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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A ontologia da singularidade e a educação em Hannah Arendt: Uma preparação para o mundo]]></article-title>
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<article-title xml:lang="es"><![CDATA[La ontología de la singularidad y la educación en Hannah Arendt: Una preparación para el mundo]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[We investigate in Hannah Arendt's thinking the possibility of an ontology of singularity directly related to education, as protomoment of the ontology of plurality, initiated with the birth and enlarged by the arrival to the common world, to the space of action. We highlight some points of her political theory interrelating them with notes on education of the text The Crisis of Education, 1958. We present education as a privileged space of formation of the life of the mind, essential, for being initial, in time and space for the full exercise of the active vita. The ontology of the singularity is based on six points in which it is necessary: &#8203;&#8203;to welcome, to prepare and to include the singular ones; to create spaces to promote discourse, to value differences, and to preserve tradition. We present two antimodels for the ontology of singularity: in school education, the concentration camps, by the prerogative of the use of violence and dumbness; for the pupils, Adolf Eichmann, due to his emptiness of thought and incapacity to act creatively in the world. We propose that the duration of education is proportional to the narrative creativity of tradition by the authority of teachers]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="es"><p><![CDATA[Investigamos en el pensamiento de Hannah Arendt la posibilidad de una ontología de la singularidad relacionada directamente con la educación, como protomomento de la ontología de la pluralidad, iniciada con el nacimiento y ampliada por la llegada al mundo común, al espacio de la acción. Destacamos algunos puntos de su teoría política interrelacionándolos con apuntes sobre educación del texto La Crisis de la Educación, de 1958. Presentamos la educación como espacio privilegiado de formación de la vida del espíritu, esencial, por ser inicial, en tiempo y espacio para el ejercicio pleno de la vita activa. La ontología está fundamentada a partir de seis puntos en que es preciso: acoger, preparar e incluir a los singulares; fomentar espacios para el discursar, valorar las diferencias y preservar la tradición. Presentamos dos antimodelos para la ontología de la singularidad: en la educación escolar, los campos de concentración, por la prerrogativa del uso de la violencia y de la mudez; para los educandos, Adolf Eichmann, a causa de su vacío de pensamiento e incapacidad de actuar creativamente en el mundo. Proponemos que la duración de la educación es proporcional a la creatividad narrativa de la tradición por la autoridad de los profesores.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS</b></p>     <p><b>A ontologia da singularidade e a educa&ccedil;&atilde;o em Hannah Arendt: Uma prepara&ccedil;&atilde;o para o mundo</b></p>     <p><b>Ontology of singularity and education in Hannah Arendt: A preparation for the world</b></p>     <p><b>La ontolog&iacute;a de la singularidad y la educaci&oacute;n en Hannah Arendt: Una preparaci&oacute;n para el mundo</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Danilo Arnaldo Briskievicz<sup>i</sup></b></p>     <p>Instituto Federal de Educa&ccedil;&atilde;o, Ci&ecirc;ncia e Tecnologia de Minas Gerais, Brasil</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endereço para Correspondência</a><a name="topc0"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>RESUMO</b></p>     <p>Investigamos no pensamento de Hannah Arendt a possibilidade de uma ontologia da singularidade relacionada diretamente com a educa&ccedil;&atilde;o, como protomomento da ontologia da pluralidade, iniciada com o nascimento e ampliada pela chegada ao mundo comum, ao espa&ccedil;o da a&ccedil;&atilde;o. Destacamos alguns pontos de sua teoria pol&iacute;tica, inter-relacionando-os com apontamentos sobre a educa&ccedil;&atilde;o do texto <i>A Crise da Educa&ccedil;&atilde;o</i>, de 1958. Apresentamos a educa&ccedil;&atilde;o como espa&ccedil;o privilegiado de forma&ccedil;&atilde;o da vida do esp&iacute;rito, essencial, por ser inicial, em tempo e espa&ccedil;o para o exerc&iacute;cio pleno da <i>vita activa</i>. A ontologia da singularidade &eacute; fundamentada a partir de seis pontos em que &eacute; preciso: <i>acolher</i>, <i>preparar </i>e <i>incluir</i> os singulares; fomentar espa&ccedil;os para o <i>discursar</i>, <i>valorizar</i> as diferen&ccedil;as e <i>preservar</i> a tradi&ccedil;&atilde;o. Apresentamos dois antimodelos para a ontologia da singularidade: na educa&ccedil;&atilde;o escolar, os campos de concentra&ccedil;&atilde;o, pela prerrogativa do uso da viol&ecirc;ncia e da mudez; para os educandos, Adolf Eichmann, por causa de seu vazio de pensamento e incapacidade de agir criativamente no mundo. Propomos que a dura&ccedil;&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o &eacute; proporcional &agrave; criatividade narracional da tradi&ccedil;&atilde;o pela autoridade dos professores.</p>     <p><b>Palavras-chave:&nbsp;</b>Hannah Arendt; Ontologia da singularidade; Filosofia da educa&ccedil;&atilde;o; Vida do esp&iacute;rito</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>We investigate in Hannah Arendt's thinking the possibility of an ontology of singularity directly related to education, as protomoment of the ontology of plurality, initiated with the birth and enlarged by the arrival to the common world, to the space of action. We highlight some points of her political theory interrelating them with notes on education of the text <i>The Crisis of Education</i>, 1958. We present education as a privileged space of formation of the life of the mind, essential, for being initial, in time and space for the full exercise of the <i>active vita</i>. The ontology of the singularity is based on six points in which it is necessary: &#8203;&#8203;<i>to welcome</i>, <i>to prepare</i> and <i>to include</i> the singular ones; to create spaces <i>to promote discourse</i>, <i>to value</i> differences, and <i>to preserve</i> tradition. We present two antimodels for the ontology of singularity: in school education, the concentration camps, by the prerogative of the use of violence and dumbness; for the pupils, Adolf Eichmann, due to his emptiness of thought and incapacity to act creatively in the world. We propose that the duration of education is proportional to the narrative creativity of tradition by the authority of teachers.</p>     <p><b>Keywords:&nbsp;</b>Hannah Arendt; Ontology of singularity; Philosophy of education; Life of the spirit</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMEN</b></p>     <p>Investigamos en el pensamiento de Hannah Arendt la posibilidad de una ontolog&iacute;a de la singularidad relacionada directamente con la educaci&oacute;n, como protomomento de la ontolog&iacute;a de la pluralidad, iniciada con el nacimiento y ampliada por la llegada al mundo com&uacute;n, al espacio de la acci&oacute;n. Destacamos algunos puntos de su teor&iacute;a pol&iacute;tica interrelacion&aacute;ndolos con apuntes sobre educaci&oacute;n del texto <i>La Crisis de la Educaci&oacute;n</i>, de 1958. Presentamos la educaci&oacute;n como espacio privilegiado de formaci&oacute;n de la vida del esp&iacute;ritu, esencial, por ser inicial, en tiempo y espacio para el ejercicio pleno de la <i>vita activa</i>. La ontolog&iacute;a est&aacute; fundamentada a partir de seis puntos en que es preciso: <i>acoger</i>, <i>preparar</i> e <i>incluir</i> a los singulares; fomentar espacios para el <i>discursar</i>, <i>valorar</i> las diferencias y <i>preservar</i> la tradici&oacute;n. Presentamos dos antimodelos para la ontolog&iacute;a de la singularidad: en la educaci&oacute;n escolar, los campos de concentraci&oacute;n, por la prerrogativa del uso de la violencia y de la mudez; para los educandos, Adolf Eichmann, a causa de su vac&iacute;o de pensamiento e incapacidad de actuar creativamente en el mundo. Proponemos que la duraci&oacute;n de la educaci&oacute;n es proporcional a la creatividad narrativa de la tradici&oacute;n por la autoridad de los profesores.