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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Vinho: práticas, elogios, cultos e representações em questão na sociedade portuguesa]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[  <B>      <P><a name="top"></a>VINHO: PR&Aacute;TICAS, ELOGIOS, CULTOS E REPRESENTA&Ccedil;&Otilde;ES    EM&nbsp;QUEST&Atilde;O NA SOCIEDADE PORTUGUESA</P> </B>      <P><I>Dulce Maria da Gra&ccedil;a Magalh&atilde;es</i><A HREF="#back"><I>*</I></A></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><U>Resumo</u> A sociedade portuguesa em geral tem vindo a ser palco de mudan&ccedil;as a&nbsp;n&iacute;vel socioecon&oacute;mico, cultural e pol&iacute;tico nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, com particular intensidade a partir de 1974. Essas mudan&ccedil;as generalizadas, de certa forma paulatinas mas n&atilde;o lineares, tocam o quotidiano dos indiv&iacute;duos, sendo pass&iacute;veis de constata&ccedil;&atilde;o quer atrav&eacute;s da evolu&ccedil;&atilde;o de representa&ccedil;&otilde;es, quer atrav&eacute;s da observa&ccedil;&atilde;o das pr&aacute;ticas desenvolvidas pelos agentes sociais nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas na sociedade portuguesa. O texto que se segue circunscreve-se ao vinho em contexto social e trata de aspectos respeitantes a representa&ccedil;&otilde;es e simbologias inerentes &agrave; pr&aacute;tica v&iacute;nica, das quais fazem parte rituais, artes, elogios e cultos, pesem embora evolu&ccedil;&otilde;es/reconvers&otilde;es neste &acirc;mbito verificadas. </P>     <P><U>Palavras-chave</u> Vinho do Porto, representa&ccedil;&otilde;es, apropria&ccedil;&otilde;es, rituais. </P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P> <B>    <P>Vinhos: pr&aacute;ticas, elogios, cultos e representa&ccedil;&otilde;es em quest&atilde;o na&nbsp;sociedade portuguesa</P> </B>      ]]></body>
<body><![CDATA[<P><a name="top1"></a>A import&acirc;ncia do vinho na vida dos homens, nas sociedades    e na vida em sociedade, tem atravessado os tempos, a maior ou menor velocidade,    consoante o curso do dinamismo social.<A HREF="#1"><SUP>1</SUP></A> </P>     <P>Abordar o vinho implica, por conseguinte, abordar as suas pr&aacute;ticas correspondentes — as pr&aacute;ticas v&iacute;nicas — que se v&ecirc;m alicer&ccedil;ando ao longo dos tempos, muito embora os usos que delas se fa&ccedil;am sejam pass&iacute;veis de evidenciar tend&ecirc;ncias diferentes consoante traject&oacute;rias sociais, representa&ccedil;&otilde;es constru&iacute;das e apropria&ccedil;&otilde;es inerentes. Daqui derivam quer cultos e elogios, quer proibi&ccedil;&otilde;es e puni&ccedil;&otilde;es em torno do consumo de um bem que, para al&eacute;m de econ&oacute;mico, se tornou social. &Eacute; esta vertente que neste momento mais tem canalizado o nosso olhar sociol&oacute;gico. Por iner&ecirc;ncia, importam-nos particularmente rituais, especificidades e artes a ele associados, porque de uma <I>obra de arte</I> iremos tratar. </P>     <P>N&atilde;o ser&aacute; tra&ccedil;ada aqui, no entanto, uma retrospectiva da    hist&oacute;ria da feitura dos vinhos nem do seu percurso econ&oacute;mico/comercial;    iremos, sim, abordar aspectos sociais inerentes &agrave; pr&aacute;tica v&iacute;nica.    E porque o campo v&iacute;nico &eacute; vasto, sentimos necessidade de o delimitar.    Nasce assim uma incid&ecirc;ncia particular no vinho do Porto ao longo desta    breve apresenta&ccedil;&atilde;o. </P>     <P>&nbsp;</P> <B>    <P>Um recuo no tempo e um esbo&ccedil;o de mudan&ccedil;a</P> </B>      <P>O vinho do Porto &eacute; por si s&oacute; um bem que se tornou cultural em    Portugal. Fazendo parte da nossa hist&oacute;ria, atravessou-a e irradiou-se    para o exterior, nomeadamente atrav&eacute;s do papel destacado da Inglaterra,    em primeira inst&acirc;ncia. Por conseguinte, &eacute; ineg&aacute;vel o seu    contributo a n&iacute;vel econ&oacute;mico. <a name="top2"></a>Desta feita,    dir-se-ia que o vinho do Porto &eacute; um bra&ccedil;o significativo n&atilde;o    s&oacute; da hist&oacute;ria geral de Portugal, mas especificamente da sua hist&oacute;ria    econ&oacute;mica e mesmo da hist&oacute;ria sociocultural, apesar de ter integrado    um consumo de mais elevado quantitativo no exterior do que no pr&oacute;prio    pa&iacute;s de origem,<A HREF="#2"><SUP>2</SUP></A> facto que se reflecte a    v&aacute;rios n&iacute;veis. Conv&eacute;m lembrar, por exemplo, que, se todo    o portugu&ecirc;s sabe que o vinho do Porto &eacute; um vinho de origem portuguesa,    j&aacute; n&atilde;o &eacute; do conhecimento geral a import&acirc;ncia da Regi&atilde;o    Demarcada do Douro para a sua produ&ccedil;&atilde;o, resultando daqui um vinho    cuja denomina&ccedil;&atilde;o &eacute; de origem controlada. De igual forma,    se genericamente se pode falar em &quot;reconhecimento&quot; da qualidade e    originalidade do vinho do Porto, apenas particularmente esse reconhecimento    social que lhe &eacute; inerente coincide com um &quot;conhecimento&quot; real,    factual, que se estende a marcas e tipos de vinhos do Porto, harmoniza&ccedil;&otilde;es,    contextos, enfim, a fam&iacute;lias desses vinhos. </P>     <P>Com isto queremos fazer refer&ecirc;ncia quer a um certo hermetismo para o    qual foi empurrado o conhecimento-consumo de determinados tipos de vinho do    Porto, quer uma quase banaliza&ccedil;&atilde;o relativamente ao consumo de    outros tipos de vinho do Porto. Entre uma e outra situa&ccedil;&atilde;o constata-se,    at&eacute; uma &eacute;poca recente, um maior consumo no exterior do que em    Portugal, &uacute;nico pa&iacute;s de origem leg&iacute;tima para produ&ccedil;&atilde;o    do Vinho do Porto. Neste contexto, vale a pena lembrar o facto de o vinho do    Porto ter sido mais procurado, mais conhecido e mais consumido em alguns pa&iacute;ses    do estrangeiro, em anos que recuam, no m&iacute;nimo, ao in&iacute;cio do s&eacute;culo,    nomeadamente em Inglaterra, pa&iacute;s onde <a name="top3"></a>&quot;se bebe    em muito maior escala e (…) de muito melhor quilate que no pa&iacute;s de origem&quot;.<A HREF="#3"><SUP>3</SUP></A>    Note-se, a este prop&oacute;sito, o facto de, ent&atilde;o, o portugu&ecirc;s    beber essencialmente vinho econ&oacute;mico; o bom vinho, o mais dispendioso    e de melhor qualidade era, por excel&ecirc;ncia, voltado para o mercado externo.  </P>     <P>Em 1935, escrevia Valente-Perfeito: &quot;Nos pa&iacute;ses produtores de vinhos    de mundial renome, na Fran&ccedil;a, em Espanha, na Alemanha, os melhores vinhos    (…) s&atilde;o justamente apreciados e amplamente consumidos pelos naturais    desses pa&iacute;ses, ciosos das suas pr&oacute;prias riquezas. No nosso (Portugal),    doloroso &eacute; confess&aacute;-lo, contam-se quasi pelos dedos os verdadeiros    apreciadores e entendedores do vinho do Porto. &quot; E mais &agrave; frente    acrescentava a prop&oacute;sito do consumo em Portugal: <a name="top4"></a>&quot;Pa&iacute;s    essencialmente vin&iacute;cola, produtor dos dois melhores vinhos licorosos    que a Terra cria, e possuidor duma incompar&aacute;vel gama de vinhos de consumo    (…), Portugal oferece o triste espect&aacute;culo de ser o mais pobre consumidor    das suas pr&oacute;prias riquezas.