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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Democracia, justiça e direitos humanos: ‘pontos cegos’ do discurso humanista na era dos mercados]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The author presents the complex relation between new humanism, congruent with the spirit of current capitalism, and concepts of democracy, human rights and justice. Accordingly, the author aims to highlight the blind spots that current humanists hide in their speech, which is placed at the service of the logics of market. The paper finishes with a proposal of another type of humanism, which contributes to critically reverse this situation and to redignify democracy, human rights and justice.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="es"><p><![CDATA[Presentamos en esto trabajo la compleja relación entre el nuevo humanismo, en consonancia con el nuevo espíritu del capitalismo de hoy, y los conceptos de democracia, derechos humanos y justicia. En particular, el autor tiene la intención de hacer visibles los puntos ciegos que el discurso humanista actual oculta, ya al servicio de la lógica del mercado. El artículo concluye con una propuesta de otro humanismo, que contribuya a revertir críticamente esta situación y redignificar democracia, los derechos humanos y la justicia.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Democracia, justi&ccedil;a e direitos humanos: ‘pontos cegos’ do discurso humanista na era dos mercados</b></p>     <p><b>Democracy, justice and human rights: blind spots of humanist discourse in the age of markets</b></p>     <p><b>Democracia, justicia y derechos humanos: puntos ciegos del discurso humanista en la era de los mercados</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Carlos V. Est&ecirc;v&atilde;o<sup>i</sup></b></p>     <p>Universidade do Minho, Portugal</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endereço para Correspondência</a><a name="topc0"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Apresenta-se neste artigo a rela&ccedil;&atilde;o complexa entre o novo humanismo, consent&acirc;neo com o novo esp&iacute;rito do capitalismo atual, e os conceitos de democracia, direitos humanos e justi&ccedil;a. De modo particular, o autor pretende tornar vis&iacute;veis os pontos cegos que o discurso humanista atual esconde, porque colocado ao servi&ccedil;o de l&oacute;gicas de mercado. O artigo finaliza com uma proposta de um outro humanismo, que contribua para reverter criticamente esta situa&ccedil;&atilde;o e para redignificar a democracia, os direitos e a justi&ccedil;a.</p>     <p><b>Palavras-chave</b>: Novo-humanismo; Democracia; Direitos; Justi&ccedil;a</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>The author presents the complex relation between new humanism, congruent with the spirit of current capitalism, and concepts of democracy, human rights and justice. Accordingly, the author aims to highlight the blind spots that current humanists hide in their speech, which is placed at the service of the logics of market. The paper finishes with a proposal of another type of humanism, which contributes to critically reverse this situation and to redignify democracy, human rights and justice.</p>     <p><b>Keywords</b>: New humanism; Democracy; Rights; Justice</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMEN</b></p>     <p>Presentamos en esto trabajo la compleja relaci&oacute;n entre el nuevo humanismo, en consonancia con el nuevo esp&iacute;ritu del capitalismo de hoy, y los conceptos de democracia, derechos humanos y justicia. En particular, el autor tiene la intenci&oacute;n de hacer visibles los puntos ciegos que el discurso humanista actual oculta, ya al servicio de la l&oacute;gica del mercado. El art&iacute;culo concluye con una propuesta de otro humanismo, que contribuya a revertir cr&iacute;ticamente esta situaci&oacute;n y redignificar democracia, los derechos humanos y la justicia.</p>     <p><b>Palabras clave</b>: Nuevo humanismo; Democracia; Derechos; Justicia</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>Hoje, a democracia, os direitos humanos e a justi&ccedil;a s&atilde;o centrais nos discursos das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas internacionais, exigindo-se cada vez mais o seu aprofundamento e a sua amplia&ccedil;&atilde;o, ainda que as pr&aacute;ticas que ocorrem em alguns lugares do globo pare&ccedil;am ir em sentido contr&aacute;rio tal como alguns discursos subsidi&aacute;rios da caverna dos mercados e da globaliza&ccedil;&atilde;o neoliberalizada.</p>     <p>Na verdade, em muitas regi&otilde;es, a democracia aparece infligida por investidas que a querem colocar do lado da "p&oacute;s-democracia", extremamente &uacute;til &agrave; ordem do mercado, o que leva alguns te&oacute;ricos a questionar-se se a democracia deveria, por exemplo, ser considerada ou n&atilde;o um direito humano (Ramcharan, 2008) e, de modo mais radical, se se justificaria continuarmos a falar em humanismo.</p>     <p>Por sua vez, os direitos humanos, embora sejam considerados naturalmente como um dos pilares da ordem mundial contempor&acirc;nea, fornecendo pol&iacute;ticas e contribuindo para a ordem p&uacute;blica, quer internacionalmente quer nacionalmente, t&ecirc;m sido incapazes de superar discord&acirc;ncias quer em torno da sua fundamenta&ccedil;&atilde;o, estrutura, justifica&ccedil;&atilde;o, origem e amplitude, quer tamb&eacute;m em termos da sua rela&ccedil;&atilde;o com a justi&ccedil;a e a democracia. Nesse sentido, uma das quest&otilde;es pertinentes que poderia colocar-se seria precisamente a da utilidade dos direitos humanos.</p>     <p>No respeitante &agrave; justi&ccedil;a, ela tem vindo a ser defendida cada vez mais na sua pluridimensionalidade, caracter&iacute;stica esta que lhe d&aacute; um cariz de uma certa anormalidade, com a (des)vantagem de a tornar mais adapt&aacute;vel mas tamb&eacute;m mais funcional aos mercados, &agrave; custa, logicamente, da substantividade da democracia e dos direitos. E aqui se coloca a mesma quest&atilde;o: que relev&acirc;ncia para o bem-estar de todos e da sa&uacute;de democr&aacute;tica do sistema pol&iacute;tico pugnar por uma justi&ccedil;a t&atilde;o male&aacute;vel, t&atilde;o pl&aacute;stica, que tudo parece justificar?</p>     <p>Al&eacute;m do que ficou dito, h&aacute; que reconhecer que na rela&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a com os direitos os desencontros s&atilde;o v&aacute;rios e nem sempre &eacute; f&aacute;cil articular estes dois conceitos, embora muitos dos consensos em redor da sua natural articula&ccedil;&atilde;o se te&ccedil;am a partir da ideia de que qualquer teoria dos direitos humanos implica sempre uma teoria de justi&ccedil;a distributiva ou que os direitos humanos derivam das regras sociais necess&aacute;rias para assegurar que os interesses b&aacute;sicos de todos os indiv&iacute;duos sejam satisfeitos (ver Macleod, 2005). Outros autores, imbu&iacute;dos da mesma preocupa&ccedil;&atilde;o, apresentam a rela&ccedil;&atilde;o entre justi&ccedil;a e direitos humanos de uma forma ainda mais ampla: os direitos seriam naturalmente os garantes da justi&ccedil;a social ou os instrumentos de realiza&ccedil;&atilde;o de conce&ccedil;&otilde;es compreensivas de uma vida boa.</p>     <p>Perante todas as vicissitudes por quem tem passado a rela&ccedil;&atilde;o entre democracia, direitos humanos e justi&ccedil;a, a atual ideologia do humanismo, vis&iacute;vel em discursos de pendor pol&iacute;tico, econ&oacute;mico, social e cultural, tem emergido para muitos como uma esp&eacute;cie de b&uacute;ssola para recolocar esta trilogia nos seus devidos lugares, mas de uma forma <i>sui generis</i>, que implica a sua ressemantiza&ccedil;&atilde;o para melhor corresponder aos desafios atuais. Por outras palavras, a onda do que aqui &eacute; apelidado de <i>novo humanismo</i> traz consigo evid&ecirc;ncias que, na sua perce&ccedil;&atilde;o imediata e pr&oacute;xima, acabam por construir uma realidade e uma verdade (e domina&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m) coerentes com o novo esp&iacute;rito do capitalismo tardio, escondendo simultaneamente <i>pontos cegos</i>, ou seja, outras realidades, outras conex&otilde;es, outras verdades, n&atilde;o conformes com a atual ordem econ&oacute;mica e financeira e o modo como a democracia, os direitos humanos e a justi&ccedil;a a&iacute; encaixam.