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</front><body><![CDATA[ <P> <strong>Um Contributo acerca da Absten&ccedil;&atilde;o Eleitoral em Revista</strong></P>     <P> <B>[Andr&#233; Freire e Pedro Magalh&#227;es (2002), </B><I><B>A Absten&#231;&#227;o Eleitoral em&nbsp;Portugal,</B></I><B>  Lisboa, Instituto de Ci&#234;ncias Sociais da Universidade de Lisboa, ISBN 972-671-086-3]</B> </P>     <P> <I>Paula do Esp&#237;rito Santo<a href="#1">*</a></I> <a name="top1"></a></P>     <P>&nbsp;</P>      <P> O estudo dos fen&#243;menos ligados &#224;s decis&#245;es de voto, onde se inclui o comportamento  eleitoral e a absten&#231;&#227;o, tem sofrido evolu&#231;&#245;es bastante d&#237;spares em termos  de an&#225;lise, quer entre os v&#225;rios contextos democr&#225;ticos nos quais s&#227;o efectuados,  quer em termos do relevo que &#233; dado aos m&#250;ltiplos objectos de an&#225;lise em  debate. Ou seja, nem todos os pa&#237;ses empreenderam estudos, nestas mat&#233;rias,  da mesma forma nem simultaneamente, se considerarmos pelo menos os &#250;ltimos  40 anos do s&#233;culo XX, o que, necessariamente, leva a que as compara&#231;&#245;es  entre contextos sejam complexas ou at&#233; mesmo invi&#225;veis. Acresce outro dado  que dificulta a compara&#231;&#227;o entre fen&#243;menos em diferentes contextos, que  se traduz em que nem sempre os crit&#233;rios de an&#225;lise est&#227;o uniformizados  ou s&#227;o aplicados de forma id&#234;ntica, n&#227;o permitindo necessariamente compara&#231;&#245;es  metodologicamente v&#225;lidas e fidedignas. Neste cen&#225;rio, e considerando o  atraso portugu&#234;s em mat&#233;ria de estudo no &#226;mbito das decis&#245;es de voto, a  tarefa de empreender an&#225;lises acerca desta &#225;rea depara-se, por um lado,  com a vis&#227;o aliciante de empreender e desbravar uma tem&#225;tica ainda pouco  explorada cientificamente, mas tamb&#233;m com a conting&#234;ncia de conceber uma  constru&#231;&#227;o, de entre as constru&#231;&#245;es iniciais, que se apresente consistente  e s&#243;lida em termos cient&#237;ficos. Desta consist&#234;ncia e solidez depende a  continuidade em termos de an&#225;lise, para que cada investigador n&#227;o tenha  de caminhar sozinho nem se veja na conting&#234;ncia de, a cada passo, ter de  recome&#231;ar tudo de novo. </P>     <P> A an&#225;lise    da absten&#231;&#227;o eleitoral revelou-se uma preocupa&#231;&#227;o tardia,    posterior &#224; an&#225;lise do comportamento eleitoral. A mesma n&#227;o foi    contemplada nos estudos norte-americanos, pioneiros nesta mat&#233;ria (Lazarsfeld    e outros, 1944; Campbell e outros<I>, </I>1980), os quais se preocuparam com    a caracteriza&#231;&#227;o dos factores explicativos do comportamento eleitoral.    Na Europa os n&#237;veis de absten&#231;&#227;o, genericamente, seriam mais    baixos dos que os norte-americanos (exceptuando o caso da Su&#237;&#231;a),    sendo que uma das primeiras aproxima&#231;&#245;es ao fen&#243;meno da absten&#231;&#227;o    dar-se-ia na d&#233;cada de 1960, atrav&#233;s de Georges Vedel (1962), quando    este abordou o fen&#243;meno da despolitiza&#231;&#227;o que, aparentemente,    parecia introduzir-se na sociedade francesa. De forma mais directa, em 1968,    Lancelot abordaria a absten&#231;&#227;o eleitoral em Fran&#231;a, utilizando    os mesmos crit&#233;rios de an&#225;lise do comportamento eleitoral, para estudar    este fen&#243;meno e recorrendo tamb&#233;m a sondagens pol&#237;ticas. Aspectos    tais como as condi&#231;&#245;es favor&#225;veis &#224; absten&#231;&#227;o    ou os tipos de abstencionistas seriam contemplados na an&#225;lise de Lancelot.    