir&aacute;-lo do contacto com a estimula&ccedil;&atilde;o luminal poderia conduzir a melhoria sintom&aacute;tica do doente e a diminui&ccedil;&atilde;o da actividade inflamat&oacute;ria do segmento distal deixando em aberto outras op&ccedil;&otilde;es de reanastomosar ou n&atilde;o este doente conforme a evolu&ccedil;&atilde;o subsequente.</p>     <p>O Dr. Miguel Campos, cirurgi&atilde;o, operou o doente e poder&aacute; comentar o procedimento.</p>     <p><b>MC</b>: A decis&atilde;o de realizar a colostomia foi tomada em grupo e est&aacute;vamos conscientes de que neste tipo de doen&ccedil;a o sucesso &eacute; vari&aacute;vel. As v&aacute;rias s&eacute;ries apresentam taxas de sucesso que variam dos 30 aos 80%. Mas n&atilde;o esque&ccedil;am que estamos perante um jovem de 17 anos e que estamos no in&iacute;cio de um processo, pelo que a op&ccedil;&atilde;o &eacute; sempre a menos invasiva poss&iacute;vel. Isso foi proposto e explicado ao doente e &agrave; fam&iacute;lia que a probabilidade de sucesso &eacute; vari&aacute;vel. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>JoL</b>: A pe&ccedil;a de colostomia era constitu&iacute;da por um segmento c&oacute;lico com 3 cm de comprimento. No revestimento mucoso h&aacute; altern&acirc;ncia de &aacute;reas de mucosa preservada e outras constitu&iacute;das por tecido de granula&ccedil;&atilde;o, a traduzir ulcera&ccedil;&atilde;o (<a href ="/img/revistas/am/v26n4/26n4a05f2.jpg">Fig. 2</a>). O processo inflamat&oacute;rio envolve toda a espessura da parede, com constitui&ccedil;&atilde;o de agregados linf&oacute;ides.</p>     
<p><b>ET</b>: Prosseguindo a avalia&ccedil;&atilde;o, repetimos a resson&acirc;ncia magn&eacute;tica p&eacute;lvica, que mostrava ainda as fistulas conhecidas com dreno e comprovava-se mais uma vez o espessamento inflamat&oacute;rio do colon distal, nomeadamente do sigm&oacute;ide e do recto. O doente estava sob imunossupress&atilde;o pesada com infliximab, corticoterapia e por isso a presen&ccedil;a de cole&ccedil;&otilde;es abcedadas &eacute; contra-indica&ccedil;&atilde;o absoluta ao uso destes f&aacute;rmacos.</p>     <p><b>LG</b>: Voltamos a ter um n&iacute;vel de hipersinal em T2 nos trajectos fistulosos equivalente aos da primeira resson&acirc;ncia. Portanto houve melhoria nesse sentido, provavelmente devido &agrave; colostomia e tamb&eacute;m ao tratamento m&eacute;dico efectuado. E houve tamb&eacute;m melhoria das paredes do c&oacute;lon sigm&oacute;ide, um bocadinho menos espessada. O edema que circundava a parede do c&oacute;lon sigm&oacute;ide e a parede do sigmoide tinha desaparecido nesta 3&ordf; resson&acirc;ncia.</p>     <p><b>JL</b>: Eu fiquei com a impress&atilde;o de que a doen&ccedil;a mais activa fosse no recto, espessad&iacute;ssimo. Tem a certeza de que n&atilde;o h&aacute; mais solu&ccedil;&otilde;es de continuidade? Ser&aacute; s&oacute; aquela a n&iacute;vel do canal anal? Poderia haver uma solu&ccedil;&atilde;o de continuidade mais alta que justificasse o abcesso supra elevador.</p>     <p><b>LG</b>: Nas resson&acirc;ncias o abcesso era adjacente ao elevador do &acirc;nus, mas infra elevador e havia espessamento de todo o recto e c&oacute;lon sigmoide. Numa das &uacute;ltimas resson&acirc;ncias come&ccedil;amos a ver um bocadinho de espessamento parietal no &iacute;leo terminal, mas mesmo do ponto vista endosc&oacute;pio, j&aacute; havia sinais da doen&ccedil;a que n&atilde;o existiam inicialmente. N&atilde;o havia mais doen&ccedil;a a n&atilde;o ser no recto e c&oacute;lon sigmoide; havia um outro trajecto fistuloso que tinha origem sensivelmente &agrave;s 12 horas e se dirigia para o escroto, para a vertente esquerda do escroto e que foi a apresenta&ccedil;&atilde;o do doente: abcesso escrotal, que provinha da mesma zona, com dois orif&iacute;cios, portanto n&atilde;o era uma fistula em ferradura, era um orif&iacute;cio de fistula transfinct&eacute;rica &agrave;s 6 horas e outra &agrave;s 12 horas, uma com dire&ccedil;&atilde;o posterior que depois ramificava e outra com dire&ccedil;&atilde;o antero-lateral esquerda.</p>     <p><b>MC:</b> O seton &eacute; um material que n&oacute;s usamos nesta situa&ccedil;&atilde;o, mas pode ser material diferente, que se passa atrav&eacute;s do trajecto fistuloso para n&atilde;o o deixar encerrar e n&atilde;o formar o abcesso. N&atilde;o queremos que se forme um abcesso. O doente teve 2 setons.