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<institution><![CDATA[,Universidade de Aveiro Departamento de Quimica ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[   <!--     <p>&nbsp;</p>     <p>doi: 10.4152/pea.201506317</p> -->      <p><b>Um Quimico sui generis</b></p>      <p> <b>Jo&atilde;o Evangelista Sim&atilde;o</b><sup><i>a</i>,<a href="#0">*</a></sup> </p>      <p><i> Departamento de Quimica, Universidade de Aveiro, Aveiro, Portugal.</i></p>       <p>&nbsp;</p>     <p><b>Abstract</b></p>      <p>Communication by Prof. Dr. Jo&atilde;o Evangelista Sim&atilde;o when receiving the SPE Award  for his outstanding scientific career and for his contribution to the Portuguese  Electrochemical Society at the XIX Meeting of the Portuguese Electrochemical Society  and XVI Iberic Meeting of Electrochemistry.</p>       <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Sum&aacute;rio</b></p>      <p>Interven&ccedil;&atilde;o do Senhor Professor Doutor Jo&atilde;o Evangelista Sim&atilde;o ao receber o Pr&eacute;mio  da SPE pela sua not&aacute;vel carreira cient&iacute;fica e pela sua contribui&ccedil;&atilde;o para a Sociedade  Portuguesa de Electroqu&iacute;mica, por ocasi&atilde;o do XIX Encontro da Sociedade Portuguesa  de Eletroqu&iacute;mica e XVI Encontro Ib&eacute;rico de Eletroqu&iacute;mica.</p>       <p>&nbsp;</p>      <p>Foi no ano lectivo de 1963/64 que iniciei os trabalhos de Doutoramento no  Departamento de Qu&iacute;mica F&iacute;sica da Universidade de Bonn, cidade que ent&atilde;o era  a capital da Alemanha Ocidental. Foi meu supervisor o Prof. Mark von  Stackelberg, grande especialista em Polarografia. Um dia, numa das muitas  reuni&otilde;es de aprecia&ccedil;&atilde;o dos resultados que eu ia obtendo, aquele professor  aconselhou-me a leitura de um livro que ele achava muito interessante e  significativo: ''Der Untergang des Abendlandes'' (O Decl&iacute;nio do Ocidente).</p>      <p>Nessa altura estava a Europa toda ela activamente empenhada em recuperar dos  efeitos da II Guerra Mundial. Americanos e europeus davam as m&atilde;os num  ingente esfor&ccedil;o para reerguer as economias da Alemanha e dos outros pa&iacute;ses que  tinham sofrido os efeitos devastadores dessa horr&iacute;vel contenda. Era a afirma&ccedil;&atilde;o  de um Ocidente que se considerava ser o centro do mundo. No entanto, j&aacute; se  preanunciava o princ&iacute;pio do fim desse estatuto. Viria depois a Uni&atilde;o Europeia e,  a seguir, a sociedade mundializada na qual hoje estamos inseridos. Mas j&aacute;  naquela altura o meu supervisor tinha a percep&ccedil;&atilde;o de que a importÃ¢ncia da  Europa no espa&ccedil;o global estaria em decl&iacute;nio&hellip; </p>      <p>*</p>      <p>A personagem, que a Sociedade Portuguesa de Electroqu&iacute;mica resolveu  homenagear nesta sess&atilde;o, &eacute; uma figura que tem algo de singular. Imaginem um  garoto de aldeia, filho de gente humilde, que acaba de concluir a Quarta Classe  do Ensino Prim&aacute;rio Elementar e gostaria de continuar a estudar. Ele era o terceiro  de cinco irm&atilde;os, mas nenhum deles iria prosseguir os estudos porque a fam&iacute;lia  n&atilde;o reunia as condi&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas indispens&aacute;veis para tanto. Estava-se em  1940, com a depauperada economia portuguesa ainda a recuperar daquele  enorme descalabro financeiro da Primeira Rep&uacute;blica, que dera origem &agrave;  revolu&ccedil;&atilde;o de 28 de Maio de 1926. Era, mutatis mutandis, uma situa&ccedil;&atilde;o  formalmente parecida com a que hoje estamos a viver.