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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Pâncreas Divisum no Lado Oculto da Pancreatite Aguda Recorrente: um Desafio Diagnóstico e Terapêutico]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental Serviço de Gastrenterologia ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Pancreas divisum is the most common pancreatic anatomic variant, with a minority of patients becoming symptomatic. The underlying mechanism in these cases is thought to be a relative outflow obstruction at the minor papilla, representing a diagnostic and therapeutic challenge. The authors present the case of a 61 year-old female, with recurrent acute pancreatitis, with initial inconclusive work-up. Endoscopic ultrasonography and MRCP findings suggested pancreas divisum, which was confirmed on ERCP. Endoscopic minor papillotomy was performed and a pancreatic stent was placed in Santorini’s duct, with clinical success on long-term. State-of-the-art on pancreas divisum multimodality diagnosis is reviewed and current perspectives on therapeutic management of these patients are discussed.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Pâncreas Divisum no Lado Oculto da Pancreatite Aguda Recorrente: um Desafio Diagnóstico e Terapêutico</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Miguel Bispo, Pedro Barreiro, Tiago Bana, David Serra, Pedro Marques, Isabel    Seves, Gilberto Couto, Paula Peixe, Leopoldo Matos</b></p>     <p>Serviço de Gastrenterologia, Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental</p>      <p><a name="top0"></a><a href="#0">Correspondência</a></p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Resumo</b></p>      <p>O pâncreas <i>divisum </i>constitui a variante anatómica do pâncreas mais frequente,    manifestando-se clinicamente numa minoria dos doentes. Considera-se que o mecanismo    subjacente nestes casos consiste na obstrução relativa ao fluxo através da papila    minor, constituindo um desafio diagnóstico e terapêutico. Os autores descrevem    o caso clínico de uma mulher de 61 anos, com episódios recorrentes de pancreatite    aguda, cuja investigação etiológica inicial foi inconclusiva. O diagnóstico    de pâncreas <i>divisum </i>foi sugerido por ecoendoscopia e CPRM e confirmado    por CPRE. Foi realizada esfincterotomia endoscópica da papila minor e colocada    prótese pancreática no ducto de Santorini, com eficácia clínica a longo-prazo.    É revisto o papel actual de diferentes modalidades (CPRM, ecoendoscopia e CPRE)    neste diagnóstico e são discutidas as abordagens terapêuticas disponíveis.</p>      <p>&nbsp;</p>     <p><b>Pancreas Divisum Lying Beneath Recurrent Acute Pancreatitis: a Diagnostic    and Therapeutic Challenge</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Abstract</b></p>      <p>Pancreas divisum is the most common pancreatic anatomic variant, with a minority    of patients becoming symptomatic. The underlying mechanism in these cases is    thought to be a relative outflow obstruction at the minor papilla, representing    a diagnostic and therapeutic challenge. The authors present the case of a 61    year-old female, with recurrent acute pancreatitis, with initial inconclusive    work-up. Endoscopic ultrasonography and MRCP findings suggested pancreas divisum,    which was confirmed on ERCP. Endoscopic minor papillotomy was performed and    a pancreatic stent was placed in Santorini’s duct, with clinical success on    long-term. State-of-the-art on pancreas divisum multimodality diagnosis is reviewed    and current perspectives on therapeutic management of these patients are discussed.