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</front><body><![CDATA[ <p><b>Terrorismo, suicídio e utopia: um olhar sobre o debate actual</b></p>      <p>João de Pina Cabral</p>      <p>Instituto de Ciências Sociais (UL)</p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="JUSTIFY">Este ensaio é uma reflexão sobre o tema do terrorismo suicida  e as suas implicações que nos rodeiam. O texto é concebido como uma tentativa  de alargar o debate, argumentando que estamos perante uma manifestação de um dos  mais prementes dilemas morais, políticos e filosóficos da nossa contemporaneidade.  Em especial, o devir da leitura acabou por me levar a revisitar a questão da disposição  utópica inscrita nas formas modernistas de pensar o social e que tenho anteriormente  debatido à luz do pensamento ensaístico brasileiro.<sup>[<a href="#1">1</a><a name="top1"></a>]</sup></p>    <p align="JUSTIFY">Em  11 de Setembro de 2001, quando ocorreu em Manhattan o acto de bombismo suicida  mais espectacular da história, o professor Talal Asad (TA) estava presente na  cidade, pois lecciona há várias décadas na Escola de Pós-graduação da City University  de Nova Iorque. Na medida em que é um dos mais conhecidos especialistas sobre  a antropologia das sociedades islâmicas, não é de surpreender que sentisse necessidade  de reflectir sobre o evento. Nascido na Arábia Saudita, filho de um pai de origem  judaica que se converteu ao Islão, TA estudou antropologia em Edimburgo e, mais  tarde, foi discípulo em Oxford do velho mestre Evans-Pritchard. Nos anos 70, fez  parte do <i>brain-drain</i> que levou a nata de toda uma geração da antropologia  britânica para os EUA – figuras como Victor Turner, Robin Fox, Stanley Tambiah,  David Maybury-Lewis, etc. Nessa época, TA tornou-se famoso como o crítico por  excelência da relação entre antropologia e colonialismo (Talal Asad, org., <i>Anthropology  &amp; the Colonial Encounter</i>, Londres, Ithaca Press, 1973).</p>    <p align="JUSTIFY">Em  Maio de 2006 TA foi convidado a apresentar três aulas públicas (as prestigiadas  <i>Wellek Lectures</i> na Universidade da Califórnia, Irvine) que viriam a constituir  a base do livro <i>On Suicide Bombing: The Wellek Lectures</i> (Columbia University  Press, Nova Iorque, 2007). Até devido ao tom oral que os ensaios retêm, eles prestam-se  de forma muito pungente a um debate sobre as questões que o bombismo suicida levanta.  No presente texto, pretendo reflectir sobre a questão a partir de uma perspectiva  social e política (uma <i>subject position</i>) que difere radicalmente da de  TA. Para isso recorro ainda à leitura de três outras obras: o excelente estudo  monográfico que Kate Donahue faz do julgamento de Zacarias Moussaoui, um terrorista  de origem franco-marroquina ligado à rede da Al Qaeda que foi preso um mês antes  dos eventos de Setembro 2001 (<i>Slave of Allah: Zacarias Moussaoui vs. the </i><i>USA</i>.  Londres, Pluto Press, 2007); a obra que Emiko Ohnuki-Tierney escreve sobre os  pilotos <i>kamikaze</i> que, durante a Segunda Grande Guerra, tiveram origem na  elite intelectual japonesa (<i>Kamikaze Diaries: Reflections of Japanese Student  Soldiers</i>, Chicago, University of Chicago Press, 2006); e o estudo que o famoso  romancista japonês Haruki Murakami publicou sobre o ataque terrorista no metropolitano  de Tóquio em 1996 (<i>Underground: The Tokyo Gas Attack and the Japonese Psyche</i>,  Nova Iorque, First Vintage International, 2001).</p>    <p align="JUSTIFY">Sumariadas  as coisas (pp. 2-4), o argumento central de TA é que as distintas motivações por  trás dos diferentes actos bélicos (tanto o “terrorismo” como a “conduta militar  empreendida em nome do estado”) são irrelevantes. O que necessita de ser explicado  não é o terrorismo, sustenta o autor, já que este seria tão válido quanto a “violência  institucionalizada” (<i>e.&#8197;g.</i> p. 21). Pelo contrário, para TA, o que  requer explicação é o horror que o terrorismo causa nos <i>liberals</i>. Esse  horror, por um lado, é de natureza puramente simbólica e, por outro, não se aplica  aos bombistas palestinianos, por ser dependente de uma leitura judaico-cristã  do suicídio como “sacrifício”.</p>    <p align="JUSTIFY">À partida estas afirmações  são estranhas, já que (a) não são só os <i>liberals</i>, nem só os “ocidentais”,  que ficam horrorizados com os actos de carnificina terrorista, (b) todo o horror  envolverá sempre um elemento de natureza simbólica e (c) a influência global do  passado cristão ultrapassou há muito as fronteiras do mundo euro-americano (e,  de qualquer forma, muitos dos palestinianos são cristãos).