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. O discurso humanista dos nossos tempos</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Um dos modos mais expeditos de apregoar aos quatro ventos a nossa f&eacute; na democracia, nos direitos humanos e na justi&ccedil;a &eacute; integr&aacute;-los num conjunto bem ordenado, envolto num discurso humanista em que o Homem assuma uma posi&ccedil;&atilde;o central.</p>     <p>Com efeito, &eacute; dif&iacute;cil rebater a argumenta&ccedil;&atilde;o daqueles que fundamentam as suas posi&ccedil;&otilde;es sobre os direitos e a justi&ccedil;a e mesmo sobre a democracia a partir dos pressupostos filos&oacute;ficos do humanismo, ainda que n&atilde;o se saiba muito bem, por vezes, o que se entende por humanismo ou de que humanismo estamos a falar.</p>     <p>Esta ignor&acirc;ncia (ou oculta&ccedil;&atilde;o), contudo, n&atilde;o impede de se invocar o santo nome do humanismo para produzir um discurso coeso e aparentemente convincente, em torno da democracia, dos direitos humanos e da justi&ccedil;a, ultrapassando, ou preenchendo, os pontos cegos que a compreens&atilde;o cr&iacute;tica destes conceitos poderia suscitar. Ser&aacute; talvez por isso que o atual recurso ao humanismo n&atilde;o passe de mais uma manifesta&ccedil;&atilde;o de ignor&acirc;ncia que nos querem impor, ou, ent&atilde;o, de um recurso que intenta dispensar-nos de pensar, facto que &eacute; perfeitamente funcional ao pensamento &uacute;nico que deriva do atual est&aacute;dio do capitalismo apresentado, por vezes, como condescendente e compassivo.</p>     <p>Na verdade, o esp&iacute;rito do capitalismo atual nunca deixou cair a bandeira do humanismo. Pelo contr&aacute;rio, sempre a desfraldou aos quatro ventos, mas num sentido que, de modo nenhum, pode ser confundido com a orienta&ccedil;&atilde;o do humanismo (filos&oacute;fico) cl&aacute;ssico.</p>     <p>O denominador comum de todas as variantes do humanismo &eacute;, efetivamente, o convencimento de que o ser humano &eacute; em si mesmo um valor e de que deve ser tratado como tal. A pr&oacute;pria palavra o inculca: humanismo significa a doutrina do primado do Homem, a afirma&ccedil;&atilde;o e defesa do humano.</p>     <p>Com efeito, e recorrendo &agrave; hist&oacute;ria das ideias pol&iacute;ticas, a origem do humanismo moderno ocidental anda ligada &agrave; hist&oacute;ria da liberta&ccedil;&atilde;o, por a&ccedil;&atilde;o da burguesia, das estruturas feudalizadas que vincavam a servid&atilde;o humana. &Eacute; efetivamente com a ascens&atilde;o da burguesia e com a f&eacute; nas possibilidades da raz&atilde;o que o humanismo, conjuntamente com o otimismo, a cren&ccedil;a no progresso e o individualismo, emergem com vigor na racionalidade ocidental. Consequentemente, podemos dizer que o humanismo cl&aacute;ssico &eacute; o humanismo burgu&ecirc;s, caracterizado como racionalista, abstrato, de pendor idealista, que defende que o homem nasce Homem, porque a Raz&atilde;o &eacute; o atributo natural de todos os homens; ou seja, o Homem &eacute; um ente gen&eacute;rico, um ser abstrato dotado de raz&atilde;o.</p>     <p>Mas existem <i>outros</i> humanismos, com sementes na inquieta&ccedil;&atilde;o dos povos, no inconformismo da juventude e da intelectualidade; ou fundamentado na necessidade de dissolu&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo no impessoal, no anonimato, na vontade de poder, no absurdo, na unidimensionalidade, no conhecimento; ou assente na dignidade do humano e na sua liberta&ccedil;&atilde;o das cadeias da opress&atilde;o, da domina&ccedil;&atilde;o, do colonialismo, do capital; ou escurado no personalismo, na valoriza&ccedil;&atilde;o do ser em detrimento do ter; ou radicado na iman&ecirc;ncia do homem na natureza; ou baseado na rela&ccedil;&atilde;o com a transcend&ecirc;ncia, com o Ser ou com a divindade.</p>     <p>Todavia, eu quero falar aqui de um outro tipo de humanismo, do novo humanismo, assente em pressupostos sintonizados com o "novo esp&iacute;rito do capitalismo" de que falam Boltanski e Chiapello (1999), que integra n&atilde;o apenas os pressupostos do capitalismo, isto &eacute;, a <i>ratio</i> do livre mercado, mas tamb&eacute;m, numa esp&eacute;cie de apropria&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica da cr&iacute;tica, uma s&eacute;rie de argumentos dos cr&iacute;ticos do neoliberalismo (o que, consequentemente, torna mais dif&iacute;cil a miss&atilde;o da sua desoculta&ccedil;&atilde;o ou da sua desconstru&ccedil;&atilde;o).</p>     <p>De facto, o discurso insinuoso do novo humanismo recorre a um arsenal de conceitos lustrosos e a uma argumenta&ccedil;&atilde;o sustentada tamb&eacute;m do ponto de vista cr&iacute;tico, disponibilizando, deste modo, ao mundo empresarial e mercantil uma ret&oacute;rica atraente a par de uma estrutura&ccedil;&atilde;o discursiva dif&iacute;cil de desconstruir. Exemplificando o que acabo de dizer, os dois autores atr&aacute;s citados elencam os seguintes conceitos, que se comportam como uma esp&eacute;cie de atratores estranhos de novos discursos, de novas qualidades, de novas mensagens, enfim, de novas verdades:</p>     <p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>(...) a autonomia, a espontaneidade, a mobilidade, a capacidade rizom&aacute;tica, a polival&ecirc;ncia, a comunicabilidade, a abertura aos outros e &agrave;s novidades, a disponibilidade, a criatividade, a intui&ccedil;&atilde;o vision&aacute;ria, a sensibilidade &agrave;s diferen&ccedil;as, a capacidade de dar aten&ccedil;&atilde;o &agrave; viv&ecirc;ncia alheia e a aceita&ccedil;&atilde;o de m&uacute;ltiplas experi&ecirc;ncias, a atrac&ccedil;&atilde;o pelo informal e a busca de contatos interpessoais (…) (Boltanski &amp; Chiapello, 1999, p. 150).</blockquote></p>     <p>Acresce a esta lista mais um conjunto sugestivo de outros conceitos, que me permito sugerir: empregabilidade, comunica&ccedil;&atilde;o, coopera&ccedil;&atilde;o, qualidade, aprendizagem ao longo da vida, requalifica&ccedil;&atilde;o, coes&atilde;o social, inclus&atilde;o, compet&ecirc;ncias, projeto, colaboradores, comunidades de produ&ccedil;&atilde;o, <i>downsizing</i>… todos eles apontando para a prioridade do mundo heraclitiano, da adapta&ccedil;&atilde;o a condi&ccedil;&otilde;es que fluem permanentemente na transitoriedade, na amoldabilidade, na liquidez (ver Bauman, 2003).</p>     <p>Como &eacute; f&aacute;cil de intuir, deste campo sem&acirc;ntico podemos produzir um discurso com todos os ingredientes que satisfa&ccedil;am uma ementa humanista mais ou menos apetitosa aos esp&iacute;ritos amantes do bom Mercado (mas tamb&eacute;m do bom Estado e at&eacute; da boa Comunidade).</p>     <p>Um desses ingredientes, e para come&ccedil;ar, &eacute; precisamente a "aptid&atilde;o para a comunica&ccedil;&atilde;o". Ali&aacute;s, a comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; uma das bases fundamentais das novas capacidades no capitalismo informacional, em que a rede de trabalho &eacute; a rede de comunica&ccedil;&atilde;o entre pessoas. Neste sentido, permanecer em rede &eacute; permanecer mais <i>humano</i> e simultaneamente mais produtivo e consumidor. A rede &eacute;, pois, uma forma social mais eficiente e justa do que as rela&ccedil;&otilde;es formais tradicionais.</p>     <p>H&aacute;, depois, que adicionar um outro composto a esta receita com sabor id&ecirc;ntico: o dos projetos. Com efeito, diz-se que a sociedade atual &eacute; uma sociedade de projetos, pelo que o homem atual deve desenvolver a aptid&atilde;o para ter uma viv&ecirc;ncia conexionista, a par de uma disponibilidade para se tornar volante, n&oacute;mada, sem resid&ecirc;ncia fixa, com pensamento rizom&aacute;tico. Por conseguinte, o que importa &eacute; envolvimento em projetos, uma vez que estes propiciam outras oportunidades n&atilde;o apenas de conhecer pessoas mas de aprender novas compet&ecirc;ncias e de comprometer-se com novos contratos.</p>     <p>E agora mais um conceito-aperitivo se torna capital: o das compet&ecirc;ncias, nomeadamente as compet&ecirc;ncias relacionais como: a abertura, o autocontrolo, a disponibilidade e o bom humor, entre muitas outras (ver Boltanski &amp; Chiapello, 1999; Cardoso, Est&ecirc;v&atilde;o, &amp; Silva, 2006), que nos colocam num patamar superior de grandeza, de empregabilidade, de flexibilidade. O mesmo se diga das virtudes salv&iacute;ficas da forma&ccedil;&atilde;o promotora de compet&ecirc;ncias, que qualquer organiza&ccedil;&atilde;o e qualquer pessoa, crentes no sortil&eacute;gio dos mercados, dever&atilde;o adotar para marcarem a sua diferen&ccedil;a cr&iacute;tica face &agrave;s organiza&ccedil;&otilde;es e pessoas que apenas sobrevivem e que desistiram de apostar na meritocracia global.