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</front><body><![CDATA[ <p>Frédéric Vidal</p>      <p><b>Les habitants d’Alcântara.</b></p>      <p><b>Histoire sociale d’un quartier de Lisbonne au début du 20<sup>éme</sup> siècle</b></p>      <p>Villeneuve d’Ascq, Presses Universitaires du Septentrion, 2006, collection</p>      <p>«Histoire et Civilisations», 490 páginas.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="JUSTIFY">Olhar uma cidade através dos seus habitantes, procurar um determinado  espaço&#8202;/&#8202;tempo para os encontrar, identificar um lugar como forma  de chegar a esse nível mais individualizado da experiência urbana, só ela capaz  de revelar a riqueza, a variedade e a dinâmica dos universos relacionais citadinos,  é o eixo central deste livro. O bairro de Alcântara, na Lisboa da época industrial,  é o escolhido, como um lugar integrador de formas de interacção local, de práticas  relacionais, de processos de individuação&#8202;/&#8202;socialização que ajudam  a descobrir as características de um meio social urbano “trabalhado” pelas tensões  desta idade industrial. Através da pesquisa histórica sobre as formas de interacção  entre os indivíduos e grupos sociais que o compõem, tanto ao nível do bairro,  como entre este e o resto da cidade, o objecto desta investigação constrói-se,  assim, em torno do processo de estruturação social de um determinado meio urbano.  Como afirma o próprio autor, é menos o bairro em si que interessa e mais a escala  de análise que, estrategicamente, permite o acesso ao estudo das proximidades  e distâncias entre indivíduos e grupos sociais numa grande cidade na época em  análise. Com efeito, mais do que a história social de um bairro, estamos aqui  perante um trabalho de “história social à escala de um bairro” (p. 22). Aquilo  que, numa escala mais macro, poderia parecer um projecto duplamente periférico  – estudar um bairro industrial de uma cidade situada num país dominantemente rural  que, por sua vez, se encontra à margem do processo de industrialização e urbanização  em grande escala da Europa – acaba por se afirmar como um caso exemplar, na especificidade  local de um fenómeno espacial e sectorialmente tão polarizado como é o da industrialização.</p>    <p align="JUSTIFY">Versão  ligeiramente abreviada da tese de doutoramento em História defendida na Universidade  Lumière Lyon 2 em 2003, <i>Les Habitants d’Alcântara</i> organiza-se em quatro  partes coerentes e bem articuladas que, respeitando o percurso da investigação,  permitem ao leitor acompanhar o caminho da necessária inter-relação entre a construção  dos dados empíricos e a exposição teórica, nas diferentes escalas de aproximação,  do bairro ao indivíduo e das representações às formas de interacção quotidiana.  Metodologicamente, a lacuna de fontes sobre sociedade lisboeta nos séculos XIX  e XX é colmatada através da combinação entre a exploração de documentação variada  e dispersa, incluindo fontes locais e microlocais, e a análise sistemática e  intensiva de uma fonte única, os registos paroquiais e civis.</p>    <p align="JUSTIFY">Após  uma introdução que situa teoricamente a investigação, Frédéric Vidal começa por  apresentar o bairro de Alcântara como espaço social e quadro de vida, contextualizando-o  num quadro estrutural amplo – o território, a população, as actividades – e, também,  ao nível da sua identidade colectiva. Alcântara não se define apenas como território  delimitado, povoado por múltiplas actividades, ela é também feita de imagens que  acompanham a sua evolução de bairro industrial a bairro popular: o “subúrbio (<i>faubourg</i>)  operário”, o “bastião republicano” e o “bairro popular” são mais do que três “Alcântaras”  que se sucedem no curso da história, são representações, ambientes, momentos,  que ligam este bairro à história de Lisboa, através da sua componente industrial  e operária, por um lado, e popular e urbana, por outro.</p>    <p align="JUSTIFY">A  exploração minuciosa dos múltiplos níveis de produção de distância e de proximidade  social entre indivíduos, devidamente contextualizados em função dos seus lugares  de vida social, faz-se a partir da análise de uma fonte priveligiada, os registos  de baptismo, nascimento e, até, casamento. Duas ruas são escolhidas como espaço  sociológico para o estudo das relações interpessoais. A crítica das fontes utilizadas  e uma primeira análise centrada no indivíduo e sua origem, alimenta esta segunda  parte. A discussão que o autor faz a propósito das diferentes escalas de análise  reveladas por estas fontes – o indivíduo, o casal, a linhagem familiar, e a vizinhança  – mostram diferentes tipos de mobilidade geográfica, ultrapassando nitidamente  o nível mais territorializado da rua e evidenciando os elementos de identificação  cruciais dos habitantes nas suas relações com o bairro, a cidade, o país.</p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="JUSTIFY">A  dimensão socioprofissional ocupa, de forma muito clara, um lugar central nesta  investigação densa (terceira e quarta parte) através do exame das práticas relacionais  concretas (por exemplo, o apadrinhamento) e os factores de distinção social através  de lógicas próprias, de acordo com o ofício exercido, a qualificação, o estatuto.  