</p>    <p align="JUSTIFY">A  definição operatória de “terrorista” que o autor nos propõe é “alguém que cria  um sentimento de medo e insegurança entre uma população civil para fins políticos”  (p. 26). Proposta também peculiar: o terrorista só causa medo e insegurança porque  inflige sofrimentos horríveis a civis inocentes. Acontece que, para TA, a questão  não se levanta. Politicamente falando, não há inocentes em Israel. Mas, se assim  é, como será noutros locais: em Londres, Madrid ou Kwala-Lumpur? Isto é, quando  é que alguém poderá ser considerado “inocente”?</p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="JUSTIFY">Há duas  opções. Na primeira, a palavra “inocente” não tem nunca qualquer aplicação útil,  já que somos todos culpados do pecado original de termos aceite os contextos sociais  em que fomos criados como seres humanos. Ora, como não existem lugares onde “violência”  não esteja historicamente imanente (pelo menos nos contornos metafísicos que TA  dá à palavra), ninguém nunca pode ser “inocente”. Na segunda opção, pelo contrário,  as pessoas que estão pacífica, cordata e docilmente a realizar a sua vida quotidiana  no respeito pelos parâmetros sociais que os constituem como cidadãos, são “civis  inocentes”. Neste último caso, então, o terrorista não é nunca só o que causa  medo e insegurança; é sempre sobretudo o que causa medo e insegurança através  da matança de civis desprotegidos – através do homicídio de inocentes.</p>    <p align="JUSTIFY">Só  que, para TA, “todos os cidadãos estão presos ao espaço de violência que é habitado  pelo seu governo representativo” (p. 29). Assim, um militante ou um militar no  activo estão tão envolvidos quanto as crianças de colo, as mães que as criam ou  os velhos inválidos. Será, porém, que essa constatação nos ajuda a aceitar melhor  a decisão de trucidar milhares de espanhóis que, numa madrugada de um dia de semana,  iam pacificamente para o emprego? Mais uma vez aqui nos confrontamos com a falácia  do tudo-ou-nada, tão nossa conhecida dos vanguardismos nas ciências sociais. Em  última instância, ninguém pode libertar-se por completo da rede de implicações  implícitas na sua constituição como agente social – por isso, ninguém é nunca  <i>totalmente</i> inocente. Mas existem, sim, pessoas que, não tendo participado  directamente de algum acto particular de violência, estão <i>relativamente</i>  inocentes em relação a ele.</p>    <p align="JUSTIFY">É claro que esses civis espanhóis  assassinados tinham sido todos obrigados a aceitar até certo ponto a “violência”  implícita na história do “estado” espanhol (e, já agora, não só do “estado”<sup>[<a href="#2">2</a><a name="top2"></a>]</sup>  mas de todas as outras pertenças colectivas de que faziam parte). Eles tinham  pago para a paz que até ali usufruíam com a parcial aceitação da violência histórica  do “estado” espanhol. Mas será que isso significa que validaram toda e qualquer  violência passada, presente ou futura realizada em nome do “estado” a que pertencem?</p>    <p align="JUSTIFY">Chegados  a este ponto, a questão das “motivações” ou “intenções” deixa de ser irrelevante,  como acha TA. Não existem contextos sociais sem história nem há história sem “violência.”  Os espanhóis que participaram activamente do processo de democratização espanhola  sabem quais foram os termos da aceitação da história de violência do passado espanhol,  tendo sido obrigados a confrontá-la directamente de forma diferenciada, extensiva  e negociada. E o mesmo se poderá dizer de gerações inteiras de alemães, de chineses,  de russos, de brasileiros e de portugueses. Em suma, a imanência da violência  não retira a responsabilidade moral de quem a pratica, nem em nome do estado nem  contra esse mesmo estado – nem para promotores de actos terroristas, nem para  líderes de exércitos institucionalizados. TA insiste que não está a “sustentar  que as atrocidades terroristas podem ser às vezes moralmente justificadas” (p.  4). E é realmente bom que nos explique isso logo à partida, porque é difícil ler  o resto do livro sem pensar que é precisamente isso que ele está a fazer.</p>    <p align="JUSTIFY">Conforme  a análise avança vamo-nos tornando conscientes de como ela depende de uma utilização  problemática do conceito de “estado”&#8202;/&#8202;”estado-moderno”&#8202;/&#8202;“estado-nação”  – as três expressões parecem ser sinónimas para TA, prolongando-se em cadeia para  uma série de conceitos que ficam obstinadamente subteorizados, tais como “estado  progressivo moderno” ou “estado liberal democrático” (<i>e.