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Palabras-clave:&nbsp;</b>Hannah Arendt; Ontolog&iacute;a de la singularidad; Filosof&iacute;a de la educaci&oacute;n; Vida del esp&iacute;ritu</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Origem do problema: &Eacute; poss&iacute;vel uma ontologia da singularidade em educa&ccedil;&atilde;o? </b></p>     <p>Hannah Arendt (1906-1975) &eacute; uma pensadora contempor&acirc;nea da condi&ccedil;&atilde;o humana no sentido mais amplo do termo. Ela n&atilde;o autoriza reducionismos conceituais. Ao se afirmar que h&aacute;, em sua obra, uma &eacute;tica, uma moral, uma epistemologia, uma pedagogia, uma ontologia, uma historiografia, entre outros, corre-se o risco de limitar o alcance de suas proposi&ccedil;&otilde;es e de diminuir o impacto de suas an&aacute;lises. A sua forma de escrever revela o fundo de seu pensamento, perpassando apropria&ccedil;&otilde;es e nega&ccedil;&otilde;es, aceita&ccedil;&otilde;es e contradi&ccedil;&otilde;es, concord&acirc;ncias e pol&ecirc;micas com diversos autores e autoras, das mais diversas tradi&ccedil;&otilde;es do pensamento, negando-se a uma sistematiza&ccedil;&atilde;o reducionista.</p>     <p>Sabedores de sua discuss&atilde;o sobre a educa&ccedil;&atilde;o em um ou outro ensaio pontual, nos permitimos discutir a possibilidade de uma ontologia da singularidade em educa&ccedil;&atilde;o. Partimos da leitura de muitos de seus textos e de alguns de seus comentadores e cr&iacute;ticos. Al&eacute;m disso, pretendemos alinhar certos conceitos, termos e categorias pol&iacute;ticos da autora com a educa&ccedil;&atilde;o, a fim de ampliar o potencial anal&iacute;tico da &uacute;ltima e realizar o balizamento com a primeira. Assim, relacionamos o pensamento pol&iacute;tico da autora com a educa&ccedil;&atilde;o, tendo como ponto de partida a afirma&ccedil;&atilde;o de que h&aacute; uma ontologia da singularidade no ato de educar, ato intermedi&aacute;rio entre o nascimento e a a&ccedil;&atilde;o no mundo comum.</p>     <p>O tema da educa&ccedil;&atilde;o em Arendt &eacute; problematizado no ensaio <i>A Crise da Educa&ccedil;&atilde;o</i>, publicado em 1958 (Arendt, 1992, pp. 221-247). Ela percebeu que a crise da educa&ccedil;&atilde;o norte-americana era uma das cristaliza&ccedil;&otilde;es (a mais radical &eacute; o totalitarismo) da ruptura pol&iacute;tica ocidental com a tradi&ccedil;&atilde;o, com uma certa teoria da a&ccedil;&atilde;o, de autoridade e de liberdade.</p>     <p>A ado&ccedil;&atilde;o da pedagogia do pragmatismo para reformar pela educa&ccedil;&atilde;o uma sociedade em conflito espelhou a crise contempor&acirc;nea em solo norte-americano. De fato, Arendt discorda do pragmatismo de John Dewey (1859-1952) e das repercuss&otilde;es do pensamento pedag&oacute;gico dele na educa&ccedil;&atilde;o, muito pelo fato do &ldquo;aprender fazendo&rdquo;. Para ele, &ldquo;o fim (resultados) da educa&ccedil;&atilde;o se identifica com os seus meios (processos) do mesmo modo, ali&aacute;s, que os fins da vida se identificam com os processos de viver&rdquo; (Dewey, 1971, p. 93) e, assim, &ldquo;enquanto vivo, n&atilde;o me estou, agora, preparando para viver daqui a pouco, estou vivendo. Do mesmo modo, eu n&atilde;o me estou em um momento preparando para educar-me e, em outro, obtendo o resultado dessa educa&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Dewey, 1971, p. 93). A &ecirc;nfase da educa&ccedil;&atilde;o &eacute; dada ao aluno e suas experi&ecirc;ncias de vida.</p>     <p>Arendt critica o pragmatismo afirmando que &ldquo;seja qual for a conex&atilde;o entre fazer e aprender&hellip; tende a tornar absoluto o mundo da inf&acirc;ncia&rdquo; (Arendt, 1992, p. 242) e &ldquo;sob o pretexto de respeitar a independ&ecirc;ncia da crian&ccedil;a, ela &eacute; exclu&iacute;da do mundo dos adultos e mantida artificialmente no seu pr&oacute;prio mundo&rdquo; (Arendt, 1992, p. 242). A autora afirmou que a quest&atilde;o fundamental da crise educacional norte-americana &eacute; a da responsabilidade dos adultos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s crian&ccedil;as e jovens, em suma, a crise do <i>amor mundi</i> (Arendt, 2004b, pp. 213-225; Assy, 2015, pp. 20-24). Essa responsabilidade define a media&ccedil;&atilde;o a ser realizada entre crian&ccedil;as e jovens e a escola, uma vez que &ldquo;a educa&ccedil;&atilde;o &eacute; o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele&rdquo; (Arendt, 1992, p. 247) e tamb&eacute;m &ldquo;onde decidimos se amamos nossas crian&ccedil;as o bastante para n&atilde;o expuls&aacute;-las de nosso mundo e abandon&aacute;-las a seus pr&oacute;prios recursos&rdquo; (Arendt, 1992, p. 247).</p>     <p>Para Arendt, a educa&ccedil;&atilde;o tradicional ocidental tem como marca a responsabilidade pelas crian&ccedil;as e jovens a fim de coloc&aacute;-los pouco a pouco em contato com o mundo dos adultos, aquela esfera p&uacute;blica que existe antes da chegada deles e que permanecer&aacute; depois da morte. A fun&ccedil;&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o &eacute; a conserva&ccedil;&atilde;o do mundo pela media&ccedil;&atilde;o entre adultos, crian&ccedil;as e jovens, pois &ldquo;faz parte da ess&ecirc;ncia da atividade educacional, cuja tarefa &eacute; sempre abrigar e proteger alguma coisa: a crian&ccedil;a contra o mundo, o mundo contra a crian&ccedil;a, o novo contra o velho, o velho contra o novo&rdquo; (Arendt, 1992, p. 242). Quando a educa&ccedil;&atilde;o fica restrita ao mundo e experi&ecirc;ncias das crian&ccedil;as e jovens que est&atilde;o ainda em forma&ccedil;&atilde;o &ndash; cr&iacute;tica destinada ao pragmatismo &ndash;, evidencia-se uma crise. Por isso, a responsabilidade pela introdu&ccedil;&atilde;o dos rec&eacute;m-chegados ao mundo &eacute; da educa&ccedil;&atilde;o e de seus dispositivos.</p>     <p>A ontologia da singularidade (crian&ccedil;as e jovens) em Arendt tem como ponto de partida o fato biol&oacute;gico do nascimento dos novos seres humanos no mundo que j&aacute; existe e que dever&aacute; ser mediado com eles pelos adultos. A natalidade &eacute; a revela&ccedil;&atilde;o da singularidade, da unicidade do indiv&iacute;duo no mundo. O nascimento p&otilde;e no mundo novas possibilidades de a&ccedil;&atilde;o que precisam ser mediadas pela educa&ccedil;&atilde;o. Por isso, receber e preparar quem chegou para assumir o protagonismo no espa&ccedil;o p&uacute;blico &eacute; o momento-chave em que decidimos pelo cuidado com o mundo &ndash; <i>amor mundi</i>, pois necessitamos educar os rec&eacute;m-chegados, potencialmente pol&iacute;ticos (Almeida, 2011, p. 21; Correia, 2010, p. 817). Por isso, &ldquo;a a&ccedil;&atilde;o educativa deve ser norteada pela dimens&atilde;o do p&uacute;blico&rdquo; (Rodrigues, 2008, p. 18), sem se reduzir a ela, como momento pr&eacute;-pol&iacute;tico. Arendt ressalta que &ldquo;uma das fun&ccedil;&otilde;es da escola &eacute; preparar as pessoas para a pr&aacute;tica do di&aacute;logo, considerada como uma a&ccedil;&atilde;o fundamental para a a&ccedil;&atilde;o no espa&ccedil;o p&uacute;blico&rdquo; (Rodrigues, 2008, p. 18). Nesse sentido, &ldquo;concebe-se assim que o espa&ccedil;o p&uacute;blico &eacute; pr&oacute;prio para o exerc&iacute;cio da atividade humana&rdquo; (Rodrigues, 2008, p. 18). O mundo, portanto, se renova e se reconstitui pela ontog&ecirc;nese dos rec&eacute;m-chegados. A escola e a educa&ccedil;&atilde;o devem tratar da singularidade de crian&ccedil;as e jovens. Esse sentido &eacute; refor&ccedil;ado pela etimologia do substantivo <i>singularidade</i>, de origem latina: <i>singular&#301;tas</i><i>, singularis</i>, que define aquilo que &eacute; &uacute;nico, solit&aacute;rio, um por um, peculiar, derivado de <i>singulus</i>, que define o individual, o &uacute;nico, derivado de <i>sim</i>, diminutivo da raiz do substantivo <i>simplus</i>, derivando o substantivo simples. A singularidade &eacute; caracter&iacute;stica do que &eacute; pouco frequente, fora do comum, extraordin&aacute;rio, distinto, que n&atilde;o tem correspond&ecirc;ncia com outro, surpreendente, incomum. &Eacute; uma qualidade que distingue algo de outras coisas do mesmo g&ecirc;nero, ou seja, possui uma particularidade, uma originalidade, uma excentricidade (Cunha, 1986; Ferreira, 1976; Houaiss &amp; Villar, 2001).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A ontologia da singularidade em educa&ccedil;&atilde;o &eacute; um momento anterior (antemundano, protomundano, pr&eacute;-pol&iacute;tico, pr&eacute;-acional) &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o da ontologia da pluralidade nos neg&oacute;cios humanos, ou seja, o mundo em que j&aacute; devemos estar minimamente preparados para o uso da liberdade, para a a&ccedil;&atilde;o. Assim, podemos afirmar que a ontologia da singularidade &eacute; uma prepara&ccedil;&atilde;o e a ontologia da pluralidade &ldquo;se configura como a suma express&atilde;o e significa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica da a&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Seixas, 2009, p. 6). O que alguns comentadores de Arendt t&ecirc;m afirmado &eacute; que h&aacute; uma ontologia da pluralidade apenas, generalizada, muito em vista da teoria da a&ccedil;&atilde;o por ela desenvolvida e que culmina com o exerc&iacute;cio da liberdade. E a prepara&ccedil;&atilde;o para ingressar no mundo? Pretendemos, pois, demonstrar que a ontologia da singularidade &eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o primordial para uma ontologia da pluralidade. Ou, dito de outra forma: s&oacute; podemos afirmar uma ontologia da pluralidade se antes afirmarmos a possibilidade de uma ontologia da singularidade, diante da infer&ecirc;ncia clara de que sem a ontologia da singularidade haveria uma impossibilidade da ontologia da pluralidade.