&quot;<A HREF="#4"><SUP>4</SUP></A> </P>     <P>N&atilde;o obstante esta situa&ccedil;&atilde;o, &eacute; ineg&aacute;vel,    sempre o foi, o valor altamente simb&oacute;lico de que goza o vinho do Porto,    funcionando em primeir&iacute;ssima inst&acirc;ncia como uma esp&eacute;cie    de carta de apresenta&ccedil;&atilde;o ou mesmo como bilhete de identidade do    pa&iacute;s de que &eacute; origin&aacute;rio. <a name="top5"></a>Pese embora    o registo declinante da exporta&ccedil;&atilde;o do vinho do Porto,<A HREF="#5"><SUP>5</SUP></A>    este funciona ainda hoje como um s&iacute;mbolo verdadeiramente representativo    de Portugal, enquanto pa&iacute;s de origem. Mais do que exportar-se o produto,    exporta-se a fama deste produto, cujo prest&iacute;gio do bom nome &eacute;    j&aacute; por si uma porta aberta ao reconhecimento do vinho, do Porto, de Portugal.    Trata-se, enfim, de uma garantia identit&aacute;ria onde espa&ccedil;o e cultura    se d&atilde;o as m&atilde;os para valorizar um pa&iacute;s expandindo a sua    imagem de pequeno rect&acirc;ngulo &agrave; beira-mar plantado. <a name="top6"></a>No    dizer de Fran&ccedil;ois Guichard, e atrav&eacute;s duma &quot;estrat&eacute;gia    de comunica&ccedil;&atilde;o geral, (…) da mensagem ‘Vinho do Porto = Portugal&#146;    foi natural passar &agrave; valoriza&ccedil;&atilde;o da mensagem complementar,    ‘Portugal = pa&iacute;s do Vinho do Porto&#146;, sobretudo a partir dos anos    cinquenta&quot;.<A HREF="#6"><SUP>6</SUP></A> </P>     <P>Actualmente &eacute; mesmo vis&iacute;vel uma mudan&ccedil;a significativa no que respeita ao consumo interno deste produto: Portugal &eacute; hoje o terceiro mercado a n&iacute;vel de consumo de vinho do Porto quer em termos globais, quer em termos das categorias especiais. Trata-se, por conseguinte, de uma situa&ccedil;&atilde;o nova e inesperada se se recuar algumas d&eacute;cadas, dado assistir-se &agrave; qualifica&ccedil;&atilde;o dos consumos no pa&iacute;s, isto &eacute;, &agrave; valoriza&ccedil;&atilde;o da qualidade e categoria do vinho do Porto escolhido para consumo. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P> <B>    <P>Pr&aacute;ticas e representa&ccedil;&otilde;es sociais em torno do consumo do vinho do Porto</P> </B>      <P>&Eacute; ponto assente que a sociedade portuguesa em geral tem vindo a ser    palco de mudan&ccedil;as a n&iacute;vel socioecon&oacute;mico, cultural e pol&iacute;tico    nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, com particular intensidade a partir de 1974.    Essas mudan&ccedil;as, generalizadas, de certa forma paulatinas mas n&atilde;o    lineares, t&ecirc;m tocado o quotidiano dos indiv&iacute;duos, sendo pass&iacute;veis    de constata&ccedil;&atilde;o quer atrav&eacute;s da evolu&ccedil;&atilde;o de    representa&ccedil;&otilde;es, quer atrav&eacute;s da observa&ccedil;&atilde;o    das pr&aacute;ticas desenvolvidas pelos agentes sociais nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas    na sociedade portuguesa. Neste contexto de mudan&ccedil;a, ganharia interesse    ent&atilde;o questionar-se o consumo do vinho do Porto em Portugal, que, num    contexto alco&oacute;lico mais geral, n&atilde;o &eacute; o que mais se destaca.    Tratar-se-ia, certamente, de uma situa&ccedil;&atilde;o com tend&ecirc;ncia    a mudar, n&atilde;o fosse a invas&atilde;o quase violenta de bebidas destiladas    — cerveja, gim, u&iacute;sque e vodca, maioritariamente — que com ou sem mistura    v&atilde;o funcionando <I>a priori</I> como <I>iniciadores</I> extrafamiliares,    e como <I>pilares sociais</I> <I>a posteriori</I>, em locais p&uacute;blicos,    onde a extrovers&atilde;o inerente &agrave; bebida se coaduna com a extrovers&atilde;o    proporcionada pela ocasi&atilde;o e pelo contexto. Esta situa&ccedil;&atilde;o,    especialmente vis&iacute;vel nas franjas adolescentes e p&oacute;s-adolescentes,    liga-se &agrave; sua tend&ecirc;ncia para consolidar suas pr&aacute;ticas de    consumo em torno de bebidas que n&atilde;o funcionam tanto como marcadores sociais    de base classista, mas muito mais como marcadores identit&aacute;rios duma fase    de vida onde, de forma provis&oacute;ria e parcial, se atenuam distin&ccedil;&otilde;es    de contornos classistas. <a name="top7"></a>A ascens&atilde;o socioecon&oacute;mica    de que s&atilde;o alvo, nos dias de hoje, adultos jovens ter&aacute; decerto    algum tipo de liga&ccedil;&atilde;o a esta nova viv&ecirc;ncia, que n&atilde;o    raro vai sendo preparada ainda nos bancos da escola.<A HREF="#7"><SUP>7</SUP></A>    Veja-se, por exemplo, e &eacute; este que mais nos interessa, o caso dos estudantes    universit&aacute;rios, porquanto privilegia simbolicamente o vinho do Porto,    que actualmente se encontra integrado nas praxes acad&eacute;micas da Invicta.    &Eacute; assim que, na semana dos festejos da recep&ccedil;&atilde;o do caloiro,    se destaca uma tarde que poder&aacute; ser entendida como o primeiro momento    (extrafamiliar) com car&aacute;cter ritualista, para inicia&ccedil;&atilde;o    ao vinho do Porto. Nessa tarde, o programa destina-se &agrave; visita das caves    do vinho do Porto (nomeadamente &agrave;s da zona ribeirinha), e &agrave; prova    do vinho do Porto — note-se que o objectivo da visita &eacute; precisamente    a prova. Numa outra tarde, os &quot;doutores&quot; conduzem os caloiros para    a Pra&ccedil;a da Rep&uacute;blica, onde, perante a est&aacute;tua do deus Baco,    os estudantes s&atilde;o &quot;convidados&quot; a ador&aacute;-lo. Este programa,    j&aacute; oficializado da praxe acad&eacute;mica, aparece interligado &agrave;    adora&ccedil;&atilde;o do Deus Baco e constitui por si s&oacute; um aut&ecirc;ntico    ritual de inicia&ccedil;&atilde;o. <a name="top8"></a>Toda a praxe &eacute;    uma inicia&ccedil;&atilde;o &agrave; vida de estudante, por conseguinte inicia-se    o estudante ao gosto — que &eacute; ele pr&oacute;prio socialmente constru&iacute;do    —<A HREF="#8"><SUP>8</SUP></A> e ao consumo de &aacute;lcool que, <I>a posteriori</I>,    se focaliza essencialmente na cerveja e no vinho carrasc&atilde;o, n&atilde;o    se sedimentando a inicia&ccedil;&atilde;o na pr&aacute;tica circunscrita ao    vinho do Porto. &quot;A press&atilde;o para beber &eacute; t&atilde;o grande    que chega a ser dif&iacute;cil gerir este aspecto por parte daqueles que aderem    &agrave; praxe mas n&atilde;o se identificam com o consumo alco&oacute;lico.    Isso &eacute; tanto pior quanto mais masculinizadas s&atilde;o as faculdades,    como &eacute; o caso de engenharia&quot;, diz-nos uma licenciada, remetendo    as suas ainda recentes lembran&ccedil;as para um tempo acad&eacute;mico bem    vivido. Como nota de curiosidade, veja-se o que nos diz a Lei da Praxe a prop&oacute;sito:    <a name="top9"></a>&quot;Nenhum aluno pode ser apanhado fora de telha depois    das 21 horas, sen&atilde;o &eacute; praxado; a n&atilde;o ser que esteja sob    a protec&ccedil;&atilde;o do deus Baco, ou seja, esteja alcoolizado.