</p>      <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>INTRODUÇÃO</b></p>      <p>O pâncreas <i>divisum </i>constitui a variante anatómica do pâncreas mais frequente,    com uma prevalência de 4,0 a 14,0% em séries de autópsias<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>.    Resulta da ausência de fusão do sistema de ductos pancreáticos dorsal e ventral    durante o segundo mês de gestação<sup><a href="#1">1</a></sup>, pelo que grande    parte da secreção exócrina pancreática é drenada para o duodeno pelo ducto pancreático    dorsal (de Santorini) através da papila minor.</p>      <p>A relação etiológica entre pâncreas <i>divisum </i>e pancreatite tem sido nas    últimas décadas objecto de controvérsia<a name="top2"></a><sup><a href="#2">2</a><a name="top3"></a>,<a href="#3">3</a></sup>.    Dos argumentos que contrariam esta associação, salientam-se a raridade do aparecimento    de sintomas nos doentes com pâncreas <i>divisum </i>(&lt;5,0%)<sup><a href="#2">2</a></sup>    e a prevalência equiparável de pâncreas <i>divisum </i>em doentes com e sem    pancreatite em séries iniciais<sup><a href="#2">2</a></sup>. No entanto, evidências    mais recentes favorecem esta associação num subgrupo de doentes, destacando-se    a maior prevalência de pâncreas divisum em doentes com pancreatite idiopática    nas séries de maior dimensão<sup><a name="top4"></a><a href="#4">4</a></sup>,    a evidência de obstrução relativa ao fluxo através da papila minor (por métodos    de imagem com estimulação por secretina) em doentes com pâncreas <i>divisum    </i>e pancreatite<a name="top5"></a><sup><a href="#5">5</a></sup>, a melhoria    clínica verificada após descompressão (endoscópica ou cirúrgica) do ducto dorsal    em várias séries<sup><a href="#4">4</a>,<a name="top6"></a><a href="#6">6-8</a></sup>    e a evidência histológica de inflamação confinada ao sistema ductal dorsal em    peças cirúrgicas<sup><a name="top7"></a><a href="#7">7</a></sup>. Uma vez que    o mecanismo subjacente nos doentes sintomáticos consiste numa obstrução relativa    ao fluxo de drenagem dorsal através da papila minor, alguns autores preferem    designar esta condição de síndrome do ducto dorsal dominante<sup><a name="top9"></a><a href="#9">9</a></sup>.</p>      <p>Para além do diagnóstico definitivo de pâncreas <i>divisum </i>ser difícil,    não sendo habitualmente identificado na ecografia e tomografia computadorizada    (TC) convencionais e implicando a canulação da papila minor na colangiopancreatografia    retrógrada endoscópica (CPRE), constitui também um desafio terapêutico para    o gastrenterologista, sendo tecnicamente exigente e associando-se a uma taxa    de complicações significativa e, por vezes, recidiva dos sintomas<sup><a href="#4">4</a>,<a href="#6">6-8</a></sup>.</p>      <p><b>&nbsp;</b></p>      <p><b>CASO CLÍNICO</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Uma mulher de 61 anos, raça caucasiana, foi referenciada à consulta de Gastrenterologia, na sequência de 4 episódios de pancreatite aguda num período de 7 meses. O primeiro episódio não apresentou critérios de gravidade e foi associado a litíase biliar, tendo sido realizada CPRE, com esfincterotomia endoscópica (ETE) e extracção de cálculos do ducto colédoco. Não foi nesse exame realizada pancreatografia, tendo sido a doente submetida a colecistectomia por via laparoscópica duas semanas após o episódio. Seguiram-se 3 internamentos por pancreatite aguda com intervalos de cerca de 8 semanas, cuja investigação etiológica inicial não foi esclarecedora. Estes episódios de pancreatite aguda foram auto-limitados, sem critérios de gravidade clínico-laboratoriais