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. O que &eacute; a ontologia da singularidade?</b></p>     <p><b>2.1 Nascemos indiv&iacute;duos singulares ou a educa&ccedil;&atilde;o nos singulariza?</b></p>     <p>Nascer e singularizar-se s&atilde;o fen&ocirc;menos indistingu&iacute;veis. Contudo, uma quest&atilde;o se coloca a partir da l&oacute;gica intr&iacute;nseca entre nascer e singularizar-se. Trata-se de se questionar se Hannah Arendt se orienta filosoficamente a partir do conceito de uma <i>natureza humana</i> ou de uma <i>condi&ccedil;&atilde;o humana</i>, ou, colocado de outra maneira: nascemos essencialmente humanos ou estamos sujeitos ao desenvolvimento de novas habilidades que definir&atilde;o se somos ou n&atilde;o humanos?</p>     <p>Em primeiro lugar, <i>a concep&ccedil;&atilde;o de uma natureza humana em termos objetivos, permanente para al&eacute;m do tempo e do espa&ccedil;o, como um paradigma metaf&iacute;sico, abstrato e de valor universal, predominou no mundo ocidental.</i> Por isso, a maioria dos pensadores da Gr&eacute;cia Antiga, muitos dos medievais e dos iluministas do s&eacute;culo XVIII afirmavam a exist&ecirc;ncia de uma natureza humana, uma ess&ecirc;ncia do ser humano imut&aacute;vel. A marca dos pensadores da natureza humana &eacute; um certo racionalismo aristot&eacute;lico, ou seja, &ldquo;o que mais distingue o homem dos demais animais &eacute; o fato de que ele &eacute; um ser racional&rdquo; (Vicente, 2010, p. 49). Por isso, havia uma necessidade de comparar o humano com o n&atilde;o-humano &ldquo;que, em termos aristot&eacute;licos e por uma longa tradi&ccedil;&atilde;o, &eacute; o animal&rdquo; (Cavarero &amp; Butler, 2007, p. 650). A afirma&ccedil;&atilde;o essencialista de uma natureza humana reverberou, por exemplo, no pensamento de Thomas Hobbes (1588-1679), ao constatar que o ser humano tem uma certa tend&ecirc;ncia natural para a destrui&ccedil;&atilde;o, derivando da&iacute; uma teoria pol&iacute;tica para controlar e harmonizar esta marca original universal atrav&eacute;s de um contrato social. Assim, &ldquo;dizer que alguma coisa &eacute; natural ou por natureza significa dizer que esta coisa existe necess&aacute;ria e universalmente como efeito de uma causa necess&aacute;ria e universal&rdquo; (Vicente, 2010, p. 48). Por isso, &ldquo;tal coisa n&atilde;o depende da a&ccedil;&atilde;o e inten&ccedil;&atilde;o dos seres humanos&rdquo; (Vicente, 2010, p. 48). Ademais, &ldquo;como &eacute; da natureza dos corpos serem governados pela lei natural da gravita&ccedil;&atilde;o universal, . . . como &eacute; da natureza da abelha produzir mel e da roseira produzir rosas, tamb&eacute;m seria por natureza que os homens sentem, pensam e agem&rdquo; (Vicente, 2010, pp. 48-49). Contudo,</p>     <p>     <blockquote>hoje, . . . n&atilde;o s&oacute; (se) nega que exista uma natureza humana entendida universalmente, mas tende, sobretudo, a definir o humano mais com refer&ecirc;ncia ao inumano do que ao n&atilde;o-humano. N&atilde;o se trata apenas de um jogo de palavras. . . . O inumano, por sua vez, alude a uma nega&ccedil;&atilde;o do humano que &eacute; interna ao pr&oacute;prio humano. A barb&aacute;rie de Auschwitz poderia servir de exemplo. Parece, ali&aacute;s, que a &eacute;poca hist&oacute;rica inaugura uma reflex&atilde;o sobre o humano que n&atilde;o pode deixar de se confrontar com o abismo da sua autonega&ccedil;&atilde;o. &Eacute; como se a natureza humana fosse uma quest&atilde;o que n&atilde;o tem a ver com o lugar da esp&eacute;cie humana na classifica&ccedil;&atilde;o do mundo dos seres vivos, mas sim com o modo como os humanos desvelam para si mesmos. (Cavarero &amp; Butler, 2007, p. 650)</blockquote>     <p></p>     <p>Em segundo lugar, <i>estabeleceu-se uma outra tradi&ccedil;&atilde;o que nega a universalidade da natureza humana, afirmando que, ao nascer, os rec&eacute;m-chegados constituem &ndash; todos e cada um &ndash; uma condi&ccedil;&atilde;o humana, hist&oacute;rica, condicionada pela conjuntura social, indeterminada</i>. Hannah Arendt contradisse a tradi&ccedil;&atilde;o essencialista desde seu primeiro livro <i>Origens do Totalitarismo</i>, de 1951, ao evidenciar que o totalitarismo pretendia mudar a natureza humana com a cria&ccedil;&atilde;o dos campos de concentra&ccedil;&atilde;o: &ldquo;o que as ideologias totalit&aacute;rias visam, portanto, n&atilde;o &eacute; a transforma&ccedil;&atilde;o do mundo exterior ou a transmuta&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria da sociedade, mas a transforma&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria natureza humana&rdquo; (Arendt, 2004a, p. 509).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Portanto, entre a concep&ccedil;&atilde;o essencialista e a concep&ccedil;&atilde;o realista, Arendt fica com a segunda, a da condi&ccedil;&atilde;o humana. A pol&ecirc;mica em torno da natureza humana demonstra que a autora n&atilde;o se vinculou &agrave; corrente essencialista. Nesse sentido, podemos afirmar que Arendt acredita que &ldquo;o homem, para viver, precisa sempre dar conta da vida e da sua reprodu&ccedil;&atilde;o; de um mundo que o proteja das intemp&eacute;ries da natureza e de um espa&ccedil;o que possibilitasse a sua intera&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e linguisticamente mediada&rdquo; (Aguiar, 2008, p. 32). Negando o essencialismo, em Arendt n&atilde;o existe &ldquo;nenhuma receita de como os homens devem cuidar da sua reprodu&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica, da terra, do mundo e da esfera p&uacute;blica&rdquo; (Aguiar, 2008, p. 32). Nesse sentido,</p>     <p>     <blockquote>a condi&ccedil;&atilde;o humana &eacute; compreendida pela <i>vita activa</i> e pela vida do esp&iacute;rito e n&atilde;o &eacute; entendida substancialmente: n&atilde;o se trata de uma ess&ecirc;ncia que determina todos os seres predicados por ela, pois n&atilde;o define um conte&uacute;do, trata-se, antes das condi&ccedil;&otilde;es nas quais o ser humano pode viver e se realizar. (Aguiar, 2008, p. 32)</blockquote>     <p></p>     <p>A condi&ccedil;&atilde;o humana &eacute; situacional, uma vez que &ldquo;agir e pensar s&atilde;o capacidades que se realizam em determinadas circunst&acirc;ncias, mas essas circunst&acirc;ncias jamais determinam o conte&uacute;do da a&ccedil;&atilde;o e do pensamento&rdquo; (Aguiar, 2008, pp. 32-33).</p>     <p><b>2.2 Alguns pontos para uma ontologia da singularidade</b></p>     <p><i>O nascimento principia a </i>vita activa:<i> Acolher &eacute; preciso</i></p>     <p>Propomos alguns pontos para uma reflex&atilde;o acerca de uma ontologia da singularidade relacionada diretamente &agrave; educa&ccedil;&atilde;o. Todo o nascimento no mundo lan&ccedil;a um indiv&iacute;duo numa condi&ccedil;&atilde;o humana, em inter-rela&ccedil;&atilde;o constante com a cultura, com a economia, com a pol&iacute;tica, com a hist&oacute;ria. O mundo dos adultos j&aacute; existe, j&aacute; se encontra constru&iacute;do pelo trabalho e dinamizado pela a&ccedil;&atilde;o no espa&ccedil;o p&uacute;blico. O mundo &eacute; o espa&ccedil;o da pluralidade &ndash; um espa&ccedil;o ou esfera de conviv&ecirc;ncia entre os pares, ou os diferentes. O indiv&iacute;duo rec&eacute;m-chegado &eacute; singular em sua constitui&ccedil;&atilde;o ontol&oacute;gica diante dos demais seres humanos que j&aacute; comp&otilde;em o mundo. H&aacute; apenas uma determina&ccedil;&atilde;o inicial: lan&ccedil;ado no mundo comum aos adultos, o rec&eacute;m-chegado principia sua <i>vita activa</i> (Arendt, 2005, pp. 15-26).</p>     <p>O acolhimento da singularidade pelos adultos &eacute; o in&iacute;cio da hist&oacute;ria de cada indiv&iacute;duo, pois &ldquo;os rec&eacute;m-chegados precisam ser acolhidos e familiarizados com este espa&ccedil;o comum e seu legado, que futuramente estar&atilde;o sob sua responsabilidade&rdquo; (Almeida, 2011, pp. 20-21). A educa&ccedil;&atilde;o dos rec&eacute;m-chegados &eacute; uma tarefa fundamental para o mundo comum: &ldquo;a tarefa da educa&ccedil;&atilde;o, portanto, &eacute; introduzir as crian&ccedil;as num mundo que lhes antecede e que continuar&aacute; depois delas&rdquo; (Almeida, 2011, p. 21). Portanto, <i>a </i>vita activa<i> &eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o humana iniciada com o nascimento e o processo de ensino-aprendizagem ser&aacute; respons&aacute;vel pela introdu&ccedil;&atilde;o dos rec&eacute;m-chegados singulares &agrave; din&acirc;mica do mundo comum.