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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A DPOC como uma doença de envelhecimento acelerado]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Coordenador: Renato Sotto-Mayor</b></p>     <p><b>Autor: Fátima Rodrigues</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A DPOC como uma doença de envelhecimento acelerado<a href="#0">*</a><a name="top0"></a></b></p>     <p><b>COPD as a disease of accelerated lung aging<a href="#0">*</a></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Kazuhiro Ito</b></p>     <p><b>Peter J Barnes</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Resumo</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A DPOC constitui um problema de saúde global de importância crescente, com    enorme impacto nos custos directos e indirectos em recursos de saúde. Apesar    do seu impacto, pouco se sabe ainda sobre os mecanismos celulares, moleculares    e genéticos desta doença, e as terapêuticas farmacológicas actualmente disponíveis    não influenciam a progressão da doença ou a mortalidade.</p>     <p>A limitação do débito aéreo avaliada pela redução do volume expiratório máximo    no 1.º segundo (FEV<sub>1</sub>) progride muito lentamente ao longo de várias décadas,    condicionando o aparecimento de sintomas em adultos acima dos 40 anos ou já    na terceira idade. Desta forma, a prevalência da DPOC é dependente da idade,    sugerindo uma relação íntima entre a patogénese da DPOC e a do envelhecimento.</p>     <p>A senescência ou processo de envelhecimento define-se como o declínio progressivo    da homeostasia que ocorre após estar completa a fase reprodutiva da vida e conduz    a um risco aumentado de doença e de morte. Segundo Kirkwood<sup><a href="#1">1</a><a name="top1"></a></sup>,    o envelhecimento resulta da interacção entre a lesão e a reparação, como resultado    da energia produzida pelo indivíduo para manter a integridade orgânica e proteger    o ADN da agressão oxidativa. A falência orgânica ou celular na manutenção ou    reparação resulta de uma acção integrada entre genes, ambiente e defeitos intrínsecos    do organismo.</p>     <p>Subjacente ao processo de envelhecimento, existe uma acumulação progressiva    de danos a nível molecular.</p>     <p>As alterações a nível celular causam reacções inflamatórias, e estas, por sua    vez, exacerbam as lesões celulares existentes. Desta forma, os factores inflamatórios    e anti-inflamatórios modulam a evolução do envelhecimento.</p>     <p>As alterações inflamatórias e estruturais associadas ao envelhecimento resultam    da falência em eliminar os radicais de oxigénio (ROS), da falência em reparar    o ADN lesado e do encurtamento do telómero. </p>     <p>Os telómeros protegem as extremidades dos cromossomas, mas, quando se encontram    expostos a elevados níveis de <i>stress </i>oxidativo, vão-se encurtando progressivamente    à medida que as células se dividem. Com o envelhecimento, a perda e encurtamento    dos telómeros condicionam o declínio da capacidade para as células se dividirem    – senescência replicativa.</p>     <p>O <i>stress </i>oxidativo causa lesão do ADN, o que acelera o processo de envelhecimento    e aumenta o risco de cancro (exemplo, a senescência da glândula mamária e o    risco elevado de cancro da mama).</p>     <p>Os gases ambientais, como o fumo do cigarro ou outros poluentes, podem acelerar    o envelhecimento do pulmão ou agravar os eventos relacionados com o envelhecimento    pulmonar através de uma resolução defeituosa da inflamação. A redução das moléculas    anti-envelhecimento como as histona desacetilases e as sirtuínas, pode igualmente    induzir a progressão acelerada para a DPOC.</p>     <p>Ainda não é claro como é que o processo de envelhecimento está envolvido no    declínio da função pulmonar e na inflamação da DPOC. Contudo, o pulmão do idoso    e o pulmão do doente com DPOC apresentam muitas semelhanças. A lesão provocada    pelo fumo do cigarro e outros pneumopoluentes conduz a um declínio mais acelerado    da função pulmonar, com falência dos mecanismos de reparação e de manutenção.