&#8197;g.</i> p. 3).  Este uso abstracto, unitarizante e essencializante do conceito de “estado”<sup>[<a href="#3">3</a><a name="top3"></a>]</sup>  é o que permite lançar o binarismo de perspectivas entre <i>liberal&#8202;/&#8202;radical</i>  que estrutura toda a obra. Acontece que, para quem esteja fora dos EUA, o dualismo  moralizante que caracteriza esta oposição – que é, de facto, central à cultura  intelectual americana contemporânea – não faz qualquer sentido. Ninguém pode ser  obrigado a escolher o melhor de dois crimes. O uso abusivo dos conceitos de “estado”  e “violência” revela-se, assim, demagógico.</p>    <p align="JUSTIFY">Na primeira  parte do livro, TA tenta fundamentar a sua opinião de que a distinção entre “terrorismo”  e “guerra” é espúria. Para o autor, “a ideia de um espaço histórico em que a violência  circula” (p. 15) demonstra que os motivos que levam as pessoas a agir hoje não  são o que conta, mas sim a dinâmica histórica da “violência”. Na sua mão, a categoria  “violência” adquire virtudes metafísicas – como é tão característico da vulgata  neo-foucaultiana contemporânea. Convém, pois, lembrar que, no fim dos seus dias,  o próprio Foucault se tinha apercebido de como essa metafísica da “violência”  corria o risco de reproduzir aquilo mesmo que ela identificava.<sup>[<a href="#4">4</a><a name="top4"></a>]</sup></p>    <p align="JUSTIFY">De  facto, apesar do tom reverencial adoptado por Antonius Robben no seu recente debate  com Nancy Scheper-Hughes, esta é igualmente a questão que os divide quando discutem  o sentido do conceito de “violência”. Insurgindo-se com as virtudes metafísicas  do “contínuo de violência” propalado por Philippe Bourgois e Scheper-Hughes,  Robben assinala que “a violência não é um fenómeno contido com uma lógica própria.  O contínuo da violência não se reproduz a si mesmo, pois é socialmente embutido  e estruturado a múltiplos níveis.” O que isto significa é que “as estruturas são  reproduzidas e alteradas em práticas sociais por sujeitos actuantes […]. A relação  entre estrutura e violência é sempre mediada pela agência.”<sup>[<a href="#5">5</a><a name="top5"></a>]</sup>  Na sua crítica ao conceito de “violência estrutural”, o antropólogo holandês apresenta  na verdade mais uma variante da insatisfação europeia com o idealismo implícito  na tradição “alternativa” americana.</p>    <p align="JUSTIFY">O que causaria, portanto,  o bombismo suicida palestiniano para TA seria “a sujeição brutal à ocupação israelita”  e não as “intenções livres” do bombista individual (p. 45). Afirmações como esta  essencializam “violência”, permitindo ao autor não ter de explicar como é que  as pessoas se tornam bombistas suicidas, como é que as coisas são organizadas,  como é que existem políticos e especialistas militares que mobilizam esforços  consideráveis no sentido de “produzir” bombistas suicidas, como é que toda uma  coorte de jovens foi levada a cometer este tipo de atrocidade. Neste aspecto,  mais uma vez, o enfoque palestiniano que o autor dá à questão desvia do problema  central: o terrorismo jihadístico hoje é um desafio global que ultrapassa em muito  os campos de guerra da aliança israelo-americana.</p>    <p align="JUSTIFY">O autor  sustenta que, “na distinção entre terroristas e exércitos em guerra, não é a crueldade  que conta, e muito menos ainda o perigo que estes constituem para formas de  vida organizadas, mas o seu estatuto civilizacional” (pp. 37-38). Frases como  esta repetem-se, por meio da quais TA pretende validar um ponto de vista <i>radical</i>  através de recurso ao etnocentrismo dos seus opositores <i>liberals</i> (os que  constroem ideias xenofóbicas sobre “choque de civilizações”). Mas, como vimos,  ambas as perspectivas são igualmente insatisfatórias. Para recusar o terrorismo  como opção política não é necessário concordar com a lógica racista segundo a  qual o que causa o terrorismo é que “eles” são selvagens, menos civilizados ou  historicamente reactivos à modernidade.</p>    <p align="JUSTIFY">Este binarismo desvia-nos  do que seria a opção correcta para as ciências sociais: <i>viz</i> fazer um esforço  por analisar o universo de coisas que se escondem dentro da expressão “bombista  suicida”. Há que estudar as diferenças entre os vários tipos de terrorismo suicidário.  Para isso, é necessário ultrapassar o enfoque encantatório no conflito israelo-palestiniano.  