ou na TC, salientando-se a ausência de elevação das aminotransferases ou dos parâmetros de colestase durante os episódios e a inexistência de alterações no lipidograma. Após cada episódio, constatava-se rápida melhoria clínica mediante suspensão da dieta oral e analgesia, sendo os episódios de pancreatite intercalados por períodos assintomáticos. A doente negava história de consumo de álcool, ingestão de medicamentos ou drogas, ou história familiar de doença pancreática. Os seus antecedentes pessoais eram irrelevantes, não apresentando internamentos ou cirurgias no passado. Negava ainda a ocorrência de dor abdominal, alterações do trânsito intestinal ou queixas dispépticas entre os episódios de pancreatite. Não se registaram alterações no exame objectivo. Apresentava 3 ecografias e duas TCs abdominais (realizadas durante os internamentos por pancreatite), sem alterações relevantes (apenas com edema do pâncreas). Tinha realizado ainda CPRE (repetida na sequência do segundo episódio de pancreatite), sem evidência de litíase residual do colédoco, e CPRM (realizada após tentativa sem sucesso de pancreatografia endoscópica através da papila major), que apresentava múltiplos artefactos, tendo sido considerada inconclusiva.</p>      <p>Para avaliação do parênquima pancreático, região ampular e via biliar principal,    foi realizada ecoendoscopia. Esta não evidenciou alterações sugestivas de pancreatite    crónica ou coledocolitíase residual. Na ecoendoscopia a partir do bulbo duodenal    (<b>Fig. 1</b>), salientava-se a ausência de <i>“stack sign”</i>, não sendo    portanto possível a visualização do ducto pancreático a percorrer a cabeça pancreática    paralelamente à via biliar principal. Dada a associação estabelecida entre a    ausência de <i>stack sign </i>e pâncreas divisum numa pequena série prospectiva<sup><a name="top10"></a><a href="#10">10</a></sup>,    valorizou-se esta hipótese diagnóstica. Foi realizada CPRM (<b>Fig. 2</b>),    em que se observou ectasia incipiente do ducto pancreático dorsal (de Santorini)    até à transição do istmo para a cabeça pancreática, onde deixava de ser perceptível    (terminação não visualizada) e ducto ventral (de Wirsung) vestigial a drenar    para a papila major. Dado as alterações na CPRM serem globalmente sugestivas    de pâncreas divisum, foi realizada CPRE para confirmação diagnóstica e com intuito    terapêutico. Após tentativa não conseguida de pancreatografia através da papila    major, procedeu-se a canulação da papila minor com esficterótomo <i>Erlangen-type    </i>(Tapertome, Boston Scientific) e à injeccção de contraste radiopaco, observando-se    o ducto dorsal dominante (<b>Fig. 3a</b>): pacreatografia diagnóstica de pâncreas    divisum. Posteriormente, procedeu-se a ETE da papila minor (fio diatérmico às    11 horas), com cerca de 6 mm e colocação de prótese plástica 5F – 7 cm no ducto    dorsal (<b>Fig. 3b</b>). Não se registaram complicações durante e no período    de observação após o procedimento, tendo a doente alta após 24 horas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><img src="/img/revistas/ge/v17n1/17n1a04f1.jpg" width="442" height="308"></p>     
<p>Fig.1. Ecoendoscopia radial &#8211; Bulbo duodenal. Par&ecirc;nquima pancre&aacute;tico    sem altera&ccedil;&otilde;es. Visualiza&ccedil;&atilde;o da veia porta (PV),    via biliar principal (CBD &#8211; Seta) e art&eacute;ria hep&aacute;tica (HA).    Salienta-se a aus&ecirc;ncia de stack sign, n&atilde;o sendo portanto poss&iacute;vel    a visualiza&ccedil;&atilde;o do ducto pancre&aacute;tico a percorrer a cabe&ccedil;a    pancre&aacute;tica paralelamente &agrave; via biliar principal (CBD).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><img src="/img/revistas/ge/v17n1/17n1a04f2.jpg" width="443" height="311"></p>     