</p>      <p>Ainda se n&atilde;o tinham esbatido em Portugal os efeitos da guerra de Espanha e j&aacute;  come&ccedil;ava a II Grande Guerra, esse horr&iacute;vel conflito que haveria de provocar um  saldo negro de 50 milh&otilde;es de v&iacute;timas. Quando, em 1940, acabei a 4<sup>a</sup> Classe, j&aacute;  em plena Grande Guerra, as dr&aacute;sticas limita&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas dela decorrentes  tornavam economicamente incomport&aacute;vel continuarmos os estudos, pois isso s&oacute;  seria poss&iacute;vel indo para um col&eacute;gio na sede do concelho. Mas, como eu dizia que  queria ir para o Semin&aacute;rio, o conselho de fam&iacute;lia anuiu e l&aacute; fui.  Onze anos depois eu era padre. Estava-se ent&atilde;o no in&iacute;cio dos anos 50 e era j&aacute;  bastante evidente o forte dinamismo do progresso cient&iacute;fico, que, vindo desde os  finais do s&eacute;culo XIX, se expandia a passos largos, exercendo uma influ&ecirc;ncia  decisiva sobre a moderniza&ccedil;&atilde;o desta nossa sociedade francamente a caminho de  se tornar uma aldeia global. Novos recursos econ&oacute;micos, mais cultura cient&iacute;fica.  A Igreja n&atilde;o podia deixar de reagir aos ''desafios'' que a cultura cient&iacute;fica lhe  colocava. Da&iacute; a decis&atilde;o de preparar, para os seus semin&aacute;rios, professores que  fossem licenciados nos dom&iacute;nios cient&iacute;ficos em desenvolvimento. Os Semin&aacute;rios  diocesanos fizeram-no e as Ordens Religiosas tamb&eacute;m. O que se pretendia era  que os padres estivessem ao corrente do que ia acontecendo nestas &aacute;reas  cient&iacute;ficas, se familiarizassem com o mundo das Ci&ecirc;ncias, para estarem em  condi&ccedil;&otilde;es de poderem compaginar a linguagem cient&iacute;fica com a linguagem  teol&oacute;gica/b&iacute;blica. Isto porque Ci&ecirc;ncias e Religi&atilde;o, sendo campos diferentes, n&atilde;o  s&atilde;o exclusivos nem incompat&iacute;veis.</p>      <p>A prop&oacute;sito disto devo dizer que, at&eacute; hoje, nunca encontrei a&iacute; qualquer  dificuldade ou contradi&ccedil;&atilde;o. Cada uma em seu campo, Ci&ecirc;ncia e Religi&atilde;o est&atilde;o  ambas ao servi&ccedil;o das pessoas, das comunidades, em suma, da humanidade.  Foi assim neste contexto que, por ordem do meu Bispo, eu me matriculei na  Faculdade de Ci&ecirc;ncias da Universidade de Coimbra, na Licenciatura em Ci&ecirc;ncias  Fisico-Qu&iacute;micas.</p>      <p>Para poder fazer essa matr&iacute;cula foram-me exigidos os exames do V e do VII anos  do Liceu. O que fiz no Liceu Normal D. Jo&atilde;o III, em Coimbra.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Conclu&iacute;da a Licenciatura, iniciei a minha carreira acad&eacute;mica no Departamento de  Qu&iacute;mica da Universidade de Coimbra, como Segundo Assistente. Seguiu-se o  Doutoramento no Departamento de Qu&iacute;mica-F&iacute;sica da Universidade de Bonn,  Alemanha, o doutoramento na Universidade de Coimbra, a contrata&ccedil;&atilde;o como  Professor Auxiliar, como Professor Extraordin&aacute;rio e, finalmente, como Professor  Catedr&aacute;tico.</p>      <p>Em termos de Universidades em que exerci a minha actividade, registo, por  ordem cronol&oacute;gica: Coimbra, Bonn, Louren&ccedil;o Marques, Coimbra, Minho e,  finalmente, Aveiro.</p>      <p>E no que concerne ao dom&iacute;nio cient&iacute;fico de investiga&ccedil;&atilde;o, saliento:  Electroqu&iacute;mica, Polarografia, Voltametria, Cin&eacute;tica de reac&ccedil;&otilde;es de interface.  