</p>     <p><b>ET</b>: Cerca de 2 meses ap&oacute;s a admiss&atilde;o t&iacute;nhamos o doente j&aacute; com 3 perfus&otilde;es de infliximab, ainda sob corticoterapia, metronidazol, ciprofloxacina e foi adicionada azatioprina na tentativa de obter um melhor controlo da doen&ccedil;a. Como vos disse nesta &uacute;ltima reca&iacute;da, havia um achado novo - dores nos membros inferiores, atrofia muscular acentuada de ambas as pernas e marcha com caracter&iacute;sticas neurop&aacute;ticas. Foi ent&atilde;o realizada electromiografia que mostrou polineuropatia motora e sensitiva primariamente axonal de gravidade moderada. Foi considerada a possibilidade de toxicidade pelo infliximab, ou pelo metronidazol, e n&atilde;o pod&iacute;amos excluir complica&ccedil;&otilde;es da desnutri&ccedil;&atilde;o severa por que o doente tinha passado e causar polineuropatias axonais. Perante a melhoria cl&iacute;nica que que se esbo&ccedil;ava decidimos manter a estrat&eacute;gica terap&ecirc;utica, com a 4&ordf; perfus&atilde;o de infliximab e cerca de 2 semanas depois, repetimos a electromiografia e que mostrava agravamento da polineuropatia agora tamb&eacute;m com caracter&iacute;sticas desmielinizantes. Decidimos ent&atilde;o suspender o infliximab repensar a estrat&eacute;gica, e foi iniciado metotrexato. O doente tinha dor muito incapacitante, e pedimos apoio &agrave; consulta da Dor. Para controlar o desconforto do doente, foi necess&aacute;rio recorrer a amitriptilina, gabapentina, tramadol e diazepam. N&atilde;o se lhe podia tocar nos p&eacute;s, que despertava dor intensa e n&atilde;o era capaz de andar.</p>     <p><b>JAD</b>: Pe&ccedil;o ao Dr. Pedro Abreu do Servi&ccedil;o de Neurologia que nos comente os achados e a probabilidade da rela&ccedil;&atilde;o iatrog&eacute;nica destas altera&ccedil;&otilde;es.</p>     <p><b>Dr. Pedro Abreu (PA)</b>: N&atilde;o me parece que fosse uma neuropatia s&oacute; devida ao infliximab; provavelmente seria multifactorial. O infliximab e os outros inibidores do TNF-alfa t&ecirc;m um mecanismo de ac&ccedil;&atilde;o quase pleiotr&oacute;pico. Os efeitos secund&aacute;rios ser&atilde;o devidos a ataque auto-imune, mediado por c&eacute;lulas T, e factores humorais contra a mielina e da&iacute; darem neuropatias desmielinizantes. Podem haver tamb&eacute;m mecanismo vascul&iacute;tico, ou seja h&aacute; interrup&ccedil;&atilde;o do vaso, <i>vasa nervorum</i> com isquemia e o nervo entra em sofrimento e tem desmieliniza&ccedil;&atilde;o. Pode ainda ocorrer um mecanismo mais complexo, por inibi&ccedil;&atilde;o de sinaliza&ccedil;&atilde;o das prote&iacute;nas de suporte axonal e tamb&eacute;m estes inibidores do TNF-alfa poderem causar neuropatias axonais. No entanto, a maior parte os efeitos secund&aacute;rios descritos na literatura s&atilde;o sobre o sistema nervoso central, causam desmieliniza&ccedil;&atilde;o, agravamento de les&otilde;es de esclerose m&uacute;ltipla porque j&aacute; s&atilde;o les&otilde;es desmielinizantes. Est&atilde;o descritos assim mesmo muitos quadros, agudos de neuropatias e axonais, desmielinizantes (as neuropatias agudas tipo Sindrome Guillian-Barr&eacute;). Est&atilde;o tamb&eacute;m descritas polineuropatias axonais e  desmielinizantes cr&oacute;nicas, neuropatias motoras multifocais com bloqueios de condu&ccedil;&atilde;o, neuropatias sensitivas motoras desmielinizantes adquiridas, neuropatia m&uacute;ltipla por um processo mais  de vasculite, polineuropatias sensitivo-motoras axonais distais e ainda raramente miopatias. A associa&ccedil;&atilde;o com metronidazol pode tamb&eacute;m ocasionar doen&ccedil;a intersticial pulmonar. O tratamento destas polineuropatias causadas pelos inibidores do TNF-alfa passa pela suspens&atilde;o do f&aacute;rmaco, a recupera&ccedil;&atilde;o &eacute; quase universal na maior parte dos doentes e normalmente ao fim de um ano est&atilde;o completamente recuperados. Estas complica&ccedil;&otilde;es surgem em m&eacute;dia &plusmn; 9,5 meses depois de ter iniciado o f&aacute;rmaco, mas est&atilde;o casos descritos ap&oacute;s 2&ordf; toma ou 12 meses demais de terem tomado o f&aacute;rmaco. H&aacute; um caso publicado em que o doente teve polineuropatia aguda desmielinizante com infliximab, mudou-se para adalimumab e o doente est&aacute; bem sem altera&ccedil;&atilde;o polineurop&aacute;tica, Noutros casos insistiu-se com infliximab e os doentes n&atilde;o tiveram altera&ccedil;&atilde;o autoimune, portanto n&atilde;o se percebe muito bem porque acontece. &Eacute;, por vezes, complicado encontrar nexos de casualidade</p>     <p><b>JAD</b>: Mas neste doente h&aacute; um 2&ordm; culpado potencial?