<p>Fig. 2. CPRM (aquisi&ccedil;&atilde;o coronal obl&iacute;qua, T2). Incipiente    ectasia do ducto pancre&aacute;tico dorsal at&eacute; &agrave; transi&ccedil;&atilde;o    do istmo para a cabe&ccedil;a pancre&aacute;tica, onde deixa de ser percept&iacute;vel    (Seta amarela) (termina&ccedil;&atilde;o n&atilde;o visualizada). O ducto ventral    (Wirsung) &eacute; vestigial (Seta vermelha) e drena para a ampola de Water.</p>     <p></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><img src="/img/revistas/ge/v17n1/17n1a04f3.jpg" width="880" height="311"></p>     
<p>Fig. 3a e 3b. CPRE. Pancreatografia ap&oacute;s canula&ccedil;&atilde;o da    papila minor, onde se observa ducto dorsal dominante (Setas), sendo diagn&oacute;stica    de p&acirc;ncreas divisum (Fig. 3a). ETE da papila minor (fio diat&eacute;rmico    &agrave;s 11 horas), com cerca de 6 mm, seguida da coloca&ccedil;&atilde;o de    pr&oacute;tese pl&aacute;stica 5F - 7 cm (Fig. 3b).</p>     <p>&nbsp;</p>      <p>A doente manteve-se clinicamente estável em ambulatório, cumprindo uma dieta com restrição lipídica. Foi realizado controlo radiográfico 6 semanas após a CPRE, onde se excluiu migração da prótese, tendo-se procedido à sua remoção endoscópica. Após um período de seguimento de cerca de 10 meses, a doente permanece clinicamente estável, sem registo de recorrência dos sintomas.</p>      <p><b>&nbsp;</b></p>      <p><b>DISCUSSÃO</b></p>      <p>Na maioria das séries<sup><a href="#4">4-8</a></sup>, a associação entre pâncreas    <i>divisum </i>e pancreatite aguda recorrente é mais consistente do que a associação    com pancreatite crónica ou dor abdominal crónica, esperando-se no primeiro caso    um maior benefício da terapêutica desobstrutiva da papila minor<sup><a href="#4">4</a>,<a href="#6">6-8</a></sup>.</p>      <p>Curiosamente neste caso clínico, os episódios recorrentes de pancreatite aguda    tiveram início após um primeiro episódio de pancreatite litiásica de baixa gravidade.    Na presença de pâncreas divisum, a obstrução por cálculos biliares na papila    major condiciona apenas obstrução do pequeno ducto ventral (Wirsung vestigial),    pelo que se espera que a pancreatite litiásica não apresente critérios de gravidade<sup><a href="#9">9</a></sup>.    Ocorreram posteriormente 3 episódios bem documentados de pancreatite aguda,    intercalados por períodos assintomáticos. Dada a baixa sensibilidade dos métodos    imagiológicos não invasivos convencionais (ecografia e TC) no diagnóstico de    pâncreas divisum<sup><a href="#4">4</a></sup>, estes não apresentaram alterações    significativas. A ausência de <i>stack sign </i>na ecoendoscopia radial, correspondendo    à impossibilidade de visualizar (a partir do bulbo duodenal) o ducto pancreático    a percorrer paralelamente a porção intra-pancreática da via biliar principal,    associou-se à presença de pâncreas divisum numa pequena série prospectiva recente<a href="#10"><sup>10</sup></a>.    Este achado, presente em 67,0% dos doentes com pâncreas <i>divisum </i>e em    apenas 16,7% do grupo-controlo<sup><a href="#10">10</a></sup>, constituiu nesta    doente o primeiro dado suspeito de pâncreas divisum. Mais recentemente, foi    descrita a elevada acuidade da ecoendoscopia linear no diagnóstico de pâncreas    <i>divisum </i>numa série retrospectiva de 22 casos (confirmados por CPRE) em    162 doentes (sensibilidade, especificidade, valores preditivos positivo e negativo    de 95%, 97%, 86%, e 99%, respectivamente)<a name="top11"></a><sup><a href="#11">11</a></sup>.    