Evolu&#231;&#245;es anal&#237;ticas acerca da absten&#231;&#227;o eleitoral    viriam a evidenciar a import&#226;ncia da integra&#231;&#227;o social na explica&#231;&#227;o    deste fen&#243;meno (Toinet e Subileau, 1989), salientando aspectos tais como    a conjuntura em que se realizam as elei&#231;&#245;es e o seu contexto (local,    nacional, europeu). Neste sentido, importa real&#231;ar que a an&#225;lise do    fen&#243;meno da absten&#231;&#227;o n&#227;o &#233; indiferente ao tipo de    elei&#231;&#227;o, &#224; volta em que a elei&#231;&#227;o se realiza (no caso    de elei&#231;&#245;es presidenciais), ao contexto democr&#225;tico de cada pa&#237;s    em an&#225;lise, em termos de consolida&#231;&#227;o pol&#237;tica, e a aspectos    metodol&#243;gicos, como a recolha de dados ser realizada em sondagem pr&#233;    ou p&#243;s-eleitoral. Em rela&#231;&#227;o a este &#250;ltimo aspecto, importa    real&#231;ar que os estudos baseados em recolhas de dados realizadas fora de    per&#237;odos de sufr&#225;gio produzem resultados diferenciados em termos de    contextualiza&#231;&#227;o do acto eleitoral e, como tal, n&#227;o permitem    uma an&#225;lise comparativa em termos id&#234;nticos &#224;s recolhas realizadas    em per&#237;odos pr&#243;ximos aos das elei&#231;&#245;es. </P>     <P> Num panorama bastante diversificado, em termos de caracteriza&#231;&#227;o do fen&#243;meno  da absten&#231;&#227;o, a an&#225;lise de Freire e Magalh&#227;es (2002), referente a <I>A Absten&#231;&#227;o  Eleitoral em Portugal</I>, procura &#147;em primeiro lugar, avaliar qual a import&#226;ncia  relativa da sub-inscri&#231;&#227;o nos cadernos eleitorais e da &#145;absten&#231;&#227;o t&#233;cnica&#146;  nas democracias da nossa &#225;rea geocultural. Em segundo lugar, pretende-se  tamb&#233;m aferir qual a posi&#231;&#227;o de Portugal no <I>ranking</I> internacional do abstencionismo,  tendo em conta cada um dos indicadores&#148; (p. 24). No mesmo estudo procura-se  ainda &#147;analisar o panorama evolutivo da absten&#231;&#227;o eleitoral portuguesa  nas elei&#231;&#245;es legislativas entre 1975-1999, confrontando os resultados da  absten&#231;&#227;o oficial com os da absten&#231;&#227;o real&#148;. Em termos de op&#231;&#245;es metodol&#243;gicas,  este estudo considerou apenas as democracias ocidentais longamente consolidadas  e as recentes do sul da Europa (Portugal, Espanha e Gr&#233;cia). Separaram-se  ainda os pa&#237;ses com e sem voto obrigat&#243;rio; e, nas democracias sem voto  obrigat&#243;rio, consideraram-se tr&#234;s grupos, como sejam os estados europeus,  n&#227;o europeus e aqueles com n&#237;veis de absten&#231;&#227;o &#147;extraordinariamente&#148; elevados  (casos da Su&#237;&#231;a e EUA). O per&#237;odo de an&#225;lise considerado foi de 1970-1999,  justificado pela tend&#234;ncia para a subida da absten&#231;&#227;o no mesmo. </P>     <P> Conclui-se e confirma-se o crescimento da absten&#231;&#227;o a partir da d&#233;cada  de 1980, verificando-se ainda que esse crescimento &#233; mais acentuado em  Portugal, onde ultrapassa os valores m&#233;dios de absten&#231;&#227;o registados em  outros pa&#237;ses da Europa ocidental. Esta subida da absten&#231;&#227;o em Portugal  &#233; concomitante com a subida da participa&#231;&#227;o eleitoral, a partir da