</p>     <p>Mas a composi&ccedil;&atilde;o da receita n&atilde;o fica por aqui. A coes&atilde;o social ou mesmo a inclus&atilde;o funcionam tamb&eacute;m muito bem como calmantes aos efeitos mais picantes dos seus conceitos aliados, tal como o da competitividade – que quase sempre v&ecirc;m juntos nos documentos oficiais (por exemplo da Uni&atilde;o Europeia) –, e deste modo podem servir para atenuar, pela humaniza&ccedil;&atilde;o, orienta&ccedil;&otilde;es sociais mais excludentes ou centr&iacute;fugas que podem resultar do jogo competitivo.</p>     <p>Para servir esta iguaria, importa um novo perfil de indiv&iacute;duo, naturalmente moldado pela ideologia do compromisso com os pressupostos do esp&iacute;rito do capitalismo, ou seja, pelo "conjunto de cren&ccedil;as associadas &agrave; ordem capitalista que contribuem para sustentar e legitimar esta ordem e apoiar, legitimando-os, os modos de ac&ccedil;&atilde;o e as disposi&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o coerentes com ele", nas palavras de Boltanski e Chiapello (1999, p. 46).</p>     <p>O problema, ent&atilde;o, &eacute; levar a que os indiv&iacute;duos ou os trabalhadores, de prefer&ecirc;ncia d&oacute;ceis, bons serventes, com mentes e corpos abertos, male&aacute;veis, adapt&aacute;veis e bonitos, aceitem que a atividade lucrativa constitui um bem comum para a sociedade, porquanto ela traz progresso material, garante a satisfa&ccedil;&atilde;o das necessidades e favorece a liberdade pol&iacute;tica. Neste sentido, h&aacute; que problematizar, entre outras coisas, a distin&ccedil;&atilde;o entre vida privada e vida profissional: a vida dos neg&oacute;cios e o capital de amizades devem juntar-se, porque tal atitude favorece o &ecirc;xito e est&aacute; em sintonia com a necessidade de estar em rede. Ou seja, os afetos, o senso moral e a honra tamb&eacute;m s&atilde;o importantes para o campo profissional.</p>     <p>Estes argumentos podem, no entanto, revelar-se insuficientes para comprometer os trabalhadores. H&aacute; que procurar, por isso, outras justifica&ccedil;&otilde;es fora do princ&iacute;pio da acumula&ccedil;&atilde;o, que legitimem esse seu compromisso. Ora, na fase atual do capitalismo, &eacute; precisamente a revaloriza&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo, do <i>self</i>, institu&iacute;do como m&aacute;gico ou empreendedor/empres&aacute;rio de si pr&oacute;prio, que deve estar na ordem do dia e no centro da nova moralidade, aparentemente mais festiva e tamb&eacute;m mais l&iacute;quida.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ent&atilde;o, o indiv&iacute;duo deve investir nas suas compet&ecirc;ncias para se tornar mais facilmente empreg&aacute;vel e, em certo sentido, mais explor&aacute;vel, possibilitando, a outro n&iacute;vel, a naturaliza&ccedil;&atilde;o das hierarquias (pessoais, sociais, laborais...) que da&iacute; possam resultar. Ele deve, entre outras coisas, tornar-se num verdadeiro aprendente ao longo da vida, pois s&oacute; deste modo revelar&aacute; o seu valor, a sua transferibilidade, a justeza do seu lugar na sociedade e no mercado e poder&aacute; ser, ent&atilde;o, reconhecido naturalmente como justo, enfim, como ‘grande’ nesta nova ordem institucional, ainda que permane&ccedil;a numa esp&eacute;cie de servid&atilde;o dourada a outros senhores (por exemplo, &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o em que trabalha – ver Est&ecirc;v&atilde;o, 2012d, p. 118).</p>     <p>Segundo este enquadramento, a aprendizagem ao longo da vida (e da forma&ccedil;&atilde;o), aparentemente amiga de qualquer humanismo, revela-se aqui inequivocamente ao servi&ccedil;o de outros deuses, nomeadamente os deuses do mercado, ou, mais parcimoniosamente, da sociedade do conhecimento. Ela &eacute; mais uma constru&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica desarticulada do contexto e das quest&otilde;es do conhecimento e da epistemologia, que nos inibe de falar de outros tempos e de outros espa&ccedil;os onde se afirmam outros sujeitos e outras pedagogias (de emancipa&ccedil;&atilde;o, por exemplo).</p>     <p>H&aacute;, por conseguinte, na perspetiva do novo humanismo, um imperativo claro que decorre do que atr&aacute;s foi dito e que tem a ver com a necessidade de cada indiv&iacute;duo explorar as potencialidades pr&oacute;prias, assumindo a responsabilidade do seu trajeto pessoal e profissional, sem depend&ecirc;ncia do Estado ou da pr&oacute;pria sociedade. Doravante, o que acontecer a cada um n&atilde;o poder&aacute; ser interpretado como fruto de qualquer maldi&ccedil;&atilde;o do mercado ou da sociedade mais ou menos empresarializada, mas ser&aacute; devido antes ao m&eacute;rito ou dem&eacute;rito, ao talento ou n&atilde;o na condu&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria vida, &agrave; capacidade ou incapacidade de aproveitar as novas oportunidades de constru&ccedil;&atilde;o de novas subjetividades ligadas agora ao autocontrolo, &agrave; motiva&ccedil;&atilde;o, ao compromisso. Isto significa, ent&atilde;o, que as pr&oacute;prias ‘car&ecirc;ncias’ ou ‘dem&eacute;ritos’ para concorrer no mercado n&atilde;o podem ser entendidos como "produ&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas de discrimina&ccedil;&otilde;es" nas diversas pol&iacute;ticas, nomeadamente de emprego e de educa&ccedil;&atilde;o (ver Arroyo, 2012, p. 168), mas resultados naturais do empenhamento individual.</p>     <p>Resulta daqui que esta esp&eacute;cie de universaliza&ccedil;&atilde;o da responsabiliza&ccedil;&atilde;o individual, em nome tamb&eacute;m da igualdade (embora "ficcional", segundo Martuccelli, 2001, p. 238) entre todos os indiv&iacute;duos, pode n&atilde;o passar, ao contr&aacute;rio do que &eacute; afirmado pelos ide&oacute;logos do novo humanismo, de uma das novas formas de domina&ccedil;&atilde;o social, na medida em que as responsabilidades que os indiv&iacute;duos devem assumir est&atilde;o frequentemente nos ant&iacute;podas da realiza&ccedil;&atilde;o de si, ao mesmo tempo que perdem certas prote&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas e simb&oacute;licas, arcando com o peso da sua exist&ecirc;ncia.</p>     <p>Para terminar este ponto, o novo humanismo corresponde ao humanismo plastificado, com pouca subst&acirc;ncia, mas que permite encontrar sempre, e com relativa facilidade, um argumento para melhor justificar o nosso lugar no mundo, na sociedade, no mercado. Trata-se de um humanismo particularmente apto para incentivar a manifesta&ccedil;&atilde;o e a cria&ccedil;&atilde;o de um <i>self</i> empreendedor, ou, nas palavras de Rose (1999, p. 161), de uma vida "a tornar-se numa cont&iacute;nua capitaliza&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica do self" (por forma&ccedil;&otilde;es, compet&ecirc;ncias, prepara&ccedil;&atilde;o para a procura incessante de trabalho). Trata-se, enfim, de um humanismo assente no estatuto da autorreferencialidade, que adquiriu agora uma outra visibilidade e se constituiu, na verdade, na nova forma de <i>governamentalidade</i> neoliberal, indiferente &agrave; condi&ccedil;&atilde;o social de cada um.</p>     <p>Daqui resulta, entre outros aspetos, "uma nova economia moral", no dizer de Ball (2006), em que um dos seus princ&iacute;pios &eacute; a afirma&ccedil;&atilde;o de que a competi&ccedil;&atilde;o &eacute; natural &agrave; pessoa e de que a realiza&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo &eacute; um assunto fundamentalmente privado, respeitando o livre jogo do mercado e a sua <i>ratio</i> enquanto fundamento de toda a racionalidade. O que verdadeiramente interessa &eacute; a satisfa&ccedil;&atilde;o de si pr&oacute;prio, s&atilde;o os resultados, n&atilde;o os princ&iacute;pios.</p>     <p>E &eacute; assim que a obscura&ccedil;&atilde;o do campo de um outro humanismo (‘pontos cegos’) &eacute; preenchido plenamente pelas informa&ccedil;&otilde;es e verdades provenientes das novas realidades em redor e pela nova constru&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica, ou pelo ‘outro olho’, do novo humanismo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. A democracia do humanismo atual</b></p>     <p>V&aacute;rios modelos t&ecirc;m sido apresentados para tornar a democracia mais participativa, mais ativa, mais atuante, mais deliberativa, que propicie aos cidad&atilde;os a possibilidade de se tornarem n&atilde;o apenas governados, como acontece com a f&oacute;rmula representativa da democracia, mas tamb&eacute;m ‘governantes’.