O elevado valor da CPRM na definição da anatomia pancreática ductal e no diagnóstico    de pâncreas <i>divisum </i>está mais bem definido na literatura<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a>,<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a>,    podendo a sua sensibilidade ser optimizada pela administração endovenosa de    secretina (sensibilidade &gt;90%)<sup><a href="#13">13</a></sup>. Neste caso,    a CPRM foi muito sugestiva de pâncreas divisum, definindo a necessidade de repetir    a CPRE com canulação da papila minor. Apesar da emergência destes novos métodos    de imagem (CPRM e ecoendoscopia), promissores na abordagem diagnóstica do pâncreas    <i>divisum</i>, a CPRE permanece actualmente o método diagnóstico <i>gold-standard<a name="top8"></a></i><sup><a href="#8">8</a></sup>.</p>      <p>Dado na maioria dos casos (&gt;95%) o pâncreas <i>divisum </i>ser considerado    uma variante assintomática, torna-se necessário definir quando está indicada    a intervenção terapêutica<sup><a name="top14"></a><a href="#14">14</a>,<a href="#6">6</a></sup>.    Considera-se existir benefício terapêutico nos doentes com pâncreas <i>divisum    </i>e dois ou mais episódios bem documentados de pancreatite aguda idiopática,    sem necessidade de qualquer investigação adicional<sup><a href="#8">8</a></sup>.    A exemplo do presente caso, estes doentes com pancreatite recorrente idiopática    são os que melhor respondem à terapêutica<sup><a href="#4">4</a>,<a href="#6">6-8</a></sup>.    Por sua vez, nos doentes com pâncreas divisum e pancreatite crónica, dor abdominal    crónica, um episódio isolado de pancreatite, ou sempre que a relação entre pâncreas    <i>divisum </i>e pancreatite é duvidosa pela coexistência de outro factor predisponente    (ex. álcool), haverá benefício em demonstrar primeiro a existência de obstrução    relativa ao fluxo através da papila minor por método não invasivo<sup><a href="#8">8</a>,<a href="#9">9</a></sup>.    A realização de um exame de imagem com estimulação de secretina poderá identificar    quais destes doentes beneficiam mais da terapêutica<sup><a href="#8">8</a>,<a href="#9">9</a></sup>.    Warshaw et al.<sup><a href="#9">9</a></sup>, demonstrou que a evidência ecográfica    de dilatação prolongada (&#8805; 15 minutos) do ducto dorsal após administração    endovenosa de secretina, correlacionou-se com uma maior probabilidade de melhoria    clínica após a terapêutica: melhoria clínica em 92% dos doentes com teste de    secretina positivo <i>vs </i>melhoria clínica em 40% dos doentes com teste de    secretina negativo (sem dilatação prolongada). </p>      <p>A estratégia terapêutica mais eficaz do pâncreas <i>divisum </i>continua a    ser assunto de controvérsia, tendo sempre como objectivo aliviar a obstrução    e melhorar a drenagem pancreática via papila minor. As diferentes abordagens    terapêuticas endoscópicas disponíveis (tais como a ETE ou dilatação da papila    minor, com posterior colocação de prótese) apresentam eficácia clínica semelhante    à descrita na terapêutica cirúrgica tradicional (esfincteroplastia ou esfincterectomia    da papila minor), com menor morbilidade associada, em várias séries retrospectivas    recentes<sup><a href="#4">4</a>,<a href="#6">6-8</a></sup> e numa única série    prospectiva<sup><a href="#14">14</a></sup>.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Globalmente, espera-se eficácia clínica após endoterapia da papila minor em    cerca de 75% dos doentes com pancreatite recorrente idiopática, traduzindo-se    pela diminuição do número de episódios de pancreatite e hospitalizações<sup><a href="#7">7</a>,<a href="#8">8</a></sup>.    