</i></p>     <p><i>A vida privada e a vida p&uacute;blica: Preparar &eacute; preciso</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A <i>vita activa</i> comp&otilde;e-se de tr&ecirc;s atividades no mundo contempor&acirc;neo: o trabalho, a fabrica&ccedil;&atilde;o e a a&ccedil;&atilde;o. Arendt considera que a primeira atividade &eacute; o trabalho (lt.: <i>animal laborans</i>; ing.:<i> labor</i>), que &ldquo;assegura n&atilde;o apenas a sobreviv&ecirc;ncia do indiv&iacute;duo, mas a vida da esp&eacute;cie&rdquo; (Arendt, 1993, p. 348). A segunda atividade &eacute; a fabrica&ccedil;&atilde;o (lt.: <i>homo faber</i>) &ldquo;e seu produto, o artefato humano, (que) emprestam certa perman&ecirc;ncia e durabilidade &agrave; futilidade da vida mortal e ao car&aacute;ter ef&ecirc;mero do tempo humano&rdquo; (Arendt, 1993, p. 348). A terceira atividade &eacute; a &ldquo;a&ccedil;&atilde;o (gr.: <i>zoon politikon</i>), na medida em que se empenha em fundar e preservar corpos pol&iacute;ticos, cria a condi&ccedil;&atilde;o para a lembran&ccedil;a, ou seja, para a hist&oacute;ria&rdquo; (Arendt, 1993, p. 348). Assim, trabalho, fabrica&ccedil;&atilde;o e a&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m seu fundamento na &ldquo;natalidade, na medida em que sua tarefa &eacute; produzir e preservar o mundo&rdquo; (Arendt, 1993, p. 348). Por isso, a pr&oacute;pria &ldquo;capacidade de come&ccedil;ar tem raiz na <i>natalidade</i>, e de forma alguma na criatividade, n&atilde;o em um dom, mas no fato de que os seres humanos, novos homens, continuamente aparecem no mundo em virtude do nascimento&rdquo; (Arendt, 1993, p. 348). Nesse sentido,</p>     <p>     <blockquote>se o trabalho &eacute; a atividade com a qual os homens respondem &agrave;s urg&ecirc;ncias da necessidade, e se a fabrica&ccedil;&atilde;o &eacute; a atividade que responde pela produ&ccedil;&atilde;o de um mundo de artefatos dur&aacute;veis que possa constituir a morada humana, a a&ccedil;&atilde;o e o discurso, por sua vez, referem-se n&atilde;o apenas ao pr&oacute;prio exerc&iacute;cio da vida pol&iacute;tica em comum, mas, de um modo ainda mais essencial, respondem pela pr&oacute;pria humaniza&ccedil;&atilde;o do homem e do mundo. (Duarte, 2000, p. 213)</blockquote>     <p></p>     <p>Como operam a educa&ccedil;&atilde;o e a escola diante das atividades da <i>vita activa</i>? A escola &eacute; um espa&ccedil;o de prepara&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;as e jovens para atuarem no mundo. Evidentemente, as crian&ccedil;as e jovens j&aacute; s&atilde;o vis&iacute;veis no mundo comum e j&aacute; atuam sobre ele com menor ou maior intensidade de acordo com a idade que lhes d&aacute; mais ou menos acesso aos direitos sociais, civis ou pol&iacute;ticos. Mas, para Arendt, a escola &ldquo;n&atilde;o &eacute; de modo algum o mundo e n&atilde;o deve fingir s&ecirc;-lo; ela &eacute;, em vez disso, a institui&ccedil;&atilde;o que interpomos entre o dom&iacute;nio do privado do lar e o mundo com o fito de fazer com que seja poss&iacute;vel a transi&ccedil;&atilde;o, de alguma forma, da fam&iacute;lia para o mundo&rdquo; (Arendt, 1992, p. 238). <i>O papel social da escola &eacute; ser intermedi&aacute;ria entre a vida privada (trabalho) e a vida p&uacute;blica (fabrica&ccedil;&atilde;o e a&ccedil;&atilde;o); promover gradualmente a inser&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as e jovens no mundo a partir do conhecimento das etapas do desenvolvimento cognitivo e psicol&oacute;gico deles; proteger e amparar as crian&ccedil;as e jovens da responsabilidade dos adultos na gest&atilde;o do espa&ccedil;o p&uacute;blico pela fabrica&ccedil;&atilde;o e pela a&ccedil;&atilde;o.</i> Portanto, a educa&ccedil;&atilde;o escolar &ldquo;&eacute; um est&aacute;gio fundamental de prepara&ccedil;&atilde;o para a a&ccedil;&atilde;o no mundo, sendo um espa&ccedil;o ou esfera proto-pol&iacute;tica: transmite conhecimentos e cultiva princ&iacute;pios e capacidades que favorecem a futura participa&ccedil;&atilde;o dos alunos na esfera p&uacute;blica&rdquo; (Almeida, 2011, p. 22).</p>     <p>Uma ontologia da singularidade deve levar em conta que o exerc&iacute;cio da liberdade no mundo comum precisa ser preparado na educa&ccedil;&atilde;o escolar, em que cada crian&ccedil;a e jovem t&ecirc;m contato com estruturas fundantes do mundo, sem ter a responsabilidade de decidir imediatamente sobre a manuten&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o das mesmas. Nesse sentido, depois do processo de intermedia&ccedil;&atilde;o escolar, os rec&eacute;m-chegados precisam estar preparados para o exerc&iacute;cio da a&ccedil;&atilde;o, agindo com a liberdade no mundo, que &eacute; a ess&ecirc;ncia da pol&iacute;tica, uma vez que &ldquo;o preceito de liberdade foi criado ao mesmo tempo, e n&atilde;o antes, que o homem&rdquo; (Arendt, 2005, p. 190). A singularidade inicial vai se tornar, no espa&ccedil;o p&uacute;blico, uma potente pluralidade, um exerc&iacute;cio de poder, ou seja, a capacidade humana de agir em concerto, uma vez que</p>     <p>o poder n&atilde;o &eacute; sin&ocirc;nimo de opress&atilde;o nem de coer&ccedil;&atilde;o, mas de aptid&atilde;o humana para viver na pluralidade. Ele &eacute; sempre potencial: exerce-se na rela&ccedil;&atilde;o entre os homens, pelo di&aacute;logo aberto &agrave; multiplicidade de perspectivas. A sua gera&ccedil;&atilde;o depende, ent&atilde;o, da exist&ecirc;ncia do espa&ccedil;o p&uacute;blico e da pluralidade, da diversidade de opini&otilde;es e de manifesta&ccedil;&otilde;es, na qual cada indiv&iacute;duo singular se revela a si pr&oacute;prio e aos outros, atrav&eacute;s da fala, buscando a persuas&atilde;o, o convencimento pelo melhor argumento. A pluralidade e o mundo comum tornam a pol&iacute;tica poss&iacute;vel a partir da liberdade e da igualdade acess&iacute;veis a todos os cidad&atilde;os. (Schio, 2006, p. 197)</p>     <p>A ontologia da singularidade fundada na natalidade culmina na ontologia da pluralidade, no espa&ccedil;o p&uacute;blico, no mundo comum. Reiteramos que sem a primeira ontologia desenvolvida plenamente &ndash; fun&ccedil;&atilde;o social da educa&ccedil;&atilde;o e da escola &ndash;, pode vir a sair prejudicada a ontologia da pluralidade, na atua&ccedil;&atilde;o dos agentes pol&iacute;ticos no espa&ccedil;o p&uacute;blico, prontos para come&ccedil;ar e recome&ccedil;ar pela a&ccedil;&atilde;o quantas vezes forem necess&aacute;rias. Por fim, Arendt nos informa que &ldquo;a a&ccedil;&atilde;o est&aacute; mais intimamente relacionada com a condi&ccedil;&atilde;o humana da natalidade; o novo come&ccedil;o inerente a cada nascimento possui a capacidade de iniciar algo novo, isto &eacute;, de agir&rdquo; (Arendt, 2005, p. 17). &Eacute; por isso que &ldquo;neste sentido de iniciativas todas as atividades humanas possuem um elemento de a&ccedil;&atilde;o e, portanto, de natalidade&rdquo; (Arendt, 2005, p. 17).</p>     <p><i>Democracia e criatividade na escola: Incluir &eacute; preciso</i></p>     <p>H&aacute; uma necessidade de cria&ccedil;&atilde;o de um espa&ccedil;o democr&aacute;tico para a educa&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as e jovens em que a inclus&atilde;o, no seu sentido mais amplo e irrestrito, seja alcan&ccedil;ado. A escola precisa garantir, enquanto institui&ccedil;&atilde;o social, que esteja permeada pelo poder que emana do povo (o espa&ccedil;o entre os homens, a possibilidade de uma vida comum), ou seja, por aquele fundamento da conviv&ecirc;ncia dos homens no espa&ccedil;o p&uacute;blico (Adverse, 2012, p. 432). Nesse sentido, <i>a escola deve democratizar-se para espelhar, a priori, a sociedade pol&iacute;tica, em seu poder</i>. Os processos democr&aacute;ticos da escola s&atilde;o importantes auxiliares na forma&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as e jovens e podem ser descritos como ensaiamos a seguir.&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em primeiro lugar, como n&atilde;o h&aacute; uma determina&ccedil;&atilde;o de uma natureza humana, um condicionamento metaf&iacute;sico exterior dado ao indiv&iacute;duo com o qual a escola dever&aacute; lidar, a novidade est&aacute; em todas as crian&ccedil;as e jovens. <i>Nenhuma crian&ccedil;a ou jovem pode ficar &agrave; margem do transcurso ensino-aprendizagem</i>: todos t&ecirc;m a condi&ccedil;&atilde;o para adentrar no mundo de acordo com suas possibilidades e aptid&otilde;es.