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Contudo, a democracia mais sintonizada com o novo humanismo referido no ponto anterior &eacute;, na express&atilde;o feliz de Crouch (2004), a "p&oacute;s-democracia", ponto vis&iacute;vel do modo de governar os indiv&iacute;duos, sem necessidade de preencher a declara&ccedil;&atilde;o de interesses, objetivamente ao servi&ccedil;o das metas de mercado.</p>     <p>Efetivamente, a p&oacute;s-democracia, ou a democracia do neoliberalismo, tem os ingredientes necess&aacute;rios &agrave; nova ordem do mercado. Ela deve contribuir, desde logo, para que o Estado se torne num aparelho manipul&aacute;vel ao servi&ccedil;o do refor&ccedil;o desta nova ordem, quer atrav&eacute;s de formas diretas quer por formas mais indiretas ou invis&iacute;veis. Dito de outro modo, o Estado deve assumir-se, n&atilde;o como Estado-na&ccedil;&atilde;o, mas como "Estado-mercado" (Bobbit, 2002, cit. em Ainsley, 2004, p. 499), que, pela sua mod&eacute;stia ou pela sua imod&eacute;stia, deve expandir a nova ordem mercadorizada, substituindo o velho slogan das "oportunidades para ser igual" do Estado-na&ccedil;&atilde;o pela nova palavra de ordem das "oportunidades para ser desigual".</p>     <p>Por outro lado, o fornecimento de bem-estar pelo Estado a todas as pessoas com prop&oacute;sitos redistributivos n&atilde;o tem, para os defensores da p&oacute;s-democracia, legitimidade moral, desde logo porque a imposi&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a social por parte do Estado &eacute; incompat&iacute;vel com a diverg&ecirc;ncia moral da sociedade moderna (ver Pic&oacute;, 1999, p. 136). Acresce a isto o facto de que o Estado nunca se comportou como um agente neutro e imparcial na distribui&ccedil;&atilde;o da riqueza e de outros bens sociais como a educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de ou seguran&ccedil;a, por exemplo. Agora, como Estado-mercado, ele deve ser oficialmente e ideologicamente indiferente (sempre que convenha) &agrave;s diferen&ccedil;as, a n&atilde;o ser que estas sejam funcionalmente &uacute;teis e lucrativas. &Eacute; esta, pois, a l&oacute;gica que deve presidir &agrave; estrutura&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica do Estado e da sociedade.</p>     <p>Por outro lado, esta &uacute;ltima, na p&oacute;s-democracia, deve ser recuperada como uma sociedade de empres&aacute;rios ou de empreendedores, que n&atilde;o pode, al&eacute;m disso, descurar os interesses dos seus cidad&atilde;os preferidos, ou seja, os produtores e os consumidores. Quem n&atilde;o se encaixar nestas categorias n&atilde;o ser&aacute;, portanto, verdadeiramente cidad&atilde;o ou um democrata. Ali&aacute;s, neste nosso tempo, &eacute; por demais evidente que n&atilde;o &eacute; cidad&atilde;o quem quer, mas sim quem possui um determinado conjunto de t&iacute;tulos e de expectativas. Mesmo a defini&ccedil;&atilde;o de cliente n&atilde;o se aplica a qualquer um. Verdadeiramente quem define o que &eacute; ser cliente ou qual o cliente que interessa n&atilde;o s&atilde;o os indiv&iacute;duos mas cada empresa que fabrica e comercializa os seus produtos para destinat&aacute;rios ou nichos de mercado com perfis tra&ccedil;ados previamente; ou seja, em certa medida, o cliente &eacute; uma figura fabricada pelo mercado e pelas suas empresas.</p>     <p>Ent&atilde;o, na p&oacute;s-democracia talvez a imagem mais congruente e mais vis&iacute;vel de cidad&atilde;o seja tamb&eacute;m o <i>p&oacute;s-cidad&atilde;o</i>, que possui recursos v&aacute;rios, quer produtivos, quer de consumo, para s&ecirc;-lo verdadeiramente e comportar-se como tal. Obviamente que a grande fatia dos que ficam de fora desta p&oacute;s-cidadania podem tamb&eacute;m ser objeto de medidas especiais de cidadaniza&ccedil;&atilde;o, que podem dar-lhes a sensa&ccedil;&atilde;o de permanecerem integrados plenamente neste sistema: produtos de baixa gama, de linha branca ou um dia de saldos fabulosos, por exemplo, ajudam a incutir, de facto, a impress&atilde;o de que, afinal, todos contam ou de que contam com eles!</p>     <p>Pesem embora estas medidas excecionais, neste tipo de democracia h&aacute; sempre os irrelevantes, como sejam os desadequados, os contemplativos, os incompetentes, para n&atilde;o falar tamb&eacute;m dos incapacitados ou dos idosos, dos feios ou dos gordos, sobretudo se eles n&atilde;o forem descobertos por qualquer sector econ&oacute;mico como um fil&atilde;o a explorar. Neste, como noutros campos, a exce&ccedil;&atilde;o pode constituir-se, na verdade, numa &oacute;tima oportunidade de neg&oacute;cio ou num verdadeiro nicho de mercado lucrativo, porquanto estes ‘diferentes’ se tornam "coisas &agrave; venda" (express&atilde;o de Arroyo, 2012) potencialmente lucrativas.</p>     <p>Torna-se evidente, por esta an&aacute;lise, que os pontos vis&iacute;veis da p&oacute;s-democracia n&atilde;o nos deixam perceber quanto da dignidade de muitos de n&oacute;s &eacute; violada pela subalterniza&ccedil;&atilde;o ou mesmo pela centrifuga&ccedil;&atilde;o do sistema oficial por nos considerarem incompetentes ou ent&atilde;o sem cr&eacute;dito bastante junto das institui&ccedil;&otilde;es que regulam a vida econ&oacute;mica, social, cultural e pol&iacute;tica da p&oacute;s-democracia para nos considerarem cidad&atilde;os de pleno direito.</p>     <p>Poder&iacute;amos ampliar um pouco mais esta leitura colocando-a ao n&iacute;vel do conhecimento que interessa na p&oacute;s-democracia. Obviamente que o conhecimento t&eacute;cnico ou tecnocr&aacute;tico, por um lado, e os que produzem resultados economicamente rend&iacute;veis, por outro, tendem a ser os privilegiados e financiados, at&eacute; porque trazem bem-estar a toda a sociedade. Isto quer dizer que a pretensa democratiza&ccedil;&atilde;o do saber invocada pelo novo humanismo, ao n&atilde;o valorizar verdadeiramente outras formas de saber, ofusca ou omite a relev&acirc;ncia de outros olhares, de outras epistemologias, de outras narrativas de emancipa&ccedil;&atilde;o pelo conhecimento ou do conhecimento como reconhecimento (ver Santos, 2007).</p>     <p>Um outro ponto a destacar no novo humanismo &eacute; aquele que sublinha o seu bom relacionamento com conceitos tradicionalmente colocados nas posi&ccedil;&otilde;es mais democr&aacute;ticas e substantivas da democracia, como &eacute; o caso dos conceitos de participa&ccedil;&atilde;o e autonomia, o que, entre outras coisas, dificulta a sua desoculta&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica.</p>     <p>Ora, sabemos pela sociologia das organiza&ccedil;&otilde;es, por exemplo, que o processo de participa&ccedil;&atilde;o equivaleu historicamente mais a uma t&eacute;cnica ou a uma encena&ccedil;&atilde;o participativa do que verdadeiramente a uma participa&ccedil;&atilde;o substantiva, colocando-se, objetivamente, ao servi&ccedil;o de uma engenharia social que visava, e visa, sobretudo a efici&ecirc;ncia. O mesmo se diga da autonomia outorgada, a partir da d&eacute;cada de 60 do s&eacute;culo XX (mas com destaque nas duas d&eacute;cadas seguintes), aos trabalhadores e &agrave;s suas equipas, no sentido de se auto-organizarem para produzir mais e com mais qualidade. Na verdade, estes processos foram introduzidos segundo uma l&oacute;gica que apontava para a ressurrei&ccedil;&atilde;o do taylorismo, pela interioriza&ccedil;&atilde;o dos seus pressupostos e das suas formas de controlo, embora com recurso a meios mais humanos e que penetravam mais profundamente na interioridade das pessoas. Ent&atilde;o, os apelos ret&oacute;ricos atuais a estes conceitos pela ‘neogest&atilde;o’ (preocupada em orientar o mundo do trabalho num sentido mais humano) adquirem no novo humanismo uma nova significa&ccedil;&atilde;o, definhada politicamente, mas permanecendo atraentes para o cumprimento de outras fun&ccedil;&otilde;es como a do autocontrolo ao servi&ccedil;o da produtividade. Outros sentidos de participa&ccedil;&atilde;o e autonomia, mais enriquecedores e emancipat&oacute;rios da pessoa, continuam, portanto, como pontos cegos do novo humanismo, encarregando-se este de os tornar id&ecirc;nticos, quando emergem, aos que ele manipula.