&quot;<A HREF="#9"><SUP>9</SUP></A>  </P>     <P>Apesar dos salpicos iniciadores que aqui e ali se v&atilde;o verificando, com    car&aacute;cter mais ou menos oficializado, continua-se a assistir a uma situa&ccedil;&atilde;o    em que o vinho do Porto se v&ecirc; empurrado para um contexto mais privado,    onde um consumo bem localizado no tempo — festas natal&iacute;cias, pascais,    anivers&aacute;rios, e similares — tem ra&iacute;zes priorit&aacute;rias numa    celebra&ccedil;&atilde;o com um tipo de vinho do Porto cuja qualidade se fica    essencialmente pela m&eacute;dia. Ou, ainda a este prop&oacute;sito, assiste-se    dentro de portas, ao endeusamento do vinho do Porto atrav&eacute;s de uma garrafa    supostamente de elevada qualidade, por iner&ecirc;ncia aos largos anos a &quot;apanhar    p&oacute;&quot; na prateleira &agrave; espera do Dia D: para ser encetada a    pretexto de alguma comemora&ccedil;&atilde;o especial, ou para ser herdada,    e assim continuar o seu percurso estacion&aacute;rio no espa&ccedil;o e virtualmente    din&acirc;mico no tempo. <a name="top10"></a>Por outras palavras, &eacute; tido    como verdadeiro pelo senso comum que o vinho do Porto &eacute; tanto melhor    quanto mais velho for, contribuindo para que se tracem cen&aacute;rios perfeitamente    reais, e os quais todos conhecemos pelo menos um ou dois casos, em que as fam&iacute;lias    &quot;guardam&quot; uma determinada garrafa de vinho do Porto de m&eacute;dia    qualidade — nem sempre tratando-se de um <I>vintage</I><A HREF="#10"><SUP>10</SUP></A>    — &quot;&agrave; espera&quot; que ele envelhe&ccedil;a na pr&oacute;pria garrafa,    e na prateleira do seu pr&oacute;prio bar, para ent&atilde;o, tornada j&aacute;    uma &quot;rel&iacute;quia&quot;, uma &quot;obra de arte&quot; virtual, dir&iacute;amos,    ser aberta no casamento da filha, no baptizado do neto ou no funeral da sogra.    Neste contexto e segundo J. C. Valente-Perfeito, este axioma nem sempre se aplica,    caindo por terra uma boa parte das vezes. &Eacute; que nem sempre, segundo o    autor, se re&uacute;nem as condi&ccedil;&otilde;es &oacute;ptimas para que isso    aconte&ccedil;a. E as condi&ccedil;&otilde;es &oacute;ptimas para o processo    de matura&ccedil;&atilde;o do vinho t&ecirc;m a ver, na sua ess&ecirc;ncia,    com a pr&oacute;pria estrutura organol&eacute;ptica do vinho, isto &eacute;,    com um equil&iacute;brio perfeito entre os elementos que o constituem, desde    a natureza do solo, clima, cepa, ano de produ&ccedil;&atilde;o entre outros,    cuja combina&ccedil;&atilde;o implica um determinado sabor e uma determinada    cor. Confundir-se a qualidade do vinho do Porto com a sua idade &eacute;, segundo    o autor, mero preconceito, evidenciando uma certa ignor&acirc;ncia a respeito,    uma vez que h&aacute; o perigo real do vinho entrar em decomposi&ccedil;&atilde;o    a partir do tempo. &quot;A velhice n&atilde;o constitui, portanto, para os vinhos    como para o homem, &iacute;ndice geral de qualidade&quot;, j&aacute; que &quot;a    idade n&atilde;o corrige o que &eacute; mau; melhora o que &eacute; bom&quot;.    Gera-se assim, uma esp&eacute;cie de <I>confus&atilde;o v&iacute;nica</I> que    culmina numa forte sensa&ccedil;&atilde;o de perda quando, na suposta celebra&ccedil;&atilde;o,    se constata comemorar-se com zurrapa em vez do n&eacute;ctar domesticamente    &quot;refabricado&quot; por uma espera paciente atrav&eacute;s do tempo. Note-se    que &quot;se o vinho n&atilde;o f&ocirc;r origin&aacute;riamente constitu&iacute;do    por forma a beneficiar da ac&ccedil;&atilde;o do tempo, s&oacute; ser&aacute;    prejudicado pela idade. <a name="top11"></a>Por outras palavras: um mau vinho    n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o melhora com a idade, como se torna pior &agrave;    medida que os anos v&atilde;o passando&quot;.<A HREF="#11"><SUP>11</SUP></A><A HREF="#11">    </A>Contudo, se &quot;(…) a idade nem sempre &eacute; ind&iacute;cio de qualidade    no vinho do Porto, n&atilde;o &eacute; menos certo que o processo de evolu&ccedil;&atilde;o    do vinho generoso do Douro reclama um per&iacute;odo de tempo mais ou menos    longo. <a name="top12"></a>O prazo necess&aacute;rio ao seu desenvolvimento    &eacute; fun&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios factores, tais como teor alco&oacute;lico,    corpo, &aacute;cidos, etc.&quot;<A HREF="#12"><SUP>12</SUP></A> </P>     <P>&nbsp;</P> <B>    <P>(Re)conhecimentos plurais: simbolismos, apropria&ccedil;&otilde;es e rituais</P> </B>      <P>Como n&atilde;o poder&iacute;amos deixar de referir, o vinho do Porto tem tido    um papel crucial em contextos v&aacute;rios, desde o religioso ao hist&oacute;rico,    pol&iacute;tico e econ&oacute;mico, medicinal, l&uacute;dico e social. E porque    o seu consumo se reveste de toda uma pr&aacute;tica mais ou menos complexa,    consoante vari&aacute;veis que adiante ser&atilde;o levadas em considera&ccedil;&atilde;o,    n&atilde;o poder&iacute;amos deixar de ter em linha de conta as simbologias    inerentes a esta pr&aacute;tica, sobre as quais j&aacute; fomos levantando o    v&eacute;u e das quais fazem parte elogios e cultos que se revestem de aut&ecirc;nticos    rituais e que comp&otilde;em uma verdadeira arte. N&atilde;o obstante evolu&ccedil;&otilde;es/reconvers&otilde;es    verificadas a n&iacute;vel de escolhas alco&oacute;licas, mormente a forte invas&atilde;o    de bebidas destiladas, como j&aacute; foi anteriormente referido brevemente,    n&atilde;o deixa de ser verdade a pr&oacute;pria mudan&ccedil;a operada a n&iacute;vel    do consumo do vinho do Porto entre a popula&ccedil;&atilde;o portuguesa. <a name="top13"></a>Como    refere Ant&oacute;nio Barreto, &quot;os Portugueses t&ecirc;m vindo a descobrir    o vinho do Porto!&quot;.<A HREF="#13"><SUP>13</SUP></A> &Eacute; assim que as    representa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&oacute; sobre o acto de o beber, como    tamb&eacute;m sobre o saber beb&ecirc;-lo se apresentam com um peso simb&oacute;lico    extraordin&aacute;rio, suscept&iacute;vel de fomentar uma esp&eacute;cie de    vontade de adquirir uma compet&ecirc;ncia pr&aacute;tica genu&iacute;na no seu    manuseamento, ou, pelo contr&aacute;rio, um forte apelo &agrave; sua ignor&acirc;ncia.    &Eacute; no primeiro caso que nos situaremos, pois &eacute; esse o que melhor    poder&aacute; representar o que chamamos <I>tratar o vinho do Porto por tu</I>.    <a name="top14"></a>E, como se pode perceber, h&aacute; v&aacute;rias formas    poss&iacute;veis de se <I>tratar por tu</I> o vinho do Porto.