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</front><body><![CDATA[ <p><b>MARIE-ELISABETH HANDMAN E JANINE MOSSUZ-LAVAU (DIRS.)</b></p>      <p><b>LA PROSTITUTION À PARIS</b></p>      <p><b>Paris, Éditions de La Martinière, 2005.</b></p>     <p>&nbsp;</p>      <p align="justify">Dirigido pela antropóloga Marie-Elisabeth Handman e pela politóloga    Janine Mossuz-Lavau, este livro é um trabalho de grande fôlego sobre um campo    social controverso. Marcado por uma grande abertura teórica e política, em contra-corrente    às teses abolicionistas e proibicionistas hoje dominantes na Europa e nos Estados    Unidos, proporciona ao leitor uma análise compreensiva da prostituição, nos    seus mais diversos modos de existência, e dos actores sociais nela envolvidos.    O livro está relacionado com uma pesquisa solicitada pelo município de Paris    ao Centre National de la Recherche Scientifique em 2002. Respondendo afirmativamente    a este interesse por parte do poder político autárquico, a equipa de investigadores    de diferentes áreas disciplinares, com destaque para a antropologia social,    a sociologia e a ciência política, levou a cabo um longo trabalho de campo nos    anos de 2002 a 2004, que deu origem a um texto com mais de quatro centenas de    páginas dividido em três partes: (i) o contexto da actividade prostitucional    (geográfica, jurídica, política e social), com textos de Handman, Emmanuel Redoutey,    Catherine Deschamps e Johannne Vernier; (ii) a apresentação e reflexão sobre    os testemunhos dos que vivem do comércio do sexo, com textos de Mossuz-Lavau,    Maria Teixeira, Nasima Moujoud, Fiammetta Venner e Dolores Pourette; (iii) a    discussão das questões que foram colocadas pelo trabalho de campo, nomeadamente    as que se prendem com os clientes, com as violências presentes neste meio social,    com a relação entre sexualidade e prostituição, com os estrangeiros que frequentam    os <i>trottoirs</i> franceses, com textos de Moussuz-Lavau, Pourette, François    Gil, Nasima Moujoud e Teixeira.</p>     <p align="justify">Como referem Handman e Mossuz-Lavau (p. 13), o objectivo era    estudar a prostituição na sua realidade quotidiana, através dos seus protagonistas,    prostituto(a)s e clientes. Como se poderá constatar, mesmo os menos familiarizados    com o método etnográfico, também utilizado pelas correntes weberiana e interaccionista    na sociologia, foi graças a ele que Handman, Mossuz-Lavau e restantes autores    foram capazes de proporcionar ao leitor uma visão “de dentro”, simultaneamente    densa e minuciosa, deste intrincado e multifacetado campo social. Este poder    da etnografia é precisamente destacado por Françoise Zonabend (<i>La Presqu’île    au Nucléaire</i>, 1989), quando lembra as possibilidades da observação participante    no escrutínio das emoções, do imaginário e doutros aspectos de que a vida quotidiana    também é feita e que normalmente escapam à inquirição dita objectiva. Esta estratégia    metodológica, especialmente visível nas entrevistas realizadas e no modo como    foram utilizadas na segunda parte do livro — “Les prostitués, femmes, hommes    et transgenres, par eux-mêmes” —, facilitou, assim, aos autores e, por seu intermédio,    a nós, os leitores, uma aproximação àquilo que Pierre Bourdieu (“Comprendre”    em <i>La Misère du Monde</i>, 1993: 1388-1447), na esteira de Max Weber [<i>Economía    y Sociedad: Esbozo de Sociología Comprensiva</i>, 1993 (1922)], nos propõe:    colocarmo-nos, em pensamento, no lugar dos outros observados. Mas não só. Como    aconteceu connosco (ver Manuela Ribeiro <i>et al</i>., <i>Prostituição Feminina    em Regiões de Fronteira: Actores, Estruturas e Processos</i>, 2005; e Manuela    Ribeiro <i>et al.</i>, <i>Prostituição Abrigada em Clubes: Práticas, Riscos    e Saúde</i>, 2005), o trabalho de campo etnográfico permite a quem o coloca    em prática interrogar os seus próprios pressupostos, pontos de vista e quadros    teóricos. Ou seja, rasgar uma brecha intelectual através da qual se acede a    novos olhares e posições teóricas e políticas. Como justamente salientam Handman    e Mossuz-Lavau (p. 15), a imersão no campo da prostituição em Paris tornou difícil    a sua aquiescência face a algumas posições de censura formuladas nomeadamente    por certos políticos e algumas feministas que, não raro, jamais procuraram ouvir    os actores sociais envolvidos no sexo mercantil. </p>     <p align="justify">O leitor é confrontado, desde as primeiras páginas, com elementos    etnográficos e argumentos que nos permitem descobrir a profunda humanidade de    todos os que estão envolvidos no comércio do sexo. De origens e trajectos de    vida muito diversificados, estamos perante seres humanos que lutam todos os    dias pela vida e pela felicidade, manobrando em seu proveito os recursos, muito    desiguais, de que dispõem para aumentarem os seus rendimentos e melhorar a sua    posição social. Para os trazer até nós, o livro leva-nos não só aos terrenos    já habituais como aos mais invulgares e inesperados: a prostituição nos <i>foyers</i>    de alojamento dos trabalhadores emigrantes em Paris, na maioria praticada por    mulheres magrebinas; a prostituição nos bares dos bairros pobres; a prostituição    através da <i>Internet</i>; a prostituição masculina, nomeadamente para mulheres    heterossexuais; a prostituição de rua, realizada em lugares bem conhecidos,    como os bosques de Bolonha e de Vincennes. Apesar das enormes diferenças em    termos de actores e práticas, estes espaços têm de ser examinados no quadro    daquilo que Radoutey (p. 87) designa por globalização do comércio do sexo. Tal    permite compreender, por exemplo, os conflitos que opõem as “tradicionais”,    quase sempre mulheres mais velhas de nacionalidade francesa, às jovens provenientes    do leste da Europa e do continente africano, em torno dos preços cobrados pelos    serviços prestados. Como salientam Mossuz-Lavau e Teixeira (pp. 189-192), a    venda de prazer sexual a baixo preço, por parte das mulheres estrangeiras, perturbou    as relações sociais entre as prostitutas, degradando os seus laços de solidariedade.    