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>N&atilde;o &eacute; inocente, finalmente, que a p&oacute;s-democracia enalte&ccedil;a e recorra tamb&eacute;m a processos aparentemente mais democr&aacute;ticos, porque abertos a todos, de controlar a vida das institui&ccedil;&otilde;es. Se atendermos ao que se passa hoje em dia em muitas organiza&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, por exemplo, o controlo est&aacute; presente pelo <i>login</i> e <i>password</i> (ideia de um meu aluno de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o) ou por plataformas digitais, assumindo, de certo modo, a forma do "sin&oacute;ptico" de Bauman (1999, p. 60), o qual n&atilde;o precisa de coa&ccedil;&atilde;o para algu&eacute;m ser vigiado, porque ele "<i>seduz</i> as pessoas &agrave; vigil&acirc;ncia"; trata-se, assim, de uma esp&eacute;cie de <i>big brother</i> em que todos se vigiam mutuamente (controlo social) e em que at&eacute; o pr&oacute;prio controlo &eacute; controlado.</p>     <p>&Eacute; por isso que a democracia digital de hoje pode n&atilde;o passar de uma outra express&atilde;o da p&oacute;s-democracia que nos aponta para um novo ser humano: mais autorreferencial e simultaneamente mais conexionista e redial; mais aut&oacute;nomo e ao mesmo tempo mais (auto)controlado e previs&iacute;vel.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3. Direitos humanos e humanismo atual </b></p>     <p>Os direitos humanos t&ecirc;m servido v&aacute;rios senhores, colocando-se n&atilde;o raramente na senda dos comportamentos considerados politicamente corretos, nomeadamente quando estes se abrigam sob os des&iacute;gnios do humanismo ou, de forma mais vis&iacute;vel, sob os ausp&iacute;cios do humanitarismo.</p>     <p>Por outro lado, os direitos humanos tal como ficaram na Declara&ccedil;&atilde;o Universal de 1948 tenderam a ser interpretados &agrave; luz do favorecimento do indiv&iacute;duo, na linha das prefer&ecirc;ncias ocidentais, menosprezando, segundo alguns pensadores, e em nome da universaliza&ccedil;&atilde;o, a sua contextualiza&ccedil;&atilde;o e a dimens&atilde;o coletiva do viver humano, entre outros aspetos.</p>     <p>&Eacute; por isso que hoje, segundo Matlary (2008), existe um conceito multiuso dos direitos humanos em que a sua valora&ccedil;&atilde;o se transforma num processo pol&iacute;tico sujeito a altera&ccedil;&otilde;es cont&iacute;nuas. Trata-se, por isso, de um processo de fungibilidade dos direitos humanos em que &eacute; dif&iacute;cil encontrar crit&eacute;rios morais e valores comuns a todos. Entrou-se, assim, prossegue a autora, numa esp&eacute;cie de relativismo em que o indiv&iacute;duo se torna a medida de todos as coisas ou, se preferirmos, numa era do homem autorreferencial em que os valores se submetem aos des&iacute;gnios dos pr&oacute;prios indiv&iacute;duos, num pren&uacute;ncio claro do crep&uacute;sculo do dever, j&aacute; vaticinado h&aacute; tempos por Lipovetsky (2004), na linha do que ent&atilde;o apelidou de "neo-individualismo".</p>     <p>Uma das consequ&ecirc;ncias desta vis&atilde;o &eacute; que a compreens&atilde;o da esfera p&uacute;blica tendeu a reduzir-se e a tornar-se num espa&ccedil;o m&iacute;nimo e residual, alterando-se, simultaneamente, o ‘substrato material’ da cidadania e a interpreta&ccedil;&atilde;o dos direitos individuais, passando estes a ser vistos de uma forma particular no sentido da clienteliza&ccedil;&atilde;o do papel do cidad&atilde;o, enquanto a cidadania passou a ser interpretada como um dever de normalidade econ&oacute;mica e de mobilidade no mercado.</p>     <p>Constata-se ent&atilde;o aqui mais um ponto vis&iacute;vel do discurso humanista de hoje, que na sua apela&ccedil;&atilde;o expl&iacute;cita &agrave; defesa dos direitos do indiv&iacute;duo tende ao mesmo tempo a ocultar o processo de ajustamento dos direitos &agrave;s exig&ecirc;ncias e &agrave; axiologia de mercado, ainda que com a anu&ecirc;ncia volunt&aacute;ria das ‘v&iacute;timas’.</p>     <p>Este ponto pode parecer surpreendente &agrave; primeira vista, mas se tivermos em conta, por exemplo, a nova centralidade do discurso pol&iacute;tico da desigualdade ou da diferen&ccedil;a, tamb&eacute;m em nome do humanismo, verificamos que agora ele passou a promover sobretudo, como afirmam Gamarnikow e Green (2003, p. 219), a "diversidade inclusiva" enquanto se adotam os mecanismos neoliberais para a realizar sob o guarda-chuva do capitalismo social. E da&iacute; acrescentarem os autores (p. 210) que os exclu&iacute;dos e os desafortunados passam a ser o foco das pol&iacute;ticas de "oportunidade", ao mesmo tempo que, por outro lado, a &ecirc;nfase passa a estar n&atilde;o tanto na igualiza&ccedil;&atilde;o mas na distribui&ccedil;&atilde;o equitativa de oportunidades para algu&eacute;m se tornar, ou se identificar, como desigual embora inclu&iacute;do.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este modo de captar o sentido da inclus&atilde;o social &eacute; coerente com a preocupa&ccedil;&atilde;o de tornar o sistema social e econ&oacute;mico mais ger&iacute;vel, mais regul&aacute;vel e aparentemente mais bondoso, evitando desequil&iacute;brios ou a emerg&ecirc;ncia de franjas de popula&ccedil;&atilde;o potencialmente perigosas para o bom funcionamento dos mercados. Nesta sequ&ecirc;ncia, a coes&atilde;o social torna-se, tamb&eacute;m, uma dimens&atilde;o indissoci&aacute;vel das pol&iacute;ticas da competitividade, como &eacute; facilmente constat&aacute;vel nas pol&iacute;ticas europeias, por exemplo, orientadas primacialmente para o crescimento e para a competitividade. Por outras palavras, a ideologia da inclus&atilde;o e da coes&atilde;o social, sendo altamente perme&aacute;vel e sens&iacute;vel aos problemas sociais pode contribuir para apaziguar interesses contradit&oacute;rios, acalmando o sistema ou protegendo-o de potenciais questionamentos sociais ou pol&iacute;ticos. Al&eacute;m disso, pode ter o cond&atilde;o de aliviar a culpa do sistema relativamente &agrave; injusti&ccedil;a social para a fazer recair sobre as pr&oacute;prias v&iacute;timas (devido, por exemplo, &agrave; sua incompet&ecirc;ncia). Finalmente, e sob o nome de uma cultura de toler&acirc;ncia e de valoriza&ccedil;&atilde;o da diferen&ccedil;a e da diversidade, a ideologia da inclus&atilde;o e da coes&atilde;o pode estar a "dissimular a problem&aacute;tica da heterogeneidade e da desigualdade social" (Correia, 1999, p. 108).</p>     <p>Temos, ent&atilde;o, que o discurso dos direitos humanos pode servir, como j&aacute; disse, v&aacute;rios senhores e v&aacute;rios humanismos, incluindo o mais d&oacute;cil e male&aacute;vel aos pressupostos do mercado. Ou seja, ele pode servir de aut&ecirc;ntico ‘cavalo de Tr&oacute;ia’ para a invas&atilde;o da ideologia mercantil, muitas vezes at&eacute; em nome da defesa dos direitos pol&iacute;ticos e civis, como se fossem estes os &uacute;nicos que interessaria reivindicar e exercer (ver Est&ecirc;v&atilde;o, 2012b).</p>     <p>Por outro lado, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel ocultar que os direitos humanos ziguezagueiam por vezes ao sabor dos humores pol&iacute;ticos ou de pol&iacute;ticas geoestrat&eacute;gicas nem sempre confessadas, quer de governos quer de multinacionais (como &eacute; o caso das ‘sete irm&atilde;s do petr&oacute;leo’, por exemplo). Na literatura dos direitos humanos s&atilde;o recorrentes as refer&ecirc;ncias concretas &agrave; interven&ccedil;&atilde;o, invas&atilde;o ou interfer&ecirc;ncia dos pa&iacute;ses ocidentais em casos espec&iacute;ficos de pretensa viola&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos por parte de alguns pa&iacute;ses. A contrastar com esta ‘milit&acirc;ncia’ soergue-se ao mesmo tempo um muro de sil&ecirc;ncio, de omiss&otilde;es, de neutralidades face &agrave;s atrocidades cometidas, por exemplo, nos Balc&atilde;s (B&oacute;snia e Kosovo) e no Iraque, &agrave; limpeza &eacute;tnica no Ruanda, &agrave; sonega&ccedil;&atilde;o de direitos &agrave;s mulheres na Ar&aacute;bia Saudita, ao trabalho escravo na China e Bangladesh, &agrave; opress&atilde;o dos curdos na Turquia ou do povo do Sara Ocidental por parte de Marrocos. De facto, a elasticidade multiuso dos direitos &eacute; aqui por demais evidente, em nome de conce&ccedil;&otilde;es oportunistas e economicamente interesseiras de certos pa&iacute;ses, que se servem do seu poderio b&eacute;lico para ‘pacificar’ a seu favor, sob o ‘v&eacute;u de ignor&acirc;ncia’ dos direitos, certas regi&otilde;es do mundo.