</p>     <p>Em segundo lugar, a responsabilidade dos adultos por apresentar o mundo aos rec&eacute;m-chegados &ldquo;assume a forma de autoridade&rdquo; (Arendt, 1992, p. 239). &Eacute; por isso que, &ldquo;em face &agrave; crian&ccedil;a, &eacute; como se ele (o adulto) fosse um representante de todos os habitantes adultos, apontando os detalhes e dizendo &agrave; crian&ccedil;a: &ndash; Isso &eacute; o nosso mundo&rdquo; (Arendt, 1992, p. 239). <i>O que se exige dos educadores &eacute; a criatividade narracional </i>(Aguiar, 2003). Essa designa uma capacidade competente dos professores, no ato de lidar com crian&ccedil;as e jovens, para descrever, contar e recontar as tradi&ccedil;&otilde;es da mundaneidade aos rec&eacute;m-chegados, ou seja, &ldquo;criar as condi&ccedil;&otilde;es para um <i>di&aacute;logo qualificado</i>&rdquo; (Almeida, 2011, p. 110). N&atilde;o se trata, pois, de repetir os conte&uacute;dos como cad&aacute;veres revividos das tumbas do passado, mas de atualiz&aacute;-los, permitindo um contato dos educandos com as solu&ccedil;&otilde;es dadas aos problemas humanos por seus pares, nas mais diversas situa&ccedil;&otilde;es do pret&eacute;rito. Para Arendt, &ldquo;a principal caracter&iacute;stica desta vida especificamente humana, cujo aparecimento e desaparecimento constituem eventos mundanos, &eacute; que ela, em si, &eacute; plena de eventos que posteriormente podem ser narrados como hist&oacute;ria e estabelecer uma biografia&rdquo; (Arendt, 2005, pp. 108-109).</p>     <p>Em terceiro lugar, <i>o curr&iacute;culo escolar deve estar conectado com a tradi&ccedil;&atilde;o</i>, que nada mais &eacute; que &ldquo;o fio que nos guiou com seguran&ccedil;a atrav&eacute;s dos vastos dom&iacute;nios do passado&rdquo; (Arendt, 1992, p. 130). A tradi&ccedil;&atilde;o &eacute; um arcabou&ccedil;o de experi&ecirc;ncias validadas pela comunidade em algum momento de sua hist&oacute;ria (e pode ter sido esquecida, podendo ser trazida &agrave; tona novamente). O risco de n&atilde;o rememorar as tradi&ccedil;&otilde;es &eacute; o esquecimento, que enfraquece &ldquo;a dimens&atilde;o da profundidade na exist&ecirc;ncia humana&rdquo; (Arendt, 1992, p. 131), uma vez que a &ldquo;mem&oacute;ria e (a) profundidade s&atilde;o o mesmo, ou antes, a profundidade n&atilde;o pode ser alcan&ccedil;ada pelo homem a n&atilde;o ser atrav&eacute;s da recorda&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Arendt, 1992, p. 131).</p>     <p>Portanto, vivenciar a democracia no espa&ccedil;o escolar exige dos adultos a responsabilidade, j&aacute; que eles est&atilde;o no mundo e as crian&ccedil;as e jovens est&atilde;o em atividade de inser&ccedil;&atilde;o gradual. Essa responsabilidade &eacute; o <i>amor mundi</i>, que &ldquo;diz respeito &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o do ser humano, que sozinho pode muito bem ser <i>animal laborans</i> ou <i>homo faber</i>, mas, sem se dirigir a outros por meio de atos e palavras, deixa de constituir esse espa&ccedil;o comum que permite tornar-se realmente humano (Almeida, 2011, pp. 87-88). <i>A educa&ccedil;&atilde;o &eacute; um cuidado com o mundo e o mundo a todos inclui: os que est&atilde;o sendo preparados e aqueles que s&atilde;o os respons&aacute;veis por esta prepara&ccedil;&atilde;o. </i></p>     <p><i>Escola e campo de concentra&ccedil;&atilde;o: Discursar &eacute; preciso</i></p>     <p>A valoriza&ccedil;&atilde;o de todos os rec&eacute;m-chegados &eacute; fundamental. N&atilde;o se trata de contabilizar os chegados ao mundo, num dado frio levantado pelos censos escolares. N&atilde;o se trata de calar a voz da novidade trazida pelo nascimento com estat&iacute;sticas e planilhas educacionais. O mais profundo do nascimento, em Arendt, &eacute; que todo o ser humano tem uma contribui&ccedil;&atilde;o a ser dada ao mundo. Por isso, a educa&ccedil;&atilde;o deve potencializar os rec&eacute;m-chegados, ou seja, ajud&aacute;-los no pleno desenvolvimento de suas habilidades da condi&ccedil;&atilde;o humana historicamente dada, para que o mundo, das pequenas comunidades &agrave;s grandes cidades, dos pequenos aos grandes pa&iacute;ses, seja o resultado plenificado de todas as singularidades, tornando-se uma casa comum.</p>     <p><i>O contr&aacute;rio da experi&ecirc;ncia educativa, em Arendt, &eacute; o campo de concentra&ccedil;&atilde;o nazista da Segunda Guerra Mundial.</i> Em seu livro <i>Origens do Totalitarismo</i> (Arendt, 2004a), ela descreveu a reifica&ccedil;&atilde;o dos judeus nos campos de exterm&iacute;nio, nos quais nenhum prisioneiro tinha direito ao exerc&iacute;cio da sua individualidade, de sua singularidade, de organizar-se em uma pluralidade pol&iacute;tica, uma vez que era obrigado &agrave; mudez. O sil&ecirc;ncio &eacute; a grande marca dos campos de concentra&ccedil;&atilde;o. A maior viol&ecirc;ncia praticada nos campos foi a transforma&ccedil;&atilde;o dos prisioneiros em pessoas sem voz, sem a possibilidade do discurso.</p>     <p>Arendt identifica a viol&ecirc;ncia com a mudez. Quando se pretende tirar o poder de uma comunidade e de seus sujeitos em pluralidade, obriga-se ao sil&ecirc;ncio, &agrave; mudez. Nos campos de concentra&ccedil;&atilde;o, as pessoas eram coagidas atrav&eacute;s de um comando efetivo &agrave; obedi&ecirc;ncia pelos funcion&aacute;rios. Diferente do poder &ndash; a capacidade de estarmos juntos criando uma liga&ccedil;&atilde;o entre os homens &ndash;, a viol&ecirc;ncia &eacute; &ldquo;muda, e por este motivo, a viol&ecirc;ncia por si s&oacute;, jamais pode ter grandeza&rdquo; (Arendt, 2005, p. 35). O campo de concentra&ccedil;&atilde;o &eacute; a nega&ccedil;&atilde;o da tradi&ccedil;&atilde;o ocidental da <i>polis</i> grega. Para Arendt, &ldquo;com o ser pol&iacute;tico, o viver numa <i>polis</i>, significava que tudo era decidido mediante palavras e persuas&atilde;o, e n&atilde;o atrav&eacute;s de for&ccedil;a ou viol&ecirc;ncia&rdquo; (Arendt, 2005, p. 35). Com isso, &ldquo;para os gregos, for&ccedil;ar algu&eacute;m mediante viol&ecirc;ncia, ordenar ao inv&eacute;s de persuadir, eram modos pr&eacute;-pol&iacute;ticos de lidar com as pessoas&rdquo;, o que era t&iacute;pico da vida fora da <i>polis</i>, &ldquo;caracter&iacute;sticos do lar e da vida em fam&iacute;lia, na qual o chefe da casa imperava com poderes incontestes e desp&oacute;ticos&rdquo; (Arendt, 2005, pp. 35-36).</p>     <p>A viol&ecirc;ncia, quando usada no espa&ccedil;o p&uacute;blico, se op&otilde;e &agrave; liberdade por sua natureza instrumental. A <i>polis</i> era o espa&ccedil;o p&uacute;blico da liberdade, sendo que &ldquo;a for&ccedil;a e a viol&ecirc;ncia&rdquo; (Arendt, 2005, p. 40) eram prerrogativas do governo. Com isso, a &ldquo;liberdade situa-se exclusivamente na esfera pol&iacute;tica&rdquo; (Arendt, 2005, p. 40), uma vez que todos os seres humanos s&atilde;o sujeitos &agrave; necessidade, t&ecirc;m o direito de empregar a viol&ecirc;ncia contra os outros; a viol&ecirc;ncia &eacute; o ato pr&eacute;-pol&iacute;tico de libertar-se da necessidade da vida para conquistar a liberdade no mundo. Na an&aacute;lise arendtiana da <i>polis</i> grega &ldquo;ser livre significava, ao mesmo tempo, n&atilde;o estar sujeito &agrave;s necessidades da vida, nem ao comando do outro <i>e</i> tamb&eacute;m n&atilde;o comandar. N&atilde;o significava dom&iacute;nio, como tamb&eacute;m n&atilde;o significava submiss&atilde;o&rdquo; (Arendt, 2005, p. 41). N&atilde;o apenas na <i>polis </i>grega, mas tamb&eacute;m na<i> res publica </i>romana (a <i>polis</i> grega e a <i>civitas</i> romana), havia &ldquo;a garantia contra a futilidade da vida individual, o espa&ccedil;o protegido contra essa futilidade e reservado &agrave; relativa perman&ecirc;ncia, sen&atilde;o &agrave; imortalidade, dos mortais&rdquo; (Arendt, 2005, p. 66). Portanto, na tradi&ccedil;&atilde;o ocidental, negada em absoluto pelos campos de concentra&ccedil;&atilde;o, a <i>polis</i> e a <i>res publica </i>eram espa&ccedil;os de discurso e de a&ccedil;&atilde;o, resultando da&iacute; que o discurso &eacute; um ato intersubjetivo, plural, coletivo, p&uacute;blico. Assim, &ldquo;a organiza&ccedil;&atilde;o da comunidade que resulta do agir e falar em conjunto, e o seu verdadeiro espa&ccedil;o situa-se entre as pessoas que vivem juntas com tal prop&oacute;sito, n&atilde;o importa onde estejam&rdquo; (Arendt, 2005, p. 211).</p>     <p><i>O campo de concentra&ccedil;&atilde;o nazista &eacute; uma experi&ecirc;ncia pol&iacute;tica que interpela a escola em sua fun&ccedil;&atilde;o social.