d&#233;cada  de 1970. Para a justifica&#231;&#227;o deste aumento come&#231;a-se por avan&#231;ar com uma  explica&#231;&#227;o baseada no modelo do eleitor racional (<I>idem, ibidem</I>: 49-50),  remetendo-se para a testagem de algumas hip&#243;teses anal&#237;ticas do modelo,  nos cap&#237;tulos subsequentes, como forma responder ao aumento da absten&#231;&#227;o  em Portugal no per&#237;odo em an&#225;lise. De acordo com este modelo, o voto &#233;  concebido com base em custos e benef&#237;cios, baseados em pressupostos de  racionalidade econ&#243;mica. Partindo dos pressupostos do modelo das escolhas  racionais, relaciona-se o n&#237;vel de absten&#231;&#227;o &#147;real&#148; com a competitividade  nas elei&#231;&#245;es legislativas, embora este motivo explicativo nem sempre se  tenha verificado em todos os actos legislativos. Este &#233; um dos factores  explicativos, correntemente, explorado por aquele modelo. A avalia&#231;&#227;o dos  pressupostos de racionalidade econ&#243;mica remete para a aplica&#231;&#227;o de conceitos  matem&#225;ticos, cuja explora&#231;&#227;o, apesar das interpreta&#231;&#245;es enunciadas, n&#227;o  apresenta, nesta an&#225;lise, um suporte modelar clarificado. </P>     <P> Quando se analisam os &#147;tipos de elei&#231;&#245;es e taxas de absten&#231;&#227;o numa perspectiva  longitudinal e comparativa&#148;, no cap&#237;tulo 3, conclui-se pela explica&#231;&#227;o  do abstencionismo fortemente assente na conjuntura pol&#237;tica, traduzindo,  em grande medida, uma atitude de insatisfa&#231;&#227;o tempor&#225;ria e localizada perante  o funcionamento do sistema pol&#237;tico. Destaca-se ainda que a absten&#231;&#227;o pode  constituir um caminho ou &#147;via de sa&#237;da&#148; dos eleitores perante o partido,  permitindo assim a mudan&#231;a de orienta&#231;&#227;o pol&#237;tica (<I>ibidem</I>: 113). A import&#226;ncia  da competi&#231;&#227;o pol&#237;tica aparece real&#231;ada no cap&#237;tulo seguinte, que trata  das &#147;explica&#231;&#245;es e din&#226;micas da absten&#231;&#227;o eleitoral na Europa Ocidental  ao n&#237;vel agregado&#148;. Neste &#226;mbito, evidencia-se a capacidade de mobiliza&#231;&#227;o  das for&#231;as sociais e pol&#237;ticas no sentido da diminui&#231;&#227;o da absten&#231;&#227;o eleitoral.  &#201; desta forma que o decl&#237;nio da milit&#226;ncia sindical e partid&#225;ria, segundo  os autores, tem reflexos no aumento da absten&#231;&#227;o eleitoral. Neste cap&#237;tulo  opta-se por uma explica&#231;&#227;o sociol&#243;gica da absten&#231;&#227;o, onde t&#234;m destaque  os factores de natureza socioecon&#243;mica, ligados aos recursos materiais  e educacionais ou cognitivos, para enunciar alguns. </P>     <P> O cap&#237;tulo 6 trata dos    &#147;factores individuais e contextuais da absten&#231;&#227;o em Portugal    e nos restantes pa&#237;ses da Uni&#227;o Europeia&#148;. Refere-se, neste cap&#237;tulo,    a escassez de estudos em Portugal, em mat&#233;ria de comportamento eleitoral,    o que obsta a que se possam flexibilizar e melhor operacionalizar as an&#225;lises    e os conceitos nesta mat&#233;ria. Os factores individuais explicativos da participa&#231;&#227;o    e da absten&#231;&#227;o eleitorais sintetizam-se nos recursos, na integra&#231;&#227;o    social e nas atitudes pol&#237;ticas (<I>ibidem</I>: 131). Neste sentido, os    factores que se destacaram em termos explicativos da absten&#231;&#227;o eleitoral    foram j&#225; enunciados anteriormente, ou seja, o decl&#237;nio das taxas de    sindicaliza&#231;&#227;o e da capacidade mobilizadora dos partidos de massas.    