</p>     <p>O novo humanismo, ent&atilde;o, &eacute; surpreendentemente el&aacute;stico no atinente aos direitos, porquanto os molda de modo a torn&aacute;-los em joguetes ao servi&ccedil;o dos interesses mais ou menos imperiais ou neocolonialistas, mantendo aparentemente a sua pureza inicial. Com efeito, a elasticidade do discurso humanista, articulado com a elasticidade da vida social, permite estas veleidades, estes desaforos pelo poder de criar ilus&otilde;es e de encobrir outras realidades, enfim, outras experi&ecirc;ncias e estados de domina&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Mas poder&aacute; defender-se que o novo humanismo d&aacute; uma vis&atilde;o mais funcional e concreta aos direitos, permitindo at&eacute; manter uma plataforma m&iacute;nima de direitos potencialmente universaliz&aacute;veis, em vez de uma listagem historicamente marcada, n&atilde;o consensual, como a que consta da Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos Humanos de 1948. Acrescenta-se que a implementa&ccedil;&atilde;o de alguns dos direitos da referida Declara&ccedil;&atilde;o seriam at&eacute; pol&iacute;tica e socialmente deslocados (como, por exemplo, o direito a f&eacute;rias), havendo necessidade, por isso, de os suprimir para melhor proteger ou refor&ccedil;ar outros direitos. Al&eacute;m disso, esta vis&atilde;o contribuiria para renegar uma certa idolatria universalista dos direitos, prejudicial aos mesmos, cingindo-os ao ‘humanamente poss&iacute;vel’, o que contribuiria para uma perspetiva mais sensata e pragm&aacute;tica, embora mais limitada, destes mesmos direitos.</p>     <p>Mais. Aproveitando o que alguns autores defendem quanto ao desenvolvimento hist&oacute;rico dos direitos humanos e &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es que ocorrem na nossa sociedade, o novo humanismo tem a oportunidade de reiterar o seu realismo ao afirmar que os direitos t&ecirc;m a ver sobretudo com as for&ccedil;as da globaliza&ccedil;&atilde;o e da moderniza&ccedil;&atilde;o (for&ccedil;as fiscais, comerciais, culturais e informacionais). Por outras palavras, e como afirma Franck (2001), se os direitos humanos s&atilde;o produtos de desenvolvimentos recentes, ou seja, da industrializa&ccedil;&atilde;o, da urbaniza&ccedil;&atilde;o e das revolu&ccedil;&otilde;es nas comunica&ccedil;&otilde;es e na informa&ccedil;&atilde;o, o novo humanismo poder&aacute;, neste ponto, guindar-se a ideologia universal, cosmopolita, que recobre todos estes aspetos do progresso humano. Al&eacute;m disso, permitiria ultrapassar a velha querela da origem ocidental dos direitos, uma vez que agora se assumiria claramente que as for&ccedil;as atr&aacute;s referidas (de globaliza&ccedil;&atilde;o e de moderniza&ccedil;&atilde;o) n&atilde;o s&atilde;o culturalmente espec&iacute;ficas.</p>     <p>N&atilde;o obstante a pertin&ecirc;ncia desta posi&ccedil;&atilde;o, a quest&atilde;o que se levanta aqui &eacute; de saber em que sentido o novo humanismo interpreta os direitos humanos, considerando, ainda, que a globaliza&ccedil;&atilde;o e a moderniza&ccedil;&atilde;o s&atilde;o, al&eacute;m disso, altamente vari&aacute;veis, porquanto elas podem ter v&aacute;rios sentidos, alguns mais amigos dos direitos e outros menos, consoante o poder dos Estados, a capacidade de controlo das inst&acirc;ncias de <i>governan&ccedil;a</i> globais, o n&iacute;vel de homogeneiza&ccedil;&atilde;o cultural, o grau de penetra&ccedil;&atilde;o das economias de mercado, entre outros fatores. Por outras palavras, quer a globaliza&ccedil;&atilde;o quer a moderniza&ccedil;&atilde;o s&atilde;o altamente amb&iacute;guas, embora frequentemente se dotem de propriedades propensas &agrave; oculta&ccedil;&atilde;o de uma normatividade congruente com uma ideologia neoliberal e neoconservadora.</p>     <p>Ou seja, o novo humanismo pode parecer mais realista e cosmopolita, mais de acordo com as exig&ecirc;ncias da nova ordem mundial, ainda que esta assente sobretudo em pressupostos economicistas e financeirizados. Por conseguinte, outras preocupa&ccedil;&otilde;es, outras dicotomias (como regula&ccedil;&atilde;o/emancipa&ccedil;&atilde;o, por exemplo), oriundas do velho humanismo cl&aacute;ssico ou moderno, n&atilde;o passam de quinquilharias guardadas no s&oacute;t&atilde;o da mem&oacute;ria, com interesse residual. O novo olhar da ci&ecirc;ncia e da tecnologia (consideradas como bens econ&oacute;micos e n&atilde;o como patrim&oacute;nio da humanidade), do conhecimento &uacute;til e produtivo, do pensamento tecnocr&aacute;tico &eacute; que deve orientar a nossa vis&atilde;o do ser humano e dos seus direitos. Consequentemente, os direitos humanos emancipados continuar&atilde;o como pontos cegos, ofuscados, ou ent&atilde;o recriados, pelos pontos-luz dos direitos regulados pelos princ&iacute;pios de mercado, que inspiram o novo humanismo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>4. Justi&ccedil;a e humanismo actual</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Escrevi, noutro trabalho (ver Est&ecirc;v&atilde;o, 2009), que, no cen&aacute;rio de um pretenso realismo econ&oacute;mico (agora em per&iacute;odo cr&iacute;tico em certas zonas do mundo), h&aacute; uma certa impuls&atilde;o para a "desformaliza&ccedil;&atilde;o" da ideia de justi&ccedil;a social, ou para a sua perce&ccedil;&atilde;o como oferta apenas de garantias contingentes, ou ainda para a sua minimiza&ccedil;&atilde;o na medida em que se limita a cumprir direitos sociais de baixa intensidade, de assist&ecirc;ncia aos mais desfavorecidos, de neo-pietismo em que as interven&ccedil;&otilde;es neste campo obedeceriam a uma esp&eacute;cie de nova subsidiariedade do social: "o p&uacute;blico &eacute; para os que n&atilde;o podem alcan&ccedil;ar o privado" (Alonso, 2000, p. 179).</p>     <p>Penso que hoje, nomeadamente nos pa&iacute;ses em crise, j&aacute; nem esta &uacute;ltima afirma&ccedil;&atilde;o &eacute; v&aacute;lida! Na verdade, o acesso ao p&uacute;blico come&ccedil;a tamb&eacute;m a ser cada vez mais restritivo, o que pode levar a afirmar que o p&uacute;blico est&aacute;, nos tempos que correm, aberto apenas &agrave;queles que manifestam ser detentores de alguns recursos materiais e/ou de determinado estatuto, devendo os restantes procurar o n&atilde;o-p&uacute;blico, o dom&eacute;stico, o assistencial, o acaso, a fatalidade.</p>     <p>Neste contexto, a justi&ccedil;a social n&atilde;o importa ou importa pouco, valendo apenas a justi&ccedil;a que torna o indiv&iacute;duo mais eficiente e eficaz e, tamb&eacute;m, mais vend&aacute;vel. N&atilde;o surpreende, por isso, que nesta fase do desenvolvimento capitalista continue a falar-se em justi&ccedil;a, at&eacute; porque ela &eacute; extremamente funcional ao pr&oacute;prio mercado. E este &eacute; mais um ponto cego do discurso do novo humanismo, que n&atilde;o larga a justi&ccedil;a, embora j&aacute; tivesse abandonado a justi&ccedil;a social.</p>     <p>No mesmo &iacute;mpeto, os subtextos de redistribui&ccedil;&atilde;o tendem, na ret&oacute;rica oficial do discurso neo-humanista, a ser omitidos, muitas vezes a favor de subtextos de reconhecimento (ver Fraser, 2005). Ou seja, como que para equilibrar a balan&ccedil;a da justi&ccedil;a cega, aposta-se no prato da justi&ccedil;a cultural, como se as lutas pela justi&ccedil;a social estivessem j&aacute; ganhas. Nesse sentido, a sobrevaloriza&ccedil;&atilde;o de uma dimens&atilde;o da justi&ccedil;a (neste caso, a cultural) pode constituir-se tamb&eacute;m num ponto cego do novo humanismo, que nos desvia para outras lutas, deixando o caminho aberto para o verdadeiro inimigo ocupar as nossas trincheiras ou restringir os nossos espa&ccedil;os de a&ccedil;&atilde;o e de interven&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Mas h&aacute; ainda mais pontos cegos neste discurso quando prossegue na (in)compreens&atilde;o da (pluri)dimensionalidade da justi&ccedil;a. Se os te&oacute;ricos mais radicais pretendem ir al&eacute;m da justi&ccedil;a econ&oacute;mica e da justi&ccedil;a cultural &eacute; necess&aacute;rio refor&ccedil;ar ent&atilde;o as defesas, contendo os seus intentos. Por conseguinte, a proposta de uma terceira dimens&atilde;o de que fala Fraser (2005), relacionada com a justi&ccedil;a pol&iacute;tica, entendida como representa&ccedil;&atilde;o ou como "paridade participativa", pode configurar-se como problem&aacute;tica para uma p&oacute;s-democracia que se d&aacute; mal com a politiza&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica e com a hegemoniza&ccedil;&atilde;o de categorias tradicionais como as de classe social. Ent&atilde;o, remeter a justi&ccedil;a pol&iacute;tica para a esfera dos interesses meramente te&oacute;ricos, relevando ao mesmo tempo a sua fraca produtividade e a sua tend&ecirc;ncia escusadamente conflitual, pode ser sinal de sensatez pol&iacute;tica, e que o novo humanismo n&atilde;o deixa de subscrever.