</i> Afinal, os homens que permitiram a inven&ccedil;&atilde;o dos campos passaram pelas escolas europeias. J&aacute; a escola que incentiva o di&aacute;logo entre os rec&eacute;m-chegados e os adultos ensaia a <i>polis </i>grega e <i>res publica</i>, atualizando-as, de alguma forma. Nesse sentido, pode evitar a atomiza&ccedil;&atilde;o dos homens, o desinteresse pelo mundo, a apatia pelo pol&iacute;tico, a desola&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o ao querer agir e at&eacute; mesmo o ressentimento, combust&iacute;veis poderosos para a viol&ecirc;ncia no espa&ccedil;o p&uacute;blico.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nesse sentido, podemos concluir que a ontologia da singularidade est&aacute; inserida na crise da modernidade que naturalizou a viol&ecirc;ncia e se desencantou com a a&ccedil;&atilde;o. Esse desencanto, esse desinteresse, podem alimentar a viol&ecirc;ncia no espa&ccedil;o p&uacute;blico. &Eacute; que a a&ccedil;&atilde;o para Arendt &eacute; pot&ecirc;ncia de um grupo, &eacute; o poder do grupo, a capacidade de agir em conjunto, associando-se com um objetivo pol&iacute;tico relevante. Dissociados, desligados de um objetivo pol&iacute;tico comum, distantes da representa&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria-parlamentar, os homens de massa foram guiados pela ideologia e pela propaganda, sendo &uacute;teis para os movimentos totalit&aacute;rios no uso de sua for&ccedil;a, de sua viol&ecirc;ncia. A impot&ecirc;ncia para a&ccedil;&atilde;o &eacute; um convite para a viol&ecirc;ncia.</p>     <p><i>O risco da massifica&ccedil;&atilde;o escolar: Valorizar &eacute; preciso</i></p>     <p>A singularidade n&atilde;o admite uma escola da massifica&ccedil;&atilde;o. A educa&ccedil;&atilde;o nos s&eacute;culos XIX e XX voltou-se para as massas, indistintas, an&ocirc;nimas (Gauthier &amp; Tardif, 2014). A quest&atilde;o de fundo desse processo &eacute;: educar os singulares &eacute; poss&iacute;vel quando reduzimos a atividade escolar a n&uacute;meros, tabelas, metas e resultados? Nesse sentido precisamos analisar o que Arendt tem a nos dizer sobre o fen&ocirc;meno das massas &ldquo;educadas&rdquo; que optaram por seguir os preceitos do totalitarismo (e seus desdobramentos nos dias atuais). Nosso objetivo &eacute; demonstrar como a massifica&ccedil;&atilde;o pode afetar diretamente a escola, naturalizando procedimentos burocr&aacute;ticos, vazios em sua rela&ccedil;&atilde;o com o mundo, descomprometidos com o <i>amor mundi</i>.</p>     <p>Para Arendt, as massas s&atilde;o formadas por aglomerados de seres humanos indiferentes e impotentes. Dessa forma,</p>     <p>     <blockquote>o termo massa s&oacute; se aplica quando lidamos com pessoas que, simplesmente devido ao seu n&uacute;mero, ou &agrave; sua indiferen&ccedil;a, ou a uma mistura de ambos, n&atilde;o se podem integrar numa organiza&ccedil;&atilde;o baseada no interesse comum, seja partido pol&iacute;tico, organiza&ccedil;&atilde;o profissional ou sindicato de trabalhadores. (Arendt, 2004a, p. 361)</blockquote>     <p></p>     <p>A superfluidade das massas, que pode apresentar-se como uma capacidade de mudan&ccedil;a r&aacute;pida de opini&atilde;o, se mostra &ldquo;no momento da derrota em que a fraqueza inerente da propaganda totalit&aacute;ria se torna vis&iacute;vel. Sem a for&ccedil;a do movimento, seus membros cessam imediatamente de acreditar no dogma pelo qual ainda ontem estavam dispostos a sacrificar a vida&rdquo; (Arendt, 2004a, p. 413). Por isso,</p>     <p>     <blockquote>logo que o movimento, isto &eacute;, o mundo fict&iacute;cio que as abrigou &eacute; destru&iacute;do, as massas revertem ao seu antigo <i>status </i>de indiv&iacute;duos isolados que aceitam de bom grado uma nova fun&ccedil;&atilde;o num mundo novo ou mergulham novamente em sua antiga e desesperada superfluidade. (Arendt, 2004a, p. 413)</blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p>     <p>A indiferen&ccedil;a e a inexperi&ecirc;ncia pol&iacute;tica das massas s&atilde;o o ponto de partida para sua coopta&ccedil;&atilde;o pelos movimentos totalit&aacute;rios. Por isso, a suposta ordem do movimento e a demonstra&ccedil;&atilde;o de sua coer&ecirc;ncia atraem a massa sem muito esfor&ccedil;o. As massas se mobilizam para a participa&ccedil;&atilde;o dos eventos convocados pelo movimento, compartilhando suas ideias. &Eacute; uma participa&ccedil;&atilde;o baseada na domina&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica com desprezo &agrave;s tradicionais formas de participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica da sociedade civil. Por isso, a impot&ecirc;ncia, o sentimento de apatia, a ina&ccedil;&atilde;o, o ressentimento, o desprezo pelas estruturas pol&iacute;ticas parlamentares, a n&atilde;o ades&atilde;o aos partidos s&atilde;o as caracter&iacute;sticas predominantes das massas. Quando participantes do movimento, a viol&ecirc;ncia se torna uma das formas de manifesta&ccedil;&atilde;o de seu ressentimento. A viol&ecirc;ncia se torna uma das maneiras de ades&atilde;o ao movimento. Por isso, &ldquo;o totalitarismo arrebanha t&atilde;o facilmente seus adeptos, seduzindo-os por meio do apelo da coer&ecirc;ncia e suposta superioridade da ideologia totalit&aacute;ria, que os preserva do exerc&iacute;cio da persuas&atilde;o ao substitu&iacute;-la pelo desencadeamento da viol&ecirc;ncia e pelo fanatismo destitu&iacute;do de convic&ccedil;&otilde;es&rdquo; (Duarte, 2000, p. 48). Nesse sentido, &ldquo;desconcertante no sucesso do totalitarismo &eacute; o verdadeiro altru&iacute;smo dos seus adeptos&rdquo; (Arendt, 2004a, p. 357).</p>     <p>Na fuga da realidade atrav&eacute;s da ideologia do movimento posta em pr&aacute;tica,</p>     <p>     <blockquote>as massas pronunciam um veredicto contra um mundo no qual s&atilde;o for&ccedil;adas a viver e onde n&atilde;o podem existir, uma vez que o acaso &eacute; o senhor supremo deste mundo e os seres humanos necessitam transformar constantemente as condi&ccedil;&otilde;es do caos e do acidente num padr&atilde;o humano de relativa coer&ecirc;ncia. (Arendt, 2004a, p. 421)</blockquote>     <p></p>     <p>&Eacute; por isso que a viol&ecirc;ncia radical proposta pelo movimento totalit&aacute;rio atra&iacute;a a aten&ccedil;&atilde;o das massas e lhe permitia idealizar uma nova vida. Nessa nova vida, na atividade, no movimento era &ldquo;poss&iacute;vel exprimir frustra&ccedil;&atilde;o, ressentimento e &oacute;dio cego, uma esp&eacute;cie de expressionismo pol&iacute;tico que tinha bombas por linguagem&rdquo; e que tamb&eacute;m &ldquo;observava com prazer a publicidade dada a seus feitos estrondosos e que estava absolutamente disposto a pagar com a vida o fato de conseguir impingir &agrave;s camadas normais da sociedade o reconhecimento da exist&ecirc;ncia de algu&eacute;m&rdquo; (Arendt, 2004a, pp. 381-382).</p>     <p>Portanto, a an&aacute;lise do homem de massa de Arendt &eacute; extremamente atual. &Eacute; atual porque a crise da modernidade &ndash; que envolve a educa&ccedil;&atilde;o diretamente &ndash; n&atilde;o acabou; antes, continua a produzir fen&ocirc;menos bastante semelhantes ao totalitarismo nazista, e estamos sujeitos aos movimentos de massa baseados em pr&aacute;ticas desumanizadoras. Por isso, a ontologia da singularidade &eacute; interpelada pela massifica&ccedil;&atilde;o: se cada rec&eacute;m-chegado &eacute; preparado para viver no mundo, qual tem sido a qualidade da educa&ccedil;&atilde;o para as massas? &Eacute; poss&iacute;vel reverter pela educa&ccedil;&atilde;o a superfluidade, a apatia, o ressentimento? A compreens&atilde;o do que estamos fazendo talvez seja um passo &agrave; frente para n&atilde;o repetir os desastres pol&iacute;ticos do passado.</p>     <p><i>A educa&ccedil;&atilde;o de longa dura&ccedil;&atilde;o: Preservar &eacute; preciso</i></p>     <p>Uma quest&atilde;o importante &eacute; imaginar o que para Arendt seria o ponto final da ontologia da singularidade (o t&eacute;rmino do ensino b&aacute;sico, atualmente) e sua imediata conex&atilde;o com a ontologia da pluralidade. Evidentemente, os educadores n&atilde;o t&ecirc;m a possibilidade de avaliar os atos de seus educandos no mundo. Ent&atilde;o, o que permanece da educa&ccedil;&atilde;o nos singulares?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A educa&ccedil;&atilde;o, como j&aacute; vimos, lida com o mundo sem ser o mundo como tal. &Eacute; por isso que, para Arendt, <i>a educa&ccedil;&atilde;o atinge imediatamente a vida do esp&iacute;rito dos singulares pela ontologia da singularidade.