Dos factores individuais explicativos da absten&#231;&#227;o nas elei&#231;&#245;es    legislativas e presidenciais de 1999 e 2001, em Portugal, destaca-se a idade,    no sentido em que quanto maior esta menor a probabilidade de absten&#231;&#227;o.    Outro aspecto a real&#231;ar &#233; a atitude de simpatia do eleitor por um    partido, que obsta a que este opte por n&#227;o votar. O grau de confian&#231;a    depositado nas institui&#231;&#245;es democr&#225;ticas releva que, quanto maior    essa participa&#231;&#227;o, maior a participa&#231;&#227;o eleitoral, sendo    tamb&#233;m este um aspecto explicativo da participa&#231;&#227;o eleitoral,    de acordo com esta an&#225;lise (<I>ibidem</I>: 148). </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P> Em conclus&#227;o, o estudo presente procura situar de um ponto de vista interno,  mas tamb&#233;m comparativo, o fen&#243;meno da absten&#231;&#227;o eleitoral. Dada a j&#225; referida  escassez de estudos nesta mat&#233;ria, assim como no que se refere &#224; participa&#231;&#227;o  eleitoral, este contributo permite a clarifica&#231;&#227;o de um conjunto de motivos  explicativos daquele fen&#243;meno. O desafio em termos de an&#225;lise foi, do nosso  ponto de vista, grandioso, pois apesar da multiplicidade de direc&#231;&#245;es anal&#237;ticas  apresentadas, obtemos um conjunto de solu&#231;&#245;es que permitem uma vis&#227;o esclarecedora  do fen&#243;meno da absten&#231;&#227;o, fornecendo-se ainda um suporte para aprofundamentos  subsequentes nesta mat&#233;ria. Consideramos que, do ponto de vista interno  ou microanal&#237;tico, as solu&#231;&#245;es anal&#237;ticas devem continuar a ser exploradas,  de modo a que as compara&#231;&#245;es onde Portugal esteja inclu&#237;do possam tornar-se  cada vez mais consistentes em termos interpretativos. </P>     <P>&nbsp; </P>     <P><B>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</B>    </P>     <!-- ref --><P> Campbell, Angus, Philip E. Converse, Warren E. Miller, e Donald E. Stokes  (1960, 1980), <I>The American Voter</I>, Chicago, University of Chicago Press. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000016&pid=S0873-6529200500010000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P> Freire, Andr&#233;, e Pedro Magalh&#227;es (2002), <I>A Absten&#231;&#227;o Eleitoral em Portugal</I>,  Lisboa, ICS, UL. </P>     <P> Lazarsfeld, Paul, Bernard Berelson, e Hazel Gaudet (1944), <I>The People&#146;s  Choice: How the Voter Makes Up His Mind in a Presidential Campaign</I>, Nova  Iorque, Columbia University Press. </P>     <P> Toinet, Marie-France, e Fran&#231;oise Subileau (1989), &#147;L&#146; abstencionisme electoral  en France et aux &#201;tats Unis&#148;, em Daniel Gaxie (org.), <I>Explication du Vote:  Un Bilan des &#201;tudes &#201;lectorales en France</I>, Paris, Presses de la Fondation  Nationale des Sciences Politiques. </P>     <P> Vedel, Georges (1962), <I>La D&#233;politisation: Mythe ou R&#233;alit&#233;?</I>, Paris, Librairie  Armand Colin. </P>     <p>&nbsp;</p>    <P> <a href="#top1">*</a><a name="1"></a>Paula do Esp&#237;rito Santo. Instituto    Superior de Ci&#234;ncias Sociais e Pol&#237;ticas, Universidade T&#233;cnica    de Lisboa. <I>E-mail</I>: <a href="mailto:espsanto@iscsp.utl.pt">espsanto@iscsp.utl.pt</a>      ]]></body>
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