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PA</b>:. Temos o metronidazol tamb&eacute;m. O uso cr&oacute;nico tamb&eacute;m d&aacute; neuropatias; 85% dos doentes t&ecirc;m neuropatia cr&oacute;nica e sub-aguda ao fim de 1 ano de tratamento com metronidazol, sobretudo quando tomam doses totais superiores a 30gr. O metronidazol causa neuropatia sensitiva axonal distal sim&eacute;trica. A recupera&ccedil;&atilde;o normalmente ocorre 6 a 12 meses depois de terminar o f&aacute;rmaco. Mas est&atilde;o reportados casos em que n&atilde;o houve recupera&ccedil;&atilde;o e houve at&eacute; agravamento da polineuropatia. Temos outro 3&ordm; culpado prov&aacute;vel que &eacute; a desnutri&ccedil;&atilde;o terr&iacute;vel que este doente teve. O d&eacute;fice de vitamina B<sub>12</sub>, causa atingimento do sistema nervoso central: h&aacute; degeneresc&ecirc;ncia combinada, altera&ccedil;&otilde;es cognitivas, ataxia da marcha, isto tamb&eacute;m pelo processo de desmieliniza&ccedil;&atilde;o. Do ponto de vista neuromuscular d&aacute; neuropatia sensitiva de predom&iacute;nio axonal, neuropatia motora, mais tardia. As as neuropatias s&atilde;o mais sensitivas o que &eacute; parecido com este caso, ou seja, os doentes queixam-se inicialmente da sensibilidade, dor neurop&aacute;tica com alod&iacute;nia: qualquer est&iacute;mulo n&atilde;o doloroso provoca a dor com distesias, parestesias, etc. Pode ainda ocasionar neuropatia auton&oacute;mica e hipotens&atilde;o postural. O tratamento passa pela ministra&ccedil;&atilde;o de vitamina B<sub>12</sub>. Do ponto de vista cl&iacute;nico se os n&iacute;veis de vitamina B<sub>12</sub> est&atilde;o pr&oacute;ximos de 200 &micro;g/ml e temos d&uacute;vida se h&aacute; d&eacute;fice &eacute; importante dosear o &aacute;cido metilmal&oacute;nico e homociste&iacute;na porque isso nos indica se h&aacute; d&eacute;fice de vitamina B<sub>12</sub>. A vitamina E por si s&oacute; tamb&eacute;m causa neuropatia sensitiva de predom&iacute;nio axonal distal, como &eacute; este caso, e afecta grandes fibras causando tamb&eacute;m ataxia sensitiva. Tamb&eacute;m d&eacute;fices de cobre, magn&eacute;sio e vitamina D podem causar neuropatia. Temos pois v&aacute;rios factores para a polineuropatia. A interrup&ccedil;&atilde;o do f&aacute;rmaco poder&aacute; revelar o nexo de causalidade.</p>     <p><b>JAD</b>: A op&ccedil;&atilde;o nessa altura foi suspens&atilde;o dos f&aacute;rmacos. Este jovem deixou de andar e passou a deslocar-se em cadeira de rodas. Tinha pois atingimento grave. Eunice diga-nos como correu depois</p>     <p><b>ET</b>: Em Mar&ccedil;o de 2011 surgiu um novo abcesso na n&aacute;dega direita no local onde teve um dreno que foi progressivamente retirado para promover o encerramento do trajecto fistuloso. Em Maio de 2011 apareceu um abcesso na regi&atilde;o umbilical na zona onde tinha sido inserido um trocar aquando da colostomia, que teve drenagem espont&acirc;nea. Curiosamente do ponto de vista geral foi entre Mar&ccedil;o e Junho de 2011 que teve a melhor fase em termos gerais: retomou a escola, rep&ocirc;s o peso normal e passou a ter marcha aut&oacute;noma. Em Junho de 2011 tivemos novo agravamento, com diarreia e perda ponderal, a colonoscopia mostrou ent&atilde;o atingimento descont&iacute;nuo da mucosa com &uacute;lceras, fibrina, com atingimento mais exuberante no cego e no descendente.</p>     <p><b>JoL</b>: Nos fragmentos de biopsia obtidos por endoscopia alta n&atilde;o se observaram altera&ccedil;&otilde;es relevantes. Nos fragmentos obtidos por endoscopia baixa salientava-se a exist&ecirc;ncia de ulcera&ccedil;&atilde;o no cego (<a href="#f5a">Fig. 5A</a>) e altera&ccedil;&otilde;es inflamat&oacute;rias com actividade, sem distor&ccedil;&atilde;o arquitectural, no ascendente, transverso e descendente, com metaplasia de c&eacute;lulas de Paneth, tal como acontece na doen&ccedil;a de Crohn (<a href="#f5b">Fig. 5B</a>).</p>     <p><b>ET</b>: T&iacute;nhamos novamente agudiza&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a luminal, fistulizante evolutiva e &agrave; qual se associou iatrogenia. Optou-se por aumentar a dose de metrotexato tendo em conta a recupera&ccedil;&atilde;o ponderal, e um ciclo de corticoterapia a que correspondeu melhoria cl&iacute;nica e anal&iacute;tica.</p>     <p>Em Setembro de 2011, teve uve&iacute;te unilateral que acabou por se resolver com terap&ecirc;utica, e controlo oftalmol&oacute;gico normal.</p>     <p>Em Dezembro de 2011, ocorreu novo agravamento desta vez com doen&ccedil;a perianal destrutiva e reabertura da f&iacute;stula escrotal que se tinha manifestado no diagn&oacute;stico aos 13 anos. A imagem (fig #) mostra a pele ulcerada do &acirc;nus ao escroto.</p>     <p>Iniciou-se aplica&ccedil;&atilde;o t&oacute;pica de pomada de tacrolimus que promoveu consider&aacute;vel melhoria (fig #). Cerca de um m&ecirc;s e meio depois cicatrizou completamente cicatrizado.</p>     <p>Em Fevereiro, j&aacute; deste ano, aparece o que nos pareceu uma les&atilde;o metast&aacute;tica no prep&uacute;cio e na glande, com exsudado que se mantinha cronicamente. Foi efetuada bi&oacute;psia.