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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O lugar da Educação na Modernidade luso-brasileira no final do século XIX e início do século XX]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>LEITURAS</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>CARVALHO,</b><b> Luciana Beatriz de Oliveira Bar de &amp; CARVALHO, Carlos Henriques de (2012). O lugar da Educa&ccedil;&atilde;o na Modernidade  luso-brasileira no final do s&eacute;culo XIX e in&iacute;cio do s&eacute;culo XX. Campinas, SP: Editora Al&iacute;nea</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Jos&eacute; Ant&oacute;nio Afonso </b></p>     <p>Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o em Educa&ccedil;&atilde;o (CIEd), Universidade do Minho</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>O desafio que nos &eacute; colocado no presente livro prende-se com o repensar a hist&oacute;ria da educa&ccedil;&atilde;o numa dimens&atilde;o comparativa. Estamos face a uma perspetiva distinta de compreender a constru&ccedil;&atilde;o do Estado moderno em dois pa&iacute;ses que partilharam uma hist&oacute;ria que se entrecruzou durante anos: Brasil e Portugal. Certamente as realidades socio-hist&oacute;ricas revelem particularidades intr&iacute;nsecas &agrave; forma como se processou a negocia&ccedil;&atilde;o com o mundo social para se implementar e executar a cria&ccedil;&atilde;o de uma organiza&ccedil;&atilde;o da sociedade em moldes que compaginassem as emergentes din&acirc;micas de matriz moderna. Sublinham os autores, com pertin&ecirc;ncia, que estudar as reconfigura&ccedil;&otilde;es locais &eacute; essencial para se poder entender a modernidade na sua amplitude simb&oacute;lica e social. Enfatizam, tamb&eacute;m, que se deve ultrapassar o estatuto marginal que o n&iacute;vel micro tem no contexto dos sistemas pol&iacute;ticos nascentes e salientam, ainda, que &eacute; crucial analisar a competi&ccedil;&atilde;o plural entre projetos pol&iacute;ticos rivais – ora oriundos de uma mesma linhagem ideol&oacute;gica republicana, ora manifestando fundamentos declinados na m&uacute;ltipla significa&ccedil;&atilde;o do liberalismo –, balizando que os discursos relevam estrat&eacute;gias n&iacute;tidas de organizar o territ&oacute;rio e os atores, instituindo t&oacute;picos mobilizadores para um futuro singular.</p>     <p>O d&iacute;namo desse projeto foi a educa&ccedil;&atilde;o, estruturada (l&aacute; como c&aacute;) como o lugar da emerg&ecirc;ncia da consci&ecirc;ncia moderna. &Eacute; justamente neste ponto que &eacute; concebido o compar&aacute;vel entre as duas sociedades – ilustrado empiricamente pelo modo como a educa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica foi concebida, implementada e disseminada em dois munic&iacute;pios: no Brasil, Uberaninha (Minas Gerais), e em Portugal, Mafra. O per&iacute;odo da primeira Rep&uacute;blica &eacute; o tempo comum &agrave;s duas realidades geogr&aacute;ficas (sabendo-se que a implementa&ccedil;&atilde;o do novo regime n&atilde;o teve a mesma cronologia mas a historiografia de ambos os pa&iacute;ses tem evidenciado os ritmos id&ecirc;nticos na sua consolida&ccedil;&atilde;o social, e inclusive identificado homologias na sua contesta&ccedil;&atilde;o) e a unidade administrativa &eacute; similar: o munic&iacute;pio. No entanto, deve-se ter em aten&ccedil;&atilde;o a especificidade jur&iacute;dico-territorial que tal designa&ccedil;&atilde;o adquire nos dois contextos, preocupa&ccedil;&atilde;o essa que os autores sinalizam com frequ&ecirc;ncia ao longo do texto, recordando que, para al&eacute;m da &oacute;bvia extens&atilde;o territorial, o que deve ser compreendido &eacute; o modo como no espa&ccedil;o se refletem as posi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, nomeadamente atrav&eacute;s do balanceamento entre centraliza&ccedil;&atilde;o e descentraliza&ccedil;&atilde;o, ou seja, a maior ou menor autonomia que estas unidades territoriais v&atilde;o tendo.</p>     <p>O conceito de munic&iacute;pio pedag&oacute;gico – trabalhado a partir da reflex&atilde;o pioneira de Justino Magalh&atilde;es – &eacute; substantivado atrav&eacute;s das dimens&otilde;es que o estruturam em estreita rela&ccedil;&atilde;o com a identifica&ccedil;&atilde;o das fontes e de muitos outros &iacute;ndices que uma investiga&ccedil;&atilde;o desta natureza exige. O invent&aacute;rio da informa&ccedil;&atilde;o &eacute; essencial porque sinaliza os protagonistas do fen&oacute;meno, &agrave; escala local, desvendando as centralidades da produ&ccedil;&atilde;o discursiva pela natureza da experi&ecirc;ncia pol&iacute;tica e institucional, ora rastreando o peso das elites – na sua variedade sociossem&acirc;ntica –, ora as interpela&ccedil;&otilde;es dos agentes sociais situados nas periferias do sistema. &Eacute; este relato minucioso de constru&ccedil;&atilde;o conceptual do objeto que os autores nos restituem ao possibilitar pensar uma "nova geografia" (na desafiante express&atilde;o de Jo&atilde;o Barroso) da lusofonia (em torno desta categoria, o di&aacute;logo estabelecido com historiadores portugueses &eacute; intenso, pertinente e prof&iacute;cuo), na sua singularidade comparativa, ou seja, o &uacute;nico e o diferente.