</p>     <p>Tal como disse em cima, no novo humanismo persiste a preocupa&ccedil;&atilde;o pela justi&ccedil;a, mas n&atilde;o de uma justi&ccedil;a qualquer. Ele apadrinha claramente a justi&ccedil;a de pendor industrial e mercantil (ver Est&ecirc;v&atilde;o, 2004), cuja preocupa&ccedil;&atilde;o primordial n&atilde;o &eacute; a igualdade mas antes a condu&ccedil;&atilde;o das vidas e das mentes pelos par&acirc;metros de custo e benef&iacute;cio, de efic&aacute;cia, de maximiza&ccedil;&atilde;o da efici&ecirc;ncia mercantil, independentemente dos efeitos de explora&ccedil;&atilde;o, de competi&ccedil;&atilde;o e de desigualdade que geram. Ali&aacute;s, estes efeitos s&atilde;o omitidos ou catalogados como colaterais, pelo que o novo humanismo continua a defender a justi&ccedil;a empresarialista e mercantil como realiza&ccedil;&atilde;o humana, que sintoniza o indiv&iacute;duo com o que hoje verdadeiramente interessa e que permite tecer os contornos realistas da verdadeira justi&ccedil;a; neste caso, o cidad&atilde;o autenticamente justo ser&aacute; aquele que se tornou relevante ou <i>ajustado</i> na ordem institucional do mercado, isto &eacute;, o cidad&atilde;o eficiente e vend&aacute;vel.</p>     <p>Como &eacute; f&aacute;cil de ver, a justi&ccedil;a empresarialista e mercantil tem rela&ccedil;&otilde;es profundas e privilegiadas com o mundo das organiza&ccedil;&otilde;es. E tanto &eacute; assim que os v&aacute;rios estudos que t&ecirc;m vindo a ser publicados neste dom&iacute;nio, de pendor sobretudo psicossociol&oacute;gico, reportam as suas vantagens, designadamente na &oacute;tica da efici&ecirc;ncia organizacional. Nesse caso, praticar a justi&ccedil;a organizacional pode significar que algu&eacute;m se tornou vulner&aacute;vel aos objetivos da organiza&ccedil;&atilde;o e que n&atilde;o s&oacute; contribuiu para cumprir as metas de produ&ccedil;&atilde;o como excedeu as expectativas. Ser&aacute; este o verdadeiro trabalhador de qualidade, ordeiro, controlado, eficiente, respeitador, disciplinado, que vai permitir &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o fazer mais com menos; ser&aacute; este, enfim, o verdadeiro <i>cidad&atilde;o organizacional</i> (Est&ecirc;v&atilde;o, 2012c).</p>     <p>Se este perfil corresponde a uma verdadeira humaniza&ccedil;&atilde;o do trabalhador, tal continua a ser um ponto cego do atual humanismo, sobretudo quando &eacute; sabido que a qualidade, juntamente com a flexibilidade e as equipas de trabalho se constituem com frequ&ecirc;ncia, dentro das novas condi&ccedil;&otilde;es em que se processa a gest&atilde;o dos recursos humanos, no "trip&eacute; da subjuga&ccedil;&atilde;o" (Legge, 1995).</p>     <p>Enfim, a no&ccedil;&atilde;o de justi&ccedil;a manipulada pelo novo humanismo (que preferencialmente opta pelo conceito de equidade por uma maior vincula&ccedil;&atilde;o &agrave; produtividade econ&oacute;mica e &agrave; contribui&ccedil;&atilde;o individual) tende a provocar, mesmo quando invoca a &eacute;tica e a responsabilidade, a eros&atilde;o dos valores da autoconfian&ccedil;a, da colegialidade, da solidariedade, da justi&ccedil;a do cuidado, embora as ideologias do empreendedorismo, da iniciativa e da responsabilidade individuais, das compet&ecirc;ncias, mobilizadas agora, possibilitem um olhar mais doce e mais humano para as justi&ccedil;as que oprimem e instrumentalizam.</p>     <p>Para concluir este ponto, a ess&ecirc;ncia da justi&ccedil;a do mercado adv&eacute;m da sua capacidade de nos tornar naturalmente felizes pela posse, consumo e interc&acirc;mbio de bens e produtos. Isto significa que recolocar no plano da vis&atilde;o formas ditas extremas de justi&ccedil;a social, que se prendam, por exemplo, com o combate &agrave;s formas institucionalizadas de domina&ccedil;&atilde;o e opress&atilde;o nas rela&ccedil;&otilde;es de trabalho, na tomada de decis&otilde;es ou no plano cultural, como nos prop&otilde;e Young (1990), pode equivaler ao gesto de distanciamento cr&iacute;tico que poder&aacute; dar-nos uma vis&atilde;o mais completa e radical da realidade social e pol&iacute;tica</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>5. Para um outro humanismo </b></p>     <p>Parece-me evidente que as vicissitudes por que tem passado a democracia exigem um esfor&ccedil;o na sua revitaliza&ccedil;&atilde;o, enquadrando devidamente os direitos humanos e a justi&ccedil;a na era dos mercados, sem serem adulterados na sua ess&ecirc;ncia.</p>     <p>Assim, e a t&iacute;tulo descritivo e meramente exemplificativo, poderemos deparar-nos com v&aacute;rias conce&ccedil;&otilde;es de democracia que apontam para processos de constru&ccedil;&atilde;o e defesa dos direitos distintos assim como para conce&ccedil;&otilde;es diversificadas de justi&ccedil;a.</p>     <p>No sentido de visualizar mais facilmente as rela&ccedil;&otilde;es entre estes conceitos, observe-se o <a href="#q1">Quadro I</a>.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="q1"> <img src="/img/revistas/rpe/v26n2/26n2a09q1.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>Pelo quadro torna-se claro que estes tr&ecirc;s conceitos, embora inter-relacionados, n&atilde;o coincidem no seu sentido. Por outras palavras, a democracia n&atilde;o se identifica com a justi&ccedil;a nem com os direitos, nem a justi&ccedil;a &eacute; completamente sobrepon&iacute;vel ao conceito de direitos humanos.</p>     <p>A este prop&oacute;sito, e reportando-me apenas &agrave; rela&ccedil;&atilde;o entre estes dois &uacute;ltimos conceitos, considero, por exemplo, que a fundamenta&ccedil;&atilde;o da democracia nos direitos assentes na justi&ccedil;a &eacute;, ou pode ser, mais radical que a fundamenta&ccedil;&atilde;o da democracia nos direitos humanos explicitados na Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos Humanos de 1948. Na linha de Rawls (1993), por exemplo, tal proposi&ccedil;&atilde;o &eacute; perfeitamente compreens&iacute;vel e defens&aacute;vel.</p>     <p>Para al&eacute;m deste debate (e desta pol&eacute;mica), um outro cen&aacute;rio que defendo como solu&ccedil;&atilde;o que dignifica a democracia, os direitos e a justi&ccedil;a &eacute; aquele que no <a href="#q1">Quadro I</a> coloca a democracia "como direitos humanos" (Goodhart, 2005), uma vez que reposiciona a democracia no campo das preocupa&ccedil;&otilde;es e da luta pelos direitos compreendidos na sua essencialidade emancipat&oacute;ria e pela justi&ccedil;a social em qualquer parte do mundo. Aqui, ser justo equivale, na verdade, a ser cidad&atilde;o solid&aacute;rio, que investe continuamente na cidadaniza&ccedil;&atilde;o dos direitos de todos, tendo em vista a emancipa&ccedil;&atilde;o. O contexto pol&iacute;tico-social e cultural prop&iacute;cio ao seu desenvolvimento &eacute; o da "demoglobaliza&ccedil;&atilde;o", como alguns prop&otilde;em, constru&iacute;da a partir de baixo, em interdialoga&ccedil;&atilde;o e cordialidade, com as diversas for&ccedil;as sociais e as m&uacute;ltiplas comunidades pol&iacute;ticas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tamb&eacute;m eu considero que s&oacute; na conversa&ccedil;&atilde;o <i>bottom-up</i>, em consensos sobrepostos, constru&iacute;dos primeiramente <i>em</i> cada comunidade pol&iacute;tica concreta e depois <i>entre</i> comunidades, &eacute; poss&iacute;vel progredir numa conce&ccedil;&atilde;o mais consistente de justi&ccedil;a global e, ao mesmo tempo, construir uma plataforma consensualizada de direitos universais, universalidade esta que n&atilde;o poder&aacute; ser, por isso, uma universalidade de retas paralelas, mas antes uma "universalidade de conflu&ecirc;ncia" (Herrera Flores, 2000), constru&iacute;da a partir de baixo.</p>     <p>Trata-se ent&atilde;o de uma proposta mais <i>cosmopol&iacute;tica</i> de democracia, de justi&ccedil;a e dos direitos, que n&atilde;o deixa de assumir igualmente as formas do respeito, do amor e da solidariedade, que constituem o trip&eacute; do reconhecimento de Honneth (2003), ao servi&ccedil;o do incremento de intera&ccedil;&otilde;es em que os sujeitos se interessam reciprocamente pelos seus percursos de vida diferenciados, porque se valorizam entre si e, deste modo, se experienciam a si pr&oacute;prios como valiosos para a sociedade e para o mundo. Ser&aacute; por este caminho que passar&aacute;, na minha perspetiva, a constru&ccedil;&atilde;o da eticidade democr&aacute;tica e cosmopol&iacute;tica e da pr&oacute;pria democracia entendida como direitos humanos (Est&ecirc;v&atilde;o, 2012b, 2012a).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Muitos t&ecirc;m ingenuamente acreditado nas virtudes intr&iacute;nsecas do novo humanismo para regular, de forma quase autom&aacute;tica, a vida coletiva e, noutro plano, o pr&oacute;prio liberalismo enquanto sistema econ&oacute;mico e pol&iacute;tico.