</p>     <p><b>JoL</b>: Nos fragmentos de biopsia obtidos por endoscopia alta n&atilde;o se observaram altera&ccedil;&otilde;es relevantes. Nos fragmentos obtidos por endoscopia baixa salientava-se a exist&ecirc;ncia de ulcera&ccedil;&atilde;o no cego (<a href="#f5a">Fig. 5A</a>) e altera&ccedil;&otilde;es inflamat&oacute;rias com actividade, sem distor&ccedil;&atilde;o arquitectural, no ascendente, transverso e descendente, com metaplasia de c&eacute;lulas de Paneth, tal como acontece na doen&ccedil;a de Crohn (<a href="#f5b">Fig. 5B</a>).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>ET</b>: Em resumo, temos uma doen&ccedil;a de Crohn com 5 anos de evolu&ccedil;&atilde;o, num jovem de 18 anos, com atingimento perianal agressivo, agudiza&ccedil;&otilde;es frequentes da doen&ccedil;a luminal, com manifesta&ccedil;&atilde;o extra intestinal de uve&iacute;te e prov&aacute;vel les&atilde;o metast&aacute;tica no prep&uacute;cio, em quem foi efectuado uma escalada terap&ecirc;utica sem nunca verdadeiramente termos conseguido um controlo eficaz e prolongado da doen&ccedil;a, sobretudo perianal. Durante este processo terap&ecirc;utico ocorreu ainda iatrogenia. A discuss&atilde;o &eacute; agora qual a estrat&eacute;gia futura.</p>     <p><b>JAD</b>: Pe&ccedil;o ao Prof. J&uacute;lio Leite o seu ponto de vista perante esta grave situa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p><b>JL</b>: &Eacute; um caso dif&iacute;cil e tem de ser acompanhado. N&atilde;o sei como &eacute; que est&aacute; o per&iacute;neo neste momento: supurando? Cicatrizado? Mant&eacute;m-se em actividade? est&aacute; digamos praticamente sem nenhum processo supurativo? 2&ordf; quest&atilde;o: como &eacute; que est&aacute; o recto? N&atilde;o tivemos fotografias da endoscopia para mostrar. O recto est&aacute; desfuncionalizado, mas pode ser um recto que est&aacute; t&atilde;o fibr&oacute;tico, colapsado, n&atilde;o sei se vem a ter capacidade de distensibilidade e do doente utilizar, numa perspectiva futura. H&aacute; uma doen&ccedil;a perianal grave que se acompanha de uma proctite, inflama&ccedil;&atilde;o grave do recto; &eacute; um progn&oacute;stico mau, e se n&atilde;o conseguirmos controlar a doen&ccedil;a, teremos necessidade mesmo de tirar o recto, para tentar solucionar o problema. Qual tem sido  a evolu&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica?</p>     <p><b>FM</b>: Neste momento o doente n&atilde;o tem seton, tem o per&iacute;neo completamente cicatrizado e as f&iacute;stulas est&atilde;o cicatrizadas. N&atilde;o tem drenagem nenhuma. Temos neste momento a doen&ccedil;a anal clinicamente controlada</p>     <p><b>MC</b>: Deixa-me fazer um coment&aacute;rio. T&ecirc;m sido apresentados aqui os epis&oacute;dios de agudiza&ccedil;&atilde;o, mas nos intervalos tem fases de melhoria em que n&atilde;o supura nada; tem supura&ccedil;&atilde;o vestigial e quando a supura&ccedil;&atilde;o aumenta ou aparece uma colec&ccedil;&atilde;o de novo &eacute; que s&atilde;o as agudiza&ccedil;&otilde;es. O caso &eacute; complexo, mas a apresenta&ccedil;&atilde;o baseia-se nos epis&oacute;dios de agravamento e durante este ano e alguns meses e ele tem epis&oacute;dios em que anda francamente bem. Esta &eacute; a primeira fase em que provavelmente n&atilde;o h&aacute; nem sequer um orif&iacute;cio fistuloso vis&iacute;vel, mas houve fases sem drenagem e com encerramento de trajectos e depois reabertura.</p>     <p><b>LG</b>: Eu queria fazer um coment&aacute;rio, porque este tema tem sido extensamente estudado na literatura radiol&oacute;gica e gastroenterol&oacute;gica recente. Inicialmente utilizava-se a exist&ecirc;ncia ou n&atilde;o de drenagem dos trajectos fistulosos na pele como crit&eacute;rio de resposta ou de remiss&atilde;o cl&iacute;nica. Come&ccedil;ou depois a reparar-se que, apesar de &agrave;s vezes os doentes entrarem em remiss&atilde;o cl&iacute;nica sem terem trajectos fistulosos a drenar, a resson&acirc;ncia revelava um ou mais trajectos que mostravam actividade, ou seja o tal hipersinal nas sequ&ecirc;ncias ponderadas em T2 e a capta&ccedil;&atilde;o do produto de contraste. Num doente sem iatrogenia cada vez mais o objectivo terap&ecirc;utico n&atilde;o deve ser a remiss&atilde;o cl&iacute;nica (aus&ecirc;ncia de drenagem das fistulas), mas sim a remiss&atilde;o radiol&oacute;gica. Na resson&acirc;ncia, podemos ter f&iacute;stulas mas sem hipersinal em T2 nem capta&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, f&iacute;stulas ou trajectos fistulosos cr&oacute;nicos. A &uacute;ltima resson&acirc;ncia mostra os trajectos fistulosos exatamente iguais &agrave; 1&ordf;, com os mesmos sinais de actividade. Mesmo que neste momento n&atilde;o tenha trajetos a drenar estou convencido de que uma nova resson&acirc;ncia voltaria a revelar n&uacute;merosos trajetos e doen&ccedil;a em actividade.