De facto, não é só a opinião do bombista que conta (nessa medida, mas só nessa  medida, TA tem alguma razão); conta também toda a organização de guerra que leva  à situação em que cada acto bombista é cometido. Pareceria de todo relevante propor,  por um lado, uma tipologia do bombismo suicida que não estereotipificasse a figura  (demonizando-a <i>à la</i> <i>liberal</i> ou endeuzando-a <i>à la</i> <i>radical</i>)  e, por outro lado, uma caracterização dos agentes políticos envolvidos que promovem,  apoiam e organizam o acto suicida.</p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="JUSTIFY">Na segunda parte do livro,  TA argumenta contra uma interpretação religiosa segundo o modelo do “sacrifício”  cristão. Para ele, a <i>jihad</i> islâmica é um gesto tão secular quanto religioso:  “o bombismo suicida pertence essencialmente à tradição moderna ocidental do conflito  armado para a defesa de uma comunidade política livre: para salvar a nação (ou  para fundar o seu estado) no confronto com um inimigo perigoso, pode ser necessário  agir sem estar preso aos constrangimentos morais ordinários” (p. 63). Assim, conclui  ele, “o que é único no bombismo suicida […] reside, não na sua essência, mas nas  circunstâncias contingentes” (p. 64). É curioso que, não estando pronto a aceitar  como moralmente relevantes as motivações dos suicidas, TA está pronto a aceitar  as motivações dos políticos que promovem, dirigem e pagam por esses projectos  colectivos – quer dizer, as pessoas que dominam essas tais “nações” ou “estados-nação”  em nome das quais a tal “violência” circula. Note-se ainda na frase acima citada  a convergência entre “estado” e “nação”. Emerge, pois, uma interpretação colectivista  do terrorismo (de facto, etnicista), cujas implicações se tornam evidentes em  afirmações como: “os bombistas suicidas nunca são velhos, o que sugere que a agilidade  e a confiança física são mais importantes para as suas performances do que motivos  apropriados” (p. 84).</p>    <p align="JUSTIFY">Então, afinal, a questão não parece  ser que os motivos não contem, mas quais os motivos que contam; melhor ainda,  os motivos de quem? Está claro que, se essa é a coorte etária a que pertencem  os bombistas suicidas, é porque eles são os mais dispensáveis para os políticos  que detêm o poder. Em princípio, quem tem razões mais fortes para lutar contra  o inimigo não são os jovens imolados mas sim as pessoas que dirigem e subsidiam  os projectos bélicos que recorrem a estratégias suicidas (Hezbollah, al-Qaeda,  Hamas, etc.). No entanto, tal como nas carnificinas da Primeira Guerra Mundial,  quem morre é quem tem menos investido na vitória: os jovens.</p>    <p align="JUSTIFY">A  terceira parte da obra de TA é uma tentativa de analisar a categoria “horror.”  Aí, o argumento é que a razão pela qual os “ocidentais” ficam horrorizados com  bombismo suicida é por se tratar de uma instância de destruição de identidade  (p. 90). Na verdade, qualquer suicídio é isso mesmo e qualquer suicídio causa  horror, em particular numa cultura fortemente individualista como a cultura anglo-americana  contemporânea, para a qual a possibilidade de um gesto de auto-destruição pessoal  em nome de um interesse colectivo chega até a ser difícil de conceber.</p>    <p align="JUSTIFY">Conclui  TA: “O suicídio é um pecado porque é um acto sobressaliente de liberdade” (p.  67). Só que, mais uma vez, o argumento é capcioso. A questão é abordada como se  o horror que sentimos perante o bombardeamento da estação de Atocha tivesse a  ver com a morte do bombista. Ora, a reacção que os espanhóis tiveram (e cujos  efeitos políticos se fizeram sentir imediatamente) mostra bem que o horror não  foi sobretudo causado pela morte dos bombistas, mas sim pela proximidade da morte  e do sofrimento – pela vulnerabilidade que, de repente, os atingiu a todos. Para  TA, as pessoas que pensam desta forma são essencialmente hipócritas. Para demonstrar  isso, ele compara a descrição dos eventos traumatizantes resultantes de uma explosão  suicida num restaurante israelita com a descrição autobiográfica das acções violentas  cometidas por um soldado americano no Vietname. Mais uma vez, o leitor fica perplexo.  O contraste só pode fazer sentido para quem concorde com o que se passou na Guerra  do Vietname – guerra que a larga maioria de nós acha ter sido especialmente vergonhosa  de um ponto de vista humanitário. A comparação perde, pois, qualquer efeito argumentativo.  Voltamos a observar o profundo artificialismo da oposição retórica entre <i>liberals</i>  e <i>radicals </i>e a forma como ela se situa dentro de uma visão do mundo americanocêntrica  que, assim, é reproduzida para efeitos de exportação global. O sonho utópico de  uns é espelhado no sonho utópico dos outros.