<A HREF="#14"><SUP>14</SUP></A>  </P>     <P>A forma como os confrades ritualizam a sua ingest&atilde;o &eacute; uma maneira    de o <I>tratar por tu</I>. Em contrapartida, o modo como na taberna do Jaime    (Gaia) se bebe o vinho do Porto ao copo &eacute; outra via, inquestion&aacute;vel    tamb&eacute;m, de o <I>tratar por tu</I>. Como se pode perceber, ambas s&atilde;o    formas leg&iacute;timas de manusear o Vinho do Porto porquanto, e apenas, contextualizadas.    Ambas revelam uma apropria&ccedil;&atilde;o do produto, um &agrave;-vontade    e uma certa per&iacute;cia que vai desde a forma como se verte Vinho do Porto    no c&aacute;lice/copo &agrave; forma como ele desliza do c&aacute;lice/copo    para o corpo. &Eacute; aqui que tem cabimento repescarem-se dois conceitos j&aacute;    apresentados no in&iacute;cio: <I>conhecimento versus reconhecimento</I>. <a name="top15"></a>Se    por <I>conhecimento</I> se entende uma apropria&ccedil;&atilde;o directa, um    acto real do pr&oacute;prio, j&aacute; o <I>reconhecimento</I> tem impl&iacute;cito    apenas um conhecimento por interposta pessoa, grupo ou meio social, isto &eacute;,    um conhecimento n&atilde;o do pr&oacute;prio, mas atrav&eacute;s de outrem,    apesar de reconhecido simbolicamente como leg&iacute;timo pelo pr&oacute;prio.<A HREF="#15"><SUP>15</SUP></A>    <a name="top16"></a>Assim, sem que se conhe&ccedil;a de facto, reconhece-se    que o vinho do Porto X<A HREF="#16"><SUP>16</SUP></A> &eacute; de elevad&iacute;ssima    qualidade, por exemplo; assim como, sem a necessidade da prova, reconhece-se    que quanto mais caro melhor ser&aacute; o vinho do Porto. Vemos assim incontest&aacute;vel    uma dupla ideia: o tempo e o pre&ccedil;o do produto aqui em quest&atilde;o,    nos seus valores mais elevados, funcionam como garantias &quot;reconhecidas&quot;    (mesmo quando nem sempre conhecidas) da sua boa qualidade e de se estar perante    uma obra de arte. Para esta situa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o ser&aacute;,    decerto, indiferente o contributo de outros factores dos quais a raridade do    produto &eacute; apenas um exemplo. O caso do <I>Noval Nacional</I> pode ilustrar    esta situa&ccedil;&atilde;o dado que a raridade do produto &eacute;, ela pr&oacute;pria,    factor de (re)conhecimento qualitativo. A avalia&ccedil;&atilde;o feita por    revistas especializadas, como <I>Wine and Spirits </I>ou<I> Wine Spectator </I>tem    como consequ&ecirc;ncia quase imediata o esgotamento dos <I>stocks</I> altamente    pontuados como foram os casos do <I>Fonseca 94 </I>e <I>Taylor&#146;s 94, </I>tendo    sido, nesta &uacute;ltima revista, atribu&iacute;dos 100 pontos a cada um (o    m&aacute;ximo de pontos poss&iacute;veis). Hoje em dia, assiste-se assim a uma    avalia&ccedil;&atilde;o da qualidade em torno do vinho do Porto cuja pontua&ccedil;&atilde;o    elevada pelos c&iacute;rculos da especialidade, bem como a sua relativa raridade,    contribuiu fortemente para uma requalifica&ccedil;&atilde;o do seu consumo em    termos de obra de arte. Isto traduz-se, por sua vez, numa melhor posi&ccedil;&atilde;o    do pr&oacute;prio mercado portugu&ecirc;s no que respeita ao consumo do vinho    do Porto, como j&aacute; referimos anteriormente. </P>     <P>Voltando, ent&atilde;o, &agrave; especificidade de contextos diferentes, o    que acontece nos dois acima apresentados — confrarias <I>versus</I> taberna    do Jaime e equivalentes — &eacute; um perfeito conhecimento interno a cada um    e um desconhecimento, relativo ou absoluto, em contexto alheio, que se reflecte    no pr&oacute;prio gosto. Isto &eacute; tanto mais verdade quanto estivermos    perante rituais apreendidos por interioriza&ccedil;&otilde;es autom&aacute;ticas,    transformadas em compet&ecirc;ncias pr&aacute;ticas que fazem render no momento    certo e no s&iacute;tio certo, e que desfavorecem e estigmatizam em contexto    de acolhimento inadequado. Por exemplo, o uso do recipiente errado para receber    o n&eacute;ctar divino &eacute; socialmente penalizado em contexto social de    rigor. <a name="top17"></a>H&aacute;, tamb&eacute;m a este n&iacute;vel, todo    um ritual que ou &eacute; transmitido oralmente via socializa&ccedil;&atilde;o    na fam&iacute;lia onde a aprendizagem informal &eacute; garantida pela interioriza&ccedil;&atilde;o    dos aspectos parcelares inerentes &agrave; pr&aacute;tica global e exteriorizada    por automatismos que se tornam imediatos,<A HREF="#17"><SUP>17</SUP></A> ou,    na sua aus&ecirc;ncia, a apreens&atilde;o destas pr&aacute;ticas &eacute; adquirida    atrav&eacute;s duma educa&ccedil;&atilde;o formal, para a qual contribuem, crescentemente    nos dias de hoje, a difus&atilde;o dos meios de cultura enol&oacute;gica (sendo    a literatura especializada apenas um deles) com fun&ccedil;&atilde;o, entre    outras, de educar a clientela virtual de forma a que as ra&iacute;zes criadas    pelo uso repetido fidelize essa mesma clientela, que &eacute; nova enquanto    tal, &agrave; pr&aacute;tica proposta. For&ccedil;oso ser&aacute; ter em linha    de conta a &quot;explos&atilde;o das classes m&eacute;dias nos pa&iacute;ses    industrializados e dos grupos sociais dirigentes (que) criou novos clientes&quot;    para o vinho do Porto, &quot;vinho com tradi&ccedil;&otilde;es seculares, supostamente    s&iacute;mbolo de bom gosto aristocrata. <a name="top18"></a>A sede de <I>status</I>    e de considera&ccedil;&atilde;o social tamb&eacute;m se mata com vinho do Porto!&quot;<A HREF="#18"><SUP>18</SUP></A>    N&atilde;o se confunda, no entanto, fideliza&ccedil;&atilde;o a esta pr&aacute;tica    — motivada, n&atilde;o raro, por desejos de ascens&atilde;o social, de concretiza&ccedil;&atilde;o    real ou virtual — com fideliza&ccedil;&atilde;o de clientela a uma determinada    marca ou a um determinado vinho do Porto. N&atilde;o seria, no entanto, pertinente    enveredarmos por a&iacute; neste tipo de apresenta&ccedil;&atilde;o. </P>     <P>&Eacute; &oacute;bvio que n&atilde;o estamos perante os dois &uacute;nicos contextos poss&iacute;veis de acolhimento do vinho do Porto, pois entre um e outro, poder&iacute;amos apresentar uma s&eacute;rie de cen&aacute;rios poss&iacute;veis. Iremos, no entanto, simplificar, ficando-nos apenas por um vasto, e por conseguinte heterog&eacute;neo, contexto. Assim, entre um e outro iremos abordar agora um contexto trivial, isto &eacute;, um contexto de acolhimento de consumo de vinho do Porto no seio das fam&iacute;lias, no quotidiano. E, a prop&oacute;sito disto, iremos abordar mudan&ccedil;as, pr&aacute;ticas ou simb&oacute;licas, reais ou virtuais. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>N&atilde;o percamos de vista que n&atilde;o nos situamos nos (dis)sabores provocados por um excesso de &aacute;lcool que se repercute nas dimens&otilde;es v&aacute;rias que circunscrevem o pr&oacute;prio indiv&iacute;duo, desde a fam&iacute;lia, o trabalho e o lazer, por exemplo; n&atilde;o deixa de ser curiosa, no entanto, uma certa contradi&ccedil;&atilde;o, que situar&iacute;amos num campo balizado pela hist&oacute;ria e pela economia, entre o interesse em fomentar as vendas e o consumo, por um lado, e as novas exig&ecirc;ncias legislativas que levam &agrave; execu&ccedil;&atilde;o de fortes san&ccedil;&otilde;es em indiv&iacute;duos que violam a taxa de alcoolemia permitida por lei, por outro lado. N&atilde;o &eacute;, contudo, este tipo de patamar de apropria&ccedil;&atilde;o que nos interessa neste momento. </P>     <P>&nbsp;</P> <B>    <P>Alguns cen&aacute;rios do quotidiano</P> </B>      <P>Pelo que foi dito anteriormente pode aceitar-se que o vinho do Porto n&atilde;o    &eacute; uma bebida de consumo di&aacute;rio para a grande maioria das fam&iacute;lias    portuguesas, nem uma bebida que combine com espa&ccedil;os amplos e ruidosos    como o s&atilde;o, por exemplo, as discotecas e similares. De acordo com estere&oacute;tipos    dominantes, o vinho do Porto n&atilde;o combina com um ritmo de vida acelerado;    pelo contr&aacute;rio, ter em aten&ccedil;&atilde;o a sua vertente de culto,    obriga a um cen&aacute;rio de acolhimento intimista, requintado, distinto e,    por conseguinte, coadunado com um determinado estilo de vida. H&aacute; todo    um clima emocional transferido para o momento que se deseja de partilha escolhida,    assim como h&aacute; todo um despojamento de si que inebria o pr&oacute;prio    ambiente com o car&aacute;cter prioritariamente atribu&iacute;do ao vinho do    Porto: eleg&acirc;ncia, calma, requinte e distin&ccedil;&atilde;o. <a name="top19"></a>Neste    cen&aacute;rio impera uma determinada atitude comportamental que se prolonga    da compra desse bem ao seu consumo: num determinado espa&ccedil;o, com determinada    companhia, num determinado tempo; referimo-nos, enfim, a um quadro alimentar    espec&iacute;fico que torna poss&iacute;vel este cen&aacute;rio, que se pode    considerar familiar.<A HREF="#19"><SUP>19</SUP></A> Note-se que, no seio das    fam&iacute;lias, &eacute; precisamente o quadro alimentar, no que respeita &agrave;    integra&ccedil;&atilde;o do vinho do Porto, que faz variar os cen&aacute;rios    dom&eacute;sticos. &Eacute; evidente que a rela&ccedil;&atilde;o que as fam&iacute;lias    estabelecem com o vinho do Porto &eacute; vari&aacute;vel. <a name="top20"></a>Tendo    em linha de conta a presen&ccedil;a dum contexto de &quot;viv&ecirc;ncia plural    e multifacetada evidenciada nas pr&aacute;ticas, consumos e op&ccedil;&otilde;es    dos indiv&iacute;duos&quot;,<A HREF="#20"><SUP>20</SUP></A> n&atilde;o &eacute;,    contudo, imposs&iacute;vel encontrarmos um tra&ccedil;o comum que, com maior    ou menor rigor, nos permita falar em grandes tend&ecirc;ncias. <a name="top21"></a>&Eacute;    assim que, se, por um lado, &eacute; leg&iacute;timo falar-se em democratiza&ccedil;&atilde;o    do consumo do vinho do Porto — &eacute; aceit&aacute;vel a exist&ecirc;ncia    de uma garrafa de vinho do Porto na maioria dos lares portugueses, ainda que    o seu consumo se fique, potencialmente por uma ou duas garrafas-ano —<A HREF="#21"><SUP>21</SUP></A>    por outro, h&aacute; que n&atilde;o confundir essa democratiza&ccedil;&atilde;o,    que se traduz num alargamento da conquista de clientela, com uma clientela especializada,    entendida e defensora do ritual confradiano imputado aos elevados tipos de vinho    do Porto, ou, aos do topo da gama. <a name="top22"></a>O que queremos dizer    com isto &eacute; que, apesar de tudo, o consumo sistem&aacute;tico e frequente    de vinho do Porto nas fam&iacute;lias parece estar ainda longe de fazer parte    da <I>ordem do dia</I>; h&aacute; mesmo certas reservas em adquirir-se uma garrafa    de vinho do Porto topo de gama para um consumo di&aacute;rio, ou quase, na generalidade    das fam&iacute;lias portuguesas, excluindo alguns c&iacute;rculos perfeitamente    integrados nestes meandros.<A HREF="#22"><SUP>22</SUP></A> </P>     <P>Ainda no que respeita &agrave; democratiza&ccedil;&atilde;o do vinho do Porto,    valeria a pena referir-se, ainda que brevemente, a grande quantidade de marcas    e tipos deste vinho de gama diversa, nos hipermercados, locais de consumo adequados    a um estilo de vida moderno e urbano, permitindo num curto per&iacute;odo de    tempo adquirir-se uma vast&iacute;ssima gama de produtos diferenciados para    o lar. A acelera&ccedil;&atilde;o da vida moderna obriga a uma economia de tempo.    Por conseguinte, opta-se, com uma frequ&ecirc;ncia significativa, por se adquirir    no mesmo local onde se compram outros bens dom&eacute;sticos — hipermercado    —, a garrafa de vinho do Porto que se necessita, seja para consumo pr&oacute;prio,    seja para oferta. A&iacute;, ao contr&aacute;rio do que acontece nas lojas tradicionais    para o efeito, que ainda v&atilde;o permanecendo nas (grandes) cidades, a escolha    &eacute; presidida, nas mais das vezes, por uma autogest&atilde;o que privilegia    essencialmente o pre&ccedil;o como garantia da qualidade, tal como j&aacute;    demos conta anteriormente. Enquanto na loja manda a tradi&ccedil;&atilde;o,    a rela&ccedil;&atilde;o pessoal estabelecida entre vendedor e cliente permite    a simula&ccedil;&atilde;o de uma intimidade compat&iacute;vel com a intimidade    proporcionada por uma pr&aacute;tica requintada e interiorizada por um (re)conhecido    ritual inerente ao vinho do Porto. &Eacute; assim que, nos dias de hoje, a loja    tradicional, de prefer&ecirc;ncia com vendedores antigos e de gestos tamb&eacute;m    tradicionais, e inclusive a pr&oacute;pria garrafeira enquanto loja especializada,    cumprem uma fun&ccedil;&atilde;o social de elevado significado: os ensinamentos,    a educa&ccedil;&atilde;o, a cultura v&iacute;nica, que o vendedor especializado    esteja apto a fornecer a um cliente que, por for&ccedil;a das circunst&acirc;ncias,    mormente constrangimentos sociais, tenha necessidade de entrar a fundo no mundo    consumista do vinho do Porto. Quando levado ao pormenor, assiste-se mesmo a    uma quase anteprepara&ccedil;&atilde;o para o ritual que se pretende conhecer    e dominar. Capitalizam-se, ent&atilde;o, sempre que poss&iacute;vel, conhecimentos    reais sobre as combina&ccedil;&otilde;es permitidas entre o tipo de vinho do    Porto e o local, a hora, a companhia, etc., isto &eacute;, com o quadro alimentar    leg&iacute;timo ou tido como tal. Neste sentido, considera A. Teixeira Fernandes    que &quot;a escolha dos vinhos e o seu uso obedecem (…) a um ritual. Cada bebida    est&aacute; sujeita a regras e a modalidades pr&oacute;prias de utiliza&ccedil;&atilde;o.    H&aacute; momentos adequados, assim como lugares espec&iacute;ficos para ser    tomada. Obedecem ainda a rituais pr&oacute;prios. <a name="top23"></a>Uma ordem    convencional regula o seu consumo. &Eacute; n&atilde;o s&oacute; um consumo    cultural, como ainda um complexo cultural.