</p>     <p><b>FM</b>: Trata-se duma doen&ccedil;a de Crohn com inicio aos 13 anos. Sabemos hoje que o inicio antes dos 16 anos ou antes dos 40 anos &eacute; factor de mau progn&oacute;stico. Antigamente estratificava-se a doen&ccedil;a em ligeira, moderada ou grave e institu&iacute;a-se a terap&ecirc;utica de acordo com essa estratifica&ccedil;&atilde;o. Atualmente reconhecem-se grupos de risco e deve actuar-se com essa estratifica&ccedil;&atilde;o. Neste caso h&aacute; doen&ccedil;a antes dos 16 anos, envolvimento do recto, que &eacute; outro factor de risco de mau progn&oacute;stico, e do tracto digestivo superior porque tem um granuloma, que &eacute; outro factor de mau progn&oacute;stico e doen&ccedil;a anal. Tem 4 dos factores de mau progn&oacute;stico e provavelmente emagrecimento superior a 5Kg no diagn&oacute;stico. Perante um doente assim a terap&ecirc;utica exigida hoje inclui imunossupressores, para tentarmos alterar a hist&oacute;ria natural da doen&ccedil;a. Houve um conceito cl&aacute;ssico de abordar a doen&ccedil;a de Crohn. Actualmente temos uma abordagem diferente. No protocolo actual utilizamos azatioprina desde o tratamento inicial. Na 1&ordf; recidiva da doen&ccedil;a luminal ou anal, recomenda-se introdu&ccedil;&atilde;o de f&aacute;rmaco biol&oacute;gico anti-TNF alfa. Como disse o Sr. Prof. J&uacute;lio Leite ocorreu destrui&ccedil;&atilde;o sucessiva da estrutura anat&oacute;mica e funcional anal. Tamb&eacute;m tenho d&uacute;vidas que este recto mesmo sem ulcera&ccedil;&atilde;o venha a ser funcional. Tendo sido refract&aacute;rio ao infliximab &eacute; l&iacute;cito reintroduzi-lo? O Anti-TNF mais eficaz na doen&ccedil;a anal &eacute; o infliximab e a estrat&eacute;gia mais eficaz &eacute; infliximab mais azatioprina. Estamos a correr riscos de linfoma neste doente, mas temos que os assumir claramente perante n&oacute;s e perante o doente ou n&atilde;o conseguimos alterar a evolu&ccedil;&atilde;o. Temos doen&ccedil;a anal n&atilde;o controlada e enquanto n&atilde;o a controlarmos medicamente, como disse o Prof. J&uacute;lio Leite, n&atilde;o conseguimos resolver as f&iacute;stulas nem os abcessos. Portanto o objectivo actual &eacute; resolver a doen&ccedil;a medicamente e a estrat&eacute;gia combinada que se adoptou foi de infliximab mais metotrexato que hoje se admite ser o mais eficaz para este tipo de doen&ccedil;a ou infliximab mais azatioprina como ele tinha feito. Em grupo assumimos uma estrat&eacute;gia poss&iacute;vel que &eacute; assumir o risco de reintrodu&ccedil;&atilde;o de biol&oacute;gico, maximizar o metotrexato e suspender o corticoide.</p>     <p><b>JAD</b>: Vale a pena aqui abrir um par&ecirc;ntese para quem n&atilde;o est&aacute; muito familiarizado com o tratamento de doen&ccedil;a inflamat&oacute;ria intestinal. Em gastrenterologia de adultos sobre o tratamento da doen&ccedil;a de Crohn discute-se muito a abordagem “step up”, isto &eacute; corticoide, imunomodelador e biol&oacute;gicos ou “top down”, ou seja, come&ccedil;ar com biol&oacute;gicos e depois ir decrescendo a medica&ccedil;&atilde;o. Em Pediatria este protocolo “top down” n&atilde;o provou ainda ser igualmente eficaz e n&atilde;o h&aacute; evid&ecirc;ncia que o justifique em doentes pedi&aacute;tricos. Contudo em Pediatria fazemos outra coisa, o “rapid step up”, isto &eacute;, se os doente t&ecirc;m factores de gravidade, como o Prof Fernando Magro mencionou, iniciamos n&atilde;o s&oacute; o corticoide mas tamb&eacute;m o imunomodelador (azatioprina) em simult&acirc;neo. Sabemos que a azatioprina leva pelo menos 3 meses a ser farmacologicamente eficaz e por isso h&aacute; que a iniciar precocemente para podermos reduzir os corticoides e manter o efeito terap&ecirc;utico. Havendo factores de risco progredimos mais rapidamente, e avan&ccedil;amos para os biol&oacute;gicos. &Agrave; luz da experi&ecirc;ncia actual poderia iniciar mais precocemente biol&oacute;gicos por todos os factores de gravidade que tinha.</p>     <p><b>SS</b>: Gostaria de saber se foi doseada a vitamina B12. </p>     <p><b>ET</b>: Isso foi feito inicialmente e n&atilde;o havia d&eacute;fice, com valor de cerca de 450 pg/ml.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>JAD</b>: O doente esteve durante meses com alimenta&ccedil;&atilde;o parent&eacute;rica, com suplementa&ccedil;&atilde;o adequada dos v&aacute;rios oligoelementos, pelo que era improv&aacute;vel que ocorresse, a n&atilde;o ser por acidente t&eacute;cnico de prepara&ccedil;&atilde;o.