</p>    <p align="JUSTIFY">Será que TA  tem razão quando afirma que “não há diferença moral entre o horror infligido por  exércitos estatais […] e o horror infligido por insurgentes” (p. 94)? Essa pergunta  leva-nos imediatamente à questão mais complexa, que ele evita endereçar: haverá  ou não um qualquer momento em que infligir horror se torne necessário para salvar  um bem maior? Aí é que começam os nossos problemas, já que ninguém sabe muito  bem (nem poderá nunca saber ao certo, creio eu) como é que se fazem essas contas.  Se não há uma resposta absoluta, correcta e precisa que virá resolver tudo, então,  como gerir as ambiguidades? Na distopia deixa também de haver co-responsabilidade  ética? Ora este livro deixa-nos à porta desse debate, mas com a porta fechada.</p>    <p align="JUSTIFY">Nas  frases finais, TA põe-nos perante uma escolha: ou (a) consideramos que “a vida  de qualquer ser humano tem o mesmo valor” ou (b) pensamos que “o massacre de humanos  civilizados é mais perturbante que o de não-civilizados” (pp. 95-96). Será que  é possível alguém enganar-se quanto à resposta certa a dar a esta pergunta? De  facto, levados pela ganância cega, Dick Cheney e os seus apaniguados chegaram  a ensaiar respostas do segundo género – “desculpas de mau pagador”. Mas será isso  razão suficiente para que um dos mais conhecidos antropólogos da actualidade gaste  o nosso tempo com mentiras idiotas? O que há que decidir não é entre essas duas  opções, não; mas sim se o valor de muitas vidas e muito sofrimento humano é superior  ou inferior a outros interesses e a quais. Para essa questão confusa e complexa,  TA não parece ter qualquer resposta útil. Essa, porém, é a pergunta que, face  à violência do terrorismo dos nossos dias, volta a pôr-se mais uma vez à humanidade.</p>    <p align="JUSTIFY">Esta,  afinal, é a questão que endereçam outros livros que se esforçam por esclarecer  o tema. Por exemplo, a antropóloga Kate Donahue escreve uma curta e despretensiosa  monografia sobre o julgamento do bombista francês, filho de marroquinos, que foi  apanhado pelas autoridades americanas em Agosto de 2001 por problemas de passaporte,  não tendo conseguido fazer parte da carni­ficina do 11 de Setembro (<i>Slave of  Allah: Zacarias Moussaoui vs. the </i><i>USA</i>. ­Londres, Pluto Press, 2007).  Ao seguir o percurso vital deste homem, desde o seu princípio de vida como um  jovem francês à sua crescente radicalização ­islâmica conduzida pelas repetidas  experiências de alterização e discriminação a que vai sendo sujeito, a antropóloga  permite-nos ir compreendendo os ­eventos aparentemente estranhos que se desenrolam  durante o seu julgamento. Apanhado nas teias da justiça americana por razões triviais,  após o 11 de Setembro, Zacarias Moussaoui torna-se a face pública visível do inimigo.  A patente ineficiência do aparelho policial americano alerta-nos para o facto  de como a polícia tantas vezes funciona mais como um instrumento de vitimização  do que de protecção da população civil.</p>    <p align="JUSTIFY">Como Zacarias afirma  e o governo americano confirma, a finalidade deste julgamento era desde o início  enforcá-lo. Na velha tradição antropológica do estudo de caso (cuja história,  curiosamente, a própria autora parece ignorar), o livro segue o percurso desse  julgamento e vai-nos fornecendo o material de que necessitamos para compreender  melhor as acções e motivações de quem nele participa. Zacarias age de uma forma  que, em termos judiciais, poderia parecer não só irracional como ofensiva. A autora,  contudo, vai-nos revelando a racionalidade-outra que se esconde por detrás da  sua ironia desesperada: sabendo que o vão matar de qualquer forma, Zacarias não  vê que a finalidade do julgamento seja a que os juízes declaram (fazer justiça)  e, pelo contrário, vê o tribunal como a derradeira ocasião que ainda lhe sobra  para passar ao público global a mensagem em nome da qual ofereceu a sua vida –  a sua utopia.</p>    <p align="JUSTIFY">Infinitamente mais informativo que as generalidades  radicalizantes de TA, o livro de Kate Donahue permite-nos compreender como funciona  a teia de identificações e diferenciações pessoais que levam uma pessoa a cometer  um acto desta natureza. Mas os motivos pessoais dos bombistas suicidas não são  sempre igualmente fortes, nem são sempre os mesmos, nem os melhores. Por vezes  são ambíguos, podendo até chegar a ser incompatíveis com o próprio gesto suicida.  