</i> A escola &eacute; um espa&ccedil;o para a estrutura&ccedil;&atilde;o do pensamento. A escola &eacute; um espa&ccedil;o para a estrutura&ccedil;&atilde;o da consci&ecirc;ncia da condi&ccedil;&atilde;o de estar no mundo. A culmin&acirc;ncia, portanto, n&atilde;o pode ser outra coisa que o amadurecimento da vida do esp&iacute;rito em que o pensar, o querer e o julgar estejam habilitados para lidar com os desafios do mundo pela a&ccedil;&atilde;o. Em resumo, crian&ccedil;as e jovens ao final da prepara&ccedil;&atilde;o educacional devem estar aptos pelas &ldquo;atividades mentais&rdquo; a agir &ldquo;num mundo de apar&ecirc;ncias&rdquo; (Arendt, 2011, p. 81), sem que haja um antes e um depois, em tempos estanques. Do ponto de vista das crian&ccedil;as e jovens, o pensamento n&atilde;o sofre cortes, &eacute; cont&iacute;nuo.</p>     <p>Como j&aacute; vimos, o oposto da escola como <i>amor mundi</i> se configura nas tentativas dos campos de concentra&ccedil;&atilde;o nazista em mudar a natureza humana. O contr&aacute;rio de crian&ccedil;as e jovens com atividades mentais cultivadas e plenamente preparados para o mundo da a&ccedil;&atilde;o pode ser representado pelo nazista Adolf Eichmann (Arendt, 2006). Um homem surpreendente e extraordinariamente superficial, demonstrando em seu julgamento uma &ldquo;incapacidade de um pensamento cr&iacute;tico independente&rdquo; (Assy, 2015, p. 4). Ele &eacute; um antimodelo educacional, por conta da capacidade de encarnar a &ldquo;banalidade do mal&rdquo;, por n&atilde;o ter a &ldquo;menor dificuldade em aceitar um conjunto inteiramente diferente de regras&rdquo; em que &ldquo;os clich&ecirc;s, os lugares-comuns, a ades&atilde;o a c&oacute;digos convencionais e padronizados de express&atilde;o e conduta t&ecirc;m a fun&ccedil;&atilde;o de nos proteger contra a realidade&rdquo;, ou seja, &ldquo;contra a solicita&ccedil;&atilde;o da aten&ccedil;&atilde;o de nosso pensamento, que todos os acontecimentos e fatos despertam em virtude da sua exist&ecirc;ncia&rdquo; (Arendt, 2004b, pp. 226-227). Foi &ldquo;essa total aus&ecirc;ncia de pensamento (que) atraiu o meu interesse&rdquo;, revela Arendt (2004b, p. 227). Eichmann, que para n&oacute;s encarna o antimodelo educacional, forneceu a Arendt um &ldquo;<i>insight</i> . . . a respeito da possibilidade de relacionar as atividades mentais, suas considera&ccedil;&otilde;es &eacute;tico-morais, ao campo da pol&iacute;tica, ao espa&ccedil;o da a&ccedil;&atilde;o e da pluralidade&rdquo; (Assy, 2015, p. 4). Ressaltamos que Eichmann expressa claramente um t&iacute;pico caso de fracasso escolar a longo prazo. Pelo vazio do pensamento, por sua incapacidade de agir criativamente no mundo, por sua frieza &eacute;tica e moral, Eichmann hipostasia o fracasso de uma ontologia da singularidade como temos apresentado. Pela superfluidade de suas decis&otilde;es e pelo acatamento cego da burocracia nazista, Eichmann nos permite perguntar: qual foi a educa&ccedil;&atilde;o recebida por este oficial nazista? Seria poss&iacute;vel impedir o aparecimento de indiv&iacute;duos desse tipo atrav&eacute;s da educa&ccedil;&atilde;o? Qual a dura&ccedil;&atilde;o na vida da educa&ccedil;&atilde;o preparat&oacute;ria? O que resta da vida do esp&iacute;rito cultivada no ensino b&aacute;sico?</p>     <p>Estas perguntas nos possibilitam entender o que &eacute; a temporalidade da educa&ccedil;&atilde;o em Arendt. Crian&ccedil;as e jovens t&ecirc;m um per&iacute;odo preparat&oacute;rio para seu engajamento l&uacute;cido no mundo f&aacute;tico. A dura&ccedil;&atilde;o dessa prepara&ccedil;&atilde;o &eacute; bastante longa na maioria das sociedades. Por isso, a ontologia da singularidade para evitar uma separa&ccedil;&atilde;o abrupta entre prepara&ccedil;&atilde;o e inser&ccedil;&atilde;o pela a&ccedil;&atilde;o no mundo precisa qualificar a dura&ccedil;&atilde;o enquanto fen&ocirc;meno da consci&ecirc;ncia, expressa pelo pensamento e pela a&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Henri Bergson (1859-1941) nos auxilia a entender a consci&ecirc;ncia e sua rela&ccedil;&atilde;o com a dura&ccedil;&atilde;o. Ele enfatiza que a liberdade e os problemas relacionados a ela est&atilde;o ligados a uma considera&ccedil;&atilde;o err&ocirc;nea da concep&ccedil;&atilde;o de tempo, o que nos leva a considerar os estados de consci&ecirc;ncia como homog&ecirc;neos e separados. Para ele, a pr&oacute;pria consci&ecirc;ncia deve ser compreendida como dura&ccedil;&atilde;o. Por isso, crian&ccedil;as e jovens em processo de prepara&ccedil;&atilde;o para o mundo comum exercitaram a liberdade de pensamento antes de serem coagidos ou obrigados a decidir responsavelmente sobre como atuar no mundo. <i>O fato de a escola ser pr&eacute;-pol&iacute;tica e, por isso mesmo, anterior ao mundo que vem posterior ao processo de ensino-aprendizagem indica que os conte&uacute;dos necess&aacute;rios &agrave;s atividades mentais est&atilde;o em estado latente. A dura&ccedil;&atilde;o do aprendido depende, ent&atilde;o, da influ&ecirc;ncia que o tema ensinado teve sobre a consci&ecirc;ncia. </i>&Eacute; a liberdade para agir no mundo. Uma educa&ccedil;&atilde;o preparat&oacute;ria se revela eficiente na revela&ccedil;&atilde;o da criatividade da a&ccedil;&atilde;o no mundo. Nesse sentido, uma base educacional criativa auxilia nas atividades mentais para al&eacute;m da escola. Por isso, para Bergson, nossa realidade &eacute; feita de uma mistura de multiplicidades: uma quantitativa, pr&oacute;pria ao exterior, ao espa&ccedil;o, &agrave; simultaneidade e &agrave; homogeneidade; e outra qualitativa, que &eacute; caracter&iacute;stica de nossa vida psicol&oacute;gica, onde os estados conscientes se sucedem, sem que haja uma separa&ccedil;&atilde;o entre eles e onde a cada instante modificam toda a interioridade (Bergson, 1991).</p>     <p>Assim, entendemos mais uma vez que a a&ccedil;&atilde;o est&aacute; ligada ao nascimento, ao renascimento metaforicamente colocado &ndash; agir infinitas vezes, recome&ccedil;ando pelo pensamento &ndash;, ou seja, defrontados com o mundo precisamos reinventar as motiva&ccedil;&otilde;es de estar no pr&oacute;prio mundo. O mundo n&atilde;o repete o funcionamento determinista da natureza e &eacute; por isso que temos a possibilidade de sermos singulares, agindo com a espontaneidade pr&oacute;pria de quem aprendeu o que &eacute; o mundo: obra de nossas pr&oacute;prias m&atilde;os. Ent&atilde;o: o que somos (e como agimos n&oacute;s) nesse tempo de agora, sen&atilde;o uma revela&ccedil;&atilde;o da nossa vida do esp&iacute;rito?</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Considera&ccedil;&otilde;es finais</b></p>     <p>Educar &eacute; singularizar, singularizar &eacute; educar. Singularizar/educar &eacute; preparar da melhor maneira poss&iacute;vel crian&ccedil;as e jovens rec&eacute;m-chegados &agrave; vida em comum para agir com liberdade no mundo. A ontologia da singularidade guarda estreita rela&ccedil;&atilde;o com a educa&ccedil;&atilde;o. Afetamos pela educa&ccedil;&atilde;o o mundo e isso significa que &ldquo;todos os aspectos da condi&ccedil;&atilde;o humana t&ecirc;m alguma rela&ccedil;&atilde;o com a pol&iacute;tica&rdquo; (Arendt, 2005, p. 15).</p>     <p>A ontologia da singularidade &eacute; poss&iacute;vel porque educamos. &Eacute; na educa&ccedil;&atilde;o, atrav&eacute;s da escola, que podemos promover a renova&ccedil;&atilde;o do mundo em que vivemos. A singularidade &eacute; a mat&eacute;ria-prima da escola. &Eacute; na possibilidade de intera&ccedil;&atilde;o entre adultos e rec&eacute;m-chegados que o singular, o novo, os in&eacute;ditos podem se revelar, trazendo ao mundo comum o confronto com a renova&ccedil;&atilde;o e com as escolhas realizadas e sedimentadas pela tradi&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>A ontologia da singularidade &eacute; pol&iacute;tica, pois evoca a originalidade de todos os rec&eacute;m-chegados. Afirmar que cada crian&ccedil;a nascida no mundo &eacute; original &eacute; um ato de empoderamento radical do nascimento biol&oacute;gico. A escola &eacute; empoderada, simultaneamente: ela &eacute; lugar, o espa&ccedil;o, a esfera onde a prepara&ccedil;&atilde;o imediata para a a&ccedil;&atilde;o livre no mundo &eacute; gestada. Os professores t&ecirc;m grande poder: s&atilde;o eles respons&aacute;veis por apresentar o mundo, dialogar sobre ele, mostrar suas qualidades e defeitos. A partir da autoridade dos professores, a vida do esp&iacute;rito, as atividades mentais podem ser aprimoradas, podem gerar a novidade de novos recome&ccedil;os.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Esclarecemos que uma ontologia da singularidade afirma a natalidade, o nascimento como uma condi&ccedil;&atilde;o humana. Ela se faz no conflito entre o novo e o velho, entre o adulto e as crian&ccedil;as, entre os que usam da viol&ecirc;ncia para o dom&iacute;nio e os que incentivam o poder para criar um mundo comum mais aceit&aacute;vel para a pluralidade humana.