</p>     <p><b>PA</b>: Nos casos publicados com polineuropatia ocasionadas pelos inibidores do TNF-alfa, alguns autores n&atilde;o reiniciaram, provavelmente porque a doen&ccedil;a era menos grave do que este. Em dois casos ocorreu s&iacute;ndrome de Guillan-Barr&eacute; e foi necess&aacute;rio ministrar imunoglobulinas recuperar da poliradiculo-nevrite aguda desmielinizante. Sugiro que se realize electromiografia 4 semanas ap&oacute;s reiniciar o infliximab. No nosso doente pode surgir polineuropatia aguda ou cr&oacute;nica e v&aacute;rios tipos de polineuropatias, bloqueios de condu&ccedil;&atilde;o etc, pelo que vai necessitar de vigil&acirc;ncia cl&iacute;nica sobretudo neurol&oacute;gica e perante qualquer suspeita de parestesias, disestesias ou altera&ccedil;&atilde;o polineurop&aacute;tica vai necessitar de electromiografia. Como vimos n&atilde;o h&aacute; rela&ccedil;&atilde;o obrigat&oacute;ria com a dose: alguns s&oacute; tiveram reagravamento neurol&oacute;gico ao fim de 12 meses, e vamos pois avaliar o ponto de vista cl&iacute;nico do doente e estar atento a qualquer altera&ccedil;&atilde;o neurop&aacute;tica e repetir a electromiografia perante qualquer suspeita m&iacute;nima. Eu gostava de perguntar se h&aacute; hip&oacute;tese de dosear dos anticorpos contra o f&aacute;rmaco.</p>     <p><b>FM</b>: &Eacute; poss&iacute;vel fazer o doseamento do f&aacute;rmaco e anticorpos, mas n&oacute;s utilizamos mais em termos farmacocin&eacute;ticos a quantifica&ccedil;&atilde;o do f&aacute;rmaco. Se o f&aacute;rmaco estiver em n&iacute;veis adequados depois j&aacute; n&atilde;o fazemos o doseamento de anticorpos, mas isso est&aacute; mais provado de certa forma para a doen&ccedil;a luminal, n&atilde;o para a anal.</p>     <p><b>JAD</b>: Perante todo este cen&aacute;rio e dificuldades, a situa&ccedil;&atilde;o foi discutida com o doente e com a fam&iacute;lia. A nossa proposta foi reiniciar o infliximab, conscientes de que havia algum risco de poder surgir efeito lateral, mas com vigil&acirc;ncia e precocemente suspender, se necess&aacute;rio. Havia um claro risco de recidiva da doen&ccedil;a sem este tratamento. Como foi dito, os trajectos fistulosos est&atilde;o aparentemente encerrados depois de retomar o infliximab. Eles aceitaram conscientemente o risco do tratamento. Realizou-se a 1&ordf; infus&atilde;o e esta semana tem melhoria substancial. Uma das ang&uacute;stias desta fam&iacute;lia &eacute; se a evolu&ccedil;&atilde;o teria sido diferente numa institui&ccedil;&atilde;o diferente da inicial. N&atilde;o &eacute; garantido que assim seja; este doente tem uma evolu&ccedil;&atilde;o particularmente agressiva que &eacute; pouco frequente neste grupo et&aacute;rio. Seria muito interessante avaliar factores gen&eacute;ticos, saber se tem muta&ccedil;&otilde;es do NOD2. Como sabem h&aacute; factores gen&eacute;ticos que predisp&otilde;em para um risco acrescido de doen&ccedil;a de Crohn, mas n&atilde;o s&atilde;o exclusivos nem suficientes para a ocorr&ecirc;ncia da doen&ccedil;a. Os doentes que tem uma ou duas muta&ccedil;&otilde;es no NOD2/CARD15 t&ecirc;m risco de doen&ccedil;a mais agressiva. Temos aqui uma doen&ccedil;a particularmente grave, com decis&otilde;es terap&ecirc;uticas muito delicadas, e &eacute; muito evidente a necessidade de informarmos os doentes e serem parte interessada nas decis&otilde;es que &eacute; preciso tomar. E agora o que pensam os cirurgi&otilde;es em termos de futuro desta colostomia e deste intestino distal. O que acham que se pode prever?</p>     <p><b>JL</b>: N&oacute;s temos verificado nos adultos que tratamos com doen&ccedil;as graves de Crohn &eacute; que realmente conseguimos diminuir o processo inflamat&oacute;rio. Neste doente se estiver assim tudo suavemente, sem processo inflamat&oacute;rio e existir ainda um trajecto que v&aacute; supurando ligeiramenteC e deixar cicatrizada aquela zona. O que nos interessa &eacute; que tudo cicatrize e depois, &eacute; poss&iacute;vel que possa vir a tentar fechar a colostomia. Com o que vimos daquele recto, acho que vale a pena fazer um cl&aacute;ssico clister com gastrografina, pois temos convic&ccedil;&atilde;o de que o recto s&oacute; funciona se for distens&iacute;vel; se estamos na presen&ccedil;a de um recto que n&atilde;o se distende o pr&oacute;prio doente tem dificuldade em segurar as fezes. A capacidade da contin&ecirc;ncia  depende da distensibilidade do recto e do tamanho esf&iacute;ncter, que j&aacute; est&aacute; um pouco comprometido pelas les&otilde;es. Se associadamente a isso o doente tem tend&ecirc;ncia para diarreia, pode ter incontin&ecirc;ncia e a&iacute; ent&atilde;o o resultado cl&iacute;nico n&atilde;o &eacute; bom. Estamos pois perante uma certa dificuldade de dizer o que vai acontecer.</p>     <p><b>Plateia</b>: No in&iacute;cio da apresenta&ccedil;&atilde;o disseram que o doente veio para c&aacute; com proposta de protocolectomia total certo? Tendo em conta que a doen&ccedil;a &eacute; t&atilde;o grave, n&atilde;o p&otilde;e esta hip&oacute;tese cir&uacute;rgica porqu&ecirc; ou em que casos &eacute; que o fariam?