A minha actividade como padre cessou oficialmente em 1972, quando eu pedi e  me foi concedida autoriza&ccedil;&atilde;o para casar. No entanto, a minha f&eacute; n&atilde;o mudou,  antes foi sendo actualizada e refor&ccedil;ada a sua express&atilde;o face ao constante  desenvolvimento da investiga&ccedil;&atilde;o e dos conhecimentos cient&iacute;ficos.  Efectivamente, segundo a minha perspectiva, a f&eacute; &eacute; chamada a iluminar o porqu&ecirc;  e o sentido da minha exist&ecirc;ncia: eu n&atilde;o pedi para vir, mas estou c&aacute;. Porqu&ecirc;?  Sobretudo, com que objectivo?</p>      <p>Do ponto de vista biol&oacute;gico, a gente sabe: nasce,  cresce, luta pela sobreviv&ecirc;ncia, procria e morre. N&atilde;o faz isso sozinho, mas em  sociedade. Ali&aacute;s, n&oacute;s j&aacute; nascemos como membros de uma comunidade, da qual  somos parte integrante. Para podermos sobreviver e progredir em sociedade,  precisamos todos uns dos outros. E para isso cada um deve contribuir com o seu  quantum pessoal de saber, de trabalho, de progresso cient&iacute;fico, de solidariedade.  Naturalmente todos n&oacute;s, cada um por sua vez, vamos um dia parar no tempo e,  em consequ&ecirc;ncia disso, iremos ficar desactualizados. Ser&aacute; que vamos deixar de  entender o mundo, como pensam os jovens j&aacute; a respeito dos seus pais?</p>      <p>Aqui eu gostava de reflectir um pouco. Se a sociedade humana, como  comunidade viva que &eacute;, est&aacute; em constante devir, isso acontece como  consequ&ecirc;ncia do somat&oacute;rio de todas as pequenas modifica&ccedil;&otilde;es - contributos  pessoais, positivos e negativos -que cada indiv&iacute;duo, onde quer que exer&ccedil;a a sua  actividade, introduz na comunidade humana, com os seus novos conhecimentos,  os seus erros, os seus progressos e os seus retrocessos. Espectaculares, uns,  dram&aacute;ticos, outros, normais, a maior parte. Avan&ccedil;os e recuos, que, no seu  conjunto, acabam por apresentar um saldo universal positivo. A cada um de n&oacute;s  se pede trabalho, engenho e arte. S&oacute; um cataclismo mundial, eventualmente  poss&iacute;vel como consequ&ecirc;ncia de agress&otilde;es sistem&aacute;ticas ou de algum acidente  c&oacute;smico, poder&aacute; fazer recuar a humanidade, eventualmente destruindo-a. Voltar-se-ia  ent&atilde;o ao in&iacute;cio de um novo sistema.</p>      <p>Quando uma sociedade perde os valores da solidariedade, da justi&ccedil;a, da  entreajuda, ou da m&uacute;tua compreens&atilde;o, ela definha e morre. Da hist&oacute;ria da  humanidade conhecemos exemplos de civiliza&ccedil;&otilde;es florescentes que  desapareceram. Mas a hist&oacute;ria tamb&eacute;m nos diz que atr&aacute;s de cada civiliza&ccedil;&atilde;o que  definha, outra surge e se afirma, evidenciando j&aacute; especificidades e caracter&iacute;sticas  diferentes. Eventualmente num plano mais elevado, pois ela assenta sobre as  conquistas da anterior.</p>      <p>*</p>      <p>Num ambiente, como este em que nos encontramos aqui, ser&aacute; muito pertinente  colocar a seguinte quest&atilde;o: o que &eacute; que a Electroqu&iacute;mica, ou a Sociedade  Portuguesa de Electroqu&iacute;mica t&ecirc;m a ver com isto?</p>      <p>A resposta s&oacute; pode ser: t&ecirc;m algo, sen&atilde;o mesmo tudo, a ver, pois nenhum ramo  cient&iacute;fico se pode desvincular do destino da humanidade e, em &uacute;ltima an&aacute;lise, do  destino deste mundo onde nos &eacute; dado viver e do que nele circula.