</p>     <p>Nos seis pontos para uma ontologia da singularidade destacamos que &eacute; preciso:</p> <ul>       <li><i>acolher</i>, ou seja, a <i>vita activa</i> &eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o humana iniciada com o nascimento e a educa&ccedil;&atilde;o ser&aacute; respons&aacute;vel pela introdu&ccedil;&atilde;o dos rec&eacute;m-chegados singulares &agrave; din&acirc;mica do mundo comum;</li>       <li><i>preparar</i>, ou seja, o papel social da escola &eacute; ser intermedi&aacute;ria entre a vida privada (trabalho) e a vida p&uacute;blica (fabrica&ccedil;&atilde;o e a&ccedil;&atilde;o); promover gradualmente a inser&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as e jovens no mundo, a partir do conhecimento das etapas do desenvolvimento cognitivo e psicol&oacute;gico deles; &eacute; proteger e amparar as crian&ccedil;as e jovens da responsabilidade que os adultos j&aacute; possuem diante das leis, o que os responsabiliza &agrave; gest&atilde;o do espa&ccedil;o p&uacute;blico pela fabrica&ccedil;&atilde;o e a&ccedil;&atilde;o; &eacute; proteger e amparar as crian&ccedil;as e jovens da/na responsabilidade que os adultos j&aacute; possuem diante das leis, obrigando-os &agrave; gest&atilde;o do espa&ccedil;o p&uacute;blico pela fabrica&ccedil;&atilde;o e pela a&ccedil;&atilde;o;</li>       <li><i>incluir</i>, ou seja, a escola deve democratizar-se para espelhar, <i>a priori</i>, a sociedade pol&iacute;tica em seu poder, uma vez que nenhuma crian&ccedil;a ou jovem pode ficar &agrave; margem do transcurso ensino-aprendizagem. Para isso, exige-se dos educadores a criatividade narracional, um di&aacute;logo criativo e qualificado e que o curr&iacute;culo escolar esteja conectado com a tradi&ccedil;&atilde;o. Por isso, incluir &eacute; entender a educa&ccedil;&atilde;o como <i>amor mundi</i>;</li>       <li><i>discursar</i>, ou seja, a escola &eacute; um espa&ccedil;o para a visibilidade dos singulares, para os primeiros ensaios da palavra, do discurso. A escola &eacute; um espa&ccedil;o para a afirma&ccedil;&atilde;o da identidade, para a sedimenta&ccedil;&atilde;o da certeza de que se tem um lugar no mundo, lugar onde todos devem ter voz e vez. Por isso, identificamos que o contr&aacute;rio da experi&ecirc;ncia educativa em Arendt &eacute; o campo de concentra&ccedil;&atilde;o nazista;</li>       <li><i>valorizar</i>, ou seja, n&atilde;o massificar negativamente a educa&ccedil;&atilde;o, tornando os singulares apenas n&uacute;meros e planilhas para os censos escolares. As massas s&atilde;o impotentes, ap&aacute;ticas, indiferentes, ressentidas. N&atilde;o parece ser esse o objetivo do cuidado com o mundo. Por isso, o cuidado da escola para n&atilde;o alimentar os movimentos reacion&aacute;rios, uma vez que &eacute; a indiferen&ccedil;a o ponto de partida para sua coopta&ccedil;&atilde;o pelos movimentos totalit&aacute;rios;</li>       <li><i>preservar</i>, ou seja, a educa&ccedil;&atilde;o tem o compromisso com a forma&ccedil;&atilde;o integral dos singulares para que alcancem a capacidade de agir no mundo com autonomia, criticando as ideologias e o vazio do pensamento. Nesse sentido, Henri Bergson nos auxiliou a entender que a consci&ecirc;ncia tem continuidade, lat&ecirc;ncia, dura&ccedil;&atilde;o: o fato de a escola ser anterior ao mundo indica que os conte&uacute;dos necess&aacute;rios &agrave;s atividades mentais est&atilde;o em estado latente. A dura&ccedil;&atilde;o do aprendido depende, ent&atilde;o, da influ&ecirc;ncia que o tema ensinado teve sobre a consci&ecirc;ncia. A educa&ccedil;&atilde;o tem um antimodelo: Adolf Eichmann.</li>     </ul>     <p>Acreditamos ter apresentado alguns pontos para uma reflex&atilde;o acerca da possibilidade de uma ontologia da singularidade em rela&ccedil;&atilde;o direta com a educa&ccedil;&atilde;o, a fim de aprofundar a discuss&atilde;o que aparece incipiente em alguns estudiosos arendtianos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <p>Adverse, H. (2012). Arendt, a democracia e a desobedi&ecirc;ncia civil. <i>Revista Brasileira de Estudos Pol&iacute;ticos, 105,</i> 409&ndash;434.</p>     <p>Aguiar, O. A. (2003). Pensamento e narra&ccedil;&atilde;o em Hannah Arendt. In E. J. de Moraes &amp; N. Bignotto (Orgs.), <i>Hannah Arendt: Di&aacute;logos, reflex&otilde;es, mem&oacute;rias</i> (pp. 215&ndash;226). Belo Horizonte, Ed. UFMG.</p>     <p>Aguiar, O. A. (2008). Condi&ccedil;&atilde;o humana e educa&ccedil;&atilde;o em Hannah Arendt. <i>Educa&ccedil;&atilde;o e Filosofia</i>, 44, 23&ndash;42.</p>     <!-- ref --><p>Almeida, V. S. (2011). <i>Educa&ccedil;&atilde;o em Hannah Arendt: Entre o mundo deserto e o amor ao mundo</i>. S&atilde;o Paulo: Cortez Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=771268&pid=S0871-9187201800010000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Arendt, H. (1992). <i>Entre o passado e o futuro</i>. S&atilde;o Paulo: Perspectiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=771270&pid=S0871-9187201800010000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Arendt, H<i>. </i>(1993). <i>A vida do esp&iacute;rito: O pensar, o querer, o julgar</i>. Rio de Janeiro: Relume-Dumar&aacute;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=771272&pid=S0871-9187201800010000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->.</p>     <!-- ref --><p>Arendt, H. (2004a). <i>Origens do totalitarismo</i>. S&atilde;o Paulo: Cia. das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=771274&pid=S0871-9187201800010000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Arendt, H. (2004b). <i>Responsabilidade e julgamento</i>. S&atilde;o Paulo: Cia. das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=771276&pid=S0871-9187201800010000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Arendt, H. (2005). <i>A condi&ccedil;&atilde;o humana</i>. Rio de Janeiro: Forense Universit&aacute;ria.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=771278&pid=S0871-9187201800010000600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Arendt, H. (2006). <i>Eichmann em Jerusal&eacute;m. Um relato sobre a banalidade do mal</i>. S&atilde;o Paulo: Cia. das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=771280&pid=S0871-9187201800010000600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Arendt, H<i>. </i>(2011). <i>A vida do esp&iacute;rito. Volume I. Pensar</i><i>. </i>Lisboa: Instituto Piaget.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=771282&pid=S0871-9187201800010000600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Assy, B. (2015). <i>&Eacute;tica, responsabilidade e ju&iacute;zo em Hannah Arendt</i>. S&atilde;o Paulo: Perspectiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=771284&pid=S0871-9187201800010000600012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bergson, H. (1991). <i>Essai sur les donn&eacute;es imm&eacute;diates de la conscience</i><i>.</i> Paris: PUF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=771286&pid=S0871-9187201800010000600013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Cavarero, A., &amp; Butler, J. (2007). Condi&ccedil;&atilde;o humana contra &ldquo;natureza&rdquo;. <i>Estudos Feministas, 15, </i>647&ndash;662.</p>     <p>Correia, A. (2010). 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Rio de Janeiro: Objetiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=771300&pid=S0871-9187201800010000600021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Rodrigues, L. A. R. (2008). A dimens&atilde;o pol&iacute;tica da escola em Gramsci e Hannah Arendt: Uma tentativa de articula&ccedil;&atilde;o com a democracia. <i>Trabalho &amp; Educa&ccedil;&atilde;o, 2,</i> 13&ndash;30.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Schio, S. M. (2006). <i>Hannah Arendt: Hist&oacute;ria e liberdade (da a&ccedil;&atilde;o &agrave; reflex&atilde;o)</i>. Caxias do Sul: Educs.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=771303&pid=S0871-9187201800010000600023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Seixas, R. L. (2009). A&ccedil;&atilde;o plural, singularidade e poder em Hannah Arendt. <i>Intuitio, 1,</i> 201&ndash;216.</p>     <p>Vicente, J. J. N. B. (2010). Natureza humana e totalitarismo. <i>Griot &ndash; Revista de Filosofia, 1,</i> 47&ndash;56.</p>     <p>&nbsp;</p> <a href="#topc0">Endereço para Correspondência</a><a name="c0"></a>     <p>Toda a correspondência relativa a este artigo deve ser enviada para: Danilo Arnaldo Briskievicz, Rua dos Bandolins, 560/102, Cj. Califórnia, 30850-470 Belo Horizonte, MG, Brasil. Email: <a href="mailto:doserro@hotmail.com">doserro@hotmail.com</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Recebido em maio 2017</p>     <p>Aceite para publica&ccedil;&atilde;o em fevereiro 2018</p>      ]]></body><back>
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