</p>     <p><b>JL</b>: Tem toda a raz&atilde;o. Se verificarmos que &eacute; uma doen&ccedil;a refract&aacute;ria, se a terap&ecirc;utica m&eacute;dica que hoje em dia sabemos que &eacute; eficaz, n&atilde;o puder ser realizada pela polineuropatia ou se continuar a reactivar, poderemos chegar &agrave; tal situa&ccedil;&atilde;o de ter que tirar a doen&ccedil;a,que parecia mais localizada ao recto e sigmoide. Mas agora j&aacute; verificamos que tamb&eacute;m estava no c&oacute;lon direito. Mas essa hip&oacute;tese mant&eacute;m-se e tenho v&aacute;rios doentes relativamente jovens tratados com essa terap&ecirc;utica.</p>     <p><b>SS</b>: Neste caso as pessoas procuraram proteger o doente no sentido de n&atilde;o avan&ccedil;ar para a cirurgia, porque &eacute; muito mutilante.</p>     <p><b>JAD</b>: A protocolectomia condena inevitavelmente este doente a colostomia para o resto da vida. O que temos tentado fazer &eacute; controlar a doen&ccedil;a e ir aguentando, ver se &eacute; poss&iacute;vel algures no futuro repor o transito, embora com consci&ecirc;ncia destas duvidas e que &eacute; pouco prov&aacute;vel que isso possa ser feito.</p>     <p><b>FM</b>: A nossa decis&atilde;o foi motivada por achamos que a terap&ecirc;utica m&eacute;dica n&atilde;o tinha sido ainda esgotada e era preciso maximiz&aacute;-la para ficarmos tranquilos em rela&ccedil;&atilde;o ao futuro do doente, e porque o cirurgi&atilde;o n&atilde;o gosta de operar doen&ccedil;a anal, particularmente rectal, quando n&atilde;o conseguimos medicamente control&aacute;-la. Ach&aacute;mos que em termos m&eacute;dicos pod&iacute;amos ainda oferecer mais coisas ao doente e que pode submeter-se a cirurgia num segundo tempo com a doen&ccedil;a mais controlada.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Plateia</b>: Imaginemos que conseguimos controlar a doen&ccedil;a at&eacute; os trajectos fistulosos. Como vamos saber se o recto est&aacute; funcional ou n&atilde;o? Vamos arriscar a restitui&ccedil;&atilde;o do tr&acirc;nsito?</p>     <p><b>JL</b>: Clinicamente temos capacidade pelo exame anal e toque rectal, de ter ideia da capacidade funcional. A pr&oacute;pria endoscopia permite ver se  dilata com a insufla&ccedil;&atilde;o de ar. Nas imagens est&aacute;ticas que pode nem ser t&atilde;o evidente esta situa&ccedil;&atilde;o de rigidez que nos pareceu. Por vezes operamos doentes em que temporariamente deixamos uma ostomia por um cano, e fazemos um clister com gastrografina para ver se h&aacute; f&iacute;stula e vemos um tubo muito fino e apesar de tudo o doente consegue ter uma aceit&aacute;vel contin&ecirc;ncia. Embora tenha expressado esta d&uacute;vida tenho confian&ccedil;a que ainda se vai conseguir encerrar a colostomia.</p>     <p><b>JAD</b>: Este doente coloca ainda uma outra dimens&atilde;o preocupante: &eacute; a transi&ccedil;&atilde;o para a consulta de adultos. N&oacute;s entregamos aos colegas de adultos doentes que s&atilde;o verdadeiros “presentes envenenados”. Quando eles diagnosticam um doente de Crohn aos 30 anos ou 40 come&ccedil;am a trat&aacute;-los desde o principio e v&atilde;o subindo esta escalada terap&ecirc;utica de que fomos falando, mas quando entregamos os nossos doentes j&aacute; os recebem no fim da escalada, isto &eacute; j&aacute; correram tudo aquilo que h&aacute; dispon&iacute;vel e ainda v&atilde;o ter mais 50 ou 60 anos de doen&ccedil;a, o que cria problemas graves. Por isso &eacute; necess&aacute;rio que esta transi&ccedil;&atilde;o se fa&ccedil;a de forma muito harmoniosa para que n&atilde;o haja interrup&ccedil;&atilde;o de cuidados, para que haja continua&ccedil;&atilde;o e acordo nos protocolos terap&ecirc;uticos de forma a minimizar o risco de complica&ccedil;&otilde;es e de agravamento. O Hospital S. Jo&atilde;o tem sido pioneiro em termos nacionais na organiza&ccedil;&atilde;o desta transi&ccedil;&atilde;o de cuidados e agrade&ccedil;o ao Prof. Fernando Magro a colabora&ccedil;&atilde;o que tem dado neste processo.</p>     <p><b>Plateia</b>: Isto &eacute; o fim da linha em termos de terap&ecirc;utica m&eacute;dica de doen&ccedil;a de Crohn? Se falharem os inibidores TNF, h&aacute; possibilidade de usar outros imunossupressores mais potentes?</p>     <p><b>JAD</b>: H&aacute; v&aacute;rios f&aacute;rmacos em investiga&ccedil;&atilde;o e &eacute; previs&iacute;vel que em 5 ou 10 anos outros f&aacute;rmacos sejam usados, actuando noutros pontos da cascata inflamat&oacute;ria. </p>     <p><b>Plateia</b>: Temos verificado que alguns doentes com patologia autoimune melhoram quando fazem autotransplante de c&eacute;lulas progenitoras hematopo&eacute;ticas na sequ&ecirc;ncia de mielomas ou linfomas que provavelmente aparecem tamb&eacute;m na sequ&ecirc;ncia de patologia autoimune. Qual a sua aplicabilidade na doen&ccedil;a de Crohn?</p>     <p><b>FM</b>: Podemos utilizar o ustequimumab, anti IL12 e IL23, de que come&ccedil;a a haver estudos na doen&ccedil;a de Crohn, e o natalizumab n&atilde;o foi aprovado na Europa, mas pode utilizar-se off label na doen&ccedil;a de Crohn. H&aacute; j&aacute; mais de 40 doentes com doen&ccedil;a de Crohn refrat&aacute;ria a todas as terap&ecirc;uticas convencionais que foram submetidos a autotransplante com resultados favor&aacute;veis de 60 a 70%.