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Entre os m&eacute;ritos que o estudo patenteia, cumpre pontualizar, em primeiro lugar, a reflex&atilde;o epistemol&oacute;gica sobre a hist&oacute;ria comparada – que prolonga um debate iniciado por Wenceslau Gon&ccedil;alves Neto e Carlos Henriques de Carvalho, "Tend&ecirc;ncias e perspetivas em Hist&oacute;ria Comparada no campo da Educa&ccedil;&atilde;o", <i>Cadernos de Hist&oacute;ria da Educa&ccedil;&atilde;o</i>, 4 (2005), pp. 183-190 (<i>et passim</i>), mas que desde, pelo menos, 2001 vem acontecendo na comunidade de historiadores da educa&ccedil;&atilde;o brasileiros – que se embebe numa discuss&atilde;o mais ampla (bastante presente na Hist&oacute;ria da Educa&ccedil;&atilde;o dos dois pa&iacute;ses) sobre as potencialidades heur&iacute;sticas da dimens&atilde;o local. As pistas que o livro patenteia s&atilde;o seguramente uma via para se irem aprofundando os estudos desta natureza, porque a "educa&ccedil;&atilde;o como fen&oacute;meno hist&oacute;rico &eacute; pass&iacute;vel de ser investigada &agrave; luz da pr&oacute;pria hist&oacute;ria" (p. 23). Em segundo lugar, interessa explorar o conceito de modernidade nas antropologias das sociedades brasileira e portuguesa, na transi&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XIX, por um lado, caracterizando, e cartografando, os elementos estruturantes (urbanismo, higienismo, controle das popula&ccedil;&otilde;es,…, projetos pol&iacute;ticos) de um novo regime de historicidade – a modernidade – com os seus ritmos diferenciados e as suas a-sincronias, em sociedades desiguais, como ainda, por outro lado, identificando as modalidades de imposi&ccedil;&atilde;o de um novo espa&ccedil;o-tempo (real e simb&oacute;lico) e as peculiares prosopografias da sociologia do fen&oacute;meno. Uberabinha e Mafra s&atilde;o estudadas &agrave; luz desta transforma&ccedil;&atilde;o, inserindo-se o denominador comum – implementa&ccedil;&atilde;o da escola p&uacute;blica – num duplo &acirc;ngulo: circula&ccedil;&atilde;o do pensamento e pr&aacute;ticas democr&aacute;ticas, sintetizado pelos autores do seguinte modo: "Se por um lado, proclamava [a Rep&uacute;blica] a educa&ccedil;&atilde;o como direito individual a ser assegurado a todos, por outro, n&atilde;o se preocupou com a sistematiza&ccedil;&atilde;o desse direito" (p. 50).</p>     <p>Uma aten&ccedil;&atilde;o muito particular &eacute; colocada na correla&ccedil;&atilde;o entre modernidade social, modernidade econ&oacute;mica e modernidade do projeto republicano, destacando-se as resist&ecirc;ncias, os desencontros, as diferentes posi&ccedil;&otilde;es legitimadoras, a forma&ccedil;&atilde;o de grupos sociais heterog&eacute;neos e o acentuar das dist&acirc;ncias entre o centro (as elites, nas suas diversas hegemonias) e as periferias (classes populares, rurais, oper&aacute;rios). Estas tens&otilde;es s&atilde;o justamente a declina&ccedil;&atilde;o do espec&iacute;fico em cada um destes laborat&oacute;rios sociais, que indelevelmente marcam dimens&otilde;es imprescind&iacute;veis para a constru&ccedil;&atilde;o do munic&iacute;pio como objeto hist&oacute;rico, ou, como sublinham os autores, "a cidadania embasou a sociabilidade educativa" (p. 193).</p>     <p>Um &uacute;ltimo aspeto a real&ccedil;ar &eacute; de ordem metodol&oacute;gica, que se traduz no est&iacute;mulo que &agrave; Hist&oacute;ria da Educa&ccedil;&atilde;o a hist&oacute;ria comparada significa, n&atilde;o bastando, por isso, compartilhar conce&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas: importa sobretudo ir construindo "instrumentos comuns de pesquisa, tratamento de fontes e cria&ccedil;&atilde;o de categorias &uacute;teis" (p. 23), e s&oacute; tra&ccedil;ando este caminho &eacute; que as diferen&ccedil;as, "se forem realizadas transversalmente, ou seja, com base em imbrica&ccedil;&otilde;es, particularidades, nexos e contradi&ccedil;&otilde;es" (p. 193), poder&atilde;o ser detetadas. Neste aspeto o estudo mostra-se interessante, propondo a reconstru&ccedil;&atilde;o de um outro trajeto de centrar a educa&ccedil;&atilde;o na temporalidade pol&iacute;tica da modernidade, na sua significa&ccedil;&atilde;o e na sua apropria&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m na sua especificidade social enquanto qualifica&ccedil;&atilde;o positiva da democracia, promessa de bem- estar coletivo e dignifica&ccedil;&atilde;o da gente comum. E esta &eacute; tamb&eacute;m uma hist&oacute;ria comum ao Brasil e a Portugal, que o presente livro ensaia com m&eacute;rito.</p>      ]]></body>
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