Não basta, portanto, falar em generalidades que nos dominam e controlam e das  quais somos joguetes – o tal “contínuo da violência” de ­Scheper-Hughes. Há que  tomar em conta a forma particular e sempre complexa como os homicidas-suicidas  foram levados a cometer o gesto. Aí concordamos, mas só até certo ponto, com TA.  A <i>intenção</i> com que alguém comete um acto é sempre só parte do que pode  explicar esse acto. Não há acção humana sem intenção, mas toda a acção humana  é subdeterminada, como insiste o filósofo Donald Davidson. A intenção com que  um acto é cometido não poderá nunca explicar completamente nem porque ele foi  cometido nem o que dele resultou.</p>    <p align="JUSTIFY">Não parece possível encontrar  um melhor exemplo disso do que o fascinante estudo sobre os diários pessoais dos  pilotos kamikaze na Guerra do Pacífico, que Emiko Ohnuki-Tierney escreve (<i>Kamikaze  Diaries: Reflections of Japanese Student Soldiers</i>, Chicago, University of  Chicago Press, 2006). Aí, a professora de História da Universidade de Chicago  mostra que muitos dos pilotos estavam longe de se rever no acto que cometiam movidos  por fortes sentimentos de obrigação pessoal.</p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="JUSTIFY">Através de  uma leitura atenta dos diários deixados por alguns destes pilotos, a autora vai-nos  revelando a crescente perplexidade e a crescente inevitabilidade da posição em  que os pilotos se vão encontrando. Estamos a falar de jovens de classe média alta,  altamente escolarizados e perfeitamente fluentes em mais do que uma língua ocidental.  Entre eles, encontramos leitores ávidos de todos os grandes filósofos da história  e de todas as grandes obras da literatura mundial. Muitos deles eram até declarada  e convictamente comunistas, pacifistas ou antimilitaristas – o que os leva a deplorar  o movimento bélico no qual se encontram imersos. A manipulação a que são sujeitos  por parte de quem os rodeia (alguma intencional, outra inocente), a crescente  excepcionalidade da situação em que se encontra o país e as pessoas com as quais  se identificam de forma tão emocional, o sentido de obrigação e de inevitabilidade  pessoal que têm perante uma população ameaçada levam-nos a cometer actos que não  são já cometidos estritamente por eles próprios.</p>    <p align="JUSTIFY">Nesse momento  derradeiro, dentro do <i>cockpit</i> do seu avião, o piloto <i>kamikaze</i> está  só. Contudo, o gesto que comete escapa largamente à capacidade que tem de iniciativa  pessoal. O que nos leva a ver uma afirmação deste tipo como vagamente contraditória  (perguntando, por exemplo: “mas, afinal, foi ele ou não foi ele que atirou esse  avião contra uma vedeta americana?”) é a falácia do individualismo – que esconde  a forma como a agência é socialmente cons­truída e a própria pessoa é um produto  da sua condição.</p>    <p align="JUSTIFY">O movimento intelectual contrário, porém,  tal como o comete TA, é igualmente inaceitável. Quando TA nega relevância à intenção  do agente do terrorismo suicida, atribuindo a responsabilidade dos seus actos  terroristas a agentes colectivos impessoais (“estados” ou “estados-nações”), ele  está igualmente a preservar a unitaridade do indivíduo face ao colectivo – desta  vez desresponsabilizando-o. Está, da mesma forma, a fugir ao real desafio com  que se confronta a boa teoria antropológica: explicar a complexidade da agência  social sem abdicar do papel da racionalidade. Como é tão patentemente demonstrado  pelas perplexidades em que se encontravam os eruditos pilotos <i>kamikaze</i>  que nos deixaram os diários dos seus últimos dias, acção e intenção conjugam-se  de forma complexa.</p>    <p align="JUSTIFY">Na acção humana, intenção conjuga-se  com indeterminância, subdeterminação e imprevisibilidade. Indeterminância, porque  os significados que partilhamos nunca são integralmente determináveis; subdeterminação,  porque a intenção de uma acção nunca a poderá integralmente explicar; imprevisibilidade,  porque nenhum de nós pode saber todas as implicações futuras de um gesto que cometeu  intencionalmente por uma qualquer razão particular.</p>    <p align="JUSTIFY">Sem  dúvida, porém, de todas estas obras, a que mais profundo vai no exame e no estudo  empírico das questões levantadas pelo terrorismo não é escrita por um historiador  ou antropólogo, mas pelo romancista universalmente conhecido Haruki Murakami.  