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A presença de inflamação nos dois processos (envelhecimento e DPOC) traduz-se    em acumulação de neutrófilos, na activação da NF-kB e na elevação dos níveis    plasmáticos de interleucinas IL-6, IL-8 e TNF-á. Também os telómeros das células    alveolares tipo II, das células endoteliais e das células mononucleares em doentes    com enfisema são significativamente mais curtos do que em indivíduos não fumadores    da mesma idade.</p>     <p>Neste artigo, os autores descrevem ainda estudos recentes sobre os mecanismos    de transdução de sinal, como as vias da acetilação das proteínas envolvidas    no processo de envelhecimento, identificando assim novas moléculas anti-envelhecimento    que poderão constituir abordagens inovadoras na terapêutica da DPOC. Os antioxidantes    actualmente disponíveis, como a N-acetilcisteína, não são suficientemente potentes    para reduzir o <i>stress </i>oxidativo nos pulmões.</p>     <p>Existem vários fármacos em desenvolvimento, como os novos análogos da glutationa    e da superoxido dismutase (exemplo, o sulforafano) e novas moléculas antienvelhecimento    com maior controlo sobre a resistência ao <i>stress </i>oxidativo, a reparação    do ADN e a inflamação, como os activadores das sirtuínas (exemplo, o resveratrol,    o activador específico da SIRT<sub>1</sub> ou o activador da SIRT<sub>6</sub>).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Comentário</b></p>     <p>No processo natural de envelhecimento, o sistema respiratório sofre um conjunto    de alterações morfológicas e fisiológicas, de que são exemplo a acentuação da    cifose dorsal, o aumento do diâmetro ântero-posterior do tórax, a diminuição    da mobilidade da parede e a atrofia dos músculos respiratórios<sup><a href="#2">2</a><a name="top2"></a></sup>.    A nível do parênquima pulmonar, verifica-se uma progressiva dilatação dos bronquíolos    respiratórios, dos canais alveolares e dos espaços alveolares, com aumento do    volume residual e da <i>compliance </i>pulmonar e a diminuição da retracção    elástica<sup><a href="#3">3</a></sup>.<a name="top3"></a></p>     <p>Estas alterações parenquimatosas, em conjunto com a diminuição da densidade    capilar, promovem um aumento do espaço morto fisiológico, alterações da relação    ventilação/perfusão e diminuição da perfusão<sup><a href="#2">2</a>,<a href="#3">3</a></sup>.    Verbeken e colaboradores demonstraram que as alterações decorrentes do envelhecimento,    como a dilatação dos espaços aéreos, diferem da que ocorre no doente com enfisema    porque, no primeiro, a dilatação é homogénea, regular, sem inflamação ou fibrose    associadas (pulmão senil), enquanto no enfisema se verifica concomitante destruição    das paredes alveolares<sup><a href="#4">4</a></sup>. <a name="top4"></a></p>     <p>Neste artigo, os autores vão mais longe na relação entre as alterações próprias    do envelhecimento e a ocorrência de um estado de inflamação crónica, não só    na DPOC como em várias outras doenças associadas à idade, como a doença de Alzheimer,    as cataratas, a artrite reumatóide, a osteoporose e as doenças cardiovasculares.</p>     <p>Este “ambiente” inflamatório inclui infiltração por células inflamatórias,    elevados níveis circulantes e concentrações locais de citocinas pró-inflamatórias,    aumento de produção de radicais livres de oxigénio e de factores de transcrição    de genes que codificam moléculas pró-inflamatórias, aumento da expressão do    óxido nítrico (iNOS) e aumento do número de neutrófilos e da produção da elastase    dos neutrófilos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No caso particular dos pulmões, é difícil separar o efeito atribuível exclusivamente    ao envelhecimento fisiológico do efeito cumulativo da acção do ambiente, já    que o sistema respiratório está directamente exposto ao ar ambiente e aos pneumopoluentes.</p>     <p>As alterações celulares provocadas pelo envelhecimento e as que são provocadas    pelo fumo do tabaco podem envolver mecanismos patogénicos que se interrelacionam.    