&quot;<A HREF="#23"><SUP>23</SUP></A>    Acresce ainda o facto de que o vinho, e nomeadamente o do Porto, n&atilde;o    &eacute; s&oacute; para se beber paulatinamente, &eacute; tamb&eacute;m para    se cheirar. Assim, quando o recipiente se proporciona, cumprem-se as duas fun&ccedil;&otilde;es    em simult&acirc;neo: saboreia-se a bebida e <I>saboreia-se</I> o cheiro. E isto    faz parte de um ritual, conhecido por uns, reconhecido por outros, imitado por    alguns e de todo desconhecido pelos demais. E como tal, uma vez interiorizado,    adquire visibilidade atrav&eacute;s da pr&aacute;tica que n&atilde;o &eacute;    outra coisa sen&atilde;o uma exterioriza&ccedil;&atilde;o cultural e tamb&eacute;m    social. </P>     <P>N&atilde;o deixa de ser interessante verificar-se que o facto de haver vinhos    do Porto cuja abertura da garrafa obriga &agrave; sua ingest&atilde;o total,    sob a pena de o alterar, dadas as suas caracter&iacute;sticas organol&eacute;pticas,    n&atilde;o se reflecte num conhecimento generalizado &agrave; popula&ccedil;&atilde;o.    Antes, pelo contr&aacute;rio, a atitude t&iacute;pica que se verifica &eacute;    a de a abertura da garrafa do vinho do Porto n&atilde;o coincidir com o seu    esvaziamento imediato, que se vai alastrando no tempo, podendo ali estar meses    seguidos. Tamb&eacute;m a trasfega do vinho do Porto da sua garrafa de origem    para um recipiente pr&oacute;prio (o <I>decanter</I>), n&atilde;o &eacute; comum    para a maioria das fam&iacute;lias. <a name="top24"></a>Estamos perante actos    diferenciados, pass&iacute;veis de se traduzirem em l&oacute;gicas de distin&ccedil;&atilde;o    social de uns face aos demais.<A HREF="#24"><SUP>24</SUP></A> </P>     <P>&nbsp;</P> <B>    <P>Considera&ccedil;&otilde;es finais</P></B>      <P>O escasso espa&ccedil;o de que dispomos &eacute; um forte condicionador para a apresenta&ccedil;&atilde;o de assuntos que ainda gostar&iacute;amos de trazer aqui para debate. </P>     <P><a name="top25"></a>Terminar&iacute;amos ent&atilde;o alertando para um posicionamento    etnocentrista e centralizado num determinado meio social e que legitima como    ritual inerente ao vinho do Porto apenas o que &eacute; considerado mais distinto    e requintado, que passa por uma s&eacute;rie de passos desde, por exemplo, a    observa&ccedil;&atilde;o do produto no recipiente, cheiro, prova at&eacute;    &agrave; ingest&atilde;o paulatina.<A HREF="#25"><SUP>25</SUP></A> Entenda-se    que a origem do requinte e da distin&ccedil;&atilde;o de que se fala situa-se,    na sua ess&ecirc;ncia, mais em rituais do passado vividos pelas antigas franjas    das classes superiores. Os rituais vividos pelas actuais franjas das classes    superiores &eacute;, em alguns casos, uma pr&aacute;tica recente e apropriada    premeditadamente, como recente &eacute;, em muitos casos, a sua ascens&atilde;o    socioecon&oacute;mica. Isto tem tanto mais significado quanto mais essa ascens&atilde;o    se pautar pelo patamar econ&oacute;mico. Sem ser nossa inten&ccedil;&atilde;o    neste momento dissertarmos sobre o ritual enquanto conceito, dir&iacute;amos,    no entanto, que o vinho do Porto cont&eacute;m, pelo menos em embri&atilde;o,    uma s&eacute;rie de rituais poss&iacute;veis e reais porquanto contextualizados.    Note-se que &quot;ritualizar as coisas significa n&atilde;o s&oacute; realiz&aacute;-las    em obedi&ecirc;ncia a normas, mas ainda em d&aacute;-las em espect&aacute;culo.    As classes superiores tendem a encenar o seu quotidiano existencial em m&uacute;ltiplas    modalidades, de que as refei&ccedil;&otilde;es s&atilde;o um elemento importante.    A liturgia pr&oacute;pria do repasto desenvolve nestas classes a consci&ecirc;ncia    da sua diferen&ccedil;a, enquanto mundo &agrave; parte. <a name="top26"></a>As    classes sociais marcam as suas dist&acirc;ncias e afirmam a sua respeitabilidade    mediante a observ&acirc;ncia de conveni&ecirc;ncias, de ritualiza&ccedil;&otilde;es    e de cerimoniais.&quot;<A HREF="#26"><SUP>26</SUP></A> </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Como considera&ccedil;&atilde;o final, gostar&iacute;amos de sublinhar que, para respeitar a pluralidade e a complexidade das pr&aacute;ticas sociais importa ter em linha de conta a exist&ecirc;ncia de v&aacute;rias legitimidades culturais, pr&oacute;prias de meios sociais espec&iacute;ficos, onde se geram diferentes representa&ccedil;&otilde;es, apropria&ccedil;&otilde;es e consumos, sem que nenhum se apresente <I>a priori</I> como o &uacute;nico poss&iacute;vel ou desej&aacute;vel. Ent&atilde;o, para o mesmo objecto podem (co)existir normas espec&iacute;ficas, diferentes entre si, e contextualizadas em meios sociais tamb&eacute;m diferentes. E o vinho do Porto ilustra bem esta situa&ccedil;&atilde;o. </P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P> <B>    <P>Notas</P></B>      <P><A NAME="1" id="1"></A><a href="#top1">1</a> O presente artigo insere-se na    fase inicial do projecto de investiga&ccedil;&atilde;o para doutoramento em    Sociologia e constitui uma vers&atilde;o revista da comunica&ccedil;&atilde;o    apresentada ao I Simp&oacute;sio da Associa&ccedil;&atilde;o Internacional de    Hist&oacute;ria e Civiliza&ccedil;&atilde;o da Vinha e do Vinho, realizado em    El Puerto de Santa Mar&iacute;a, Espanha, de 18 a 20 de Mar&ccedil;o de 1999.  </P>     <P><A NAME="2" id="2"></A><a href="#top2">2</a> N&atilde;o iremos tratar aqui    da(s) diferen&ccedil;a(s) a n&iacute;vel cultural, que, a prop&oacute;sito do    vinho do Porto, existem entre Portugal e Inglaterra. Conv&eacute;m, no entanto,    n&atilde;o esquecer a import&acirc;ncia das mesmas, dados os seus reflexos na    pr&oacute;pria pr&aacute;tica em si, como ser&aacute; o caso, por exemplo, do    recipiente para o beber, das combina&ccedil;&otilde;es alimentares para o acompanhar    e do seu pr&oacute;prio uso, entre outras. </P>     <P><A NAME="3" id="3"></A><a href="#top3">3</a> J.C. Valente-Perfeito, <I>Arte    de Beber o Vinho do Porto</I>, Porto, Instituto do Vinho do Porto, 1935, p.    13. Sobre este assunto, ver tamb&eacute;m, do mesmo autor, <I>O Vinho do Porto...    Esse Desconhecido!</I>, Porto, suplemento ao caderno n.º 76, (Abril 1946) do    Instituto do Vinho do Porto, 1946. </P>     <P><A NAME="4" id="4"></A><a href="#top4">4</a> J. C. Valente-Perfeito, <I>Arte    de Beber o Vinho do Porto</I>, cit., respectivamente pp. 6 e 12. </P>     <P><A NAME="5" id="5"></A><a href="#top5">5</a> Segundo Fran&ccedil;ois Guichard,    o seu valor decresce de 37% em 1875, para 35% em 1924, 26% em 1931, 18-19% em    1936-37, 8% em 1946 e 4% em 1956; nos anos 60 decresce ainda para 2-3%. Acrescenta    ainda o autor ter-se mantido &quot;doravante a este modesto n&iacute;vel, apesar    de um novo e importante surto quantitativo das vendas&quot;. Cfr. Fran&ccedil;ois    Guichard, &quot;O Vinho do Porto e mais alguns: gest&atilde;o de imagem&quot;,    in <I>Douro, Estudos e Documentos 3</I>, Instituto do Vinho do Porto, Universidade    do Porto, Universidade de Tr&aacute;s-os-Montes e Alto Douro, 1997, p. 146.    Para informa&ccedil;&atilde;o mais detalhada valeria a pena consultar-se Concei&ccedil;&atilde;o    Andrade Martins, <I>Mem&oacute;ria do Vinho do Porto</I>, direc&ccedil;&atilde;o    e pref&aacute;cio de Ant&oacute;nio Barreto, Lisboa, Instituto de Ci&ecirc;ncias    Sociais da Universidade de Lisboa, 1990, onde a autora apresenta o historial    inerente ao com&eacute;rcio externo do vinho do Porto; ver nomeadamente a Primeira    Parte, pp. 25-282. </P>     <P><A NAME="6" id="6"></A><a href="#top6">6</a> Fran&ccedil;ois Guichard, &quot;O    Vinho do Porto ...