Em <i>Underground: The Tokyo Gas Attack and the Japanese Psyche</i>, o escritor  examina as causas que levaram os discípulos da seita Aum a cometer o ataque mortífero  à população da capital japonesa usando um tipo de gás (sarim) que os nazis tinham  inventado como parte do seu esforço de guerra.</p>    <p align="JUSTIFY">Na capa do  livro diz-se que se trata de “uma peça poderosa de literatura jornalística”. Não  sei como alguém, tendo lido o livro, pode descrevê-lo em seguida nesses termos.  Trata-se, na verdade, de uma peça exemplar de literatura sociológica. O autor  entrevista cerca de sessenta vítimas do gás sarim que foi espalhado por esta seita  em várias linhas do metropolitano de Tóquio às 7h30m do dia 20 de Março de 1996.  Murakami realiza assim o exercício que nenhum dos outros estudos chegou a fazer  – virar a violência ao contrário, retirando-a da mente de quem a executa e integrando-a  na vida de quem a sofre. Desta forma, o autor revela quão perigoso é o posicionamento  mental que permite que projectos de terrorismo mais ou menos suicida cheguem a  ser apresentados por alguns autores (entre estes TA) como exercícios racionais,  instrumentos possíveis de conflito político.</p>    <p align="JUSTIFY">De seguida,  Murakami entrevista membros da seita Aum; deixando-nos, ao ouvir as suas palavras,  ainda mais perplexos perante a profundidade da capacidade humana para fugir à  complexidade da realidade; a capacidade que os seres humanos têm para confundir  desejo com realidade.</p>    <p align="JUSTIFY">Tendo-se escondido propositadamente  durante todo o longo e fascinante percurso de mais de 300 páginas por trás das  palavras do seus entrevistados – vítimas e membros da seita homicida – o autor  oferece-nos por fim sete páginas de análise. Na minha opinião, estamos aqui perante  um dos mais brilhantes textos sócio-antropológicos sobre a nossa condição contemporânea.  Na essência, Murakami confronta-se com algo que o deixa perplexo: “num dado momento  das suas vidas, [os membros da seita] abandonaram o mundo e entregaram-se à procura  de uma utopia espiritual no Aum Shinrikyo, algo de que eles não se arrependem  e de que não se culpam” (pp. 359-360). “Mesmo que, no fim, se tenha tornado algo  de monstruoso, a memória doce e radiante da paz que originalmente encontraram  fica dentro deles e nada pode facilmente substituí-la” (p. 360).</p>    <p align="JUSTIFY">O  autor confronta esta experiência com eventos de outra natureza que, no passado,  o tinham profundamente fascinado, dando azo a uma das obras mais lúcidas da ficção  contemporânea japonesa (<i>The Wind-Up Bird Chronicle</i>): o projecto colonial  japonês na Manchúria durante a II Guerra Mundial. Pergunta-se o leitor, que é  que une estes dois projectos aparentemente tão diversos (o colonialismo asiático  japonês e a seita Aum)? A sua resposta é que ambos são utópicos: “o que falta  [a ambos] é um sentido propriamente tridimensional da história ou, mais concretamente,  uma identidade entre linguagem e acção” (p. 361).</p>    <p align="JUSTIFY">Perante  exemplos como estes, somos obrigados a constatar “o triste facto de que a linguagem  e a lógica, cortadas da realidade, têm muito mais poder que a linguagem e a lógica  na realidade – com toda essa matéria estranha que pesa como uma pedra sobre qualquer  acção que tomemos” (p. 363). Muitos dos antropólogos e historiadores que têm recentemente  endereçado a questão colonial teriam a ganhar em dedicar alguma atenção à forma  como Murakami aproxima os dois tipos de movimento. Se ambos remetem para problemáticas  comuns particularmente japonesas, também é verdade que a aproximação entre ambos  poderá iluminar outras terras e outras histórias nacionais.</p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="JUSTIFY">Todos  queremos respostas e todos desejamos poder controlar o mundo – por isso, o som  do clarinete da utopia continua a despertar-nos. Mas há que lutar contra a noção  de que, se mudarmos algo de particular, vamos conseguir controlar o futuro em  geral. Esse é o sonho da utopia que TA não está pronto a abandonar e que, assim,  o aproxima tanto da lógica dos seus adversários retóricos que tanto despreza –  os tais <i>liberals</i> da laia de G.&#8197;W. Bush e quejandos. Mas também é  o sonho dos que acham que “o mundo é robusto” e que resistirá a todas as experimentações.  Recentemente, num texto sobre a história do eugenismo, Hermínio Martins alertou-nos  para os perigos de acreditar que podemos controlar o resultado das nossas acções.