O envelhecimento pode reduzir o limiar de lesão ou amplificar os mecanismos    envolvidos na destruição pulmonar pelo fumo do cigarro. Por seu lado, o fumo    do tabaco pode actuar como um factor ambiental que perturba a reparação e a    manutenção orgânicas, contribuindo para o processo de envelhecimento<sup><a href="#5">5</a></sup>.<a name="top5"></a></p>     <p>Do melhor conhecimento dos mecanismos patogénicos envolvidos na DPOC resultará    a descoberta de novas abordagens terapêuticas.</p>     <p>A terapêutica farmacológica actualmente disponível consiste nos broncodilatadores    de longa duração de acção. Estão a ser desenvolvidos novos inaladores com efeito    beta<sub>2</sub>-adrenérgico e antimuscarínico (e combinações de ambos) de longa    duração<sup><a href="#6">6</a><a name="top6"></a></sup>. Peter Barnes e colaboradores    já haviam indicado como uma abordagem terapêutica promissora a reversão da resistência    aos corticosteróides através do aumento da actividade da HDAC<sub>2</sub> (histona    desacetilase), com fármacos do tipo da teofilina; antioxidantes mais eficazes    e macrólidos não antibióticos<sup><a href="#7">7</a><a name="top7"></a></sup>.    De forma ideal, os novos fármacos deverão interferir com a progressão da doença    e, quem sabe, retardar o processo de envelhecimento do pulmão.</p>     <p><b>&nbsp;</b></p> <table width="75%" border="1" bordercolor="#006633">   <tr>     <td>    <p><b>Mensagem</b></p>           <p>1. Sabe-se hoje que existe uma relação próxima entre o processo de envelhecimento          e os mecanismos patogénicos de várias doenças inflamatórias crónicas,          de que é exemplo a DPOC;</p>           <p>2. O <i>stress </i>oxidativo envolvido na patogénese e progressão da          DPOC promove igualmente um envelhecimento acelerado do pulmão;</p>           <p>3. O envelhecimento do pulmão cursa com um declínio progressivo da função          respiratória, acompanhado de um aumento da inflamação pulmonar e de alterações          estruturais associadas;</p>           <p>4. O futuro da terapêutica da DPOC poderá passar por novas moléculas          anti envelhecimento (histona desacetilases), antioxidantes mais potentes          ou por fármacos que ultrapassem a resistência aos corticosteróides. De          forma ideal, os novos fármacos deverão interferir com a progressão da          doença e, quem sabe, retardar o processo de envelhecimento do pulmão.</p> </td>   </tr> </table>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Bibliografia</b></p>     <p><a name="1"></a><a href="#top1">1</a>. Kirkwood TB. Understanding the odd science    of aging. Cell 2005; 120:437-447.</p>     <p><a name="2"></a><a href="#top2">2</a>. Gamboa T, Rendas A. Fisiologia e fisiopatologia    respiratória no idoso. <i>In </i>Gomes MJM, Ávila R. Patologia respiratória    no idoso. Hospital de Pulido Valente, Faculdade de Ciências Médicas, Lisboa:    33-52.</p>     <!-- ref --><p><a name="3"></a><a href="#top3">3</a>. Figueiredo A. Pneumonia no idoso. Rev    Port Pneumol 2001; VII(6):485-493. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000048&pid=S0873-2159200900040001700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><a name="4"></a><a href="#top4">4</a>. Verbeken EK, Cauberghs M, Mertens I,    Clement J, <i>et al. </i>The Senile Lung. Comparison with normal and emphysematous    lungs. 1. Structural Aspects. Chest 1992; 101:793-799.</p>     <p><a name="5"></a><a href="#top5">5</a>. Tuder RM. Aging and cigarette smoke:    Fueling the fire. Am J Respir Crit Care Med 2006; 174:490-491.</p>     <p><a name="6"></a><a href="#top6">6</a>. Barnes P. Frontrunners in novel pharmacotherapy    of COPD. Curr Opin Pharmacol 2008; 8(3): 300-307.</p>     <p><a name="7"></a><a href="#top7">7</a>. Barnes PJ, Shapiro SD, Pawels RA. Chronic    obstructive pulmonary disease: molecular and cellular mechanisms. Eur Respir    J 2003; 22: 672-688.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><b>2009-03-01</b></p>     <p><a name="0"></a><a href="#top0">*</a> Chest Translating Basic Research Into    Clinical Practice 2009; 135:173-180</p>      ]]></body><back>
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