</p>      <p>Efectivamente, porque a Humanidade &eacute; constitu&iacute;da por seres soci&aacute;veis e  interdependentes, em que &eacute; permanente o contacto dos indiv&iacute;duos entre si, est&aacute;  criada uma situa&ccedil;&atilde;o favor&aacute;vel &agrave; transmiss&atilde;o dos conhecimentos e dos valores de  umas gera&ccedil;&otilde;es para as outras. Apesar dos muitos ego&iacute;smos e de eventuais  epis&oacute;dios de ''salve-se quem puder'', h&aacute; mem&oacute;rias e conhecimentos que se  transmitem de gera&ccedil;&atilde;o em gera&ccedil;&atilde;o, de forma que cada nova gera&ccedil;&atilde;o j&aacute; vai partir  de um n&iacute;vel mais elevado do que era o dos seus pais.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>*</p>      <p>Quando, aos setenta anos, me jubilei e, consequentemente, deixei de constar dos  contactos com a Universidade, senti que se me tinha fechado um ciclo na minha  vida.</p>      <p>Ent&atilde;o, acabado este ciclo universit&aacute;rio, voltou o primeiro, mas doutra maneira,  ou seja, agora j&aacute; n&atilde;o como cl&eacute;rigo. No entanto, o meu interesse pelas quest&otilde;es de  f&eacute; e de religi&atilde;o, esse persiste. E &eacute; agora num Movimento Crist&atilde;o de Leigos que  eu vivo a minha f&eacute;. Esta diz-me que nada do que nos acontece nesta vida ocorre  por acaso, mas que tudo faz parte integrante do nosso trajecto por este mundo,  percurso este que teve um princ&iacute;pio, em que eu n&atilde;o fui respons&aacute;vel, e tem um  objectivo, que eu sou chamado a concretizar como membro desta nossa  comunidade humana: o exerc&iacute;cio da entreajuda e da solidariedade para com todos  os meus concidad&atilde;os. Na Universidade e fora dela.</p>      <p>*</p>      <p>Tenho saudades dos meus tempos de estudante em Coimbra. Conservo ainda na  minha mem&oacute;ria as figuras de professores not&aacute;veis daquele mundo das ci&ecirc;ncias  exactas com quem contactei como aluno. Recordo personalidades eminentes  como Manuel Marques Esparteiro, Diogo Pacheco de Amorim, nas Matem&aacute;ticas,  Jo&atilde;o Manuel Cot&ecirc;lo Neiva, na Mineralogia, Almeida Santos e Vaz de Sampaio,  na F&iacute;sica, Couceiro da Costa, Andrade de Gouveia, Pinto Coelho e Sim&otilde;es  Redinha, na Qu&iacute;mica. O ambiente estudantil era bom e senti que me influenciou  positivamente.</p>      <p>Durante o tempo de Assistente na Universidade de Coimbra, fui o delegado para  Coimbra da Sociedade Portuguesa de F&iacute;sica e Qu&iacute;mica.  Depois, na Universidade de Louren&ccedil;o Marques, fui o editor da ''Revista de  F&iacute;sica, Qu&iacute;mica e Engenharia'', da Universidade daquela cidade.  Regressado ao continente (como ent&atilde;o se dizia), procurei estabelecer um  contacto mais pr&oacute;ximo com os grupos que j&aacute; trabalhavam nesta &aacute;rea da  Electroqu&iacute;mica, nas universidades de Lisboa, Porto e Coimbra e nas  universidades novas. Rapidamente os electroqu&iacute;micos portugueses, afirmando-se  j&aacute; como grupos cient&iacute;ficos espec&iacute;ficos, promoviam com regularidade a realiza&ccedil;&atilde;o  de encontros para apresenta&ccedil;&atilde;o e discuss&atilde;o dos respectivos trabalhos. E foi em  1982, durante a III Reuni&atilde;o Nacional de Electroqu&iacute;mica, convocada para a  Academia das Ci&ecirc;ncias de Lisboa, que se decidiu submeter &agrave; aprova&ccedil;&atilde;o pela  assembleia uma proposta de cria&ccedil;&atilde;o da Sociedade Portuguesa de Electroqu&iacute;mica  e da Revista Portugaliae Electrochimica Acta. A proposta foi apresentada pelo  Prof. Armando Pombeiro e colheu o apoio de todos os presentes.</p>      <p>O primeiro n&uacute;mero da PEA saiu a lume em 1983 como publica&ccedil;&atilde;o da Academia  das Ci&ecirc;ncias de Lisboa, tendo como editor provis&oacute;rio o Prof. A. Pombeiro.