Nos doentes com pancreatite crónica ou dor abdominal crónica, espera-se eficácia    clínica da terapêutica em cerca de 50% dos doentes (com redução da dor e menor    necessidade de terapêutica analgésica e hospitalizações)<sup><a href="#7">7</a>,<a href="#8">8</a></sup>.    Lans et al.<sup><a href="#14">14</a></sup> no único estudo prospectivo randomizado    existente (englobando 19 doentes com pâncreas <i>divisum </i>e pancreatite recorrente    idiopática), descreveu melhoria sintomática em 90% dos doentes submetidos a    terapêutica endoscópica (com colocação de prótese pancreática no ducto dorsal)    <i>vs </i>11% no grupo-controlo. </p>      <p>As taxas de sucesso clínico e de complicações das diferentes técnicas de tratamento    endoscópico são equiparáveis nos vários estudos retrospectivos publicados. A    técnica mais usada é a ETE da papila minor (ou, mais correctamente, papilotomia,    uma vez que a papila minor não possui um verdadeiro esfíncter), com uma incisão    de 4 a 6 mm posicionada entre as 10 e 12 horas, seguida da colocação de prótese<sup><a href="#7">7</a></sup>.    A prótese pancreática evita a obstrução precoce do orifício de ETE por edema    e fibrose e diminui o risco de pancreatite pós-procedimento, devendo ser removida    no período máximo de 2 meses, de forma a evitar lesões ductais induzidas pela    prótese e risco de obstrução<sup><a href="#4">4</a>,<a href="#8">8</a></sup>.    Assim, recomenda-se o controlo radiográfico após aproximadamente 4 semanas e    remoção endoscópica da prótese no caso de não ter migrado espontaneamente para    o lúmen duodenal<sup><a href="#8">8</a></sup>. A técnica de ETE realizada no    presente caso, considerada a técnica <i>standard </i>(<i>pull-type</i>), apresentou    resultados semelhantes à ETE com faca pré-corte (<i>needle-knife</i>) na maior    série retrospectiva descrita na literatura<sup><a href="#7">7</a></sup>. Nesse    estudo<sup><a href="#7">7</a></sup> (n = 184), após um período médio de seguimento    de 5 anos, os resultados das taxas de reintervenção endoscópica (~30%), de reestenose    (~20%) e de complicações precoces (~8%) foram semelhantes em ambos os grupos    de tratamento. Foram descritos resultados semelhantes após dilatação com balão    da papila minor (sem ETE), seguida da colocação de prótese pancreática, numa    pequena série retrospectiva<sup><a name="top15"></a><a href="#15">15</a></sup>.    As taxas de complicações após ETE da papila minor (independentemente da técnica    usada) nas três maiores séries descritas na literatura foram de 8,2% (pancreatite    aguda em 6,5% e hemorragia em 1,7%)<sup><a href="#7">7</a></sup>, 11,0% (apenas    casos de pancreatite aguda)<sup><a href="#8">8</a></sup> e 11,7% (pancreatite    aguda em 10,7% e perfuração em 1,0%)<sup><a href="#6">6</a></sup>. Apesar do    aceitável número de complicações da endoterapia da papila minor, salientam-se    as elevadas taxas de reestenose (~20%) e necessidade de reintervenção (~30%),    esta última particularmente mais elevada no subgrupo de doentes com pâncreas    <i>divisum </i>associado a pancreatite crónica e alterações ductais<sup><a href="#7">7</a></sup>.    São necessários estudos prospectivos para definir se este último subgrupo de    doentes continua a ser candidato à endoterapia da papila minor e qual o papel    actual da terapêutica cirúrgica.</p>      <p>&nbsp;</p>     <p><b>Bibliografia</b></p>      <!-- ref --><p><a name="1"></a><a href="#top1">1</a>.&nbsp;&nbsp;&nbsp; Neuhaus H. Therapeutic    pancreatic endoscopy. Endoscopy 2002; 34:54-62.