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<institution><![CDATA[,UNL - Universidade Nova de Lisboa CMDT-LA - Centro de Malária e Doenças Tropicais Laboratório Associado ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p>Cláudia Castelo</p>      <p><b>Passagens para &Aacute;frica: o povoamento de Angola e Moçambique com naturais    da metrópole</b></p>      <p>Porto, Edições Afrontamento, 2007, 405 páginas.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p>O império exige colonizadores, pessoas, quer seja para conquistar, impor a ordem, evangelizar, administrar o território e populações locais, promover comércio ou indústria. Apesar da centralidade dos diversos actores colonizadores – militares, administradores, profissionais liberais, comerciantes, agricultores – a historiografia portuguesa não apresentava até à tese de doutoramento de Cláudia Castelo estudos aprofundados e críticos sobre a colonização branca das colónias africanas portuguesas. O livro <i>Passagens para África: O Povoamento de Angola e Moçambique com Naturais da Metrópole</i>, corolário da tese, tem como objecto a migração de naturais da metrópole para as colónias de Angola e Moçambique entre 1920 e 1970.</p>      <p>Após ter trabalhado sobre o impacte e a incorporação do luso-tropicalismo de Gilberto Freyre na ideologia colonial portuguesa (<i>“O Modo Português de Estar no Mundo”: O Luso-tropicalismo e a Ideologia Colonial Portuguesa (1933-1961)</i>, Porto, Edições Afrontamento, 1998), Cláudia Castelo enfrentou uma montanha de fontes primárias e publicações da época com ferramentas metodológicas da história, demografia, sociologia, antropologia e psicologia social para estudar os discursos coloniais de povoamento, os actores históricos e as representações destes sobre os territórios e populações coloniais.</p>      <p>As diferentes perspectivas sobre o processo de povoamento reflectem-se na segmentação do livro em três partes. Na primeira são analisados os modelos de povoamento branco, as políticas oficiais e concepções ideológicas subjacentes, e posteriormente a autora caracteriza demográfica e sociologicamente as populações que seguiram para estes territórios ultramarinos, revelando na terceira parte as representações dos colonos sobre eles próprios, a terra e os habitantes autóctones, pontuadas com episódios das condições de vida no terreno e do relacionamento com as populações locais. As duas correntes – colonização intensiva com populações da metrópole dirigida pelo Estado; colonização de capitais e quadros sem intervenção estatal – definiam o tipo de ocupação, papel do Estado, perfil dos colonos e relação destes com a população local. Ou seja, apresentavam abordagens diferentes ao projecto colonial, mas com a sobrevivência da Nação como base comum.</p>      <p>A persistência de discursos e políticas de emigração do último quartel do século XIX ao final do projecto colonial inferia a existência de problemas na concretização destas ideias.<b> </b>Angola e Moçambique, apesar de serem destinos preferenciais na emigração para as colónias, não eram, no entanto, o destino principal da emigração portuguesa. Numa caracterização macro, a autora trabalha uma miríade de dados para apresentar os perfis dos emigrantes, revelando sexo, idade, estado civil, escolaridade, aptidão profissional, distrito de origem na metrópole e de fixação na colónia, condições de viagem, e estabelece quais os momentos históricos de maior ou menor fluxo migratório. A autora revela ainda que, no que toca à colonização dirigida, o Estado promoveu o oposto de representações e políticas de povoamento, demonstrando que a colonização livre, isto é, sem intervenção do governo, foi o grande motor da emigração para as colónias.</p>      <p>Na terceira parte Cláudia Castelo ilustra as representações dos colonos sobre eles mesmos e o meio circundante, a metrópole, e ainda a centralidade destas representações para a construção da sua identidade. Patenteia a distância existente entre os colonos e a metrópole política. Mostra as condições de vida de colonos e africanos em ambas as colónias ao longo do tempo, contrapondo às representações coloniais casos específicos de terreno que revelam a complexidade da situação colonial e a fragmentação da experiência colonial.</p>      <p>Metodologicamente, ao integrar instrumentos de diversos campos do conhecimento,    história, demografia, sociologia e antropologia, a autora fornece uma lufada    de ar fresco aos estudos coloniais portugueses. A base sólida de fontes primárias    pesquisadas nos meandros dos arquivos portugueses, angolanos e moçambicanos,    o olhar crítico sobre os censos e a literatura da época, o entrelaçar de dados    quantitativos e qualitativos, as análises de representações e discursos e dos    diferentes níveis activos no objecto tornam o argumento deste trabalho mais    coerente e persuasivo. O corolário desta interdisciplinaridade é um livro que    avança uma imagem mais complexa sobre o povoamento das colónias de Angola e    Moçambique no Terceiro Império Português.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A autora poderia ter dado outros passos em frente, por exemplo prosseguido a linha de investigação da história oral, seguindo o exemplo de estudos originários da academia norte-americana – Nancy Hunt, <i>A Colonial Lexicon: Of Birth Ritual, Medicalization and Mobility in the Congo</i> (Durham, NC, Duke University Press, 1999); Luise White, <i>Speaking with Vampires: Rumor and History in Colonial Africa</i> (Berkeley, University of California Press, 2000); Jeremy Ball, <i>“The Colossal Lie”: The Sociedade Agrícola do Cassequel and Portuguese Colonial Labor Policy in Angola, 1899-1977</i> (tese de doutoramento, Los Angeles, University of California, 2003). Os testemunhos orais, ao invés dos arquivos, desaparecem diariamente, e apesar de divagações e visões de um passado dourado, outorgam informações-chave ausentes de censos, relatórios coloniais, bibliografia de época ou literatura de memórias coloniais. Este trabalho, em particular a parte iii, ganharia maior força analítica ao incluir elementos de história oral. Tal iluminaria de forma clara aspectos como as redes presentes no processo de emigração, as motivações para emigrar e a escolha do local de chegada, o papel da ideologia política do colono na ida para as colónias ou as representações africanas dos colonos, e outorgaria maior detalhe às situações de caracterização micro, como a vivência do dia-a-dia dos colonos e as suas dificuldades, as hierarquias e tensões entre colonizadores, o quotidiano e a capacidade de agenciamento dos africanos. O resultado seria um reforço da história crítica <i>vista de baixo</i>, enfatizando-se o hiato entre a experiência no terreno colonial e os discursos e representações coloniais, produzindo-se uma imagem mais complexa e sofisticada do projecto e da realidade coloniais.</p>      <p>Dito isto, este trabalho revela o processo de maturação que os estudos coloniais em Portugal tiveram nos últimos anos. Apresenta um olhar crítico e contextualizado dos discursos e políticas de povoamento, ilumina o hiato entre estes discursos e a prática dos planos de povoamento metropolitanos, integra a metrópole e as colónias num mesmo patamar de análise, mostra a força analítica ao descartar conceptualizações maniqueístas e homogeneizantes do contexto colonial e consegue uma harmonia salutar entre a extensão e a profundidade do estudo.</p>      <p>Quem trabalha sobre o Império defronta um dilema quando procura encontrar o ponto de equilíbrio entre os dois discursos dominantes, as representações hegemónicas do período colonial e as caracterizações anticoloniais, ambos com um lastro ainda aceso no presente. Cláudia Castelo atinge este equilíbrio, contribuindo de forma importante para uma imagem mais complexa do projecto colonial português.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="right"><b>Jorge Varanda</b></p>     <p align="right">CRIA, CMDT-LA</p>         ]]></body>
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