</p>      <p>Mas foi em 1983, no decurso da IV Reuni&atilde;o Nacional de Electroqu&iacute;mica,  realizada em Braga, que a funda&ccedil;&atilde;o da Sociedade Portuguesa de Electroqu&iacute;mica  foi ratificada pelos participantes. Fiquei encarregado de fazer as necess&aacute;rias  dilig&ecirc;ncias para a oficializa&ccedil;&atilde;o da PEA e para a editar. Quando, para esse efeito,  me dirigi &agrave; reparti&ccedil;&atilde;o oficial competente para o registo, o primeiro documento  que me pediram foi uma c&oacute;pia do meu Registo Criminal. Depois foi preciso  assegurar tipografia e dinheiro. Felizmente tinha havido em Braga um Encontro  de Electroqu&iacute;mica que permitiu obter dinheiro para a editar e expedir. Mas n&atilde;o  foi f&aacute;cil levar a bom porto uma iniciativa desta natureza. Felizmente ela teve bom  acolhimento, mesmo al&eacute;m fronteiras. No entanto, manda a justi&ccedil;a dizer que n&atilde;o &eacute;  s&oacute;, nem sequer principalmente, a mim que se deve o bom trajecto da PEA, mas  tamb&eacute;m aos que nela pegaram a seguir, aos colaboradores, aos amigos, aos  s&oacute;cios da SPE. Fico sempre muito feliz quando me falam do apre&ccedil;o que a PEA  vai registando. Est&atilde;o assim de parab&eacute;ns os electroqu&iacute;micos portugueses.</p>      <p>*</p>      <p>Nesta minha idade de fim de ciclo pessoal, &eacute; inevit&aacute;vel abordar a quest&atilde;o do  sentido da vida. Esta nossa vida eu entendo-a como um projecto, um  empreendimento que teve um princ&iacute;pio e vai ter um fim c&aacute; neste mundo. &eacute; como  uma estrela cadente que, por instantes, sulca o horizonte e desaparece. Viemos ao  mundo sem o termos pedido e dele sairemos do mesmo modo, e tamb&eacute;m  sozinhos. Mas &eacute; importante termos a consci&ecirc;ncia de que, ao chegarmos c&aacute;,  apanh&aacute;mos um comboio j&aacute; em andamento. Fomos ajudados a crescer e a viver  em comunidade, estud&aacute;mos, aprendemos, investig&aacute;mos e ensin&aacute;mos. Novos  conhecimentos e novas capacidades foram adquiridos e partilhados, a  comunidade ficou mais rica, houve progresso. N&atilde;o foi em v&atilde;o o nosso  contributo.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>*</p>      <p>Entretanto os anos foram correndo e esta minha ''m&aacute;quina'' come&ccedil;ou a acusar o  desgaste do tempo e do esfor&ccedil;o. Lembro-me bem de que, naquele &uacute;ltimo ano em  que dei aulas e me aposentei, percebi que a minha mem&oacute;ria j&aacute; n&atilde;o respondia t&atilde;o  lesto quanto costumava fazer. Sinal de que, de facto, era a altura de deixar&hellip;</p>      <p>Por outro lado, problemas de doen&ccedil;a de minha esposa exigiam a minha presen&ccedil;a  junto dela. Da&iacute; tamb&eacute;m o facto de eu ter deixado de aparecer.  Dependendo das condi&ccedil;&otilde;es psicol&oacute;gicas de cada indiv&iacute;duo, &eacute; num cen&aacute;rio assim  criado que ele volta a encontrar-se outra vez s&oacute;. Como quando nasceu.  Ao atingirmos a idade em que me encontro, constatamos que, por um lado,  escasseiam as for&ccedil;as para lutar e, por outro, esquecemos rapidamente aquilo que  nos dizem e o que nos vai acontecendo. Mas, em contrapartida, avivam-se na  nossa mem&oacute;ria os tempos da nossa infÃ¢ncia. E &eacute; interessante notar que, do  mesmo passo que esquecemos o que nos disseram h&aacute; pouco, temos agora bem  presentes na mem&oacute;ria muitos epis&oacute;dios da nossa infÃ¢ncia h&aacute; longo tempo  esquecidos, coisas que nos aconteceram e o que a esse prop&oacute;sito ent&atilde;o nos  disseram. E, porque os temos bem presentes, n&oacute;s, os velhos, contamo-lo aos mais  novos sempre que isso venha a prop&oacute;sito de qualquer dito ou circunstÃ¢ncia. &eacute; um  fen&oacute;meno interessante que nos vem chamar a aten&ccedil;&atilde;o para a unidade que somos  desde o princ&iacute;pio at&eacute; ao fim. O nosso trajecto de vida conclui-se com o retorno &agrave;  crian&ccedil;a que fomos. Para que nada fique para tr&aacute;s.