&quot; , cit., p. 147. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><A NAME="7" id="7"></A><a href="#top7">7</a> Note-se, a este respeito, a import&acirc;ncia    de &quot;uma nova popula&ccedil;&atilde;o de risco, composta por m&eacute;dicos,    vendedores, advogados, jornalistas, ju&iacute;zes e jovens universit&aacute;rios    que se iniciam descontraidamente na rela&ccedil;&atilde;o com o &aacute;lcool    e escorregam com uma facilidade assustadora para a depend&ecirc;ncia&quot;,    escreve Martim Avillez Figueiredo, apesar de num outro contexto. Martim Avillez    Figueiredo, &quot;Reportagem alcoolismo vidas na sombra&quot;, <I>Grande Reportagem</I>,    nº 96, 2 ª s&eacute;rie, Mar&ccedil;o 1999. </P>     <P><A NAME="8" id="8"></A><a href="#top8">8</a> Estamos perante uma constru&ccedil;&atilde;o    de &quot;gosto de luxo&quot; que &eacute;, segundo Bourdieu, um tipo de gosto    pr&oacute;prio &quot;dos indiv&iacute;duos que s&atilde;o o produto de condi&ccedil;&otilde;es    materiais de exist&ecirc;ncia definidos pela dist&acirc;ncia &agrave; necessidade,    pelas liberdades ou (...) as facilidades que asseguram a posse de um capital&quot;.    Op&otilde;e-se a este, o &quot;gosto de necessidade&quot;, que, segundo o autor    &eacute; o tipo de gosto que se ajusta &agrave;s &quot;necessidades de que eles    s&atilde;o produto&quot;. Cfr. P. Bourdieu, <I>La Distinction: Critique sociale    du jugement</I>, Paris, Les &Eacute;ditions de Minuit, 1972, p. 198. </P>     <P><A NAME="9" id="9"></A><a href="#top9">9</a> Trata-se de uma lei de transmiss&atilde;o    oral, e por conseguinte, n&atilde;o h&aacute; registos escritos sobre a mesma.    S&atilde;o dignas de interesse as letras das can&ccedil;&otilde;es acad&eacute;micas    que fazem a apologia do vinho. Por n&atilde;o ser o espa&ccedil;o ideal, inibimo-nos    de as transcrever aqui. </P>     <P><A NAME="10" id="10"></A><a href="#top10">10</a> O <I>vintage</I> &eacute;    um tipo de vinho do Porto que, por defini&ccedil;&atilde;o, envelhece na garrafa.    &quot;Vale a pena esperar 10 ou 15 anos sobre a data de engarrafamento (...)&quot;.    Na grande maioria dos outros tipos de Vinho do Porto j&aacute; o mesmo n&atilde;o    acontece. Por exemplo, &quot;nas colheitas: o vinho n&atilde;o melhora as suas    caracter&iacute;sticas ap&oacute;s o engarrafamento. Pelo contr&aacute;rio,    poder&aacute; adquirir aromas estranhos pelo facto de sofrer longos per&iacute;odos    de guarda (...)&quot;. O mesmo acontece para os &quot;vinhos com indica&ccedil;&atilde;o    de idade 10, 20, 30 e mais de 40 anos.&quot; &quot;Salvo raras excep&ccedil;&otilde;es    os vinhos brancos n&atilde;o devem ser envelhecidos na garrafa. Isto mais verdade    &eacute; no caso dos vinhos secos e extra-secos, onde se deve preservar uma    oxida&ccedil;&atilde;o indesej&aacute;vel dos aromas&quot;, in <I>Viagem ao    Mundo do Vinho do Porto</I>, CD-ROM Interactivo Vinho do Porto, Instituto do    Vinho do Porto, s.d., <a href="http://www.ivp.pt" target="_blank">WWW.ivp.pt</a>. </P>     <P><A NAME="11" id="11"></A><a href="#top11">11</a> J. C. Valente-Perfeito, <I>Arte    de Beber o Vinho do Porto</I>, cit., pp. 14-15. </P>     <P><A NAME="12" id="12"></A><a href="#top12">12</a> J. C. Valente-Perfeito, <I>Arte    de Beber o Vinho do Porto</I>, cit., pp. 19-20. </P>     <P><a name="13" id="13"></a><a href="#top13">13</a> Ant&oacute;nio Barreto, &quot;Pref&aacute;cio&quot;,    in Concei&ccedil;&atilde;o Andrade Martins, op cit., p. 8. </P>     <P><A NAME="14" id="14"></A><a href="#top14">14</a> Se calhar, com as evolu&ccedil;&otilde;es    lingu&iacute;sticas, nomeadamente em certos c&iacute;rculos sociais, em vez    de nos referirmos a um tratamento por tu dever&iacute;amos antes referirmo-nos    a um conhecimento real do vinho do Porto, como o tratar por <I>o Menino</I>.  </P>     <P><A NAME="15" id="15"></A><a href="#top15">15</a> Vd. Pierre Bourdieu, por exemplo    em <I>O Poder Simb&oacute;lico</I>, Lisboa, Difel, 1989. </P>     <P><a name="16" id="16"></a><a href="#top16">16</a> N&atilde;o se trata de uma    marca de vinho do Porto. Apenas se pretende, com essa designa&ccedil;&atilde;o    (vinho do Porto X), representar um qualquer vinho do Porto tido como de gama    elevada. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><A NAME="17" id="17"></A><a href="#top17">17</a> Pierre Bourdieu, e posteriormente    Madureira Pinto inspirado no primeiro, abordam este mecanismo como a &quot;interioriza&ccedil;&atilde;o    da exterioridade&quot;, para referirem precisamente a import&acirc;ncia da absor&ccedil;&atilde;o    (aprendizagem) de pr&aacute;ticas exteriores. Ora &eacute; inevit&aacute;vel    falar-se no seu contr&aacute;rio — &quot;exterioriza&ccedil;&atilde;o do interiorizado&quot;    — para evidenciar a pr&oacute;pria pr&aacute;tica em si. Dito por palavras mais    simples: atrav&eacute;s da socializa&ccedil;&atilde;o <I>aprende-se a fazer</I>    — interioriza-se o que &eacute; ensinado, o que &eacute; visto — para a posteriori,    se <I>poder fazer</I> tamb&eacute;m de igual forma ou de forma semelhante —    exterioriza-se o que se havia interiorizado. Cfr. Pierre Bourdieu, <I>La Reproduction</I>,    Paris, Les &Eacute;ditions de Minuit, 1971; Madureira Pinto, <I>Ideologias:    Invent&aacute;rio Cr&iacute;tico dum Conceito</I>, Lisboa, Presen&ccedil;a/GIS,    1987, pp. 108-114. </P>     <P><A NAME="18" id="18"></A><a href="#top18">18</a> Ant&oacute;nio Barreto, &quot;Pref&aacute;cio&quot;,    op cit., pp. 9-10. </P>     <P><A NAME="19" id="19"></A><a href="#top19">19</a> Por <I>quadro alimentar</I>    entendemos, como o pr&oacute;prio nome indica, um vasto quadro inerente &agrave;    pr&aacute;tica alimentar no seu conjunto, e que integra conjuntamente &quot;o    que se come, onde se come, quando se come, com quem se come, abrangendo ainda    o como se come&quot;. Note-se que o &quot;como se come&quot;, por si, comp&otilde;e    o que entendemos por estilo alimentar na medida em que refere &quot;a maneira    (especial) de se alimentar&quot;. Assim, o quadro alimentar recobre o pr&oacute;prio    estilo alimentar, que, por ser vari&aacute;vel, faz variar o primeiro, pass&iacute;vel    de adquirir sinais de distin&ccedil;&atilde;o. Cfr. D. Magalh&atilde;es, <I>Diferencia&ccedil;&otilde;es    Sociais entre Pr&aacute;ticas Alimentares</I>, provas de aptid&atilde;o pedag&oacute;gica,    Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1994, p. 12, (policopiado). No    sentido em que a bebida faz parte integrante duma pr&aacute;tica alimentar,    o quadro alimentar aplica-se, por direito pr&oacute;prio, ao assunto abordado.  </P>     <P><A NAME="20" id="20"></A><a href="#top20">20</a> D. Magalh&atilde;es, idem,    p.3. </P>     <P><a name="21" id="21"></a><a href="#top21">21</a> Conclus&atilde;o obtida por    um estudo realizado pela APEME (&Aacute;rea de Planeamento e Estudo de Mercado),    e da responsabilidade do Instituto do Vinho do Porto, sobre &quot;Atitudes,    h&aacute;bitos e comportamentos do consumidor do vinho do Porto&quot;, relat&oacute;rios    de Maio/Junho e Julho de 1994. </P>     <P><A NAME="22" id="22"></A><a href="#top22">22</a> Gostar&iacute;amos de esclarecer    n&atilde;o termos ainda procedido a um estudo emp&iacute;rico sistem&aacute;tico    e rigoroso sobre esta mat&eacute;ria. Pelo contr&aacute;rio, algumas constata&ccedil;&otilde;es    s&atilde;o-no apenas enquanto preliminares, decorrendo quer de entrevistas/conversas    informais, quer de leituras sobre um ou outro tipo de estudo j&aacute; mais    avan&ccedil;ado sobre esta tem&aacute;tica. </P>     <P><A NAME="23" id="23"></A><a href="#top23">23</a> A. Teixeira Fernandes, &quot;Ritualiza&ccedil;&atilde;o    da comensalidade&quot;,<I> Sociologia — Revista da Faculdade de Letras do Porto</I>,    7, 1997, p.26. </P>     <P><a name="24" id="24"></a><a href="#top24">24</a> Podemos encontrar vastos tra&ccedil;os    te&oacute;ricos a este prop&oacute;sito em v&aacute;rias an&aacute;lises bourdianas,    cujo tema se tem revelado bastante caro ao autor. Neste contexto, veja-se, por    exemplo, entre outras, a sua obra fundamental: <I>La Distinction</I>, cit. Estamos    perante o que se pode considerar o &quot;desenho espont&acirc;neo da diferen&ccedil;a    no espa&ccedil;o social&quot;, que, ressaltando pr&aacute;ticas socioculturais    diferentes, revestem-se simbolicamente do sentido de proximidade versus dist&acirc;ncia    e vai conferindo demarca&ccedil;&otilde;es sociais significativas. In D. Magalh&atilde;es,    <I>Diferencia&ccedil;&otilde;es Sociais</I>, cit., pp. 9-10. </P>     <P><A NAME="25" id="25"></A><a href="#top25">25</a> Informa&ccedil;&otilde;es    mais pormenorizadas sobre &quot;exig&ecirc;ncias&quot; sociais a este n&iacute;vel    podem ser encontradas, entre outros, em Ramiro Mour&atilde;o, <I>A Prop&oacute;sito    da Garrafa e do Copo de Vidro na Hist&oacute;ria do Vinho do Porto</I>, Porto,    Livraria Fernando Machado, 1946. </P>     <P><A NAME="26" id="26"></A><a href="#top26">26</a> A. Teixeira Fernandes, &quot;Ritualiza&ccedil;&atilde;o    da comensalidade&quot;, cit., pp. 29-30. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P> <B>    <P>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</P></B>      <!-- ref --><P>Bourdieu, P. (1971), <I>La Reproduction</I>, Paris, Les &Eacute;ditions de Minuit. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000076&pid=S0873-6529200000010000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>Bourdieu, P. (1972), <I>La Distinction — Critique Sociale du Jugement</I>, Paris, Les &Eacute;ditions de Minuit. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000077&pid=S0873-6529200000010000200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>Bourdieu, P. (1989), <I>O Poder Simb&oacute;lico</I>, Lisboa, Difel. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000078&pid=S0873-6529200000010000200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>Fernandes, A. T. (1997), &quot;Ritualiza&ccedil;&atilde;o da comensalidade&quot;, <I>Sociologia — Revista da Faculdade de Letras do Porto</I>, 7. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000079&pid=S0873-6529200000010000200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>Figueiredo, M. A. (1999), &quot;Reportagem alcoolismo — vidas na sombra&quot;, <I>Grande Reportagem</I>, n.º 96, 2 ª s&eacute;rie, Mar&ccedil;o. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000080&pid=S0873-6529200000010000200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>Guichard, F. (1997), &quot;O vinho do Porto e mais alguns: gest&atilde;o de imagem&quot;, in <I>Douro, Estudos e Documentos 3</I>, Instituto do Vinho do Porto, Universidade do Porto, Universidade de Tr&aacute;s-os-Montes e Alto Douro. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000081&pid=S0873-6529200000010000200006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>Magalh&atilde;es, D. (1994), <I>Diferencia&ccedil;&otilde;es Sociais entre Pr&aacute;ticas Alimentares</I>, provas de aptid&atilde;o pedag&oacute;gica, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000082&pid=S0873-6529200000010000200007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>Martins, C. A. (1990), <I>Mem&oacute;ria do Vinho do Porto</I>, direc&ccedil;&atilde;o e pref&aacute;cio de Ant&oacute;nio Barreto, Lisboa, Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais da Universidade de Lisboa. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000083&pid=S0873-6529200000010000200008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>Mour&atilde;o, R. (1946), <I>A Prop&oacute;sito da Garrafa e do Copo de Vidro na Hist&oacute;ria do Vinho do Porto</I>, Porto, Livraria Fernando Machado. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000084&pid=S0873-6529200000010000200009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>Pinto, M. (1987), <I>Ideologias: Invent&aacute;rio Cr&iacute;tico dum Conceito</I>, Lisboa, Presen&ccedil;a/GIS. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000085&pid=S0873-6529200000010000200010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>S. A. (1994), &quot;Atitudes, h&aacute;bitos e comportamentos do consumidor do vinho do Porto&quot;, APEME (&Aacute;rea de Planeamento e Estudo de Mercado), Instituto do Vinho do Porto, relat&oacute;rios de Maio/Junho e Julho. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000086&pid=S0873-6529200000010000200011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>Valente-Perfeito, J. C. (1935), <I>Arte de Beber o Vinho do Porto</I>, Porto, Instituto do Vinho do Porto. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000087&pid=S0873-6529200000010000200012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>Valente-Perfeito, J. C. (1946), <I>O Vinho do Porto... esse desconhecido!</I>, Porto, Suplemento ao caderno nº &nbsp;76 do Instituto do Vinho do Porto (Abril 1946). &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000088&pid=S0873-6529200000010000200013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P><I>Viagem ao Mundo do Vinho do Porto</i>, CD-ROM Interactivo Vinho do Porto,    Instituto do Vinho do Porto, s.d., <a href="http://www.ivp.pt" target="_blank">WWW.ivp.pt</a>.  &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000089&pid=S0873-6529200000010000200014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><A NAME="back"></A> <a href="#top"><sup>*</sup></a>Dulce Maria da Gra&ccedil;a    Magalh&atilde;es. Investigadora do Instituto de Sociologia da&nbsp;Faculdade    de Letras da Universidade do Porto e docente da licenciatura em&nbsp;Sociologia    da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Contacto: Via&nbsp;Panor&acirc;mica,    s/n, Apartado 55038, 4051-452, Porto. Tel.: 226077100, ext. 3249, fax: 351-226091610.  </P>     ]]></body>
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