<sup>[<a href="#6">6</a><a name="top6"></a>]</sup></p>    <p align="JUSTIFY">A  própria palavra “utopia” deveria já conter em si mesma um alerta contra os males  que transporta. Quando Erasmo propôs a Tomás Morus que adoptasse esse nome para  título do seu livro, eles estavam a fazer um trocadilho ironizante: a terra perfeita  (<i>eu-topos</i>) é uma terra nenhuma (<i>ou-topos</i>). Tomás Morus escreve o  livro sempre num tom irónico. A sua morte de mártir é a declaração mais clara  possível da sua recusa última do sonho que terá tido um dia em Antuérpia.</p>    <p align="JUSTIFY">Depois  do que sofremos durante o século XX à pala das várias manifestações do utopismo  modernista, não estaremos nós hoje em condições para compreender que a acção humana  – sendo sempre marcada pela intenção e a racionalidade – será também sempre subdeterminada  e imprevisível? Como podemos nós hoje continuar a reproduzir a lógica binarizante  dos que pensam como TA e julgam poder controlar o devir da história?</p>    <p align="JUSTIFY">Termino  com as palavras que Murakami ensaia como resposta a esse médico de carreira exemplar,  membro da classe média alta japonesa que, imerso no seu sonho utópico, aceitou  espalhar veneno no metropolitano da cidade onde tinha nascido e sempre vivido.</p>    <p align="JUSTIFY">“A  realidade é criada na confusão e na contradição, se excluirmos esses elementos  não estaremos já a falar da realidade. Podemos pensar que – ao ­seguirmos uma  linguagem e uma lógica que aparentam ser consistentes – seremos capazes de excluir  esse aspecto da realidade, mas não: ele estará sempre escondido à nossa espera,  pronto a tirar a sua vingança” (p. 362).</p>    <p align="JUSTIFY">Em conclusão, o  terrorismo suicida é mais uma manifestação da utopia modernista que tanto mal  tem feito à humanidade. Há que ter a coragem de fazer o que Murakami faz: dar  voz aos que sofreram os seus efeitos, situar quem está preso na engrenagem da  utopia, abrir os nossos ouvidos à história humana realmente vivida. Em última  instância, saber resistir às panaceias universais que tanto justificam o terrorismo  como os actos de autoprotecção abusiva a que temos assistido.</p>    <p align="JUSTIFY">No  início de tudo isto, Platão, o inventor original da ideia, dizia que “o que é  incompleto nunca pode ser uma medida para nada” (<i>República</i>, livro 3). Mas  hoje temos a obrigação de saber que estava fundamentalmente errado – todas as  medidas serão sempre incompletas e, se o esquecermos, cairemos sempre na armadilha  homicida da utopia.</p>    <p align="JUSTIFY">&nbsp;</p>    <p align="RIGHT">Março de 2008</p>    <p align="JUSTIFY">&nbsp;</p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p align="JUSTIFY"><sup>[<a href="#top1">1</a><a name="1"></a>]</sup>      Cf. João de Pina Cabral, 2007, “A pessoa e o dilema brasileiro: uma perspectiva  anticesurista”, <i>Novos Estudos CEBRAP</i>, 7 8, pp. 95-111; João de Pina Cabral,  2008, “O demónio e o dilema brasileiro: uma perspectiva anticesurista II”, <i>Revista  de Antropologia</i>, no prelo.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000053&pid=S0873-6561200800020001100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p align="JUSTIFY"><sup>[<a href="#top2">2</a><a name="2"></a>]</sup>      TA escreve com letra minúscula. E, já agora, porquê maiúscula?</p>    <p align="JUSTIFY"><sup>[<a href="#top3">3</a><a name="3"></a>]</sup>      Vale a pena lembrarmo-nos que a geração de Tomás Morus foi a primeira para quem  o conceito de “estado” adquiriu o sentido que hoje tem. De facto, antes do século  XVI, a evidência da existência dessa unidade social (“o estado”) não tinha a força  que passou a ter a partir da Época Moderna. Hoje, mais uma vez, não sou o primeiro  a notá-lo, a unitaridade ontológica do conceito volta a causar problemas.</p>    <p align="JUSTIFY"><sup>[<a href="#top4">4</a><a name="4"></a>]</sup>      Cf. Michel Foucault, 2003 [1997], “<i>Society Must be Defended”: Lectures at the  Collège de France, 1975-1976</i>. Nova Iorque, Picador, p. 46.</p>    <p align="JUSTIFY"><sup>[<a href="#top5">5</a><a name="5"></a>]</sup>      Antonius C.&#8197;G.&#8197;M. Robben, 2008, “Response to Nancy Scheper-Hughes”,  <i>Social Anthropology</i>, 16 (1), pp. 84 e 88.</p>    <p align="JUSTIFY"><sup>[<a href="#top6">6</a><a name="6"></a>]</sup>      Hermínio Martins, “Eugenismos de ontem e de hoje”, 2008, em Luísa Schmidt e João  de Pina Cabral (orgs.), <i>Ciência e Cidadania: uma Homenagem a Bento de Jesus  Caraça</i>. Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais.</p>       ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Cabral]]></surname>
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