</p>     <p>Por outro lado, muitos outros est&atilde;o convictos de que o modelo representativo, muito formal e pouco substantivo da democracia tradicional j&aacute; n&atilde;o serve. Ent&atilde;o, haver&aacute; que encontrar outros compromissos, outras defini&ccedil;&otilde;es, outros recursos. Torn&aacute;-la mais adapt&aacute;vel, mais flex&iacute;vel, mais l&iacute;quida, mais desterritorializada &eacute;, pois, o desafio que a democracia contempor&acirc;nea deve enfrentar para melhor corresponder ao car&aacute;cter el&aacute;stico do mundo social contempor&acirc;neo, para melhor enquadrar a plasticidade dos estados e das experi&ecirc;ncias de domina&ccedil;&atilde;o ordin&aacute;rias estruturantes do nosso quotidiano e para melhor combater a cr&iacute;tica do desencantamento, da inautenticidade da vida quotidiana no <i>cosmos</i> capitalista (ver Boltanski &amp; Chiapello, 1999 e tamb&eacute;m Martuccelli, 2001).</p>     <p>A este prop&oacute;sito, e como os dois primeiros autores alertam, muitos esquecem-se da capacidade regenerativa do capitalismo, que aproveita, de facto, as cr&iacute;ticas que lhe s&atilde;o dirigidas (por exemplo, de aliena&ccedil;&atilde;o no trabalho ou de mecaniza&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es humanas) para se renovar, encontrando, deste modo, pontos de apoio moral que lhe faltam e dispositivos de justi&ccedil;a que o tornam mais <i>humanizado</i>.</p>     <p>N&atilde;o obstante a import&acirc;ncia da den&uacute;ncia da ‘obscura&ccedil;&atilde;o do campo visual’ por parte do novo humanismo aqui descrito, h&aacute; que ir mais al&eacute;m e anunciar um outro humanismo, que n&atilde;o s&oacute; exercite a &eacute;tica da cr&iacute;tica &agrave; <i>governamentalidade</i> estabelecida pelos interesses e exig&ecirc;ncias do Mercado, mas tamb&eacute;m a &eacute;tica da justi&ccedil;a e dos direitos, a &eacute;tica do cuidado, do reconhecimento e da solidariedade, quer em rela&ccedil;&atilde;o aos que nos s&atilde;o pr&oacute;ximos, quer aos que nos s&atilde;o distantes.</p>     <p>E assim se far&aacute; luz, creio, sobre os ‘pontos cegos’ que na ideologia oficial do humanismo atual n&atilde;o emergem ou s&atilde;o ocultados por outros conceitos (ou pelos mesmos conceitos, embora ressemantizados), mobilizando-nos para um outro olhar sobre a democratiza&ccedil;&atilde;o da sociedade, a justi&ccedil;a e o empenhamento nas lutas pela dignidade pr&oacute;pria e do outro. Assim emergir&aacute; um outro humanismo, com contornos de um verdadeiro contra-humanismo alternativo, assente nos direitos humanos e na sua narrativa emancipat&oacute;ria e onde todos seremos reconhecidos como verdadeiros "sujeitos pol&iacute;ticos e de pol&iacute;ticas" (ver Arroyo, 2012, p. 330).</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Ainsley, P. (2004). The new ‘market-state’ and education. <i>Journal of Education Policy</i>, <i>19</i>(4), 497-514.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000124&pid=S0871-9187201300020000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Alonso, L. E. (2000). Ciudadan&iacute;a, sociedad del trabajo y estado de bienestar: Los derechos sociales en la era de la fragmentaci&oacute;n. In M. P. Ledesma (Comp.), <i>Ciudadan&iacute;a y democracia</i> (pp. 159-191). Madrid: Editorial Pablo Iglesias.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000126&pid=S0871-9187201300020000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Arroyo, M.(2012). <i>Outros sujeitos, outras pedagogias</i>. Petr&oacute;polis: Editora Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000128&pid=S0871-9187201300020000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Ball, S. (2006). Sociologia das pol&iacute;ticas educacionais e pesquisa cr&iacute;tico-social: Uma revis&atilde;o pessoal das pol&iacute;ticas educacionais e da pesquisa em pol&iacute;tica educacional. <i>Curr&iacute;culo sem Fronteiras</i>, <i>6</i>(2), 10-32.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000130&pid=S0871-9187201300020000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bauman, Z. (1999). <i>Globaliza&ccedil;&atilde;o: As consequ&ecirc;ncias humanas</i>. Rio de Janeiro: Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000132&pid=S0871-9187201300020000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bauman, Z. (2003). <i>A modernidade l&iacute;quida</i>. Rio de Janeiro: Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000134&pid=S0871-9187201300020000900006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Boltanski, L., &amp; Chiapello, E. (1999). <i>Le nouvel esprit du capitalisme</i>. Paris: Ed. Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000136&pid=S0871-9187201300020000900007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Cardoso, C., Est&ecirc;v&atilde;o, C. V., &amp; Silva, P. (2006). <i>Compet&ecirc;ncias transversais dos diplomado do ensino superior</i>. Guimar&atilde;es: Tecminho.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000138&pid=S0871-9187201300020000900008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Correia, J. A. (1999). As ideologias educativas em Portugal nos &uacute;ltimos 25 anos. <i>Revista Portuguesa de Educa&ccedil;&atilde;o</i>, <i>12</i>, 81-110.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000140&pid=S0871-9187201300020000900009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Crouch, C. (2004). <i>Posdemocracia</i>. Madrid: Taurus.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000142&pid=S0871-9187201300020000900010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Est&ecirc;v&atilde;o, C. V. (2004). <i>Educa&ccedil;&atilde;o, justi&ccedil;a e democracia</i>. S. Paulo: Cortez.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000144&pid=S0871-9187201300020000900011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Est&ecirc;v&atilde;o, C. V. (2009). Educa&ccedil;&atilde;o, globaliza&ccedil;&otilde;es e cosmopolitismos: Novos direitos, novas desigualdades. <i>Revista Portuguesa de Educa&ccedil;&atilde;o</i>, <i>22</i>(2), 35-52.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000146&pid=S0871-9187201300020000900012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Est&ecirc;v&atilde;o, C. V. (2012a). Democracia, justi&ccedil;a e participa&ccedil;&atilde;o. In M. J. Casa-Nova, A. Benavente, F. Diogo, C. V. Est&ecirc;v&atilde;o &amp; J. T. Lopes (Orgs), <i>Cientistas sociais e responsabilidade social no mundo actual </i>(pp. 93-105). V. Nova de Famalic&atilde;o: H&uacute;mus.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000148&pid=S0871-9187201300020000900013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Est&ecirc;v&atilde;o, C. V. (2012b). <i>Direitos humanos, justi&ccedil;a e educa&ccedil;&atilde;o na era dos mercados</i>. Porto: Porto Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000150&pid=S0871-9187201300020000900014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Est&ecirc;v&atilde;o, C. V. (2012c) (Org.). <i>Pol&iacute;ticas de forma&ccedil;&atilde;o, &eacute;tica e profissionalidade.</i> Curitiba: CRV.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000152&pid=S0871-9187201300020000900015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p> </p>     <!-- ref --><p>Est&ecirc;v&atilde;o, C. V. (2012d). <i>Pol&iacute;ticas e valores em educa&ccedil;&atilde;o. Repensar a educa&ccedil;&atilde;o e a escola p&uacute;blica como um direito</i>. Vila Nova de Famalic&atilde;o: H&uacute;mus.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000155&pid=S0871-9187201300020000900016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Franck, T. (2001). Are human rights universal? The rise of cultural exceptionalism. <i>Foreign Affairs</i>, Vol. <i>80</i>, Issue 1, 191, 623-642.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000157&pid=S0871-9187201300020000900017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Fraser, N. (2005). La justicia social en la era de la pol&iacute;tica de la identidad: Redistribuci&oacute;n, reconocimiento y participaci&oacute;n. In N. Fraser &amp; A. Honneth, <i>Redistribuci&oacute;n o reconocimiento</i>? (pp. 17-88). Madrid: Morata.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000159&pid=S0871-9187201300020000900018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Gamarnikow, E., &amp; Green, T. (2003). <i>Social justice, identity formation and social capital: school diversification policy under New Labour. In C. Vincent (Ed.), Social justice, education and identity</i> (pp. 209-223). 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