Sem que isso, note-se, tenha impedido a organização de acções colectivas de    protesto contra medidas políticas que consideram lesivas dos seus interesses.    É o caso da luta contra a Lei para a Segurança Interior (LSI), mais conhecida    por lei Sarkozy, aprovada em Março de 2003. Como justamente refere Vernier (pp.    121-124), ao permitir a perseguição de qualquer pessoa que se prostitui na via    pública a LSI coloca a França numa posição de facto proibicionista. Os protestos    das profissionais do sexo e das suas associações representativas (pp. 91-119)    não deixam de exprimir, assim, uma certa e parcial coesão que releva da partilha    de interesses e de práticas de vida comuns, capaz de superar as origens, as    motivações e os trajectos muito variados dos que vivem deste tipo de actividade    e, não menos importante, o estigma que sobre eles recai.</p>     <p align="justify">A grande diversidade de práticas de sexo mercantil, bem como    de pessoas envolvidas, como escreve Pourette (p. 263), permite levar o debate    sobre a prostituição para fora dos campos estritos do género ou da moral, abrindo-o    nomeadamente ao campo do trabalho e do comércio, como faz Bourdieu (<i>A Dominação    Masculina</i>, 1999). Aqui há que realçar o contributo de Gil (p. 348) quando,    numa das passagens mais interessantes do seu capítulo sobre sexualidade e prostituição,    critica a ideia da venda do corpo, tão cara aos abolicionistas, considerando    que ela constitui não só uma aberração do ponto de vista do sentido mas igualmente    uma forma insidiosa de desclassificação dos indivíduos que vivem do comércio    do sexo, ao desapossá-los da sua integridade física e do direito à utilização    social do corpo. Por outro lado, como nós também defendemos (ver Manuela Ribeiro    <i>et al</i>., <i>Prostituição Feminina em Regiões de Fronteira: Actores, Estruturas    e Processos</i>, 2005), Gil (pp. 348-353) argumenta que a relação entre quem    se prostitui e o cliente não se resume ao acto sexual propriamente dito, antes    envolvendo palavras, olhares, gestos e, obviamente, afectos, tornando assim    manifesto que o campo da prostituição é também muito complexo do ponto de vista    do uso do corpo e das emoções. </p>     <p align="justify">O livro fecha com um longo texto conclusivo, no qual Handman    e Mossuz-Lavau tomam partido e sugerem um conjunto de medidas para melhorar    a situação social de todos aqueles que se dedicam ao trabalho sexual. Neste    sentido, é importante sublinhar que as autoras, considerando que a questão já    não é mais “acceptons-nous la prostituition?” mas sim “quelle prostitution acceptons-nous?”    (p. 397), defendem que o trabalho prostitucional, desde que livremente escolhido    — ainda que os constrangimentos económicos e outros, como acontece com a escolha    de qualquer outra profissão, estejam presentes e não possam ser ignorados —,    deve ser reconhecido como tal, não apenas pelas instâncias públicas mas também    pelos próprios actores que vivem dele (p. 404). Em lugar dos discursos ora regenerador,    ora censurador, uns e outros profundamente moralizantes, também presentes em    outros campos sociais “exóticos” (ver Loïc Wacquant, <i>Corpo e Alma: Notas    Etnográficas de um Aprendiz de Boxe</i>, 2002), as autoras preferiram discutir    o lugar da prostituição nas sociedades contemporâneas fora dos quadros muito    fechados que vêem nesta actividade uma forma severa de dominação masculina —    desprezando o facto de nela estarem também homens e transgéneros como prestadores    de serviços sexuais, por um lado, e mulheres consumidoras, por outro lado —    e uma ausência praticamente extrema de capacidade de agência por parte das mulheres.  </p>     <p align="justify">Trata-se, pois, de um livro interpelador e surpreendente. Sendo    capaz de responder ao objectivo proposto por Handman e Mossuz-Lavau — a elucidação,    ainda que parcial e inacabada, deste campo social, mal conhecido e estigmatizado    — os cidadãos interessados nesta temática, sobretudo os comprometidos com uma    agenda política e social emancipatória equipada também duma política inclusiva    para o trabalho sexual e para os actores sociais nele envolvidos, encontrarão    neste texto uma etnografia bem elaborada e uma argumentação sólida e coerente    que justificarão plenamente o tempo despendido com a sua leitura.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>      <p align="right">Fernando Bessa Ribeiro</p>     <p align="right">Departamento de Economia e Sociologia</p>     <p align="right">Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro</p>       ]]></body>
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