São as formas de estruturação dos meios urbanos, nas diferentes escalas que as  produzem, que aqui são analisadas e questionadas. O modo como Frédéric Vidal consegue  fazer falar esta “fonte pobre” revela o seu talento de investigador que, com rigor  e intuição, consegue reconstituir as histórias de famílias. É fundamental referir,  também, a excelente escolha de fontes complementares que introduzem toda uma discussão  sobre as classificações e identidades profissionais. A reflexão que o autor produz  sobre este universo concreto, examinando meticulosamente os modos de interacção  entre indivíduos e grupos com posições, status e trajectórias diferentes, constitui,  sem dúvida, uma valiosa contribuição para a compreensão dos universos relacionais  das sociedades urbanas contemporâneas, diversificadas, compósitas, plurais.</p>    <p align="JUSTIFY">O  papel importante que as mulheres desempenham a partir das suas práticas quotidianas  de controle social do espaço do bairro, as sociabilidades de vizinhança, a circulação  da informação, enfim, a produção e reprodução das distâncias e proximidades sociais  constitui um dos exemplos mais impressionantes de uma omissão, uma vez que tanto  nos arquivos da associação Promotora, como nos registos paroquiais ou na imprensa  republicana, as informações são muito masculinizadas. Este “silêncio feminino”  é muito bem problematizado pelo autor, concedendo-lhe toda uma discussão muito  aprofundada. Parece claro que as mulheres lisboetas “de raiz” desempenham um papel  fundamental no relacionamento e mistura de populações, mas de que modo? Como incorporar  esta “metade” da sociedade na história social de Lisboa, não ­apenas na história  dos bairros mas, sobretudo, na história do trabalho e das profissões&nbsp;? Que  temas, que metodologias, que tipo de fontes – históricas, etnográficas e outras  – se pode procurar para esta <i>démarche</i>?</p>    <p align="JUSTIFY">A relação  entre universos relacionais e mobilidades sociais é, sem dúvida, um dos temas  chave no estudo da transformação dos meios urbanos; neste caso, foi possível identificar  alguns elementos fundamentais – o <i>status</i> socioprofissional, os itinerários  individuais e sua combinação na interacção pessoal, a natureza do meio de acolhimento  (conclusões). Embora este seja o eixo­central da problematização desta investigação,  ela não fica por aqui. Metodologicamente, há que insistir no facto de o plano  ­microlocal das ruas, escolhido com o objectivo de operacionalizar uma delimitação  necessária à recolha das fontes, se ajustar a outros níveis mais amplos de estruturação  da sociedade. A selecção de uma ampla variedade de fontes permite um excelente  jogo de escalas na análise dos processos observados, respeitando sempre a complementaridade  entre as práticas e as representações. Por estas razões, o que aqui está em causa  não é simplesmente a singularidade de um bairro, ou suas ruas, numa cidade particular,  mas sim a exemplaridade de um conjunto de microprocessos sociais e culturais  que, historicamente, construíram Lisboa e, por extensão ou similaridade, outras  sociedades urbanas particulares.</p>    <p align="JUSTIFY">Com efeito, esta obra impõe-se,  desde já, como uma referência no seio dos estudos urbanos portugueses, nomeadamente  pela sua original e assumida abertura disciplinar, visível tanto na criteriosa  selecção bibliográfica como no percurso de pesquisa, integrando-se em linhas de  investigação recentes do campo da sociologia e da antropologia urbanas portuguesas,  orientadas por uma mesma preocupação em convocar vários campos disciplinares para  o aprofundamento da análise dos microprocessos e dinâmicas fundadoras das sociedades  urbanas.</p>    <p align="JUSTIFY">Esta é uma das razões que torna esta investigação  pioneira, em vários sentidos. <i>Les Habitants d’Alcântara</i> é o bom exemplo  de como a confluência de várias tradições disciplinares e nacionais pode enriquecer  exponencialmente a construção de um determinado objecto, através da incorporação  de diferentes olhares e perspectivas em torno de um problema – o que, neste caso,  foi levado a cabo de um modo extremamente inteligente, criativo e criterioso.  Com uma dupla inserção relativamente a tradições nacionais de estudo de bairros  – a historiográfica francesa e italiana dos anos 1970 e 1980 e a etnográfica portuguesa,  partilhada por várias ciências sociais, que nos anos 90 lançou as bases de <i>uma  reflexão e metodologia de investigação centrada no indivíduo </i>(para usar uma  expressão de Michel Agier, em “Les savoirs urbains de l’anthro­pologie”, <i>Enquête</i>,  4, 1996) – esta obra revela um modo de fazer história particularmente sedutor  e motivador de múltiplos diálogos interdisciplinares, uma vez que consegue conjugar  a sua vertente micro-analítica, com uma pluralidade de referências e uma assumida  intenção experimental visível no modo interactivo como as fontes são trabalhadas.</p>    <p align="JUSTIFY">Por  último, não se pode deixar de referir alguns pormenores de edição que tornam este  livro particularmente útil para futuros e actuais investigadores: a organização  temática da bibliografia e das fontes; os anexos, com as listagens de declarações  profissionais de pais e padrinhos, classificações profissionais de acordo com  categorias contemporâneas (1) e historiográficas (2) e, sobretudo, um glossário  bilingue (português e francês) de classificações profissionais.</p>    <p align="JUSTIFY">Seria  de saudar a publicação de uma versão em língua portuguesa desta excelente obra,  que restitua ao público português os conhecimentos alcançados.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="RIGHT"><b>Graça Índias Cordeiro</b></p>    <p align="RIGHT">Departamento  de Antropologia e CIES-ISCTE</p>      ]]></body>
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