</p>     <p><b>JAD</b>: H&aacute; tamb&eacute;m grupos espanh&oacute;is a investigar o  implante de c&eacute;lulas estaminais no encerramento de trajectos fistulosos, mas tudo isso, est&aacute; ainda no dom&iacute;nio da investiga&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica.</p>     <p><b>Plateia</b>: Eu gostava de perceber melhor o que &eacute; e em que consiste a alimenta&ccedil;&atilde;o polim&eacute;rica e se foi uma coisa s&oacute; moment&acirc;nea naquela agudiza&ccedil;&atilde;o? H&aacute; alguma rela&ccedil;&atilde;o directa entre a alimenta&ccedil;&atilde;o e as agudiza&ccedil;&otilde;es da doen&ccedil;a?</p>     <p><b>JAD</b>: H&aacute; mais de 20 anos, em crian&ccedil;as com formas graves de Crohn perianal os cirurgi&otilde;es faziam deriva&ccedil;&otilde;es do transito intestinal, com colostomia, como forma de curar ou melhorar a doen&ccedil;a perianal.Verificava-se que eliminar o contacto da mucosa com os nutrientes servia para melhorar a inflama&ccedil;&atilde;o da mucosa. Da&iacute; surgiu a ideia de eventualmente tratar os doentes com alimenta&ccedil;&atilde;o mono antig&eacute;nica elementar. Fizeram-se ent&atilde;o ensaios com dieta elementar, isto &eacute;, formulas &agrave; base de amino&aacute;cidos e conseguiram-se resultados semelhantes aos dos cortic&oacute;ides. Mas adiante, essas dietas s&atilde;o de paladar muito desagrad&aacute;vel, dif&iacute;ceis de aceitar, e ensaiou-se ent&atilde;o tratamento com dietas polim&eacute;ricas e hoje est&aacute; claramente documentado em v&aacute;rias metan&aacute;lises que a alimenta&ccedil;&atilde;o polim&eacute;rica durante 6 a 8 semanas na doen&ccedil;a de Crohn pedi&aacute;trica tem resultados equivalentes ao dos cortic&oacute;ides, mas com claro benef&iacute;cio nutricional e sem os inconvenientes da corticoterapia. Na doen&ccedil;a de Crohn dos adultos esse benef&iacute;cio &eacute; menos evidente, mas na doen&ccedil;a de Crohn pedi&aacute;trica hoje &eacute; cada vez mais generalizada a utiliza&ccedil;&atilde;o da dieta polim&eacute;rica como alimenta&ccedil;&atilde;o exclusiva durante 6 a 8 semanas na indu&ccedil;&atilde;o da remiss&atilde;o. Um pol&iacute;mero &eacute; um conjunto de mol&eacute;culas e neste caso usa cadeia proteica. Em vez de amino&aacute;cidos simples usam-se prote&iacute;nas, que conferem uma monotonia antig&eacute;nica e consegue-se com esse tipo de alimenta&ccedil;&atilde;o (em frascos semelhantes a iogurte l&iacute;quido), nutrir os doentes e diminuir marcadamente a actividade inflamat&oacute;ria do intestino. Temos alguns doentes que, quando entram em reca&iacute;da, preferem voltar &agrave; dieta em vez de corticoides.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Plateia</b>: Uma quest&atilde;o, relacionado com o microbioma, em rela&ccedil;&atilde;o a probi&oacute;ticos ou antibi&oacute;ticos: n&atilde;o h&aacute; nada descrito que seja ben&eacute;fico na doen&ccedil;a de Crohn?</p>     <p><b>JAD</b>: Tem havido imensa investiga&ccedil;&atilde;o sobre isso. Durante dezenas de anos achava-se que havia um agente infeccioso que causaria a doen&ccedil;a de Crohn. Como sabem &eacute; uma doen&ccedil;a granulomatosa e por semelhan&ccedil;a com outras doen&ccedil;as granulomatosas como a tuberculose achava-se que provavelmente havia um agente espec&iacute;fico que causava a infec&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se idnetificou, contudo um agente &uacute;nico sabemos que a doen&ccedil;a decorre da interac&ccedil;&atilde;o com a flora bacteriana intestinal, o microbioma. Factores gen&eacute;ticos, mas tamb&eacute;m ambientais, como o tipo de gorduras, a&ccedil;&uacute;cares, etc, ter&atilde;o  papel importante. H&aacute; 20 anos verificou-se que indianos que emigram para Inglaterra tinham uma baixa preval&ecirc;ncia de doen&ccedil;a inflamat&oacute;ria intestinal, mas os seus filhos com o mesmo patrim&oacute;nio gen&eacute;tico j&aacute; tinham uma preval&ecirc;ncia igual ao da popula&ccedil;&atilde;o inglesa, o que revela a import&acirc;ncia dos factores ambientais.</p>     <p>Contudo, o uso de agentes vivos, como os probi&oacute;ticos, n&atilde;o revelou resultado sconsistentes na preven&ccedil;&atilde;o ou no tratamento da Doen&ccedil;a de Crohn. Num outro contexto, na colite ulcerosa, especialmente em doente ssubmetidos a cirurgia, parece haver benef&iacute;cio no seu uso.</p>     <p>Prof. Sobrinho Sim&otilde;es e o Dr. Jorge Amil Dias agradeceram a colabora&ccedil;&atilde;o de todos os participantes e da audi&ecirc;ncia. </p>      ]]></body>
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