</p>      <p>Ali&aacute;s, esta &uacute;ltima fase da vida de cada um tem tamb&eacute;m um objectivo socialmente  muito importante para a comunidade, que &eacute; o de dar a conhecer aos que nos  sucedem as tradi&ccedil;&otilde;es e os valores que n&oacute;s pr&oacute;prios recebemos daqueles que nos  precederam. Valores e tradi&ccedil;&otilde;es esses que tamb&eacute;m s&atilde;o transmitidos por via oral.  Ora v&atilde;o ser os av&oacute;s quem vai garantir essa transmiss&atilde;o aos netos. Como eles  agora t&ecirc;m bem presente o que os av&oacute;s deles lhes contavam sempre que isso vinha  a prop&oacute;sito de qualquer circunstÃ¢ncia, tamb&eacute;m eles o fazem agora com os netos.  E contam-no in&uacute;meras vezes porque, uma vez contado, logo se esquecem de que  o fizeram. &eacute; que, &agrave; medida que a mem&oacute;ria recente vai enfraquecendo, mais se  aviva a mem&oacute;ria remota. Trata-se, ao fim e ao cabo, de preservar uma riqueza  cultural inestim&aacute;vel que, tamb&eacute;m por esta via, vai sendo transmitida de gera&ccedil;&atilde;o  em gera&ccedil;&atilde;o. Ora &eacute; tamb&eacute;m assim que se vai consolidando a identidade de um  povo.</p>      <p>*</p>      <p>Como &eacute; que um electroqu&iacute;mico chega a esta filosofia? Do mesmo modo que  qualquer cientista faz as suas experi&ecirc;ncias, comunica o que observou e se alegra  quando foi capaz de apresentar algo de novo, ainda que fique sem saber qual o  impacto que isso possa vir a ter. Mas ter&aacute;, pelo menos, a esperan&ccedil;a de que essa  sua nova experi&ecirc;ncia possa chamar a aten&ccedil;&atilde;o de outros para algum novo aspecto  eventualmente &uacute;til para quem investiga - at&eacute;, quando mais n&atilde;o seja, para dizer:  ''por a&iacute;, n&atilde;o''.</p>      <p>Finalmente, gostaria de exprimir que &eacute; com muita naturalidade que aceito a  decrepitude como uma situa&ccedil;&atilde;o associada &agrave; &uacute;ltima etapa da minha vida. Tamb&eacute;m  na natureza h&aacute; uma Primavera que desponta em flores e rebentos novos, seguida  de um Ver&atilde;o de crescimento de frutos, vindo depois um Outono de colheita  desses frutos, e, finalmente, um Inverno de descanso e de prepara&ccedil;&atilde;o dum novo  ciclo. Ciclo esse que, sendo formalmente semelhante ao anterior, ser&aacute; todavia  sempre diferente. Como tudo na vida.</p>      <p>*</p>      <p>Uma vez chegados aqui, gostaria de salientar que estou muito grato &agrave; SPE por se  ter lembrado de mim nesta fase derradeira da minha vida, fazendo-me sentir, com  este seu gesto, que ter&aacute; valido a pena ter sido electroqu&iacute;mico.  Para todos v&oacute;s, um caloroso Bem Hajam! E, j&aacute; que &eacute; um padre que vos fala:  ''Que Deus vos aben&ccedil;&otilde;e'' !</p>      <p>Jo&atilde;o Sim&atilde;o</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a name=0></a><sup><a href="#top">*</a></sup>Corresponding author. E-mail address: <a href="mailto:jsimao@netvisao.pt">jsimao@netvisao.pt</a></p>      <p>Received 28 October 2014</p>      <p><a href="http://www.peacta.org" target="_blank">www.peacta.org</a> </p>        ]]></body>
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