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000047&pid=S0872-8178201000010000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><a href="#top2">2</a>.&nbsp;<a name="2"></a>&nbsp;&nbsp; Delhaye M, Engelholm    L, Cremer M. Pâncreas divisum: congenital anatomic variant or anomaly? Contribution    of endoscopic retrograde dorsal pancreatography. Gastroenterology 1985; 89:951-958.</p>      <p><a href="#top3">3</a>.&nbsp;<a name="3"></a>&nbsp;&nbsp; Carr-Locke DL. Pancreas    divisum: the controversy goes on? Endoscopy 1991; 23:88-90.</p>      <p><a href="#top4">4</a>.&nbsp;<a name="4"></a>&nbsp;&nbsp; Heyries L, Barthet    M, Delvasto C, Zamora C, Bernard JP, Sahel J. Long-term results of endoscopic    management of pancreas divisum with recurrent acute pancreatitis. 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<body><![CDATA[<p><a href="#top7">7</a>.&nbsp;<a name="7"></a>&nbsp;&nbsp; Attwell A, Borak G,    Hawes R, Cotton P, Romagnuolo J. Endoscopic pancreatic sphincterotomy for pancreas    divisum by using a needle-knife or standard pull-type technique: safety and    reintervention rates. Gastrointest Endosc 2006; 64:705-711.</p>      <p><a href="#top8">8</a>.&nbsp;<a name="8"></a>&nbsp;&nbsp; Gerke H, Byrne MF,    Stiffler HL, Obando JV, Mitchell RM, Jowell PS, et al. Outcome of endoscopic    minor papillotomy in patients with symptomatic pancreas divisum. JOP 2004; 5:122-131.</p>      <p><a href="#top9">9</a>.&nbsp;<a name="9"></a>&nbsp;&nbsp; Warshaw AL, Simeone    JF, Schapiro RH. Evaluation and treatment of the dominant dorsal duct syndrome    (pancreas divisum redefined). Am J Surg 1990; 159:59-66.</p>      <p><a href="#top10">10</a><a name="10"></a>. Bhutani MS, Hoffman BJ, Hawes RH.    Diagnosis of pâncreas divisum by endoscopic ultrasonography. Endoscopy 1999;    31:167-169.</p>      <p><a href="#top11">11</a><a name="11"></a>. Lai R, Freeman ML, Cass OW, Mallery    S. Accurate diagnosis of pâncreas divisum by linear-array endoscopic ultrasonogrphy.    Endoscopy 2004;36:705-709.</p>      <p><a href="#top12">12</a><a name="12"></a>. Kamisawa T, Tu Y, Egawa N, Tsuruta    K, Okamoto A, Kamata N. MRCP of congenital pancreaticobiliary malformation.    Abdom Imaging 2007; 32:129-133.</p>      <p><a href="#top13">13</a>. <a name="13"></a>Matos C, Metens T, Deviére J. Pâncreas    divisum: evaluation with secretin-enhanced magnetic resonance cholangiopancreatography.    Gastrointest Endosc 2001; 53:728-733.</p>      <p><a href="#top14">14</a>.<a name="14"></a> Lans JI, Geenen JE, Johanson JF.    Endoscopic therapy in patients with pancreas divisum and acute pancreatitis:    a prospective, randomized, controlled clinical trial. Gastrointest Endosc 1992;    38:430-434.</p>      <p><a href="#top15">15</a>.<a name="15"></a> Ertan A. Long-term results after    endoscopic pancreatic stent placement without pancreatic papillotomy in acute    recurrent pancreatitis due to pancreas divisum. Gastrointest Endosc 2000; 52:9-14.</p>      <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><a name="0"></a><a href="#top0">Correspondência</a>: </b>Miguel Bispo; Serviço    de Gastrenterologia; Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, E.P.E. – Hospital    de Egas Moniz; Rua da Junqueira 126, 1349-019, Lisboa.; <b>Tel.:</b> +351 919    00 2599, <b>Fax:</b> +351 213 62 4139; <b>e-mail:</b> <a href="mailto:gastregas@hegasmoniz.min-saude.pt">gastregas@hegasmoniz.min-saude.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Recebido para publicação:</b> 18/07/2008 e <b>Aceite para publicação:</b>    16/12/2008</p>      ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Neuhaus]]></surname>
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